Disse ainda Labão a Jacó: “Aqui está este monte, e aqui está a coluna que levantei entre mim e você.
1. Introdução
Labão aponta.
O versículo é curto e quase todo gesto: eis o monte, eis a coluna. São os dois objetos que estarão em jogo na cláusula do versículo seguinte, e ele os apresenta um a um antes de dizer para que servem.
Três pontos organizam a leitura.
O primeiro é a separação dos dois monumentos. Até aqui o texto vinha falando quase sempre do monte. Agora a coluna volta ao quadro, e volta como peça distinta — o que prepara o versículo 52, onde cada uma recebe um papel.
O segundo é uma frase que cria problema. Labão diz que levantou a coluna. O versículo 45 diz que quem a levantou foi Jacó.
O terceiro é a fórmula de sempre: "entre mim e você", agora pela quarta vez neste trecho.
Há ainda uma estranheza de construção. O texto reintroduz Labão como se ele estivesse começando a falar, quando ele fala sem parar desde o versículo 48.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que era uma coluna
A palavra hebraica designa uma pedra fincada em pé, isolada, geralmente sem trabalho de escultura. Não é estátua nem altar: é uma laje ou bloco erguido na vertical.
O objeto é comum em toda a região, e escavações em sítios de Canaã encontraram várias — inclusive fileiras inteiras de pedras fincadas, em lugares de culto, como em Gezer e em Hazor.
Os usos eram variados e o mesmo tipo de pedra servia a todos: marcar um túmulo, assinalar um santuário, registrar um acontecimento, delimitar um ponto. O que distingue um caso do outro não é a pedra — é o que se diz sobre ela.
O próprio Jacó ergue colunas em três momentos do Gênesis, com três finalidades diferentes. Em Gênesis 28:18, em Betel, depois do sonho da escada, e ali ela é santuário. Em Gênesis 35:14, no mesmo lugar, depois de Deus lhe falar de novo. E em Gênesis 35:20, sobre a sepultura de Raquel.
A coluna proibida depois
Vale registrar um dado que costuma surpreender: aquilo que Jacó faz com naturalidade seria proibido na lei de Israel.
Deuteronômio 16:22 ordena: "não levantarás coluna, que o SENHOR teu Deus odeia." Levítico 26:1 repete a proibição. E os profetas atacam as colunas repetidamente, associando-as ao culto cananeu.
A explicação corrente é de mudança de contexto. No tempo dos patriarcas o objeto era neutro, uma técnica disponível; quando Israel entra em Canaã, as mesmas pedras já estavam saturadas de culto a outros deuses, e a prática passa a ser condenada.
Não é possível verificar essa reconstrução em detalhe, e há quem a discuta. O que se pode afirmar é que o Gênesis não reprova nada aqui, e que textos posteriores reprovam o mesmo gesto — um dos vários casos em que a Bíblia registra uma prática numa época e a proíbe em outra.
Apontar faz parte do ato
O versículo é construído em torno de uma partícula que funciona como um dedo estendido: eis aqui.
Isso não é maneirismo de estilo. Num acordo sem escrita, o objeto precisa ser identificado fisicamente, na presença de todos, para que ninguém alegue depois que se tratava de outro. Apontar é a forma antiga de especificar.
O procedimento aparece em cenas jurídicas de todo o Antigo Testamento: mostra-se a coisa, nomeia-se a coisa, declara-se o que ela é. Foi o que Labão fez com o monte no versículo 48, e é o que faz agora com os dois.
3. Análise Teológica do Versículo
"Disse ainda Labão a Jacó"
A frase é estranha, e a estranheza é do próprio texto.
Labão vem falando ininterruptamente desde o versículo 48. Não houve resposta de Jacó, não houve pausa marcada, não houve mudança de cena. Ainda assim, o texto o reintroduz como se ele estivesse tomando a palavra.
Há duas leituras correntes. Uma entende a fórmula como recurso de composição, usado para marcar que começa aqui a parte final e mais importante do discurso — o que faria dela um recurso de ênfase. A outra vê nela indício de que o trecho reúne materiais de origens distintas, costurados no ponto em que a fórmula reaparece.
Não é possível decidir, e a escolha entre as duas leituras não muda o sentido do que vem a seguir.
