Os filhos de Gômer: Asquenaz, Rifate e Togarma.
1. Introdução
À primeira vista, Gênesis 10:3 é apenas mais um elo de uma lista de nomes: 'Os filhos de Gômer: Asquenaz, Rifate e Togarma.' São três palavras estranhas ao ouvido, sem uma única frase de ação, sem verbo, sem drama. Um leitor apressado passa por elas como quem folheia uma lista telefônica antiga. E, no entanto, cada um desses nomes é uma porta. Por trás de Asquenaz, de Rifate e de Togarma há povos que cavalgaram pelas estepes, que ergueram cidades nas montanhas da Anatólia, que apareceram nos anais dos reis assírios e nas profecias de Israel. A Tábua das Nações não é um catálogo morto: é o mapa vivo do mundo tal como o antigo Israel o conhecia.
Este versículo abre o segundo nível da grande genealogia de Gênesis 10. No versículo anterior, Gômer aparece como um dos sete filhos de Jafé; agora o texto desce mais um degrau e mostra os filhos de Gômer. É como uma câmera que se aproxima: primeiro os grandes ramos da árvore humana, depois os galhos menores, e assim por diante, até que toda a terra habitada esteja diante dos nossos olhos. Estamos, portanto, no ramo de Jafé — tradicionalmente ligado aos povos do norte e do noroeste, das terras que hoje chamamos de Ásia Menor, Cáucaso e além.
É preciso ser honesto desde o começo: não sabemos com certeza absoluta quem foram esses três povos. As identificações que a erudição propõe são prováveis, algumas muito prováveis, mas nenhuma é definitiva. Asquenaz costuma ser associado aos citas ou aos ashkuz dos textos assírios; Togarma, à região de Tegarama, na Anatólia oriental, perto da Armênia; Rifate permanece o mais obscuro dos três, quase um enigma. Reconhecer os limites do nosso conhecimento não enfraquece o texto — ao contrário, é o que nos permite lê-lo com seriedade, sem forçar respostas que a própria Escritura não dá.
O valor deste versículo não está na precisão de um atlas, mas na afirmação que ele sustenta: cada um desses nomes é um povo real, um rosto humano no imenso mosaico das nações que brotaram de Noé. Gênesis não está inventando mitologia; está fazendo uma afirmação profunda sobre a unidade da família humana. Antes de Israel existir, antes da eleição de Abraão, a Bíblia se dá ao trabalho de dizer que todos os povos da terra — inclusive os distantes cavaleiros do norte — têm uma origem comum e um lugar no plano de Deus. Compreender isso é o primeiro passo para ler bem a Tábua das Nações.
2. Contexto Histórico e Cultural
Gênesis 10 é conhecido como a 'Tábua das Nações', e não tem paralelo exato em toda a literatura do antigo Oriente Próximo. Outros povos guardavam listas de reis, genealogias de dinastias, mitos de origem de sua própria cidade ou nação. Nenhum, porém, tentou algo parecido com isto: um mapa genealógico de toda a humanidade conhecida, organizando setenta nações em torno dos três filhos de Noé. É um gesto de amplitude notável. Israel, um povo pequeno, olhou para o mundo inteiro e disse: todos vêm da mesma raiz.
O ramo de Jafé, ao qual pertence Gômer, agrupa em geral os povos situados ao norte e a noroeste da terra de Israel — a vasta faixa que vai da Anatólia (a atual Turquia) ao mar Egeu, ao Cáucaso e às estepes que se estendem para além deles. Gômer, o pai dos três nomes deste versículo, é quase universalmente identificado com os cimérios, chamados Gimirrai nos textos assírios: um povo guerreiro de cavaleiros que, no século VII a.C., irrompeu do norte, atravessou o Cáucaso e semeou terror na Anatólia, chegando a abalar reinos poderosos como a Frígia e a Lídia.
