Os que cuidavam dos porcos fugiram, foram à cidade e contaram tudo, inclusive o que acontecera aos endemoninhados.
1. Introdução
Havia testemunhas. Os homens que cuidavam da manada viram tudo — a libertação dos dois endemoninhados e a queda dos porcos no mar — e fizeram o que qualquer um faria: fugiram e espalharam a notícia. Correram para a cidade e contaram todas estas coisas, inclusive o que havia acontecido aos homens que os demônios haviam dominado.
Este versículo é a ponte entre o milagre e a reação da cidade. Sem os porqueiros, ninguém saberia. São eles, personagens anônimos e improváveis, que se tornam os primeiros mensageiros do que Jesus fez naquela terra gentia. A notícia que carregam tem dois lados: um prodígio de libertação e um prejuízo considerável. E é justamente essa notícia de dois lados que vai dividir a reação de quem a ouvir.
O texto guarda uma ironia discreta. Os primeiros a anunciar a obra de Jesus na Decápolis não são discípulos, não são convertidos, não são movidos pela fé — são trabalhadores assustados, que talvez estivessem mais preocupados com os patrões e com o gado perdido do que com o significado do que viram. Deus, no entanto, usa até a boca do medo para fazer a notícia correr.
2. Contexto Histórico e Cultural
A própria existência de porqueiros confirma o cenário gentio. A criação de porcos era comum ali, apesar de as leis alimentares judaicas proibirem a carne suína — sinal de que a população era majoritariamente não judaica, ou de judeus que não seguiam a lei à risca. Esses homens eram trabalhadores comuns, provavelmente empregados dos donos da manada, e a perda repentina do rebanho os colocava em situação difícil diante de quem os contratara.
A cidade para onde correm seria um dos povoados da região, de forte influência grega. Levar notícias era, no mundo antigo, um ato social importante: o mensageiro que trazia um acontecimento extraordinário ganhava atenção imediata. A pressa dos porqueiros — fugiram e correram — comunica tanto o susto quanto a magnitude do que tinham presenciado. Não era todo dia que se via uma manada inteira despencar no mar e dois homens temidos por todos voltarem ao juízo perfeito.
Vale notar o que eles escolhem contar: “todas estas coisas”, e em especial o que sucedera aos endemoninhados. O relato une o espetacular — a perda dos porcos — e o humano — a transformação dos dois homens. Para os habitantes da cidade, que conheciam de longa data aqueles homens perigosos, a segunda parte da notícia era talvez a mais impressionante: os que ninguém conseguia prender estavam livres.
3. Análise Teológica do Versículo
“E os que cuidavam dos porcos”
A criação de porcos era comum naquela região, apesar das leis judaicas que proibiam a carne suína. Isso indica que a população era predominantemente não judaica, ou não seguia estritamente a lei, e evidencia a tensão cultural entre as práticas judaicas e gentias que atravessa toda a cena.
“fugiram”
A fuga imediata dos porqueiros demonstra o medo e o espanto diante do acontecimento que testemunharam. A pressa sublinha o caráter dramático do poder de Jesus sobre as forças espirituais. Aquilo que viram era grande demais para ser guardado em silêncio.
“e ao chegarem à cidade, anunciaram todas estas coisas”
O relato dos porqueiros funcionou como testemunho da autoridade e do poder de Jesus, espalhando a sua fama e provocando reações variadas entre os habitantes. A notícia corre, mas a resposta a ela ainda está por vir.
“inclusive o que havia acontecido aos endemoninhados”
Esse destaque revela o poder transformador do ministério de Cristo. Os homens antes atormentados e isolados foram restaurados ao seu juízo perfeito, o que demonstra a autoridade de Jesus sobre os demônios e cumpre a promessa messiânica de libertar os cativos, anunciada em Isaías 61:1.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus — figura central, cuja obra sobre o mal é agora anunciada por testemunhas improváveis.
Os que cuidavam dos porcos — os trabalhadores que presenciaram os fatos e correram a relatá-los, tornando-se os primeiros mensageiros do ocorrido.
Os endemoninhados libertos — os dois homens antes dominados pelos demônios, agora restaurados, cuja transformação é parte central da notícia.
Lugares
A cidade — o povoado, provavelmente da Decápolis, para onde os porqueiros levaram o relato.
Eventos
O anúncio na cidade — a difusão da notícia, que reúne o prodígio da libertação e o prejuízo da manada, e que preparará a reação dos habitantes.
5. Pontos de Ensino
A autoridade de Jesus
Jesus demonstra a sua autoridade divina sobre o mundo espiritual, confirmando a sua identidade como aquele que tem poder sobre o mal.
