Faraó tinha se irado contra os seus servos e me pôs sob prisão na casa do comandante da guarda, a mim e ao chefe dos padeiros.
1. Introdução
O copeiro começa a contar a história, e começa pelo começo: a prisão.
O versículo é quase inteiramente uma repetição. Gênesis 40:2-3 já havia dito, com as mesmas palavras, que Faraó se irou contra dois oficiais e os mandou prender na casa do comandante da guarda. Aqui o mesmo fato volta, agora na boca de um dos presos, diante do rei que o prendeu.
O que interessa, portanto, não é a informação — o leitor já a tem. É o modo como ela é dita, e há três coisas a observar.
A primeira: ele fala de Faraó na terceira pessoa, com Faraó na sua frente. Não é distração. Era assim que se falava a um rei, e o item 2 mostra por quê.
A segunda: ele diz que o rei se irou contra "os seus servos", no plural, e não contra ele. É o mesmo fato dito de um jeito que o dilui.
A terceira: ele não diz por que o rei se irou. Gênesis 40:1 informava que os dois haviam ofendido o seu senhor; aqui até isso desaparece. Fica a ira, sem causa e sem contestação.
Há ainda uma escolha de palavra que costuma escapar. Ele chama o lugar de guarda — custódia —, e não de masmorra. José, falando do mesmo lugar em Gênesis 40:15, o chamou de cova. O item 3 examina a diferença.
E há um detalhe do original que atravessa a frase: o "a mim" aparece duas vezes, com o chefe dos padeiros entrando depois. O item 10 trata da construção.
2. Contexto Histórico e Cultural
Não se dizia "você" a um Faraó
É o costume que explica a forma estranha do versículo, e sem ele a frase parece um erro de redação.
O copeiro está diante do rei e fala dele na terceira pessoa: "Faraó tinha se irado". Não diz "o senhor se irou", não diz "tu te iraste". Refere-se ao homem que o está ouvindo como se ele estivesse ausente.
Isso não é distração nem servilismo exagerado: era a regra. Na correspondência e nas inscrições egípcias, o rei é mencionado por título — "Sua Majestade", "o deus bom", "o senhor das duas terras" — e não interpelado diretamente. As menções ao soberano vinham habitualmente seguidas de uma fórmula de bênção que se pode traduzir por "vida, prosperidade, saúde", quase como uma assinatura obrigatória.
Dirigir-se ao rei em segunda pessoa seria pôr-se no mesmo plano dele. A terceira pessoa mantém a distância que a etiqueta exigia — e é por isso que ela atravessa todo o discurso do copeiro, do versículo 9 ao 13. Vale notar que o Gênesis reproduz o uso sem explicá-lo em lugar nenhum: simplesmente escreve como se falava ali.
"Servos" era título, não humilhação
Um segundo costume que a tradução esconde.
Quando o copeiro diz que o rei se irou "contra os seus servos", ele não está usando uma palavra rebaixada. No Egito e em todo o Oriente Próximo, "servo do rei" era como se designavam os funcionários da casa real, do mais alto ao mais baixo — e era designação honrosa. Altos dignitários mandavam gravar esse título nos próprios monumentos, com orgulho: pertencer à casa do rei era a posição, não a humilhação.
Guarde-se a consequência para a leitura do versículo. Ao dizer "os seus servos", o copeiro faz duas coisas de uma vez: reafirma que pertence à casa do rei — isto é, que continua sendo dos seus — e dissolve o próprio caso num grupo. Não foi contra ele: foi contra servos.
A forma de um relato de corte
Repare no que este versículo faz antes de chegar ao assunto: estabelece os fatos.
Quem, onde, com quem. A ira do rei, a custódia, a casa do comandante da guarda, os dois presos. Só depois virão o sonho (versículo 11), o intérprete (versículo 12) e o resultado (versículo 13).
É o desenho de um depoimento, e não o de uma sugestão. O copeiro não começa dizendo "conheço alguém que pode ajudar": começa reconstruindo um caso conhecido do rei, passo a passo, para só então chegar ao homem que quer mencionar.
Convém marcar o limite: o texto não descreve procedimento formal nenhum, e não há como falar em regra de corte para esse tipo de fala. O que se observa é a ordem em que ele apresenta as coisas, e ela é a de quem quer ser acreditado antes de ser atendido.
