E, quando subiram no barco, o vento se acalmou.
1. Introdução
Na outra tempestade deste evangelho, ele repreendeu os ventos e o mar.
Aqui, não diz nada.
Sobe no barco, e o vento cessa. Não há ordem, não há palavra, não há gesto dirigido à tempestade.
E o episódio termina exatamente onde começou: com todos dentro da embarcação de onde um deles tinha saído.
2. Contexto Histórico e Cultural
Os dois sobem
O verbo está no plural. Sobem ambos — o que fora resgatado e o que o resgatou.
É a mesma embarcação do versículo 22, e a mesma de onde Pedro desceu no versículo 29.
O vento cessa
O verbo grego é raro. No Novo Testamento, aparece três vezes, todas em cenas de mar.
Na origem, ele se liga à ideia de cansaço, de esforço que se esgota. Diz-se do vento que ele se cansou.
O que não acontece
No capítulo 8, na outra tempestade, ele repreendeu os ventos e o mar, e houve grande bonança.
Aqui não há repreensão, nem ordem, nem palavra dirigida ao vento.
A tempestade acaba quando ele entra.
O salmo, de novo
O Salmo 107, que já apareceu neste capítulo, diz que Deus faz cessar a tempestade e que as ondas se aquietam.
É o penúltimo passo daquele roteiro. O último é a chegada ao porto — que virá no versículo 34.
3. Análise Teológica do Versículo
"E, quando subiram no barco"
Convém começar pelo número gramatical, porque ele carrega o desfecho da cena.
O verbo está no plural: subiram.
Não é Jesus que sobe e depois puxa Pedro, nem Pedro que retorna sozinho. Os dois sobem, e a construção grega — um particípio com sujeito próprio — os trata como um único movimento.
Vale acompanhar o percurso da palavra "barco" neste capítulo, porque ela o costura de ponta a ponta.
No versículo 13, Jesus se retira num barco ao saber da morte de João. No 22, os discípulos são obrigados a entrar num. No 24, o barco está no meio do mar, atormentado pelas ondas. No 29, Pedro desce dele. E aqui, sobem.
Ou seja: o episódio inteiro se resolve com todos dentro da embarcação de onde um deles saiu.
Convém registrar isso sem construir moral. O texto não diz que Pedro fez bem ou mal em sair, e não trata a volta como retratação. Registra que subiram.
Mas o desenho narrativo está lá, e vale reter: o que a cena devolve ao fim é a situação anterior, com uma diferença — agora ele está dentro.
"o vento se acalmou"
Aqui está o dado mais interessante do versículo, e ele só aparece por comparação.
Comecemos pelo verbo, que é raro e expressivo.
O grego é kopázō. No Novo Testamento inteiro, ocorre três vezes — e as três em cenas de tempestade no lago da Galileia: duas em Marcos e esta.
A palavra liga-se ao substantivo que designa fadiga, labuta, esforço penoso. A ideia de fundo é a de algo que se esgota por cansaço.
Dito ao pé da letra: o vento se cansou.
Convém a ressalva de sempre sobre etimologias — o verbo já era corrente para designar simplesmente o abrandamento de um fenômeno, e é assim que aparece, por exemplo, na versão grega do Gênesis, quando as águas do dilúvio diminuem. O falante comum não pensava na origem da palavra ao usá-la.
Registro porque a imagem é boa e porque quem lê o grego a percebe, e não porque o evangelista quisesse explorá-la.
O que este versículo não traz
Vale agora a comparação que faz este versículo render, e ela é com outra passagem do mesmo evangelho.
No capítulo 8, os discípulos atravessam este mesmo lago com Jesus dormindo no barco. Levanta-se uma tempestade, eles o acordam, e o texto diz que ele se levantou, repreendeu os ventos e o mar, e houve grande bonança.
O verbo ali é forte: é o mesmo que este evangelho usa para a repreensão de demônios. A tempestade é tratada como algo a quem se dá ordem.
Aqui, nada disso acontece.
Não há repreensão. Não há ordem. Não há palavra dirigida ao vento, nem gesto, nem menção a que ele tenha feito qualquer coisa em relação à tempestade.
Ele sobe no barco, e o vento cessa.
Convém medir a diferença com cuidado, sem transformá-la em tese maior do que suporta.
