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Mateus 14:32

✍️ Por Alberto Adriano·18 de agosto de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 15 acessos
E, quando subiram no barco, o vento se acalmou.
Barco de pesca com dois homens subindo a bordo, e a água se aquietando ao redor.

Estudo


E, quando subiram no barco, o vento se acalmou.

1. Introdução

Na outra tempestade deste evangelho, ele repreendeu os ventos e o mar.

Aqui, não diz nada.

Sobe no barco, e o vento cessa. Não há ordem, não há palavra, não há gesto dirigido à tempestade.

E o episódio termina exatamente onde começou: com todos dentro da embarcação de onde um deles tinha saído.

2. Contexto Histórico e Cultural

Os dois sobem

O verbo está no plural. Sobem ambos — o que fora resgatado e o que o resgatou.

É a mesma embarcação do versículo 22, e a mesma de onde Pedro desceu no versículo 29.

O vento cessa

O verbo grego é raro. No Novo Testamento, aparece três vezes, todas em cenas de mar.

Na origem, ele se liga à ideia de cansaço, de esforço que se esgota. Diz-se do vento que ele se cansou.

O que não acontece

No capítulo 8, na outra tempestade, ele repreendeu os ventos e o mar, e houve grande bonança.

Aqui não há repreensão, nem ordem, nem palavra dirigida ao vento.

A tempestade acaba quando ele entra.

O salmo, de novo

O Salmo 107, que já apareceu neste capítulo, diz que Deus faz cessar a tempestade e que as ondas se aquietam.

É o penúltimo passo daquele roteiro. O último é a chegada ao porto — que virá no versículo 34.

3. Análise Teológica do Versículo

"E, quando subiram no barco"

Convém começar pelo número gramatical, porque ele carrega o desfecho da cena.

O verbo está no plural: subiram.

Não é Jesus que sobe e depois puxa Pedro, nem Pedro que retorna sozinho. Os dois sobem, e a construção grega — um particípio com sujeito próprio — os trata como um único movimento.

Vale acompanhar o percurso da palavra "barco" neste capítulo, porque ela o costura de ponta a ponta.

No versículo 13, Jesus se retira num barco ao saber da morte de João. No 22, os discípulos são obrigados a entrar num. No 24, o barco está no meio do mar, atormentado pelas ondas. No 29, Pedro desce dele. E aqui, sobem.

Ou seja: o episódio inteiro se resolve com todos dentro da embarcação de onde um deles saiu.

Convém registrar isso sem construir moral. O texto não diz que Pedro fez bem ou mal em sair, e não trata a volta como retratação. Registra que subiram.

Mas o desenho narrativo está lá, e vale reter: o que a cena devolve ao fim é a situação anterior, com uma diferença — agora ele está dentro.

"o vento se acalmou"

Aqui está o dado mais interessante do versículo, e ele só aparece por comparação.

Comecemos pelo verbo, que é raro e expressivo.

O grego é kopázō. No Novo Testamento inteiro, ocorre três vezes — e as três em cenas de tempestade no lago da Galileia: duas em Marcos e esta.

A palavra liga-se ao substantivo que designa fadiga, labuta, esforço penoso. A ideia de fundo é a de algo que se esgota por cansaço.

Dito ao pé da letra: o vento se cansou.

Convém a ressalva de sempre sobre etimologias — o verbo já era corrente para designar simplesmente o abrandamento de um fenômeno, e é assim que aparece, por exemplo, na versão grega do Gênesis, quando as águas do dilúvio diminuem. O falante comum não pensava na origem da palavra ao usá-la.

Registro porque a imagem é boa e porque quem lê o grego a percebe, e não porque o evangelista quisesse explorá-la.

O que este versículo não traz

Vale agora a comparação que faz este versículo render, e ela é com outra passagem do mesmo evangelho.

No capítulo 8, os discípulos atravessam este mesmo lago com Jesus dormindo no barco. Levanta-se uma tempestade, eles o acordam, e o texto diz que ele se levantou, repreendeu os ventos e o mar, e houve grande bonança.

O verbo ali é forte: é o mesmo que este evangelho usa para a repreensão de demônios. A tempestade é tratada como algo a quem se dá ordem.

Aqui, nada disso acontece.

