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Gênesis 18:23

✍️ Por Alberto Adriano·19 de agosto de 2026·⏱️ 48 min de leitura·👁 10 acessos
E Abraão aproximou-se e disse: “Destruirás também o justo com o ímpio?
Homem idoso de pé numa colina árida ao entardecer, olhando para um vale distante onde se veem os telhados de uma cidade.

Estudo


E Abraão aproximou-se e disse: “Destruirás também o justo com o ímpio?

1. Introdução

Os visitantes seguiram estrada abaixo, na direção de Sodoma. Abraão ficou parado onde estava.

E então, em vez de orar, ele faz uma pergunta.

É a primeira vez, na Bíblia, que um ser humano interpela Deus sobre a justiça daquilo que Deus está prestes a fazer. Não sobre a possibilidade. Sobre o critério.

Nas onze linhas que começam aqui, um homem que dentro de poucos versículos se chamará "pó e cinza" vai regatear com o Juiz de toda a terra como quem discute preço numa feira — e o narrador registra a cena inteira sem uma palavra de reprovação.

O verbo que ele escolhe para dizer "destruir" não é o verbo comum. É o verbo de varrer junto. E ele voltará, no capítulo seguinte, na boca do anjo que puxa Ló pelo braço.

2. Contexto Histórico e Cultural

De onde vem a cena

O capítulo começou com três visitantes junto aos carvalhos de Manre, a refeição preparada às pressas, o anúncio do filho e o riso de Sara.

Depois disso os homens se levantam e olham na direção de Sodoma, e Abraão caminha com eles para acompanhá-los um trecho, como manda a hospitalidade da região.

No caminho, o SENHOR delibera em voz alta sobre contar ou não a Abraão o que vai fazer, e conta: o clamor de Sodoma e Gomorra aumentou, o pecado se agravou, e ele descerá para ver.

Então dois dos homens seguem viagem e Abraão permanece.

As cidades da planície

Sodoma e Gomorra aparecem no Gênesis dentro de um grupo de cinco cidades da planície do Jordão, na região sul do mar Morto — Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Bela, que depois se chamará Zoar.

O capítulo 13 descreve a planície como terra bem regada, comparada ao jardim do SENHOR e à terra do Egito, e acrescenta a observação do narrador: era assim antes de o SENHOR destruir Sodoma e Gomorra.

A localização exata dessas cidades é discutida até hoje, e as identificações arqueológicas propostas não reuniram consenso. O que se pode afirmar é que, para o leitor israelita, a região era conhecida pela sua paisagem morta — sal, betume, ausência de vida —, e que essa paisagem funcionava como memória permanente do que ali teria acontecido.

Ló, que o leitor não pode esquecer

Cinco capítulos antes, Ló escolheu para si aquela planície e foi armando as suas tendas até Sodoma. Um capítulo depois, foi levado cativo numa guerra entre reis, e Abraão saiu com trezentos e dezoito homens para trazê-lo de volta.

Quando Abraão fala neste versículo, o sobrinho mora na cidade que está prestes a ser varrida.

Guarde-se o dado, porque ele pesa sobre tudo o que vem a seguir. E guarde-se também o outro dado, que pesa em sentido contrário: Abraão não menciona Ló uma única vez em todo o diálogo.

Destruir uma cidade, no mundo daquele tempo

A ideia de uma divindade que arrasa uma cidade inteira não era estranha ao mundo antigo. A literatura da Mesopotâmia conserva lamentações pela destruição de cidades — a de Ur é a mais conhecida — em que os deuses decidem abandonar e arruinar o lugar, e o poema chora as ruas vazias e os templos derrubados.

O que não se encontra nesses textos é alguém discutindo a decisão antes de ela ser executada.

Nas lamentações, o humano chora depois. Aqui, o humano argumenta antes.

O tribunal ficava na porta da cidade

As palavras que Abraão usa neste versículo — justo, ímpio — não são palavras de devoção. São palavras de processo.

Naquelas sociedades, os litígios eram julgados no espaço aberto junto à porta da cidade, diante dos anciãos. Quem tinha razão saía dali declarado tsaddiq; quem não tinha, rasha. O vocabulário é o mesmo do Deuteronômio ao descrever um julgamento comum.

Abraão, portanto, não está fazendo uma oração. Está abrindo um processo, e a parte contrária é Deus.

Abraão, o primeiro intercessor

Esta é a primeira intercessão registrada na Bíblia — alguém pedindo a Deus em favor de outros.

Dois capítulos adiante, um rei estrangeiro ouvirá de Deus que Abraão é profeta e que orará por ele, e viverá. A função aparece aqui em estado bruto, antes de ter nome.

Depois dele virão Moisés no episódio do bezerro, Moisés outra vez depois do relatório dos espias, Samuel, Amós diante das visões do juízo. O modelo de todos eles está neste capítulo.

Uma marca de escriba no versículo anterior

O versículo 22 diz que os homens partiram e que Abraão permaneceu diante do SENHOR.

A tradição judaica conserva a informação de que essa frase teria sido alterada por escribas antigos, e que a redação original diria o contrário: o SENHOR permanecendo diante de Abraão.

O assunto é tratado com detalhe no item 10. Registro aqui apenas o essencial: é um dado de história do texto, não uma teoria moderna, e a lista dessas correções foi transmitida pelos próprios copistas.

3. Análise Teológica do Versículo

"E Abraão aproximou-se"

O verbo hebraico é nagash, e vale conhecê-lo antes de qualquer coisa, porque a escolha não é neutra.

Nagash significa chegar perto, avançar, pôr-se ao alcance. É palavra de movimento deliberado, e o Antigo Testamento a emprega em três situações reconhecíveis.

A primeira é militar: aproximar-se para a batalha. Exércitos nagash uns contra os outros.

A segunda é cultual: o sacerdote se aproxima do altar, e Moisés sozinho se aproxima do SENHOR enquanto o povo fica atrás.

A terceira é jurídica, e é a que interessa aqui. Em Isaías, quando o profeta encena um processo entre Deus e as nações, a convocação é justamente essa: aproximem-se, e então falem, aproximemo-nos juntos ao juízo.