O que se pode observar com segurança é que o evangelista, que dispunha do vocabulário da repreensão e já o usara numa cena quase idêntica, não o emprega aqui. A tempestade termina sem que se registre causa.
O que não se pode afirmar é o motivo. Mateus não explica, e as leituras possíveis são várias: que a presença dispensasse a ordem, que a ordem tenha ocorrido sem ser registrada, que o evangelista simplesmente tenha resumido. Não é possível decidir.
Registro a ausência, que é o dado, e não a explicação, que não está no texto.
O salmo chegando ao fim
Convém retomar aqui o texto que já acompanhou este episódio desde o versículo 26.
O Salmo 107 descreve os que descem ao mar em navios. Fala do vento tempestuoso que levanta as ondas, dos homens que sobem aos céus e descem aos abismos, da alma que se derrete de angústia, do cambalear de ébrios, da sabedoria que se acaba.
Depois: clamaram ao Senhor na sua angústia, e ele os tirou das suas dificuldades.
E então: fez cessar a tempestade, e as ondas se aquietaram.
É este versículo.
O passo seguinte do salmo — alegraram-se porque se aquietaram, e ele os conduziu ao porto desejado — corresponderá ao versículo 34, quando chegarem a terra.
Convém registrar de novo o limite: Mateus não cita o Salmo 107 em momento nenhum. Não há fórmula de citação, não há remissão, não há indício de que quisesse a ligação. A convergência é de tema e de situação, e a imagem de tempestade e livramento é comum demais para provar dependência.
Mas o roteiro do salmo cobre o episódio inteiro, do versículo 24 ao 34, na ordem — e quem tem o salmo na memória o reconhece.
Vale ainda uma observação sobre outro relato de mar na literatura de Israel, com a mesma cautela.
No livro de Jonas, o mar se aquieta depois que um homem é lançado dentro dele.
Aqui, o mar se aquieta depois que um homem é retirado de dentro dele.
A inversão é curiosa, e é só isso — não há vínculo textual entre as passagens, e o próprio Mateus, quando quer remeter a Jonas, o faz expressamente, em outros capítulos.
Um detalhe que outro evangelho traz
Vale registrar, por fim, uma diferença entre os relatos.
João, ao narrar a mesma travessia, acrescenta um pormenor que Mateus não tem: diz que, quando quiseram recebê-lo no barco, imediatamente o barco chegou à terra para onde iam.
A frase é discutida. Há quem a leia como registro de um segundo prodígio; há quem a leia como expressão de proximidade — estavam já perto, e logo chegaram.
Não é possível decidir, e como Mateus não registra nada disso, a discussão pertence ao comentário de João.
Em Mateus, o que se lê é mais simples: subiram, e o vento cessou. O trajeto até a terra ocupará o versículo seguinte, sem pressa e sem prodígio.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus e Pedro — sobem juntos; o verbo está no plural.
O barco — o mesmo do versículo 22, de onde Pedro desceu no 29; o episódio se resolve com todos dentro.
O vento — o mesmo contrário do versículo 24; cessa sem que nada lhe seja dito.
O verbo "cessar" — raro; três ocorrências no Novo Testamento, todas em cenas de mar.
Mateus 8:26 — a outra tempestade, em que ele repreendeu os ventos e o mar.
Salmo 107:29 — "faz cessar a tempestade, e acalmam-se as suas ondas".
5. Pontos de Ensino
Sobem os dois. O verbo está no plural.
O barco costura o capítulo. Versículos 13, 22, 24, 29 e 32.
Não há repreensão ao vento. Nem ordem, nem palavra, nem gesto.
Na outra tempestade, houve. Em Mateus 8 ele repreendeu os ventos e o mar.
O evangelista tinha o vocabulário e não o usou. Isso é o dado.
Por que não usou, o texto não diz. Não é possível decidir.
O verbo grego liga-se a cansaço. Ao pé da letra, o vento se cansou.
O Salmo 107 chega aqui ao penúltimo passo. O último é o porto, no versículo 34.
Em Jonas, o mar se acalma quando um homem entra nele. Aqui, quando um homem sai.
João traz um detalhe que Mateus não tem. O barco chegando de imediato à terra.
6. Aspectos Filosóficos
Sobem os dois
Convém começar pelo plural, porque ele carrega o desfecho.