Asquenaz aparece nos anais assírios como Ashkuz ou Ishkuza, nome que a maioria dos estudiosos liga aos citas — outro povo de cavaleiros das estepes, aparentado ou aliado aos cimérios e muitas vezes mencionado ao lado deles. Séculos depois, numa curiosa reviravolta da história, a tradição judaica medieval passou a usar o nome 'Asquenaz' para designar as terras germânicas e, por extensão, os judeus da Europa central e oriental — os asquenazitas. Convém dizer com clareza: essa é uma associação tardia, de origem rabínica, e não uma afirmação do texto de Gênesis. O Asquenaz bíblico é um povo do norte da Anatólia; a ligação com a Alemanha e com os judeus asquenazitas é uma camada posterior, cultural e não geográfica.
Rifate é o mais obscuro dos três. Fora desta lista (e do paralelo em 1 Crônicas), ele não reaparece na Bíblia de forma clara, e os textos antigos quase não o mencionam. Alguns intérpretes antigos e modernos tentaram associá-lo aos montes Rifeus, uma cadeia semilendária que a geografia grega situava nos confins do norte; outros o relacionam a algum povo da região da Paflagônia ou da Bitínia, na Anatólia. A verdade honesta é que não temos dados firmes: Rifate permanece um nome sem rosto nítido, um povo que existiu, deixou seu nome numa lista sagrada e depois se dissolveu no silêncio da história.
Togarma tem uma âncora histórica mais sólida. É quase certamente a Tegarama (ou Til-garimmu) dos textos hititas e assírios, uma cidade e região da Anatólia oriental, na fronteira com a Armênia, importante entroncamento de rotas comerciais. Não por acaso, quando o profeta Ezequiel descreve o comércio da rica cidade de Tiro, ele menciona 'a casa de Togarma' como fornecedora de cavalos e mulos (Ezequiel 27:14) — exatamente o que se esperaria de um povo das terras altas da Anatólia, célebres pela criação de cavalos. Mais tarde, a tradição armênia adotaria Togarma (Torgom) como ancestral epônimo do próprio povo armênio.
Para o israelita que ouvia esta lista, portanto, esses não eram nomes vazios. Eram os povos do norte distante — cavaleiros temidos, comerciantes de cavalos, nações que de vez em quando desciam das montanhas como uma tempestade. Situar Asquenaz, Rifate e Togarma dentro da família de Noé era afirmar que até esses estranhos do fim do mundo conhecido tinham um lugar na grande árvore da humanidade criada e abençoada por Deus.
3. Análise Teológica do Versículo
“Os filhos de Gômer:”
A fórmula 'os filhos de' é o esqueleto de toda a Tábua das Nações. Ela desce mais um degrau na genealogia: de Jafé para Gômer, e de Gômer para os seus descendentes. No pensamento bíblico, um povo é 'filho' do seu ancestral ou da sua terra — a linguagem da descendência é o modo antigo de traçar o mapa dos povos. Teologicamente, isso reafirma que nenhuma nação surge do nada ou por acaso: todas se ligam, elo a elo, à única família humana que saiu da arca. A diversidade dos povos não é fruto de origens rivais, mas ramificação de uma raiz comum querida por Deus.
“Asquenaz,”
O primeiro nome evoca os cavaleiros das estepes, os ashkuz dos anais assírios, provavelmente os citas. Colocá-lo aqui, dentro da árvore de Noé, é um gesto de inclusão surpreendente: mesmo os povos mais distantes e temidos, aqueles que o israelita conhecia sobretudo como ameaça vinda do norte, pertencem à mesma humanidade abençoada em Gênesis 9. O texto não os demoniza nem os exclui; simplesmente os registra como parte do mundo que Deus criou e povoou.
“Rifate”
O nome mais obscuro da lista ensina, à sua maneira, uma lição de humildade. Nem todo povo mencionado na Escritura deixou rastros que possamos seguir. Rifate existiu, foi contado entre as nações, e depois se perdeu no silêncio. Isso lembra que a memória de Deus é mais longa que a dos homens: povos que a história esqueceu continuam registrados na página sagrada. Diante do nome, o intérprete honesto confessa o que não sabe — e essa honestidade faz parte de uma leitura fiel.
“e Togarma.”