"Aqui está este monte, e aqui está a coluna"
Os dois objetos são apresentados separadamente, cada um com o seu "eis aqui".
Isso importa porque, até este ponto, o monte tinha dominado a cena. Foi ele que os homens construíram, foi ele que recebeu nome, foi dele que Labão disse ser testemunha. A coluna havia aparecido no versículo 45 e sumido em seguida.
Agora ela volta, e volta em pé de igualdade. O versículo 52 vai dar uma função a cada uma — o monte testemunha, a coluna testemunha —, e é para isso que a apresentação em dois tempos prepara o leitor.
Por que dois monumentos, o texto não explica. Uma leitura possível é que cada um cumpra um papel diferente: a coluna marca um ponto, o monte ocupa um espaço; a coluna é obra de um homem, o monte é obra de muitos. Outra leitura, mais simples, é que a duplicidade venha de tradições distintas sobre o mesmo lugar, reunidas no relato. As duas são hipóteses.
"que levantei entre mim e você"
Aqui está a dificuldade real do versículo, e ela é do tipo que não se resolve fingindo que não existe.
Labão diz, em primeira pessoa e sem ambiguidade gramatical: a coluna que eu levantei.
Mas o versículo 45 deste mesmo capítulo diz: "Então Jacó tomou uma pedra e a levantou como coluna." O sujeito ali é Jacó, e não há como ler de outro modo.
Duas afirmações do mesmo texto, a seis versículos de distância, atribuem o mesmo ato a pessoas diferentes. As explicações propostas são quatro, e vale expor todas.
A primeira é a mais antiga e a mais simples: quem manda fazer diz que fez. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) sustenta que Labão fala dos dois monumentos como se os tivesse erguido porque foram feitos por ordem ou com o consentimento dele — a proposta do pacto tinha sido dele, no versículo 44. É como um rei dizer que construiu um templo.
A objeção a essa leitura é que o texto não registra ordem nenhuma de Labão a respeito da coluna. Jacó a levantou por iniciativa própria, imediatamente depois da proposta.
A segunda é textual. O Pentateuco Samaritano — versão dos cinco primeiros livros conservada pela comunidade samaritana, com diferenças em relação ao texto hebraico corrente — e a versão árabe trazem a segunda pessoa: "a coluna que você levantou". A diferença entre as duas formas, no hebraico, é de uma única letra.
Se essa leitura for a original, o problema desaparece por completo, e o que temos no texto corrente seria um erro de cópia bastante comum. A objeção é que a leitura mais difícil costuma ser a mais antiga: um copista tem motivo para trocar "eu levantei" por "você levantou", para harmonizar com o versículo 45, e nenhum motivo para fazer o contrário.
A terceira lê o texto como está e vê nele o caráter de Labão. Ele acabara de dizer, no versículo 43, "as filhas são minhas, os filhos são meus, os rebanhos são meus, e tudo o que você vê é meu". Reivindicar também o monumento seria coerente com o homem que o capítulo apresenta.
É uma leitura atraente, e por isso mesmo convém marcá-la: o texto não a afirma. Ele não diz que Labão se apropriou de nada, não corrige a frase, não registra reação de Jacó. Atribuir a fala à cobiça de Labão é interpretação, e ela se apoia no que sabemos do personagem, não no que o versículo diz.
A quarta é a que a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) propõe: pode ter havido uma versão da história em que Jacó reuniu o monte e Labão ergueu a coluna, e outra em que Jacó fez as duas coisas. O texto que chegou até nós teria conservado traços das duas, e a incoerência seria o resultado.
Nenhuma das quatro se impõe sobre as demais. O honesto é registrar que existe uma divergência dentro do próprio capítulo, que ela foi notada há séculos, e que as soluções propostas são todas plausíveis e todas indemonstráveis.
Vale acrescentar o que a divergência não significa. Ela não afeta o conteúdo do acordo, que é enunciado no versículo seguinte com clareza total, nem o papel dos monumentos. Discute-se quem empilhou a pedra, não o que ficou combinado.
"entre mim e você"
A fórmula reaparece, agora ligada à coluna.
Vale notar o que ela faz aqui, e que é diferente do uso anterior. Nos versículos 48 e 50, ela definia a posição da testemunha. Agora está presa ao verbo: levantei entre mim e você. A coluna não foi erguida em terreno de ninguém — foi plantada na linha que separa os dois.