O verbo não é singular. Não se lê que Jesus subiu e puxou Pedro, nem que Pedro voltou sozinho enquanto o outro esperava.
Subiram. A construção grega os trata como um movimento único.
Vale seguir a palavra "barco" ao longo do capítulo, porque ela o costura de ponta a ponta.
No versículo 13, Jesus se retira num barco ao receber a notícia da morte de João. No 22, os discípulos são obrigados a entrar num. No 24, o barco está no meio do mar, atormentado pelas ondas. No 29, Pedro desce dele. Aqui, sobem.
O episódio inteiro se resolve com todos dentro da embarcação de onde um deles tinha saído.
Convém registrar isso sem extrair moral. O texto não diz que ele fez bem ou mal em sair, e não trata a volta como retratação.
O desenho está lá, e é o que é: a cena devolve a situação anterior, com uma diferença — agora ele está dentro, e molhado.
O vento que se cansa
O verbo grego é raro, e vale conhecê-lo.
No Novo Testamento inteiro ocorre três vezes, todas em cenas de tempestade no lago da Galileia — duas em Marcos e esta.
Está aparentado ao termo que nomeia a canseira e o trabalho duro — de sorte que a imagem embutida é a de uma força que se gasta até não sobrar.
Traduzindo cruamente: o vento deu o que tinha.
Convém a ressalva habitual sobre etimologias. O verbo já era corrente para designar o abrandamento de um fenômeno qualquer — aparece assim na versão grega do Gênesis, quando as águas do dilúvio diminuem —, e o falante comum não pensava na origem ao usá-lo.
Anoto pela beleza do detalhe, visível a quem acompanha o original, sem atribuir intenção nenhuma ao autor.
O que este versículo não tem
Aqui está o dado que faz o versículo render, e ele aparece por comparação com outra passagem do mesmo evangelho.
No capítulo 8, os discípulos atravessam este mesmo lago com Jesus dormindo no barco. Levanta-se uma tempestade, eles o acordam com um pedido quase idêntico ao de Pedro no versículo 30 — Senhor, salva-nos —, e o texto diz que ele se levantou, repreendeu os ventos e o mar, e houve grande bonança.
O verbo empregado ali é forte. É o mesmo que este evangelho usa para a repreensão de demônios: a tempestade é tratada como algo a quem se dá ordem.
Aqui, nada disso.
Não há repreensão. Não há ordem, não há palavra dirigida ao vento, não há gesto, não há sequer menção a que ele tenha feito alguma coisa a respeito da tempestade.
Ele sobe no barco, e o vento cessa.
Convém medir a diferença com cuidado, porque é fácil transformá-la em tese maior do que ela suporta.
O que se observa com segurança é isto: o evangelista dispunha do vocabulário da repreensão, já o havia usado numa cena quase idêntica do mesmo livro, e não o emprega aqui. A tempestade termina sem que se registre causa.
O que não se pode afirmar é o motivo. Mateus não explica. As leituras possíveis são várias — que a presença dispensasse a ordem, que a ordem tenha ocorrido sem ser registrada, que o evangelista tenha simplesmente resumido a cena. Não é possível decidir entre elas.
Registro a ausência, que é o dado, e não a explicação, que não está no texto.
Vale, porém, notar o que a ausência produz na leitura. Nas duas cenas o resultado é o mesmo: o mar se aquieta. A diferença está em que, numa delas, isso se dá por palavra, e na outra, por presença.
O salmo chegando ao penúltimo passo
Convém retomar o texto que acompanha este episódio desde o versículo 26.
O Salmo 107 tem uma seção sobre os que descem ao mar em navios. Descreve o vento tempestuoso levantando as ondas, os homens subindo aos céus e descendo aos abismos, a alma derretendo-se de angústia, o cambalear de ébrios, a sabedoria chegando ao fim.
Depois: clamaram ao Senhor na sua angústia, e ele os tirou das suas dificuldades.
E então: fez cessar a tempestade, e as ondas se aquietaram.
É este versículo.
O passo seguinte do salmo — alegraram-se porque se aquietaram, e ele os conduziu ao porto desejado — corresponderá ao versículo 34.
