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Gênesis 18:26

✍️ Por Alberto Adriano·19 de agosto de 2026·⏱️ 40 min de leitura·👁 9 acessos
O SENHOR respondeu: “Se eu achar em Sodoma cinquenta justos dentro da cidade, perdoarei todo o lugar por causa deles.”
Estrada de terra descendo por uma encosta seca ao entardecer, com uma cidade murada ao fundo no vale.

Estudo


O SENHOR respondeu: “Se eu achar em Sodoma cinquenta justos dentro da cidade, perdoarei todo o lugar por causa deles.”

1. Introdução

A resposta vem sem discussão.

Não há defesa da decisão anunciada, não há explicação sobre justiça, não há reparo ao tom com que a pergunta foi feita. Há um sim.

E há um detalhe que passa despercebido em quase toda leitura: a concessão é maior do que o pedido. Uma palavrinha de três letras no hebraico amplia o alcance daquilo que Abraão havia solicitado.

Este é também o único lance do diálogo em que a resposta divina vem completa, com todos os termos repetidos. Das próximas vezes ela encolherá.

E é um dos dois únicos lugares, em onze versículos, em que o narrador escreve o nome próprio de Deus.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que o capítulo já dissera sobre a intenção da conversa

Antes de o diálogo começar, o narrador registrou uma deliberação divina em voz alta.

A pergunta era se Abraão devia ou não ser informado do que ia acontecer. E a razão dada para informá-lo é notável: porque dele viria uma nação grande, porque nele seriam abençoadas todas as nações da terra, e porque ele mandaria aos seus filhos e à sua casa que guardassem o caminho do SENHOR, fazendo justiça e juízo.

Essas duas palavras — justiça e juízo — são exatamente as que Abraão usará no versículo 25.

Isso abre uma possibilidade de leitura que vale registrar: a conversa inteira pode ter sido provocada de propósito, como aprendizado. É leitura, não afirmação do texto, e voltaremos a ela.

O Deus que desce para verificar

No versículo 21, a fala divina anunciara uma inspeção: descerei agora e verei se consumaram a obra segundo o clamor que veio até mim; e, se não, eu o saberei.

Esse modo de narrar não é isolado no Gênesis. Deus desce para ver a cidade e a torre que os homens edificavam. Pergunta a Adão onde ele está. Pergunta a Caim onde está o irmão, e depois diz que o sangue clama desde a terra.

É um Deus que se aproxima, pergunta e apura.

A questão que isso levanta para a teologia posterior é evidente, e será tratada no item 6.

O juiz que não sentencia sem examinar

Há um pano de fundo jurídico que ajuda a entender por que o texto insiste em "achar".

Nos códigos legais do antigo Oriente Próximo, e na própria legislação de Israel, a investigação prévia é obrigação do juiz. O Deuteronômio manda inquirir, investigar e perguntar bem antes de condenar uma cidade acusada de idolatria.

Um juiz que sentencia sem apurar comete falta de ofício.

A resposta deste versículo, portanto, se move dentro de um procedimento reconhecível: primeiro se verifica, depois se decide.

Perdoar um lugar

Convém lembrar que a cidade, naquele mundo, respondia como corpo.

Havia rituais coletivos de expiação, havia responsabilidade da comunidade por crimes ocorridos no seu território, havia castigo e bênção sobre povoados inteiros.

Dizer "perdoarei todo o lugar" não era, portanto, uma extravagância teológica. Era aplicar em favor do conjunto a mesma lógica que o mundo antigo aplicava contra ele.

Um nome que aparece duas vezes em onze versículos

Vale antecipar um dado de composição que só se percebe lendo o bloco inteiro.

Nos versículos 28, 29, 30, 31 e 32, as respostas divinas são introduzidas apenas por "e disse", sem sujeito nomeado.

O nome próprio de Deus, as quatro consoantes que as traduções vertem por SENHOR, aparece só duas vezes em todo o diálogo: aqui, na primeira resposta, e no versículo 33, quando ele vai embora.

O bloco fica emoldurado pelo nome.

3. Análise Teológica do Versículo

"O SENHOR respondeu"

Comece-se por uma observação de composição, porque ela organiza a leitura de todo o resto do diálogo.

O narrador escreve aqui o nome próprio de Deus — as quatro consoantes que as traduções portuguesas vertem por SENHOR em maiúsculas.

Nas respostas seguintes, isso não acontece. Nos versículos 28, 29, 30, 31 e 32, lê-se apenas "e disse", sem sujeito expresso. Quem responde só se sabe pelo contexto.

O nome volta uma única vez, no versículo 33, quando ele se retira.

Ou seja: o nome abre e fecha o bloco, e some no meio.

Convém não exagerar o dado. O hebraico dispensa com facilidade o sujeito quando ele já está claro, e a economia é normal em diálogos. Não é possível afirmar que a ausência signifique alguma coisa.

Mas o efeito de leitura existe e vale registrá-lo: quanto mais o regateio avança, mais as respostas ficam curtas e anônimas — até que, no fim, o nome reaparece exatamente para dizer que ele foi embora.

Registro como observação sobre a forma do texto, e não como tese.

"Se eu achar em Sodoma"

Três coisas nesta frase, e cada uma tem peso.

A primeira: a resposta é condicional.

Não se diz "pouparei". Diz-se "se eu achar". Tudo depende de um fato ainda não verificado.

Isso é ao mesmo tempo a generosidade e o limite da concessão. Abraão obtém o compromisso e não obtém nenhuma garantia, porque o compromisso está preso a uma condição sobre a qual ele não tem informação nenhuma.

Ele saiu da conversa com uma promessa perfeita e um resultado desconhecido. Voltaremos a isso no versículo 33.

A segunda: o verbo é "achar".

O hebraico usa a raiz que significa encontrar, dar com alguma coisa, obter no achado.

Achar pressupõe procurar. E procurar pressupõe não saber de antemão.

Isso é coerente com o que fora anunciado cinco versículos antes: descerei agora e verei; e, se não, eu o saberei. O texto descreve uma inspeção.

