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Mateus 13:39

✍️ Por Alberto Adriano·9 de agosto de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 16 acessos
e o inimigo que o semeia é o diabo. A colheita é o fim dos tempos, e os ceifeiros são os anjos.
Campo de trigo ao anoitecer sob luz azulada do crepúsculo, com espigas douradas e hastes escuras de joio visíveis entre elas, sombras longas sobre a lavoura em clima de espera antes da colheita.

Estudo


e o inimigo que o semeia é o diabo. A colheita é o fim dos tempos, e os ceifeiros são os anjos.

1. Introdução

O versículo de Mateus 13:39 é curto e funciona como chave de leitura. Ele diz, na tradução da Bíblia Comentada feita do Textus Receptus: "e o inimigo que o semeia é o diabo. A colheita é o fim dos tempos, e os ceifeiros são os anjos."

Não estamos diante de uma parábola, e sim da explicação de uma parábola. Nos versículos 24 a 30, Jesus contou a história do joio semeado no meio do trigo. Depois ele entrou em casa, e os discípulos pediram que ele explicasse (v.36). A explicação vem em forma de lista: o semeador é o Filho do Homem, o campo é o mundo, a boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do maligno (v.37-38). O versículo 39 acrescenta as três últimas chaves: o inimigo, a colheita e os ceifeiros.

Três identificações em uma linha, e cada uma carrega uma história por trás. A palavra traduzida por "diabo" tem uma trajetória dentro da própria Bíblia, visível quando lemos os livros na ordem em que foram escritos. A expressão traduzida por "fim dos tempos" não fala do fim do planeta, e sim do fechamento de uma era. E os ceifeiros, que na parábola original eram apenas trabalhadores da lavoura, ganham aqui um nome.

Vamos olhar para cada chave com duas lentes: a histórica, que pergunta como esses conceitos se formaram, e a espiritual, que pergunta o que continua verdadeiro depois que a poeira histórica assenta.

2. Contexto Histórico e Cultural

Comecemos pelo chão. A parábola nasce de uma cena agrícola real da Galileia do primeiro século. O joio é provavelmente o Lolium temulentum, erva daninha quase idêntica ao trigo na fase inicial e cujas raízes se entrelaçam com as dele debaixo da terra: arrancar uma arranca a outra. O detalhe do versículo 29, em que o dono manda deixar as duas crescerem juntas, é agronomia, não metáfora poética. Semear erva daninha no campo alheio, aliás, era sabotagem conhecida, com pena prevista na lei romana.

Agora o ponto mais delicado: a figura do adversário. Muita gente lê a palavra "diabo" no Novo Testamento e projeta essa imagem para trás, até o Gênesis, como se a Bíblia inteira falasse da mesma personagem do começo ao fim. Os textos não sustentam isso. No hebraico do Antigo Testamento existe a palavra satan, que significa "adversário" ou "aquele que se opõe", e ela aparece primeiro como termo comum, não como nome próprio. Em 1 Samuel 29:4, os chefes filisteus temem que Davi vire um satan para eles na batalha, ou seja, um estorvo. Em 1 Reis 11:14, o próprio Deus levanta um satan contra Salomão, e esse adversário é um homem: Hadade, o edomita. Ser adversário é uma função, e ela pode até ser exercida a mando de Deus.

Em Jó 1 e 2 e em Zacarias 3, a palavra vem com artigo definido: ha-satan, "o acusador". O artigo é decisivo, porque nomes próprios em hebraico não recebem artigo definido. Portanto ha-satan ali é um cargo dentro da corte celeste, algo próximo de um promotor. Em Jó, essa figura se apresenta diante de Deus junto com os outros seres celestes e age somente dentro dos limites que Deus estabelece. Não é o inimigo cósmico de Deus. É um funcionário incômodo. Em Zacarias 3, ele está à direita do sumo sacerdote Josué para acusá-lo, e é repreendido. Grau de certeza: muito alto, porque isso é leitura gramatical do hebraico, reconhecida por comentaristas judeus e cristãos.

