“Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o terceiro dia.”
1. Introdução
O terceiro dia se encerra com a mesma fórmula tranquila que marca os outros: "e foi a tarde e a manhã, o dia terceiro". Depois de recolher as águas, descobrir a terra seca e cobri-la de vegetação, Deus fecha mais uma jornada da criação. O versículo é breve, quase um respiro entre uma obra e outra, mas carrega o ritmo que dá ordem a todo o capítulo.
Há algo digno de nota na sequência "tarde e manhã". Para a mentalidade hebraica, o dia começava ao entardecer, não ao amanhecer — por isso a tarde vem antes da manhã. O movimento vai do escuro para a luz, do fim de um período para o início do seguinte. É um pequeno detalhe que ainda hoje molda o calendário judaico, e que dá ao relato da criação um pulso reconhecível: cada dia caminha das trevas para a luz.
O terceiro dia é também especial por ser o único, na primeira metade da semana, em que Deus realiza duas obras — a separação das águas e a criação da vegetação — e por duas vezes declara que "era bom". É um dia cheio, que prepara literalmente o terreno para tudo o que virá. Ao fechá-lo, o texto convida o leitor a fazer uma pausa e reconhecer: mais uma etapa da criação está pronta, e está boa.
2. Contexto Histórico e Cultural
A maneira como Gênesis conta a criação — organizada em seis dias, cada um com abertura e fechamento — não tem paralelo nos relatos dos povos vizinhos. As cosmogonias do antigo Oriente Próximo, como o Enuma Elish babilônico, narram a origem do mundo como uma sucessão de conflitos entre deuses, sem essa cadência ordenada de dias e sem o refrão calmo do "era bom". Gênesis impõe ao caos uma estrutura de tempo: a criação avança em ritmo, por etapas, rumo a um fim — o descanso do sétimo dia.
Esse ritmo de "tarde e manhã" reflete o modo hebraico de contar o tempo. Enquanto muitos povos começavam o dia ao nascer do sol, Israel o iniciava ao pôr do sol, com a chegada da noite. Essa contagem, que atravessa toda a Bíblia, aparece nas festas e no sábado, sempre começados na véspera, ao entardecer. O relato da criação, ao repetir "tarde e manhã", inscreve na própria origem do mundo o calendário que o povo viveria.
Vale notar ainda o peso simbólico do "terceiro dia" na tradição bíblica que se seguiria. Ao longo das Escrituras, o terceiro dia se tornaria repetidamente o momento da virada, do livramento e da vida que retorna. Aqui, no princípio, ele já é o dia em que a terra, antes submersa e estéril, se cobre de verde. Do informe brota a vida — e essa imagem ecoaria por toda a história sagrada.
3. Análise Teológica do Versículo
"E foi a tarde e a manhã,"
Esta frase marca a conclusão de um dia inteiro no relato da criação. O uso de "tarde" e "manhã" sugere um dia completo, e a sequência da tarde seguida da manhã reflete a compreensão judaica de dia, que começa ao pôr do sol. Esse padrão é constante ao longo da narrativa da criação, enfatizando a natureza ordenada e estruturada da obra criadora de Deus. A repetição dessa frase ressalta o ritmo e a intencionalidade do processo da criação.
"o dia terceiro."
No terceiro dia, Deus ajuntou as águas e fez aparecer a terra seca, chamando-a de Terra, e às águas reunidas chamou Mares. Este dia viu também a criação da vegetação, das plantas que dão semente e das árvores que dão fruto. O terceiro dia é significativo por introduzir o conceito de vida e crescimento, preparando o cenário para o sustento das criaturas vivas que viriam. Teologicamente, o terceiro dia pode ser visto como um tipo de ressurreição, pois a vida emerge da terra antes estéril, prefigurando a ressurreição de Cristo ao terceiro dia. O terceiro dia estabelece ainda o fundamento para os ciclos agrícolas que seriam cruciais para a sobrevivência e a prosperidade humanas.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Deus — o Criador, ativamente envolvido no processo da criação, trazendo ordem e estrutura ao universo.
