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Mateus 13:12

✍️ Por Alberto Adriano·1 de agosto de 2026·⏱️ 16 min de leitura·👁 22 acessos
Pois a quem tem, mais será dado, e terá em abundância; mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado.
Dois cestos de vime sobre a terra batida à beira do mar da Galileia: um transbordando de grãos dourados de trigo, o outro vazio e tombado ao lado; luz quente do fim de tarde, ambiente sereno do primeiro século, sem pessoas.

Estudo


Pois a quem tem, mais será dado, e terá em abundância; mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado.

1. Introdução

O capítulo 13 de Mateus reúne as parábolas do Reino, e a primeira delas — a do semeador — acabou de ser contada (13:1-9). Entre a parábola e a sua explicação, os discípulos fazem uma pergunta simples: por que Jesus fala ao povo por meio de parábolas? A resposta começa no versículo 11, com a distinção entre os que recebem "os mistérios do Reino dos céus" e os que não os recebem. O versículo 12 é o princípio que sustenta essa distinção.

Não é uma parábola, é uma sentença — quase um provérbio. Jesus formula uma espécie de lei do Reino: quem tem, recebe mais; quem não tem, perde até o pouco que possui. Dita assim, sem contexto, a frase soa dura, até injusta, como se premiasse o privilégio e punisse a carência. Entender o que ela significa exige lê-la onde ela nasce: no meio de uma conversa sobre por que uns entendem a mensagem do Reino e outros não. É disso que trata este estudo.

2. Contexto Histórico e Cultural

A cena se passa à beira do mar da Galileia, onde Jesus ensinava sentado num barco enquanto a multidão o ouvia da praia (13:1-2). O versículo 12 pertence ao momento em que ele se volta para os discípulos, em particular, e explica por que escolheu o formato da parábola para falar ao povo.

A frase tem forma de provérbio, e não é a única vez que aparece nos evangelhos. Ela reaparece quase palavra por palavra na parábola dos talentos (Mateus 25:29), no relato paralelo de Marcos (4:25), em Lucas 8:18 e outra vez em Lucas 19:26, dentro da parábola das minas. Esse reaproveitamento sugere que se trata de um dito conhecido, uma sentença que Jesus empregava em contextos diferentes para iluminar a mesma verdade sobre o Reino. Não é uma regra criada para esta ocasião; é um princípio que ele repete.

Por trás da imagem há uma realidade econômica concreta do primeiro século. Na Palestina rural, dominada por grandes proprietários, dívidas e um sistema em que a terra se concentrava em poucas mãos, quem tinha capital acumulava mais, e quem nada tinha muitas vezes perdia até o pouco que restava — o pequeno lavrador endividado acabava sem a própria terra. Os ouvintes de Jesus conheciam de perto essa lógica implacável. Ele toma esse fato social duro e o transforma em espelho de uma verdade espiritual: no Reino há também um acúmulo e uma perda, embora a "riqueza" em questão seja de outra natureza.

Há ainda o pano de fundo da chamada teoria das parábolas. Nos versículos vizinhos (13:11-15), Jesus liga o falar em parábolas ao texto de Isaías 6:9-10, sobre um povo que ouve e não entende. A parábola, então, tem efeito duplo: revela ao coração aberto e vela ao coração fechado. O versículo 12 explica o mecanismo dessa dupla ação — quem já se abriu recebe mais luz; quem se fechou perde o acesso até àquilo que entrevia. É preciso marcar o grau de certeza: o texto não detalha se esse "fechar-se" é primeiro uma escolha humana que Deus depois ratifica, ou uma ação divina anterior. A tradição cristã debate o ponto há séculos, e voltaremos a ele adiante.

3. Análise Teológica do Versículo

"Pois a quem tem, mais será dado"

Esta frase expressa um princípio de crescimento e compreensão espiritual. No contexto de Mateus 13, Jesus fala em parábolas para transmitir verdades mais profundas sobre o Reino dos céus. Aqueles que têm discernimento espiritual e disposição para entender a palavra de Deus receberão ainda mais revelação e sabedoria. Esse princípio ressoa na parábola dos talentos (Mateus 25:14-30), em que os servos fiéis são recompensados com responsabilidades maiores. A ideia é que a receptividade espiritual conduz a bênçãos e a um entendimento cada vez maiores.