Há ainda um caso que mostra o movimento dentro do próprio cânon. Em 2 Samuel 24:1, quem incita Davi a fazer o censo é o próprio SENHOR. Em 1 Crônicas 21:1, texto mais tardio que reconta a mesma história, quem incita Davi é satan. O autor de Crônicas parece desconfortável em atribuir a Deus uma incitação que termina em castigo, e transfere a ação para outro agente. Grau de certeza sobre a diferença: altíssimo. Sobre a motivação do autor: médio.

O passo seguinte acontece no chamado período entre os Testamentos, ou período intertestamentário: os cerca de quatro séculos entre os últimos escritos do Antigo Testamento e os primeiros do Novo, quando os judeus viveram sob domínio persa, depois grego e depois romano. É nesse intervalo que a literatura judaica desenvolve com força a figura de um adversário pessoal, com nome próprio, com anjos sob o comando dele e com um destino de derrota. O livro dos Jubileus apresenta Mastema, príncipe dos espíritos hostis. Os manuscritos de Qumran descrevem Belial e dois espíritos, o da verdade e o da perversidade, que disputam o coração humano. E o livro da Sabedoria 2:24 é o primeiro texto conhecido a ligar a serpente do Éden ao diabo, ligação que o Gênesis não faz.

Boa parte dos estudiosos aponta influência do pensamento persa nesse desenvolvimento. O zoroastrismo, religião do império que dominou os judeus depois do exílio babilônico, trabalhava com uma oposição entre um princípio de luz e um princípio de trevas e com uma resolução final da história. A semelhança estrutural é real, mas aqui o grau de certeza cai para médio: é hipótese majoritária, não fato demonstrado, e o problema é de datação, já que boa parte dos textos zoroastristas conhecidos foi posta por escrito bem depois do período em questão. É bem possível que a influência externa e a dinâmica interna do judaísmo sob impérios estrangeiros tenham atuado juntas.

Quando chegamos ao Novo Testamento, a figura já está consolidada. Mateus escreve para leitores que não precisam de apresentação: dizer "o diabo" basta. A palavra grega usada é diabolos, que a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, já empregava para verter ha-satan em Jó e Zacarias: há continuidade de vocabulário, mesmo com mudança grande de conteúdo. Nada disso torna o versículo falso ou inventado. Torna-o datado, o que é diferente. E a afirmação espiritual central continua de pé: o mal que aparece no campo não veio de Deus nem da semente. Veio de fora, por vontade de alguém.

Falta o pano de fundo da segunda chave. O judaísmo do primeiro século trabalhava com a ideia de duas eras: ha-olam ha-zeh, "esta era", marcada pela injustiça e pelo domínio estrangeiro, e ha-olam ha-ba, "a era que vem", em que Deus reinaria de fato. Quando Jesus fala da consumação da era, ele fala dentro desse mapa mental.

3. Análise Teológica

"e o inimigo que os semeia é o diabo."

Nesta parábola, Jesus identifica o inimigo como o diabo, que é frequentemente retratado nas Escrituras como o adversário de Deus e do seu povo. O papel do diabo como semeador de ervas daninhas no meio do trigo destaca a intenção dele de corromper e perturbar o reino de Deus. Essa imagem se alinha com outras passagens bíblicas em que Satanás é descrito como enganador e acusador (Apocalipse 12:9-10). O ato de semear ervas daninhas no meio do trigo simboliza a introdução de falsos ensinos e de influências más dentro da igreja, tema que ecoa em 2 Coríntios 11:13-15, onde falsos apóstolos são descritos como quem se disfarça de servos da justiça.