Lugares e Tempos
O Terceiro Dia — um período específico no relato da criação, em que Deus prossegue a sua obra de formar a terra, marcando a conclusão de mais uma fase da semana da criação.
Eventos
A Tarde e a Manhã — indicam a passagem do tempo e a conclusão de um dia inteiro no relato da criação, enfatizando a natureza estruturada e ordenada da obra de Deus.
5. Pontos de Ensino
A criação ordenada de Deus
A expressão "tarde e manhã" assinala o desígnio e a ordem intencionais de Deus na criação. Os que creem podem confiar na soberania e na ordem de Deus em suas vidas.
A importância do tempo
A estrutura de "tarde e manhã" nos lembra da importância de administrar o tempo e do ritmo de trabalho e descanso nas nossas vidas diárias.
A provisão de Deus
A criação da vegetação no terceiro dia demonstra a provisão de Deus para a sua criação. Somos chamados a confiar no cuidado de Deus para com as nossas necessidades.
Reflexo da glória de Deus
A beleza e a complexidade da criação refletem a glória de Deus. Como administradores da criação, devemos cuidar do ambiente e valorizar o mundo que Deus fez.
6. Aspectos Filosóficos
O fechamento de cada dia com "tarde e manhã" revela uma verdade discreta, mas importante: o tempo, na Bíblia, tem forma. Ele não é um fluxo indistinto e sem sentido, mas uma sucessão ordenada de períodos, com começo e fim, com ritmo e direção. A criação não acontece num instante atemporal, nem num presente eterno e estático; ela se desenrola em etapas, avançando rumo a um propósito. O tempo é, ele mesmo, uma criatura ordenada por Deus e voltada para um fim.
Esse ritmo de trabalho e pausa que estrutura os dias da criação inscreve no próprio tecido do mundo a ideia de que a existência tem cadência. Não somos feitos para uma atividade sem fim, nem para uma inércia sem obra. Entre a tarde e a manhã, entre o repouso e o labor, há um pulso que ordena a vida. A semana da criação prepara o sábado, e com ele a lição de que até o tempo produtivo tem o seu limite e o seu descanso — algo que a cultura antiga, e também a nossa, precisa constantemente reaprender.
Há, por fim, o movimento simbólico da tarde para a manhã, do escuro para a luz. Cada dia da criação nasce na penumbra e caminha para a claridade. É uma pequena parábola inscrita na estrutura do tempo: a direção do mundo criado por Deus vai das trevas para a luz, e não o contrário. Essa orientação da escuridão rumo à luz atravessará toda a Bíblia, do primeiro capítulo até a promessa final de um dia sem noite.
7. Aplicações Práticas
Respeite o ritmo de trabalho e descanso. Deus estrutura a criação em dias, com tarde e manhã, labor e pausa. Uma vida sem descanso não é mais santa, apenas mais cansada. Aprender a fechar o dia, como Deus fechava cada etapa, é parte da sabedoria de viver.
Aprenda a concluir etapas. O versículo marca o fim de um dia antes de começar o próximo. Também na sua vida vale a pena reconhecer quando uma fase se encerra, dar-lhe um fechamento e só então seguir adiante, em vez de arrastar tudo ao mesmo tempo sem nunca concluir nada.
Confie na direção da tarde para a manhã. Na contagem bíblica, o dia começa na noite e caminha para a luz. Quando você está na parte escura de algum período, lembre-se de que, na lógica de Deus, a escuridão é o começo de um dia, não o seu fim. A manhã vem depois.
Reconheça o bom no fim do dia. Deus fechava cada jornada tendo declarado a sua obra boa. Terminar o dia relembrando o que houve de bom nele é um exercício de gratidão que combate o hábito de só enxergar o que faltou.
Valorize as etapas cumpridas. O terceiro dia só chega porque o primeiro e o segundo passaram. Grandes obras se fazem por etapas. Honrar cada passo concluído, sem desprezar o que ainda parece pequeno, é confiar no Deus que constrói aos poucos.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Qual é o significado de Gênesis 1:13?
