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Gênesis 31:14

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 42 acessos
Raquel e Lia lhe responderam: “Ainda temos parte ou herança na casa do nosso pai?
Duas mulheres de vestes longas em pé num pasto aberto, conversando com um homem, com tendas e rebanho ao fundo.

Estudo


Raquel e Lia lhe responderam: “Ainda temos parte ou herança na casa do nosso pai?

1. Introdução

Depois de nove versículos falando, Jacó se cala.

Ele apresentou o balanço dos vinte anos, a acusação contra o sogro, o sonho, a fala do anjo e a ordem de partir. Agora quem responde são as duas mulheres — e a resposta não trata de nada disso.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é a ordem dos nomes. "Raquel e Lia", a mais nova antes da mais velha. Gênesis costuma apresentá-las na ordem inversa, e a inversão aqui não é a única do versículo.

O segundo é a forma da resposta. Não é uma afirmação: é uma pergunta retórica, dessas que já trazem a resposta dentro. "Ainda temos parte ou herança na casa do nosso pai?" — e a resposta óbvia, para quem conhecia a situação delas, era não.

O terceiro é o assunto. Elas não discutem o sonho, não comentam o anjo, não perguntam sobre Betel. Falam de herança — do que lhes cabia e não veio.

Há ainda um detalhe gramatical que o hebraico registra e a tradução não consegue mostrar: o verbo de abertura está no singular, e o seguinte, no plural. Duas mulheres respondem como se fossem uma, e depois como se fossem duas.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem herdava no mundo dos patriarcas

A pergunta das duas mulheres pressupõe um sistema, e ele precisa ser descrito para que a pergunta faça sentido.

A regra geral no Oriente Próximo antigo era simples: herdavam os filhos homens. As filhas recebiam um dote no casamento e saíam da casa; a partir daí pertenciam à casa do marido, e o patrimônio do pai seguia pela linha masculina.

Havia variações locais. Em algumas cidades da Mesopotâmia, mulheres podiam receber bens, administrar propriedades e figurar em contratos. Documentos de Nuzi (cidade do norte da Mesopotâmia, onde se acharam milhares de tabuinhas com contratos do segundo milênio antes de Cristo) mostram arranjos em que uma filha recebia participação, e arranjos em que um genro era adotado como filho e herdava com os demais.

Mas o padrão era o que a pergunta supõe. Filha casada não herda.

Vale registrar como a lei de Israel tratará o assunto muito mais tarde. Números 27:1-11 conta o caso das filhas de Zelofeade, que reclamam a herança do pai morto sem filhos homens, e obtêm o direito — com a ressalva, em Números 36, de que devem casar dentro da própria tribo, para que a terra não mude de mão. Ou seja: mesmo a exceção foi concedida com trava.

Labão tinha filhos homens

Este é o dado factual que dá à pergunta a sua resposta.

O versículo 1 deste capítulo menciona "os filhos de Labão", falando entre si sobre o enriquecimento de Jacó. Gênesis 30:35 conta que Labão entregou aos filhos os animais retirados do rebanho.

Curiosamente, quando Jacó chegou a Harã, no capítulo 29 de Gênesis, o texto não menciona nenhum filho homem de Labão. Raquel apascentava o rebanho do pai, o que em geral indicava ausência de irmãos disponíveis. Se os filhos nasceram durante os vinte anos ou se apenas não foram mencionados antes, o texto não diz.

Seja como for, no momento desta conversa eles existem. E com filhos homens na casa, a herança das filhas era zero pela regra corrente.

A posição de uma filha casada

Há um detalhe da situação de Raquel e Lia que agrava tudo, e vale explicá-lo.

Normalmente, a filha casada saía da casa do pai e ia para a do marido, com o dote. Aqui não houve saída: Jacó permaneceu vinte anos trabalhando na propriedade do sogro, e as duas continuaram vivendo sob a órbita do pai.

Documentos mesopotâmicos preveem esse tipo de arranjo, em que o genro sem recursos entra na casa do sogro e trabalha para ele. Nesses casos, a posição do marido é frágil e a da filha é ambígua: ela é casada, mas não mudou de casa.