O último nome, ligado à Tegarama da Anatólia oriental e, mais tarde, à tradição armênia, aparece de novo em Ezequiel como fornecedor de cavalos e como aliado de Gogue nos exércitos do norte (Ezequiel 27:14; 38:6). É um povo real, com lugar no comércio e nas guerras do mundo antigo. Sua presença aqui completa a tríade e reforça o ponto central: cada nome é uma nação concreta, com geografia, economia e história próprias, e todas cabem no mapa que Deus desenha da humanidade.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Gômer — O pai dos três nomes deste versículo e um dos sete filhos de Jafé. Amplamente identificado com os cimérios (Gimirrai), povo guerreiro de cavaleiros do norte que, no século VII a.C., invadiu a Anatólia. É a raiz imediata do ramo aqui descrito.
Asquenaz — Primeiro filho de Gômer, ligado aos ashkuz dos textos assírios, provavelmente os citas, cavaleiros das estepes ao norte do Cáucaso. Por tradição judaica medieval, seu nome passou depois a designar as terras germânicas e os judeus asquenazitas — associação tardia, alheia ao sentido original do texto.
Rifate — Segundo filho de Gômer, o mais obscuro da lista, sem menção clara fora das genealogias. Foi conjecturalmente ligado aos montes Rifeus do extremo norte ou a algum povo da Anatólia, mas permanece sem identificação firme.
Togarma — Terceiro filho de Gômer, quase certamente a Tegarama/Til-garimmu da Anatólia oriental, junto à Armênia. Célebre pela criação de cavalos, aparece em Ezequiel como comerciante e como parte dos exércitos do norte; a tradição armênia o adotou como ancestral epônimo.
O ramo de Jafé — A grande divisão da Tábua das Nações que agrupa os povos do norte e do noroeste, das terras da Anatólia ao Egeu e às estepes. Gômer e seus filhos são o seu primeiro sub-ramo detalhado.
A Tábua das Nações — O evento literário maior em que este versículo se insere: o mapeamento de setenta nações descendentes de Noé, único no mundo antigo, que situa toda a humanidade conhecida numa só árvore genealógica.
5. Pontos de Ensino
Toda nação tem uma origem em Deus — Mesmo os povos mais distantes e estranhos ao israelita — os cavaleiros do norte — são inscritos na família de Noé. Nenhum povo está fora do alcance do plano do Criador.
A unidade da raça humana — Antes de qualquer eleição ou distinção, Gênesis afirma que todos os povos brotam de uma raiz comum. A diversidade das nações é ramificação, não rivalidade de origens.
A honestidade diante do que não sabemos — Rifate nos ensina que a fé não exige respostas para tudo. Reconhecer os limites do nosso conhecimento é parte de uma leitura séria e humilde da Escritura.
A memória de Deus ultrapassa a dos homens — Povos que a história esqueceu continuam registrados na página sagrada. Diante de Deus, nenhum povo cai no completo esquecimento.
O mundo real por trás dos nomes — A Bíblia não flutua acima da geografia e da história; ela mergulha nelas. Cada nome aponta para pessoas concretas, com terras, cavalos, comércio e guerras — vida humana de verdade.
6. Aspectos Filosóficos
Há algo quase escandaloso na sobriedade desta lista. Onde as culturas vizinhas de Israel contavam mitos grandiosos sobre a origem dos povos — deuses que se acasalam, heróis que brotam da terra, dinastias descidas do céu —, Gênesis oferece nomes secos, encadeados por uma fórmula simples: 'os filhos de'. A grandeza do texto não está no espetáculo, mas na afirmação silenciosa que ele sustenta: a humanidade é uma só. Essa recusa do mito em favor de uma genealogia comum é, em si, uma tese filosófica sobre a natureza do homem.
A Tábua das Nações resolve, à sua maneira antiga, um problema que ainda hoje nos assombra: como conciliar a evidente diversidade dos povos — línguas, costumes, aparências, inimizades — com a intuição de que, no fundo, somos todos parentes. A resposta de Gênesis é genealógica: a diversidade é real, mas superficial; a unidade é mais profunda e mais antiga. Asquenaz, o cavaleiro temido do norte, e o israelita que teme sua chegada são, em última instância, primos distantes. Essa consciência mina qualquer pretensão de que um povo seja essencialmente 'outro', de uma humanidade diferente.
