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Mateus 12:35

✍️ Por Alberto Adriano·24 de julho de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 27 acessos
O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do mau tesouro.
Uma arca ou cofre aberto no interior do peito humano, de onde saem tanto luz quanto sombra - a imagem do tesouro do coracao de onde procedem, segundo a sua natureza, as palavras e as obras de cada um.

Estudo


O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do mau tesouro.

1. Introdução

Poucos versículos dizem tanto em tão pouco. Mateus 12:35 fecha uma pequena parábola que Jesus acabara de propor — a da árvore e do fruto (12:33) — aplicando-a diretamente à vida de cada pessoa: "O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do mau tesouro." A imagem é a de um depósito. Cada um carrega dentro de si um "tesouro", um reservatório do qual, sem esforço, brotam as palavras e as obras. O que sai não é aleatório: revela o que estava guardado.

O contexto imediato é a acusação de Belzebu (12:24) e a resposta severa de Jesus. Ele acabara de dizer aos fariseus: "Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore" (12:33). O versículo 35 traduz essa botânica em antropologia: assim como a árvore não escolhe cada fruto individualmente, mas produz segundo a sua natureza, o ser humano fala e age segundo o "tesouro" que acumulou por dentro. Este estudo procura ler o versículo sem cair nem no moralismo raso ("seja bom e produzirá o bem") nem no determinismo fatalista ("você é o que é e ponto"). A questão de fundo é mais fina: se o fruto denuncia a raiz, e se o "tesouro" parece dado, onde entra a responsabilidade? A resposta, como veremos, está em reconhecer que o tesouro do coração não nasce pronto — ele se forma.

2. Contexto Histórico e Cultural

A palavra grega traduzida por "tesouro", thēsauros, não designava primariamente joias, mas o lugar onde se guardavam bens — o depósito, a despensa, o cofre, o celeiro. No mundo do primeiro século, a casa de uma família tinha seu thēsauros: o canto onde se acumulava o grão, o azeite, as moedas, aquilo de que se lançava mão conforme a necessidade. Dizer que o homem "tira do seu tesouro" é evocar essa imagem doméstica e concreta: da mesma reserva de onde se retira o pão de cada dia, o coração retira as palavras e os atos de cada dia. O que se tem guardado é o que se tem para gastar.

A metáfora agrícola que a antecede — árvore e fruto — pertencia ao repertório comum da sabedoria judaica. O leitor do Antigo Testamento conhecia o Salmo 1, com a árvore plantada junto às correntes de águas que "dá o seu fruto no seu tempo", e conhecia os provérbios que ligavam a boca ao coração. Jesus não inventa uma imagem estranha; retoma um modo de pensar já enraizado na tradição de Israel, no qual o interior invisível se manifesta necessariamente no exterior visível, como a seiva se manifesta no fruto.

Há ainda o pano de fundo do "coração" (kardia, traduzindo o hebraico lev). Para o pensamento bíblico, o coração não era a sede do sentimento em oposição à razão, como no uso moderno, mas o centro integrador da pessoa inteira — a mente, a vontade, a memória, os afetos e as decisões. Falar do "tesouro do coração" era, portanto, falar do núcleo de onde a pessoa toda procede: não um sentimentalismo, mas o eixo do caráter. É essa carga cultural que dá peso ao versículo: o que Jesus diz sair "do coração" sai do fundo real de quem a pessoa é.

3. Análise Teológica do Versículo

"O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração"

A ordem das palavras é significativa. Primeiro o homem bom, depois o tesouro bom, depois o fruto bom. Há uma cadeia: o caráter (o homem) forma um reservatório (o tesouro) do qual procede a manifestação (as coisas boas). O verbo "tira" (ekballei, literalmente "lança para fora") sugere algo quase espontâneo — não uma produção calculada a cada vez, mas um transbordamento do que está dentro. O bem, aqui, não é apresentado como esforço episódico, e sim como fluxo natural de um interior já formado para o bem.