É o versículo que encerra o terceiro dia da criação com a fórmula "e foi a tarde e a manhã". Significa a conclusão ordenada de mais uma etapa da obra de Deus — o dia em que a terra seca apareceu e se cobriu de vegetação —, marcando o ritmo e a intencionalidade de todo o relato.
2. Como Gênesis 1:13 demonstra o processo ordenado da criação de Deus?
Ao repetir a fórmula de fechamento "tarde e manhã", o versículo mostra que a criação avança em etapas bem delimitadas, com começo e fim. Deus não age no caos nem ao acaso, mas em ritmo estruturado, dando ao tempo uma forma que caminha rumo ao descanso do sétimo dia.
3. O que "foi a tarde e a manhã" ensina sobre a linha do tempo da criação?
Ensina que o tempo é parte da criação e tem cadência. A sequência da tarde para a manhã reflete a contagem hebraica do dia, que começa ao entardecer, e imprime no relato um movimento constante do escuro para a luz, de etapa em etapa.
4. Como podemos ver o poder de Deus na criação do terceiro dia?
No terceiro dia, Deus faz duas grandes obras — descobre a terra seca e a cobre de vida vegetal — e duas vezes declara que era bom. O poder de Deus aparece na abundância e na provisão: da terra antes submersa e estéril brota, à sua palavra, toda uma vegetação capaz de se renovar.
5. Como Gênesis 1:13 se conecta ao princípio do descanso sabático em Êxodo 20:11?
Êxodo 20:11 recorda que Deus fez tudo em seis dias e descansou no sétimo. O fechamento de cada dia com "tarde e manhã", como aqui, é o que constrói essa semana da criação, que serve de fundamento ao mandamento do sábado. O ritmo dos dias prepara o descanso.
6. Como aplicar o conceito de ordem divina no nosso dia a dia?
Dando forma ao próprio tempo: com etapas, começos e fins, trabalho e descanso. Uma vida que imita a ordem da criação reserva momentos de labor e de pausa, conclui o que começa e reconhece o valor de cada dia, em vez de viver num fluxo sem ritmo nem limite.
7. Como Gênesis 1:13 se encaixa na linha do tempo da criação?
Ele fecha a primeira metade da semana. Nos dias 1 a 3, Deus forma os grandes ambientes — a luz, o céu e os mares, a terra e a vegetação. O terceiro dia, que este versículo conclui, completa a preparação dos lugares que, na segunda metade da semana, serão povoados.
8. Qual é o significado de "tarde e manhã" em Gênesis 1:13?
Além de marcar um dia completo, a expressão fixa o modo hebraico de contar o tempo, começando ao entardecer, e desenha o movimento do escuro para a luz. É uma fórmula de encerramento que dá ritmo e ordem a todo o relato da criação.
9. Gênesis 1:13 sustenta a interpretação de um dia literal de 24 horas?
Este é um ponto que pede honestidade. Muitos leem "tarde e manhã" como indício de dias comuns de 24 horas, e essa é uma interpretação antiga e respeitável. Outros, porém, observam que o relato tem forte estrutura literária e temática — os dias 1 a 3 formam os ambientes e os dias 4 a 6 os povoam, em pares que se correspondem — e que o próprio sol, que mede as 24 horas, só é criado no quarto dia. Para esses, os "dias" seriam um modo de organizar a mensagem da criação, não necessariamente períodos cronometrados. O grau de certeza aqui é modesto, e o texto não faz dessa questão um teste de fé. O que ele afirma com clareza é que Deus criou tudo com ordem, propósito e ritmo, e que a criação caminha para o descanso — verdade que permanece de pé em qualquer das duas leituras.
9. Conexão com Outros Textos
"Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e todas as coisas que neles há, e repousou no sétimo dia." (Êxodo 20:11)
Este mandamento se apoia diretamente na semana da criação que versículos como Gênesis 1:13 constroem. O ritmo de dias que se fecham prepara o descanso do sábado, dado como dom ao povo.
"Porque sua ira dura por um momento; mas seu favor dura por toda a vida; o choro fica pela noite, mas a alegria vem pela manhã." (Salmo 30:5)
O salmo retoma o movimento da noite para a manhã, inscrito no "tarde e manhã" da criação, e o transforma em esperança: na lógica de Deus, a escuridão é passagem, e a alegria amanhece.