Chama a atenção, também, o que o texto NÃO faz. Ele não classifica os povos em superiores e inferiores, não os hierarquiza por valor, não amaldiçoa os estrangeiros do norte por serem uma ameaça militar. Limita-se a registrá-los, com a mesma dignidade seca com que registra qualquer outro. Num mundo em que cada nação costumava contar sua própria história como a história dos escolhidos e tratar as demais como bárbaras, essa neutralidade genealógica é um gesto de notável largueza. Todos cabem na árvore; ninguém é apagado dela.
Por fim, o nome obscuro de Rifate levanta uma questão sobre a memória e o esquecimento. A história humana é implacável: povos inteiros desaparecem sem deixar rastro, cidades viram poeira, línguas se calam para sempre. Rifate é um desses povos quase apagados. E, no entanto, seu nome sobrevive — não nos anais dos impérios, mas numa lista sagrada. Há aqui uma intuição consoladora: aquilo que os homens esquecem pode permanecer diante de Deus. A página do Criador é mais duradoura que o mármore dos vencedores.
7. Aplicações Práticas
Enxergue o próximo distante como parente. A Tábua das Nações afirma que todos os povos vêm da mesma raiz. Diante do estrangeiro, do diferente, daquele que sua cultura ensina a temer, lembre-se: ele é seu parente na grande família de Noé. Essa consciência é o antídoto mais antigo contra o preconceito e o desprezo.
Aceite que nem tudo terá resposta. Rifate nos ensina a conviver com o mistério. Nem toda pergunta da fé tem uma resposta pronta, e forçar certezas onde não há dados é uma forma de desonestidade. Uma fé madura sabe dizer 'não sei' sem perder a confiança em Deus.
Valorize as pessoas por trás dos nomes. É fácil ler listas e estatísticas e esquecer que cada item é gente. Por trás de Asquenaz e Togarma havia famílias, trabalho, medo e esperança. Treine o olhar para ver as pessoas concretas onde os outros só veem números e rótulos.
Confie na memória de Deus. Você pode sentir que a sua vida, o seu trabalho, a sua fidelidade passam despercebidos, esquecidos pelos que deveriam lembrar. Rifate mostra que o que se perde na memória dos homens permanece diante de Deus. Nada do que é feito para Ele cai no esquecimento.
Cultive uma fé com os pés na história. A Bíblia não foge do mundo real de geografia, comércio e política — ela mergulha nele. Sua fé também não precisa fugir da realidade. Deus age dentro da história concreta, entre povos concretos, e é ali que Ele quer encontrar você.
Rejeite toda ideia de povos 'superiores'. Gênesis registra as nações sem hierarquia de valor. Sempre que surgir a tentação de tratar um grupo humano como essencialmente melhor ou pior, volte a esta lista: todos são ramos da mesma árvore, todos igualmente descendentes do homem que Deus abençoou ao sair da arca.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Qual é o significado de Gênesis 10:3?
O versículo lista os três filhos de Gômer — Asquenaz, Rifate e Togarma — dentro da Tábua das Nações. Seu significado maior não é geográfico, mas teológico: afirma que até os povos distantes do norte pertencem à única família humana descendente de Noé, incluídos no mundo criado e abençoado por Deus.
2. Quem foram Asquenaz, Rifate e Togarma?
São, muito provavelmente, povos do norte da Anatólia e das estepes. Asquenaz liga-se aos ashkuz/citas dos textos assírios; Togarma, à região de Tegarama, na Anatólia oriental, junto à Armênia; Rifate permanece obscuro, sem identificação firme. São identificações prováveis, não certezas absolutas.
3. Asquenaz tem a ver com os judeus asquenazitas?
Só indiretamente. O Asquenaz de Gênesis é um povo antigo do norte. A ligação com as terras germânicas e com os judeus asquenazitas nasceu muito depois, na tradição judaica medieval, que passou a usar o nome para a Europa central. É uma associação cultural tardia, não uma afirmação do texto bíblico.
4. Por que Rifate é tão difícil de identificar?
Porque, fora das genealogias de Gênesis 10 e 1 Crônicas 1, ele praticamente não reaparece na Bíblia nem nos registros antigos. Sem dados suficientes, as tentativas de localizá-lo — nos montes Rifeus ou na Anatólia — permanecem conjecturais. Rifate é um lembrete honesto dos limites do nosso conhecimento.