"e o homem mau tira coisas más do mau tesouro"

A simetria é rigorosa e desconfortável. Vale o mesmo mecanismo, invertido. O homem mau também tem um "tesouro" — a palavra não muda —, só que o seu depósito guarda o que é mau, e é isso que transborda. Note que Jesus não diz que o homem mau quer ser mau a cada momento; diz que ele tira do que tem. O mal, como o bem, brota do reservatório. Isso desloca a atenção do ato isolado para a fonte que o produz: o problema não é apenas a palavra má que saiu, mas o tesouro mau de onde ela saiu.

O nó teológico: determinismo aparente e responsabilidade real

Aqui está o ponto que exige honestidade. Lido de forma apressada, o versículo soa determinista: o bom produz o bem porque é bom, o mau produz o mal porque é mau, e cada um parece preso à sua natureza como a árvore ao seu tipo. Se fosse só isso, a exortação não teria sentido — não se manda uma macieira dar figos. Mas o próprio contexto quebra esse fatalismo. No versículo 33, Jesus diz "fazei a árvore boa" — um imperativo, um chamado à ação. E no versículo 37 ele responsabiliza cada um por suas palavras no juízo. Ou seja: a metáfora da árvore descreve a lógica (o fruto revela a raiz), mas não anula a liberdade (a raiz pode ser mudada). A chave está em perceber que o "tesouro" não é uma herança fixa que se recebe pronta; é um acúmulo. Ninguém deposita num cofre de uma só vez — deposita-se moeda a moeda, escolha a escolha. O tesouro do coração é o resultado sedimentado de mil decisões pequenas, de hábitos de pensamento, de atenções repetidas. É determinante no momento presente (o que sai agora vem do que já se guardou) e, ao mesmo tempo, formável no tempo (o que se guarda hoje decide o que sairá amanhã). O versículo não elimina a responsabilidade; ele a desloca para trás, do ato para a formação do caráter que o produz.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus, o mestre — é quem fala, encerrando a controvérsia de Belzebu com uma lição sobre o interior humano. Não responde à acusação apenas rebatendo-a; expõe a lei mais profunda de que fala revela coração. Ao dizê-lo, ele mesmo aplica a régua aos acusadores: as palavras deles denunciam o tesouro deles.

O "homem bom" — não um personagem histórico, mas uma figura-tipo. Representa a pessoa cujo interior foi formado para o bem e cujas obras e palavras transbordam desse fundo. Importa notar que sua bondade é apresentada como estado do tesouro, não como pose momentânea: o bem que produz é sinal do que se acumulou dentro.

O "homem mau" — a figura-tipo oposta e, no contexto, uma alusão nada velada aos fariseus que acabaram de atribuir a Belzebu a obra do Espírito (12:24). O tesouro mau de que fala não é abstração: é o depósito de onde saiu aquela acusação. Suas palavras o traíram.

O coração (kardia) — o "lugar" do versículo, ainda que invisível. É o depósito interior, o centro integrador da pessoa, de onde tudo procede. Não é cenário geográfico, mas o verdadeiro palco da cena: é ali que o fruto se decide antes de aparecer na boca.

O evento implícito — as palavras que os fariseus acabaram de proferir. O versículo 35 é, em parte, um comentário sobre o que aconteceu instantes antes: uma fala saiu, e essa fala revelou o reservatório de onde veio. O "evento" é a própria linguagem como sintoma do interior.

5. Pontos de Ensino

O que sai revela o que está guardado — a fala e a obra não são a superfície da pessoa, mas o extrato do seu interior. Ensina que não há como manter, por muito tempo, um exterior bom sobre um tesouro mau: o reservatório sempre transborda no que ele contém.

O caráter é um acúmulo, não um acidente — a imagem do "tesouro" é a de algo que se junta. Ensina que ninguém se torna bom ou mau de um salto; torna-se pelo que deposita, dia após dia, no cofre invisível do coração. As escolhas pequenas são depósitos.