"e terá em abundância"

A promessa de abundância não se refere necessariamente a riqueza material, mas sobretudo a uma abundância de conhecimento espiritual, de graça e de bênçãos. Essa abundância é fruto da fidelidade e de um coração aberto aos ensinos de Deus. Em João 10:10, Jesus diz ter vindo para que os que creem tenham vida, e vida em abundância, ressaltando a riqueza da vida nele. A abundância aqui é o suprimento das necessidades espirituais e um relacionamento mais profundo com Deus.

"mas a quem não tem"

Esta frase se refere àqueles que carecem de discernimento espiritual ou não estão dispostos a receber e entender a palavra de Deus. No contexto do ministério de Jesus, ela se aplicava muitas vezes aos líderes religiosos, resistentes à sua mensagem. A falta de entendimento deles não vinha de falta de oportunidade, mas de um coração endurecido e da recusa em aceitar a verdade.

"até o que tem lhe será tirado"

Este é um aviso sobre as consequências do descuido e da rejeição espiritual. O pouco entendimento ou a pouca oportunidade que alguém possui pode se perder, se não for cultivado. Esse princípio aparece na parábola do semeador (Mateus 13:1-23), em que as sementes que caem no solo pedregoso ou entre espinhos não dão fruto. Ele acentua a importância de ser receptivo à palavra de Deus e o perigo da acomodação espiritual. A retirada daquilo que se tem pode ser vista como uma forma de juízo por rejeitar a verdade, como se ilustra em Romanos 1:21-28, onde os que rejeitam a Deus são entregues ao seu próprio pensamento vão.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus Cristo — quem pronuncia o versículo, ensinando os discípulos e as multidões por meio de parábolas.

Os discípulos — a audiência mais próxima dos ensinos de Jesus, a quem é dado entender os mistérios do Reino.

As multidões — o grupo maior que segue Jesus e ouve as suas parábolas, mas nem sempre as compreende.

As parábolas — método de ensino usado por Jesus para transmitir verdades espirituais por meio de histórias simples e analogias.

O Reino dos céus — o tema central dos ensinos de Jesus, que representa o reinado e o governo de Deus.

5. Pontos de Ensino

Entendimento e receptividade — Jesus ressalta a importância de estar aberto e receptivo aos seus ensinos. Quem se dispõe a ouvir e a entender recebe mais discernimento e sabedoria.

Crescimento e responsabilidade espiritual — os que creem são chamados a ser bons administradores do conhecimento e dos dons que receberam. À medida que crescem na fé, recebem mais responsabilidade e entendimento.

As consequências do descuido — ignorar ou negligenciar as verdades espirituais pode levar à perda de entendimento e de oportunidade. É fundamental engajar-se ativamente com a palavra de Deus.

Fidelidade nas pequenas coisas — ser fiel em assuntos pequenos conduz a oportunidades e bênçãos maiores. Esse princípio vale para todas as áreas da vida, inclusive o crescimento espiritual.

A perspectiva do Reino — o ensino de Jesus nos leva a ver a vida da perspectiva do Reino, priorizando a riqueza espiritual acima dos bens terrenos.

6. Aspectos Filosóficos

Lida fora de contexto, a sentença parece consagrar a injustiça: dar mais a quem já tem e tirar do que nada tem. A dificuldade é real e não deve ser dissolvida com pressa. Tanto que, na sociologia moderna, o fenômeno pelo qual quem já possui vantagens tende a acumular ainda mais recebeu o nome de "efeito Mateus", tirado justamente deste versículo. Convém, então, perguntar em que sentido a frase é verdadeira sem ser cruel.