Convém repetir o limite, porque ele importa mais quanto mais bonita fica a aproximação: Mateus não cita o Salmo 107 em lugar nenhum. Não há fórmula de citação, não há remissão, não há indício de intenção. A convergência é de tema e de situação, e imagens de tempestade e livramento são comuns demais na literatura antiga para que a coincidência prove dependência.
Mas o roteiro do salmo cobre o episódio do versículo 24 ao 34, na ordem, e quem o tem na memória o reconhece.
Há ainda um outro relato de mar que vale mencionar, com a mesma cautela. No livro de Jonas, o mar se aquieta depois que um homem é lançado dentro dele. Aqui, aquieta-se depois que um homem é tirado de dentro dele.
A inversão é curiosa e é só isso. Não há vínculo textual entre as passagens, e o próprio Mateus, quando quer remeter a Jonas, o faz expressamente em outros capítulos.
O detalhe que só João tem
Vale fechar com uma diferença entre os relatos.
João, ao narrar a mesma travessia, acrescenta um pormenor ausente em Mateus: diz que, quando quiseram recebê-lo no barco, imediatamente o barco chegou à terra para onde iam.
A frase é discutida. Há quem a leia como registro de um segundo prodígio; há quem a leia como expressão de proximidade — já estavam perto, e logo chegaram.
Não é possível decidir, e como Mateus não registra nada disso, a discussão pertence propriamente ao comentário de João.
Em Mateus o que se lê é mais sóbrio: subiram, e o vento cessou. O trajeto até a terra ocupará o versículo 34, sem pressa e sem prodígio.
7. Aplicações Práticas
Nem toda tempestade termina com uma ordem
No capítulo 8, na outra travessia deste mesmo lago, ele repreendeu os ventos e o mar — com um verbo forte, o mesmo que o evangelho usa para a repreensão de demônios. Aqui não há repreensão, ordem, palavra dirigida ao vento nem gesto. Ele sobe no barco, e o vento cessa.
O dado é que o evangelista dispunha do vocabulário e não o empregou. O motivo, ele não informa, e não é possível decidir entre as leituras possíveis.
Vale contra a expectativa de que as coisas só se resolvem por intervenção dramática. Boa parte do que se acalma na sua vida não vai se acalmar porque alguém deu uma ordem — vai se acalmar porque a situação mudou de composição. E isso conta como resolução do mesmo jeito.
Voltar ao ponto de partida não é fracasso
A palavra "barco" costura o capítulo inteiro: versículo 13, 22, 24, 29 e 32. O episódio se resolve com todos dentro da embarcação de onde um deles tinha saído — e o verbo está no plural, de modo que sobem os dois, num movimento único.
O texto não trata a volta como retratação nem diz que ele errou em sair. Registra que subiram.
Se você tentou algo, não deu certo como esperava e voltou para onde estava, note que voltar não apaga o trecho andado. A situação parece a mesma vista de fora; quem voltou é que não é mais o mesmo, e isso não aparece na fotografia.
O socorro vem antes da calmaria
A ordem dos acontecimentos é precisa: primeiro a mão que segura, no versículo anterior; depois a subida ao barco; só então o vento cessa. A tempestade não parou para que o resgate fosse possível — o resgate aconteceu dentro dela.
É o mesmo desenho do versículo 31, em que a mão vem antes da pergunta.
Guarde para quando estiver esperando as condições melhorarem antes de pedir ajuda. Não é assim que a cena funciona: pede-se no meio do vento, e o vento cessa depois. Esperar a calmaria para agir costuma ser outra forma de não agir.
Repare no que um relato deixou de fora
Comparar Mateus 8 com Mateus 14 mostra o autor usando o vocabulário da repreensão numa cena e não usando na outra, quase idêntica. Isso é informação — e é informação que só aparece para quem lê os dois textos lado a lado.
Registro a ausência como dado, e não a explicação, que não está escrita.
Use o método fora daqui. Ao ler dois relatórios sobre o mesmo assunto, duas versões de uma história de família, dois depoimentos, marque o que um traz e o outro não. O silêncio de uma fonte onde a outra fala costuma render mais que a leitura de qualquer uma isolada.
O roteiro pode se cumprir sem ser reconhecido
O Salmo 107 descreve navegantes em tempestade, a angústia, o clamor, a tempestade que cessa e a chegada ao porto — e o episódio percorre esses passos, do versículo 24 ao 34, na ordem. Mateus não cita o salmo em lugar nenhum, e a aproximação é de quem lê.