Há ainda um uso narrativo que ilumina esta cena melhor que todos os outros, e raramente é lembrado.

No capítulo 44 do Gênesis, quando Benjamim está prestes a ser retido no Egito, o texto diz: "então Judá se chegou a ele, e disse". O verbo é este. E o que se segue é o discurso mais longo do livro inteiro — um homem pedindo, com deferência extrema, a vida de outro.

Repare no formato repetido: alguém se aproxima de quem tem poder de vida e morte, e fala em favor de terceiro, cobrindo o atrevimento com fórmulas de respeito.

É exatamente o que Abraão fará daqui até o versículo 32.

Falta perguntar de quem ele se aproxima, e a resposta depende do versículo anterior.

Dois dos visitantes foram embora. Abraão permaneceu diante do SENHOR. Logo, aproximar-se aqui não é caminhar em direção a alguém que está longe: é dar o passo à frente de quem toma a palavra.

É o gesto de quem sai da posição de ouvinte e assume a de parte interessada.

E convém notar o que o texto não diz.

Não diz que ele se prostrou, como fizera no capítulo 17. Não diz que construiu altar, como fizera em Siquém, em Betel e em Manre. Não diz que invocou o nome do SENHOR, fórmula que o Gênesis usa para o culto dele.

Ele se aproxima e fala. Sem preâmbulo, sem invocação, sem título.

A deferência virá — e virá aos montes, a partir do versículo 27. Mas a primeira frase é direta ao ponto.

"e disse"

Duas palavras que parecem transição e carregam uma informação de peso quando se compara com o resto do capítulo.

Poucos versículos antes, Sara riu consigo mesma, e o riso foi captado porque o narrador tem acesso ao interior das pessoas. No capítulo anterior, Abraão dissera no seu coração que a promessa era impossível.

Aqui não. Aqui ele diz.

A objeção sai da cabeça e vira fala. É pronunciada na segunda pessoa, dirigida diretamente ao interlocutor divino, e o narrador a transcreve como discurso.

A mudança de registro é um dado do texto e vale registrá-la: o mesmo homem que duvidou por dentro agora contesta por fora, e o que ele contesta desta vez não é uma promessa que lhe favorece — é uma sentença que atinge estranhos.

"Destruirás também"

Aqui está a palavra mais precisa do versículo, e a que quase toda pregação atravessa sem parar.

O verbo hebraico é safah. Não é o verbo comum de destruir.

O verbo comum aparecerá cinco versículos adiante, quando Abraão perguntar se Deus destruirá a cidade por causa de cinco — e é shachat, arruinar, corromper, pôr abaixo. É o verbo do dilúvio, o verbo que se usa para uma obra estragada.

Safah é outra coisa. Significa varrer, arrastar junto, arrebatar na mesma passada. A imagem é a de algo que vai embora junto com outra coisa, sem ter sido o alvo.

Ou seja: a palavra já contém a acusação. Abraão não pergunta se Deus vai destruir. Pergunta se vai varrer junto.

E há uma confirmação interna que fecha a questão, e é o dado mais bonito deste versículo.

No capítulo seguinte, quando os anjos apressam Ló para que saia da cidade antes do amanhecer, a frase que empregam é: levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas, para que não pereças no castigo da cidade. E, quando já estão fora: escapa por tua vida, não olhes para trás, não seja que pereças.

O verbo dessas duas frases é este mesmo, safah.

Isto é: o perigo que Abraão nomeia no versículo 23 é literalmente o perigo de que Ló é retirado no capítulo 19. Ser varrido junto.

A ligação é do texto, e não do comentarista. O que se pode extrair dela é matéria de leitura, e apresento a minha: o narrador parece responder à pergunta de Abraão pela via mais estreita possível — o justo não foi varrido junto porque foi retirado antes, um a um, pelo braço.

Registro que essa resposta não é a que Abraão pediu. Ele perguntou pela cidade; a solução veio pelo indivíduo. Voltaremos a isso no versículo 33.

Uma observação a mais sobre a forma da frase.

Não se pergunta "poderias?", nem "seria justo?", nem "como ficaria?". Pergunta-se, no futuro simples e na segunda pessoa: destruirás?

É acusação em forma de pergunta. Quem a formula já sabe qual resposta considera aceitável.

"também" — a partícula que os tradutores suam para verter

O hebraico traz aqui a partícula af, precedida da marca de interrogação.

Af reforça: acrescenta ênfase ao que vem depois, algo entre "realmente", "de fato", "até mesmo". As traduções portuguesas resolvem por "também", "acaso", "porventura", e todas estão fazendo o que podem com uma palavra que não tem correspondente exato.

Há um detalhe que merece registro, com a devida cautela.

Escrita do mesmo modo, a palavra af significa também narina, nariz — e, por extensão, ira, porque o hebraico descreve a raiva como algo que se acende no nariz. É a mesma palavra que aparecerá nos versículos 30 e 32, quando Abraão pedir que a ira do seu Senhor não se acenda.

Alguns leitores propõem que a escolha da partícula aqui seja intencional, produzindo ressonância entre a pergunta e a ira divina.

Registro como leitura possível e nada mais. A partícula é comuníssima em hebraico e o uso aqui é gramaticalmente banal; ver nela um jogo de palavras é plausível, e não é demonstrável.

"o justo com o ímpio?"

As duas palavras que fecham o versículo vêm do tribunal, e isso muda o sentido de tudo.

Tsaddiq não significa santo, nem puro, nem sem pecado. Significa aquele que tem razão na causa — o que sai absolvido do julgamento. O Deuteronômio descreve o procedimento com as mesmas palavras: os juízes ouvem as partes, absolvem o justo e condenam o ímpio.

Rasha, do outro lado, é o culpado, o que perdeu a causa, aquele contra quem a sentença corre.

Ou seja: Abraão não está perguntando se Deus destruirá os devotos junto com os pagãos. Está perguntando se o tribunal vai executar o absolvido junto com o condenado.

