Mas não teve relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho. E ele lhe pôs o nome de Jesus.
1. Introdução
O último versículo do capítulo fecha o relato do nascimento com dois fatos: José não teve relações com Maria até que ela deu à luz, e pôs no menino o nome Jesus, exatamente como o anjo ordenara. A obediência de José, que o versículo anterior mostrara em ação, chega aqui ao seu ponto final — ele completa tudo o que lhe fora mandado.
O versículo guarda a preservação da concepção virginal: até o nascimento, não houve união conjugal, o que confirma que a origem da gravidez foi só o Espírito Santo, e não José. É o selo sobre tudo o que o capítulo vinha afirmando desde o versículo 18.
Mas há aqui uma frase que gerou séculos de discussão: "não a conheceu até que ela deu à luz". A palavra "até que" levanta uma pergunta antiga — o que aconteceu depois? Maria e José tiveram, mais tarde, uma vida conjugal normal, ou Maria permaneceu virgem por toda a vida? Essa é a questão da virgindade perpétua de Maria, e vamos tratá-la com honestidade e com o devido grau de certeza, porque o próprio texto grego, sozinho, não a resolve.
2. Contexto Histórico e Cultural
O ato de José nomear o menino tinha peso jurídico na cultura judaica. Quando um pai dava o nome a uma criança, ele a reconhecia legalmente como sua e a inseria na sua linhagem. Ao chamar o menino de Jesus, José o adota juridicamente como filho e o insere na casa de Davi — condição para o cumprimento das promessas messiânicas, já que o Messias devia ser descendente de Davi. O gesto, portanto, não é apenas afetivo; é o que estabelece a filiação legal de Jesus.
Quanto à abstinência até o nascimento, ela se explica pela reverência de José diante do que estava acontecendo. Reconhecendo que a concepção era obra de Deus, José preserva Maria até que o menino nasça. Isso confirma, de forma inequívoca, a concepção virginal: se não houve união até o parto, a gravidez não pode ter tido causa humana.
Sobre a virgindade perpétua, convém situar o debate. As igrejas católica e ortodoxa sustentam, por tradição, que Maria permaneceu virgem por toda a vida. Boa parte das igrejas protestantes entende que Maria e José tiveram, depois, uma vida conjugal normal, e leem como filhos de ambos os "irmãos de Jesus" mencionados nos evangelhos. A discussão é antiga e séria, e envolve tanto a leitura da palavra "até que" quanto a interpretação dessas outras passagens. O ponto a reter é que este versículo, sozinho, não decide a questão — ele afirma com clareza o que houve antes do nascimento, mas não afirma explicitamente o que houve depois.
3. Análise Teológica
"E ele não a conheceu intimamente"
A frase sublinha a obediência e o caráter moral de José. Na cultura judaica do primeiro século, o casamento trazia obrigações, e a relação conjugal era esperada. A contenção deliberada de José antes do nascimento de Jesus demonstra a sua reverência diante dos propósitos de Deus e o reconhecimento da concepção milagrosa. Essa abstinência confirma, sem margem de dúvida, a origem virginal da gravidez.
"Até que ela deu à luz um filho"
Esta linguagem preserva o milagre do nascimento virginal: até o parto, não houve união conjugal, de modo que a criança não tem pai humano. O nascimento de um filho a Maria representa um marco na história da salvação, apresentando Jesus como plenamente divino e plenamente humano. É importante notar, com honestidade, que a expressão "até que" afirma o que houve antes do nascimento, mas não determina, por si só, o que houve depois — ponto no centro do debate sobre a virgindade perpétua de Maria.
"E lhe pôs por nome Jesus"
O ato de José nomear o menino tinha profundo significado na tradição judaica. A imposição do nome pelo pai significava a paternidade legal e a aceitação na linhagem davídica, cumprindo as expectativas messiânicas de descendência de Davi (2 Samuel 7:12-16). "Jesus" é a forma grega de "Yeshua" ou "Josué", e significa "o Senhor é salvação", refletindo a sua missão redentora anunciada em Mateus 1:21. O ato também demonstra a fiel obediência de José à instrução angelical.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
José — o pai terreno que obedeceu a Deus, tomando Maria como esposa e preservando a concepção virginal até o nascimento.