Quem tinha aquele texto na memória e estava dentro do barco, porém, não o reconheceu enquanto acontecia. Gritou de medo, no versículo 26, exatamente quando o livramento chegava.
Vale para a leitura da própria história. É mais fácil reconhecer o desenho depois, olhando para trás, do que no meio — e isso não é falha de percepção, é a condição de quem está dentro da cena. Julgue-se por esse padrão, e não pelo do leitor que já sabe o fim.
Cansaço também é um modo de terminar
O verbo grego do vento que cessa liga-se ao substantivo que designa fadiga e esforço penoso — ao pé da letra, o vento se cansou. Convém a ressalva de que a palavra já era corrente para o abrandamento de qualquer fenômeno, e o falante comum não pensava na origem.
A imagem, ainda assim, é boa: nem tudo que para foi mandado parar; parte simplesmente se esgotou.
Isso serve para situações que você tenta encerrar à força — uma discussão, uma cobrança interna, um conflito antigo. Algumas coisas não obedecem a decisão, e acabam por exaustão. Reconhecer qual é o caso evita gastar energia dando ordens a um vento.
Diferenças entre os evangelhos não precisam ser costuradas
João acrescenta um pormenor que Mateus não tem: que, ao recebê-lo no barco, imediatamente a embarcação chegou à terra. A frase é discutida — segundo prodígio, ou apenas expressão de proximidade —, não é possível decidir, e como Mateus não a registra, a discussão pertence ao comentário de João.
Em Mateus lê-se algo mais sóbrio: subiram, e o vento cessou.
Resista ao impulso de fundir as versões numa só, aqui e em qualquer lugar. A harmonização apressada produz um texto que ninguém escreveu, e o que se perde nela é justamente a marca de cada testemunho — que é a parte mais informativa do conjunto.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Quem subiu no barco?
Os dois. O verbo está no plural, e a construção grega os trata como um movimento único. Não se lê que Jesus subiu e puxou Pedro, nem que Pedro voltou sozinho.
É o mesmo barco?
É. A palavra costura o capítulo: aparece no versículo 13, quando Jesus se retira; no 22, quando os discípulos são obrigados a entrar; no 24, quando está atormentado pelas ondas; no 29, quando Pedro desce; e aqui. O episódio se resolve com todos dentro da embarcação de onde um deles tinha saído.
Jesus mandou o vento parar?
Não segundo o texto. Não há repreensão, ordem, palavra dirigida ao vento nem gesto. Ele sobe no barco, e o vento cessa.
Mas na outra tempestade houve ordem?
Houve. No capítulo 8 deste mesmo evangelho, os discípulos o acordam com um pedido quase idêntico ao de Pedro — Senhor, salva-nos — e o texto diz que ele se levantou, repreendeu os ventos e o mar, e houve grande bonança. O verbo ali é forte: é o mesmo usado para a repreensão de demônios.
Por que a diferença?
Mateus não explica. O que se observa com segurança é que o evangelista dispunha do vocabulário da repreensão, já o havia usado numa cena quase idêntica, e não o emprega aqui. As leituras possíveis são várias — que a presença dispensasse a ordem, que a ordem não tenha sido registrada, que a cena tenha sido resumida —, e não é possível decidir entre elas.
O verbo "cessar" tem alguma particularidade?
É raro: no Novo Testamento inteiro ocorre três vezes, todas em cenas de tempestade no lago da Galileia. E liga-se ao substantivo que designa fadiga e esforço penoso — ao pé da letra, o vento se cansou. Convém a ressalva de que a palavra já era corrente para o abrandamento de qualquer fenômeno, aparecendo assim na versão grega do Gênesis para as águas do dilúvio.
Há relação com o Salmo 107?
Há convergência notável. O salmo descreve os que descem ao mar em navios, o vento tempestuoso, a angústia, o clamor, e diz que ele fez cessar a tempestade e as ondas se aquietaram — que é este versículo. O passo seguinte, a chegada ao porto, corresponde ao versículo 34. Mateus, porém, não cita o salmo em lugar nenhum, e imagens de tempestade e livramento são comuns demais para provar dependência.