É uma pergunta sobre procedimento, formulada com o vocabulário técnico de quem entende de procedimento.

Note-se ainda que as duas palavras estão no singular e sem artigo. Não é "os justos" e "os ímpios", com números e proporções — isso virá no versículo seguinte. É "um justo com um ímpio", o caso mínimo, o princípio nu.

Abraão começa pelo princípio abstrato. Só depois de arrancar o princípio é que ele entra com números.

Quem já negociou reconhece o método.

O pressuposto que ninguém verificou

Vale parar num ponto que o texto deixa passar e que sustenta a cena inteira.

A pergunta pressupõe que existam justos em Sodoma.

E o Gênesis nunca disse isso. Ao contrário: o capítulo 13 informa que os homens de Sodoma eram maus e pecadores contra o SENHOR em grande maneira. O versículo 20 deste capítulo fala do clamor que subiu e do pecado que se agravou em extremo.

Nada, em lugar nenhum, afirma que houvesse gente justa ali.

Abraão supõe. E supõe sem nenhuma informação, a não ser aquela que ele nunca menciona: que o sobrinho mora lá.

Registro a observação com a cautela devida. O texto não diz que ele estava pensando em Ló, e não diz que não estava. Diz apenas que ele levantou a hipótese de justos numa cidade que a narrativa já descreveu como inteiramente corrompida.

O clamor — uma palavra que a pregação costuma ignorar

Três versículos antes, a razão da descida divina é enunciada: o clamor de Sodoma e Gomorra aumentou.

A palavra hebraica traduzida por clamor é tse'aqah, e o seu uso na Bíblia é notavelmente consistente.

É o grito do sangue de Abel subindo da terra. É o gemido de Israel escravizado no Egito. É, na legislação do Êxodo, o que a viúva e o órfão maltratados farão subir a Deus, com a advertência de que ele ouvirá o clamor deles.

Em outras palavras: tse'aqah é, quase sempre, o grito de quem está sendo esmagado por alguém.

Isso importa para entender de que Sodoma é acusada, porque a acusação, tal como o texto a formula, não é de uma cidade que ofende a moral em silêncio. É de uma cidade da qual sobe o grito de vítimas.

O tema é grande e será tratado inteiro no versículo 32, onde a contagem falha e a pergunta "afinal, do que eram culpados?" se torna inevitável. Aqui basta registrar o vocabulário e o que ele sugere.

A questão de fundo: o castigo que atinge quem não fez

Agora o assunto grande, que este versículo abre e não fecha.

A pergunta de Abraão só faz sentido se houver algo de errado em punir junto. E aqui a Bíblia não fala com uma voz só. Convém expor os dois conjuntos de textos com honestidade, sem escolher antes da hora.

De um lado, o castigo que se estende.

O Decálogo, ao proibir as imagens, diz que Deus visita a maldade dos pais sobre os filhos, sobre a terceira e a quarta geração daqueles que o aborrecem. A fórmula reaparece na proclamação do Êxodo 34 e na oração de Moisés em Números 14.

No livro de Josué, quando Acã esconde parte do despojo consagrado, o texto narra que ele, os seus filhos, as suas filhas, os seus bois, os seus asnos, as suas ovelhas e a sua tenda foram levados ao vale e apedrejados. A execução coletiva é narrada sem nenhum sinal de que o narrador a considere problemática.

Em Números 16, a terra se abre e engole as casas de Corá, Datã e Abirão, com mulheres, filhos e crianças pequenas.

E, em Lamentações, a geração do exílio resume a sua situação numa frase amarga: os nossos pais pecaram, e não existem mais, e nós levamos os castigos deles.

Do outro lado, o castigo que não se estende.

O Deuteronômio legisla em sentido oposto: os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu próprio pecado. E o livro dos Reis registra um rei que aplicou exatamente essa lei ao poupar os filhos dos assassinos do pai, citando a norma.

Jeremias anuncia o fim do provérbio segundo o qual os pais comem uvas verdes e os dentes dos filhos é que se estragam.

E Ezequiel vai mais longe: cita o mesmo provérbio, proíbe que se repita, e enuncia o princípio na forma mais direta que a Bíblia tem — a alma que pecar, essa morrerá; o filho não será punido pela maldade do pai, nem o pai pela do filho.

Reúna-se tudo. Há uma tensão real, e ela não se dissolve com jeitinho.

O que se costuma dizer para resolver, e o que cada saída custa

A explicação mais frequente é a do desenvolvimento: as fórmulas do castigo estendido pertenceriam a uma etapa mais antiga do pensamento de Israel, e os textos de responsabilidade individual, a uma etapa posterior, especialmente depois do exílio.

A favor: explica bem o fato de Ezequiel estar visivelmente discutindo com uma ideia corrente, e não apenas ensinando. Ninguém proíbe um provérbio que ninguém repete.

Contra: a cronologia dos textos é discutida, o Deuteronômio traz a norma individual e a fórmula das gerações no mesmo corpo legal, e a Bíblia continua, depois do exílio, a narrar castigos coletivos sem embaraço.

Uma segunda explicação distingue os planos: as fórmulas do castigo estendido descreveriam consequências que de fato atravessam gerações — a ruína de uma família, o efeito de um crime sobre os descendentes —, enquanto as normas individuais tratariam de imputação jurídica, de quem pode ser levado ao tribunal.

A favor: a distinção é real e vale para muitos casos.

Contra: não cobre Acã, cujos filhos foram executados por decisão humana e narrados sem reparo; nem cobre Corá.

Uma terceira observa o pano de fundo social. Naquelas sociedades, a unidade jurídica não era o indivíduo, e sim a casa, o clã, a cidade. Uma pessoa não existia sozinha diante da lei: ela era parte de um corpo, e o corpo respondia. Punir a casa não era, para aquela cabeça, punir inocentes — era atingir a unidade responsável.

Esta é, no meu juízo, a observação mais útil das três, porque explica a naturalidade dos relatos sem precisar aprová-los. Só que ela é explicação histórica, e não resposta ética. Dizer que era assim que pensavam não responde à pergunta de Abraão, que é justamente se está certo.