É a primeira vez que a ideia de fronteira aparece de modo explícito no acordo, e é ela que o versículo 52 vai desenvolver.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Labão
Continua com a palavra, desde o versículo 48. Este versículo e o seguinte formam a parte final do discurso dele: a definição da fronteira.
É o penúltimo momento em que ele fala. Depois do versículo 53, Labão não diz mais nada em toda a Bíblia.
Jacó
Continua calado. Não contesta a afirmação sobre a coluna, não reivindica a autoria, não interrompe.
O silêncio dele é o dado que qualquer leitura do versículo tem de acomodar. Quem defende que Labão se apropriou do monumento precisa explicar por que Jacó deixou passar; quem defende que a fala é figurada tem no silêncio um argumento a favor.
A coluna
Erguida no versículo 45, imediatamente depois de Labão propor o acordo. Uma pedra só, posta em pé.
Reaparece aqui e no versículo 52, sempre ao lado do monte, e depois desaparece do relato. Diferentemente do monte, ela nunca recebe nome.
As outras colunas de Jacó
Jacó é o personagem do Gênesis que mais ergue pedras em pé, e cada uma marca um tipo diferente de acontecimento.
Em Gênesis 28:18, a de Betel, ungida com azeite depois do sonho — e é justamente essa que Deus menciona no versículo 13 deste capítulo, ao mandá-lo voltar. Em Gênesis 35:14, uma segunda em Betel, na volta. Em Gênesis 35:20, a que ele põe sobre o túmulo de Raquel, e o texto registra que ainda estava lá quando a história foi escrita.
A desta cena é a única erguida para selar um acordo com outro homem.
Onde a cena se passa
Na montanha de Gileade, onde Labão alcançou Jacó no versículo 25. O monte de pedras foi construído ali no versículo 46, e recebeu nome no 47 e no 48.
A região fica no caminho entre Harã e Canaã, o que faz dela um ponto natural para uma linha divisória entre os dois grupos.
5. Pontos de Ensino
Quem manda fazer costuma dizer que fez
A explicação mais antiga para a frase de Labão descreve um hábito universal de linguagem: atribuir a si mesmo a obra executada por outro sob a própria autoridade.
Ninguém acha estranho ouvir que um prefeito construiu uma ponte ou que uma empresa fabricou um produto. A autoria, nesses casos, é de quem determinou, não de quem carregou a pedra.
O problema começa quando a autoria disputada importa para alguém. Aí a mesma frase, que era abreviação inofensiva, vira apropriação.
A memória sobre quem fez o quê diverge rápido
Entre o versículo 45 e o 51 passaram-se, na narrativa, algumas horas. E já há duas versões sobre quem levantou uma pedra que está ali, à vista de todos.
Não é preciso má-fé para que isso aconteça, e é bom lembrar disso antes de acusar alguém de mentir sobre o passado. Divergência de memória a respeito de autoria é das coisas mais comuns que existem, inclusive sobre fatos recentes e presenciados por muita gente.
Apontar é mais seguro do que descrever
Labão não descreve os monumentos: aponta para eles.
Descrição admite discussão; o dedo estendido, não. Quando se trata de identificar o objeto de um acordo, mostrar vale mais do que explicar — e é por isso que contratos ainda hoje anexam plantas, fotos e números de série em vez de confiar em adjetivos.
Nem toda divergência precisa ser resolvida
Jacó não corrige Labão. O acordo prossegue e se completa.
A frase sobre a coluna não altera nada do que ficou combinado — o conteúdo vem no versículo seguinte, e é claro. Discutir a autoria naquele momento custaria muito e renderia nada.
Saber quais divergências vale a pena deixar passar é uma competência prática, e o silêncio de Jacó aqui é um exemplo dela, independentemente do motivo que o tenha produzido.
6. Aspectos Filosóficos
De quem é uma obra feita por muitos
O versículo esbarra num problema que parece pequeno e não é: quando várias pessoas participam de um mesmo ato, quem é o autor dele?
A resposta parece óbvia até que se examinem os casos. O monte de pedras foi juntado pelos homens de Jacó, por ordem de Jacó, dentro de um acordo proposto por Labão, num lugar escolhido pelo acaso da perseguição. Cada um desses é um elo real da cadeia, e nenhum deles é a obra inteira.