Onde ele foi preso, e o que isso dizia
O lugar já foi descrito no estudo de Gênesis 40:3 — não era penitenciária, era a casa de um alto oficial, que acumulava moradia, repartição e custódia — e nada disso se reabre aqui. O que vale registrar é a informação social embutida na menção: ser guardado ali significava ser preso de categoria, gente da corte cujo caso dependia de decisão pessoal do rei. Ao dizer onde esteve, o copeiro diz também que continuou sendo tratado como quem era.
3. Análise Teológica do Versículo
"Faraó tinha se irado contra os seus servos"
Três decisões cabem nesta frase curta, e todas apontam para o mesmo lado.
A primeira: quem é o sujeito. O copeiro não diz "eu fui preso", nem "aconteceu que fomos presos". Diz que Faraó se irou e que Faraó o pôs. O rei é o agente das duas ações, e é nomeado.
Numa leitura moderna isso soaria como acusação — foi você que fez isso comigo. No mundo do versículo é o contrário: atribuir o ato ao rei é reconhecer que o rei tinha o direito de praticá-lo, porque a ira do soberano é o processo, e não há instância acima dela.
A segunda: contra quem. Ele diz "contra os seus servos", no plural, e não "contra mim". O fato é individual, e a frase o dilui num grupo: quem ouve não recebe a imagem de um homem em desgraça, e sim a de um episódio administrativo em que dois funcionários caíram. E a palavra "servos" não rebaixa ninguém — no vocabulário da corte é título de posição (item 2), de modo que, ao usá-la, ele reafirma que continua pertencendo à casa do rei.
A terceira: o que não é dito. Não há causa. Gênesis 40:1 informara que os dois haviam ofendido o seu senhor; aqui até essa vaguidão desaparece, e fica a ira sozinha.
É a escolha mais prudente possível. Explicar a causa seria discuti-la; discuti-la, diante do rei, seria questionar a decisão. Deixando o motivo de fora, ele conta o episódio inteiro sem tocar no único ponto que poderia lhe custar caro.
"e me pôs sob prisão na casa do comandante da guarda"
A palavra escolhida merece atenção, porque há outra disponível e ele não a usa.
O termo do original significa guarda, custódia — o lugar onde alguém fica sob vigilância enquanto o caso não se resolve. É palavra de administração, neutra, sem carga.
Compare-se com o modo como José fala do mesmo lugar. Em Gênesis 40:15 ele diz "nesta masmorra", e a palavra dele é a de cova, buraco, poço — a mesma que Gênesis 37:24 empregou para a cisterna em que os irmãos o jogaram.
Duas palavras, o mesmo lugar, dois falantes. O funcionário da corte diz custódia; o escravo estrangeiro diz cova.
Convém não exagerar o alcance disso. As condições de um chefe de departamento detido e as de um escravo podiam ser bem diferentes — o próprio Gênesis 40:4 registra que os dois oficiais eram servidos —, de modo que a diferença de vocabulário pode refletir tratamento distinto, e não apenas ponto de vista. Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que o texto guarda as duas palavras e não as harmoniza.
"a mim e ao chefe dos padeiros"
Duas observações, e a segunda é a mais interessante.
A ordem. No hebraico o "a mim" já aparecera antes, ligado ao verbo, e volta aqui pela segunda vez, agora acompanhado do colega. A repetição é gramaticalmente normal depois de uma expressão longa, e não convém tirar conclusão dela sozinha (item 10) — mas o efeito é o mesmo nas duas línguas: ele se nomeia primeiro, e o outro entra depois.
E por que mencionar o padeiro? A escolha não era óbvia. O homem foi enforcado, e trazê-lo à conversa significa lembrar ao rei uma execução que ele mandou fazer — coisa que o copeiro dirá com todas as letras no versículo 13.
Há uma razão prática que explica o risco: sem o padeiro, a história não prova nada. Foram dois sonhos, com desfechos opostos, e as duas interpretações acertaram. Quem anuncia uma boa notícia e acerta pode ter tido sorte; quem anuncia uma boa e uma péssima, e acerta as duas, é outra coisa. O copeiro está construindo uma credencial, e a metade sinistra da história é a que a torna convincente.
Registre-se o limite: o texto não diz que ele pensou nisso.