Maria — a virgem escolhida por Deus para gerar o seu Filho, cumprindo a profecia.
Jesus — o Filho, cujo nascimento cumpre as predições messiânicas e cuja origem é divina.
O nascimento virginal — o evento milagroso, profetizado e agora consumado, que sublinha a natureza divina de Jesus.
A imposição do nome — o ato de José chamar o menino de Jesus, pelo qual o reconhece legalmente e o insere na linhagem de Davi.
5. Pontos de Ensino
O valor da obediência
A fidelidade de José à direção de Deus, apesar da pressão social, demonstra um discipulado confiável, que faz o que Deus pede até o fim.
O cumprimento da profecia
O nascimento virginal confirma a fidelidade de Deus em manter as suas promessas, ligando o nascimento de Jesus às Escrituras antigas.
O poder dos nomes
"Jesus" significa "o Senhor salva", captando toda a sua missão redentora. O nome, dado por Deus e imposto por José, resume o propósito da vinda de Jesus.
Fé em meio à incerteza
Tanto José quanto Maria confiaram em Deus apesar de tudo o que não sabiam nem controlavam. A fé deles atravessou o desconhecido.
A identidade divina de Jesus
O nascimento virginal sublinha que Cristo é ao mesmo tempo plenamente Deus e plenamente homem, verdade central da fé cristã.
6. Aspectos Filosóficos
Este versículo é um bom exemplo de como um texto pode afirmar uma coisa com clareza e deixar outra em aberto — e de como é preciso honestidade para distinguir as duas. O que o versículo afirma sem ambiguidade é a concepção virginal: não houve união até o nascimento. O que ele não afirma explicitamente é o que se seguiu depois. A expressão "até que", em grego como em português, foca o período anterior ao marco e nada declara, por si só, sobre o período posterior. Ler nela, com certeza, uma resposta à virgindade perpétua — num sentido ou noutro — é ir além do que a frase, sozinha, permite.
Qual é o grau de certeza, então? Podemos afirmar com segurança o que o texto diz: a virgindade de Maria até o parto, e a filiação divina de Jesus. Sobre a virgindade perpétua, o versículo é, na melhor das hipóteses, inconclusivo: a construção "até que" não decide a questão. Quem defende que Maria e José tiveram depois uma vida conjugal normal apela ao uso comum de "até que" e às menções aos irmãos de Jesus; quem defende a virgindade perpétua apela à tradição antiga da Igreja e a outras leituras dessas passagens. Uma leitura honesta reconhece que este versículo não fecha o debate, e que a posição de cada tradição se apoia em mais do que esta única frase. Afirmar com humildade os limites do texto é mais fiel do que forçá-lo a dizer o que ele não diz.
7. Aplicações Práticas
Completar a obediência. José não parou no meio: recebeu Maria, preservou-a e deu o nome ao menino. A fidelidade se prova em levar até o fim o que Deus pediu.
Reverenciar o que é de Deus. A contenção de José nasce do respeito diante do que Deus estava fazendo. Há momentos que pedem reverência, não pressa.
Distinguir o que o texto afirma do que não afirma. Aprender a ler a Bíblia com honestidade — dizendo com certeza o que ela diz e com humildade o que ela deixa em aberto — é um exercício de maturidade espiritual.
Respeitar quem pensa diferente em questões abertas. O debate sobre a virgindade perpétua atravessa tradições cristãs sérias. Em pontos que o texto não fecha, cabe humildade, não arrogância.
Confiar no essencial. O que o versículo afirma com clareza — a concepção virginal e a identidade de Jesus — é o que importa para a fé. Não deixar que as questões abertas ofusquem as certezas centrais.
Dar a Jesus o seu nome e o seu lugar. José pôs no menino o nome que Deus escolheu. Reconhecer Jesus por quem ele é — o Salvador — é a resposta que o capítulo inteiro pede.
8. Perguntas e Respostas
1. O que significa Mateus 1:25?
Significa que José preservou Maria, sem união conjugal, até o nascimento de Jesus, e depois deu ao menino o nome que o anjo ordenara. O versículo sela a concepção virginal e completa a obediência de José.