A raiz importa mais que o gesto — Jesus não se contenta em julgar o fruto isolado; remonta à árvore. Ensina que corrigir só o comportamento externo, sem tratar o tesouro interior, é podar folhas e deixar a raiz — o mesmo fruto voltará.

Determinar não é aprisionar — o tesouro determina o que sai agora, mas pode ser refeito com o tempo. Ensina, contra o fatalismo, que o caráter é formável: mudar o que se produz exige mudar, pacientemente, o que se guarda. A esperança da transformação está aqui.

As palavras julgam a fonte — no contexto, a fala dos fariseus os condenou. Ensina, com sobriedade, que a linguagem é um dos sintomas mais fiéis do interior: o modo como se fala do próximo, do bem e de Deus denuncia o tesouro de onde brota.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo toca uma das tensões mais antigas da ética: a relação entre ser e agir. A tradição filosófica, de Aristóteles em diante, percebeu que as ações boas não brotam do nada, mas de uma disposição estável — o que ele chamava de héxis, o hábito virtuoso formado pela repetição. Jesus diz algo próximo, com outra imagem: o fruto vem da árvore, o ato vem do tesouro. A virtude não é um esforço avulso de vontade a cada decisão, mas o transbordamento de um caráter já constituído. Isso ilumina por que a exortação moral pura ("faça o bem!") tantas vezes falha: ela pede fruto sem cuidar da raiz. O versículo sugere que a formação do interior precede e possibilita a retidão do exterior.

Há, porém, o problema do determinismo que a imagem parece implicar — e é aqui que a leitura precisa ser filosoficamente honesta. Se a árvore não pode senão dar o fruto da sua espécie, e se o homem "tira do que tem", em que sentido ele é livre e responsável? A saída não está em negar que o tesouro determine a ação presente — ele determina, e fingir o contrário seria ingênuo. A saída está em distinguir dois níveis de tempo. No instante, a ação é determinada pelo caráter já formado: não escolhemos, a cada palavra, entre toda a gama moral possível; falamos do que somos. Mas no longo prazo, o caráter é ele próprio produto de escolhas acumuladas — e aí reside a liberdade. Somos responsáveis não tanto por cada fruto isolado quanto pela árvore que, ao longo de uma vida, deixamos que nos tornássemos. É a diferença entre a liberdade de momento e a liberdade de formação. A ética do versículo é uma ética da segunda: cuida-se do tesouro, e os frutos seguem.

Convém marcar o grau de certeza. Que o versículo ensina a correspondência entre interior e exterior — o fruto revela a árvore — é o que o texto afirma com clareza; certeza alta. Já a leitura que o concilia com a responsabilidade (o tesouro como formável, e não como fatalidade) é uma interpretação bem fundamentada no contexto imediato — os imperativos do versículo 33 e o juízo do versículo 37 —, mas é interpretação, e a franqueza pede reconhecê-lo. E a analogia com a héxis aristotélica é iluminadora, não uma equivalência exata: Jesus não está fazendo filosofia grega, e forçar o paralelo seria distorcer os dois. A honestidade distingue o que o texto diz (correspondência), o que dele se infere com boa base (formação do caráter) e o que apenas se aproxima por analogia (a virtude como hábito).

7. Aplicações Práticas

A primeira aplicação é um convite ao autoexame pela via do fruto. Como não temos acesso direto ao nosso próprio tesouro — o coração se esconde de si mesmo —, o caminho mais honesto de autoconhecimento é observar o que dele sai. O que dizemos quando estamos cansados, irritados ou sem plateia; o que pensamos primeiro diante do sucesso alheio; a palavra que escapa antes de a editarmos. Esses "frutos" involuntários são os mais reveladores, porque não passaram pelo filtro da imagem que queremos dar. Em vez de negá-los ("não sou assim de verdade"), vale lê-los como amostras do depósito: se saiu, é porque estava guardado.