Isso explica por que a pergunta faz sentido no momento em que é feita. Elas não tinham saído, não tinham recebido nada, e agora lhes propõem uma partida definitiva. A resposta que dão é, no fundo, um cálculo: o que perdemos indo embora? Nada.

3. Análise Teológica do Versículo

"Raquel e Lia lhe responderam"

A ordem dos nomes chama atenção, e vale medir o quanto ela é incomum.

Gênesis normalmente apresenta as duas pela ordem de nascimento. Em Gênesis 29:16, "a mais velha se chamava Lia, e a mais nova, Raquel". Nas listas de filhos, Lia vem primeiro. Em Rute 4:11, a bênção dos anciãos de Belém diz "como Raquel e como Lia" — mas ali há um motivo, porque a fala é dirigida a uma mulher que entra numa família, e Raquel era a preferida.

Aqui a mais nova vem primeiro. As explicações possíveis são conhecidas: que Raquel falou por ambas, como sugere Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII); que a ordem reflete a preferência de Jacó, que amava Raquel; que se trata da ordem em que estavam ou em que chegaram.

Nenhuma é demonstrável. O texto não explica.

O dado seguro é o efeito: quem lê Gênesis em ordem chega aqui tendo acompanhado dois capítulos de disputa entre as duas — pelos filhos, pelo marido, pelas mandrágoras. E encontra os dois nomes juntos, na mesma frase, dando a mesma resposta.

O verbo que muda de número

Há uma irregularidade no hebraico que merece registro, e que nenhuma tradução consegue mostrar.

O primeiro verbo — "responderam" — está no singular. O segundo — "disseram" — está no plural. Literalmente, seria algo como "e respondeu Raquel e Lia, e disseram".

Construções assim ocorrem no hebraico bíblico quando o verbo vem antes de um sujeito composto, e os gramáticos as registram como regulares nesse caso. Não é erro.

Ainda assim, o efeito de leitura é curioso. A frase começa tratando as duas como uma unidade e termina tratando-as como duas pessoas. O que vem a seguir é uma fala única, sem indicação de quem disse o quê. A análise da forma verbal fica no item 10.

"Ainda temos parte ou herança na casa do nosso pai?"

A frase é uma pergunta que não espera resposta, e a resposta que ela pressupõe é negativa.

Duas palavras aparecem juntas, e elas não são sinônimas. A primeira designa a porção, o quinhão, a fatia que cabe a alguém numa divisão. A segunda designa a herança propriamente dita, o patrimônio que passa de uma geração a outra e permanece na família. O tratamento dos dois termos fica no item 10.

Juntas, as duas palavras cobrem tudo. Não sobra categoria: nem participação atual, nem expectativa futura.

A palavra "ainda" é o que dá o tom. Ela pressupõe um antes — houve um tempo em que havia algo, ou em que se podia esperar algo. Agora não há.

"na casa do nosso pai"

A expressão é técnica no mundo bíblico, e não significa apenas o prédio onde a família mora.

"Casa do pai" designa a unidade familiar inteira: as pessoas, os bens, a terra, os servos, o nome. É a menor unidade social de Israel, abaixo do clã e da tribo. Pertencer a uma casa é ter lugar, sustento e identidade.

Dizer que não se tem parte na casa do pai é, portanto, dizer mais do que não ter dinheiro a receber. É dizer que não se pertence mais àquilo.

E há um detalhe que vale notar. Elas dizem "o nosso pai", e não "o meu pai" ou "Labão". A expressão reconhece o vínculo no exato momento em que constata que ele não produz nada.

O que a resposta ignora

Vale registrar o que as duas não dizem, porque o silêncio é notável.

Jacó falou de sonho, de anjo, de Betel e de voto. Elas não mencionam nada disso — nem para concordar, nem para duvidar.

As leituras possíveis são várias. Pode ser que tenham aceitado o relato sem precisar comentá-lo. Pode ser que o argumento decisivo, para elas, fosse outro, e que o sonho tenha sido apenas a ocasião da conversa. Pode ser que o resumo do diálogo tenha deixado de fora a parte em que responderam a isso.

O texto não diz, e não é possível decidir. O que se pode afirmar é que a resposta registrada muda de assunto: Jacó falou do que Labão fez com ele; elas falam do que Labão fez com elas.