A dificuldade teológica é evidente e será tratada no item 6. Aqui basta registrar como o texto fala: ele fala de um Deus que desce, procura e conclui a partir do que encontra.

E vale notar que o mesmo verbo, com a mesma estrutura, atravessa o diálogo inteiro. As respostas dos versículos 28 e 30 repetem "se achar ali". No versículo 29 e no 32, Abraão pergunta se "se acharão" tantos. É o vocabulário da busca, do começo ao fim.

A Bíblia depois usará esse mesmo verbo em dois textos que conversam diretamente com esta cena. Jeremias recebe a ordem de procurar nas ruas de Jerusalém "para ver se achais" um homem justo. E Ezequiel registra a frase mais dura de todas: busquei um homem que se pusesse na brecha, e a ninguém achei.

A terceira: a cidade é nomeada.

Abraão falara em "a cidade", sem nome. A resposta diz "em Sodoma".

É pequeno e não é nada. Quem responde especifica o caso, tirando-o do plano geral em que o pedido fora formulado.

E convém observar que Gomorra, mencionada no versículo 20 junto com Sodoma, desaparece do diálogo. Ninguém mais fala dela até o capítulo seguinte, quando será destruída. O acordo, tal como formulado, trata de uma cidade só.

"cinquenta justos dentro da cidade"

Aqui a resposta faz uma coisa que merece ser vista com clareza: repete as palavras de quem pediu.

O número é o de Abraão. O termo "justos" é o de Abraão. A expressão "dentro da cidade" é, literalmente, a mesma que ele empregara no versículo 24.

Nada é reformulado, nada é corrigido, nada é substituído por um vocabulário melhor.

Vale medir o que isso significa numa negociação. Quem responde adotando os termos do outro está concedendo o terreno inteiro, e não apenas o ponto. A discussão passa a correr dentro da moldura que a outra parte construiu.

É exatamente por isso que os cinco lances seguintes são possíveis. Se a resposta tivesse dito "pouparei se houver uma quantidade suficiente", sem número, não haveria de que descer. Ao aceitar cinquenta, aceitou-se implicitamente que existe um número — e, existindo um número, é legítimo perguntar qual.

Registro como leitura da estrutura da cena, e como leitura bem apoiada: a porta por onde passará todo o regateio foi aberta aqui.

"perdoarei todo o lugar"

Este é o ponto do versículo que a tradução preserva mal e que quase nenhum comentário menciona.

Compare-se palavra por palavra com o pedido.

Abraão dissera, no versículo 24: "não perdoarás ao lugar?"

A resposta diz: "perdoarei a todo o lugar."

No hebraico, entrou uma palavra que não estava no pedido: kol, todo, a totalidade.

Ou seja: a concessão é mais ampla do que a solicitação.

Não é retórica de comentarista. É comparação de duas frases que estão a dois versículos de distância, e qualquer leitor pode conferir.

Convém pesar o alcance disso com cuidado, porque é fácil transformá-lo em sermão.

O que se pode afirmar: o texto registra que a resposta usou um termo de totalidade ausente do pedido.

O que é leitura, e apresento como minha: numa negociação comum, quem responde tende a conceder menos do que se pediu, deixando margem. Aqui acontece o contrário, e o contrário é notável justamente porque a cena inteira tem forma de barganha. É o único movimento do diálogo em que uma das partes dá mais do que lhe foi solicitado.

O que não se pode afirmar: que isso prove uma disposição prévia de poupar. O texto não diz nada sobre a intenção, e construir uma doutrina sobre uma palavra de três letras seria exagero.

O verbo, agora na primeira pessoa

A palavra traduzida por "perdoarei" é a mesma que Abraão empregara, e cujo sentido básico é levantar e carregar um peso.

A novidade aqui é a pessoa do verbo.

No versículo 24, a frase era uma acusação em segunda pessoa: não carregarás? Aqui é um compromisso em primeira pessoa: eu carregarei.

A diferença não é gramatical apenas. Uma coisa é perguntar se alguém suportará o peso; outra é ouvir a pessoa dizer que suportará.

Convém marcar o limite antes que a leitura se solte. O Gênesis não desenvolve o tema, não explica em que consistiria carregar a culpa de uma cidade, e não há aqui doutrina da expiação. O que existe é a metáfora da língua, e ela diz o que diz: assumir o peso em vez de deixá-lo cair.

"por causa deles"

A resposta usa uma preposição diferente da que Abraão usara.

Ele dissera lema'an, que exprime motivo e finalidade: em favor de, por amor de. A resposta diz ba'avur, que exprime causa: por conta de, em razão de.

As duas são próximas e as traduções as vertem igual. A alternância, porém, é sistemática no capítulo: Abraão usa a primeira, as respostas divinas usam a segunda, nos versículos 26, 29, 31 e 32.

Registro o dado sem forçar significado. É provável que se trate apenas de preferência estilística, e quem extrair daí uma diferença teológica estará construindo sobre areia. O que vale a pena é notar que o texto é consistente na alternância — e a consistência, num diálogo curto, costuma ser sinal de composição cuidadosa.

O que a resposta não faz

Chegamos ao mais interessante deste versículo, que é feito de ausências.

Não há defesa. A decisão anunciada no versículo 21 não é justificada, não é explicada, não é apresentada como necessária. Ninguém diz que Sodoma merecia, nem descreve os crimes.

Não há discussão do princípio. A pergunta do versículo 25 — o Juiz de toda a terra não fará juízo? — não recebe tratamento. Não se diz "sim, farei", nem "essa não é a questão".

Não há reparo ao tom. A fórmula com que Abraão disse duas vezes que aquilo seria indigno não é comentada.

Não há promessa de resultado. Ninguém diz que os cinquenta existem, nem que serão encontrados.

E não há nada sobre os justos. A resposta não diz que eles serão poupados, retirados, protegidos ou recompensados. Diz que o lugar será perdoado por causa deles.