5. Por que a Bíblia se dá ao trabalho de listar esses nomes?
Porque a Tábua das Nações faz uma afirmação fundamental antes mesmo do surgimento de Israel: toda a humanidade tem origem comum. Ao registrar até os povos mais distantes, o texto declara que nenhuma nação está fora do plano de Deus e que a diversidade dos povos é ramificação de uma só família.
6. Podemos ter certeza dessas identificações históricas?
Não de forma absoluta. A erudição oferece propostas prováveis, baseadas em textos assírios, hititas e na geografia antiga, mas o próprio caráter dos dados impede certezas definitivas. Ler bem o versículo é sustentar ao mesmo tempo a confiança na verdade do texto e a humildade quanto aos detalhes históricos.
7. Que lição espiritual há numa simples lista de nomes?
A de que cada nome é um povo real, amado e lembrado por Deus, e a de que todos pertencem à mesma família humana. A lista, longe de ser árida, ensina unidade, dignidade e memória: ninguém é 'outro' por natureza, e nada do que é registrado diante de Deus se perde para sempre.
9. Conexão com Outros Textos
“Os filhos de Jafé: Gômer, Magogue, Madai, Javã, Tubal, Meseque e Tiras.” (Gênesis 10:2)
O versículo imediatamente anterior, que apresenta Gômer entre os filhos de Jafé. É o degrau acima na genealogia: de Jafé nasce Gômer, e de Gômer os três nomes de 10:3. O texto desce, ramo a ramo, pela árvore das nações.
“Os filhos de Gômer: Asquenaz, Rifate, e Togarma.” (1 Crônicas 1:6)
O cronista repete a lista quase sem alteração, séculos depois, ao reconstruir a memória genealógica de Israel. A repetição mostra o valor duradouro da Tábua das Nações como âncora da identidade do povo dentro da família humana.
“Da casa de Togarma traziam cavalos, cavaleiros e mulos, para tuas feiras.” (Ezequiel 27:14)
Togarma reaparece como um povo real e próspero, fornecedor de cavalos à rica Tiro. O nome da genealogia ganha carne histórica: um povo das terras altas da Anatólia, célebre por seus animais, ativo no comércio do mundo antigo.
“Gômer, e todas as suas tropas; a casa de Togarma, dos lados do norte, e todas as suas tropas; muitos povos contigo.” (Ezequiel 38:6)
Na profecia contra Gogue, Gômer e Togarma surgem entre os povos do extremo norte que marcham para a batalha. Os nomes da lista de Gênesis tornam-se, na visão profética, símbolos das nações distantes reunidas sob o juízo de Deus.
“...convocai contra ela os reinos de Ararate, Mini, e Asquenaz...” (Jeremias 51:27)
A única outra menção de Asquenaz fora das genealogias. O profeta o convoca, ao lado de Ararate e Mini (reinos da região da Armênia), contra a Babilônia — confirmando sua localização entre os povos do norte, na área da Anatólia e do Cáucaso.
“Esses três foram os filhos de Noé, e a partir deles se espalhou a população de toda a terra.” (Gênesis 9:19)
O versículo que resume o sentido de toda a Tábua das Nações: de Noé se espalhou toda a humanidade. Asquenaz, Rifate e Togarma são apenas alguns dos ramos daquela dispersão abençoada por sobre a terra.
“E de um sangue ele fez toda nação humana, para habitarem sobre a face da terra...” (Atos 17:26)
Paulo, diante dos filósofos de Atenas, proclama o que Gênesis 10 já ensinava: de uma só origem vêm todas as nações. A Tábua das Nações é o pano de fundo antigo dessa grande afirmação sobre a unidade do gênero humano.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português (nossa tradução):
Os filhos de Gômer: Asquenaz, Rifate e Togarma.
Texto hebraico:
וּבְנֵי גֹּמֶר אַשְׁכֲּנַז וְרִיפַת וְתֹגַרְמָה׃
Transliteração:
uvnei Gômer Ashkenaz veRifat veTogarmah.