Não há repreensão. Não há ordem. Não há palavra dirigida ao vento, nem gesto, nem menção a que ele tenha feito qualquer coisa em relação à tempestade.

Ele sobe no barco, e o vento cessa.

Convém medir a diferença com cuidado, sem transformá-la em tese maior do que suporta.

O que se pode observar com segurança é que o evangelista, que dispunha do vocabulário da repreensão e já o usara numa cena quase idêntica, não o emprega aqui. A tempestade termina sem que se registre causa.

O que não se pode afirmar é o motivo. Mateus não explica, e as leituras possíveis são várias: que a presença dispensasse a ordem, que a ordem tenha ocorrido sem ser registrada, que o evangelista simplesmente tenha resumido. Não é possível decidir.

Registro a ausência, que é o dado, e não a explicação, que não está no texto.

O salmo chegando ao fim

Convém retomar aqui o texto que já acompanhou este episódio desde o versículo 26.

O Salmo 107 descreve os que descem ao mar em navios. Fala do vento tempestuoso que levanta as ondas, dos homens que sobem aos céus e descem aos abismos, da alma que se derrete de angústia, do cambalear de ébrios, da sabedoria que se acaba.

Depois: clamaram ao Senhor na sua angústia, e ele os tirou das suas dificuldades.

E então: fez cessar a tempestade, e as ondas se aquietaram.

É este versículo.

O passo seguinte do salmo — alegraram-se porque se aquietaram, e ele os conduziu ao porto desejado — corresponderá ao versículo 34, quando chegarem a terra.

Convém registrar de novo o limite: Mateus não cita o Salmo 107 em momento nenhum. Não há fórmula de citação, não há remissão, não há indício de que quisesse a ligação. A convergência é de tema e de situação, e a imagem de tempestade e livramento é comum demais para provar dependência.

Mas o roteiro do salmo cobre o episódio inteiro, do versículo 24 ao 34, na ordem — e quem tem o salmo na memória o reconhece.

Vale ainda uma observação sobre outro relato de mar na literatura de Israel, com a mesma cautela.

No livro de Jonas, o mar se aquieta depois que um homem é lançado dentro dele.

Aqui, o mar se aquieta depois que um homem é retirado de dentro dele.

A inversão é curiosa, e é só isso — não há vínculo textual entre as passagens, e o próprio Mateus, quando quer remeter a Jonas, o faz expressamente, em outros capítulos.

Um detalhe que outro evangelho traz

Vale registrar, por fim, uma diferença entre os relatos.

João, ao narrar a mesma travessia, acrescenta um pormenor que Mateus não tem: diz que, quando quiseram recebê-lo no barco, imediatamente o barco chegou à terra para onde iam.

A frase é discutida. Há quem a leia como registro de um segundo prodígio; há quem a leia como expressão de proximidade — estavam já perto, e logo chegaram.

Não é possível decidir, e como Mateus não registra nada disso, a discussão pertence ao comentário de João.

Em Mateus, o que se lê é mais simples: subiram, e o vento cessou. O trajeto até a terra ocupará o versículo seguinte, sem pressa e sem prodígio.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus e Pedro — sobem juntos; o verbo está no plural.

O barco — o mesmo do versículo 22, de onde Pedro desceu no 29; o episódio se resolve com todos dentro.

O vento — o mesmo contrário do versículo 24; cessa sem que nada lhe seja dito.

O verbo "cessar" — raro; três ocorrências no Novo Testamento, todas em cenas de mar.

Mateus 8:26 — a outra tempestade, em que ele repreendeu os ventos e o mar.

Salmo 107:29 — "faz cessar a tempestade, e acalmam-se as suas ondas".

5. Pontos de Ensino

Sobem os dois. O verbo está no plural.

O barco costura o capítulo. Versículos 13, 22, 24, 29 e 32.

Não há repreensão ao vento. Nem ordem, nem palavra, nem gesto.

Na outra tempestade, houve. Em Mateus 8 ele repreendeu os ventos e o mar.

O evangelista tinha o vocabulário e não o usou. Isso é o dado.

Por que não usou, o texto não diz. Não é possível decidir.

O verbo grego liga-se a cansaço. Ao pé da letra, o vento se cansou.

O Salmo 107 chega aqui ao penúltimo passo. O último é o porto, no versículo 34.

Em Jonas, o mar se acalma quando um homem entra nele. Aqui, quando um homem sai.