Essa última ausência é a mais notável, e ela reaparecerá com força no capítulo 19, quando a solução dada pela narrativa for exatamente a que não foi discutida aqui: retirar uns poucos e destruir o resto.

Por que a resposta vem sem discussão?

Vale enfrentar a pergunta, expondo as leituras disponíveis e o custo de cada uma.

Primeira leitura: a conversa toda foi provocada como aprendizado.

Tem apoio direto no texto, e é o argumento mais forte. O versículo 19 dá a razão pela qual Abraão foi informado: porque ele mandaria à sua casa que guardasse o caminho do SENHOR, fazendo justiça e juízo. São as duas palavras que Abraão usará no versículo 25.

Nessa leitura, a informação foi dada de propósito para produzir a objeção, e a concessão imediata é a confirmação de que a objeção estava certa.

A favor: explica a facilidade da concessão, explica por que Abraão foi informado, e liga o versículo 19 ao versículo 25 por vocabulário compartilhado.

Contra: torna o diálogo uma encenação pedagógica, o que esvazia a tensão dramática da cena — e o texto não a apresenta como encenação.

Segunda leitura: a concessão é resposta real a um pedido real.

A favor: é o modo como a narrativa se apresenta, e é coerente com outros episódios em que a intercessão altera o curso das coisas — o texto chega a dizer, depois do bezerro de ouro, que o SENHOR se arrependeu do mal que dissera que faria, e o mesmo se lê duas vezes nas visões de Amós.

Contra: levanta a questão de como uma decisão divina pode ser alterada por argumento humano, e a tradição teológica majoritária resiste a isso.

Terceira leitura: não havia decisão fechada a ser alterada.

O versículo 21 anuncia uma verificação, não uma sentença. Nesse caso, o pedido de Abraão não muda nada: apenas antecipa um critério que seria aplicado de qualquer modo.

A favor: é a leitura mais econômica, e a que menos problemas teológicos gera.

Contra: esvazia a cena. Se nada estava decidido e nada mudou, os onze versículos de regateio são conversa sem consequência — e o texto claramente os apresenta como algo em jogo.

Não é possível decidir entre as três. Registro que a primeira tem o melhor apoio textual, e que ela é também a que a pregação corrente menos usa, porque exige admitir que Deus provocou a discussão.

Cinquenta é pouco

Um último ponto, que se costuma perder porque o número parece alto.

Cinquenta pessoas numa cidade murada não são a maioria de coisa nenhuma. Pelas estimativas correntes sobre povoações daquele tipo e daquele tempo, seriam uma fração pequena da população — e o texto, aliás, não fornece número de habitantes, de modo que qualquer cálculo aqui é aproximação.

O que a resposta estabelece, portanto, é um princípio de desproporção: uma minoria pequena basta para segurar o destino do conjunto.

E é justamente essa desproporção que Abraão explorará dali em diante. Se cinquenta bastam, e cinquenta são poucos, quantos bastariam?

A pergunta seguinte já está contida nesta resposta. Quem a deu sabia disso — ou, ao menos, quem a escreveu sabia.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O SENHOR — o nome próprio de quatro consoantes aparece aqui e no versículo 33; nas outras cinco respostas do diálogo o narrador escreve apenas "e disse", sem sujeito.

Sodoma — nomeada pela resposta, enquanto o pedido de Abraão falara apenas em "a cidade".

Gomorra — mencionada no versículo 20 e ausente de todo o diálogo; o acordo, tal como formulado, trata de uma cidade só.

Matsa (achar) — o verbo da condição; pressupõe procura, e liga a resposta ao anúncio de inspeção do versículo 21.

A descida do versículo 21 — "descerei agora, e verei"; o mesmo modo de narrar aparece na torre de Babel, na pergunta a Adão e na pergunta a Caim.

Kol (todo) — a palavra acrescentada na resposta e ausente do pedido: Abraão dissera "ao lugar", e a resposta diz "a todo o lugar".

Nasa na primeira pessoa — o mesmo verbo de carregar peso do versículo 24, agora como compromisso de quem responde, e não como acusação de quem pergunta.

Ba'avur (por causa de) — a preposição das respostas divinas nos versículos 26, 29, 31 e 32, distinta do lema'an que Abraão emprega.

Gênesis 18:19 — a razão dada para informar Abraão: que ele ensinasse a sua casa a fazer "justiça e juízo", as duas palavras que ele usará no versículo 25.

Jeremias 5:1 — o mesmo verbo "achar" na busca por um homem justo em Jerusalém.

Ezequiel 22:30 — a busca que termina sem achado: "porém a ninguém achei".

O bezerro de ouro — em Êxodo 32:14, o texto diz que o SENHOR se arrependeu do mal que dissera que faria; precedente de intercessão que altera o curso anunciado.

As visões de Amós — em Amós 7:3 e 7:6, o pedido do profeta é atendido duas vezes com a mesma fórmula.

5. Pontos de Ensino

A resposta é imediata e sem discussão. Não há defesa da decisão, explicação do princípio nem reparo ao tom da pergunta.

O nome próprio de Deus aparece aqui e no versículo 33. Nas outras cinco respostas o texto traz apenas "e disse".

A resposta é condicional. Depende de um fato ainda não verificado, e Abraão sai com um compromisso e nenhuma garantia.

O verbo é "achar". Achar pressupõe procurar, e procurar pressupõe não saber de antemão.

Quem responde adota as palavras de quem pediu. Mesmo número, mesmo termo, mesma expressão "dentro da cidade".

Aceitar um número abre a porta para todos os outros. Se cinquenta bastam, é legítimo perguntar quantos bastariam.

A concessão é maior do que o pedido. Abraão dissera "ao lugar"; a resposta diz "a todo o lugar".

O verbo de perdoar muda de pessoa. Era acusação em segunda pessoa; passa a compromisso em primeira.

Nada é dito sobre os justos. Não se promete poupá-los, retirá-los ou recompensá-los; promete-se perdoar o lugar por causa deles.

Gomorra some do diálogo. Aparecera no versículo 20 e só volta no capítulo 19, quando é destruída.

