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Mateus 5:33

✍️ Por Alberto Adriano·16 de setembro de 2025·⏱️ 10 min de leitura·👁 590 acessos
Também ouviram que foi dito aos antigos: “Não jurarás falsamente, mas cumprirás ao Senhor os teus juramentos”.
Mão erguida em gesto de juramento diante de um céu aberto, símbolo do voto feito perante Deus.

Estudo


Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao Senhor. 

1. Introdução

Jesus abre aqui a última das antíteses deste bloco do Sermão do Monte, dedicada aos juramentos. Como sempre, parte de um ensino conhecido: "Não jurarás falsamente, mas cumprirás ao Senhor os teus juramentos". O versículo resume o que a Lei dizia sobre votos e promessas feitos diante de Deus. É a rampa; a palavra própria de Jesus, radical, vem nos versículos seguintes, quando ele dirá "não jureis de modo algum".

O tema pode parecer distante, mas toca algo muito atual: a relação entre a palavra dada e a verdade. Num mundo em que a promessa vale pouco e a mentira se disfarça de fórmula, Jesus vai propor que a palavra do discípulo seja tão confiável que dispense o reforço do juramento. Este versículo prepara essa proposta, recordando a seriedade com que a Lei tratava os votos.

2. Contexto Histórico e Cultural

Os juramentos eram parte importante da vida judaica. Jurar era fazer uma promessa solene, invocando o nome de Deus como testemunha. O Antigo Testamento cobrava a seriedade nisso: Números 30:2 manda que ninguém quebre a sua palavra ao fazer um voto, e Deuteronômio 23:21-23 adverte contra tardar em cumprir o que se prometeu ao Senhor. Quebrar um juramento não era falta leve, pois envolvia o nome de Deus e tornava a pessoa devedora diante dele.

Com o tempo, porém, cresceu uma casuística perigosa em torno dos juramentos. Alguns mestres distinguiam entre juramentos "válidos" e "não válidos" conforme aquilo por que se jurava: jurar pelo templo não obrigaria, mas jurar pelo ouro do templo, sim; jurar pelo céu seria diferente de jurar pelo próprio Deus. Essa engenhosidade permitia parecer honesto mantendo uma saída escondida — jurava-se com uma fórmula que, por dentro, não comprometia. Jesus atacará justamente isso nos versículos seguintes. Aqui, no versículo 33, ele apenas recorda a norma antiga na sua forma mais simples: não jurar em falso e cumprir o que se prometeu a Deus.

3. Análise Teológica do Versículo

"Também ouvistes que foi dito aos antigos"

A expressão indica que Jesus se dirige a um ensino ou tradição conhecidos do seu público. Os "antigos" são os israelitas do passado, sobretudo os que receberam a Lei por meio de Moisés. Isso prepara o terreno para Jesus tratar da interpretação e da aplicação da Lei transmitida ao longo das gerações. Realça a tradição oral e a autoridade da Lei na cultura judaica, ressaltando a importância de compreender a intenção original dos mandamentos de Deus.

"Não jurarás falsamente"

Os juramentos eram parte significativa da vida judaica, funcionando como promessas solenes feitas diante de Deus. O Antigo Testamento contém muitas referências à importância de manter a palavra, como em Números 30:2 e Deuteronômio 23:21-23. Quebrar um juramento era ofensa grave, pois não envolvia apenas o indivíduo, mas invocava o nome de Deus, tornando-se questão de responsabilidade diante dele. Isso reflete a ênfase cultural e religiosa na integridade e na verdade.

"mas cumprirás ao Senhor os teus juramentos"

A frase sublinha a obrigação de honrar os compromissos feitos a Deus. Os votos eram promessas voluntárias que, uma vez feitas, tornavam-se vinculantes e exigiam cumprimento. A ênfase recai sobre a sinceridade e a fidelidade esperadas na relação com Deus. Esse ensino se alinha a passagens como Eclesiastes 5:4-5, que adverte contra votos apressados. Também antecipa o ensino de Jesus no Sermão do Monte, em que ele chama a uma justiça mais profunda, que vai além do mero cumprimento externo da Lei, apontando para a intenção do coração.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Jesus Cristo — quem pronuncia o ensino, no Sermão do Monte, base da ética e da moral cristãs.

Os antigos — os israelitas do passado, que receberam a Lei de Deus por meio de Moisés.

Os ouvintes — o povo judeu, familiarizado com as leis e as tradições do Antigo Testamento.

Eventos

O Sermão do Monte — o discurso em que Jesus ensina discípulos e multidões sobre o Reino dos Céus e a vida justa.

