Os filhos de Jafé: Gômer, Magogue, Madai, Javã, Tubal, Meseque e Tiras.
1. Introdução
Depois da bênção sobre Noé, do episódio da embriaguez e da profecia sobre Sem, Cam e Jafé, Gênesis abre um capítulo que costuma ser folheado às pressas: uma longa lista de nomes. É a chamada Tábua das Nações, o mapa em que a Bíblia organiza os povos do mundo conhecido a partir dos três filhos que saíram da arca. E é justamente por Jafé que a lista começa. Antes de Sem, o ramo eleito de onde virá Abraão, e antes de Cam, o texto se volta primeiro para os povos mais distantes de Israel — os do norte, das ilhas e das costas do mar. Gênesis 10:2 apresenta os sete filhos de Jafé como as raízes desses povos setentrionais.
À primeira vista, é apenas uma genealogia. Mas essa lista de nomes é, na verdade, um dos textos mais ambiciosos de toda a Escritura. Ela pretende abarcar a humanidade inteira, do Egito às ilhas gregas, da Média à Anatólia. Nenhuma outra literatura do Oriente Próximo antigo tentou algo assim: reunir todos os povos conhecidos numa única árvore familiar, brotada de um só pai. Enquanto os impérios da época dividiam o mundo entre 'nós, os civilizados' e 'eles, os bárbaros', Gênesis afirma que todos os povos, por mais estranhos e remotos, são parentes — descendem dos mesmos oito sobreviventes do dilúvio.
É preciso ler estes nomes com honestidade. A maioria deles não designa indivíduos, e sim povos, tribos e regiões. 'Gômer', 'Madai', 'Javã' e os demais são, no fundo, nações inteiras personificadas em um antepassado. Quando o texto diz 'os filhos de Jafé', não está registrando uma certidão de nascimento, mas desenhando um mapa étnico e geográfico. Comparar esses nomes com os registros dos assírios, dos gregos e de outros povos antigos permite reconhecer, com graus variados de certeza, quem são de fato esses 'filhos de Jafé' — e o resultado é um retrato surpreendentemente exato do mundo setentrional como Israel o conhecia.
Este versículo, portanto, é mais do que um pórtico de nomes. É a maneira que a Bíblia encontrou de dizer que a diversidade dos povos não é um acidente nem uma ameaça, mas parte de um mundo que, no fim das contas, tem uma raiz comum e um só Criador. Entender quem são os filhos de Jafé é começar a ler o mapa que Gênesis 10 desenha da família humana.
2. Contexto Histórico e Cultural
A Tábua das Nações não caiu do céu como uma lista abstrata: ela reflete o mundo real conhecido por Israel entre o segundo e o primeiro milênio antes de Cristo. Os povos ligados a Jafé ocupam, de modo geral, o arco que vai da Grécia e das ilhas do Egeu, passando pela Anatólia (a atual Turquia), até as terras ao norte e a leste do mar Cáspio. São os povos do norte, vistos da perspectiva de quem morava em Canaã. Para o israelita, eram os mais distantes e os menos conhecidos — daí, talvez, aparecerem primeiro e serem descritos com menos detalhe do que os descendentes de Sem e de Cam, mais próximos e familiares.
No mundo antigo, listas genealógicas eram uma forma reconhecida de escrever geografia e política. Dizer que um povo 'gerou' outro, ou que dois povos eram 'irmãos', era o modo de expressar proximidade territorial, parentesco linguístico ou aliança. A Tábua das Nações usa exatamente essa linguagem. Quando agrupa sob Jafé os gregos, os medos, os povos da Anatólia e os das estepes do norte, o texto está reconhecendo algo que a história confirma: esses povos, em boa parte, pertencem ao grande tronco que os estudiosos modernos chamam de indo-europeu — falantes de línguas aparentadas que, ao longo de séculos, se espalharam do norte em direção ao Egeu, à Ásia Menor e ao planalto iraniano.
Os arquivos dos impérios da época ajudam a identificar esses nomes. Os registros assírios, por exemplo, mencionam os Gimirrai (os cimérios), os povos de Tabal e de Mushki na Anatólia, e os Madai (os medos). Os textos gregos e as inscrições do Oriente falam dos jônios — os Iawan, os gregos da costa da Ásia Menor e das ilhas. Cruzar a Bíblia com essas fontes mostra que a lista de Gênesis 10 não é fantasiosa: ela corresponde, com notável precisão, ao mapa dos povos reais que pressionavam e comerciavam com o mundo do Oriente Próximo no primeiro milênio a.C.