A segunda aplicação toca a formação, não só a correção. Se o tesouro se forma por acúmulo, então mudar o que produzimos exige mudar, com paciência, o que depositamos. Não adianta apenas prometer não repetir a fala amarga; é preciso perguntar o que a alimenta — que ressentimentos guardados, que hábitos de comparação, que dietas de conteúdo e de companhia vêm enchendo o cofre. Trocar o fruto pela raiz significa cuidar das pequenas entradas diárias: aquilo a que damos atenção, o que lemos e ouvimos, as pessoas com quem convivemos, o que ensaiamos por dentro. O caráter é construído em depósitos miúdos, e é ali, no miúdo, que a mudança de fato começa.

A terceira aplicação é uma advertência contra o moralismo raso — inclusive o nosso, quando julgamos os outros. É fácil transformar este versículo numa etiqueta ("fulano é a árvore má") e usá-lo para condenar pessoas em bloco. Mas o próprio Jesus o dirige a acusadores, e a régua vale primeiro para quem a empunha: minhas palavras sobre o outro saem do meu tesouro, e o modo como julgo denuncia o que guardo. Antes de classificar a árvore alheia, convém examinar de que depósito vem a minha pressa em condená-la. A aplicação mais difícil do versículo é aplicá-lo a si mesmo antes de aplicá-lo a quem quer que seja.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O que significa Mateus 12:35?

Significa que as palavras e obras de uma pessoa procedem do seu interior, como o fruto procede da árvore. Jesus usa a imagem de um "tesouro" — um depósito guardado no coração — para dizer que o homem bom transborda do bem que acumulou e o homem mau transborda do mal que acumulou. O que sai revela o que está dentro. No contexto, é uma resposta aos fariseus: a acusação que eles acabaram de fazer denunciou o tesouro de onde ela veio.

2. O que é o "tesouro" do coração?

No grego, thēsauros não é primariamente joia, mas o lugar onde se guardam bens — o depósito, o celeiro, o cofre da casa. Aplicado ao coração, é o reservatório interior de onde a pessoa "tira" o que fala e faz. É a soma acumulada do seu caráter: valores, hábitos de pensamento, afetos, memórias e escolhas sedimentadas. Da mesma reserva de onde se retira o pão diário, o coração retira as palavras e os atos de cada dia.

3. O versículo ensina que a pessoa é determinada, sem liberdade?

Não, embora à primeira vista pareça. É verdade que o versículo afirma um determinismo no instante: o que sai agora vem do que já se guardou; não escolhemos, a cada palavra, do zero. Mas o próprio contexto corrige o fatalismo. No versículo 33, Jesus manda "fazer a árvore boa" — um imperativo só faz sentido se há liberdade —, e no versículo 37 ele responsabiliza cada um por suas palavras. A conciliação está em ver o tesouro como algo que se forma ao longo do tempo: é determinante hoje, mas formável amanhã.

4. Como o "tesouro" se forma, então?

Por acúmulo. Ninguém enche um cofre de uma vez; enche-o moeda a moeda. Do mesmo modo, o tesouro do coração é o resultado sedimentado de escolhas repetidas, de hábitos de atenção, de companhias e alimentos mentais. Cada pequena decisão é um depósito. Por isso a mudança de caráter é possível, mas lenta: não se troca o conteúdo do depósito num salto, e sim mudando, com paciência, o que se deposita nele dia após dia.

5. Qual a relação com a parábola da árvore e do fruto (12:33)?

O versículo 35 é a aplicação humana da imagem botânica do versículo 33. "Pelo fruto se conhece a árvore" torna-se "pelas obras e palavras se conhece o coração". A árvore é a pessoa; o tesouro é a raiz; o fruto são as manifestações. A lógica é a mesma: o interior invisível determina o exterior visível, e o exterior, por sua vez, revela o interior. Não há como uma árvore boa dar fruto mau de forma constante, nem um coração mau produzir bem de forma constante.