A Lei de Moisés — o contexto original, que incluía os mandamentos sobre fazer e cumprir juramentos.

5. Pontos de Ensino

Integridade na palavra

O discípulo deve ser confiável naquilo que diz, sem precisar de juramentos para validar a sua veracidade.

Compreender o cumprimento da Lei

Jesus cumpre a Lei, em vez de aboli-la, chamando a uma justiça mais profunda, que vai além da adesão legalista.

O cerne da questão

A verdadeira justiça nasce do coração alinhado à verdade de Deus, e não apenas do cumprimento externo.

Evitar promessas apressadas

Considere a sua capacidade de cumprir os compromissos antes de assumi-los em palavra.

Refletir o caráter de Deus

A honestidade e a integridade do crente representam, diante do mundo, a fidelidade de Cristo.

6. Aspectos Filosóficos

O juramento revela algo curioso sobre a linguagem humana: precisamos de um reforço para sermos acreditados. Por que jurar, se a palavra já deveria bastar? Justamente porque a palavra, entre nós, muitas vezes não basta. O juramento é uma confissão indireta de que mentir se tornou comum, a ponto de a verdade precisar de uma garantia extra. Ele existe porque a confiança se quebrou.

É contra esse pano de fundo que se entende para onde Jesus vai. Se a palavra do discípulo fosse sempre verdadeira, o juramento seria supérfluo — não haveria dois níveis de compromisso, um reforçado e outro comum, mas um só: a verdade dita simplesmente. A crítica que virá a seguir não é contra a solenidade, mas contra a ideia de que existe uma fala "sem juramento" em que se pode ser menos honesto. Este versículo, ao recordar a Lei sobre os votos, coloca a base para essa inversão: em vez de sacralizar algumas promessas, Jesus quer tornar toda palavra confiável. O grau de certeza aqui é alto: o que ele busca é a integridade, não um ritual.

7. Aplicações Práticas

Fazer da palavra algo confiável. O ideal de Jesus é que o "sim" já valha por si. Cultivar o hábito de dizer a verdade dispensa a necessidade de reforçar promessas.

Cumprir o que se promete a Deus. Votos e compromissos assumidos diante de Deus não são gestos vazios. Honrá-los é levar a sério com quem se falou.

Pensar antes de prometer. A Escritura adverte contra votos apressados. Medir a própria capacidade de cumprir, antes de assumir, evita a quebra da palavra.

Recusar a mentira disfarçada. A crítica de Jesus mira as fórmulas que aparentam honestidade escondendo uma saída. Vale desconfiar das próprias astúcias verbais.

Representar o caráter de Deus. Um Deus fiel à sua palavra é honrado por discípulos fiéis à deles. A integridade no falar é testemunho concreto.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Como o ensino de Jesus em Mateus 5:33 desafia a compreensão tradicional dos juramentos no Antigo Testamento?

O versículo, em si, ainda recorda a norma antiga; o desafio se forma no que vem a seguir. Ao citar "não jurarás falsamente", Jesus prepara o terreno para ir além da simples proibição do perjúrio e questionar a própria necessidade de jurar — deslocando o foco do juramento correto para a palavra sempre verdadeira.

2. De que modos podemos aplicar o princípio de deixar o nosso "sim" ser sim e o nosso "não" ser não nas interações diárias?

Falando a verdade sem exageros nem fórmulas de reforço, cumprindo o que dizemos que faremos e evitando prometer o que não podemos garantir. Quando a palavra é constante, as pessoas passam a confiar nela sem precisar de juras.

3. Como o ensino de Mateus 5:33 se relaciona com o tema mais amplo da integridade que percorre a Escritura?

A Escritura liga a fidelidade de Deus à palavra que ele cumpre, e chama o seu povo a espelhar essa fidelidade. A integridade no falar não é detalhe moral, mas reflexo do caráter de um Deus que nunca falta com a sua promessa.

4. Que passos práticos podemos dar para que as nossas palavras se alinhem com as nossas ações e compromissos?

Assumir menos e cumprir mais, anotar e honrar o que prometemos, corrigir-nos quando falhamos e evitar a tentação de agradar prometendo o impossível. A confiabilidade se constrói no acúmulo de palavras cumpridas.

5. Como compreender o contexto original da Lei ajuda a captar melhor a profundidade do ensino de Jesus no Sermão do Monte?

Ver que a Lei já cobrava a seriedade dos votos mostra que Jesus não a contradiz, mas a leva ao seu alvo. Ele não abole a exigência de cumprir a palavra; radicaliza-a, pedindo que toda fala seja tão verdadeira que o juramento se torne desnecessário.