E o livro de Jonas?
A comparação é curiosa e não passa disso. Lá o mar se aquieta depois que um homem é lançado dentro dele; aqui, depois que um homem é tirado de dentro dele. Não há vínculo textual entre as passagens, e o próprio Mateus, quando quer remeter a Jonas, o faz expressamente em outros capítulos.
João conta igual?
Acrescenta um pormenor que Mateus não tem: que, quando quiseram recebê-lo no barco, imediatamente a embarcação chegou à terra para onde iam. A frase é discutida — há quem a leia como segundo prodígio e quem a leia como expressão de proximidade. Não é possível decidir, e a discussão pertence ao comentário de João.
O texto diz que Pedro errou ao sair do barco?
Em nenhum momento. O relato não trata a volta como retratação nem emite juízo sobre a saída. Registra que subiram.
9. Conexão com Outros Textos
Mateus 8:26 — Então, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar, e seguiu-se uma grande bonança.
A outra tempestade, com a ordem que aqui não existe.
Mateus 8:25 — Senhor, salva-nos, que perecemos.
O pedido quase idêntico ao do versículo 30.
Salmo 107:29-30 — Faz cessar a tempestade, e acalmam-se as suas ondas... assim os leva ao seu porto desejado.
O penúltimo e o último passo do roteiro que o episódio percorre.
Mateus 14:22 — E logo constrangeu os seus discípulos a entrar no barco.
O mesmo barco, no início da travessia.
Mateus 14:29 — E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas.
A saída que este versículo desfaz.
Marcos 6:51 — E subiu para o barco, e o vento cessou.
O paralelo, com o mesmo verbo raro.
Marcos 4:39 — E o vento se aquietou, e houve grande bonança.
A terceira e última ocorrência do verbo no Novo Testamento.
João 6:21 — Então eles de boa mente o receberam no barco; e logo o barco chegou à terra para onde iam.
O detalhe discutido que Mateus não registra.
Jonas 1:15 — E lançaram Jonas ao mar, e cessou o mar da sua fúria.
A inversão: ali o mar se acalma quando um homem entra nele.
Gênesis 8:1 — E as águas se aquietaram.
Na versão grega, o mesmo verbo, para o abrandamento do dilúvio.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
E, quando subiram no barco, o vento se acalmou.
Texto grego
καὶ ἀναβάντων αὐτῶν εἰς τὸ πλοῖον ἐκόπασεν ὁ ἄνεμος
Transliteração
kaì anabántōn autōn eis tò ploîon ekópasen ho ánemos
Palavra por palavra
ἀναβάντων αὐτῶν (anabántōn autōn) — "tendo eles subido"
Genitivo absoluto: construção em que um particípio e o seu sujeito ficam no genitivo, formando uma oração de circunstância independente do sujeito principal.
O particípio é de anabaínō, subir — o oposto exato do verbo do versículo 29, quando Pedro desceu do barco.
E o pronome está no plural: eles. Sobem ambos, num movimento único.
εἰς τὸ πλοῖον (eis tò ploîon) — "no barco"
Preposição de movimento para dentro, com o artigo definido.
O artigo importa: não é um barco, é o barco — aquele já mencionado no versículo 22, no 24 e no 29.
ἐκόπασεν (ekópasen) — "cessou"
Aoristo de kopázō.
Verbo raro. No Novo Testamento inteiro, três ocorrências: duas em Marcos e esta — todas em cenas de tempestade no lago da Galileia.
O verbo deriva de kópos
Ao pé da letra: o vento se cansou.
Convém a ressalva sobre etimologias — o verbo já era corrente para o abrandamento de qualquer fenômeno, e aparece assim na versão grega do Gênesis para as águas do dilúvio que diminuem. O falante comum não pensava na origem ao usá-lo.
ὁ ἄνεμος (ho ánemos) — "o vento"
De novo o artigo definido: é o vento do versículo 24, o contrário, e o do versículo 30, aquele para o qual Pedro olhou.
Nada de novo entrou em cena. O mesmo vento que atormentava o barco havia horas simplesmente para.
Nota — a frase que não está aqui
Vale fechar comparando este versículo com o seu paralelo no capítulo 8, porque a diferença é de estrutura, e não de detalhe.
