Mas eles responderam: “Não podemos, até que todos os rebanhos se reúnam e removam a pedra da boca do poço; então daremos de beber às ovelhas.”
1. Introdução
Os pastores respondem, e a resposta desmonta o diagnóstico de Jacó sem discutir com ele.
Ele havia dito que o dia rendia e que ninguém deveria estar parado. Eles não negam nada disso. Apenas informam que ali existe um procedimento, e que ele ainda não pode ser cumprido.
Dois pontos merecem atenção.
O primeiro é a palavra escolhida. Eles não dizem que não querem, que não é permitido ou que não é hora. Dizem que não podem — o que transfere a questão do campo da vontade para o campo da capacidade.
O segundo é o sujeito da frase. Toda a resposta está no plural. Quem não pode não é cada um deles: é o grupo, enquanto o grupo estiver incompleto.
Fica de pé uma dúvida que o versículo não resolve e que o capítulo vai cutucar dois versículos adiante: aquilo era impossibilidade real ou apenas o jeito de sempre?
2. Contexto Histórico e Cultural
Combinados sem papel, sem juiz e sem polícia
Numa aldeia daquele tamanho não havia contrato escrito, tribunal próximo nem autoridade que fizesse cumprir um acordo entre pastores. O que existia era a palavra dada e a memória dos vizinhos.
Isso torna a reputação o único mecanismo de garantia. Quem furava o combinado não era multado: era comentado. E como todos dependiam uns dos outros para vigilância de rebanho, empréstimo de animal, ajuda em tosquia e casamento de filhos, ser conhecido como o homem que não cumpre custava caro por muitos anos.
Daí a força de uma frase como a do versículo. "Não podemos" não descreve, ali, apenas o peso de uma pedra. Descreve a posição de quem seria, se agisse sozinho, o primeiro a romper alguma coisa diante de testemunhas.
Rebanhos de donos diferentes no mesmo ponto de água
O texto informa, em Gênesis 29:2, que três rebanhos estavam ali, e a resposta dos pastores fala em "todos os rebanhos". Não se trata, portanto, de um rebanho grande, e sim de vários, de proprietários distintos.
Isso cria um problema prático que nós, hoje, dificilmente imaginamos: animais de donos diferentes se misturam com facilidade e não se separam com facilidade. As soluções da época eram marcas de corte na orelha, tinta ou marca a fogo, e sobretudo o hábito — cada rebanho seguia a voz do seu pastor, ponto que Jesus explorará em João 10:3-4.
Juntar tudo num mesmo instante, e não aos poucos, reduz o número de vezes em que a mistura acontece. É uma das razões possíveis para a espera, e o texto não a declara.
Como se respondia a uma repreensão
A cortesia oriental tinha um traço que costuma escapar ao leitor moderno: discordar sem confrontar era sinal de educação, não de covardia.
Os pastores não replicam a Jacó que ele não é dali, que não sabe do que fala ou que não tem autoridade nenhuma. Também não se justificam nem se desculpam. Explicam o procedimento e param.
Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) observa que eles tomaram a fala de Jacó em boa parte e devolveram uma resposta civil. Vale acrescentar o que a civilidade esconde: uma explicação que não pede licença é também uma recusa firme.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas eles responderam:"
O plural é a primeira informação do versículo.
Jacó falou sozinho; a resposta vem em coro. Não há porta-voz, não há nome, não há um que se destaque. O texto trata aqueles homens como bloco, e é assim que eles próprios se apresentam na frase seguinte.
Isso importa porque define o que está em jogo. Uma pessoa pode decidir mudar de comportamento; um costume compartilhado exige que todos mudem ao mesmo tempo, e ninguém quer ser o primeiro.
"Não podemos"
Duas palavras, e elas carregam o versículo inteiro.
Repare no que não foi dito. Não disseram "não queremos", que seria admitir preferência. Não disseram "não é permitido", que apontaria para uma autoridade. Não disseram "não é costume", que classificaria a coisa como hábito. Escolheram o verbo da capacidade.
E esse verbo tem um efeito notável sobre a conversa: encerra a discussão sem criar conflito. Contra "não quero" se argumenta. Contra "não posso" não há o que dizer, porque a impossibilidade não se negocia.
Só que "não podemos" é uma frase escorregadia. Ela cobre pelo menos quatro situações diferentes, e o texto não informa qual delas está em jogo.