A chave está no tipo de bem de que se fala. Bens materiais são finitos: o que vai para um falta a outro. Já a compreensão espiritual funciona como uma capacidade que cresce com o uso e atrofia com o abandono. Quem exercita a atenção, a obediência e a fé desenvolve uma sensibilidade que o torna capaz de receber mais — como o ouvido treinado que passa a distinguir o que antes lhe escapava. Quem se recusa a usar o que recebeu perde aos poucos até a capacidade de perceber. Não é que Deus arranque de forma arbitrária o pouco do pobre; é que o dom não cultivado definha por si mesmo. A frase descreve uma lei do crescimento, não um capricho.

Resta a questão mais espinhosa, ligada à teoria das parábolas. Nos versículos seguintes, Jesus associa o falar em parábolas a Isaías 6, onde Deus manda o profeta pregar a um povo que, "ouvindo, não entende". Isso levanta o problema: Deus endurece o coração de alguns, ou apenas ratifica um endurecimento que a própria pessoa escolheu? O texto de Mateus não fecha a questão, e é honesto reconhecê-lo. A tradição cristã oscila entre duas leituras: uma que vê aqui a soberania de Deus em conceder ou reter a compreensão; outra que vê um juízo sobre a recusa humana anterior — a parábola vela para quem já fechou os olhos. As duas leituras se apoiam no texto; nenhuma o esgota. O que o versículo afirma com clareza é o resultado — acúmulo para o receptivo, perda para o indiferente —, deixando em aberto a mecânica última entre a graça de Deus e a responsabilidade humana.

7. Aplicações Práticas

Cultive o que já recebeu. O entendimento espiritual não é um estoque parado; ou cresce pelo uso, ou míngua pelo abandono. Praticar aquilo que já se compreende é a condição para receber mais.

Não subestime o pouco. A parábola dos talentos mostra que o problema do servo condenado não foi ter recebido menos, mas não ter feito nada com o que tinha. O pouco, usado com fidelidade, se multiplica.

Cuidado com a acomodação. A perda descrita no versículo raramente é súbita; é o desgaste lento de quem deixa de ouvir, de orar, de obedecer. A indiferença cobra caro a longo prazo.

Ouça com o coração aberto. A diferença entre os discípulos e a multidão não estava na inteligência, mas na disposição de receber. Aproximar-se da palavra querendo obedecer é o que abre o entendimento.

Meça a riqueza pela régua certa. O versículo desloca o valor dos bens terrenos para a riqueza do Reino. Vale examinar onde de fato investimos o nosso tempo e o nosso desejo.

Peça a Deus o que lhe falta. Se a compreensão é dada, ela também pode ser pedida. Tiago 1:5 promete que Deus concede sabedoria com generosidade a quem a pede — o oposto do coração que se fecha.

Ensine e compartilhe. Partilhar o que se aprendeu é uma das formas de exercitar o dom. O conhecimento espiritual, ao contrário do dinheiro, cresce em quem o distribui.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Como o princípio de que "a quem tem, mais será dado" se aplica à sua caminhada espiritual?

Ele significa que o pouco de fé e de entendimento que já temos, quando é praticado, abre espaço para receber mais. Cada passo de obediência aumenta a capacidade de compreender o passo seguinte. A caminhada espiritual não avança por saltos de informação, mas pelo uso fiel do que já foi dado.

2. De que maneiras você pode ser mais receptivo à palavra e aos ensinos de Deus no dia a dia?

Reservando tempo para ouvir sem pressa, aproximando-se do texto com disposição de obedecer e não apenas de saber, e removendo o que endurece o coração — a distração constante, o orgulho, a acomodação. A receptividade é menos uma questão de esforço intelectual e mais de humildade.

3. Lembre-se de um momento em que você experimentou crescimento ou perda no seu entendimento espiritual. O que contribuiu para isso?

Em geral, o crescimento acompanha períodos de atenção, prática e comunhão; a perda acompanha o descuido — a oração que cessou, a escuta que virou rotina vazia. Reconhecer os fatores concretos ajuda a identificar o que alimenta e o que corrói a vida com Deus.

4. Como aplicar o princípio da fidelidade nas pequenas coisas às suas responsabilidades e desafios atuais?

Tratando as tarefas pequenas e ocultas com o mesmo cuidado das grandes, pois é nelas que o caráter se forma. Quem é fiel no pouco se torna capaz de mais; a grandeza no Reino se constrói no que ninguém vê.