As respostas ao milagre
As reações variaram — do espanto à rejeição —, ilustrando as diferentes respostas humanas ao poder divino. A mesma notícia produz efeitos opostos.
O valor da vida humana
Cristo priorizou a restauração dos dois homens sobre as preocupações econômicas, sublinhando a dignidade humana como valor supremo.
Testemunho e anúncio
O relato dos porqueiros mostra como pessoas comuns se tornam mensageiras das obras de Deus em suas comunidades, mesmo sem plena compreensão do que viram.
O conflito espiritual
A cena reforça a realidade da luta espiritual em curso e a dependência da autoridade de Cristo diante das trevas.
6. Aspectos Filosóficos
Há algo instigante no fato de os primeiros a proclamar a obra de Jesus serem testemunhas involuntárias, movidas pelo susto. Isso levanta uma questão sobre a relação entre presenciar e compreender. Os porqueiros viram tudo, mas nada indica que entenderam o significado do que viram. O testemunho, aqui, é fiel aos fatos e vazio de fé. Ver, por si só, não converte; é possível relatar com exatidão um milagre e permanecer estranho a ele.
Isso conecta-se a um tema maior: a diferença entre informação e transformação. A cidade inteira será informada do que aconteceu, e ainda assim, como veremos, reagirá pedindo que Jesus vá embora. Saber o que ocorreu não é o mesmo que acolher quem o fez. O versículo já planta essa distinção — a notícia corre, mas a corrida da notícia não garante a mudança dos corações.
Por fim, há a questão de como uma mesma realidade pode ser lida de maneiras opostas. Os porqueiros levam um relato que contém, ao mesmo tempo, uma libertação e um prejuízo. Cada ouvinte pesará esses dois lados de forma diferente, e é dessa pesagem que nascerá a reação da cidade. A verdade dos fatos é uma; a interpretação que se faz dela é o que move as pessoas.
7. Aplicações Práticas
Perceber que Deus usa mensageiros improváveis. Os primeiros a espalhar a obra de Jesus foram porqueiros assustados. Deus não depende dos mais preparados; às vezes é pela boca do inesperado que a notícia corre.
Distinguir ver de compreender. É possível presenciar algo grande e não captar o seu sentido. Vale pedir não só para ver o que Deus faz, mas para entender o que aquilo significa.
Não confundir informação com fé. A cidade foi informada e mesmo assim rejeitou Jesus. Saber a respeito dele não basta; o que transforma é acolhê-lo.
Valorizar a transformação de pessoas. No meio do prejuízo, o que mais impressionava era a mudança dos dois homens. Aprender a enxergar o valor de uma vida restaurada, acima das perdas materiais, é uma sabedoria rara.
Contar o que Deus fez. Ainda que de modo imperfeito, os porqueiros tornaram pública a obra de Jesus. Partilhar aquilo que Deus faz, mesmo sem ter todas as respostas, faz a notícia chegar a quem precisa ouvi-la.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. O que significa Mateus 8:33?
É o versículo em que os porqueiros, após presenciarem a libertação dos homens e a perda da manada, fogem e anunciam tudo na cidade. Ele faz a ponte entre o milagre e a reação da população.
2. Como o versículo demonstra o poder de Jesus sobre os espíritos malignos?
De forma indireta, pelo impacto: o que os porqueiros viram foi tão grande que os fez fugir e espalhar a notícia. A obra de Jesus sobre o mal não passou despercebida a ninguém.
3. Que compreensão o versículo oferece sobre a autoridade de Cristo?
Que ela produz efeitos públicos e inegáveis. A libertação dos homens e a queda dos porcos tornaram-se fato notório, contado de casa em casa na cidade.
4. Como ele se conecta com outros milagres dos evangelhos?
Como em outros casos, o milagre gera testemunho e o testemunho se espalha. A diferença é que aqui os mensageiros são trabalhadores assustados, não discípulos ou beneficiados diretos.
5. Como o cristão deve responder ao presenciar o poder divino?
Idealmente, indo além do espanto dos porqueiros: não apenas relatar o fato, mas acolher aquele que o realizou. Ver a obra de Deus deve conduzir à fé, e não só à notícia.
6. Que atitudes constroem a confiança diária na autoridade de Jesus?
Lembrar as obras que ele já fez — as narradas na Escritura e as vividas por nós —, contá-las e delas extrair confiança para os desafios presentes.
7. Por que os porqueiros fugiram após presenciar o milagre?
Por medo e espanto diante de algo que ultrapassava a sua compreensão, e provavelmente também pela perda da manada, que precisavam comunicar aos donos. O susto os transformou, sem querer, em arautos.
8. Como o versículo desafia a nossa compreensão do domínio de Cristo?
Mostra que esse domínio se torna público mesmo pela boca de quem não crê. A obra de Jesus não fica restrita ao círculo dos fiéis; ela repercute e alcança a cidade inteira.
