Abraão disse: “Eis que me atrevi a falar ao meu Senhor: talvez se achem ali vinte.” Ele respondeu: “Não a destruirei, por causa dos vinte.”
1. Introdução
A fórmula do versículo 27 volta — mas pela metade. Some o "pó e cinza".
E o número chega a vinte, que é onde o leitor atento começa a fazer contas com a família de Ló.
Este é o lugar de enfrentar duas ausências que atravessam o capítulo inteiro e que quase nenhuma pregação menciona.
A primeira: Ló nunca é nomeado. Em onze versículos de negociação sobre a cidade onde ele mora, o sobrinho não aparece uma vez.
A segunda é maior. Ninguém propõe que Sodoma se arrependa. Não há profeta enviado, não há aviso, não há prazo. Discute-se quantos justos existem, e nunca se cogita avisar os outros.
E há uma frase do Evangelho, sobre esta cidade, que torna a segunda ausência muito mais pesada.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quantas pessoas tinha uma casa
Convém ter alguma noção de escala, porque o número deste versículo começa a se aproximar do tamanho de uma família.
A casa, naquele mundo, não era o casal com filhos. Era uma unidade que reunia o patriarca, a mulher ou as mulheres, os filhos casados com as suas famílias, os servos e os agregados.
Abraão dispunha de trezentos e dezoito homens nascidos na sua casa quando saiu para resgatar Ló — o que dá ideia do porte de uma casa próspera.
A de Ló, em Sodoma, era bem menor: o capítulo 19 menciona ele, a mulher, duas filhas e genros.
Como se avisava uma cidade
No resto da Bíblia, a destruição de uma cidade costuma vir precedida de aviso.
Jonas é enviado a Nínive com um prazo de quarenta dias, e a cidade se converte. Jeremias formula a regra geral: se a nação contra a qual Deus falou se converter da sua maldade, ele mudará de ideia quanto ao mal que pensara fazer. As Crônicas registram que Deus enviava mensageiros insistentemente, por misericórdia, antes do fim de Jerusalém.
Ezequiel chega a estabelecer a responsabilidade do sentinela: se ele não avisar o perverso, o sangue será cobrado da sua mão.
Este capítulo não faz nada disso, e o dado será examinado no item 3.
O que Ló já era para Abraão
Ló é filho de Harã, irmão de Abraão, e saiu de Ur com a família. Depois da separação dos rebanhos, escolheu a planície e foi armando as tendas até Sodoma.
No capítulo 14, foi levado cativo numa guerra entre reis, e Abraão armou trezentos e dezoito homens da sua casa, perseguiu os exércitos vitoriosos e o trouxe de volta.
Ou seja: o homem que negocia aqui já arriscou tudo por aquele sobrinho uma vez.
Uma frase do Evangelho sobre esta cidade
Séculos depois, Jesus comparará Cafarnaum a Sodoma, e dirá algo que costuma passar despercebido: se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em Cafarnaum, ela teria permanecido até hoje.
A frase afirma que a destruição era evitável.
Ela será tratada no item 3, e é uma das coisas mais desconfortáveis que a Bíblia diz a respeito deste capítulo.
3. Análise Teológica do Versículo
"Abraão disse: Eis que me atrevi a falar ao meu Senhor"
A fórmula do versículo 27 retorna — e retorna cortada.
Compare-se palavra por palavra.
No versículo 27: "eis que me atrevi a falar ao meu Senhor, eu que sou pó e cinza".
Aqui: "eis que me atrevi a falar ao meu Senhor".
A autodescrição desapareceu. Ficaram a partícula de rogo, o verbo de iniciativa assumida e o tratamento.
O dado é objetivo e qualquer leitor pode conferir.
As leituras possíveis são duas, e as duas se sustentam.
A primeira é a economia. Como todo o resto do diálogo, a fórmula encolhe pelo uso — a frase inteira já foi dita, e repetir o essencial basta.
A segunda é que a imagem se gasta. Chamar-se de pó e cinza funciona uma vez; repetido a cada dois versículos, o gesto perde o efeito e começa a soar mecânico. Quem usa a fórmula sabe disso.
Não é possível decidir, e registro que a primeira é a mais provável.
As duas fórmulas se alternam
Aqui aparece uma estrutura que só se enxerga com os quatro últimos lances lado a lado, e ela é notavelmente regular.
Versículo 27: "eis que me atrevi a falar ao meu Senhor, eu que sou pó e cinza".
Versículo 30: "não se ire o meu Senhor, e eu falarei".
Versículo 31: "eis que me atrevi a falar ao meu Senhor".
Versículo 32: "não se ire o meu Senhor, e falarei só mais esta vez".
Ou seja: primeira fórmula, segunda fórmula, primeira fórmula, segunda fórmula. Uma alternância perfeita.
E as duas fórmulas fazem trabalhos diferentes.
A primeira reconhece a iniciativa: eu me dispus a falar, ninguém me mandou.
A segunda antecipa a reação: que a ira não se acenda.
Uma olha para quem fala; a outra, para quem ouve.
Registro a observação como dado de composição. Que a alternância seja deliberada não é demonstrável — com quatro casos, o padrão pode ser acaso —, e ela é verificável de qualquer modo.
"talvez se achem ali vinte"
A formulação do pedido não muda nada em relação aos dois lances anteriores. Mesma partícula, mesmo verbo passivo, mesmo advérbio.
Só o número desce, e desce dez outra vez.
Vinte não carrega, na Bíblia, significado especial. É o degrau que vem depois de trinta.
O que interessa aqui não é o número em si, e sim a ordem de grandeza a que ele chega. Vinte pessoas já não são um pelotão nem uma facção: são, aproximadamente, o tamanho de uma casa grande.
E é por isso que este é o lugar de enfrentar a primeira das duas ausências do capítulo.