5. Que passos você pode dar para garantir que prioriza o crescimento e o entendimento espiritual na sua vida?

Definir hábitos concretos de leitura, oração e comunhão; examinar onde o tempo e o desejo são de fato investidos; e pedir a Deus, com regularidade, a sabedoria que ele promete dar a quem a busca. Prioridade se mede por decisões, não por intenções.

9. Conexão com Outros Textos

"Pois a todo aquele que tiver, lhe será dado, e terá em abundância; porém ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado." (Mateus 25:29)

O mesmo princípio, agora dentro da parábola dos talentos. O servo que fez render o que recebeu ganha mais; o que enterrou o seu talento perde até esse. É a prova de que o versículo 12 não é uma frase isolada, mas uma lei do Reino que Jesus aplica repetidamente.

"E disse-lhes: Prestai atenção ao que ouvis: com a medida que medirdes a vós mesmos se medirá, e será acrescentado a vós mesmos. Pois ao que tem, lhe será dado; e ao que não tem, até o que tem lhe será tirado." (Marcos 4:24-25)

Marcos junta ao dito a imagem da medida: o quanto alguém se dispõe a ouvir determina o quanto recebe de volta. A receptividade não é passiva — é uma medida que a pessoa mesma escolhe.

"Portanto, prestai atenção a como ouvis; pois àquele que tiver lhe será dado; e àquele que não tiver, até o que lhe parece ter, dele será tirado." (Lucas 8:18)

Lucas acrescenta o detalhe mais cortante: "o que lhe parece ter". A posse do indiferente é ilusória; ele perde algo que, no fundo, nem chegava a possuir de verdade. E tudo se decide no "como ouvis".

"Ensina ao sábio, e ele será mais sábio ainda; instrui ao justo, e ele aumentará seu conhecimento." (Provérbios 9:9)

A tradição de sabedoria do Antigo Testamento já conhecia a lei do acúmulo: o sábio se torna mais sábio. O versículo de Mateus herda e aprofunda essa intuição, aplicando-a ao entendimento do Reino.

"Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça a Deus, que concede generosamente a todos sem repreender, e lhe será dada." (Tiago 1:5)

O contraponto luminoso. Se a compreensão pode ser tirada de quem se fecha, ela é dada com generosidade a quem a pede. O coração aberto que pede é o oposto exato do coração endurecido que perde.

10. Original Grego e Análise

Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): "Pois a quem tem, mais será dado, e terá em abundância; mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado."

Texto grego (Textus Receptus): ὅστις γὰρ ἔχει, δοθήσεται αὐτῷ καὶ περισσευθήσεται· ὅστις δὲ οὐκ ἔχει, καὶ ὃ ἔχει ἀρθήσεται ἀπ᾽ αὐτοῦ.

Transliteração: "hóstis gàr échei, dothḗsetai autô kaì perisseuthḗsetai; hóstis dè ouk échei, kaì hò échei arthḗsetai ap' autoû."

Palavra a palavra

"Hóstis" (ὅστις) é o pronome relativo "todo aquele que", "quem quer que". Não aponta uma pessoa específica, mas uma categoria: qualquer um que se enquadre na condição. A frase vale como regra geral, não como sentença sobre um indivíduo.

"Gàr" (γὰρ) é a conjunção "pois", "porque". Ela é importante: liga o versículo 12 ao anterior como sua explicação. Jesus acabou de dizer que aos discípulos foi dado conhecer os mistérios do Reino, e aos outros não (13:11); o "pois" introduz o princípio que justifica essa diferença. Nota textual: o Textus Receptus traz esse "gàr" e o "autô" ("a ele") que o texto crítico moderno — base de várias traduções contemporâneas — não registra. A nossa tradução segue o Textus Receptus, e por isso a frase abre com "Pois".

"Échei" (ἔχει) é o presente de échō, "ter", "possuir". O tempo presente descreve um estado atual: quem, agora, tem. O objeto do verbo fica implícito — no contexto, é o entendimento dos mistérios do Reino, a receptividade à palavra.