João traz um detalhe que Mateus não tem. O barco chegando de imediato à terra.

6. Aspectos Filosóficos

Sobem os dois

Convém começar pelo plural, porque ele carrega o desfecho.

O verbo não é singular. Não se lê que Jesus subiu e puxou Pedro, nem que Pedro voltou sozinho enquanto o outro esperava.

Subiram. A construção grega os trata como um movimento único.

Vale seguir a palavra "barco" ao longo do capítulo, porque ela o costura de ponta a ponta.

No versículo 13, Jesus se retira num barco ao receber a notícia da morte de João. No 22, os discípulos são obrigados a entrar num. No 24, o barco está no meio do mar, atormentado pelas ondas. No 29, Pedro desce dele. Aqui, sobem.

O episódio inteiro se resolve com todos dentro da embarcação de onde um deles tinha saído.

Convém registrar isso sem extrair moral. O texto não diz que ele fez bem ou mal em sair, e não trata a volta como retratação.

O desenho está lá, e é o que é: a cena devolve a situação anterior, com uma diferença — agora ele está dentro, e molhado.

O vento que se cansa

O verbo grego é raro, e vale conhecê-lo.

No Novo Testamento inteiro ocorre três vezes, todas em cenas de tempestade no lago da Galileia — duas em Marcos e esta.

Está aparentado ao termo que nomeia a canseira e o trabalho duro — de sorte que a imagem embutida é a de uma força que se gasta até não sobrar.

Traduzindo cruamente: o vento deu o que tinha.

Convém a ressalva habitual sobre etimologias. O verbo já era corrente para designar o abrandamento de um fenômeno qualquer — aparece assim na versão grega do Gênesis, quando as águas do dilúvio diminuem —, e o falante comum não pensava na origem ao usá-lo.

Anoto pela beleza do detalhe, visível a quem acompanha o original, sem atribuir intenção nenhuma ao autor.

O que este versículo não tem

Aqui está o dado que faz o versículo render, e ele aparece por comparação com outra passagem do mesmo evangelho.

No capítulo 8, os discípulos atravessam este mesmo lago com Jesus dormindo no barco. Levanta-se uma tempestade, eles o acordam com um pedido quase idêntico ao de Pedro no versículo 30 — Senhor, salva-nos —, e o texto diz que ele se levantou, repreendeu os ventos e o mar, e houve grande bonança.

O verbo empregado ali é forte. É o mesmo que este evangelho usa para a repreensão de demônios: a tempestade é tratada como algo a quem se dá ordem.

Aqui, nada disso.

Não há repreensão. Não há ordem, não há palavra dirigida ao vento, não há gesto, não há sequer menção a que ele tenha feito alguma coisa a respeito da tempestade.

Ele sobe no barco, e o vento cessa.

Convém medir a diferença com cuidado, porque é fácil transformá-la em tese maior do que ela suporta.

O que se observa com segurança é isto: o evangelista dispunha do vocabulário da repreensão, já o havia usado numa cena quase idêntica do mesmo livro, e não o emprega aqui. A tempestade termina sem que se registre causa.

O que não se pode afirmar é o motivo. Mateus não explica. As leituras possíveis são várias — que a presença dispensasse a ordem, que a ordem tenha ocorrido sem ser registrada, que o evangelista tenha simplesmente resumido a cena. Não é possível decidir entre elas.

Registro a ausência, que é o dado, e não a explicação, que não está no texto.

Vale, porém, notar o que a ausência produz na leitura. Nas duas cenas o resultado é o mesmo: o mar se aquieta. A diferença está em que, numa delas, isso se dá por palavra, e na outra, por presença.

O salmo chegando ao penúltimo passo

Convém retomar o texto que acompanha este episódio desde o versículo 26.

O Salmo 107 tem uma seção sobre os que descem ao mar em navios. Descreve o vento tempestuoso levantando as ondas, os homens subindo aos céus e descendo aos abismos, a alma derretendo-se de angústia, o cambalear de ébrios, a sabedoria chegando ao fim.

Depois: clamaram ao Senhor na sua angústia, e ele os tirou das suas dificuldades.

E então: fez cessar a tempestade, e as ondas se aquietaram.

É este versículo.