Pode ser força: a pedra é pesada demais para o número de homens presentes. Pode ser combinado: existe um acordo entre os criadores, e rompê-lo tem consequências. Pode ser prudência: abrir o poço mais vezes multiplica a chance de desperdício, de sujeira e de confusão entre rebanhos. E pode ser simples inércia: nunca se fez de outro jeito, e por isso não se faz.
As quatro são plausíveis. Gênesis não escolhe — e essa recusa em escolher é o que dá tensão ao versículo 10, quando um homem sozinho fizer o que o grupo dizia não poder.
"até que todos os rebanhos se reúnam"
Aqui está o núcleo da resposta, e há um detalhe fino que a tradução preserva mal.
Jacó havia usado, no versículo anterior, o verbo de reunir para dizer que ainda não era hora de recolher os animais. Os pastores devolvem o mesmo verbo com outro sentido: reunir, para eles, não é encerrar o dia, é juntar os rebanhos no poço. A palavra é a mesma; o que ela significa não é.
É um mal-entendido em miniatura, e ele explica a cena inteira. Jacó viu homens recolhendo cedo. Eles estavam, na verdade, esperando o momento de reunir. O tratamento da palavra fica para o item 10; o que importa aqui é o resultado: os dois lados usam o mesmo termo e falam de coisas diferentes.
Note-se também que a condição não depende deles. "Até que todos os rebanhos se reúnam" põe o gatilho fora do alcance de quem responde. Eles não estão adiando por decisão própria; estão aguardando terceiros que ainda não chegaram — e um desses terceiros, o leitor já sabe desde o versículo 6, é Raquel.
"e removam a pedra da boca do poço"
A segunda etapa da condição, e o versículo a menciona sem explicá-la, porque a explicação já foi dada em Gênesis 29:3.
Vale apenas registrar quem faz o quê na frase. O sujeito é indeterminado e plural: removem. Não há "nós removemos", embora a frase seguinte volte ao "nós". A remoção da pedra aparece como algo que acontece quando todos estão presentes, quase como etapa de um processo, e não como ação de alguém em particular.
É um jeito de falar que se reconhece em qualquer lugar onde há rotina firmada: as coisas "são feitas", sem que se diga por quem.
"então daremos de beber às ovelhas"
A frase fecha em promessa, e é aí que a resposta deixa de ser recusa.
Eles não estão negando o que Jacó pediu. Estão dizendo que farão exatamente aquilo — só que depois. O verbo volta ao "nós", agora com o serviço garantido para o momento certo.
Há uma leitura possível, e apenas possível, no fato de repetirem a palavra que Jacó havia usado. Ele mandou dar de beber às ovelhas; eles respondem que darão de beber às ovelhas. Pode ser mera retomada do assunto, o que é a explicação mais provável. Pode ser também a maneira educada de devolver a ordem a quem a deu, com a condição por cima.
O que o versículo não diz
Gênesis não avalia a resposta. Não diz se os pastores tinham razão, se estavam se escondendo atrás do costume ou se eram apenas homens cumprindo o que sempre cumpriram.
Também não registra reação alguma de Jacó. Entre esta fala e o gesto do versículo 10 não há uma palavra dele — e o silêncio é bastante eloquente para quem acabara de dar duas ordens.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os pastores de Harã
Continuam anônimos, e o versículo acrescenta a única coisa que se sabe deles: são homens que se orientam por um acordo e preferem esperar a rompê-lo.
Não há como determinar se eram donos, filhos de donos ou contratados. A resposta em bloco sugere, sem provar, que agiam por combinado antigo, e não por ordem de um patrão presente.
Os rebanhos ausentes
São os personagens invisíveis da cena. Três rebanhos estavam ali, segundo Gênesis 29:2; a fala dos pastores revela que faltavam outros.
É essa ausência que trava tudo. E o leitor sabe, desde o versículo 6, que um dos rebanhos a caminho é o de Labão, conduzido por Raquel — o que transforma a espera dos pastores no mecanismo que produzirá o encontro.
Jacó, calado
Ele não responde. Não insiste, não discute, não pergunta por que a regra existe.
O texto o deixa em silêncio por dois versículos inteiros, e volta a ele apenas quando Raquel aparece. Se o silêncio é aceitação, desistência ou espera, Gênesis não informa.