9. Conexão com Outros Textos

"Quando alguém fizer voto ao SENHOR, ou fizer juramento ligando sua alma com obrigação, não violará sua palavra: fará conforme tudo o que saiu de sua boca." (Números 30:2)

A base da Lei sobre os votos: a palavra dada a Deus obriga e deve ser cumprida integralmente. É o texto que Jesus resume.

"Quando prometeres voto ao SENHOR teu Deus, não tardarás em pagá-lo; porque certamente o exigirá o SENHOR teu Deus de ti, e haveria em ti pecado." (Deuteronômio 23:21)

Reforça a seriedade do voto: tardar em cumpri-lo já é pecado. A promessa feita a Deus não admite descuido.

"Quando fizeres algum voto a Deus, não demores em pagá-lo; porque ele não se agrada de tolos. Paga o voto que fizeres." (Eclesiastes 5:4)

A sabedoria adverte contra votos apressados e não cumpridos, ecoando o cuidado que Jesus pede com a palavra dada.

"E não jurareis em meu nome com mentira, nem profanarás o nome de teu Deus: Eu sou o SENHOR." (Levítico 19:12)

Liga o juramento falso à profanação do nome de Deus, mostrando por que o perjúrio era ofensa tão grave.

"Mas, acima de tudo, meus irmãos, não jureis... Mas que de vós o sim seja sim, e o não, não; para que não caiais em condenação." (Tiago 5:12)

Tiago repete quase literalmente o ensino de Jesus, confirmando que a Igreja primitiva o entendeu como chamado à palavra simples e verdadeira.

10. Original Grego e Análise

Texto em português: Também ouviram que foi dito aos antigos: “Não jurarás falsamente, mas cumprirás ao Senhor os teus juramentos”.

Texto grego: Πάλιν ἠκούσατε ὅτι ἐρρέθη τοῖς ἀρχαίοις, Οὐκ ἐπιορκήσεις, ἀποδώσεις δὲ τῷ κυρίῳ τοὺς ὅρκους σου.

Transliteração: Pálin ēkoúsate hóti erréthē toîs archaíois, Ouk epiorkḗseis, apodṓseis dè tôi kyríōi toùs hórkous sou.

Análise palavra por palavra:

Pálin (Πάλιν) — "outra vez, novamente": a palavra marca a passagem para mais um contraste, ligando este ensino à mesma série de "ouvistes que foi dito... eu porém vos digo".

toîs archaíois (τοῖς ἀρχαίοις) — "aos antigos": os que receberam a Lei nas gerações passadas. A expressão coloca o ensino no fluxo da tradição herdada, como nas outras antíteses.

Ouk epiorkḗseis (Οὐκ ἐπιορκήσεις) — "não jurarás falsamente / não perjurarás": o verbo epiorkeō significa quebrar um juramento, jurar em falso. Note-se que a proibição antiga era contra o juramento falso, não contra o juramento em si — e é justamente esse limite que Jesus vai ampliar.

apodṓseis (ἀποδώσεις) — "cumprirás / pagarás": o verbo tem a ideia de "restituir, pagar de volta". O voto é tratado como uma dívida contraída diante de Deus, que precisa ser saldada. Jurar é ficar devendo até cumprir.

toùs hórkous sou (τοὺς ὅρκους σου) — "os teus juramentos": hórkos é o juramento, a promessa solene. Aqui, os votos feitos ao Senhor, que a Lei exigia honrar.

Nota teológica: a norma antiga proibia o perjúrio e ordenava cumprir os votos — uma exigência boa, mas que ainda pressupunha o juramento como algo normal e até necessário. O ensino de Jesus, que vem a seguir, dará um passo além: se a palavra do discípulo for sempre verdadeira, o juramento perde a função. Este versículo, portanto, não é criticado por Jesus; é aperfeiçoado. Ele mostra o ponto de partida — a Lei que já cobrava a fidelidade à palavra — para conduzir ao alvo: uma vida tão íntegra que dispensa o reforço da jura.

11. Conclusão

Mateus 5:33 recorda a Lei sobre os juramentos na sua forma mais simples: não jurar em falso e cumprir o que se prometeu a Deus. É uma exigência boa e séria, que o Antigo Testamento repetia de várias formas, pois a palavra dada envolvia o próprio nome de Deus.

Mas, como nas outras antíteses, o versículo é apenas o ponto de partida. Por trás dele havia uma casuística que transformava o juramento em jogo de fórmulas, permitindo parecer honesto sem de fato comprometer-se. É contra essa desonestidade disfarçada que Jesus se levantará a seguir, propondo algo mais simples e mais radical: que a palavra do discípulo seja tão verdadeira que nenhum juramento precise reforçá-la.

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