E vale notar uma coisa notável a respeito desta última: o próprio texto bíblico contém personagens fazendo a mesma objeção.

Moisés e Arão, diante da rebelião, caem de rosto em terra e perguntam: não é um homem só o que pecou? E te irarás contra toda a congregação?

Davi, vendo o anjo que fere o povo depois do censo, diz: eu pequei, eu fiz a maldade; que fizeram estas ovelhas? Que a tua mão se volte contra mim e contra a casa do meu pai.

São a pergunta deste versículo, repetida por outras bocas.

Ou seja: a tensão não é uma dificuldade que leitores modernos inventaram e projetaram sobre um texto antigo. Ela está dentro do texto, dita por personagens que a Bíblia trata como os seus melhores homens.

Como fica

Não é possível decidir, e o comentário que fingisse decidir estaria mentindo por conforto.

O que se pode afirmar com segurança é o seguinte.

Primeiro: a Escritura contém as duas séries de textos, e as contém sem harmonizá-las.

Segundo: a série individualista aparece em contextos de argumento, corrigindo algo que era dito e crido — o que mostra que a outra visão era a corrente.

Terceiro: este versículo não resolve nada. Ele levanta a questão, e a levanta na boca de um homem, dirigida a Deus, sem que o narrador comente.

Quarto, e é o dado que mais surpreende quem lê com atenção: a pergunta não é repreendida. A resposta divina do versículo 26 aceita o termo em que ela foi posta.

E quinto, o dado incômodo que precisa ficar registrado desde já: no fim da história, a cidade é destruída. O que significa que a hipótese de Abraão não se confirmou, e que a pergunta continua sem resposta direta dentro da narrativa.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Abraão — noventa e nove anos, recém-circuncidado, recém-informado de que terá um filho no ano seguinte; permanece diante do SENHOR depois que os outros dois visitantes seguem para Sodoma.

O SENHOR — o nome próprio de quatro consoantes, aqui presente como interlocutor direto; o capítulo o apresenta primeiro como um dos três visitantes e depois como quem fica para conversar.

Os dois homens — chamados de anjos no início do capítulo 19; partiram no versículo 22 rumo a Sodoma, onde chegarão ao cair da tarde.

Sodoma — a maior das cidades da planície do Jordão, descrita no capítulo 13 como lugar de homens maus e pecadores contra o SENHOR em grande maneira.

Gomorra — cidade vizinha, nomeada junto com Sodoma no versículo 20 e destruída com ela no capítulo 19.

A planície do Jordão — região descrita como bem regada, comparada ao jardim do SENHOR e à terra do Egito antes da destruição.

— sobrinho de Abraão, morador de Sodoma desde o capítulo 13; não é mencionado uma única vez em todo o diálogo dos versículos 23 a 33.

Nagash (aproximar-se) — verbo de avanço deliberado, usado para o combate, para o culto e para a abertura de um processo; é o mesmo verbo de Judá diante de José, em Gênesis 44:18.

Safah (varrer junto) — o verbo traduzido aqui por destruir; significa arrastar na mesma passada, e reaparece em Gênesis 19:15 e 19:17, quando os anjos advertem Ló para que não seja varrido junto.

Tsaddiq (justo) — termo de tribunal: aquele que tem razão na causa e sai absolvido; não significa santo nem impecável.

Rasha (ímpio) — o culpado, aquele contra quem corre a sentença; o par com tsaddiq é a linguagem do julgamento na porta da cidade.

Tse'aqah (clamor) — a palavra do versículo 20; na Bíblia é quase sempre o grito de quem sofre violência, como o sangue de Abel e o gemido de Israel no Egito.

Acã — em Josué 7, executado com os filhos, as filhas e os animais por causa do despojo escondido; caso máximo de punição coletiva narrado sem reparo.

Corá, Datã e Abirão — em Números 16, engolidos pela terra com as suas casas; Moisés e Arão fazem ali, no versículo 22, a mesma pergunta de Abraão.

Davi depois do censo — em 2 Samuel 24:17, pergunta o que fizeram as ovelhas e pede que o castigo recaia sobre ele.

A correção dos escribas — tradição judaica sobre o versículo 22, segundo a qual a frase teria sido invertida por reverência; tratada no item 10.

5. Pontos de Ensino

Abraão se aproxima em vez de se prostrar. No capítulo anterior ele caíra com o rosto em terra; aqui dá um passo à frente e fala.

O verbo da aproximação é o de quem entra num processo. É o mesmo de Judá diante de José e o das convocações de juízo em Isaías.

A objeção sai da cabeça e vira fala. Antes ele duvidara "no seu coração"; agora fala em voz alta e na segunda pessoa.

O verbo traduzido por destruir significa varrer junto. Não é o verbo comum de destruição, e a palavra já contém a acusação.

Esse mesmo verbo reaparece no resgate de Ló. Em Gênesis 19:15 e 19:17 os anjos dizem a Ló que fuja para não ser varrido junto.

Justo e ímpio são palavras de tribunal. Designam quem tem razão e quem não tem numa causa, e não graus de santidade.

Os dois termos estão no singular e sem artigo. Abraão começa pelo princípio nu; os números só entram no versículo seguinte.

A pergunta pressupõe justos em Sodoma, coisa que o texto nunca afirmou. O capítulo 13 diz o contrário.

Ló não é mencionado. Nem aqui nem em nenhum dos onze versículos do diálogo.

A Bíblia contém as duas posições sobre o castigo coletivo. O Decálogo e Josué 7 de um lado; Deuteronômio 24:16 e Ezequiel 18 do outro.

Personagens bíblicos fazem a mesma objeção. Moisés em Números 16:22 e Davi em 2 Samuel 24:17 perguntam o mesmo.

A pergunta não é repreendida. O versículo 26 responde aceitando o termo em que ela foi posta.

6. Aspectos Filosóficos

Uma religião que suporta a pergunta

Vale começar pelo que a cena tem de improvável.