"A colheita é o fim da era,"

O conceito de colheita é uma metáfora bíblica comum para o juízo e para a culminação do plano de Deus. No contexto desta parábola, a colheita representa o fim da era atual, um tempo em que Deus separará os justos dos ímpios. Esse tema escatológico é coerente com outros ensinos do Novo Testamento, como em Mateus 24:3, onde os discípulos perguntam a Jesus sobre os sinais do fim da era. A imagem da colheita também se conecta com profecias do Antigo Testamento, como Joel 3:13, que fala de uma colheita de juízo.

"e os ceifeiros são anjos."

Os anjos são retratados com frequência nas Escrituras como mensageiros de Deus e agentes da sua vontade. Nesta parábola, eles recebem a tarefa de recolher o trigo e as ervas daninhas, o que simboliza o papel deles na execução do juízo divino. Isso se alinha com outros relatos bíblicos em que os anjos estão envolvidos nos eventos do fim dos tempos, como em Mateus 24:31, onde os anjos reúnem os eleitos dos quatro ventos. A presença dos anjos na colheita ressalta a autoridade divina e a ordem do juízo final, enfatizando que ele é realizado de acordo com a justiça perfeita de Deus.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

1. O Inimigo (o Diabo) — Nesta parábola, o inimigo é identificado como o diabo, que semeia ervas daninhas no meio do trigo. Isso representa o adversário espiritual que procura perturbar a obra de Deus.

2. A Colheita — Simboliza o fim da era, um tempo de juízo e de separação entre os justos e os ímpios.

3. Os Ceifeiros (os Anjos) — Os anjos são retratados como os agentes de Deus que executarão o juízo final, recolhendo os justos e os ímpios.

4. O Campo — Embora não seja mencionado diretamente neste versículo, o campo representa o mundo, onde o bem e o mal coexistem até o tempo da colheita.

5. O Semeador (o Filho do Homem) — Embora não apareça neste versículo específico, antes na parábola o semeador é identificado como o Filho do Homem, Jesus, que semeia a boa semente.

5. Pontos de Ensino

Compreender o inimigo — Reconheça a realidade do combate espiritual e o papel do diabo em semear discórdia e engano no mundo.

A certeza do juízo — O fim da era é um evento definitivo em que Deus julgará o mundo. Viva com perspectiva eterna, sabendo que as nossas ações têm consequências eternas.

O papel dos anjos — Os anjos são espíritos que servem aos propósitos de Deus, inclusive à execução do seu juízo. Confie no plano soberano de Deus e no uso que ele faz dos anjos no âmbito espiritual.

A coexistência do bem e do mal — Até o fim da era, o bem e o mal vão coexistir. Os cristãos são chamados a ser luz no mundo, influenciando-o para o bem enquanto aguardam a colheita final.

Preparação para a colheita — Seja diligente na fé e na prática, cuidando para estar entre o trigo e não entre as ervas daninhas. Pratique com regularidade o autoexame e o arrependimento.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo toca em uma das perguntas mais antigas da filosofia: de onde vem o mal. A parábola dá uma resposta parcial e específica. O mal não veio da semente, do semeador nem do solo. Veio de fora, trazido por alguém que agiu de propósito, à noite, enquanto os homens dormiam. A frase decisiva está no versículo 28: "Um inimigo fez isto." O mal, nessa leitura, tem intenção.

Ao mesmo tempo, é preciso notar o que o texto não faz. Ele não coloca o inimigo no mesmo nível do dono do campo. O inimigo não tem campo próprio: age no campo dos outros, escondido, e não decide nada sobre a colheita. Isso separa a visão bíblica de um dualismo pleno, aquele em que dois princípios eternos e igualmente poderosos disputam o universo. Aqui existe um dono só, e o adversário é um invasor com prazo.

A segunda questão é a do tempo. Ao dizer que a colheita é a consumação da era, o texto trata a história como algo que caminha em direção a um ponto. Não é um ciclo que se repete para sempre, como em boa parte do pensamento antigo. É uma linha com um destino. Essa concepção, herdada do pensamento hebraico, moldou a maneira ocidental de pensar em progresso e futuro, mesmo em ambientes hoje sem religião nenhuma.