Ló, o nome que nunca é dito
Em onze versículos de negociação sobre Sodoma, o sobrinho de Abraão não é mencionado uma única vez.
Vale medir o peso disso.
O leitor sabe que ele mora lá — o capítulo 13 informou, e o capítulo 14 narrou o resgate. O narrador sabe. Abraão certamente sabe.
E o nome não aparece.
Não se diz "há alguém meu ali". Não se diz "o filho do meu irmão". Nada.
Convém apresentar as leituras com honestidade, porque esta é uma das perguntas centrais do capítulo e ela não tem resposta no texto.
Primeira leitura: ele está pedindo por Ló o tempo todo, sem dizer.
A favor: o homem arriscou a vida pelo sobrinho no capítulo 14, com trezentos e dezoito homens da própria casa. A favor também: a contagem para justamente em dez, número compatível com uma família.
E há um dado poderoso no capítulo 19: quando a destruição vem, o narrador informa que Deus se lembrou de Abraão, e por isso tirou Ló do meio da destruição. O vínculo familiar operou de fato — só que operou fora do que foi dito.
Contra: é leitura por inferência. O texto não a afirma em lugar nenhum, e atribuir motivo oculto a um personagem que não tem interioridade descrita é sempre arriscado.
Segunda leitura: o silêncio é a técnica.
Um pedido pelo próprio parente é fraco: qualquer um pede pelos seus. Um pedido em nome de um princípio universal é forte, e obriga o interlocutor a se posicionar sobre o princípio.
Nessa leitura, Abraão sabe exatamente o que quer e escolhe o caminho mais longo por ser o mais eficaz.
A favor: é coerente com a habilidade que ele demonstra em todo o resto do diálogo, especialmente no versículo 28. A favor também: o pedido do versículo 24 é pelo lugar, e não por pessoas.
Contra: também é inferência, e supõe um cálculo que o texto não descreve.
Terceira leitura: não se trata de Ló.
Abraão pergunta pelo justo com o ímpio, propõe o perdão do lugar, cobra o padrão do Juiz de toda a terra. Nada disso é linguagem de quem pede por um parente.
Nessa leitura, a cena é sobre justiça, e Ló é uma circunstância que o leitor conhece e que o personagem não invoca.
A favor: é a única leitura que se atém ao que está escrito.
Contra: deixa sem explicação a coincidência entre o número final e o tamanho de uma família, e deixa sem explicação a frase do capítulo 19 sobre Deus lembrar-se de Abraão.
Não é possível decidir. As três se sustentam com forças diferentes, e o texto mantém o silêncio do começo ao fim.
O que se pode afirmar é apenas isto: o nome não aparece, e a ausência é total.
A segunda ausência, que é maior
E agora o ponto que quase nenhum comentário levanta, e que me parece o mais grave de todo o capítulo.
Ninguém propõe que Sodoma se arrependa.
Percorra-se a conversa inteira. Discute-se quantos justos existem. Discute-se se a existência deles cobre os demais. Discute-se o número mínimo.
Não se discute avisar.
Abraão não pergunta se a cidade poderia mudar. Não se oferece para ir lá. Não pede prazo. Não sugere que alguém seja enviado.
E, do outro lado, nada é proposto.
Vale comparar com o resto da Bíblia, porque o contraste é gritante.
Jonas é enviado a Nínive, com prazo de quarenta dias, e a cidade se converte do maior ao menor, e a destruição não vem.
Jeremias enuncia a regra em termos gerais: se a nação contra a qual Deus falou se converter da sua maldade, ele mudará de ideia quanto ao mal que pensara fazer.
Ezequiel declara que Deus não tem prazer na morte do perverso, mas em que ele se converta do seu caminho e viva — e estabelece que o sentinela que não avisa responde pelo sangue.
As Crônicas dizem que Deus enviava mensageiros insistentemente antes do fim de Jerusalém, porque tinha misericórdia.
Uma carta do Novo Testamento chama Noé de anunciador da justiça, dando ao dilúvio um pregador prévio.
E Sodoma?
Sodoma não recebe nenhum aviso. O único momento em que alguém tenta avisar é no capítulo 19, quando Ló fala aos genros — e já é tarde, a destruição já foi decidida, e eles pensam que ele está brincando.
Convém encarar isso sem contorná-lo. Registro as explicações que se costumam propor.
Uma diz que a maldade estava consumada — o versículo 20 fala de pecado agravado em extremo, e o versículo 21 anuncia verificação do que já subira em clamor. Nesse caso, o tempo de aviso teria passado.
Contra: o texto não diz isso. E, se a maldade estivesse consumada, não haveria o que verificar.
Outra diz que a proposta de Abraão é, ela mesma, a alternativa ao aviso: em vez de converter os culpados, poupá-los pela existência dos justos.
Contra: são coisas diferentes, e nada impedia que as duas fossem tentadas.
Uma terceira observa que a instituição profética ainda não existia naquele momento da narrativa, e que o envio de mensageiros com prazo é procedimento de textos bem posteriores.
É a explicação historicamente mais sólida, e cobra o preço de admitir que a Bíblia mudou de concepção ao longo do tempo sobre como Deus trata uma cidade condenada.
Não é possível decidir. O que se pode afirmar é o dado: Sodoma é destruída sem ter sido advertida, e nem Abraão nem ninguém sugere adverti-la.
E então Jesus diz uma coisa sobre Sodoma
Aqui está a frase que torna tudo isso muito mais pesado, e que a pregação corrente quase nunca cita quando trata deste capítulo.
Falando às cidades da Galileia que não se converteram, Jesus diz a Cafarnaum: se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em ti, ela teria permanecido até hoje.
Leia-se devagar o que está sendo afirmado.
Sodoma teria se convertido, se tivesse recebido o que Cafarnaum recebeu. A cidade destruída era, segundo essa frase, uma cidade recuperável — e o que faltou não foi disposição dela, foi oportunidade.