Um homem interrompe uma decisão divina já anunciada e pergunta se ela é justa. Não pede clemência, não implora, não se declara indigno de opinar — isso virá depois, e virá como fórmula. A primeira coisa que sai da boca dele é uma objeção de mérito.

E o texto que registra isso é o texto fundador de uma religião.

Convém medir o que isso significa. A tradição que preserva este capítulo escolheu preservar, no seu primeiro livro, a cena de um ser humano cobrando coerência de Deus. Podia ter apagado. Não apagou.

Registro que a observação é minha, e que ela vale como observação sobre a literatura, não como doutrina. O que o texto faz é registrar; a leitura de que o registro é significativo é minha.

O dano que atinge quem não fez

O problema que este versículo abre é dos mais antigos e dos mais atuais.

Toda ação de grande escala atinge quem não participou. Isso vale para uma sentença divina sobre uma cidade e vale para tudo o que se decide sobre coletivos — uma guerra, uma sanção, uma lei, uma demissão em massa, uma epidemia mal administrada.

Duas posições se enfrentam há milênios e continuam se enfrentando.

A primeira diz que o resultado é o que conta: se o saldo for melhor, o dano a inocentes é o preço de fazer o que precisa ser feito.

A segunda diz que há coisas que não se fazem, qualquer que seja o saldo, e que matar quem não tem culpa é uma delas.

A pergunta de Abraão está claramente do segundo lado, e é bom perceber isso, porque muda a natureza do que ele faz. Ele não está pedindo um favor. Está afirmando que existe um modo de agir que não se justifica pelo resultado.

Vale observar, porém, que a narrativa depois não lhe dá razão pela via que ele propôs. Ele propôs poupar a cidade inteira; o desfecho poupa apenas quem foi retirado. Não é a mesma coisa, e não convém disfarçar.

Justo não quer dizer o que a gente pensa que quer dizer

Há um deslocamento silencioso que a leitura devocional faz sem perceber, e este versículo é bom lugar para desfazê-lo.

Quando se lê "justo" hoje, pensa-se em alguém devoto, correto, de vida limpa. Quando o hebraico diz tsaddiq, pensa-se em alguém que tem razão numa disputa.

A diferença não é de detalhe. A primeira palavra classifica pessoas; a segunda descreve posições numa causa.

Isso muda a pergunta de Abraão. Ela não é "vais matar gente boa junto com gente ruim?", que é uma pergunta sentimental. É "vais executar o absolvido junto com o condenado?", que é uma pergunta sobre a validade do procedimento.

E procedimento é coisa que se pode discutir com quem julga, mesmo que quem julga seja infinitamente superior. Aliás, é a única coisa que se pode discutir.

Perguntar sem ter direito a resposta

Uma observação sobre a estrutura da cena, que se costuma perder no meio dos números.

Abraão não recebe explicação nenhuma. Recebe concessões.

Ele pergunta se é certo varrer o justo com o ímpio, e a resposta que vem não é "sim, é certo" nem "não, não é". A resposta é: se eu achar cinquenta, perdoarei o lugar.

Ou seja: a questão de princípio fica sem tratamento, e o que se negocia é a aplicação.

Convém não decidir depressa o que isso significa. Pode ser leitura de que o princípio foi tacitamente concedido — quem aceita a condição aceita a premissa. Pode ser leitura de que o texto simplesmente não se interessa por princípios abstratos, e prefere resolver casos.

As duas leituras se sustentam, e não é possível decidir entre elas com o material que o capítulo oferece.

A régua que a pergunta pressupõe

Há aqui, em estado de semente, a questão mais pesada de todo o capítulo, e que só se abre por inteiro dois versículos adiante.

Perguntar se Deus fará algo injusto pressupõe que exista um padrão de justiça a que a resposta possa ser confrontada. Se não houvesse, a pergunta não teria como ser formulada — bastaria dizer que o que ele fizer será justo por defini-lo.

Deixo o assunto anotado e o trato onde ele explode, no versículo 25, com a pergunta sobre o Juiz de toda a terra.

Aqui basta registrar que a semente está plantada já na primeira frase, e que Abraão a planta sem pedir licença.

O silêncio sobre Ló

Fecho com o dado que mais me interessa neste versículo, e que é feito de ausência.

Abraão tem um parente dentro da cidade. O leitor sabe disso, o narrador sabe disso, e o próprio Abraão arriscou a vida por esse parente cinco capítulos antes.

E, na hora de falar, ele não usa esse argumento.

Fala de justos, no plural indeterminado. Fala de proporções, de números, do lugar. Nunca diz: há alguém meu ali.

Há duas leituras, e as duas são defensáveis.

Uma diz que ele estava pensando em Ló o tempo todo, e que a linguagem geral é a forma educada de pedir por um seu — o que explicaria por que ele para justamente num número compatível com uma família.

A outra diz que a omissão é o ponto: o argumento vale mais por não ser pessoal, e quem pede pela cidade inteira consegue mais do que quem pede pelo próprio sobrinho.

O texto não permite decidir. E o capítulo 19 acrescenta um dado que complica as duas: quando a destruição vem, o narrador informa que Deus se lembrou de Abraão e por isso tirou Ló dali. Ou seja, o vínculo familiar operou — só que operou do lado de fora do que foi dito.

7. Aplicações Práticas

Chegar perto é diferente de assistir de longe

O versículo começa com um passo. Abraão não fica onde estava, não delibera consigo mesmo, não espera ser consultado: aproxima-se. O verbo hebraico é o de quem avança para o combate, para o altar ou para o tribunal — sempre um movimento que compromete quem o faz.

E o que ele diz na sequência só pôde ser dito porque ele deu esse passo. Quem fica atrás não é ouvido.

Há uma diferença prática entre lamentar uma situação e se pôr no alcance dela. A maior parte das coisas que deixamos de dizer, deixamos de dizer por não termos chegado perto o bastante — não por falta de coragem, mas por termos ficado numa posição em que falar seria estranho. Aproximar-se é o gesto que torna a fala possível, e ele costuma custar mais do que a fala em si.