A terceira questão é a mais desconfortável: quem tem o direito de julgar. Os servos, no versículo 28, se oferecem para arrancar o joio. A oferta parece piedosa. É recusada por dois motivos: o risco de arrancar o trigo junto e o fato de que a tarefa é de outros. Isso funciona como um limite do que podemos saber. Os servos não distinguem com segurança o trigo do joio na fase em que estão. Nós também não. E o risco embutido no vocabulário do versículo é grande: quando alguém acredita ter identificado quem é o joio, a categoria "filhos do maligno" vira arma, e a história mostra que virou muitas vezes. A ironia é que a própria parábola proíbe esse uso.

7. Aplicações Práticas

1. Reconheça a origem sem virar caçador. Saber que existe intenção por trás de parte do mal ajuda a não se surpreender com a hostilidade gratuita. Mas o versículo não autoriza ninguém a apontar pessoas. Fique com o diagnóstico e recuse a sentença.

2. Cuide da própria semeadura. Em vez de gastar energia catalogando o joio dos outros, invista no que produz espiga: honestidade no trabalho, palavra cumprida, generosidade discreta.

3. Aprenda a conviver sem se contaminar. A parábola manda deixar crescer junto. Conviver com o que é ruim faz parte da vida atual, e conviver não é concordar. Você pode trabalhar ao lado de alguém desonesto sem entrar no esquema dele.

4. Troque a pressa pela paciência. A pressa por resolver tudo agora é a pressa dos servos do versículo 28. Nem toda injustiça precisa ser corrigida por você, hoje, com as suas mãos.

5. Reveja o que você entende por "fim". Se a expressão fala do fechamento de uma era e não da destruição do planeta, o foco sai do medo do apocalipse e vai para a pergunta sobre que tipo de vida atravessa a virada.

6. Faça o autoexame antes do exame alheio. A pergunta útil não é "quem aqui é joio". É "o que em mim está crescendo sem dar fruto".

7. Não confunda demora com abandono. O dono do campo não ignorou a sabotagem: respondeu com um plano de prazo mais longo. Quando algo errado permanece sem correção por muito tempo, a leitura do texto sugere adiamento, não descaso.

8. Perguntas e Respostas

1. Como a compreensão do papel do diabo como inimigo influencia a sua caminhada espiritual diária e a sua vigilância contra a tentação?

Ela muda o modo de interpretar a resistência. Quando algo bom é sabotado, a primeira reação costuma ser culpar a si mesmo ou culpar o acaso. O texto oferece uma terceira possibilidade: parte do estrago tem intenção por trás. Existe um cuidado, porém: atribuir tudo ao inimigo vira desculpa. A vigilância madura fica no meio, sem ingenuidade e sem paranoia.

2. De que maneiras a certeza de um juízo futuro pode afetar as suas prioridades e decisões hoje?

A ideia de uma prestação de contas altera o cálculo de curto prazo. Decisões que parecem vantajosas quando o horizonte é uma semana ficam ruins quando o horizonte é a vida inteira. Isso aparece em escolhas pequenas: recusar um ganho que só existe porque alguém foi enganado. O juízo futuro funciona menos como ameaça e mais como régua.

3. Como o conhecimento de que os anjos estão envolvidos no plano de Deus para o fim da era pode encorajar você na sua caminhada de fé?

O encorajamento está na competência da execução. A separação entre o trigo e o joio não é feita por vizinhos irritados nem por comissões humanas, e sim por enviados, no tempo certo, com critério. Para quem sofreu injustiça e não teve como provar nada, a ausência de reparação agora não é a palavra final. Vale registrar que o texto diz muito pouco sobre os anjos em si: afirma a função, não descreve a natureza.

4. Que passos práticos você pode dar para ser uma influência positiva em um mundo onde o bem e o mal coexistem?

Comece pelo que está ao alcance da mão. Cumprir prazos, pagar o combinado, dizer a verdade quando a mentira seria mais confortável, tratar bem quem não pode retribuir. A parábola não pede que ninguém limpe o campo: pede que o trigo seja trigo.