E a mesma passagem acrescenta que, no dia do juízo, será mais tolerável para a região de Sodoma do que para aquelas cidades.
Uma frase paralela diz que Tiro e Sidom teriam se arrependido em saco e cinza — e, no caso delas também, ninguém foi enviado.
Convém pesar o alcance disso com cuidado, e convém pesar também os limites.
O que se pode afirmar: existe uma afirmação bíblica, atribuída a Jesus, de que Sodoma teria permanecido se tivesse recebido sinais suficientes.
O que precisa ser registrado do outro lado: o gênero da frase é o da advertência hiperbólica, e o seu alvo não é Sodoma, e sim Cafarnaum. Ninguém está fazendo teologia sobre o passado de Sodoma; está-se acusando uma cidade contemporânea de ser pior que o exemplo máximo de corrupção conhecido. Extrair da frase uma tese completa sobre a justiça do capítulo 19 seria ir além do que ela pretende.
Feita a ressalva, o incômodo permanece, e é honesto deixá-lo de pé: a Bíblia contém, ao mesmo tempo, o relato de uma cidade destruída sem aviso e a afirmação de que ela teria mudado se tivesse sido advertida.
Não é possível conciliar as duas coisas sem forçar alguma delas. Registro as duas.
"Não a destruirei, por causa dos vinte"
A resposta volta ao verbo específico.
Nos versículos 29 e 30, dissera-se apenas "não farei", com o verbo mais genérico da língua. Aqui volta o verbo de arruinar, o mesmo do dilúvio, com o objeto pronominal referido à cidade.
E a condição, que estava no versículo 30, some outra vez.
Ou seja, confirma-se o que se observou no versículo anterior: as respostas variam, e não decaem. O verbo alterna entre o genérico e o específico; a condição entra e sai; o que não volta é o nome de quem responde nem o verbo de perdoar.
O número aparece com artigo — "os vinte" —, o que é regular: nas respostas com a preposição de causa, o artigo está sempre presente; nas respostas com condição, sempre ausente.
Nada, nesta resposta, sugere impaciência. Nenhuma palavra a mais, nenhuma a menos que sinalize desconforto.
Isso vale ser dito porque o versículo seguinte trará, da parte de Abraão, o aviso de que será a última vez — e o aviso não é resposta a nada que tenha sido dito.
O que fica deste versículo
Um resumo antes de seguir.
A fórmula de cortesia voltou pela metade, e as duas fórmulas do capítulo se alternam com regularidade.
O número desceu a vinte, ordem de grandeza de uma casa.
Ló continua sem ser nomeado, e continuará até o fim.
E ninguém, em nenhum momento, cogitou avisar a cidade — nem quem pede, nem quem responde —, embora o resto da Bíblia trate o aviso como procedimento normal, e embora exista uma frase do Evangelho afirmando que aquela cidade teria mudado se tivesse recebido o bastante.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A fórmula truncada — "eis que me atrevi a falar ao meu Senhor", sem o "eu que sou pó e cinza" do versículo 27.
A alternância das fórmulas — versículo 27 e 31 trazem a do atrevimento; versículos 30 e 32 trazem a da ira; o padrão é regular nos quatro casos.
Vinte — o segundo salto de dez, e a ordem de grandeza de uma casa grande daquele mundo.
Ló — sobrinho de Abraão, morador de Sodoma; não é nomeado em nenhum dos onze versículos do diálogo.
Gênesis 14:14 — os trezentos e dezoito homens da casa de Abraão, armados para resgatar o mesmo sobrinho.
Gênesis 19:29 — o narrador informa que Deus se lembrou de Abraão e por isso tirou Ló; o vínculo operou fora do que foi dito.
O aviso que não existe — ninguém propõe que Sodoma seja advertida; nem Abraão, nem a resposta divina.
Jonas em Nínive — cidade estrangeira advertida com prazo de quarenta dias, que se converte e não é destruída.
Jeremias 18:7-8 — a regra geral: se a nação se converter, Deus muda de ideia quanto ao mal que pensara fazer.
Ezequiel 3:18 e 18:23 — o dever de advertir e a declaração de que Deus não tem prazer na morte do ímpio.
Mateus 11:23 — a frase de Jesus segundo a qual Sodoma teria permanecido até hoje se tivesse recebido os milagres feitos em Cafarnaum.
Lucas 10:13 — a frase paralela sobre Tiro e Sidom, que teriam se arrependido em saco e cinza.
2 Pedro 2:5 — Noé chamado de anunciador da justiça, o que dá ao dilúvio um pregador prévio que Sodoma não teve.
5. Pontos de Ensino
A fórmula volta pela metade. Sai o "pó e cinza"; ficam a partícula de rogo e o verbo de iniciativa assumida.
As duas fórmulas do capítulo se alternam. Atrevimento no versículo 27, ira no 30, atrevimento aqui, ira no 32.
Uma fórmula olha para quem fala; a outra, para quem ouve. Uma reconhece a iniciativa, a outra antecipa a reação.
Vinte é a ordem de grandeza de uma casa. Não de uma facção nem de um pelotão.
Ló nunca é nomeado no diálogo. Onze versículos sobre a cidade onde ele mora, e nenhuma menção.
O capítulo 19 informa que Deus se lembrou de Abraão. O vínculo familiar operou — fora do que foi dito.
Ninguém propõe que Sodoma se arrependa. Nem Abraão, nem a resposta divina.
Não há profeta enviado, prazo nem advertência. Discute-se quantos justos há, e nunca se cogita avisar os outros.
No resto da Bíblia, o aviso é procedimento normal. Jonas, Jeremias, Ezequiel e as Crônicas descrevem o contrário do que ocorre aqui.
Jesus diz que Sodoma teria permanecido. Se tivesse recebido os milagres feitos em Cafarnaum.