Essa mudança de assunto é o dado mais importante do versículo. A queixa delas é própria, tem base independente, e não depende de nada que Jacó tenha dito.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Raquel

A mais nova das duas, e a que Jacó quis desde o começo. Trabalhou sete anos por ela e recebeu a irmã no lugar, segundo Gênesis 29:23-25.

Foi estéril durante anos, enquanto Lia dava filhos, e Gênesis 30:1 registra a frase mais dura do conflito entre as duas: "Dê-me filhos, senão eu morro." Teve José, no fim do capítulo 30.

Aqui é nomeada primeiro.

Lia

A mais velha, entregue a Jacó no lugar da irmã por decisão do pai. Gênesis 29:31 diz que o SENHOR viu que ela era rejeitada, e lhe abriu o ventre.

Teve seis filhos e uma filha. Os nomes que deu a eles registram, um a um, a esperança de ser amada pelo marido — Gênesis 29:32-35 e 30:17-21 mostram isso com clareza dolorosa.

Labão

Aqui é "o nosso pai". As filhas usam a mesma fórmula de parentesco que Jacó vinha usando ao longo do discurso, mas com o sufixo trocado: ele dizia "o pai de vocês", elas dizem "o nosso pai".

Os filhos de Labão

Mencionados no versículo 1 deste capítulo, e em Gênesis 30:35. São eles que herdarão, e a existência deles é o que torna retórica a pergunta das irmãs.

O texto não informa quantos são nem os nomes. Não voltam a aparecer no capítulo.

O que aconteceu antes

Entre as duas irmãs, dois capítulos de disputa. Lia teve filhos e não teve o amor do marido; Raquel teve o amor e não teve filhos. O conflito atravessa Gênesis 29:31 até 30:24, com as servas entrando na disputa e o episódio das mandrágoras no meio.

Entre elas e o pai, catorze anos de trabalho de Jacó pagos com as duas — sete por cada uma, com a troca da noite de núpcias no meio.

Entre Jacó e Labão, os vinte anos que este capítulo vem detalhando.

5. Pontos de Ensino

Elas concordam por motivo próprio

Jacó construiu um argumento longo, com sonho, anjo e ordem divina. As duas respondem falando de herança.

O acordo é real, mas não se apoia no que ele disse. E isso é mais comum do que parece em decisões tomadas em conjunto: as pessoas chegam à mesma conclusão por caminhos diferentes, e ninguém confere.

Vale registrar que o texto não trata isso como problema. Registra a pergunta delas e segue.

A queixa delas é de justiça, não de sentimento

A resposta não fala de amor, de maus-tratos nem de mágoa. Fala de patrimônio: parte e herança.

Isso corrige uma leitura frequente, que trata a fala das duas como desabafo emocional. Não é. É uma constatação sobre a posição delas na casa, formulada com dois termos técnicos e uma pergunta que já sabe a resposta.

A pergunta retórica é uma forma de conclusão

Elas não afirmam "não temos nada". Perguntam se têm.

A diferença importa. A pergunta transfere a conclusão para quem ouve, e torna a afirmação mais difícil de contestar — quem discordasse teria de dizer o que exatamente elas tinham a receber.

Duas irmãs em disputa, uma resposta só

Raquel e Lia passaram dois capítulos brigando por filhos, por atenção e pelo marido. Aqui aparecem juntas, na mesma frase e com a mesma fala.

O que produziu a união não foi reconciliação: foi um interesse comum diante de um terceiro. O texto não comenta, e não convém transformar isso em lição sobre perdão — o que ele mostra é outra coisa, e mais dura.

Não pertencer mais à casa de onde se veio

"Casa do pai" era lugar, sustento e identidade. Dizer que não se tem parte nela é dizer que se está fora.

A constatação é fria e é feita sem lamento. Elas não dizem que gostariam de ter herança; dizem que não têm, e tiram daí a consequência prática.

6. Aspectos Filosóficos

Quando alguém deixa de pertencer à casa de onde veio

A pergunta das duas irmãs contém uma questão que o versículo não desenvolve e que vale enunciar: pertencer a uma família é um fato de nascimento ou um vínculo que se pode perder?

Pela linhagem, elas continuam filhas de Labão. O sangue não muda, o nome não muda, e a expressão que usam — "o nosso pai" — reconhece isso.