2. Como o versículo afirma o nascimento virginal?
Ao dizer que não houve relação até o parto. Se José não conheceu Maria intimamente antes de o menino nascer, a gravidez não teve causa humana — foi obra do Espírito, como o capítulo vinha afirmando.
3. Que significado tem o fato de não haver união conjugal até o nascimento?
Confirma, de forma inequívoca, que Jesus não tem pai humano. A abstinência de José é a garantia narrativa de que a concepção foi virginal, obra exclusiva de Deus.
4. Como Mateus 1:25 se conecta a Isaías 7:14?
Ele consuma o que a profecia citada no versículo 23 anunciara: a virgem concebeu e deu à luz. O nascimento descrito aqui é o cumprimento concreto do sinal de Isaías, na leitura de Mateus.
5. O que revela a obediência de José?
Revela uma fidelidade completa: ele recebe Maria, preserva-a e dá o nome ao menino, cumprindo cada parte da ordem do anjo. A obediência de José vai do início ao fim, sem descontos.
6. Como este versículo deve influenciar a compreensão da divindade de Jesus?
Ao afirmar a concepção virginal, ele sustenta que a origem de Jesus está em Deus. O nascimento virginal aponta para alguém que é, ao mesmo tempo, plenamente Deus e plenamente homem.
7. Como o versículo afirma a doutrina do nascimento virginal?
Pela combinação entre a abstinência até o parto e a origem no Espírito Santo, já estabelecida antes. O versículo é o fecho lógico da afirmação que atravessa todo o capítulo.
8. Por que a abstinência de José é significativa?
Porque preserva e comprova a concepção virginal, e porque revela a reverência de José diante da obra de Deus. Ele reconheceu que aquela criança não era fruto de união humana e agiu de acordo.
9. O versículo implica que Maria teve outros filhos?
Aqui é preciso honestidade: o versículo não resolve a questão. A expressão "até que" afirma que não houve união antes do nascimento, mas não declara explicitamente o que houve depois. Alguns leem que Maria e José tiveram depois uma vida conjugal normal, apoiando-se também nas menções aos "irmãos de Jesus"; outros sustentam a virgindade perpétua de Maria, apoiando-se na tradição antiga da Igreja e em outras leituras dessas passagens. O grau de certeza, quanto a este versículo isolado, é baixo: ele não fecha o debate.
9. Conexão com Outros Textos
"Maria disse ao anjo: Como será isso? Pois não conheço intimamente homem algum." (Lucas 1:34) — a mesma linguagem de "conhecer intimamente" para a relação conjugal. Lucas, pelo lado de Maria, confirma a concepção virginal que este versículo preserva pelo lado de José.
"E deu à luz seu filho primogênito, e o envolveu em panos, e o deitou numa manjedoura; porque não havia lugar para eles na hospedaria." (Lucas 2:7) — o relato do parto que Mateus apenas menciona. Lucas descreve a cena do nascimento que aqui se consuma.
"Quando se completaram os oito dias para circuncidá-lo, foi chamado o seu nome Jesus, o qual havia sido posto pelo anjo antes que fosse concebido." (Lucas 2:21) — a imposição do nome Jesus, que Mateus registra aqui, é confirmada por Lucas no rito da circuncisão. A ordem do anjo é cumprida por completo.
"Por isso o Senhor, ele mesmo, vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá, e fará nascer um filho, e ela chamará seu nome Emanuel." (Isaías 7:14) — a profecia que o versículo consuma: a virgem concebeu e deu à luz. O nascimento aqui narrado é o cumprimento do sinal anunciado por Isaías.
"Mas quando o tempo se completou, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei," (Gálatas 4:4) — Paulo resume o que se conclui neste versículo: no tempo certo, o Filho de Deus nasce de mulher e entra na história, cumprindo o plano de Deus.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: mas não teve relações com ela até que ela deu à luz o seu filho primogênito; e ele lhe deu o nome de Jesus.