O passo seguinte do salmo — alegraram-se porque se aquietaram, e ele os conduziu ao porto desejado — corresponderá ao versículo 34.

Convém repetir o limite, porque ele importa mais quanto mais bonita fica a aproximação: Mateus não cita o Salmo 107 em lugar nenhum. Não há fórmula de citação, não há remissão, não há indício de intenção. A convergência é de tema e de situação, e imagens de tempestade e livramento são comuns demais na literatura antiga para que a coincidência prove dependência.

Mas o roteiro do salmo cobre o episódio do versículo 24 ao 34, na ordem, e quem o tem na memória o reconhece.

Há ainda um outro relato de mar que vale mencionar, com a mesma cautela. No livro de Jonas, o mar se aquieta depois que um homem é lançado dentro dele. Aqui, aquieta-se depois que um homem é tirado de dentro dele.

A inversão é curiosa e é só isso. Não há vínculo textual entre as passagens, e o próprio Mateus, quando quer remeter a Jonas, o faz expressamente em outros capítulos.

O detalhe que só João tem

Vale fechar com uma diferença entre os relatos.

João, ao narrar a mesma travessia, acrescenta um pormenor ausente em Mateus: diz que, quando quiseram recebê-lo no barco, imediatamente o barco chegou à terra para onde iam.

A frase é discutida. Há quem a leia como registro de um segundo prodígio; há quem a leia como expressão de proximidade — já estavam perto, e logo chegaram.

Não é possível decidir, e como Mateus não registra nada disso, a discussão pertence propriamente ao comentário de João.

Em Mateus o que se lê é mais sóbrio: subiram, e o vento cessou. O trajeto até a terra ocupará o versículo 34, sem pressa e sem prodígio.

7. Aplicações Práticas

Nem toda tempestade termina com uma ordem

No capítulo 8, na outra travessia deste mesmo lago, ele repreendeu os ventos e o mar — com um verbo forte, o mesmo que o evangelho usa para a repreensão de demônios. Aqui não há repreensão, ordem, palavra dirigida ao vento nem gesto. Ele sobe no barco, e o vento cessa.

O dado é que o evangelista dispunha do vocabulário e não o empregou. O motivo, ele não informa, e não é possível decidir entre as leituras possíveis.

Vale contra a expectativa de que as coisas só se resolvem por intervenção dramática. Boa parte do que se acalma na sua vida não vai se acalmar porque alguém deu uma ordem — vai se acalmar porque a situação mudou de composição. E isso conta como resolução do mesmo jeito.

Voltar ao ponto de partida não é fracasso

A palavra "barco" costura o capítulo inteiro: versículo 13, 22, 24, 29 e 32. O episódio se resolve com todos dentro da embarcação de onde um deles tinha saído — e o verbo está no plural, de modo que sobem os dois, num movimento único.

O texto não trata a volta como retratação nem diz que ele errou em sair. Registra que subiram.

Se você tentou algo, não deu certo como esperava e voltou para onde estava, note que voltar não apaga o trecho andado. A situação parece a mesma vista de fora; quem voltou é que não é mais o mesmo, e isso não aparece na fotografia.

O socorro vem antes da calmaria

A ordem dos acontecimentos é precisa: primeiro a mão que segura, no versículo anterior; depois a subida ao barco; só então o vento cessa. A tempestade não parou para que o resgate fosse possível — o resgate aconteceu dentro dela.

É o mesmo desenho do versículo 31, em que a mão vem antes da pergunta.

Guarde para quando estiver esperando as condições melhorarem antes de pedir ajuda. Não é assim que a cena funciona: pede-se no meio do vento, e o vento cessa depois. Esperar a calmaria para agir costuma ser outra forma de não agir.

Repare no que um relato deixou de fora

Comparar Mateus 8 com Mateus 14 mostra o autor usando o vocabulário da repreensão numa cena e não usando na outra, quase idêntica. Isso é informação — e é informação que só aparece para quem lê os dois textos lado a lado.

Registro a ausência como dado, e não a explicação, que não está escrita.

Use o método fora daqui. Ao ler dois relatórios sobre o mesmo assunto, duas versões de uma história de família, dois depoimentos, marque o que um traz e o outro não. O silêncio de uma fonte onde a outra fala costuma render mais que a leitura de qualquer uma isolada.