5. Reflita sobre outras passagens que tratam do fim dos tempos. Como elas ampliam a sua compreensão de Mateus 13:39 e das implicações dele para a sua vida?

Ao comparar as passagens, uma coisa fica visível: os textos sobre o fim usam imagens variadas, muitas delas simbólicas, e não formam um roteiro único. Daniel 12 fala de ressurreição, Apocalipse 14 fala de foice e de vindima, Mateus 24 fala de sinais. O que se repete é a estrutura, não o cenário: a história tem um desfecho, existe separação, existe justiça. Quem procura um calendário sai frustrado. Quem procura direção encontra.

9. Conexão com Outros Textos

Apocalipse 14:14-20 — Essa passagem também descreve uma colheita no fim da era, em que os anjos participam da ceifa da terra, em paralelo com a imagem de Mateus 13:39. "Lança a tua foice e ceifa, pois é chegada a hora de ceifar, porque já a seara da terra está madura."

Daniel 12:1-3 — Daniel fala de um tempo de angústia e do livramento do povo de Deus, com ressurreição e juízo, ecoando os temas de separação e de desfecho presentes em Mateus 13:39. "E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna e outros para vergonha e desprezo eterno."

2 Tessalonicenses 1:6-10 — Paulo descreve o retorno de Cristo e o castigo dos ímpios, em linha com o conceito de juízo e separação no fim dos tempos. "Se, na verdade, é justo diante de Deus que dê tribulação aos que vos atribulam."

Jó 1:6-12 e Zacarias 3:1-2 — As duas cenas de corte celeste do Antigo Testamento, essenciais para entender a trajetória da figura do adversário: nas duas ele é ha-satan, o acusador, e age apenas dentro do limite autorizado. "Vindo um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles." · "E Satanás estava à sua mão direita, para se lhe opor."

Mateus 24:3 e 28:20 — A mesma expressão grega do versículo 39 aparece na pergunta dos discípulos e na última frase do Evangelho, ali como promessa de presença. "Que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?" · "E eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos."

Joel 3:13 — Origem antiga da imagem da colheita como juízo. "Lançai a foice, porque já está madura a seara."

10. Original Grego e Análise

Texto grego (Textus Receptus): ὁ δὲ ἐχθρὸς ὁ σπείρας αὐτά ἐστιν ὁ διάβολος· ὁ δὲ θερισμὸς συντέλεια τοῦ αἰῶνός ἐστιν· οἱ δὲ θερισταὶ ἄγγελοί εἰσιν.

Transliteração: ho de echthrós ho speíras autá estin ho diábolos; ho de therismós syntéleia tou aiōnos estin; hoi de theristaí ángeloi eisin.

Palavra por palavra:

ho de echthrós (ὁ δὲ ἐχθρὸς) — "e o inimigo". A partícula de marca cada novo item da lista. Echthrós é adjetivo usado como substantivo: "aquele que odeia", da mesma raiz de échthra, "inimizade".

ho speíras autá (ὁ σπείρας αὐτά) — artigo mais particípio aoristo ativo do verbo speírō, "semear": "o que as semeou". O aoristo indica ação já concluída: a sabotagem está feita. O pronome autá está no neutro plural porque concorda com zizánia, o joio.

diábolos (διάβολος) — a palavra central da primeira chave. Vem do verbo diabállō, formado por diá ("através de") mais bállō ("lançar"), cujo sentido corrente no grego comum é "caluniar", "acusar falsamente". Portanto diábolos significa, na origem, "o caluniador" ou "o acusador". Esse dado confirma o que vimos no item 2: foi exatamente diábolos a palavra escolhida na Septuaginta para traduzir ha-satan em Jó e em Zacarias. O termo carrega a memória da função de acusador na corte celeste, mesmo quando já é usado, como aqui em Mateus, para designar o adversário pessoal do reino. A palavra portuguesa "diabo" veio dela através do latim diabolus.