Texto grego: καὶ οὐκ ἐγίνωσκεν αὐτὴν ἕως οὗ ἔτεκεν τὸν υἱὸν αὐτῆς τὸν πρωτότοκον· καὶ ἐκάλεσεν τὸ ὄνομα αὐτοῦ Ἰησοῦν.
Transliteração: kai ouk eginōsken autēn heōs hou eteken ton huion autēs ton prōtotokon; kai ekalesen to onoma autou Iēsoun.
Análise palavra por palavra:
ouk eginōsken autēn (οὐκ ἐγίνωσκεν αὐτὴν) — "não a conhecia". O verbo ginōskō ("conhecer") é usado, à maneira hebraica, como eufemismo para a relação conjugal. O tempo imperfeito indica uma ação contínua: José não teve, durante todo aquele período, relações com Maria.
heōs hou (ἕως οὗ) — "até que". É a expressão no centro do debate. Ela afirma que a abstinência durou até o nascimento, mas, por si só, não declara o que aconteceu depois. Em grego, como em português, "até que" foca o antes do marco e deixa o depois em aberto — daí a discussão sobre a virgindade perpétua.
eteken ton huion autēs (ἔτεκεν τὸν υἱὸν αὐτῆς) — "deu à luz o seu filho". O verbo tiktō ("parir") afirma o nascimento real e humano de Jesus.
ton prōtotokon (τὸν πρωτότοκον) — "o primogênito". É importante ser honesto quanto ao texto: o Textus Receptus, base desta tradução, traz "primogênito", palavra que os manuscritos mais antigos omitem neste versículo (ela é certa em Lucas 2:7). "Primogênito" significa "o primeiro a nascer" e, na Bíblia, é sobretudo um título de honra e de direitos do filho mais velho; ela não afirma, por si mesma, que houve filhos depois — embora seja um dos dados invocados no debate.
ekalesen to onoma autou Iēsoun (ἐκάλεσεν τὸ ὄνομα αὐτοῦ Ἰησοῦν) — "chamou o seu nome Jesus". José cumpre a ordem do versículo 21, impondo o nome e, com isso, reconhecendo legalmente o menino como filho.
Nota teológica: o versículo afirma uma coisa com clareza e deixa outra em aberto, e a honestidade pede que se distingam as duas. Está claro que não houve união conjugal até o nascimento — o que confirma a concepção virginal. Não está resolvido, apenas por esta frase, se Maria permaneceu virgem depois. A expressão "até que" (heōs hou) não decide a questão: ela nega a relação antes do parto e silencia sobre o que veio depois. Por isso as tradições cristãs divergem — católicos e ortodoxos afirmam a virgindade perpétua, apoiados na tradição antiga; muitos protestantes entendem que houve depois uma vida conjugal normal, apoiados no sentido comum de "até que" e nas menções aos irmãos de Jesus. O grau de certeza, quanto a este versículo isolado, é baixo, e reconhecê-lo é mais fiel ao texto do que forçá-lo a um lado. O que o versículo garante, e importa para a fé, é o essencial: a origem divina de Jesus e a obediência completa de José.
11. Conclusão
Mateus 1:25 encerra o relato do nascimento com dois atos de José: preservar a concepção virginal, não conhecendo Maria até o parto, e impor ao menino o nome Jesus, como o anjo ordenara. A obediência que o capítulo vinha narrando chega ao seu ponto final e completo.
Tratamos com honestidade a frase mais discutida do versículo. Está claro o que ele afirma: não houve união conjugal até o nascimento, o que confirma que a gravidez foi obra só do Espírito. E está em aberto o que ele não afirma: a expressão "até que" não resolve, sozinha, o debate sobre a virgindade perpétua de Maria, que atravessa tradições cristãs sérias apoiadas em mais do que esta única frase. Dizer com certeza o que o texto diz e com humildade o que ele cala é o caminho honesto.
Assim se fecha o capítulo do nascimento. O menino concebido pelo Espírito, anunciado pelo anjo, esperado pelos profetas, recebe o nome que resume a sua missão — Jesus, "o Senhor salva" — das mãos de um homem justo e obediente. Tudo estava pronto. A promessa de "Deus conosco" tinha, enfim, um rosto, um nome e um lar.