Cinquenta é pouco para uma cidade. A resposta estabelece um princípio de desproporção, e é ele que Abraão explorará.

O versículo 19 dá margem a ler a conversa como aprendizado provocado. As palavras "justiça e juízo" estão lá, e reaparecem na boca de Abraão.

6. Aspectos Filosóficos

Um Deus que precisa procurar

Vale enfrentar de frente o que o texto diz, sem apressar a explicação.

No versículo 21, anuncia-se uma descida para verificar. Aqui, a promessa depende de achar. No capítulo seguinte, dois mensageiros entram na cidade e são recebidos, e o que acontece com eles funciona como a apuração anunciada.

O modo de narrar é consistente: alguém vem, examina e conclui.

Isso cria uma dificuldade para quem sustenta que Deus conhece tudo de antemão, e a dificuldade é real, não inventada.

As saídas propostas são três, e convém apresentá-las com os seus custos.

A primeira diz que se trata de linguagem adaptada ao entendimento humano. O narrador descreve Deus em termos de gente porque não há outro jeito de contar uma história. A favor: é como o Gênesis fala o tempo todo, com Deus que planta, caminha, fecha a porta da arca, cheira o aroma do sacrifício. Contra: o argumento pode ser usado para dissolver qualquer coisa incômoda, e quem o aplica sem critério acaba lendo o que quer.

A segunda diz que a descida é procedimento judicial, e não busca de informação. O juiz que examina antes de sentenciar não está descobrindo: está cumprindo o rito que legitima a sentença. A favor: encaixa perfeitamente no vocabulário forense do capítulo, e a legislação de Israel de fato exige inquirição antes de condenar uma cidade. Contra: o versículo 21 termina com "e, se não, eu o saberei", que é frase difícil de explicar como pura formalidade.

A terceira aceita o texto pelo que ele diz e conclui que o Deus do Gênesis é narrado como um personagem que apura, reage e às vezes muda de rumo. A favor: é a leitura mais fiel à letra. Contra: choca-se com afirmações de outros livros bíblicos e com a teologia posterior, e obriga a decidir qual conjunto de textos governa o outro.

Não é possível decidir. Registro apenas o que me parece o mínimo honesto: o texto narra uma verificação, e qualquer leitura que negue isso está corrigindo o texto, e não o interpretando.

Conceder mais do que foi pedido

A palavra acrescentada na resposta merece uma reflexão própria, porque ela desmonta a leitura da cena como pura barganha.

Numa barganha, quem responde dá menos do que se pediu, e guarda a diferença para os lances seguintes. É o comportamento previsível, e é o que qualquer feirante faz.

Aqui, quem responde dá mais.

Isso muda a natureza do que está acontecendo, ou ao menos a complica. Continua havendo formato de regateio — números, lances, concessões sucessivas —, mas o primeiro movimento da parte que tem todo o poder é ampliar o que a outra pediu.

Convém não converter isso em sentimentalismo. Não se diz que os cinquenta existem, não se promete resultado, e o desfecho será a destruição da cidade.

Registro como leitura, e como leitura modesta: o texto instala, logo na primeira resposta, um desequilíbrio entre a forma da cena e o comportamento de quem responde. A forma é de mercado; o comportamento não é.

O que se ganha ao adotar as palavras do outro

Há uma lição sobre argumentação escondida na estrutura da resposta, e ela vale além do episódio.

Quem responde não reformula nada. Não corrige o número, não substitui o vocabulário, não redefine o problema. Repete os termos de quem pediu.

Em qualquer discussão, isso é uma concessão enorme — e é também o que torna o resto possível.

Vale observar a consequência lógica com clareza. Ao aceitar que cinquenta justos bastam, aceitou-se que existe um número mínimo. E, aceito que existe um número, a pergunta "qual?" não é impertinência: é a continuação natural da conversa.

Abraão não precisou de nenhuma nova permissão para descer a quarenta e cinco. A permissão foi dada aqui, sem que ninguém a formulasse.

Registro como observação sobre a mecânica da cena. O texto não a comenta.

O que significa perdoar um lugar

Há uma estranheza no objeto do perdão que merece ser pensada em vez de contornada.

Perdoa-se, normalmente, uma pessoa. Aqui se perdoa um lugar.

Isso só faz sentido dentro de uma concepção em que a cidade é um sujeito — com anciãos, com porta onde se julga, com responsabilidade e destino próprios.

Vale medir a distância entre essa concepção e a nossa. Para nós, uma cidade é a soma dos seus habitantes; para aquele mundo, era uma entidade que os habitantes integravam. As duas maneiras de ver produzem éticas diferentes.

E vale registrar que a nossa concepção não é obviamente superior. Boa parte do que chamamos hoje de responsabilidade institucional — de uma empresa, de um Estado, de uma corporação profissional — funciona exatamente pela lógica antiga: o corpo responde, e responde mesmo quando os indivíduos que o compõem mudaram.

Registro a comparação como analogia, e não como equivalência.

A conversa pode ter sido armada

Fecho com a leitura que o próprio capítulo autoriza e que a pregação corrente costuma evitar.

Nos versículos 17 a 19, o narrador registra a deliberação sobre informar ou não Abraão, e dá a razão: porque ele ensinaria à sua casa a guardar o caminho do SENHOR, fazendo justiça e juízo.

São as duas palavras que Abraão usará como argumento no versículo 25.

Se a ligação for intencional — e o vocabulário compartilhado é indício forte —, a informação foi dada de propósito, para que a objeção fosse feita. E a concessão imediata deste versículo é a confirmação de que a objeção era o comportamento esperado.

Nessa leitura, o que parece um homem arrancando concessões é, na verdade, um homem sendo levado a formular um princípio.

Vale dizer por que a pregação evita isso. A cena perde em heroísmo o que ganha em coerência: Abraão deixa de ser o negociador ousado e passa a ser o aluno de uma aula bem montada.