O que este versículo estabelece
Fica montado o cenário de que o copeiro precisa — e, com ele, um endereço: a casa do comandante da guarda, que é onde José está neste momento. É por causa dele que, no versículo 14, Faraó saberá onde mandar buscar.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Faraó
Aparece duas vezes no versículo: como quem se irou e como quem prendeu. É o único agente da frase.
E está ali, ouvindo, enquanto se fala dele na terceira pessoa — costume de corte que o item 2 explica.
O chefe dos copeiros
É quem fala, e neste versículo ele se apresenta pela sua pior credencial: foi preso.
Convém lembrar onde ele está enquanto diz isso: foi restituído ao cargo em Gênesis 40:21. A prisão de que ele fala é passado encerrado, e é por isso que mencioná-la é seguro.
O chefe dos padeiros
Está morto. Foi enforcado em Gênesis 40:22, exatamente como o sonho dele fora interpretado.
É a única vez, em Gênesis 41, que ele é mencionado — e a menção é indispensável ao argumento que o copeiro está montando, como mostra o item 3.
O comandante da guarda
Não é nomeado neste versículo, mas o cargo é conhecido do leitor desde Gênesis 37:36 e 39:1: é Potifar, o oficial que comprou José e em cuja casa ele acabou preso.
Vale registrar que o Gênesis não faz nenhuma questão disso. O copeiro dá o endereço sem saber que está entregando ao rei a localização exata do homem de que vai falar.
O lugar
A casa do comandante da guarda, descrita no estudo de Gênesis 40:3 — moradia, repartição e custódia num mesmo edifício.
É para lá que Faraó mandará buscar José no versículo 14.
O evento
Um episódio já narrado, agora recontado por dentro: o leitor viu a prisão acontecer em Gênesis 40:2-3, e aqui a ouve pela boca de quem a viveu, diante de quem a ordenou. Não será a última repetição do capítulo — dos versículos 17 a 24 Faraó recontará os próprios sonhos.
5. Pontos de Ensino
Quem conta a própria história escolhe a gramática dela
O copeiro poderia ter dito "fui preso". Disse "Faraó se irou contra os seus servos e me pôs sob prisão".
Os fatos são os mesmos e o efeito não é. Numa versão ele é vítima anônima de um acontecimento; na outra, ele é um servo entre servos, alcançado por uma decisão legítima do soberano — e que já foi revertida.
Não é preciso acusá-lo de manipulação para reconhecer o mecanismo. Toda narrativa de si escolhe sujeitos, verbos e recortes, e a escolha faz metade do trabalho.
Diluir-se num grupo é um modo de se proteger
"Contra os seus servos", e não "contra mim" — o mesmo fato, dito de um jeito que reparte o peso. O movimento é comum e quase nunca é consciente: o plural anda mais seguro do que o singular.
Deixar de fora o motivo
Ele não diz por que o rei se irou. Explicar seria discutir; discutir seria contestar.
Há situações em que a coisa mais prudente a dizer sobre um episódio é o que aconteceu, sem entrar no porquê. Este versículo é um exemplo bem executado disso.
A palavra que se usa para o lugar onde se esteve
Custódia, na boca do funcionário. Cova, na de José, em Gênesis 40:15.
O mesmo lugar, dois nomes — e ainda que parte da diferença possa vir do tratamento que cada um recebia, o texto guarda as duas palavras sem harmonizá-las. Quem nomeia um lugar já está dizendo o que passou nele.
A parte incômoda da história é a que a torna crível
O copeiro precisa mencionar o padeiro enforcado. Sem esse desfecho, o acerto do intérprete não prova coisa alguma: quem só anuncia boas notícias e acerta pode ter tido sorte.
É um ponto que serve para muito além do versículo. Um testemunho que só traz o que convém a quem o dá vale menos, e não mais.
6. Aspectos Filosóficos
Quem sou eu depende de como conto o que me aconteceu
O versículo é uma pessoa narrando a própria queda diante de quem a derrubou, e a maneira como ela organiza a frase é o assunto filosófico aqui.
Paul Ricoeur (filósofo francês do século XX), em O Si-Mesmo como um Outro, sustentou que a identidade de alguém não é um dado fixo escondido atrás dos acontecimentos: é aquilo que se constitui no relato que a pessoa faz da própria vida. Ele chamou isso de identidade narrativa. Somos, em boa parte, a história que contamos sobre nós — e essa história é montada, com escolhas de ênfase, de ordem e de silêncio.