6. Por que Jesus fala disso logo após a acusação de Belzebu?

Porque a fala dos fariseus é o exemplo vivo do que ele descreve. Eles olharam para uma obra libertadora e a chamaram de demoníaca (12:24). Jesus, em vez de apenas negar a acusação, mostra de onde ela veio: de um tesouro mau. As palavras deles não foram um deslize isolado — foram fruto de uma raiz. É por isso que, logo em seguida (12:36-37), ele adverte que por cada palavra ociosa daremos conta no juízo: a linguagem é sintoma do coração.

7. Qual a diferença entre este versículo e um moralismo do tipo "seja bom"?

A diferença é a direção. O moralismo raso ataca o fruto: manda produzir o bem por esforço de vontade, sem cuidar da fonte. O versículo aponta para a raiz: o bem verdadeiro não é performance episódica, mas transbordamento de um interior formado. Não se trata de fingir frutos bons numa árvore má — o que seria hipocrisia, e Jesus a denunciava —, mas de tornar boa a árvore, para que o fruto venha por consequência. É uma ética da formação, não da fachada.

8. Como este versículo se relaciona com Lucas 6:45?

Lucas 6:45 é o paralelo quase idêntico: "O homem bom, do bom tesouro do seu coração, tira o bem... porque da abundância do coração fala a boca." Lucas acrescenta explicitamente a frase sobre a boca e a "abundância" (perisseuma) do coração — o transbordamento. Os dois textos ensinam a mesma verdade, e Lucas torna ainda mais claro o elo entre o tesouro interior e a fala: falamos daquilo que nos sobra por dentro. Ler os dois juntos reforça que a linguagem é o principal fruto pelo qual o coração se dá a conhecer.

9. O versículo autoriza rotular pessoas como "árvore má"?

É preciso cautela. Jesus usa a imagem para descrever uma lógica (o fruto revela a raiz) e para confrontar acusadores concretos, não para nos dar uma etiqueta com que classificar e descartar pessoas. Como o próprio tesouro é formável, ninguém está condenado à sua condição atual. E como o versículo é dirigido a quem acusa, sua primeira aplicação é ao próprio ouvinte: minhas palavras sobre o outro saem do meu tesouro. Usá-lo para julgar terceiros, antes de a si mesmo, é justamente o tipo de fruto que denuncia um depósito ruim.

10. Quais são as principais lições de Mateus 12:35?

Que o que sai de nós — palavra e obra — revela o que temos guardado por dentro; que o caráter é um acúmulo, formado depósito a depósito, e não um acidente fixo; que a transformação começa na raiz, não no gesto isolado; que o determinismo do instante convive com a liberdade da formação, tornando a mudança possível ainda que lenta; e que a régua vale primeiro para quem a empunha. A pergunta que o versículo devolve é direta: do que anda cheio o meu tesouro, se é isto que tem transbordado nas minhas palavras?

9. Conexão com Outros Textos

"O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal; porque da abundância do coração fala a sua boca." (Lucas 6:45)

O paralelo direto. Lucas registra o mesmo ensino, acrescentando a chave que o torna inequívoco: "da abundância do coração fala a boca". Onde Mateus diz "tira do tesouro", Lucas explica que é o transbordamento (perisseuma) do interior que sobe à fala. A conexão mostra que a linguagem é o fruto mais imediato do coração — falamos daquilo que nos sobra por dentro —, e ajuda a ler Mateus 12:35 sem reduzi-lo a atos apenas: também, e sobretudo, palavras.

"Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore." (Mateus 12:33)

A imagem que o versículo 35 aplica. Dois versículos antes, Jesus estabelece a lógica botânica; no 35, ele a transpõe para o coração humano. A conexão é o próprio raciocínio da cena: a árvore é a pessoa, o fruto são suas obras e palavras. E o imperativo "fazei a árvore boa" é decisivo contra a leitura fatalista — mostra que a raiz pode ser mudada, e que o tesouro não é uma sentença, mas um cultivo.

"Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida." (Provérbios 4:23)

A raiz veterotestamentária. Muito antes de Jesus, a sabedoria de Israel já ensinava que do coração "procedem as fontes da vida" e que, por isso, ele deve ser guardado acima de tudo. A conexão revela que Mateus 12:35 não é novidade isolada, mas o florescimento de uma intuição antiga: vigiar o interior, porque é dele que tudo mais decorre. O "guardar o coração" do provérbio é exatamente o cuidado com o tesouro que o versículo pressupõe.

"Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus pensamentos... Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem." (Marcos 7:21-23)

A confirmação sobre a direção do mal. Em outra ocasião, Jesus localiza a origem da impureza não no que entra na pessoa, mas no que sai — e o que sai vem "de dentro, do coração". A conexão reforça o eixo de 12:35: o problema humano não é primariamente externo, e sim o conteúdo do reservatório interior. Tratar o exterior sem tratar o coração é limpar o fruto e deixar a raiz intacta.

10. Original Grego e Análise

Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do mau tesouro.”

Texto grego (Textus Receptus): Ὁ ἀγαθὸς ἄνθρωπος ἐκ τοῦ ἀγαθοῦ θησαυροῦ τῆς καρδίας ἐκβάλλει τὰ ἀγαθά· καὶ ὁ πονηρὸς ἄνθρωπος ἐκ τοῦ πονηροῦ θησαυροῦ ἐκβάλλει πονηρά.

Transliteração: "Ho agathòs ánthrōpos ek toû agathoû thēsauroû tês kardías ekbállei tà agathá; kaì ho ponēròs ánthrōpos ek toû ponēroû thēsauroû ekbállei ponērá."

Palavra a palavra

"agathos" (bom) — agathós designa o bom em sentido moral e essencial, o que é bom por natureza e não apenas útil ou agradável. Aplicado ao "homem" e ao "tesouro", indica uma qualidade que atravessa a pessoa e o seu depósito interior: é o bom em profundidade, não o bom de aparência. A repetição do termo (homem bom, tesouro bom, coisas boas) amarra a cadeia da fonte ao fruto.

"anthropos" (homem) — ánthrōpos, o ser humano em geral, sem distinção de sexo; não "varão" (anēr), mas a pessoa como tal. A escolha universaliza o ensino: não se trata de um tipo específico, mas de qualquer ser humano. A lei que o versículo enuncia vale para todos — o fruto de cada um denuncia o seu tesouro.

"ek tou... thēsaurou" (do tesouro) — a preposição ek indica origem, "para fora de", "a partir de". O ponto gramatical reforça o teológico: as obras e palavras têm uma procedência, saem de um lugar. E esse lugar é o thēsauros — não a joia, mas o depósito, o celeiro, o cofre onde se guardam bens. A imagem é a de retirar de um estoque acumulado aquilo que se gasta no dia a dia.

"tēs kardias" (do coração) — kardia traduz o hebraico lev: não a sede do mero sentimento, mas o centro integrador da pessoa — mente, vontade, memória e afeto reunidos. O genitivo "do coração" localiza o tesouro: o depósito de que se fala é interior, é o núcleo de quem a pessoa é. Dizer que algo sai "do tesouro do coração" é dizer que sai do fundo real do caráter.

"ekballei" (tira, lança para fora) — presente de ekballō, literalmente "lançar para fora", "expelir". É o mesmo verbo usado, na mesma controvérsia, para Jesus "expulsar" demônios (12:24,28) — um eco possivelmente intencional. Aqui, o presente indica ação habitual e contínua, e a força do verbo sugere algo que transborda mais do que se calcula: o tesouro não é consultado a cada vez, ele verte o que contém. É a espontaneidade do caráter em ato.