O poço e a pedra
Já apresentados em Gênesis 29:2-3, e aqui apenas retomados pela fala dos pastores. A pedra grande sobre a boca do poço é o objeto em torno do qual gira o arranjo que eles invocam.
5. Pontos de Ensino
"Não podemos" quase nunca significa só uma coisa
A frase dos pastores é honesta e ambígua ao mesmo tempo, e essa combinação é comum.
Quem a diz costuma acreditar nela. Não é mentira: é a experiência de quem nunca viu ser feito de outro jeito, e para quem a diferença entre "não se faz" e "não se pode" desapareceu há muito tempo.
Distinguir os dois casos exige uma pergunta concreta — o que precisaria mudar para que fosse possível? — e a maior parte das conversas nunca chega a fazê-la.
A regra que trava também protege
É fácil ler os pastores como preguiçosos. O texto não autoriza isso.
Uma regra que impede qualquer um de abrir o poço quando quiser protege quem chega por último, protege quem tem menos força e protege o próprio poço. O incômodo que ela causa a Jacó é o mesmo mecanismo que impede o mais forte de servir-se primeiro.
Toda regra que atrasa alguém está, em geral, defendendo outro alguém. Perguntar quem é esse outro costuma revelar por que a regra existe.
Esperar junto é um custo que ninguém contabiliza
Aqueles homens estão parados havia horas, e provavelmente estarão por mais algumas.
É trabalho invisível: não produz nada, não aparece em lugar nenhum e ainda assim consome o dia. Arranjos coletivos costumam pagar a coordenação com esse tipo de moeda, e quem está de fora só enxerga a ociosidade.
Ninguém quer ser o primeiro
A resposta está no plural porque o problema é do plural.
Cada um daqueles pastores talvez preferisse dar de beber e ir embora. Nenhum deles vai fazer isso sozinho, porque o primeiro a agir paga sozinho o custo de ter quebrado o combinado, e o benefício se dilui entre todos.
É a razão pela qual acordos ruins duram tanto. Não é preciso que alguém os defenda: basta que ninguém queira ser o primeiro a sair.
6. Aspectos Filosóficos
A questão: quem é o sujeito de "não podemos"?
O versículo levanta um problema que não precisa de nenhum sistema filosófico para ser percebido, e que aparece inteiro em duas palavras.
Quando uma pessoa diz "não posso", a frase se verifica olhando para ela. Quando um grupo diz "não podemos", a frase pode ser verdadeira sem que seja verdadeira para nenhum dos membros isoladamente — e pode ser falsa mesmo quando todos acreditam nela.
É um tipo de afirmação estranha. Ela descreve uma capacidade que não pertence a ninguém em particular.
Três coisas diferentes com o mesmo nome
Vale separar o que a frase mistura.
Há a impossibilidade física: a pedra pesa mais do que aqueles braços conseguem mover. É uma afirmação sobre o mundo, e se resolve com uma balança.
Há a impossibilidade de coordenação: cada um poderia, mas nenhum age sozinho, porque agir sozinho custa caro e rende pouco. É uma afirmação sobre incentivos, não sobre força — e é o caso mais comum.
E há a impossibilidade herdada: ninguém sabe se poderia, porque ninguém tentou. É uma afirmação sobre a memória do grupo, e é a mais difícil de perceber por dentro, porque se apresenta com a mesma cara das outras duas.
O que o versículo permite dizer
Gênesis não classifica o caso. Registra a frase e segue.
O que se pode observar é que a terceira possibilidade fica em aberto, e que o texto parece deliberado nisso: dois versículos depois, um homem sozinho fará o que o grupo dizia depender de todos. Isso não prova que os pastores estivessem errados — a força de Jacó pode ter sido excepcional, ou a pedra menos pesada do que a fama dela. Mas deixa a dúvida instalada.
E convém marcar o limite com clareza: o texto não repreende os pastores, não elogia Jacó por contrariá-los e não conclui nada sobre costumes. Quem tira daqui uma lição sobre coragem contra a inércia está fazendo leitura de comentarista, e deve dizer que é isso.
7. Aplicações Práticas
Testar todo "não dá" que você ouvir
Vale um hábito simples, e ele funciona em empresa, em repartição, em casa e em igreja.