Ricoeur não via nisso desonestidade. O relato é o modo humano de dar forma ao tempo vivido; sem ele, restariam episódios soltos.
Aplique-se ao versículo. O copeiro dispunha dos mesmos fatos e de várias montagens possíveis. Podia dizer que foi injustiçado. Podia dizer que errou e pagou. Podia omitir a prisão inteira e ir direto ao sonho. O que ele monta é uma terceira coisa: uma ira legítima do rei, atingindo um grupo do qual ele fazia parte, e uma custódia da qual ele saiu.
Nessa montagem ele não é culpado nem vítima. É um servo do rei que atravessou um episódio e voltou ao lugar de onde tinha saído. É, provavelmente, a melhor versão disponível — e nenhuma palavra dela é falsa.
Vale o guarda-corpo: o Gênesis não discute identidade nem narração, e Ricoeur não escrevia sobre Gênesis 41. A aproximação é do comentarista, e serve para nomear o que o versículo faz sem dizer.
7. Aplicações Práticas
Contar um episódio ruim sem discutir a decisão de quem o causou
É a operação inteira do versículo, e ela tem uso fora dele.
O copeiro precisa falar de uma prisão diante do homem que o prendeu. Faz isso relatando o que houve, atribuindo o ato a quem o praticou e não entrando no mérito. Nenhuma queixa, nenhuma justificativa, nenhuma tentativa de reabrir o caso.
A aplicação é direta para qualquer situação em que se precise mencionar um episódio desagradável diante de quem tem poder sobre ele: contar o que aconteceu não obriga a julgar o que aconteceu, e misturar as duas coisas é o que costuma estragar a conversa.
Reconhecer que o outro tinha o direito de decidir
Ao pôr Faraó como sujeito das duas ações, o copeiro reconhece a autoridade em vez de contorná-la. É o oposto do "aconteceu de eu ser afastado", que tira o agente da frase para não ter de encará-lo.
Vale distinguir com clareza: reconhecer que alguém tinha autoridade para decidir não é dizer que a decisão foi justa. O copeiro não afirma nem uma coisa nem outra.
O limite
Convém não transformar o versículo em manual de diplomacia. Ele descreve o comportamento de um funcionário numa corte antiga, e boa parte do que ele faz — a terceira pessoa, o "servos", o silêncio sobre a causa — obedece a uma etiqueta que não é a nossa.
O que sobrevive à mudança de época é apenas isto: a forma de contar um fato pesa tanto quanto o fato.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que o copeiro fala de Faraó na terceira pessoa, se Faraó está na frente dele?
Porque era assim que se falava com um rei. O item 2 descreve o costume: o soberano era mencionado por título, não interpelado diretamente. A construção atravessa todo o discurso dele, do versículo 9 ao 13.
Ele está acusando Faraó de tê-lo prendido injustamente?
Não. Atribuir o ato ao rei, naquele contexto, é reconhecer que o rei tinha o direito de praticá-lo. E ele omite justamente o que permitiria discutir a decisão: o motivo da ira.
Por que mencionar o padeiro, que foi enforcado?
Uma leitura possível, e forte: sem ele a história não prova nada. Foram dois sonhos com desfechos opostos, e as duas interpretações acertaram. É o desfecho sinistro que transforma o acerto em credencial — e o copeiro o dirá com todas as letras no versículo 13. Há risco na menção, porque ela lembra ao rei uma execução que ele ordenou, e o texto não comenta esse risco.
"Prisão" aqui é a mesma coisa que "masmorra"?
A palavra do original é de custódia, guarda — administrativa e neutra. José, falando do mesmo lugar em Gênesis 40:15, usa a palavra que significa cova, a mesma da cisterna de Gênesis 37:24. Parte da diferença pode vir do tratamento distinto que um chefe de departamento e um escravo recebiam; parte, do ponto de vista. Não é possível decidir, e o texto guarda as duas palavras.
Por que o versículo repete tudo o que Gênesis 40 já havia contado?