Registro que é leitura, e que ela não é demonstrável. O texto não diz que a conversa foi provocada. Diz apenas por que Abraão foi informado, e usa palavras que ele depois repetirá.

7. Aplicações Práticas

Responder sem se defender

A resposta não justifica a decisão anunciada, não descreve os crimes de Sodoma, não explica por que a destruição seria devida. Também não repreende o tom com que a pergunta foi feita, e o tom fora duro.

Vai direto ao mérito: se houver cinquenta, perdoo.

Vale para quem é cobrado com razão. A reação automática, diante de uma objeção bem colocada, é explicar-se — e explicar-se, quase sempre, é começar a negociar a própria culpa em vez de tratar do problema. Responder ao mérito, sem preâmbulo defensivo e sem comentar a forma como o outro falou, é raro e desarma mais do que qualquer justificativa.

Aceitar os termos de quem pede é dar mais do que parece

Quem responde não reformula nada: repete o número, o termo e a expressão exata que Abraão usara. E, ao aceitar que cinquenta bastam, admite que existe um número mínimo — o que torna legítima, dali em diante, a pergunta sobre qual seria.

A porta dos cinco lances seguintes foi aberta aqui, sem que ninguém a pedisse.

Repare nisso quando você concordar com alguém. Aceitar a moldura de uma proposta é diferente de aceitar a proposta, e costuma ter consequências maiores. Quem admite que um assunto se decide por certo critério já perdeu ou ganhou a discussão inteira, mesmo que o caso concreto ainda esteja em aberto.

Dar mais do que foi pedido

Abraão pedira perdão "ao lugar". A resposta concede perdão "a todo o lugar". A palavra que indica totalidade não estava no pedido.

Num regateio comum, quem responde dá menos e guarda margem. Aqui acontece o contrário, e a cena tem forma de regateio.

Convém não tirar disso uma regra de conduta ingênua — conceder além do pedido nem sempre é virtude, e às vezes é imprudência ou vaidade. O que vale reter é mais fino: em quase toda negociação, as duas partes calculam a margem, e o gesto de não calcular é tão incomum que muda a natureza da conversa. Quem já recebeu algo assim de alguém sabe que a lembrança dura mais do que a coisa recebida.

Compromisso não é garantia

A resposta é condicional: se eu achar. Abraão sai da conversa com uma promessa perfeita e nenhuma certeza, porque tudo depende de um fato que ele não tem como verificar.

Ele obteve o critério e continua sem saber o resultado.

Vale distinguir essas duas coisas nas suas expectativas. Conseguir que alguém se comprometa com uma regra justa é uma vitória real e não resolve o seu caso — a regra ainda vai ser aplicada a fatos que você não controla. Confundir o critério aceito com o resultado obtido é a origem de boa parte das decepções que se seguem a conversas bem-sucedidas.

A minoria que segura o conjunto

Cinquenta pessoas numa cidade murada daquele porte não seriam a maioria de nada. O que a resposta estabelece é uma desproporção: um número pequeno basta para mudar o destino do todo.

E é justamente a desproporção que abre o caminho para os lances seguintes — se cinquenta bastam e cinquenta são poucos, quantos bastariam?

Repare no que isso corrige na intuição comum. Costumamos avaliar a presença de gente decente num ambiente por proporção: se são poucos, não adianta. A lógica deste versículo é outra, e vale considerá-la mesmo sem aceitá-la como doutrina: o efeito de uma minoria pode não guardar relação nenhuma com o seu tamanho.

Perdoar é diferente de esquecer o que houve

O verbo empregado significa levantar e carregar, e aqui aparece na primeira pessoa: eu carregarei. Não se diz que Sodoma passa a ser outra coisa, nem que o clamor era falso, nem que os crimes não ocorreram.

O que se promete é assumir o peso.

Isso descreve com precisão o que acontece quando alguém perdoa de verdade e continua convivendo com quem foi perdoado. A ofensa não desaparece da memória e o prejuízo não se anula; passa a ser suportado por quem perdoou. Quem espera do perdão a sensação de que nada aconteceu vai concluir que nunca perdoou ninguém — quando o que faltou foi entender o que a palavra significa.

Quem é cobrado nem sempre reage mal

A pergunta do versículo anterior fora feita com a fórmula que se usa para repelir uma proposta indigna, dita duas vezes. A resposta não a menciona.

Não há "não fale assim comigo", não há silêncio ofendido, não há retirada.

Vale como advertência contra a suposição, muito comum, de que uma cobrança direta será necessariamente recebida como agressão. Boa parte das conversas necessárias nunca acontece porque quem deveria começá-las já decidiu, sozinho, como o outro reagiria. Às vezes o outro reage mal, sim. Mas a previsão costuma ser feita sem teste, e é a previsão que decide, não o fato.

Ser preparado para chegar a uma conclusão sozinho

O capítulo registra, antes do diálogo, a razão pela qual Abraão foi informado: porque ensinaria a sua casa a fazer justiça e juízo — as mesmas duas palavras que ele usará como argumento.

Se a ligação for proposital, a objeção que ele faz é aquilo que se esperava dele, e a concessão imediata confirma que era isso mesmo. Registro que é leitura, e que não é demonstrável.

Ainda assim, o formato é reconhecível e vale imitar. Ensinar dando a informação e deixando a pessoa chegar à conclusão é bem mais trabalhoso do que enunciar a conclusão, e é a única forma que costuma pegar. Quem recebe a resposta pronta guarda a resposta; quem a formula guarda o método.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a resposta vem tão rápido, sem nenhuma discussão?

O texto não explica, e há três leituras possíveis. A primeira é que a conversa tenha sido provocada como aprendizado — o versículo 19 diz que Abraão foi informado porque ensinaria a sua casa a fazer "justiça e juízo", e essas são exatamente as palavras que ele usa no versículo 25. A segunda é que a concessão seja resposta real a um pedido real, como nos episódios em que a intercessão altera o anunciado. A terceira é que não houvesse decisão fechada a alterar, já que o versículo 21 anuncia uma verificação, e não uma sentença. Não é possível decidir; a primeira tem o melhor apoio no vocabulário do próprio capítulo.