Há aqui também uma consciência histórica que merece nota. Muitos desses povos — cimérios, citas, medos — entraram com força na história do Oriente Próximo justamente entre os séculos VIII e VI a.C., quando desceram das estepes e das montanhas do norte e abalaram os grandes impérios. O horizonte da Tábua das Nações, portanto, é o de um Israel que olha para o mundo à sua volta e reconhece, nas fronteiras do norte, uma multidão de povos guerreiros e distantes. Nomear cada um deles e situá-los na mesma família humana era uma forma de ordenar um mundo que, de outro modo, pareceria um caos de nações estranhas.
É importante, porém, uma nota de cautela. Nem todas essas identificações têm o mesmo grau de certeza. Algumas — Madai com os medos, Javã com os jônios — são firmes e amplamente aceitas. Outras — Tiras, por exemplo — permanecem debatidas, com propostas variadas e nenhuma prova definitiva. A honestidade exige distinguir o que se sabe do que se conjectura, e é assim que a Tábua das Nações deve ser lida: como um mapa antigo real, preciso onde as fontes o confirmam, e prudentemente aberto onde elas se calam.
3. Análise Teológica do Versículo
“Os filhos de Jafé:”
Jafé é o filho de Noé associado, na profecia de Gênesis 9, à expansão — 'Alargue Deus a Jafé'. Não por acaso, é dele que descendem os povos que mais se espalharam pelo norte e pelo ocidente do mundo antigo. Que a lista das nações comece por Jafé, e não pelo ramo eleito de Sem, tem um sentido teológico: antes de estreitar o foco sobre o povo da promessa, a Escritura abre os braços sobre a humanidade inteira. Deus é o Deus de todos os povos, inclusive dos mais distantes de Israel, antes de ser, de modo particular, o Deus de Abraão.
“Gômer, e Magogue,”
Os dois primeiros nomes remetem aos povos das estepes e das montanhas ao norte. Gômer é geralmente identificado com os cimérios, e Magogue com os citas ou com um povo do extremo norte. Não são figuras míticas: são nações que, na história real, desceram como ondas guerreiras sobre o Oriente Próximo. A Bíblia os coloca no mapa da família humana, reconhecendo que mesmo os povos temidos das fronteiras têm lugar sob o mesmo Criador. Séculos depois, o profeta Ezequiel retomará Magogue como imagem das potências hostis do norte, mostrando como esses nomes carregam ressonâncias que atravessam a Escritura.
“e Madai, e Javã,”
Madai são os medos, povo do planalto iraniano que se tornaria uma das grandes potências do mundo antigo, aliado dos persas na queda de Babilônia. Javã são os jônios, isto é, os gregos — sobretudo os das ilhas e da costa da Ásia Menor. É notável que a Bíblia, tão cedo, já registre os gregos entre os povos do mundo. Aqui, no meio de uma lista antiga, aparece o nome do povo que um dia daria ao mundo a língua em que o Novo Testamento seria escrito. A providência costuma plantar suas sementes muito antes da colheita.
“e Tubal, e Meseque, e Tiras.”
Tubal e Meseque correspondem, com boa segurança, aos povos anatólios que os assírios chamavam de Tabal e Mushki, situados nas montanhas da atual Turquia — povos metalúrgicos, comerciantes de bronze e de escravos, como o próprio Ezequiel lembraria. Tiras é o mais incerto de todos: há quem o associe aos tirsenos, ligados de algum modo aos etruscos da Itália, ou a algum dos 'povos do mar' que agitaram o Mediterrâneo oriental. O versículo se fecha, assim, com um nome que a própria erudição confessa não decifrar por completo — lembrete de que a Escritura registra um mundo real, e que nem tudo desse mundo antigo chegou até nós com clareza.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jafé — Um dos três filhos de Noé e cabeça da linhagem aqui descrita. Associado, na bênção de Gênesis 9, à ideia de expansão, é apresentado como o antepassado dos povos do norte e do ocidente, os mais afastados da terra de Israel. Dele partem os sete ramos que este versículo enumera.