Pela posição efetiva, porém, elas se contam como quem está de fora. Não têm parte, não têm herança, e no versículo seguinte dirão algo ainda mais duro sobre a própria condição.

Duas medidas de pertencimento

O que a pergunta separa são duas coisas que costumam andar juntas.

Uma é o vínculo de origem: ser filho de alguém, ter vindo de uma casa. Esse vínculo não depende de conduta e não se desfaz por decisão.

A outra é a participação: ter parte no que a casa é e no que ela tem. Essa depende de reconhecimento, e o reconhecimento é ato de quem está no comando.

A pergunta delas mostra que as duas medidas podem se separar por completo. É possível continuar sendo filha e não ter nada de filha.

O que o versículo não resolve

Convém dizer onde o texto para.

Ele não diz se o vínculo de origem tem valor próprio, independentemente da participação. Não diz se elas estão certas ao concluir que nada as prende. E não registra nenhuma avaliação sobre a decisão que tomam a partir dessa conclusão.

O que fica é o registro de uma pergunta que qualquer pessoa em situação parecida já fez, e que Gênesis coloca na boca de duas mulheres sem comentar se a resposta que elas dão é a certa.

7. Aplicações Práticas

Perguntar o que de fato se perde ao sair

A decisão das duas se apoia num cálculo simples e honesto: o que temos a perder indo embora?

É uma pergunta útil e pouco feita. Quem hesita em sair de um emprego, de uma cidade, de um grupo ou de uma relação costuma medir o que vai enfrentar fora, e raramente mede o que de fato está recebendo dentro.

Na prática, ajuda escrever a lista. Não o que se espera receber um dia, nem o que se acha justo receber — o que se recebe hoje, verificável.

Vale o contrapeso: nem tudo o que uma casa dá é contabilizável, e há vínculos cujo valor não aparece numa lista. As duas irmãs estavam medindo patrimônio, e patrimônio se mede.

Concordar pelo motivo certo

Jacó apresentou um argumento; elas concordaram por outro.

Quando duas pessoas decidem juntas sem saber que estão decidindo por razões diferentes, o acordo é frágil — porque ele desmancha assim que a razão de um dos lados deixa de valer.

O procedimento é simples: depois do "sim", perguntar por quê. A resposta costuma surpreender.

Interesse comum não é reconciliação

As duas irmãs falam com uma voz só, e não há nada no texto que indique que a rivalidade tenha acabado.

Isso vale para famílias, sociedades e equipes: pessoas em conflito podem se alinhar perfeitamente diante de um problema externo, e voltar ao conflito assim que ele passar.

Quem confunde as duas coisas se surpreende depois.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Elas tinham mesmo direito a alguma coisa?

Pela regra corrente, não à herança propriamente dita — havia filhos homens na casa, e a herança seguia por eles.

A queixa delas, porém, não é sobre herança apenas. O versículo seguinte especifica de que se trata, e o assunto pertence a ele.

Vale registrar que a pergunta feita aqui é sobre expectativa futura, e que a resposta é claramente negativa dentro do sistema descrito no item 2.

Por que Raquel é nomeada antes de Lia?

O texto não explica, e as propostas — que Raquel falou por ambas, que a ordem reflete a preferência de Jacó, que é apenas a ordem em que estavam — são todas plausíveis e nenhuma demonstrável.

O que se pode afirmar é que a ordem contraria a que Gênesis usa em outros lugares, e que a inversão é digna de nota num livro que costuma ser cuidadoso com esse tipo de detalhe.

Elas acreditaram no sonho?

O texto não registra reação nenhuma ao relato.

Isso admite leituras opostas: aceitação silenciosa, indiferença ao argumento, ou resumo do diálogo por quem o conta. Não é possível decidir, e forçar uma das opções é acrescentar ao que está escrito.

O que se observa é que a resposta delas se apoia inteiramente em outra coisa.

Elas tinham escolha?

A pergunta é séria e o texto não a enfrenta.

Numa família daquele tipo, a decisão de partir cabia ao marido, e não é claro o que aconteceria se as duas discordassem. Jacó as consultou — o que é notável e não era obrigatório —, mas o texto não indica que a consulta fosse vinculante.