A objeção que fica por dentro não é objeção

No capítulo anterior, o mesmo homem duvidara "no seu coração", e a dúvida ficou entre ele e o narrador. Aqui, a discordância é pronunciada, dirigida a alguém, em segunda pessoa.

É a mesma pessoa, e a diferença entre um episódio e outro não é a intensidade do que ela pensa: é o fato de ter dito.

Vale para as discordâncias que você guarda. Uma objeção não formulada não produz resposta, não é examinada por ninguém e não muda nada — só azeda por dentro. E quem nunca a ouviu de você não tem como levá-la em conta. Antes de concluir que não adiantaria falar, convém verificar se você falou.

Escolher a palavra exata é metade do argumento

Abraão não usa o verbo comum de destruir. Usa o verbo de varrer junto, que descreve o que é levado sem ter sido o alvo. A acusação já está dentro da escolha vocabular, antes de qualquer raciocínio.

Quem quisesse defender a destruição teria de começar corrigindo a palavra — e corrigir a palavra do outro é sempre uma posição desconfortável.

Repare nisso nas discussões de que você participa. Quem nomeia o assunto costuma ganhar metade da disputa antes de argumentar: "corte de gastos" e "corte de direitos" podem descrever a mesma medida, e "ajuste" e "demissão" também. Não é desonestidade automática — toda descrição escolhe. Mas convém saber, dos dois lados, qual palavra foi escolhida e o que ela já concede.

Comece pelo princípio, e só depois pelos números

A primeira frase de Abraão não traz quantidade nenhuma. Justo e ímpio, no singular e sem artigo: o caso mínimo, o princípio nu. Os cinquenta só aparecem no versículo seguinte, depois de arrancado o assentimento ao princípio.

Quem começa pelo número negocia um número. Quem começa pelo princípio negocia dentro de um terreno que já ganhou.

Vale como método em qualquer conversa difícil, de aumento de salário a divisão de tarefas em casa. Estabelecer primeiro que a coisa é devida, e só depois discutir quanto, é diferente de abrir com uma cifra e deixar que a discussão se resuma a ela. E, quando alguém abre uma conversa com você já pelo número, convém notar o que ficou pressuposto no meio do caminho.

A gente supõe justos onde tem gente nossa

A pergunta de Abraão pressupõe que existam justos em Sodoma, coisa que a narrativa nunca afirmou — o capítulo 13 diz precisamente o oposto. E o homem que supõe isso tem um sobrinho morando lá.

Registro que o texto não estabelece a ligação. Ela é leitura, e é uma leitura que o resto do capítulo torna difícil de ignorar.

Convém aplicar isso a si mesmo antes de aplicar aos outros. Costumamos enxergar nuance, circunstância e boa-fé exatamente onde temos alguém envolvido, e enxergar blocos homogêneos onde não temos ninguém. Não é hipocrisia: é o modo como a proximidade funciona. O exercício útil é o inverso — perguntar de que grupo você fala em bloco, e o que veria ali se tivesse um sobrinho dentro.

O grito que sobe costuma ser de alguém

A palavra que o capítulo usa para a acusação contra Sodoma é a mesma do sangue de Abel subindo da terra, do gemido dos escravos no Egito e do grito da viúva maltratada na legislação do Êxodo. É o vocabulário da vítima.

Isso desloca o eixo da acusação: o que sobe de Sodoma, no modo como o texto formula, não é uma ofensa abstrata, é um clamor.

Vale como critério de leitura da própria realidade. Diante de qualquer situação que a gente julgue errada, há uma pergunta que organiza tudo o mais: quem está gritando? Onde ninguém grita, é provável que a indignação esteja sendo movida por outra coisa — gosto, hábito, medo do diferente. Onde alguém grita e não se ouve, o problema é do ouvido.

Duas pessoas boas podem estar dos dois lados de uma tensão real

Sobre o castigo que atinge quem não fez, a Bíblia traz duas séries de textos que não combinam: a fórmula das gerações no Decálogo e a execução da casa de Acã de um lado; a norma do Deuteronômio e a declaração de Ezequiel do outro.

Não é possível decidir a questão com os textos disponíveis, e as harmonizações propostas funcionam bem para um caso e mal para os demais.

Isso ensina algo sobre discussões em que você já sabe de que lado está. Quando dois conjuntos de razões fortes se enfrentam há três mil anos, é improvável que o seu interlocutor seja apenas desonesto ou apenas burro. Continuar discordando é legítimo; supor que só há razões de um lado é, quase sempre, sinal de que você só leu um lado.

Pedir por quem não é seu

Abraão fala pela cidade, não pelo parente. Nunca menciona Ló, nem no primeiro nem no último dos onze versículos. Argumenta por justos que ele não conhece e que talvez não existam.

Se ele pensava no sobrinho, o texto não diz. O que está escrito é um pedido formulado em termos gerais.

Há um exercício desconfortável escondido aí. Quase toda a nossa preocupação com o destino alheio se organiza em círculos, do mais próximo ao mais distante, e é normal que seja assim. Mas vale examinar se, alguma vez, você já gastou empenho real por alguém de quem não lhe viria retorno nenhum — nem afeto, nem reconhecimento, nem sequer a notícia de que deu certo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Abraão se aproxima, se o SENHOR já estava ali?

Porque o verbo hebraico não descreve só distância física. Nagash é o avanço deliberado de quem toma posição — usa-se para o exército que avança, para o sacerdote que se chega ao altar e para as partes que se apresentam a juízo. O que o versículo registra é a passagem de ouvinte a parte interessada. Ele sai do lugar de quem acompanha e assume o de quem tem alguma coisa a alegar.

Abraão está orando?

Não no sentido corrente. Ele não se prostra, não constrói altar, não invoca o nome do SENHOR — todos gestos que o Gênesis já registrara a respeito dele. Ele se aproxima e formula uma objeção em segunda pessoa. É intercessão, sim, e é a primeira da Bíblia; mas a forma que ela toma aqui é a de um argumento, não a de uma súplica. As fórmulas de súplica entram a partir do versículo 27.