"ponēros" (mau) — ponērós denota o mal ativo, nocivo, que faz dano — não apenas a ausência do bem, mas a malignidade que trabalha. É a mesma palavra usada para o "Maligno" no Pai-Nosso. Ao qualificar o homem, o tesouro e as coisas que saem, marca a simetria perfeita e sombria do versículo: como o bem, também o mal tem sua fonte, seu depósito e seu fruto.

"ta agatha / ponēra" (as coisas boas / más) — os frutos, no plural. São as manifestações concretas — palavras, atos, atitudes — que procedem de cada tesouro. O plural sugere não um gesto único, mas o conjunto contínuo do que a vida produz. Note que o objeto (bom ou mau) espelha exatamente a natureza da fonte: da fonte boa, coisas boas; da má, más. A correspondência é o cerne do ensino.

Nota textual e teológica

No plano textual, o versículo é notavelmente estável. Textus Receptus e edições críticas concordam quase inteiramente; a variação mais comentada é que alguns manuscritos, no segundo membro, acrescentam "do seu coração" também ao homem mau (harmonizando com a primeira metáfora e com Lucas 6:45), enquanto outros trazem apenas "do mau tesouro". A diferença não altera o sentido: com ou sem a repetição, o tesouro em questão é o do coração. Podemos afirmar com alta segurança o que a frase ensina — a correspondência entre a fonte interior e o fruto exterior.

A honestidade, porém, pede marcar os graus de certeza na interpretação. O que o texto afirma diretamente — que o fruto revela a árvore, que o que sai vem do tesouro — é de certeza alta. Já a conciliação entre esse aparente determinismo e a responsabilidade humana (o tesouro como formável, e não como fatalidade) é uma leitura bem ancorada no contexto imediato, sobretudo no imperativo "fazei a árvore boa" (12:33) e no juízo das palavras (12:37); é sólida, mas é inferência, não afirmação explícita do versículo 35. E o eco entre o ekballei daqui e o "expulsar demônios" da mesma passagem é sugestivo, possivelmente intencional, mas não se deve construir sobre ele mais do que uma ressonância. Em resumo: sabemos com firmeza que o versículo ensina a correspondência interior-exterior; a moldura da responsabilidade é interpretação bem fundada; e certos ecos verbais são pistas, não provas. A franqueza distingue o que o texto diz do que dele legitimamente se deduz.

11. Conclusão

Mateus 12:35 recolhe, numa só frase, a lei que rege toda a controvérsia do capítulo: o que sai de uma pessoa vem do que ela guardou por dentro. Jesus a enuncia diante de acusadores cujas próprias palavras acabavam de trair o seu tesouro, e a formula com uma imagem doméstica e certeira — o depósito de onde se retira, dia após dia, aquilo de que se vive. Bom homem, bom tesouro, bom fruto; mau homem, mau tesouro, mau fruto. A correspondência é rigorosa, e é justamente por isso que o versículo é ao mesmo tempo um espelho e um alerta: aquilo que temos dito e feito, sobretudo sem pensar, é a amostra mais fiel do que temos acumulado.

Lido com honestidade — reconhecendo que a moldura da responsabilidade é interpretação bem fundada, e não afirmação literal do versículo, e que o tesouro determina o instante ainda que se forme no tempo —, o texto entrega o essencial com nitidez e sem moralismo raso. Não manda apenas "produzir o bem"; aponta para a raiz de onde o bem verdadeiro brota, e revela que essa raiz não é uma sentença fixa, mas um cultivo lento, feito de depósitos miúdos e diários. Fica, então, a pergunta que a cena devolve a cada leitor: se por aquilo que transborda de mim se conhece o que guardo, do que anda cheio o meu tesouro — e o que preciso começar a depositar hoje, para que amanhã saia coisa melhor?

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