O roteiro pode se cumprir sem ser reconhecido

O Salmo 107 descreve navegantes em tempestade, a angústia, o clamor, a tempestade que cessa e a chegada ao porto — e o episódio percorre esses passos, do versículo 24 ao 34, na ordem. Mateus não cita o salmo em lugar nenhum, e a aproximação é de quem lê.

Quem tinha aquele texto na memória e estava dentro do barco, porém, não o reconheceu enquanto acontecia. Gritou de medo, no versículo 26, exatamente quando o livramento chegava.

Vale para a leitura da própria história. É mais fácil reconhecer o desenho depois, olhando para trás, do que no meio — e isso não é falha de percepção, é a condição de quem está dentro da cena. Julgue-se por esse padrão, e não pelo do leitor que já sabe o fim.

Cansaço também é um modo de terminar

O verbo grego do vento que cessa liga-se ao substantivo que designa fadiga e esforço penoso — ao pé da letra, o vento se cansou. Convém a ressalva de que a palavra já era corrente para o abrandamento de qualquer fenômeno, e o falante comum não pensava na origem.

A imagem, ainda assim, é boa: nem tudo que para foi mandado parar; parte simplesmente se esgotou.

Isso serve para situações que você tenta encerrar à força — uma discussão, uma cobrança interna, um conflito antigo. Algumas coisas não obedecem a decisão, e acabam por exaustão. Reconhecer qual é o caso evita gastar energia dando ordens a um vento.

Diferenças entre os evangelhos não precisam ser costuradas

João acrescenta um pormenor que Mateus não tem: que, ao recebê-lo no barco, imediatamente a embarcação chegou à terra. A frase é discutida — segundo prodígio, ou apenas expressão de proximidade —, não é possível decidir, e como Mateus não a registra, a discussão pertence ao comentário de João.

Em Mateus lê-se algo mais sóbrio: subiram, e o vento cessou.

Resista ao impulso de fundir as versões numa só, aqui e em qualquer lugar. A harmonização apressada produz um texto que ninguém escreveu, e o que se perde nela é justamente a marca de cada testemunho — que é a parte mais informativa do conjunto.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quem subiu no barco?

Os dois. O verbo está no plural, e a construção grega os trata como um movimento único. Não se lê que Jesus subiu e puxou Pedro, nem que Pedro voltou sozinho.

É o mesmo barco?

É. A palavra costura o capítulo: aparece no versículo 13, quando Jesus se retira; no 22, quando os discípulos são obrigados a entrar; no 24, quando está atormentado pelas ondas; no 29, quando Pedro desce; e aqui. O episódio se resolve com todos dentro da embarcação de onde um deles tinha saído.

Jesus mandou o vento parar?

Não segundo o texto. Não há repreensão, ordem, palavra dirigida ao vento nem gesto. Ele sobe no barco, e o vento cessa.

Mas na outra tempestade houve ordem?

Houve. No capítulo 8 deste mesmo evangelho, os discípulos o acordam com um pedido quase idêntico ao de Pedro — Senhor, salva-nos — e o texto diz que ele se levantou, repreendeu os ventos e o mar, e houve grande bonança. O verbo ali é forte: é o mesmo usado para a repreensão de demônios.

Por que a diferença?

Mateus não explica. O que se observa com segurança é que o evangelista dispunha do vocabulário da repreensão, já o havia usado numa cena quase idêntica, e não o emprega aqui. As leituras possíveis são várias — que a presença dispensasse a ordem, que a ordem não tenha sido registrada, que a cena tenha sido resumida —, e não é possível decidir entre elas.

O verbo "cessar" tem alguma particularidade?

É raro: no Novo Testamento inteiro ocorre três vezes, todas em cenas de tempestade no lago da Galileia. E liga-se ao substantivo que designa fadiga e esforço penoso — ao pé da letra, o vento se cansou. Convém a ressalva de que a palavra já era corrente para o abrandamento de qualquer fenômeno, aparecendo assim na versão grega do Gênesis para as águas do dilúvio.

Há relação com o Salmo 107?

Há convergência notável. O salmo descreve os que descem ao mar em navios, o vento tempestuoso, a angústia, o clamor, e diz que ele fez cessar a tempestade e as ondas se aquietaram — que é este versículo. O passo seguinte, a chegada ao porto, corresponde ao versículo 34. Mateus, porém, não cita o salmo em lugar nenhum, e imagens de tempestade e livramento são comuns demais para provar dependência.