A frase tem alvo polêmico e não é tese sobre o passado. Ainda assim, o incômodo permanece.
A resposta volta ao verbo específico e perde a condição. Confirma-se que as respostas variam, e não decaem.
6. Aspectos Filosóficos
Fórmulas se gastam
Vale começar pelo detalhe menor deste versículo, porque ele diz algo sobre linguagem em geral.
Chamar-se de pó e cinza funcionou uma vez. Na segunda aplicação da fórmula, a imagem cai.
Pode ser apenas economia — todo o diálogo encolhe. E pode ser que quem fala perceba o que qualquer pessoa percebe: uma declaração de insignificância repetida a cada dois minutos deixa de humilhar e começa a irritar.
Convém registrar o princípio, que vale muito além do capítulo. Expressões de intensidade têm prazo. Elogio superlativo repetido vira ruído; desculpa repetida vira tique; declaração de humildade repetida vira afetação.
Não é que percam o sentido: é que o interlocutor deixa de processá-las.
Registro que o texto não comenta nada disso. A observação é minha, e a explicação mais provável para o corte continua sendo a economia.
Duas maneiras de pedir licença
A alternância das fórmulas merece atenção, porque as duas não fazem o mesmo trabalho.
Uma diz: fui eu que me dispus a falar. Assume a autoria da ousadia.
A outra diz: que a tua ira não se acenda. Antecipa a reação alheia.
A primeira é uma confissão; a segunda, uma precaução.
Vale observar o que cada uma concede. Quem confessa a iniciativa mantém a responsabilidade consigo e não atribui ao outro nenhum estado de espírito. Quem antecipa a ira atribui — e, ao atribuir, cria a possibilidade que diz temer.
Registro como observação sobre o funcionamento da linguagem, e não como juízo sobre o personagem, cuja interioridade o texto não descreve.
Pedir por alguém sem dizer o nome
A ausência de Ló é o silêncio mais eloquente do capítulo, e vale pensar no que ele produz, independentemente da intenção.
Se Abraão tivesse dito "poupa a cidade, porque o meu sobrinho mora lá", o pedido teria outra natureza. Seria um pedido de exceção em favor de um seu, e teria a força fraca de todos os pedidos assim.
Ao falar de justos anônimos e do lugar inteiro, ele obriga o interlocutor a se posicionar sobre um princípio.
Vale medir a diferença. Um pedido pessoal se responde com um favor, e favores não geram precedente. Um pedido de princípio se responde com uma regra, e regras valem para os casos seguintes.
Registro que não é possível saber se ele calculou isso. A observação é sobre o efeito, e o efeito existe qualquer que tenha sido a intenção.
E registro o dado que complica tudo: no capítulo 19, quem é lembrado é Abraão, e é por isso que Ló sai. O parentesco funcionou sem ter sido alegado.
A pergunta que ninguém fez
Chegamos ao que me parece o problema mais sério do capítulo, e ele é feito de ausência.
Toda a discussão gira em torno de quantos justos existem. Ninguém pergunta se os outros poderiam mudar.
Isso é notável porque a alternativa era óbvia e barata. Bastava enviar alguém. Abraão morava a poucas horas de distância, tinha trezentos e dezoito homens na casa, e já entrara em Sodoma antes.
Vale examinar o que a ausência dessa pergunta revela sobre a lógica da cena.
A negociação toda pressupõe que a cidade é o que é, e que a única variável é a contagem. As pessoas de Sodoma não são tratadas como capazes de mudança: são tratadas como um dado do problema.
É por isso que a frase do Evangelho incomoda tanto. Ela afirma exatamente o contrário — que aquela gente teria mudado.
Convém dizer o que se pode e o que não se pode concluir.
Não se pode transformar uma advertência dirigida a Cafarnaum numa tese sobre o passado de Sodoma. O gênero é o da acusação hiperbólica, e o alvo é outro.
Pode-se, e deve-se, registrar que a Escritura contém as duas coisas: um relato em que a mudança dos culpados nunca é cogitada, e uma frase em que ela é declarada possível.
Não é possível conciliar sem forçar. Deixo as duas de pé.
Contar em vez de tentar
Há aqui uma estrutura de pensamento que vale isolar, porque ela reaparece o tempo todo fora do texto.
Diante de um lugar considerado perdido, a pergunta que se faz é: quanta gente boa ainda há ali? E não: o que faria essa gente mudar?
A primeira pergunta é de contagem, e leva a decidir se vale a pena preservar. A segunda é de ação, e leva a fazer alguma coisa.
Repare que a primeira é muito mais confortável. Contar não exige entrar na cidade.
Registro que a aplicação é minha e que estou usando a cena como analogia, e não afirmando que o texto a autorize. O capítulo trata de um juízo divino, e não de política humana.
Feita a ressalva, a estrutura é reconhecível: bairros, escolas, empresas, países inteiros são frequentemente avaliados pela contagem de quem ainda presta, e quase nunca pela pergunta sobre o que mudaria os outros.
O que a Bíblia mudou de opinião a respeito
Fecho com uma observação de dimensão histórica, que vale expor com franqueza.
Nos textos proféticos, o aviso prévio é procedimento consolidado. Jonas é enviado. Jeremias enuncia a regra. Ezequiel estabelece a responsabilidade de quem deveria avisar e não avisou. As Crônicas descrevem mensageiros enviados insistentemente por misericórdia.
Neste capítulo, nada disso existe.
A explicação historicamente mais simples é que se trata de camadas diferentes: a ideia do aviso como direito do condenado se desenvolve ao longo do tempo, e o relato de Sodoma pertence a uma etapa em que ela ainda não estava formulada.
A explicação cobra um preço, e convém dizê-lo: implica que a Bíblia não descreve um procedimento divino uniforme, e sim concepções que se desenvolvem.