Línguas humanas resolvem isso por atalho. Dizemos que alguém construiu uma casa, escreveu um livro, fez uma cirurgia — atribuindo a um só o resultado de um trabalho compartilhado. O atalho é útil e quase sempre inofensivo.
Quando o atalho vira problema
Ele deixa de ser inofensivo quando a autoria produz consequência.
Aqui produziria. Se a coluna é de Labão, ela é o marco que ele plantou; se é de Jacó, é o marco que Jacó aceitou plantar. A diferença não muda a cláusula do versículo 52, mas muda quem, na lembrança futura, aparece como o dono da iniciativa.
Note que o texto não resolve isso. Ele registra as duas versões, com seis versículos de distância, e segue adiante sem comentar. Quem lê o capítulo inteiro percebe; quem lê apenas um dos dois trechos, não.
O limite do que se pode dizer
Convém não construir demais sobre uma frase de seis palavras.
A divergência é real e foi notada por comentaristas de várias épocas. As soluções propostas — fala figurada, erro de cópia, apropriação, tradições distintas — são todas defensáveis, e é honesto dizer que nenhuma se demonstra.
O que o versículo permite afirmar com segurança é bem menos: que o texto conserva as duas atribuições sem harmonizá-las, e que essa despreocupação é, ela própria, um dado sobre como o relato foi transmitido.
7. Aplicações Práticas
Identificar o objeto antes de combinar sobre ele
Antes de dizer o que vale, Labão diz sobre o que está falando: este monte, esta coluna.
A ordem é boa e raramente seguida. Muita discussão longa se descobre, no fim, ter sido sobre coisas diferentes — dois setores falando do mesmo projeto com escopos distintos, dois irmãos falando da mesma herança com bens distintos na cabeça.
A providência é começar identificando o objeto, com o máximo de concretude possível, e só depois passar às condições.
Escolher as brigas de crédito
Jacó deixa passar uma atribuição que, pelo texto, não lhe pertence.
Há situações em que insistir na autoria é necessário — quando ela define responsabilidade, pagamento ou reputação profissional. E há situações em que insistir custa o acordo inteiro por um ganho simbólico.
A pergunta útil é direta: o que muda na prática se eu deixar isso passar? Se a resposta for nada, provavelmente não vale.
Desconfiar da própria versão sobre quem fez o quê
O capítulo mostra duas atribuições incompatíveis para um ato que todos presenciaram, poucas horas antes.
Isso deveria produzir alguma modéstia em qualquer um. A lembrança da própria participação num trabalho conjunto tende a crescer com o tempo, e quase nunca por desonestidade — quem lembra de dentro lembra do próprio esforço com muito mais nitidez do que do alheio.
O remédio é o mesmo de sempre: registrar na hora, e perguntar aos outros como eles lembram.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Afinal, quem levantou a coluna?
Pelo versículo 45, Jacó. Pelo versículo 51, Labão.
As quatro explicações propostas estão no item 3, e nenhuma se impõe. É um dos pontos do capítulo em que a resposta honesta é que não se sabe.
Por que Jacó não corrigiu?
O texto não diz, e o silêncio dele atravessa toda a cerimônia, desde o versículo 48.
As explicações possíveis vão da indiferença ao cálculo — não valia a pena discutir por uma pedra — e passam pela hipótese de que não houvesse nada a corrigir, se a fala de Labão for figurada. Nenhuma é verificável.
Por que dois monumentos?
O texto não explica, e a duplicidade é notada por comentaristas de todas as épocas.
Coluna e monte são objetos diferentes, com técnicas e efeitos diferentes, e o versículo 52 os trata como testemunhas separadas. Isso sugere que a duplicação é proposital, mas não prova.
Por que a coluna nunca recebe nome?
É uma boa observação, e o texto não a comenta.
O monte recebeu três nomes em três versículos. A coluna, nenhum. Pode ser que o nome do lugar cobrisse os dois objetos, pode ser que a coluna fosse acessória, e pode ser que a assimetria venha da história da transmissão do texto. O Gênesis não informa.