Gômer — Nome que designa, com grande probabilidade, os cimérios, povo guerreiro das estepes ao norte do mar Negro que, no primeiro milênio a.C., invadiu a Anatólia e enfrentou os assírios. Os arquivos assírios os chamam de Gimirrai, eco direto do nome bíblico.
Magogue — Termo de identificação mais aberta, ligado em geral aos citas ou a um povo do extremo norte. Ezequiel 38 e 39 o retomam como símbolo das forças hostis que vêm 'das partes do norte', o que fez do nome, ao longo dos séculos, uma imagem do inimigo distante e ameaçador.
Madai — Os medos, povo do noroeste do atual Irã, cuja identificação é firme e bem documentada. Uniram-se aos persas para derrubar o Império Babilônico; 'os medos e os persas' são citados diversas vezes na Bíblia como a potência que sucede a Babilônia.
Javã — Os jônios, ou seja, os gregos, sobretudo os das ilhas do Egeu e da costa ocidental da Ásia Menor. A identificação é segura: o nome reaparece em profetas como Isaías, Ezequiel e Daniel para designar a Grécia e, mais tarde, o império de Alexandre.
Tubal e Meseque — Dois povos da Anatólia central e oriental, correspondentes ao Tabal e ao Mushki dos registros assírios. Ezequiel os menciona como negociantes de utensílios de bronze e de pessoas. São povos das montanhas, ligados à metalurgia e ao comércio de longa distância.
Tiras — O mais enigmático dos sete. Propõe-se ligá-lo aos tirsenos — possíveis parentes dos etruscos da Itália — ou a algum dos 'povos do mar'. Nenhuma dessas hipóteses é certa; Tiras permanece um nome real cujo referente exato a história ainda não fixou.
5. Pontos de Ensino
A humanidade tem uma raiz comum — Ao fazer todos os povos, inclusive os mais distantes, descenderem de Noé, a Bíblia afirma a unidade fundamental da raça humana. Não há povos de origem inferior ou superior; todos brotam do mesmo tronco.
Deus se interessa por todas as nações — Antes de focar em Israel, Gênesis dedica um capítulo inteiro a mapear os povos do mundo. O horizonte de Deus é universal; o particular vem a serviço do universal.
A Escritura registra um mundo real — Estes nomes correspondem a povos históricos, confirmados por fontes assírias e gregas. A fé bíblica está ancorada em geografia e história, não em fábulas desligadas do mundo.
A honestidade diante do que não se sabe — Algumas identificações são certas; outras, como Tiras, permanecem em aberto. Ler bem a Bíblia inclui reconhecer os limites do que se pode afirmar, sem forçar respostas que as evidências não sustentam.
A providência trabalha no longo prazo — Entre esses nomes está Javã, os gregos, cujo idioma um dia carregaria o Evangelho ao mundo. Deus prepara, muito antes, os instrumentos que só usará séculos depois.
6. Aspectos Filosóficos
Há algo profundamente contracultural na maneira como Gênesis organiza os povos. No mundo antigo, cada nação costumava contar sua própria origem como se fosse especial, nascida dos deuses ou da terra local, distinta e superior às demais. Os gregos chamavam de 'bárbaros' todos os que não falavam a sua língua; os egípcios se viam como o centro civilizado cercado de povos inferiores. A Tábua das Nações faz o oposto: coloca todos — gregos, medos, citas, anatólios — na mesma árvore familiar. A diversidade dos povos deixa de ser uma hierarquia de valor e passa a ser a ramificação natural de uma só família. É uma das mais antigas afirmações da unidade do gênero humano.
Essa lista também diz algo sobre como a Bíblia entende a diferença. Ela não apaga as distinções entre os povos — ao contrário, nomeia cada um com cuidado, respeitando línguas, territórios e identidades. Mas as reúne sob uma origem comum. A unidade não anula a pluralidade; a pluralidade não rompe a unidade. Há aqui uma sabedoria que o mundo ainda luta para aprender: reconhecer o outro como diferente e, ao mesmo tempo, como parente. O estrangeiro do norte, por mais estranho que pareça, é ramo do mesmo tronco que eu.