Quem não aceitar essa consequência precisará de outra explicação para a ausência total de aviso a uma cidade que a própria Escritura, séculos depois, declarará recuperável.
Não é possível decidir. Registro a dificuldade porque ela é real, e porque um leitor que a encontre sozinho, mais tarde, ficará bem mais abalado do que quem soube desde o começo que ela existe.
7. Aplicações Práticas
Uma expressão forte só funciona enquanto for rara
A fórmula do versículo 27 volta aqui sem o "pó e cinza". Pode ser economia, e pode ser que a imagem tenha se gasto: uma declaração de insignificância repetida a cada dois minutos deixa de humilhar e começa a soar mecânica.
Registro que a economia é a explicação mais provável.
Ainda assim, o princípio vale. Superlativos, desculpas e declarações de humildade têm prazo de validade curto, e quem os repete deixa de ser ouvido justamente onde queria ser levado a sério. Guardar as palavras fortes para quando forem necessárias é o que as mantém fortes.
Confessar a iniciativa é diferente de antecipar a reação
As duas fórmulas do capítulo se alternam, e fazem trabalhos opostos. Uma diz "fui eu que me dispus a falar", assumindo a autoria da ousadia. A outra diz "que a tua ira não se acenda", atribuindo ao outro um estado de espírito.
A primeira é confissão; a segunda, precaução.
Repare no que a segunda custa. Ao dizer "espero que você não fique bravo", você acabou de introduzir a possibilidade de a pessoa ficar brava — e, muitas vezes, de sugerir que o assunto merece isso. Dizer o que se tem a dizer, assumindo que a iniciativa é sua, costuma produzir conversa melhor do que abrir pedindo que ninguém se irrite.
Um pedido de princípio rende mais que um pedido pessoal
Abraão não menciona Ló em nenhum dos onze versículos. Fala de justos anônimos e do lugar inteiro, e assim obriga o interlocutor a se posicionar sobre uma regra, e não sobre um favor.
Não é possível saber se ele calculou isso; o efeito existe de qualquer modo.
Vale a distinção nas suas próprias causas. Pedir exceção para um caso seu se responde com um favor, e favores acabam ali. Pedir que se corrija um critério se responde com uma regra, que serve para os próximos. O primeiro caminho é mais rápido; o segundo é o único que muda alguma coisa depois que você sai da sala.
Perguntar quanta gente boa resta é mais confortável do que agir
Toda a discussão do capítulo gira em torno de contagem: quantos justos existem ali. Ninguém pergunta o que faria os outros mudarem, e ninguém propõe avisar a cidade — embora Abraão morasse perto e já tivesse entrado em Sodoma antes.
Registro que estou usando a cena como analogia; o texto trata de um juízo divino, e não de decisão humana.
Feita a ressalva, a estrutura é reconhecível em qualquer avaliação de um lugar dado como perdido — um bairro, uma escola, uma repartição, um país. Contar quem ainda presta permite decidir de longe. Perguntar o que mudaria os outros obriga a entrar. A primeira pergunta é sempre a mais cômoda, e quase sempre a menos útil.
Avisar é um direito de quem vai ser atingido
No resto da Bíblia, o aviso prévio é procedimento normal: Jonas é enviado com prazo, Jeremias enuncia a regra da mudança de ideia, Ezequiel responsabiliza o sentinela que não avisou, as Crônicas falam de mensageiros enviados insistentemente por misericórdia.
Neste capítulo não há nada disso.
Vale como critério nas decisões que você toma sobre outras pessoas. Demitir, cortar, romper, desligar — em quase todos esses casos, a diferença entre uma decisão dura e uma decisão injusta é se houve aviso a tempo de mudar alguma coisa. E o aviso incomoda justamente porque abre a possibilidade de a pessoa mudar, e às vezes já se decidiu que não se quer mais.
Considere que o outro talvez mudasse
Séculos depois, Jesus dirá que Sodoma teria permanecido até hoje se tivesse recebido os milagres feitos em Cafarnaum. A frase tem alvo polêmico — acusa uma cidade contemporânea, e não faz teologia sobre o passado —, e vale registrar esse limite antes de qualquer conclusão.
Ainda assim, o que ela afirma é que aquela gente era recuperável.
Aplique isso à sua lista de casos perdidos. Quase todos nós carregamos pessoas classificadas como irrecuperáveis, e a classificação quase nunca foi testada — ela se formou com informação parcial, num momento ruim, e nunca mais foi revista. Não é ingenuidade perguntar se a pessoa mudaria com o que nunca lhe foi oferecido. Ingenuidade é achar que a sua classificação foi baseada em teste.
O que não foi dito também opera
Abraão nunca menciona o sobrinho. E, quando a destruição vem, o narrador informa que Deus se lembrou de Abraão e por isso tirou Ló do meio dela.
O parentesco funcionou sem ter sido alegado.
Vale como observação sobre relações reais. Muita coisa é levada em conta sem que ninguém a mencione: histórico, vínculo, aquilo que a pessoa fez há anos, o que se sabe sem ter sido dito. Quem calcula demais o que precisa ser explicitado costuma subestimar o quanto já está sendo pesado em silêncio — para o bem e para o mal.
Concepções mudam, inclusive dentro da Bíblia
A ausência total de aviso a Sodoma contrasta com o procedimento consolidado nos livros proféticos. A explicação historicamente mais simples é que se trata de camadas diferentes, e que a ideia do aviso como direito do condenado se desenvolveu ao longo do tempo.
A explicação cobra um preço: implica que a Escritura não descreve um procedimento uniforme, e sim concepções em desenvolvimento.
Vale saber disso desde cedo. Quem aprende que tudo na Bíblia diz a mesma coisa acaba encontrando sozinho, um dia, um texto que não diz — e o abalo é proporcional à segurança com que lhe garantiram o contrário. Conhecer as tensões antes de tropeçar nelas é a diferença entre estudar e ser surpreendido.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que a fórmula do versículo 27 volta cortada?