Porque quem fala agora é um personagem, e não o texto. O leitor já sabe o que aconteceu; Faraó, dentro da cena, precisa ouvir. E a repetição permite comparar as duas versões — o que se ganha e o que se perde quando o mesmo fato passa por uma boca interessada.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo episódio, contado pelo texto
Gênesis 40:2 — "Faraó irou-se contra os seus dois oficiais, o chefe dos copeiros e o chefe dos padeiros,"
Gênesis 40:3 — "e mandou prendê-los na casa do comandante da guarda, no cárcere onde José estava preso."
Ponham-se as duas versões lado a lado e a comparação fica evidente. O Gênesis diz "dois oficiais" e os nomeia pelo cargo; o copeiro diz "os seus servos". O Gênesis diz que era o cárcere onde José estava; o copeiro não menciona José aqui — ele só entrará no versículo 12, e sem nome.
Como José chama o mesmo lugar
Gênesis 40:15 — "Pois fui roubado da terra dos hebreus, e aqui também nada fiz para que me pusessem nesta masmorra."
Gênesis 37:24 — "Tomaram-no e o lançaram na cisterna; a cisterna estava vazia, não havia água nela."
É a mesma palavra hebraica nas duas passagens: cova, buraco, poço. José usa para a prisão do Egito o termo que o livro usara para o lugar em que os irmãos o jogaram.
A ira do rei, na literatura de sabedoria
Provérbios 16:14 — "O furor do rei é mensageiro de morte, mas o homem sábio o apazigua."
Provérbios 19:12 — "Como o bramido do leão é a ira do rei, mas o seu favor é como o orvalho sobre a erva."
Eclesiastes 8:4 — "Porque a palavra do rei tem poder; e quem lhe dirá: 'Que fazes?'"
É esse o mundo pressuposto pelo versículo. A ira do soberano não é discutida — é apaziguada, evitada, atravessada. Repare que o copeiro faz exatamente o que Provérbios 16:14 recomenda ao sábio: não contesta, contorna.
Falar diante do rei dá medo
Neemias 2:2 — "O rei me disse: 'Por que está triste o teu rosto, se não estás doente? Isso não é senão tristeza de coração.' Então tive muitíssimo medo."
Neemias também era copeiro de um rei, e a reação dele mede o risco que uma conversa dessas tinha.
A ira que prendeu José
Gênesis 39:19 — "Quando o seu senhor ouviu as palavras que a mulher lhe dizia — 'Foi assim que o seu escravo me tratou' —, acendeu-se a sua ira."
Gênesis 39:20 — "E o senhor de José o tomou e o pôs no cárcere, no lugar onde os presos do rei estavam encarcerados; e ali ficou, no cárcere."
A mesma sequência — ira e prisão — havia posto José naquele lugar. Os três homens de que este versículo fala estão ali pelo mesmo motivo formal: alguém com poder se irou.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Faraó tinha se irado contra os seus servos e me pôs sob prisão na casa do comandante da guarda, a mim e ao chefe dos padeiros.
Texto hebraico
פַּרְעֹה קָצַף עַל־עֲבָדָיו וַיִּתֵּן אֹתִי בְּמִשְׁמַר בֵּית שַׂר הַטַּבָּחִים אֹתִי וְאֵת שַׂר הָאֹפִים׃
Transliteração
Par'oh qatsaf al-avadav wa-yitten oti be-mishmar beit sar ha-tabbachim oti we-et sar ha-ofim.
Análise palavra por palavra
פַּרְעֹה קָצַף — Par'oh qatsaf, "Faraó irou-se".
Repare na ordem. O hebraico narrativo começa quase sempre pelo verbo; aqui o sujeito vem primeiro. Quando isso acontece, costuma indicar destaque ou mudança de foco — e o destaque, neste caso, recai sobre quem agiu.
O verbo é qatsaf, irar-se, encolerizar-se. É o mesmo de Gênesis 40:2, o versículo que narrou o episódio pela primeira vez.
Vale registrar o peso da palavra. Ela e o substantivo derivado dela, qetsef, são vocabulário da ira grave, a que traz consequência — usados também para a cólera divina, em Números 1:53 e em 2 Crônicas 19:2, entre outras passagens. Não é irritação passageira: é a ira de quem pode executar o que sente.
עַל־עֲבָדָיו — al-avadav, "contra os seus servos".
Eved é servo, e a palavra cobre desde o escravo até o alto funcionário da casa real; no contexto de corte, "servo do rei" era designação de posição, não de rebaixamento (item 2).