Vale refletir, ainda, sobre o gesto de nomear. Dar nome aos povos é uma forma de conhecê-los, de trazê-los da névoa do desconhecido para o campo da memória e do relato. Aquilo que não tem nome permanece como ameaça informe; aquilo que é nomeado entra na ordem do mundo compreensível. Ao registrar Gômer, Madai, Javã e os demais, o texto realiza um ato de ordenação: transforma a multidão caótica das nações das fronteiras num mapa legível. Conhecer e nomear é, em certo sentido, o primeiro passo para deixar de temer.
Por fim, esta genealogia levanta a questão do sentido da história dos povos. Para Gênesis, a dispersão das nações não é mero acaso de migrações e guerras; é parte de um mundo criado e sustentado por Deus. Cada povo tem seu lugar, seu tempo e seus limites — tema que o apóstolo Paulo retomaria em Atenas, diante dos gregos, ao dizer que de um só sangue Deus fez todas as nações e determinou os tempos e as fronteiras de cada uma. A Tábua das Nações é a semente dessa visão: a história humana, com toda a sua diversidade, tem uma raiz e uma direção que ultrapassam o que cada povo, sozinho, poderia enxergar.
7. Aplicações Práticas
Enxergue o estrangeiro como parente. A Tábua das Nações afirma que todos os povos brotam da mesma raiz. Diante de quem tem outra língua, outra cor, outra cultura, lembre-se de que a distância não desfaz o parentesco. O diferente não é um rival a ser temido, mas um ramo distante da mesma família humana.
Cultive um coração de horizonte largo. Antes de falar de Israel, Deus mapeia o mundo inteiro. Não reduza a sua fé aos seus semelhantes e ao seu círculo. O Deus da Bíblia se interessa por todos os povos, e quem o segue é chamado a olhar para além das próprias fronteiras.
Respeite os limites do que você sabe. Nem todo nome desta lista pode ser decifrado com certeza, e o texto não force respostas. Aprenda a conviver com o 'não sei' honesto. Em questões de fé, história ou vida, é mais sábio confessar o limite do que inventar uma certeza que não se tem.
Valorize a história como terreno da fé. Estes não são nomes lendários, mas povos reais, registrados também fora da Bíblia. A sua fé não flutua no ar: está ancorada num mundo de fatos, lugares e datas. Estudar a história ilumina a Escritura em vez de ameaçá-la.
Confie que Deus prepara o futuro de longe. Entre estes nomes antigos está o dos gregos, cujo idioma um dia levaria o Evangelho às nações. Deus planta cedo o que só colherá tarde. Aquilo que hoje parece um detalhe sem importância pode ser, nas mãos dele, uma semente de propósito.
Ordene o caos pelo conhecimento. O texto transforma uma multidão de povos temidos num mapa compreensível ao nomeá-los. Diante do que o assusta pelo desconhecido — uma cultura, um assunto, um medo —, dê o primeiro passo de conhecer e nomear. Compreender é o começo de deixar de temer.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Quem são os filhos de Jafé em Gênesis 10:2?
São sete nomes — Gômer, Magogue, Madai, Javã, Tubal, Meseque e Tiras — que, na maioria, não designam indivíduos, mas povos e regiões do norte do mundo antigo: das estepes e montanhas ao norte, da Anatólia, da Média e das ilhas gregas. Jafé é apresentado como o antepassado desses povos setentrionais.
2. Estes nomes correspondem a povos reais da história?
Sim, em boa medida. Fontes assírias e gregas confirmam vários deles: Gômer com os cimérios (Gimirrai), Madai com os medos, Javã com os jônios (gregos), Tubal e Meseque com os povos anatólios de Tabal e Mushki. A Tábua das Nações reflete o mapa real dos povos que Israel conhecia.
3. Por que a lista das nações começa por Jafé, e não por Sem?
Porque a Escritura abre o horizonte antes de estreitá-lo. Sem é o ramo eleito, de onde virá Abraão, e será tratado por último, com mais atenção. Começar por Jafé, o mais distante, mostra que Deus é o Deus de toda a humanidade antes de ser, de modo particular, o Deus do povo da promessa.