Lá se lia "eis que me atrevi a falar ao meu Senhor, eu que sou pó e cinza"; aqui, apenas a primeira parte. A explicação mais provável é a economia, que atinge todo o diálogo. Uma segunda leitura observa que a imagem se gasta: uma declaração de insignificância repetida a cada dois versículos deixa de humilhar e começa a soar mecânica. Não é possível decidir.
Existe um padrão nas fórmulas de cortesia?
Existe, e é regular nos quatro últimos lances. Versículo 27: atrevi-me a falar. Versículo 30: não se ire. Versículo 31: atrevi-me a falar. Versículo 32: não se ire. A alternância é perfeita, e as duas fórmulas fazem trabalhos diferentes — uma reconhece a iniciativa de quem fala, a outra antecipa a reação de quem ouve. Com quatro casos, o padrão pode ser acaso; é verificável de qualquer modo.
Por que vinte é um número significativo aqui?
Não por simbolismo — vinte não carrega carga especial na Bíblia, e aparece porque é o degrau depois de trinta. O que interessa é a ordem de grandeza: vinte pessoas já não são um grupo organizado, e sim aproximadamente o tamanho de uma casa daquele mundo, que reunia o patriarca, esposas, filhos casados, servos e agregados.
Abraão está pedindo por Ló?
O texto nunca diz, e o nome não aparece em nenhum dos onze versículos. Três leituras se sustentam. A primeira afirma que sim, e tem a seu favor o resgate do capítulo 14 e o fato de a contagem parar num número compatível com uma família. A segunda diz que o silêncio é técnica, porque um pedido de princípio rende mais que um pedido pessoal. A terceira diz que a cena é sobre justiça e Ló é apenas circunstância conhecida pelo leitor. Não é possível decidir.
O capítulo 19 esclarece isso?
Complica. O narrador informa, em Gênesis 19:29, que quando Deus destruiu as cidades da planície lembrou-se de Abraão e por isso enviou Ló para fora da destruição. Ou seja: o vínculo familiar operou de fato — só que operou fora do que foi dito na negociação, e por uma via diferente da que foi pedida.
Alguém propõe que Sodoma se arrependa?
Ninguém. Esta é a ausência mais grave do capítulo. Toda a conversa gira em torno de quantos justos existem e se a existência deles cobre os demais. Não se cogita avisar, enviar alguém, dar prazo ou tentar a mudança dos culpados — nem da parte de Abraão, nem da resposta divina.
Isso é normal na Bíblia?
Não, e o contraste é gritante. Jonas é enviado a Nínive com prazo de quarenta dias, e a cidade se converte e é poupada. Jeremias enuncia a regra geral: se a nação se converter, Deus muda de ideia quanto ao mal que pensara fazer. Ezequiel declara que Deus não tem prazer na morte do perverso e responsabiliza o sentinela que não avisa. As Crônicas dizem que mensageiros eram enviados insistentemente, por misericórdia, antes do fim de Jerusalém.
Como se explica a ausência de aviso?
As explicações propostas cobrem parte do problema. Uma diz que a maldade estava consumada — mas o texto anuncia verificação, e não haveria o que verificar se estivesse. Outra diz que a proposta de Abraão é ela mesma a alternativa ao aviso — mas são coisas diferentes, e nada impedia tentar as duas. Uma terceira observa que a instituição profética ainda não existia naquele ponto da narrativa, e que o envio com prazo é procedimento de textos bem posteriores. Esta é historicamente a mais sólida, e cobra o preço de admitir concepções em desenvolvimento.
O que Jesus disse sobre Sodoma?
Falando às cidades da Galileia que não se converteram, disse a Cafarnaum que, se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres feitos ali, ela teria permanecido até hoje. E acrescentou que, no dia do juízo, será mais tolerável para a região de Sodoma do que para aquela cidade. Uma frase paralela afirma que Tiro e Sidom teriam se arrependido em saco e cinza.
Isso significa que a destruição foi injusta?
Não é o que a frase pretende afirmar, e convém marcar o limite. O gênero é o da advertência hiperbólica, e o alvo não é Sodoma: é Cafarnaum. Está-se acusando uma cidade contemporânea de ser pior que o exemplo máximo de corrupção conhecido, e não fazendo teologia sobre o passado. Extrair dali uma tese completa sobre a justiça do capítulo 19 seria ir além do texto.
Então o incômodo se dissolve?
Não. Feita a ressalva, permanece o fato de a Escritura conter, ao mesmo tempo, o relato de uma cidade destruída sem qualquer advertência e a afirmação de que ela teria mudado se tivesse recebido sinais suficientes. Não é possível conciliar as duas coisas sem forçar alguma delas, e este comentário deixa as duas de pé.
A resposta divina mudou outra vez?
Voltou ao verbo específico. Nos versículos 29 e 30 lia-se apenas "não farei"; aqui volta o verbo de arruinar, o mesmo do dilúvio, com o objeto referido à cidade. E a condição, presente no versículo 30, some de novo. Confirma-se o que se observou ali: as respostas variam, e não decaem. O que não retorna é o nome de quem responde nem o verbo de perdoar.
Há sinal de impaciência nesta resposta?
Nenhum. Nem uma palavra a mais, nem uma a menos que sugira desconforto. Isso vale ser dito porque, no versículo seguinte, Abraão anunciará que fala pela última vez — e o anúncio não responde a nada que tenha sido dito.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 14:14 — E ouviu Abrão que seu irmão estava prisioneiro, e armou seus criados, os criados de sua casa, trezentos e dezoito, e seguiu-os até Dã.
O que Abraão já fizera pelo sobrinho — e que ele não menciona uma única vez nesta conversa.