"Depois de dois dias ele nos dará vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e diante dele viveremos." (Oséias 6:2)
O terceiro dia, em que a vida brota da terra antes estéril, ganha aqui força de símbolo: é o dia da vida que retorna. A tradição bíblica ligaria repetidamente o terceiro dia ao livramento e à ressurreição.
"Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra... todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele existe antes de todas as coisas, e nele todas as coisas se mantêm." (Colossenses 1:16-17)
O Novo Testamento amplia o relato dos dias da criação: tudo o que Deus fez, dia após dia, foi feito por meio de Cristo e para Cristo, que sustenta a obra inteira.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português: Houve tarde e manhã: o terceiro dia.
Texto hebraico: וַיְהִי־עֶרֶב וַיְהִי־בֹקֶר יוֹם שְׁלִישִׁי׃
Transliteração: vayhí-érev vayhí-vóqer yom shelishí.
Análise palavra por palavra:
vayhí-érev (וַיְהִי־עֶרֶב) — "e foi a tarde, e houve tarde": vayhí, "e foi", da raiz hayá, "ser, tornar-se"; érev, "tarde, entardecer". A tarde vem primeiro porque, na contagem hebraica, o dia começa ao pôr do sol. O movimento parte da penumbra.
vayhí-vóqer (וַיְהִי־בֹקֶר) — "e foi a manhã": bóqer, "manhã, amanhecer". Após a tarde, vem a manhã, completando o dia. A sequência escuro-para-luz é o ritmo de cada jornada da criação.
yom (יוֹם) — "dia": palavra que, em hebraico, pode designar tanto um dia comum quanto um período mais amplo de tempo, conforme o contexto. Essa flexibilidade está no centro das diferentes leituras sobre a duração dos dias da criação.
shelishí (שְׁלִישִׁי) — "terceiro": o numeral ordinal que fecha a jornada. Marca a terceira etapa cumprida, a única da primeira metade da semana em que Deus realiza duas obras e por duas vezes declara que era bom.
Nota teológica: a fórmula "e foi a tarde e a manhã", repetida ao fim de cada dia, dá ao relato da criação um ritmo litúrgico e ordenado, muito distante do caos das cosmogonias vizinhas. Ela inscreve na origem do mundo a contagem hebraica do tempo — da tarde para a manhã — e o movimento constante das trevas para a luz. A palavra yom, "dia", comporta mais de um sentido, e por isso o versículo não resolve sozinho a discussão sobre a duração dos dias; o que ele afirma, sem ambiguidade, é que o tempo é criatura de Deus, tem forma e caminha para um fim. O terceiro dia, em que a vida emerge da terra estéril, plantaria uma semente simbólica que a Escritura colheria muitas vezes: o terceiro dia como dia da vida que retorna.
11. Conclusão
Gênesis 1:13 fecha o terceiro dia com sobriedade: "e foi a tarde e a manhã, o dia terceiro". É um versículo de transição, mas não de pouca importância. Nele, o relato marca o ritmo que ordena toda a criação — dias que se abrem e se fecham, trabalho que dá lugar à pausa, escuridão que caminha para a luz.
O dia que aqui se encerra foi cheio: nele a terra seca apareceu e se cobriu de vida, e por duas vezes Deus a declarou boa. Ao fechá-lo com a fórmula de sempre, o texto ensina que o tempo tem forma, que as etapas se concluem e que a criação avança com propósito rumo ao descanso do sétimo dia. Quanto à antiga pergunta sobre a duração desses dias, a leitura honesta reconhece mais de um caminho e não faz dela um teste de fé.
Fica, no fim, a promessa escondida no ritmo da tarde para a manhã. Na contagem de Deus, o escuro é começo, não desfecho; a manhã sempre vem depois da noite. E o terceiro dia, em que a vida brotou da terra antes estéril, guarda desde o princípio um eco de esperança que a história sagrada não cansaria de repetir: onde parecia haver só vazio, Deus faz surgir a vida.