O que se pode dizer é que a resposta delas é ativa, não resignada. Elas não dizem "faremos o que você mandar"; apresentam um argumento próprio e, no versículo 16, dão uma instrução.

9. Conexão com Outros Textos

Parte e herança

Josué 22:25 — "Os seus filhos farão que os nossos filhos deixem de temer o SENHOR, dizendo: Vocês não têm parte no SENHOR."

A mesma palavra de "parte", aplicada a um vínculo que não é patrimonial. Ter parte é pertencer.

2 Samuel 20:1 — "Não temos parte em Davi, nem herança no filho de Jessé! Cada um às suas tendas, ó Israel!"

A fórmula com as duas palavras juntas, exatamente como aqui — e usada para anunciar uma separação. O paralelo é o mais próximo do Antigo Testamento.

1 Reis 12:16 — "Que parte temos nós com Davi? Não temos herança no filho de Jessé."

A mesma frase, repetida na ruptura que divide o reino. A expressão é, portanto, uma fórmula de rompimento, e não uma queixa qualquer.

Filhas e herança

Números 27:7 — "As filhas de Zelofeade falam o que é justo; certamente lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai."

A exceção que a lei virá a admitir, séculos depois, e só na falta de filhos homens.

Números 36:6 — "Casem-se com quem melhor lhes parecer, contanto que se casem na família da tribo de seu pai."

A trava que acompanha a exceção. O direito é concedido, e amarrado para que a terra não saia da tribo.

Jó 42:15 — "E seu pai lhes deu herança entre seus irmãos."

Um caso isolado e notável, apresentado pelo texto como sinal da fartura do fim do livro.

A casa do pai

Gênesis 12:1 — "Saia da sua terra, da sua parentela e da casa de seu pai."

A mesma expressão, e a mesma operação: sair da casa do pai é a condição para começar outra coisa.

Salmo 45:10 — "Ouça, filha, e veja; incline os ouvidos: esqueça o seu povo e a casa de seu pai."

Dirigido a uma noiva, e descrevendo como saída definitiva o que Raquel e Lia estão prestes a fazer.

As duas irmãs

Gênesis 30:1 — "Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja da irmã e disse a Jacó: Dê-me filhos, senão eu morro."

O ponto mais alto da disputa entre as duas, dois capítulos antes desta resposta comum.

Rute 4:11 — "O SENHOR faça a esta mulher que entra na sua casa como a Raquel e como a Lia, as quais ambas edificaram a casa de Israel."

A única outra passagem que nomeia as duas juntas e nessa ordem, e a que fecha a rivalidade num elogio comum.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Raquel e Lia lhe responderam: “Ainda temos parte ou herança na casa do nosso pai?

Texto hebraico

וַתַּ֤עַן רָחֵל֙ וְלֵאָ֔ה וַתֹּאמַ֖רְנָה ל֑וֹ הַע֥וֹד לָ֛נוּ חֵ֥לֶק וְנַחֲלָ֖ה בְּבֵ֥ית אָבִֽינוּ׃

Transliteração

watta'an Rachel weLe'ah wattomarnah lo: ha'od lanu cheleq wenachalah beveit avinu.

Análise palavra por palavra

וַתַּעַן — watta'an, "e respondeu". Verbo 'anah, responder, na forma que encadeia a narrativa, terceira pessoa do feminino singular.

O verbo está no singular, e o sujeito que vem depois são duas pessoas. Não é descuido: o hebraico bíblico admite a concordância com o primeiro elemento quando o verbo antecede um sujeito composto, e os gramáticos registram o fenômeno como regular.

O verbo 'anah merece nota. Ele não significa apenas "dizer em seguida": significa responder no sentido pleno — replicar, dar resposta a algo que foi colocado. É o verbo usado em contextos jurídicos, quando alguém responde a uma acusação, e também o verbo de "testemunhar" em algumas construções.

Existe no hebraico uma raiz homônima que significa afligir, humilhar, e outra que significa cantar ou entoar. São palavras diferentes que se escrevem igual, e só o contexto separa.

וַתֹּאמַרְנָה — wattomarnah, "e disseram". Verbo amar, dizer, terceira pessoa do feminino plural.