9. Conexão com Outros Textos
As colunas de Jacó
A primeira, em Betel. É a que Deus menciona no versículo 13 deste capítulo — "eu sou o Deus de Betel, onde você ungiu uma coluna" —, o que faz da pedra o fio que liga a ida e a volta de Jacó.
Gênesis 35:20 — "E Jacó levantou uma coluna sobre a sepultura dela; esta é a coluna da sepultura de Raquel até hoje."
A última, sobre o túmulo da mulher que neste capítulo ainda está viva e carrega escondidos os deuses do pai. A observação "até hoje" mostra que o objeto ainda era conhecido quando o texto foi escrito.
Colunas em pactos e memoriais
Pedras em pé como partes de um acordo, uma para cada tribo.
2 Samuel 18:18 — "Ora, Absalão, quando ainda vivia, havia levantado para si uma coluna no vale do rei, pois dizia: Não tenho filho para conservar a memória do meu nome. E chamou aquela coluna pelo seu próprio nome."
O caso oposto ao deste versículo: uma coluna erguida por um homem só, para si mesmo, e com o nome dele. Aqui a pedra está entre dois; ali, sustenta um nome sozinho.
Quando a coluna passa a ser proibida
Deuteronômio 16:22 — "Nem levantarás coluna, a qual o SENHOR teu Deus odeia."
A proibição direta do mesmo gesto que os patriarcas praticam sem qualquer reprovação no Gênesis.
Levítico 26:1 — "Não fareis para vós ídolos, nem imagem de escultura, nem levantareis coluna, nem poreis pedra com figuras na vossa terra, para vos inclinardes diante dela."
Note a condição no fim: o que se proíbe é a pedra para se inclinar diante dela. É um dado a favor da leitura de que o problema estava no uso, não no objeto.
Oseias 10:1-2 — "Israel é uma vide luxuriante (...) conforme a bondade da sua terra, assim fizeram boas as colunas. O coração deles está dividido; agora serão culpados."
Pedra plantada como sinal
Isaías 19:19-20 — "Naquele dia haverá um altar dedicado ao SENHOR no meio da terra do Egito, e uma coluna dedicada ao SENHOR junto à sua fronteira. E será por sinal e por testemunho ao SENHOR dos Exércitos na terra do Egito."
Uma coluna na fronteira, servindo de testemunho — exatamente a configuração desta cena, transposta para outro contexto.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Disse ainda Labão a Jacó: “Aqui está este monte, e aqui está a coluna que levantei entre mim e você.
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר לָבָן לְיַעֲקֹב הִנֵּה הַגַּל הַזֶּה וְהִנֵּה הַמַּצֵּבָה אֲשֶׁר יָרִיתִי בֵּינִי וּבֵינֶךָ׃
Transliteração
wayyomer Lavan le-Ya'aqov: hinneh ha-gal ha-zeh we-hinneh ha-matsevah asher yariti benî ûbêneka.
Análise palavra por palavra
הִנֵּה — hinneh, "eis aqui", "veja".
Não é substantivo nem verbo: é uma partícula que chama a atenção para o que vem a seguir. O português mais próximo é "eis", palavra que quase não se usa mais, e por isso as traduções recorrem a "aqui está".
O hebraico bíblico a emprega muito, e sempre com a função de pôr algo diante dos olhos de quem ouve. Dela vem a forma hinneni, "eis-me aqui", com que Abraão responde em Gênesis 22:1 e Samuel em 1 Samuel 3:4.
Aqui ela aparece duas vezes, uma para cada monumento. A repetição reforça que se trata de dois objetos distintos, e não de um só descrito de duas maneiras.
הַמַּצֵּבָה — ha-matsevah, "a coluna", "a pedra erguida".
A palavra vem do verbo natsav, cujo sentido básico é ficar de pé, postar-se, estar firme. Matsevah é, portanto, "a que foi posta em pé" — e o nome descreve exatamente o que distingue o objeto: a posição vertical.
O contraste com gal, o monte de pedras do versículo 46, é claro no hebraico. Gal vem da ideia de rolar e acumular; matsevah, da ideia de ficar em pé. Um é horizontal e coletivo, outro é vertical e único.