Deus não sabia se havia justos em Sodoma?

É o que o modo de narrar sugere: fala-se em descer, ver, achar e saber. As explicações propostas são conhecidas. Uma trata disso como linguagem adaptada ao entendimento humano, do mesmo tipo do Deus que caminha no jardim e fecha a porta da arca. Outra vê aí procedimento judicial: o juiz que examina antes de sentenciar cumpre um rito que legitima a decisão, e a legislação de Israel de fato exige inquirição antes de condenar uma cidade. Uma terceira aceita a letra e conclui que o Gênesis narra um Deus que apura. Cada uma cobra um preço, e não é possível decidir. O mínimo honesto é reconhecer que o texto narra uma verificação.

O que muda por a resposta ser condicional?

Muda tudo, do ponto de vista de quem pediu. Abraão obtém um critério e não obtém garantia nenhuma, porque a promessa está presa a um fato que ele não pode verificar. É por isso que, ao fim do diálogo, ele voltará para casa sem saber o resultado — e o texto não registra que ele tenha voltado a perguntar.

Por que a resposta repete as palavras de Abraão?

Porque conceder o vocabulário é conceder o terreno. O número, o termo "justos" e a expressão "dentro da cidade" são todos dele. Quem responde não reformula nada, e ao aceitar que cinquenta bastam admite que existe um número mínimo. Existindo um número, perguntar qual é a continuação natural da conversa — e é isso que autoriza os cinco lances seguintes.

É verdade que a resposta concede mais do que o pedido?

É, e qualquer leitor pode conferir. No versículo 24 Abraão pergunta se Deus não perdoará "ao lugar". Aqui a resposta diz "a todo o lugar". No hebraico, entrou a palavra que indica totalidade, ausente do pedido. Numa negociação comum, quem responde dá menos e guarda margem; aqui se dá mais. O que se pode afirmar é o dado; construir doutrina sobre uma palavra de três letras seria exagero.

Por que Gomorra não aparece?

O versículo 20 nomeara as duas cidades, e o diálogo trata apenas de Sodoma — Abraão fala em "a cidade", e a resposta nomeia Sodoma. Gomorra só reaparece no capítulo 19, quando é destruída junto. O acordo, tal como formulado, cobre uma cidade só. O texto não comenta a diferença.

O que exatamente significa "perdoarei"?

O verbo tem por sentido básico levantar e carregar, e aqui está na primeira pessoa. A diferença em relação ao versículo 24 não é apenas gramatical: lá era uma acusação — não carregarás? —, aqui é um compromisso — eu carregarei. Convém marcar o limite: o Gênesis não explica em que consistiria carregar a culpa de uma cidade, e não há aqui doutrina da expiação.

A resposta promete alguma coisa aos justos?

Não, e essa é a ausência mais notável do versículo. Não se diz que serão poupados, retirados, protegidos ou recompensados. Diz-se que o lugar será perdoado por causa deles. A função que lhes cabe, nesta proposta, é a de servirem de razão para que os outros escapem. E o capítulo 19 fará justamente o contrário: retirará uns poucos e destruirá o resto.

Cinquenta justos era muito ou pouco?

Pouco, ainda que o número pareça alto. Cidades muradas daquele tipo e daquele período eram povoações de poucos hectares, e cinquenta adultos representariam uma fração da população — registrando que o texto não fornece números e que qualquer cálculo é aproximação. O que a resposta estabelece é uma desproporção: uma minoria pequena basta. E é a desproporção que Abraão vai explorar.

Por que o nome de Deus aparece aqui e não nas outras respostas?

Nos versículos 28 a 32 lê-se apenas "e disse", sem sujeito expresso; o nome próprio volta no versículo 33, quando ele se retira. O bloco fica emoldurado pelo nome. Convém não exagerar: o hebraico dispensa o sujeito com facilidade quando ele já está claro, e a economia é normal em diálogos. O efeito de leitura existe, mas não é possível afirmar que a ausência tenha sido intencional.

Existem outros casos em que um pedido humano muda o que Deus anunciara?

Existem, e são explícitos. Depois do bezerro de ouro, o texto diz que o SENHOR se arrependeu do mal que dissera que faria ao seu povo, após a argumentação de Moisés. Nas visões de Amós, o profeta pede duas vezes que pare, e as duas vezes o texto registra que o SENHOR se arrependeu. Em Jonas, a cidade se converte e a destruição anunciada não vem. A questão de como conciliar isso com afirmações de que Deus não se arrepende é antiga e permanece em disputa.

Este versículo é o ponto alto do capítulo?

É o ponto de virada, e não o ponto alto. A afirmação teológica mais forte está no versículo 25, com a pergunta sobre o Juiz de toda a terra. O que este versículo faz é converter aquela pergunta em regra prática e abrir, com isso, o espaço para tudo o que vem depois. Sem esta resposta, não haveria negociação nenhuma.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 18:19Porque eu o conheci, sei que mandará a seus filhos e a sua casa depois de si, que guardem o caminho do SENHOR, fazendo justiça e juízo, para que faça vir o SENHOR sobre Abraão o que falou acerca dele.

A razão dada para informar Abraão, com as duas palavras que ele usará como argumento no versículo 25.

Gênesis 18:21Descerei agora, e verei se consumaram sua obra segundo o clamor que veio até mim; e se não, eu o saberei.

O anúncio da inspeção, que é o que torna a condição "se eu achar" coerente com o resto do capítulo.

Gênesis 11:5E desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre que edificavam os filhos dos homens.

O mesmo modo de narrar, sete capítulos antes, e também a respeito de uma cidade.

Gênesis 4:10E ele lhe disse: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra.

O padrão do Gênesis: pergunta-se, apura-se e só então se sentencia.

Jeremias 5:1Correi pelas ruas de Jerusalém, e olhai agora, e informai-vos, e buscai em suas praças, para ver se achais algum homem, se há alguém que faça juízo, que busque a verdade; e eu a perdoarei.