Aqui o número muda. A terminação é a do plural feminino, forma relativamente rara no Antigo Testamento simplesmente porque grupos de mulheres falam poucas vezes no texto.

A sequência — singular e depois plural — é o que produz o efeito comentado no item 3. Em português não há como reproduzi-la sem forçar a frase.

הַעוֹד — ha'od, "ainda?". Partícula de pergunta ha, mais o advérbio 'od, ainda, mais, de novo.

A partícula inicial marca a frase como interrogativa; o hebraico não tem ponto de interrogação, e é ela que faz o trabalho.

O advérbio 'od indica continuidade ou resto: aquilo que ainda permanece de algo. A pergunta, portanto, não é "temos herança?", e sim "ainda sobra alguma coisa para nós?". Pressupõe um estado anterior em que havia, ou em que se podia esperar.

חֵלֶק — cheleq, "parte, porção, quinhão".

Vem de uma raiz que significa dividir, repartir. Cheleq é a fatia que cabe a alguém quando algo é dividido — e a palavra é usada tanto para divisão de terra quanto para divisão de despojo.

O termo tem um uso religioso importante. Números 18:20 diz que os levitas não terão cheleq na terra, porque o SENHOR é a sua parte. O Salmo 16:5 diz "o SENHOR é a porção da minha herança", com a mesma palavra.

וְנַחֲלָה — wenachalah, "e herança".

Este é o termo técnico da herança patrimonial: o que passa de pai para filho e permanece na família por gerações. A raiz está ligada à ideia de receber em posse permanente.

É uma das palavras centrais do Antigo Testamento, e a que descreve a terra prometida como propriedade de Israel. A distinção em relação a cheleq é de duração: uma é a fatia recebida, a outra é o patrimônio que fica.

As duas aparecem juntas várias vezes, e a combinação funciona como fórmula. Em 2 Samuel 20:1 e em 1 Reis 12:16 ela abre declarações de ruptura política — "não temos parte em Davi, nem herança no filho de Jessé". É exatamente a mesma construção que as duas irmãs usam aqui, e o paralelo sugere que se trata de uma fórmula fixa de rompimento.

בְּבֵית אָבִינוּ — beveit avinu, "na casa do nosso pai".

Beit av, literalmente "casa de pai", é o termo técnico para a unidade familiar no Antigo Testamento: pessoas, bens, terra, servos e nome sob a autoridade de um chefe. É a menor unidade da estrutura social de Israel, abaixo do clã e da tribo, e aparece assim em Josué 7:14, na apuração por casas.

O sufixo é de primeira pessoa do plural: avinu, nosso pai. Vale comparar com o discurso de Jacó, que nos versículos 5 a 9 dizia avikhem, o pai de vocês. As duas fórmulas usam a mesma palavra e trocam apenas o sufixo — e a troca marca de que lado da família cada um está falando.

11. Conclusão

A resposta das mulheres começa aqui, e dela decorrem quatro conclusões.

A primeira é sobre o assunto. Jacó falou de sonho, de anjo, de voto e de Betel; elas respondem falando de parte e herança. A concordância existe, mas se apoia em outra base — e é honesto reconhecer que o argumento religioso do marido não é o que aparece na decisão delas.

A segunda é sobre a natureza da queixa. Não é desabafo: é constatação patrimonial, feita com dois termos técnicos e na forma de uma pergunta que já traz a resposta. Havia filhos homens na casa, e pela regra corrente a expectativa das filhas era nula.

A terceira é sobre a fórmula usada. "Parte e herança" aparece, nos mesmos termos, nas duas declarações de ruptura mais conhecidas do Antigo Testamento, em 2 Samuel 20:1 e 1 Reis 12:16. Ao empregá-la, as duas não estão apenas informando que não recebem nada — estão anunciando uma separação.

A quarta é sobre elas duas. Raquel e Lia atravessaram dois capítulos em disputa aberta e aparecem aqui na mesma frase, com a mesma fala e nenhuma diferença registrada entre as posições. O que as juntou não foi reconciliação; foi a constatação comum de que a casa do pai não lhes devolvia nada.

Fica de pé, para o versículo seguinte, o que a pergunta não especifica: por que exatamente elas se consideram sem parte. A resposta virá com um termo que ninguém esperaria de duas filhas falando do próprio pai.

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