Qual é exatamente o verbo traduzido por "destruirás"?

É safah, varrer, arrastar junto, arrebatar na mesma passada. Não é o verbo comum de destruir, que é shachat e aparecerá a partir do versículo 28. A escolha carrega a acusação: a pergunta não é se Deus vai destruir, é se vai levar junto quem não era o alvo.

Esse verbo aparece em outro lugar da história?

Aparece, e é o dado mais notável do versículo. No capítulo 19, os anjos dizem a Ló que se levante e saia com a mulher e as filhas "para que não pereças" no castigo da cidade, e depois, já fora, "não seja que pereças". As duas frases usam este mesmo verbo. O perigo que Abraão nomeia aqui é literalmente aquele de que Ló é retirado lá.

O que significa "justo" nesta pergunta?

Significa quem tem razão na causa, quem sai absolvido do julgamento. Tsaddiq é palavra de tribunal, e o Deuteronômio a emprega exatamente assim ao descrever juízes que absolvem o justo e condenam o iníquo. Não quer dizer santo, devoto ou impecável. A pergunta de Abraão é sobre procedimento judicial, não sobre qualidade espiritual.

Havia mesmo justos em Sodoma?

O texto nunca afirma que houvesse. O capítulo 13 diz que os homens de Sodoma eram maus e pecadores contra o SENHOR em grande maneira, e o versículo 20 fala de um clamor que aumentou e de um pecado agravado em extremo. Abraão levanta a hipótese; a narrativa não a confirma. E o desfecho do capítulo 19, com a destruição consumada, sugere que nem dez havia.

Ele está pedindo por Ló?

O texto não diz. Ló não é mencionado em nenhum dos onze versículos do diálogo. Quem lê a cena como intercessão disfarçada pelo sobrinho tem a seu favor o fato de Abraão ter arriscado a vida por ele no capítulo 14, e o fato de a contagem parar justamente num número compatível com uma família. Quem lê ao contrário tem a seu favor o silêncio, que é total. É leitura, dos dois lados, e não afirmação do texto.

A Bíblia aprova o castigo coletivo?

Ela contém as duas coisas, e não as harmoniza. O Decálogo fala de visitar a maldade dos pais sobre filhos, netos e bisnetos; Josué 7 narra a execução da casa inteira de Acã sem nenhum reparo; Números 16 narra a terra engolindo famílias inteiras. Do outro lado, o Deuteronômio legisla que cada um morrerá pelo seu próprio pecado, Jeremias anuncia o fim do provérbio das uvas verdes e Ezequiel enuncia a responsabilidade individual da forma mais direta possível. A tensão é real e permanece em aberto.

A explicação de que houve um desenvolvimento histórico resolve o problema?

Resolve em parte e cobra um preço. Ela explica muito bem por que Ezequiel está discutindo com um provérbio corrente em vez de simplesmente ensinar — ninguém proíbe um ditado que ninguém repete. Mas a cronologia dos textos é discutida, o Deuteronômio traz as duas coisas no mesmo corpo legal, e relatos de castigo coletivo continuam depois do exílio. É uma explicação parcial, e apresentá-la como solução completa seria exagero.

Alguém mais na Bíblia faz essa mesma pergunta?

Faz, e são personagens de primeira grandeza. Moisés e Arão, diante da rebelião de Corá, caem de rosto em terra e perguntam se, tendo um só homem pecado, a ira recairá sobre toda a congregação. Davi, vendo o anjo ferir o povo depois do censo, pergunta o que fizeram aquelas ovelhas e pede que o castigo caia sobre ele e sobre a casa do pai. A objeção de Abraão não é excentricidade: é uma linha de argumento que atravessa a Bíblia.

Deus se irrita com a pergunta?

Não há nada no texto que indique isso. A resposta do versículo 26 aceita o termo em que a pergunta foi posta e concede o pedido de imediato. Convém registrar o contraste com o livro de Jó, em que uma cobrança de justiça parecida recebe um discurso do meio da tempestade. Aqui não há discurso, não há reprimenda e não há retirada da palavra.

A pergunta é respondida em algum momento?

Não diretamente. O que Abraão obtém são concessões de aplicação — se houver tantos, poupo —, e não uma declaração de princípio. E o desenlace do capítulo 19 responde por outra via: os justos não foram varridos junto porque foram retirados antes, pela mão, um a um. Isso resolve o caso concreto e deixa a pergunta de mérito exatamente onde estava.

Qual é a diferença entre este pedido e uma barganha comum?

A forma é a mesma, e o versículo 28 tornará isso evidente. A diferença está no objeto: não se disputa preço nem vantagem, e Abraão não pede nada para si. O que o formato de mercado carrega, neste caso, é um argumento sobre justiça — e é justamente a distância entre a forma corriqueira e o assunto tratado que dá à cena a sua força.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 13:13Mas os homens de Sodoma eram maus e pecadores para com o SENHOR em grande maneira.

A avaliação que a narrativa já dera da cidade, e que torna a hipótese de Abraão uma suposição sem apoio no que foi contado.

Gênesis 18:20Então o SENHOR lhe disse: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se aumenta mais e mais, e o pecado deles se agravou em extremo,

A acusação tal como o texto a formula: um clamor que sobe, e não uma lista de ofensas.

Gênesis 18:22E apartaram-se dali os homens, e foram até Sodoma: mas Abraão estava ainda diante do SENHOR.

O versículo imediatamente anterior, sobre o qual pesa a tradição da correção dos escribas.

Gênesis 19:15E ao raiar a alva, os anjos davam pressa a Ló, dizendo: Levanta-te, toma tua mulher, e teus dois filhas que se acham aqui, para que não pereças no castigo da cidade.

O verbo "pereças" é o mesmo "varrer junto" deste versículo — o perigo que Abraão nomeia é aquele de que Ló é retirado.

Gênesis 19:17E foi que quando os tirou fora, disse: Escapa por tua vida; não olhes atrás de ti, nem pares toda esta planície; escapa ao monte, não seja que pereças.

A segunda ocorrência do mesmo verbo, já fora dos muros, quando o perigo ainda não acabou.