4. Todas as identificações desses povos são certas?
Não. Algumas são firmes, como Madai (medos) e Javã (gregos). Outras são prováveis, como Gômer, Tubal e Meseque. E há casos genuinamente debatidos, como Tiras, ligado por hipótese aos tirsenos, aos etruscos ou aos 'povos do mar', sem prova definitiva. A leitura honesta distingue o certo do provável e do incerto.
5. Quem é Magogue, tão citado em profecias?
Em Gênesis 10:2, Magogue é apenas um dos filhos de Jafé, ligado provavelmente aos citas ou a um povo do extremo norte. Ezequiel 38 e 39 o retomam como símbolo das potências hostis que vêm do norte, e daí o nome ganhou, na tradição posterior, uma carga de inimigo distante — mas seu ponto de partida é este registro genealógico.
6. O que a Tábua das Nações ensina sobre os diferentes povos?
Que todos, por mais distintos, compartilham uma origem comum. Num mundo que dividia a humanidade entre civilizados e bárbaros, a Bíblia coloca gregos, medos, citas e anatólios na mesma família. A diversidade dos povos é ramificação de um só tronco, não uma escala de valor.
7. Por que é importante que os gregos (Javã) apareçam aqui?
Porque, séculos depois, seria em grego que o Novo Testamento se escreveria e se espalharia pelo mundo. Ver o nome dos gregos já plantado nesta lista antiga é um lembrete de como a providência prepara, muito antes, os instrumentos que só usará no tempo certo.
9. Conexão com Outros Textos
“E os filhos de Gômer: Asquenaz, e Rifate, e Togarma. E os filhos de Javã: Elisá, e Társis, Quitim, e Dodanim.” (Gênesis 10:3-4)
Os versículos seguintes desdobram dois dos filhos de Jafé em novos povos, mostrando que cada nome desta lista é uma raiz que se ramifica em outras nações do mundo antigo.
“Por estes foram repartidas as ilhas das nações nas suas terras, cada qual segundo a sua língua, segundo as suas famílias, entre as suas nações.” (Gênesis 10:5)
O resumo que fecha o ramo de Jafé confirma o sentido geográfico da lista: são povos das 'ilhas' e das costas, espalhados por terras, línguas e nações distintas.
“Filho do homem, dirige o teu rosto contra Gogue, terra de Magogue, príncipe e chefe de Meseque e Tubal, e profetiza contra ele.” (Ezequiel 38:2)
O profeta retoma Magogue, Meseque e Tubal — três nomes desta lista — como imagem das potências do norte que se levantam contra o povo de Deus, mostrando como esses povos permaneceram no imaginário de Israel.
“Javã, Tubal e Meseque eram os teus mercadores; em troca das tuas mercadorias davam pessoas de homens e vasos de bronze.” (Ezequiel 27:13)
Três filhos de Jafé aparecem como parceiros comerciais de Tiro, negociando bronze e escravos. É um retrato histórico que confirma a localização anatólia e egeia desses povos.
“E o bode peludo é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei.” (Daniel 8:21)
A Grécia — Javã — reaparece na profecia de Daniel como potência que marcaria a história. O povo apenas nomeado em Gênesis 10 torna-se, séculos depois, um ator central no cenário mundial.
“E de um sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação.” (Atos 17:26)
Paulo, diante dos gregos em Atenas, expressa em uma frase a teologia da Tábua das Nações: todos os povos vêm de uma só raiz, e Deus fixou os tempos e as fronteiras de cada um.
“Depois destas coisas olhei, e eis uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono.” (Apocalipse 7:9)
O que começa como um mapa das nações em Gênesis 10 culmina em Apocalipse: os muitos povos, filhos de Jafé entre eles, reunidos diante do trono. A diversidade das nações encontra o seu destino na adoração comum.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português (nossa tradução):
Os filhos de Jafé: Gômer, Magogue, Madai, Javã, Tubal, Meseque e Tiras.
Texto hebraico:
בְּנֵי יֶפֶת גֹּמֶר וּמָגוֹג וּמָדַי וְיָוָן וְתֻבָל וּמֶשֶׁךְ וְתִירָס׃
Transliteração:
benei Yéfet: Gómer umaGog umaDai veIavan veTuval umeShej veTirás.