Ao ouvir que não é possível, perguntar o que precisaria acontecer para que fosse. Quem responde com uma condição concreta — falta uma peça, falta assinatura, falta gente — estava falando de impossibilidade real, e agora existe um caminho. Quem não consegue responder estava falando de outra coisa, e descobre isso na hora.
A pergunta tem a vantagem de não acusar ninguém. Ela pede informação, e não confissão.
Perguntar quem a regra protege antes de atacá-la
Antes de tratar um procedimento como burocracia inútil, vale procurar o beneficiário.
Muitas regras chatas existem porque alguém, uma vez, se deu mal. Outras existem porque protegem quem não tem voz para se defender sozinho. E algumas, de fato, não protegem mais ninguém — mas essa conclusão precisa ser alcançada, e não presumida.
Não punir quem cumpre o combinado
Os pastores não fizeram nada de errado. Foram cobrados assim mesmo, por alguém que tinha razão nos fatos e nenhuma informação sobre o contexto.
Isso acontece o tempo todo com quem opera regras que não criou: o atendente, o funcionário do balcão, o subordinado que segue o manual. A cobrança pesa sobre quem está visível, e não sobre quem decidiu.
A aplicação é direta: separar a crítica ao arranjo da crítica à pessoa que o executa. Elas parecem a mesma coisa e não são.
Reconhecer a espera que não parece trabalho
Boa parte do que se faz numa organização é esperar pelo outro, e esse tempo não aparece em relatório nenhum.
Quem chega de fora vê ociosidade. Quem está dentro sabe que a alternativa a esperar seria refazer, corrigir e discutir depois. Vale medir esse custo antes de eliminá-lo, porque ele costuma reaparecer em outro lugar, maior.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os pastores estavam mentindo?
Nada no texto sugere má-fé.
Eles não inventam a regra na hora: ela já havia sido descrita, em Gênesis 29:3, antes de Jacó abrir a boca. Isso a torna prática estabelecida, e não desculpa improvisada.
O que fica em aberto é outra coisa: se a regra ainda tinha a razão que a criou, ou se apenas continuava sendo cumprida. E disso Gênesis não trata.
Se Jacó rolou a pedra sozinho, por que eles não rolavam?
É a pergunta que o capítulo provoca, e ela não tem resposta segura.
Há quem sustente força excepcional de Jacó, há quem sustente que a dificuldade era menor do que a fama, e há quem veja no episódio um comentário silencioso sobre o comodismo daqueles homens. As três leituras aparecem na história da interpretação, e o gesto propriamente dito pertence ao versículo 10.
O importante aqui é notar que o versículo 8 torna esse gesto possível como cena. Sem a recusa, rolar a pedra não significaria nada.
Por que eles não explicam a razão do costume?
Porque quem vive dentro de uma prática raramente tem a razão dela à mão.
Não é ignorância nem descaso: é o modo normal de operar. As pessoas aprendem procedimentos, não justificativas — e só descobrem que não sabem explicar quando alguém de fora pergunta.
Gênesis, de todo modo, não diz se Jacó chegou a perguntar. O diálogo termina aqui.
Por que o texto registra uma conversa tão banal?
Gênesis costuma ser econômico, e três versículos de diálogo com figurantes chamam atenção.
Uma explicação possível é de composição: a recusa prepara o contraste do versículo 10. Outra é de caracterização: Jacó aparece falando antes de conhecer o lugar, o que é um traço dele.
São leituras, não afirmações do texto, que nunca explica por que conta o que conta.
9. Conexão com Outros Textos
Quando "não puderam" é a palavra do texto
Juízes 1:19 — "O SENHOR estava com Judá, e este tomou posse da região montanhosa; não pôde, porém, expulsar os habitantes do vale, porque tinham carros de ferro."
O mesmo verbo de capacidade, e a mesma ambiguidade: é discutido se o texto registra impossibilidade material ou falta de disposição, já que a frase anterior diz que Deus estava com eles.
Gênesis 32:25 — "Quando viu que não podia com ele, tocou-lhe a articulação da coxa."
É o mesmo verbo, aplicado à luta noturna de Jacó no vau do Jaboque. A história dele começa ouvindo homens dizerem que não podem e vira num lugar onde o que não pode é o adversário.
Servir a água como gesto que define alguém
Gênesis 24:19-20 — "Depois de lhes dar de beber, disse: Tirarei água também para os seus camelos, até que acabem de beber. Correu de novo ao poço para tirar água, e tirou para todos os camelos dele."