"Dothḗsetai" (δοθήσεται) é o futuro passivo de dídōmi, "dar". A voz passiva aqui é o chamado passivo divino: uma forma de dizer que Deus é quem dá, sem pronunciar o nome de Deus, por reverência. "Será dado" quer dizer "Deus dará". A nossa tradução traz "mais será dado" para carregar, já nesta primeira parte, o sentido de acréscimo que o verbo seguinte explicita.

"Perisseuthḗsetai" (περισσευθήσεται) vem de perisseúō, "abundar", "transbordar", "sobejar". No futuro passivo, "será feito transbordar", "terá superabundância". Não é apenas ter o suficiente; é ter com sobra. A imagem é a daquilo que excede a medida.

"Ouk échei" (οὐκ ἔχει) — "não tem". A mesma raiz de "ter", agora negada. Descreve quem não possui a receptividade, quem fechou o acesso ao entendimento.

"Hò échei" (ὃ ἔχει) — "aquilo que tem". Note o paradoxo deliberado: diz-se que a pessoa "não tem" e, na mesma frase, que se lhe tirará "o que tem". A tensão é proposital. A pessoa possui algo — um vestígio, uma oportunidade, um entendimento inicial —, mas, por não o cultivar, é como se não o tivesse; e até esse resto se perde. Lucas 8:18 capta o paradoxo ao dizer "o que lhe parece ter".

"Arthḗsetai" (ἀρθήσεται) é o futuro passivo de aírō, "levantar", "tirar", "remover". De novo o passivo divino: "será tirado" equivale a "Deus tirará". A simetria com "será dado" é exata — os dois verbos no passivo apontam para o mesmo agente oculto, Deus, que dá ao receptivo e retira do indiferente.

Nota textual e teológica

A construção do versículo é uma antítese perfeita: duas metades espelhadas, "quem tem / será dado / abundância" contra "quem não tem / será tirado / até o resto". O grego reforça a simetria pelos dois passivos divinos, "será dado" e "será tirado", que emolduram a frase e apontam, sem nomeá-lo, para Deus como aquele que concede e retira. Isso não anula a responsabilidade humana — o contexto (13:13-15, a citação de Isaías) fala de gente que fecha os próprios olhos —, mas guarda o mistério de que, no fim, é Deus quem dá o entendimento. O texto sustenta a tensão entre a soberania divina e a recusa humana sem resolvê-la. Vale ainda a transparência textual: ao seguir o Textus Receptus, mantemos o "Pois" inicial (γὰρ) e o "a ele" (αὐτῷ), que ligam o versículo ao anterior — leitura que a tradição de Almeida preserva e que algumas traduções modernas, apoiadas no texto crítico, omitem.

11. Conclusão

Mateus 13:12 não é uma parábola, mas condensa em uma sentença a lógica de todas elas. É uma lei do Reino: o entendimento espiritual se comporta como uma capacidade viva — cresce em quem o exercita e definha em quem o abandona. Quem tem e usa recebe com abundância; quem tem e despreza acaba perdendo até o pouco que entrevia. Por isso a mesma frase reaparece na boca de Jesus quando ele fala dos talentos e das minas: é o princípio que rege a economia das coisas de Deus.

A dureza aparente da frase se desfaz quando se percebe do que ela trata. Não é Deus enriquecer o privilegiado e espoliar o miserável; é a natureza do dom espiritual, que ou frutifica ou apodrece. Ainda assim, o estudo honesto não apaga a tensão de fundo: o texto liga tudo isso ao mistério de Isaías 6, ao coração que ouve sem entender, e não diz a última palavra sobre onde termina a escolha humana e onde começa a ação soberana de Deus. Ficamos, com o próprio texto, diante de duas verdades — a graça que dá e o juízo que retira — sem forçar uma síntese que ele não oferece. O que resta como chamado prático é límpido: cultivar o que se recebeu, ouvir com o coração aberto e pedir a Deus a sabedoria que ele promete dar em abundância a quem a busca.

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