Análise dos nomes:
benei Yéfet (בְּנֵי יֶפֶת) — “os filhos de Jafé”: benei é a forma construta de banim, 'filhos', e aqui abrange descendentes e povos, não apenas filhos diretos. Yéfet (Jafé) soa próximo da raiz que significa 'ampliar, alargar', ecoando a bênção de Gênesis 9:27 — 'alargue Deus a Jafé' —, apropriada ao pai dos povos que mais se espalharam pelo norte e pelo ocidente.
Gómer (גֹּמֶר) — associado com boa probabilidade aos cimérios, os Gimirrai dos arquivos assírios, povo das estepes ao norte do mar Negro. O eco entre o nome hebraico e o assírio sustenta a identificação.
uMagog (וּמָגוֹג) — “e Magogue”, com o prefixo u- ('e'). O nome talvez signifique 'lugar de Gogue' ou 'terra de Gogue'; a identificação mais comum é com os citas ou um povo do extremo norte. É o nome que Ezequiel elevaria a símbolo das forças hostis setentrionais.
uMadai (וּמָדַי) — “e Madai”, os medos do planalto iraniano. É uma das identificações mais seguras da lista, confirmada por inúmeras fontes; o mesmo termo designa a Média ao longo da Bíblia.
veIavan (וְיָוָן) — “e Javã”, os jônios, isto é, os gregos. A correspondência entre Yavan e o grego Iawones (jônios) é firme e reconhecida, e o nome designa a Grécia em vários profetas.
veTuval (וְתֻבָל) — “e Tubal”, ligado ao Tabal dos textos assírios, região montanhosa da Anatólia oriental, conhecida pela metalurgia. Identificação bem sustentada pelas fontes.
uMeshej (וּמֶשֶׁךְ) — “e Meseque”, correspondente ao Mushki assírio, povo anatólio frequentemente citado ao lado de Tubal, tanto na Bíblia quanto nos registros do império. Também de identificação sólida.
veTirás (וְתִירָס) — “e Tiras”, o mais incerto dos sete. Propõe-se ligá-lo aos tirsenos — possivelmente aparentados aos etruscos — ou a algum dos 'povos do mar'. Nenhuma hipótese é conclusiva; o nome permanece em aberto.
Nota teológica:
No hebraico, os sete nomes seguem ligados pela conjunção waw ('e'), repetida como um encadeamento — 'e Magogue, e Madai, e Javã...' — que dá à lista um ritmo de contagem cuidadosa, como quem passa em revista, um a um, os povos do norte. O número sete, tão presente em Gênesis, sugere uma totalidade: sob Jafé, o texto abarca de forma completa o arco setentrional das nações. A sobriedade da forma esconde a ambição do conteúdo — em sete palavras encadeadas, meio mundo conhecido é situado na família humana.
11. Conclusão
Gênesis 10:2 parece, à primeira vista, apenas uma lista de nomes estranhos. Mas é um dos mapas mais antigos e ambiciosos já traçados: o retrato dos povos do norte — cimérios, citas, medos, gregos e os povos da Anatólia — reunidos como filhos de um só pai. Onde os impérios da época dividiam a humanidade entre civilizados e bárbaros, a Bíblia desenha uma árvore em que todos são parentes. A diversidade das nações não é aqui uma ameaça a conter, mas a ramificação natural de uma família que tem uma raiz comum sob o mesmo Criador.
O versículo ensina também uma lição de honestidade. Alguns desses nomes podem ser identificados com firmeza; outros, como Tiras, permanecem envoltos em bruma, e o texto não finge saber o que não se sabe. Ler bem a Escritura é aprender a distinguir a certeza da conjectura, sem forçar respostas nem esvaziar o que as evidências realmente sustentam. A fé bíblica não teme a história; ela se ancora nela, e cresce mais robusta quando confrontada com os registros dos povos que menciona.
Por fim, há neste versículo uma promessa silenciosa. Entre os filhos de Jafé está Javã, os gregos — e seria em grego que, séculos mais tarde, a boa-nova correria o mundo. A lista que começa mapeando as nações mais distantes de Israel já traz, escondido, o povo pelo qual a mensagem de Deus alcançaria todas as nações. O que começa como geografia termina como esperança: os muitos povos, dispersos pela terra, caminham para o dia em que, de toda tribo e língua, se reunirão diante do trono. A Tábua das Nações é o primeiro esboço desse quadro final.