O contraste é forte. Ali uma jovem sozinha se dispõe a tirar água para dez camelos; aqui vários homens explicam por que não podem tirar água para as ovelhas que já estão deitadas ao lado do poço.
Provérbios 3:27 — "Não negue um favor a quem tem direito a ele, estando em suas mãos fazê-lo."
O provérbio condiciona o dever à possibilidade — "estando em suas mãos" — e é exatamente esse ponto que a resposta dos pastores nega.
O que só se faz junto
Eclesiastes 4:9-10 — "Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Pois se caírem, um levanta o companheiro; ai do que estiver só, pois, caindo, não haverá quem o levante."
A sabedoria de Israel valoriza a força do conjunto. O versículo 8 mostra o outro lado da mesma moeda: o que depende de todos não acontece enquanto faltar um.
Neemias 4:6 — "Edificamos, pois, o muro, e todo o muro se fechou até a metade da sua altura, porque o povo teve ânimo para trabalhar."
Um caso em que o grupo age. A diferença com o poço de Harã não é de força, e sim de decisão comum.
Cada rebanho conhece a voz do seu
João 10:3-4 — "As ovelhas ouvem a sua voz; ele chama pelo nome as suas ovelhas e as conduz para fora. Elas o seguem, porque conhecem a sua voz."
Descreve como rebanhos misturados num mesmo ponto voltavam a se separar — informação prática que ajuda a entender por que o encontro de todos os rebanhos era um momento marcado, e não uma confusão contínua.
A prática do lugar
Gênesis 29:3 — "Quando todos os rebanhos se reuniam ali, os pastores rolavam a pedra da boca do poço e davam de beber às ovelhas."
A resposta do versículo 8 é a repetição, na boca dos próprios pastores, do que o texto já havia informado ao leitor.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Mas eles responderam: “Não podemos, até que todos os rebanhos se reúnam e removam a pedra da boca do poço; então daremos de beber às ovelhas.”
Texto hebraico
וַיֹּאמְרוּ֮ לֹ֣א נוּכַל֒ עַ֣ד אֲשֶׁ֤ר יֵאָֽסְפוּ֙ כׇּל־הָ֣עֲדָרִ֔ים וְגָֽלְלוּ֙ אֶת־הָאֶ֔בֶן מֵעַ֖ל פִּ֣י הַבְּאֵ֑ר וְהִשְׁקִ֖ינוּ הַצֹּֽאן׃
Transliteração
Vayyomeru lo nukhal ad asher ye'asefu kol ha'adarim ve-galelu et ha'even me'al pi habe'er, ve-hishqinu hatson.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמְרוּ — vayyomeru, "e eles disseram". O mesmo verbo do versículo anterior, agora no plural.
A simetria é limpa: vayyomer para Jacó, vayyomeru para eles. Um fala; muitos respondem.
לֹא נוּכַל — lo nukhal, "não podemos". Do verbo yakhol, poder, ser capaz, dar conta.
Esta é a palavra-chave do versículo, e o campo dela é mais largo do que o "poder" português.
Yakhol cobre a capacidade física, a permissão e, num uso muito característico, o prevalecer sobre alguém numa disputa. É o verbo de Gênesis 30:8, quando Raquel diz ter lutado com a irmã e vencido, e é o verbo da luta noturna de Jacó em Gênesis 32:25-28: o adversário "não pôde com ele", e depois lhe diz que ele "prevaleceu".
Vale notar a curva. Jacó chega a Harã ouvindo homens dizerem lo nukhal, e deixa a região, vinte anos depois, sendo aquele diante de quem alguém não pôde. O texto não faz esse comentário; a repetição da raiz é um dado, e a leitura que a liga é do comentarista.
Um segundo detalhe: a forma é imperfeita, que em hebraico serve tanto para o presente quanto para o futuro. Cabe tanto "não podemos" quanto "não poderemos". A tradução escolhe o presente, e a maioria das versões faz o mesmo.
עַד אֲשֶׁר — ad asher, "até que".
Locução que introduz condição de tempo. Ela transforma a recusa em adiamento: o que se diz não é "nunca", e sim "ainda não".
É uma diferença importante para o tom da cena. Os pastores não fecham a porta — informam quando ela se abre.