Lá, a sequência grega é: levantou-se, repreendeu os ventos e o mar, houve grande bonança. Três movimentos, com um verbo de autoridade no centro — o mesmo que o evangelho emprega para a repreensão de demônios.
Aqui, a sequência é: tendo subido, cessou o vento. Dois movimentos, e nenhum verbo de fala.
Some a repreensão. Some a ordem. Some qualquer palavra dirigida à tempestade.
O que resta é uma oração circunstancial e um verbo intransitivo: eles sobem, e o vento se esgota.
Convém não construir sobre isso mais do que suporta. Mateus não explica a diferença, e é possível que se trate apenas de economia narrativa — este capítulo já mostrou, no versículo 19, que o evangelista cala justamente nos pontos em que um relato interessado em impressionar seria expansivo.
Mas a ausência é dado, e ela é verificável: o autor tinha o vocabulário, usara-o numa cena quase igual do mesmo livro, e não o usa aqui.
11. Conclusão
Duas palavras deste versículo respondem por quase tudo o que nele há: uma está no plural, e a outra é a que não aparece.
Comece-se pelo plural. A construção grega põe particípio e sujeito num caso próprio, formando uma circunstância à parte, e o sujeito é "eles". Não se narra que um subiu e içou o outro, nem que o discípulo retornou por conta própria enquanto o mestre aguardava: o movimento é único e comum aos dois. Some-se a isso o verbo escolhido, que significa subir — exatamente o inverso daquele empregado no versículo 29, quando o mesmo homem desceu. E convém notar como a embarcação amarra o capítulo inteiro: comparece quando Jesus se retira ao saber da morte de João, quando os discípulos são compelidos a embarcar, quando as ondas a castigam no meio do lago, quando Pedro a abandona, e agora. A cena se encerra, portanto, com todos dentro do lugar de onde um saiu — sem que o narrador qualifique isso de retratação ou de erro corrigido.
A segunda palavra é a que falta, e para percebê-la é preciso ter lido o capítulo 8 do mesmo livro. Lá, na travessia anterior, os discípulos despertam Jesus com um pedido quase idêntico ao que Pedro fez três versículos atrás, e o relato informa que ele se ergueu, censurou os ventos e o mar, e sobreveio grande bonança. O verbo daquela censura é pesado: é o que este evangelho reserva às ordens dadas a demônios. Neste ponto do capítulo 14, porém, não se registra censura alguma — nenhuma ordem, nenhuma sílaba endereçada à tempestade, nenhum gesto. Ele embarca, e o vento acaba. O que se pode sustentar com firmeza é que o autor dispunha do vocabulário, empregara-o pouco antes numa situação análoga, e aqui o dispensa; o motivo, ao contrário, permanece fora do texto, e as explicações imagináveis — presença que torna a ordem desnecessária, ordem ocorrida sem registro, simples condensação narrativa — não se deixam arbitrar.
Quanto ao verbo do cessar, vale conhecê-lo pela raridade: três ocorrências em todo o Novo Testamento, e as três em episódios de tempestade neste mesmo lago. Sua raiz remete a fadiga e labuta, de modo que a tradução literal diria que o vento se cansou. Como sempre em matéria de etimologia, cabe a ressalva de que o uso corrente já cobria o abrandamento de qualquer fenômeno — a tradução grega do Gênesis o emprega para as águas do dilúvio baixando —, e nada indica que o evangelista tivesse a origem em mente.
Resta o pano de fundo. Desde o versículo 26 este episódio vem percorrendo, passo a passo, o trajeto que o Salmo 107 descreve para os que descem ao mar em navios: o vento tempestuoso, a angústia, o cambalear, o clamor dirigido ao Senhor, e agora a tempestade que se aquieta. Falta apenas o último passo daquele texto, a chegada ao porto, que ocupará o versículo 34. Convém repetir o limite justamente porque a aproximação é sedutora: não existe citação, remissão ou fórmula introdutória em Mateus, e naufrágios seguidos de livramento são lugar-comum na literatura antiga. A leitura pertence a quem tem o salmo de cor. Registre-se ainda, pelo que tem de curioso e não mais que isso, que no livro de Jonas o mar se apazigua depois que um homem é atirado dentro dele, ao passo que aqui isso ocorre depois que um homem é retirado.