syntéleia tou aiōnos (συντέλεια τοῦ αἰῶνός) — a segunda chave, e o ponto que mais muda a leitura. Syntéleia vem de syn ("junto") mais a raiz télos ("fim", "meta", "cumprimento"). O significado não é "aniquilação", e sim "consumação", o momento em que tudo o que estava em curso se completa ao mesmo tempo. Aiōn (αἰών) significa "era", "período longo de tempo". Não é kósmos (o mundo ordenado) nem (a terra). Traduzir por "fim do mundo", como fazem várias versões clássicas em português, entrega ao leitor moderno uma imagem de destruição planetária que o grego não sustenta. A leitura mais próxima do original é "a consumação da era": o texto não anuncia o apagamento da criação, e sim a virada de um período histórico para outro. Um detalhe reforça isso. A expressão aparece cinco vezes em Mateus (13:39, 13:40, 13:49, 24:3 e 28:20) e uma vez em Hebreus 9:26. Em Mateus 28:20, a última frase do Evangelho, ela vem em uma promessa de companhia, não de catástrofe: "estou convosco todos os dias, até a consumação da era". Ninguém promete companhia até a data da destruição do planeta.

theristaí (θερισταὶ) — "ceifeiros", "os que fazem a ceifa". Dois detalhes merecem atenção. No versículo 30 os ceifeiros são apenas trabalhadores da lavoura, sem identidade nenhuma; é só aqui, na explicação, que eles recebem nome. E os servos que se ofereceram para arrancar o joio no versículo 28 são doûloi, enquanto os ceifeiros são theristaí. São grupos diferentes. A tarefa de separar nunca foi dos servos: a função é de outros desde o começo.

ángeloi (ἄγγελοί) — "anjos", literalmente "mensageiros", "enviados". É a mesma palavra usada no grego comum para um mensageiro humano. O sentido é funcional: quem leva um recado, quem executa uma ordem. Isso combina com o papel que eles têm aqui. Eles não decidem a colheita. Eles a executam. Fecha o versículo eisin (εἰσιν), "são".

Nota sobre o texto: a diferença entre o Textus Receptus e os textos críticos modernos aqui é mínima. O Textus Receptus traz o artigo toû antes de aiōnos, e as edições críticas o omitem, sem mudança de sentido. É o tipo de variante que mostra como funciona a cópia manual ao longo dos séculos.

11. Conclusão

Mateus 13:39 é uma lista de três itens que carrega, cada um, uma história.

O primeiro item nos obriga a ser honestos. A figura do diabo tem uma trajetória visível dentro da própria Bíblia: começa como uma função, o acusador da corte celeste, e chega ao Novo Testamento como um adversário pessoal, com o desenvolvimento acontecendo em grande parte no período entre os Testamentos. Reconhecer isso não é dizer que o diabo foi inventado, nem é fingir que a figura aparece pronta desde o Gênesis. É descrever o que os textos mostram, com o grau de certeza que cada afirmação suporta. E a verdade espiritual permanece intacta: o mal que apareceu na lavoura não veio da semente nem do dono. Veio de fora, com intenção.

O segundo item corrige uma tradução que virou hábito. "Fim dos tempos" traduz synteleia tou aiōnos, a consumação de uma era. Não é a explosão do planeta. É o fechamento de um período e a abertura de outro.

O terceiro é o mais discreto e talvez o mais prático. Os ceifeiros ganham nome, e o nome não é o nosso. Os servos que quiseram arrancar o joio no versículo 28 não são os ceifeiros do versículo 39. Toda vez que alguém pega para si a função de separar o trigo do joio, faz exatamente o que o dono do campo proibiu.

Sobra o que cabe a quem está no campo agora: crescer. Dar espiga. Conviver com o que cresce ao lado sem virar aquilo. E deixar a colheita para a hora da colheita.

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