O termo aparece cerca de trinta vezes no Antigo Testamento, com valor neutro nos livros dos patriarcas e claramente negativo a partir da legislação e dos profetas, onde designa as pedras do culto cananeu — em Êxodo 23:24, Deuteronômio 12:3 e 2 Reis 3:2, por exemplo, a ordem é quebrá-las.
אֲשֶׁר יָרִיתִי — asher yariti, "que eu lancei", "que eu ergui". Do verbo yarah, na forma Qal, primeira pessoa do singular.
O verbo é interessante por conta própria. O sentido primeiro dele é atirar, lançar, arremessar — é o que se faz com uma flecha, e aparece assim em 1 Samuel 20:36 e em 2 Reis 13:17.
Aplicado a pedras, ele descreve o ato de lançar ou assentar. Jó 38:6 usa esse mesmo verbo para a pedra angular da criação: "quem assentou a pedra de esquina dela?"
E há um parentesco que vale mencionar, porque surpreende: na forma causativa, yarah significa ensinar, apontar o caminho — e dessa forma vem a palavra torah, instrução, ensino, o nome dos cinco primeiros livros da Bíblia. Quem ensina, na imagem embutida na palavra, é quem aponta a direção como se atirasse uma flecha.
O problema da primeira pessoa
A terminação do verbo é o ponto crítico do versículo, e ela é inequívoca no texto hebraico corrente: yariti, com o sufixo de primeira pessoa do singular. Eu lancei.
O versículo 45 usa outro verbo e outro sujeito, dizendo que Jacó tomou a pedra e a levantou como coluna. A contradição é direta.
Existe variante. O Pentateuco Samaritano e a versão árabe trazem a segunda pessoa — yarita, "que você lançou" —, o que elimina o problema. A diferença entre as duas formas, no texto hebraico sem vogais, é de uma única letra no fim da palavra.
Uma regra corrente da crítica textual — a de que a versão mais difícil costuma ser a original, porque copistas tendem a facilitar e não a complicar — favorece o texto hebraico corrente. Um copista teria motivo para trocar "eu ergui" por "você ergueu", harmonizando com o versículo 45; o contrário não teria explicação.
Isso não é demonstração, e o assunto continua discutido. As leituras propostas para a divergência estão no item 3.
בֵּינִי וּבֵינֶךָ — benî ûbêneka, "entre mim e entre você".
A fórmula, já comentada no versículo 48, aparece aqui presa ao verbo, e não ao substantivo. Não se diz que a coluna é uma testemunha entre os dois: diz-se que ela foi erguida entre os dois.
O deslocamento é pequeno e tem efeito. A preposição passa a indicar lugar físico, e não posição jurídica — a pedra está plantada no ponto que separa um do outro. É a primeira aparição da ideia de fronteira no acordo, e o versículo 52 a desenvolve.
11. Conclusão
Do versículo decorrem três conclusões.
A primeira é sobre a estrutura da cena. Antes de enunciar a cláusula, Labão identifica os objetos sobre os quais ela vai recair, apontando para cada um. É o procedimento correto de qualquer acordo, e é o que permite que o versículo seguinte seja tão econômico: quando ele disser que o monte e a coluna são testemunhas, já se sabe exatamente de que monte e de que coluna se fala.
A segunda é sobre a divergência interna do capítulo. Labão afirma ter erguido a coluna que o versículo 45 atribui a Jacó, e as duas afirmações estão a seis versículos de distância. As soluções propostas — fala figurada de quem mandou fazer, erro de cópia com apoio no Pentateuco Samaritano, apropriação coerente com o personagem, ou reunião de tradições distintas — são todas plausíveis, e é preciso dizer que nenhuma se demonstra. O texto conserva as duas versões sem harmonizá-las, e essa despreocupação diz algo sobre como o relato chegou até nós.
A terceira é sobre o que a divergência não alcança. Ela não toca o conteúdo do acordo, que virá completo no versículo seguinte, nem a função dos dois monumentos. Discute-se quem empilhou uma pedra, não o que ficou combinado — e Jacó, que teria motivo para contestar, não contesta.
Fica anunciado o que o versículo prepara. A coluna foi plantada "entre mim e você", e a expressão, que até aqui indicava a posição de uma testemunha, passa a indicar um lugar no chão. É a fronteira entrando na conversa, e é dela que trata o versículo 52.