9. Que reações a notícia provocou na cidade?
O versículo apenas prepara o terreno; a reação, narrada a seguir, será de rejeição. A mesma notícia que poderia gerar fé gerou o pedido para que Jesus se retirasse.
9. Conexão com Outros Textos
“Os que os apascentavam fugiram, e avisaram na cidade e nos campos; e as pessoas foram ver o que havia acontecido.” (Marcos 5:14)
O relato paralelo confirma a fuga e o anúncio, e acrescenta que a notícia levou as pessoas a irem ver por si mesmas — o passo que antecede a reação da cidade.
“Quando os que cuidavam dos porcos viram o que havia acontecido, fugiram; então foram anunciar na cidade e nos campos.” (Lucas 8:34)
Lucas descreve a mesma sequência — ver, fugir, anunciar —, reforçando o papel dos porqueiros como primeiros mensageiros do ocorrido.
“E os que haviam visto contaram-lhes o que acontecera ao endemoninhado, e sobre os porcos.” (Marcos 5:16)
Registra os dois lados da notícia: o endemoninhado e os porcos. É exatamente essa combinação — libertação e prejuízo — que vai moldar a resposta da população.
“O Espírito do Senhor DEUS está sobre mim... ele me enviou... para anunciar liberdade aos cativos, e libertação aos prisioneiros.” (Isaías 61:1)
A promessa messiânica que a libertação dos dois homens cumpre. O que os porqueiros anunciam, sem saber, é o sinal de que aquela profecia se realizava em Jesus.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: Os que cuidavam deles fugiram e, chegando à cidade, contaram tudo, inclusive o que acontecera aos endemoninhados.
Texto grego: οἱ δὲ βόσκοντες ἔφυγον, καὶ ἀπελθόντες εἰς τὴν πόλιν ἀπήγγειλαν πάντα, καὶ τὰ τῶν δαιμονιζομένων.
Transliteração: hoi de boskontes ephygon, kai apelthontes eis tēn polin apēngeilan panta, kai ta tōn daimonizomenōn.
Análise palavra por palavra:
- hoi boskontes (os que apascentavam): particípio de boskō, apascentar; são os porqueiros, trabalhadores encarregados da manada.
- ephygon (fugiram): de pheugō, fugir; a reação imediata do medo diante do que presenciaram.
- apelthontes eis tēn polin (indo para a cidade): o movimento em direção ao povoado, onde a notícia seria espalhada.
- apēngeilan (anunciaram, relataram): de apangellō, levar uma mensagem, dar notícia; o mesmo campo de sentido que está por trás da palavra “evangelho”, embora aqui num relato de puro susto.
- panta (todas as coisas): a totalidade do ocorrido — a libertação e a perda dos porcos, sem omissão.
- ta tōn daimonizomenōn (as coisas dos endemoninhados): o destaque dado à sorte dos dois homens, a parte mais impressionante da notícia para quem os conhecia.
Nota teológica: o verbo apēngeilan, “anunciaram”, pertence à mesma família de palavras que dá origem a “evangelho”, a boa notícia. Há uma ironia teológica em que os primeiros a “anunciar” a obra de Jesus na Decápolis sejam porqueiros apavorados, sem fé e sem compreensão. Isso ilustra um traço constante: Deus faz a sua obra repercutir por meios improváveis, e a notícia corre antes que os corações se convertam. O grau de certeza sobre esse contraste é razoável, apoiado no vocabulário. O ponto a guardar, sem exagero, é que informação não é o mesmo que fé — a cidade ouvirá tudo e, ainda assim, pedirá que Jesus se vá.
11. Conclusão
Mateus 8:33 é o versículo da notícia que corre. Testemunhas improváveis — porqueiros assustados — tornam-se os primeiros a espalhar a obra de Jesus naquela terra gentia. Sem eles, o milagre teria ficado à beira do lago; por meio deles, alcança a cidade inteira. Deus, mais uma vez, escreve certo por linhas que não escolheu.
O versículo também planta uma distinção que a cena seguinte confirmará: a diferença entre ser informado e ser transformado. Os porqueiros contaram tudo com exatidão, e nada indica que creram. A cidade ouviria tudo e reagiria com rejeição. Presenciar e relatar não são ainda acolher; a notícia pode chegar sem que o coração se abra.
No centro do relato está a transformação dos dois homens, a parte que mais impressionava quem os conhecera perigosos e livres agora. É esse o milagre que os porqueiros, sem entender, carregam para a cidade — o sinal de que, naquela terra impura, a promessa de liberdade aos cativos havia se cumprido.