E o livro de Jonas?

A comparação é curiosa e não passa disso. Lá o mar se aquieta depois que um homem é lançado dentro dele; aqui, depois que um homem é tirado de dentro dele. Não há vínculo textual entre as passagens, e o próprio Mateus, quando quer remeter a Jonas, o faz expressamente em outros capítulos.

João conta igual?

Acrescenta um pormenor que Mateus não tem: que, quando quiseram recebê-lo no barco, imediatamente a embarcação chegou à terra para onde iam. A frase é discutida — há quem a leia como segundo prodígio e quem a leia como expressão de proximidade. Não é possível decidir, e a discussão pertence ao comentário de João.

O texto diz que Pedro errou ao sair do barco?

Em nenhum momento. O relato não trata a volta como retratação nem emite juízo sobre a saída. Registra que subiram.

9. Conexão com Outros Textos

Mateus 8:26Então, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar, e seguiu-se uma grande bonança.

A outra tempestade, com a ordem que aqui não existe.

Mateus 8:25Senhor, salva-nos, que perecemos.

O pedido quase idêntico ao do versículo 30.

Salmo 107:29-30Faz cessar a tempestade, e acalmam-se as suas ondas... assim os leva ao seu porto desejado.

O penúltimo e o último passo do roteiro que o episódio percorre.

Mateus 14:22E logo constrangeu os seus discípulos a entrar no barco.

O mesmo barco, no início da travessia.

Mateus 14:29E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas.

A saída que este versículo desfaz.

Marcos 6:51E subiu para o barco, e o vento cessou.

O paralelo, com o mesmo verbo raro.

Marcos 4:39E o vento se aquietou, e houve grande bonança.

A terceira e última ocorrência do verbo no Novo Testamento.

João 6:21Então eles de boa mente o receberam no barco; e logo o barco chegou à terra para onde iam.

O detalhe discutido que Mateus não registra.

Jonas 1:15E lançaram Jonas ao mar, e cessou o mar da sua fúria.

A inversão: ali o mar se acalma quando um homem entra nele.

Gênesis 8:1E as águas se aquietaram.

Na versão grega, o mesmo verbo, para o abrandamento do dilúvio.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

E, quando subiram no barco, o vento se acalmou.

Texto grego

καὶ ἀναβάντων αὐτῶν εἰς τὸ πλοῖον ἐκόπασεν ὁ ἄνεμος

Transliteração

kaì anabántōn autōn eis tò ploîon ekópasen ho ánemos

Palavra por palavra

ἀναβάντων αὐτῶν (anabántōn autōn) — "tendo eles subido"

Genitivo absoluto: construção em que um particípio e o seu sujeito ficam no genitivo, formando uma oração de circunstância independente do sujeito principal.

O particípio é de anabaínō, subir — o oposto exato do verbo do versículo 29, quando Pedro desceu do barco.

E o pronome está no plural: eles. Sobem ambos, num movimento único.

εἰς τὸ πλοῖον (eis tò ploîon) — "no barco"

Preposição de movimento para dentro, com o artigo definido.

O artigo importa: não é um barco, é o barco — aquele já mencionado no versículo 22, no 24 e no 29.

ἐκόπασεν (ekópasen) — "cessou"

Aoristo de kopázō.

Verbo raro. No Novo Testamento inteiro, três ocorrências: duas em Marcos e esta — todas em cenas de tempestade no lago da Galileia.

O verbo deriva de kópos

Ao pé da letra: o vento se cansou.

Convém a ressalva sobre etimologias — o verbo já era corrente para o abrandamento de qualquer fenômeno, e aparece assim na versão grega do Gênesis para as águas do dilúvio que diminuem. O falante comum não pensava na origem ao usá-lo.

ὁ ἄνεμος (ho ánemos) — "o vento"

De novo o artigo definido: é o vento do versículo 24, o contrário, e o do versículo 30, aquele para o qual Pedro olhou.

Nada de novo entrou em cena. O mesmo vento que atormentava o barco havia horas simplesmente para.

Nota — a frase que não está aqui

Vale fechar comparando este versículo com o seu paralelo no capítulo 8, porque a diferença é de estrutura, e não de detalhe.