O mesmo verbo "achar" e a mesma promessa de perdão à cidade, com o número reduzido a um.

Ezequiel 22:30E busquei dentre eles um homem que tapasse o muro, e que se pusesse na brecha diante de mim pela terra, para que eu não a destruísse; porém a ninguém achei.

A busca que termina sem achado, e o desfecho que este versículo deixa em aberto.

Êxodo 32:14Então o SENHOR se arrependeu do mal que disse que havia de fazer a seu povo.

O precedente mais direto de uma intercessão que altera o que fora anunciado.

Amós 7:3Então o SENHOR se arrependeu disso: Isto não acontecerá, disse o SENHOR.

A mesma coisa duas vezes seguidas, diante das visões de destruição.

Jonas 3:10E Deus viu a atitude deles, que se converteram de seu mau caminho; então Deus se arrependeu do mal que tinha dito que lhes faria, e não o fez.

Uma cidade estrangeira poupada, e o único caso bíblico em que a destruição anunciada é efetivamente cancelada.

Ezequiel 33:11Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do perverso, mas sim em que o perverso se converta de seu caminho, e viva. Convertei-vos! Convertei-vos de vossos caminhos; por que razão morrereis, ó casa de Israel?

A declaração de disposição que, se aplicada aqui, explicaria a rapidez da concessão.

Salmos 130:3Se tu, SENHOR, considerares todas as perversidades, quem resistirá, Senhor?

A outra face da mesma questão: se o critério fosse estrito, ninguém passaria.

Deuteronômio 10:18Que faz justiça ao órfão e à viúva; que ama também ao estrangeiro dando-lhe pão e roupa.

Os deveres do juiz descritos como prática divina, e a extensão deles ao estrangeiro.

Gênesis 19:29Assim foi que, quando destruiu Deus as cidades da planície, lembrou-se Deus de Abraão, e enviou fora a Ló do meio da destruição, ao assolar as cidades onde Ló estava.

O desfecho, que não cumpre o acordo deste versículo e ainda assim conserva um vínculo com ele.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

O SENHOR respondeu: “Se eu achar em Sodoma cinquenta justos dentro da cidade, perdoarei todo o lugar por causa deles.”

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר יְהוָה אִם־אֶמְצָא בִסְדֹם חֲמִשִּׁים צַדִּיקִם בְּתוֹךְ הָעִיר וְנָשָׂאתִי לְכָל־הַמָּקוֹם בַּעֲבוּרָם

Transliteração

vayyomer YHWH im-emtsa vi-Sdom chamishim tsaddiqim betokh ha'ir venasati lekhol-hammaqom ba'avuram

Palavra por palavra

וַיֹּאמֶר יְהוָה (vayyomer YHWH) — "e disse o SENHOR"

Verbo dizer com o nome próprio de Deus como sujeito expresso.

As quatro consoantes do nome não eram pronunciadas na leitura pública; lia-se em seu lugar a palavra que significa "meu Senhor", prática que está na origem da grafia SENHOR em maiúsculas nas traduções portuguesas.

O dado de composição a reter: nas respostas dos versículos 28, 29, 30, 31 e 32, o sujeito não é expresso — lê-se apenas "e disse". O nome volta no versículo 33.

Convém não exagerar. O hebraico dispensa o sujeito com naturalidade quando ele já está estabelecido, e o fenômeno é comum em diálogos. O efeito de emolduramento existe; a intenção não é demonstrável.

אִם־אֶמְצָא (im-emtsa) — "se eu achar"

A partícula condicional seguida do verbo matsa na primeira pessoa do imperfeito.

Matsa significa encontrar, dar com, obter. O seu uso pressupõe procura e desconhecimento prévio do resultado.

A mesma raiz percorre todo o diálogo: nas respostas dos versículos 28 e 30 ("se achar ali"), e nas perguntas dos versículos 29, 30, 31 e 32 ("talvez se achem ali").

Ela reaparece nos dois textos proféticos que dialogam com esta cena: a ordem a Jeremias de procurar em Jerusalém "para ver se achais" um homem justo, e a constatação de Ezequiel de que buscou alguém para se pôr na brecha e "a ninguém achei".

בִסְדֹם (vi-Sdom) — "em Sodoma"

A preposição de lugar com o nome da cidade.

Note-se a especificação. Abraão falara em "a cidade", sem nomear; a resposta nomeia. E note-se a ausência: Gomorra, citada no versículo 20, não entra no acordo.

A etimologia do nome Sodoma é discutida e não há explicação aceita de modo geral. Registro que as propostas correntes são conjeturais.

חֲמִשִּׁים צַדִּיקִם בְּתוֹךְ הָעִיר (chamishim tsaddiqim betokh ha'ir) — "cinquenta justos no meio da cidade"

Repetição literal, palavra por palavra, da formulação de Abraão no versículo 24.

Este é um dado importante e verificável: quem responde não reformula nada. Mantém o número, o substantivo e a locução de lugar.

A consequência lógica organiza o resto do capítulo. Ao aceitar que cinquenta bastam, aceita-se que existe um número mínimo; existindo um número, perguntar qual é continuação legítima da conversa.

וְנָשָׂאתִי (venasati) — "e eu carregarei"

A raiz nasa, tratada em detalhe no versículo 24, agora na primeira pessoa, na forma que o hebraico usa para continuar uma condição com a sua consequência.

O sentido básico permanece o de levantar e transportar peso. Aplicado a culpa, produz a expressão do perdão.

A mudança de pessoa é o que interessa aqui. No versículo 24 a frase era interrogativa e em segunda pessoa — não carregarás? Aqui é declarativa e em primeira — eu carregarei.

Convém marcar o limite: o Gênesis não desenvolve o que significaria carregar a culpa de uma cidade, e não há neste versículo doutrina da expiação. Há a metáfora da língua, e ela diz o que diz.

לְכָל־הַמָּקוֹם (lekhol-hammaqom) — "a todo o lugar"

Aqui está o detalhe mais fino do versículo.