O que chama atenção é o número. O copeiro fala no plural, embora esteja relatando o que aconteceu consigo. É a mesma expressão que Gênesis 40:20 usa para os convidados do banquete de aniversário de Faraó — "todos os seus servos", isto é, a corte inteira. Ao empregá-la, ele se apresenta como um entre muitos.
וַיִּתֵּן אֹתִי בְּמִשְׁמַר — wa-yitten oti be-mishmar, "e me pôs sob guarda".
O verbo é natan, dar, pôr, entregar — o mais comum do hebraico para colocar alguma coisa em algum lugar. Não há nele nenhuma violência.
Mishmar vem da raiz shamar, guardar, vigiar. É o lugar onde alguém é guardado: custódia. A palavra ocorre em Gênesis 40:3, 40:4 e 40:7 para esta mesma situação, e voltará em Gênesis 42:17 e 42:19, quando o próprio José puser os irmãos sob guarda por três dias.
Compare-se com o termo que José emprega. Em Gênesis 40:15 ele chama o lugar de bor — cova, poço, buraco —, a mesma palavra da cisterna de Gênesis 37:24. O item 3 discute o que se pode e o que não se pode concluir disso.
בֵּית שַׂר הַטַּבָּחִים — beit sar ha-tabbachim, "a casa do chefe dos açougueiros".
O título é literalmente esse, e o estudo de Gênesis 40:3 já tratou da estranheza. O que interessa aqui é apenas que o copeiro dá o endereço completo: não diz "fui preso", diz onde.
אֹתִי … אֹתִי וְאֵת — oti … oti we-et, "a mim… a mim e a".
Esta é a irregularidade do versículo.
O pronome "a mim" aparece duas vezes. A primeira logo depois do verbo; a segunda no fim da frase, agora acompanhada do chefe dos padeiros. Ao pé da letra: e pôs a mim sob guarda na casa do chefe dos açougueiros — a mim e ao chefe dos padeiros.
Não é erro. O hebraico retoma assim, com frequência, um pronome que ficou distante do verbo depois de uma expressão longa — e a expressão aqui é longa mesmo, com três palavras encadeadas. Muitas traduções simplesmente omitem a primeira ocorrência.
Vale, ainda assim, registrar o efeito, sem transformá-lo em argumento: a frase começa e termina com "a mim", e o companheiro de cela entra depois. Se isso é sinal de alguma coisa ou apenas gramática, não é possível decidir.
שַׂר הָאֹפִים — sar ha-ofim, "o chefe dos padeiros".
Ofim é o particípio plural de afah, assar, cozer. Ao pé da letra, "o chefe dos que assam" — e o plural, como no título do copeiro, confirma que havia padeiros sob ele.
É a última vez que o título aparece na Bíblia hebraica. O homem foi enforcado em Gênesis 40:22, e reaparece aqui apenas como parte da credencial que o copeiro está construindo; no versículo 13 ele será apenas "o outro".
11. Conclusão
Três conclusões decorrem do que se examinou.
O versículo não traz fato novo; traz uma versão. Tudo o que ele conta já estava em Gênesis 40:2-3. O que muda é a boca. E, ao mudar a boca, mudam o sujeito das frases, o número dos afetados e o que fica de fora — o rei vira o agente reconhecido, o preso vira um servo entre servos, e o motivo da ira desaparece. Nenhuma palavra é falsa, e o retrato é outro.
A prudência do relato está no que ele omite. Explicar por que Faraó se irou seria discutir a decisão do rei; discutir a decisão do rei, diante do rei, era o único movimento verdadeiramente perigoso naquela sala. O copeiro conta o episódio inteiro sem tocar nesse ponto. É o comportamento que Provérbios 16:14 atribui ao sábio diante do furor do soberano: não se contesta, contorna-se.
E a parte mais desconfortável da história é a que ele precisa contar. Mencionar o padeiro é lembrar ao rei uma execução — e é também o que faz do intérprete uma credencial, porque as duas interpretações, a boa e a péssima, se cumpriram. O copeiro está construindo um argumento, e o argumento exige o morto.
Sobra, para o capítulo, o dado que ninguém na cena percebe como decisivo: o endereço. Ao dizer onde esteve preso, o copeiro entrega a Faraó o lugar exato onde está o homem de que vai falar. É por isso que, no versículo 14, o rei saberá para onde mandar.