Lá, a sequência grega é: levantou-se, repreendeu os ventos e o mar, houve grande bonança. Três movimentos, com um verbo de autoridade no centro — o mesmo que o evangelho emprega para a repreensão de demônios.

Aqui, a sequência é: tendo subido, cessou o vento. Dois movimentos, e nenhum verbo de fala.

Some a repreensão. Some a ordem. Some qualquer palavra dirigida à tempestade.

O que resta é uma oração circunstancial e um verbo intransitivo: eles sobem, e o vento se esgota.

Convém não construir sobre isso mais do que suporta. Mateus não explica a diferença, e é possível que se trate apenas de economia narrativa — este capítulo já mostrou, no versículo 19, que o evangelista cala justamente nos pontos em que um relato interessado em impressionar seria expansivo.

Mas a ausência é dado, e ela é verificável: o autor tinha o vocabulário, usara-o numa cena quase igual do mesmo livro, e não o usa aqui.

11. Conclusão

Duas palavras deste versículo respondem por quase tudo o que nele há: uma está no plural, e a outra é a que não aparece.

Comece-se pelo plural. A construção grega põe particípio e sujeito num caso próprio, formando uma circunstância à parte, e o sujeito é "eles". Não se narra que um subiu e içou o outro, nem que o discípulo retornou por conta própria enquanto o mestre aguardava: o movimento é único e comum aos dois. Some-se a isso o verbo escolhido, que significa subir — exatamente o inverso daquele empregado no versículo 29, quando o mesmo homem desceu. E convém notar como a embarcação amarra o capítulo inteiro: comparece quando Jesus se retira ao saber da morte de João, quando os discípulos são compelidos a embarcar, quando as ondas a castigam no meio do lago, quando Pedro a abandona, e agora. A cena se encerra, portanto, com todos dentro do lugar de onde um saiu — sem que o narrador qualifique isso de retratação ou de erro corrigido.

A segunda palavra é a que falta, e para percebê-la é preciso ter lido o capítulo 8 do mesmo livro. Lá, na travessia anterior, os discípulos despertam Jesus com um pedido quase idêntico ao que Pedro fez três versículos atrás, e o relato informa que ele se ergueu, censurou os ventos e o mar, e sobreveio grande bonança. O verbo daquela censura é pesado: é o que este evangelho reserva às ordens dadas a demônios. Neste ponto do capítulo 14, porém, não se registra censura alguma — nenhuma ordem, nenhuma sílaba endereçada à tempestade, nenhum gesto. Ele embarca, e o vento acaba. O que se pode sustentar com firmeza é que o autor dispunha do vocabulário, empregara-o pouco antes numa situação análoga, e aqui o dispensa; o motivo, ao contrário, permanece fora do texto, e as explicações imagináveis — presença que torna a ordem desnecessária, ordem ocorrida sem registro, simples condensação narrativa — não se deixam arbitrar.

Quanto ao verbo do cessar, vale conhecê-lo pela raridade: três ocorrências em todo o Novo Testamento, e as três em episódios de tempestade neste mesmo lago. Sua raiz remete a fadiga e labuta, de modo que a tradução literal diria que o vento se cansou. Como sempre em matéria de etimologia, cabe a ressalva de que o uso corrente já cobria o abrandamento de qualquer fenômeno — a tradução grega do Gênesis o emprega para as águas do dilúvio baixando —, e nada indica que o evangelista tivesse a origem em mente.

Resta o pano de fundo. Desde o versículo 26 este episódio vem percorrendo, passo a passo, o trajeto que o Salmo 107 descreve para os que descem ao mar em navios: o vento tempestuoso, a angústia, o cambalear, o clamor dirigido ao Senhor, e agora a tempestade que se aquieta. Falta apenas o último passo daquele texto, a chegada ao porto, que ocupará o versículo 34. Convém repetir o limite justamente porque a aproximação é sedutora: não existe citação, remissão ou fórmula introdutória em Mateus, e naufrágios seguidos de livramento são lugar-comum na literatura antiga. A leitura pertence a quem tem o salmo de cor. Registre-se ainda, pelo que tem de curioso e não mais que isso, que no livro de Jonas o mar se apazigua depois que um homem é atirado dentro dele, ao passo que aqui isso ocorre depois que um homem é retirado.

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