Gênesis 19:29 — Assim foi que, quando destruiu Deus as cidades da planície, lembrou-se Deus de Abraão, e enviou fora a Ló do meio da destruição, ao assolar as cidades onde Ló estava.
O vínculo familiar operando de fato, sem ter sido alegado em nenhum momento do diálogo.
Gênesis 13:12 — Abrão assentou na terra de Canaã, e Ló assentou nas cidades da planície, e foi pondo suas tendas até Sodoma.
Como o sobrinho foi parar ali, cinco capítulos antes.
Jonas 1:2 — Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e prega contra ela; porque sua maldade subiu diante de mim.
A mesma acusação — a maldade que sobe — seguida de envio, ao contrário do que ocorre aqui.
Jonas 3:10 — E Deus viu a atitude deles, que se converteram de seu mau caminho; então Deus se arrependeu do mal que tinha dito que lhes faria, e não o fez.
O desfecho que Sodoma não teve, e a prova de que ele era possível dentro da própria Bíblia.
Jeremias 18:8 — Se tal nação se converter de sua maldade, contra a qual falei, eu mudarei de ideia quanto ao mal que tinha pensado lhe fazer.
A regra geral enunciada, e que este capítulo nem sequer cogita aplicar.
Ezequiel 3:18 — Quando eu disser ao perverso: ‘Certamente morrerás’, e tu não o alertares, nem falares para alertar ao perverso acerca do seu caminho perverso, a fim de o conservar em vida, aquele perverso morrerá na sua maldade, porém demandarei o sangue dele da tua mão.
O dever de advertir, transformado em responsabilidade cobrável de quem se cala.
Ezequiel 18:23 — Por acaso eu prefiro a morte do ímpio?, diz o Senhor DEUS, E não que ele se converta de seus caminhos, e viva?
A declaração de disposição que torna a ausência de aviso em Sodoma mais difícil de explicar.
2 Crônicas 36:15 — E o SENHOR o Deus de seus pais enviou a eles por meio de seus mensageiros, enviando insistentemente: porque ele tinha misericórdia de seu povo, e de sua habitação.
O envio repetido apresentado como expressão de misericórdia, antes da destruição de Jerusalém.
2 Pedro 2:5 — Nem perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, anunciador da justiça, com outros sete, trazendo o dilúvio sobre o mundo dos ímpios;
Um pregador prévio atribuído ao dilúvio — e nenhum equivalente atribuído a Sodoma.
Mateus 11:23 — E tu, Cafarnaum, estarás tu exaltada até o céu? Ao Xeol serás derrubada! Pois se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em ti, ela teria permanecido até hoje.
A afirmação de que a cidade destruída era recuperável, e de que o que faltou foi oportunidade.
Mateus 11:24 — Porém eu vos digo que mais tolerável será para os da região de Sodoma, no dia de juízo, que para ti.
A consequência da frase anterior, dita como acusação a uma cidade contemporânea.
Lucas 10:13 — Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidom tivessem sido feitas as maravilhas que foram feitas entre vós, há muito tempo que teriam se arrependido em saco e em cinza.
A frase paralela, com outras duas cidades, no mesmo esquema de oportunidade não concedida.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Abraão disse: “Eis que me atrevi a falar ao meu Senhor: talvez se achem ali vinte.” Ele respondeu: “Não a destruirei, por causa dos vinte.”
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר הִנֵּה־נָא הוֹאַלְתִּי לְדַבֵּר אֶל־אֲדֹנָי אוּלַי יִמָּצְאוּן שָׁם עֶשְׂרִים וַיֹּאמֶר לֹא אַשְׁחִית בַּעֲבוּר הָעֶשְׂרִים
Transliteração
vayyomer hinneh-na ho'alti ledabber el-Adonai ulai yimmatze'un sham esrim vayyomer lo ashchit ba'avur ha'esrim
Palavra por palavra
וַיֹּאמֶר (vayyomer) — "e disse"
Sem sujeito expresso, como no versículo 30 e como será no 32. O narrador não nomeia Abraão desde o versículo 29.
הִנֵּה־נָא הוֹאַלְתִּי לְדַבֵּר אֶל־אֲדֹנָי (hinneh-na ho'alti ledabber el-Adonai) — "eis que me atrevi a falar ao meu Senhor"
Repetição exata da primeira parte do versículo 27: a partícula de atenção, a partícula de rogo, o verbo raro que significa dispor-se e empreender por conta própria, o infinitivo de falar e o tratamento vocalizado pelos massoretas como título divino.
Tudo isso foi tratado em detalhe no item 10 do versículo 27.
O que interessa aqui é o que não foi repetido.
No versículo 27, a fórmula terminava com "e eu sou pó e cinza". Essa parte não aparece.
O corte é objetivo. As leituras estão no item 3, e nenhuma delas é demonstrável.
אוּלַי יִמָּצְאוּן שָׁם (ulai yimmatze'un sham) — "talvez se achem ali"
Fórmula idêntica à dos versículos 29 e 30, com a voz passiva e a terminação arcaica.
Vale registrar a estabilidade: desde o versículo 29, o pedido de Abraão tem sempre exatamente as mesmas palavras, e só o número varia. O que muda de um lance para outro é apenas a embalagem de cortesia.
עֶשְׂרִים (esrim) — "vinte"
O numeral, formado sobre a raiz de dez.
Segundo salto de dez consecutivo. Restará apenas um.
Não há carga simbólica reconhecível na Bíblia para este número. Vale a mesma cautela aplicada nos versículos anteriores: elementos de uma progressão devem ser lidos dentro dela.
לֹא אַשְׁחִית (lo ashchit) — "não destruirei"
Volta o verbo específico da ruína, o mesmo do dilúvio e o mesmo que Abraão introduzira no versículo 28.