Análise palavra por palavra:
uvnei (וּבְנֵי) — “e os filhos de”: conjunção waw (“e”) prefixada a benei, forma construta plural de ben (“filho”). O estado construto indica posse ou pertença — 'os filhos de Gômer'. É a mesma fórmula que estrutura toda a Tábua das Nações, marcando cada novo degrau da genealogia.
Gômer (גֹּמֶר) — nome próprio masculino, o ancestral epônimo do povo. Amplamente identificado com os cimérios, os Gimirrai dos anais assírios, cavaleiros do norte. Funciona aqui como núcleo ao qual o construto benei se liga.
Ashkenaz (אַשְׁכֲּנַז) — nome próprio, primeiro filho de Gômer. Corresponde provavelmente ao Ashkuz/Ishkuza dos textos assírios (os citas). Note-se que o hebraico traz aqui um hataf-patach incomum sob o kaf; a forma do nome é fixa e sem etimologia hebraica clara, sinal de sua origem estrangeira.
veRifat (וְרִיפַת) — conjunção waw + nome próprio Rifat, o segundo filho. Sem paralelo etimológico seguro e sem outras menções claras na Escritura, é o nome mais obscuro da lista. A grafia varia levemente nas tradições textuais (em 1 Crônicas surge também 'Difate' em alguns manuscritos, por confusão entre as letras resh e dalet, muito parecidas).
veTogarmah (וְתֹגַרְמָה) — conjunção waw + nome próprio Togarmah, o terceiro filho. Corresponde à Tegarama/Til-garimmu dos textos hititas e assírios, região da Anatólia oriental. A terminação em -ah é típica de nomes de lugares e regiões, coerente com um povo ligado a um território definido.
Nota gramatical e histórica:
O versículo é puramente nominal — não há um único verbo. É uma corrente de nomes ligados pela conjunção waw e pela fórmula construta 'filhos de', a arquitetura mínima com que o hebraico monta um mapa de povos. Essa economia é proposital: a Tábua das Nações não narra, ela cataloga; não conta histórias, ela localiza. Cada nome estrangeiro, sem etimologia hebraica, é como uma pedra trazida de longe e encaixada no grande mosaico da humanidade descendente de Noé. O que parece uma simples lista é, na verdade, um ato de abrangência: o hebraico estende os braços até os confins do norte e diz que também ali há filhos de Noé.
11. Conclusão
Gênesis 10:3 prova que na Bíblia não existem versículos descartáveis. Três nomes estranhos, sem uma única frase de ação, guardam dentro de si o mundo inteiro do antigo Israel: os cavaleiros das estepes, os comerciantes de cavalos das montanhas, os povos temidos que desciam do norte. A Tábua das Nações recolhe todos eles e os encaixa, com serena firmeza, na única família humana saída da arca. Onde o leitor apressado vê tédio, o leitor atento encontra um mapa e uma teologia.
O versículo ensina, ao mesmo tempo, confiança e humildade. Confiança, porque o texto lida com povos reais, ancorados na geografia e na história — Togarma comerciava cavalos, Asquenaz cavalgava as estepes, e os anais dos impérios confirmam que existiram. Humildade, porque nem tudo podemos reconstruir: Rifate permanece um enigma, e as identificações que propomos são prováveis, não certas. Ler bem esta lista é sustentar as duas coisas juntas, sem sacrificar nenhuma: a verdade do texto e a honestidade quanto ao que ignoramos.
Acima de tudo, este versículo é uma declaração sobre a família humana. Antes de Israel, antes de Abraão, antes de qualquer distinção entre eleitos e nações, a Bíblia se dá ao trabalho de dizer que todos os povos — inclusive os mais distantes e estranhos — têm origem comum e lugar no plano de Deus. Cada nome é um rosto; cada rosto, um parente; cada parente, uma criatura do mesmo Deus que abençoou Noé ao sair da arca. Diante da tentação eterna de dividir o mundo entre 'nós' e 'os outros', Gênesis 10:3 responde com três nomes distantes e uma verdade próxima: somos todos uma só família, e nenhum de nós está fora da memória do Criador.