No versículo 24, Abraão dissera lammaqom: ao lugar. A resposta diz lekhol-hammaqom: a todo o lugar.

A palavra kol — todo, a totalidade de — não estava no pedido. Ela é acrescentada pela resposta.

O dado é objetivo e qualquer leitor pode conferir comparando os dois versículos. A leitura é minha e a apresento como tal: numa cena com forma de barganha, o esperado seria conceder menos do que se pediu, guardando margem para os lances seguintes. O que acontece é o inverso.

Registro também o que não se pode concluir. A ampliação não promete que os cinquenta existam, não garante resultado, e não impede a destruição que virá. É uma palavra a mais no compromisso, e não uma mudança do desfecho.

בַּעֲבוּרָם (ba'avuram) — "por causa deles"

Preposição composta com sufixo de terceira pessoa do plural. Exprime causa e motivo: por conta de, em razão de, em atenção a.

Abraão empregara outra, lema'an, de sentido próximo. A alternância é sistemática: Abraão usa a primeira, e as respostas divinas usam a segunda nos versículos 26, 29, 31 e 32.

Não convém extrair disso diferença teológica. É provável que se trate de preferência estilística. O que vale registrar é a consistência, que num diálogo curto costuma indicar composição cuidadosa.

Nota — o que a condição faz com a promessa

Uma observação sobre a estrutura da frase, porque ela define o que Abraão leva da conversa.

A construção é condicional: se A, então B. Não há afirmação sobre A.

Isto é: a resposta compromete quem a dá quanto ao critério, e não diz nada quanto ao fato. Abraão obtém regra e não obtém informação.

O detalhe explica o silêncio do versículo 33. Quando a conversa termina, ninguém sabe quantos justos há em Sodoma — e o texto não registra que Abraão tenha perguntado, nem que tenha voltado a procurar saber.

Nota — a forma da resposta, comparada com as seguintes

Vale registrar, para uso nos versículos seguintes, como esta resposta se distingue das outras cinco.

Aqui a resposta é completa: sujeito nomeado, condição enunciada por inteiro, número repetido, lugar especificado, verbo de perdão explícito, motivo declarado.

No versículo 28 ela já encolhe: "não a destruirei, se achar ali quarenta e cinco". No 29: "não o farei, por causa dos quarenta". No 30: "não o farei, se achar ali trinta". No 31: "não a destruirei, por causa dos vinte". No 32: "não a destruirei, por causa dos dez".

Note-se o que se perde pelo caminho: o sujeito nomeado, o verbo de perdoar, a menção ao lugar, a expressão "dentro da cidade".

E note-se o que muda: o verbo de carregar é substituído pela negação de destruir. Deixa-se de dizer "perdoarei" e passa-se a dizer "não destruirei".

Registro a observação como dado de composição, deixando a análise para os versículos em que cada mudança ocorre. Ela é verificável e raramente é apontada.

11. Conclusão

O que se esperaria, depois de uma cobrança formulada com a fórmula que se usa para repelir uma proposta indigna, era alguma reação à forma. Não há. A resposta ignora o tom, não defende a decisão anunciada, não descreve os crimes da cidade e não trata da pergunta de princípio sobre o Juiz de toda a terra. Vai direto ao que fazer: se eu achar cinquenta, perdoo. É a única vez, em onze versículos, que o narrador escreve o nome próprio de Deus como sujeito de uma fala — ele voltará apenas no fecho, quando se disser que o SENHOR foi embora. No meio do diálogo, as respostas serão anônimas.

A concessão vem inteira e vem com uma surpresa que a comparação com o versículo 24 revela em três segundos. Abraão pedira perdão ao lugar; a resposta concede perdão a todo o lugar. Uma palavra de totalidade que não estava no pedido entra na resposta. Numa cena com formato de feira, em que se espera que quem responde dê menos do que lhe pedem para guardar margem, quem tem todo o poder dá mais. Registro o dado, que é objetivo, e a leitura, que é minha: a forma da cena é de mercado, e o comportamento de quem responde não é.

Há também uma decisão de linguagem com consequências enormes. Nada é reformulado: o número é o de Abraão, o substantivo é o dele, a expressão "dentro da cidade" é a que ele empregara. Aceitar o vocabulário do outro é aceitar o terreno do outro — e, mais que isso, aceitar que cinquenta bastam é admitir que existe um mínimo. A partir do instante em que existe um mínimo, perguntar qual é ele deixa de ser atrevimento e passa a ser continuação da conversa. Toda a descida que virá, de quarenta e cinco até dez, foi autorizada aqui, sem que ninguém pedisse autorização.

Duas coisas ficam abertas e vale nomeá-las. A primeira é o modo como o texto narra: fala-se em descer, ver, achar, saber. Quem quiser sustentar conhecimento prévio absoluto terá de explicar a formulação, e as saídas propostas — linguagem adaptada, rito judicial de inquirição, leitura literal — cobram cada uma o seu preço, sem que nenhuma cubra todos os dados. A segunda é a razão da rapidez. O capítulo dissera, antes do diálogo, que Abraão foi informado porque ensinaria a sua casa a fazer justiça e juízo, que são exatamente as palavras que ele usa ao cobrar. Se a ligação for proposital, a objeção era o comportamento esperado e a concessão é a confirmação de que ele acertou. É leitura, não é demonstrável, e desagrada porque troca o negociador ousado pelo aluno bem preparado.

Resta o que a resposta não promete, e é o que mais pesa quando se lê o capítulo seguinte. Não se diz que os cinquenta existem. Não se diz que os justos serão poupados, retirados ou protegidos. Diz-se que o lugar será carregado por causa deles — a função de quem é justo, nesta proposta, é servir de razão para que os outros escapem. Abraão sai deste versículo com um critério aceito, uma promessa ampliada e nenhuma informação. E a narrativa acabará resolvendo o caso pela via que aqui nem foi cogitada: ninguém perdoa lugar nenhum, uma família é puxada para fora pela mão, e o resto é varrido.

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Gênesis 18:26

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