Nos versículos 29 e 30, a resposta usara o verbo genérico — não farei. Aqui o específico retorna, e permanecerá no versículo 32.
Note-se que o hebraico não traz objeto: lê-se apenas "não destruirei". O pronome "a", nas traduções portuguesas, é acréscimo necessário à língua de chegada, e refere-se à cidade.
בַּעֲבוּר הָעֶשְׂרִים (ba'avur ha'esrim) — "por causa dos vinte"
A preposição causal característica das respostas divinas, mais o numeral com artigo definido.
E some a condição. No versículo 30 lia-se "se eu achar ali trinta"; aqui não há partícula condicional.
Observe-se a regularidade já apontada no versículo 30: quando a resposta traz a preposição de causa, o número vem com artigo; quando traz a condição, vem sem. A distribuição é exata nos seis casos do capítulo.
Nota — a alternância das fórmulas de cortesia
Convém deixar registrado o padrão, porque este versículo o completa.
Versículo 27: "eis que me atrevi a falar ao meu Senhor, e eu sou pó e cinza".
Versículo 30: "que não arda para o meu Senhor, e que eu fale".
Versículo 31: "eis que me atrevi a falar ao meu Senhor".
Versículo 32: "que não arda para o meu Senhor, e que eu fale somente esta vez".
A alternância é regular, e as duas fórmulas têm objetos distintos: a primeira trata da iniciativa de quem fala, a segunda antecipa a disposição de quem ouve.
Note-se ainda que cada fórmula, na segunda aparição, sofre uma modificação. A primeira perde o "pó e cinza". A segunda ganha o "somente esta vez".
Uma encolhe, a outra cresce — e a que cresce é a que encerra o diálogo.
Registro como dado de composição. Com quatro casos, não é possível afirmar intenção.
Nota — o nome que não aparece em lugar nenhum
Um registro de vocabulário que atravessa o bloco inteiro e que vale fixar aqui.
Nos onze versículos do diálogo, os substantivos que designam pessoas são: Abraão, no versículo 23; o SENHOR, nos versículos 26 e 33; "justo" e "ímpio", nos versículos 23 e 25; "justos", nos versículos 24, 26 e 28.
Nomes próprios de lugar: Sodoma, uma única vez, no versículo 26.
Não aparecem: Gomorra, que fora nomeada no versículo 20; e Ló, que mora na cidade em discussão.
A ausência de Ló é total e vale ser dita com todas as letras, porque muitas exposições da cena o mencionam como se ele estivesse na conversa.
Ele não está. E o narrador, que o nomeará seis vezes no capítulo seguinte, não o menciona aqui uma única vez.
11. Conclusão
A cortesia volta, e volta mutilada: fica o "eis que me atrevi a falar ao meu Senhor" e cai o "eu que sou pó e cinza". Pode ser a economia que atinge todo o diálogo, e pode ser que a imagem tenha se gasto — declarações de insignificância repetidas a cada dois versículos deixam de humilhar e começam a soar automáticas. Com os quatro últimos lances lado a lado aparece uma regularidade: fórmula do atrevimento no versículo 27, fórmula da ira no 30, atrevimento aqui, ira no 32. As duas alternam, e fazem trabalhos opostos — uma assume a iniciativa de quem fala, a outra antecipa a disposição de quem ouve.
O número desce a vinte, e é aqui que a aritmética começa a esbarrar no tamanho de uma família. O que torna incontornável a maior ausência do capítulo: em onze versículos de negociação sobre Sodoma, Ló não é nomeado uma única vez. O leitor sabe que ele mora lá; o narrador, que o nomeará seis vezes no capítulo seguinte, não o menciona aqui. Três leituras se sustentam — que Abraão pede por ele sem dizer, que o silêncio é a técnica, ou que a cena simplesmente não é sobre ele — e nenhuma se impõe. O capítulo 19 complica todas as três ao informar que Deus se lembrou de Abraão e por isso tirou Ló dali: o parentesco operou sem ter sido alegado.
Há, porém, uma ausência maior, e ela quase nunca é mencionada. Ninguém propõe que Sodoma se arrependa. Toda a conversa gira em torno de contagem — quantos justos existem, quantos bastam —, e em momento nenhum se cogita avisar a cidade, enviar alguém, conceder prazo ou dar aos culpados a chance de mudar. Abraão morava perto, tinha trezentos e dezoito homens na casa e já entrara em Sodoma antes. A alternativa era barata e não é sequer levantada.
O contraste com o resto da Bíblia é gritante. Jonas é enviado a Nínive com quarenta dias de prazo, e a cidade se converte e sobrevive. Jeremias enuncia a regra: se a nação se converter, Deus muda de ideia quanto ao mal que pensara fazer. Ezequiel declara que Deus não tem prazer na morte do perverso e responsabiliza o sentinela que se cala. As Crônicas atribuem à misericórdia o envio insistente de mensageiros antes do fim de Jerusalém. Uma carta do Novo Testamento chega a dar ao dilúvio um pregador prévio. Sodoma não tem nada disso — o único que tentará avisar é Ló, no capítulo seguinte, quando a decisão já está tomada, e os genros riem dele.
E então há a frase que a pregação corrente nunca cita ao lado deste capítulo. Falando a Cafarnaum, Jesus diz que, se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres feitos ali, ela teria permanecido até hoje. Convém marcar o limite antes de qualquer conclusão: o gênero é o da acusação hiperbólica, o alvo é uma cidade contemporânea, e não se está fazendo teologia sobre o passado. Feita a ressalva, o incômodo continua de pé — a Escritura contém, ao mesmo tempo, o relato de uma cidade destruída sem uma única advertência e a afirmação de que ela teria mudado se a tivesse recebido. Não é possível conciliar as duas coisas sem forçar alguma delas, e este comentário deixa as duas onde estão.