יֵאָסְפוּ — ye'asefu, "sejam reunidos", "se reúnam". Forma passiva do verbo asaf.
Aqui está o encontro mais fino do diálogo. Jacó havia usado exatamente este verbo, no versículo 7, ao dizer que não era hora de o gado "ser recolhido". Os pastores devolvem a mesma raiz para dizer o contrário: falta que os rebanhos "sejam reunidos".
O verbo é um só e os sentidos são dois. Para Jacó, reunir é encerrar a jornada e levar os animais para casa. Para eles, reunir é o ajuntamento no poço que autoriza a abertura. Ele leu como fim de expediente aquilo que era espera.
A forma passiva acrescenta um detalhe: os rebanhos não se reúnem por decisão dos pastores presentes. A coisa acontece quando acontece.
כָּל־הָעֲדָרִים — kol ha'adarim, "todos os rebanhos".
Eder é o rebanho como grupo separado, a manada que anda junta e tem um responsável. Difere de tson, que designa o gado miúdo em geral, sem recorte.
Por isso a frase do versículo usa as duas palavras em funções distintas: são os adarim, os grupos, que precisam estar todos presentes; e é o tson, o gado, que receberá água.
E há o peso de kol, "todos". Não basta a maioria: a condição é a presença completa, o que explica por que um único rebanho ausente trava a tarde inteira.
וְגָלְלוּ — ve-galelu, "e rolarem". Do verbo galal, rolar, fazer girar.
É a mesma forma usada em Gênesis 29:3, na descrição do costume. Os pastores repetem, palavra por palavra, o que o texto já havia dito — o que confirma que estão enunciando procedimento, e não improvisando explicação.
A raiz galal é a mesma de gilgal, "círculo de pedras", nome de vários lugares em Israel, e reaparece em Josué 10:18, na ordem de rolar pedras grandes contra a boca de uma caverna.
מֵעַל פִּי הַבְּאֵר — me'al pi habe'er, "de sobre a boca do poço".
Pi é literalmente "boca" — a mesma palavra usada para a boca de uma pessoa. O hebraico trata aberturas assim com naturalidade: a terra abre a boca em Números 16:32, e o poço tem boca aqui.
Be'er é o poço cavado, distinto de ayin, a fonte que brota sozinha. A diferença é de trabalho: um exige que se tire a água, o outro não. É por isso que só o primeiro precisa de tampa, de regra e de gente reunida.
וְהִשְׁקִינוּ הַצֹּאן — ve-hishqinu hatson, "e daremos de beber ao rebanho".
O verbo é o mesmo que Jacó havia usado no imperativo, na forma causativa de shaqah — dar de beber. Eles o devolvem no plural da primeira pessoa.
É a frase que converte a recusa em compromisso: faremos o que você mandou, quando for a hora. Se há alguma ironia na retomada literal da palavra dele, o texto não permite decidir.
11. Conclusão
A resposta dos pastores é curta e produz três conclusões.
A primeira é sobre a natureza da recusa. Eles não contestam o argumento de Jacó, e é justamente por isso que a resposta é eficaz: quem responde com uma impossibilidade não precisa vencer a discussão, apenas encerrá-la. O verbo escolhido tira o assunto do terreno da vontade, onde se argumenta, e o leva para o da capacidade, onde não se argumenta.
A segunda é sobre o sujeito. Tudo ali está no plural, e a capacidade em questão não pertence a nenhum daqueles homens. Disso decorre uma constatação que vale muito além do poço: arranjos que dependem de todos não são desfeitos por ninguém, porque quem sair primeiro paga sozinho por um benefício que se reparte.
A terceira é sobre o mal-entendido. Jacó e os pastores usam a mesma palavra para reunir e falam de coisas diferentes — ele pensa em recolher para a noite, eles pensam em juntar no poço. A cena inteira é uma conversa em que os dois lados estão corretos e não se entendem.
Resta o que Gênesis deixou aberto de propósito. Não se sabe se aquilo era impossibilidade, combinado, prudência ou hábito; não se sabe se a razão original da regra ainda valia; e não se registra reação nenhuma de Jacó.
Fica de pé um grupo de homens esperando por gente que ainda não chegou, com toda a razão do lado deles e nenhuma resposta para a pergunta que o versículo 10 fará em silêncio.