Gênesis 44:18Então Judá se chegou a ele, e disse: Ai senhor meu, rogo-te que fale teu servo uma palavra aos ouvidos de meu senhor, e não se acenda tua ira contra teu servo, pois que tu és como Faraó.

O mesmo verbo de aproximação abrindo o discurso mais longo do Gênesis — e com as mesmas fórmulas de deferência que Abraão usará a partir do versículo 27.

Isaías 41:1Calai-vos perante mim, ó litorais; e os povos renovem as forças; aproximem-se, e então falem; juntamente nos aproximemos ao juízo.

O verbo de aproximar-se num contexto declaradamente judicial, o que confirma o campo em que Abraão está falando.

Deuteronômio 25:1Quando houver pleito entre alguns, e vierem a juízo, e os julgarem, e absolverem ao justo e condenarem ao iníquo,

O par justo/ímpio no seu ambiente próprio: a sala de julgamento.

Êxodo 20:5Não te inclinarás a elas, nem as honrarás; porque eu sou o SENHOR teu Deus, forte, zeloso, que visito a maldade dos pais sobre os filhos, sobre os terceiros e sobre os quartos, aos que me aborrecem,

A fórmula do castigo que atravessa gerações, no coração do Decálogo.

Josué 7:25E disse Josué: Por que nos perturbaste? Perturbe-te o SENHOR neste dia. E todos os israelitas os apedrejaram, e os queimaram a fogo, depois de apedrejá-los com pedras;

A execução da casa inteira de Acã, filhos e filhas incluídos, narrada sem uma palavra de reparo.

Números 16:22E eles se lançaram sobre seus rostos, e disseram: Deus, Deus dos espíritos de toda carne, não é um homem o que pecou? E te irarás tu contra toda a congregação?

Moisés e Arão formulando a pergunta deste versículo com outras palavras.

2 Samuel 24:17E Davi disse ao SENHOR, quando viu ao anjo que feria ao povo: Eu pequei, eu fiz a maldade: que fizeram estas ovelhas? Rogo-te que tua mão se torne contra mim, e contra a casa de meu pai.

A mesma objeção na boca do rei, e com a oferta de assumir sozinho o castigo.

Deuteronômio 24:16Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá por seu pecado.

A norma legal que corre em sentido contrário à fórmula do Decálogo.

Ezequiel 18:20A alma que pecar, essa morrerá; o filho não será punido pela maldade do pai, nem o pai será punido pela maldade do filho; a justiça do justo será sobre ele, e a perversidade do perverso será sobre ele.

A formulação mais direta da responsabilidade individual em toda a Bíblia.

Lamentações 5:7Nossos pais pecaram, e não existem mais; porém nós levamos seus castigos.

A queixa da geração do exílio, que mostra como a ideia do castigo herdado era vivida na prática.

Gênesis 4:10E ele lhe disse: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra.

A primeira ocorrência do clamor que sobe a Deus, e a chave do vocabulário usado contra Sodoma.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E Abraão aproximou-se e disse: “Destruirás também o justo com o ímpio?

Texto hebraico

וַיִּגַּשׁ אַבְרָהָם וַיֹּאמַר הַאַף תִּסְפֶּה צַדִּיק עִם־רָשָׁע

Transliteração

vayyiggash Avraham vayyomar ha'af tispeh tsaddiq im-rasha

Palavra por palavra

וַיִּגַּשׁ (vayyiggash) — "e aproximou-se"

Raiz nagash, na sequência narrativa que o hebraico usa para encadear ações.

O verbo designa avanço deliberado, e a Bíblia o emprega em três ambientes: o militar, quando exércitos se aproximam para o combate; o cultual, quando o sacerdote se chega ao altar e quando Moisés sobe sozinho enquanto o povo fica atrás; e o judicial, como na convocação de Isaías 41:1, em que as partes são chamadas a aproximar-se para o juízo.

O paralelo narrativo mais próximo está em Gênesis 44:18, onde a mesma forma abre a intervenção de Judá diante de José — um homem que se chega a quem tem poder de decidir e fala em favor de outro.

Note-se o que a escolha exclui. O Gênesis dispõe de verbos para prostrar-se, para clamar, para invocar o nome. Nenhum deles é usado aqui.

אַבְרָהָם (Avraham) — "Abraão"

O nome novo, dado no capítulo 17 em substituição a Abrão, e explicado ali como "pai de multidão de nações".

Convém notar a ironia da posição: o homem que acaba de ser constituído pai de nações argumenta pela sobrevivência de duas cidades que não são a sua.

וַיֹּאמַר (vayyomar) — "e disse"

A forma verbal comum para introduzir discurso direto, aqui com a vocalização longa que o hebraico usa em fim de unidade rítmica.

O ponto a reter não é gramatical, e sim de contraste interno ao capítulo. Sara riu "consigo mesma"; no capítulo anterior, Abraão falara "no seu coração". Aqui o verbo introduz fala pronunciada, dirigida a um interlocutor.

הַאַף (ha'af) — "acaso também"

Composto da partícula interrogativa ha- com a partícula af.

Af é partícula de reforço: acrescenta, intensifica, sublinha. Corresponde a algo entre "também", "de fato" e "até mesmo", e não tem equivalente exato em português — daí as traduções variarem entre "acaso", "porventura" e "também".

Registro um dado com a cautela devida: escrita com as mesmas consoantes, a palavra af significa narina, nariz e, por extensão, ira — porque o hebraico descreve a cólera como algo que se acende nas narinas. É a mesma palavra que aparecerá nos versículos 30 e 32, quando Abraão pedir que a ira do seu Senhor não se acenda.

Alguns leitores propõem que a escolha seja proposital, criando ressonância entre a pergunta inicial e o receio de irritar. É plausível e não é demonstrável: a partícula é comuníssima e o emprego aqui é gramaticalmente banal. Registro como leitura possível.

תִּסְפֶּה (tispeh) — "varrerás junto"

Raiz safah, segunda pessoa masculina do imperfeito.

Este é o dado mais importante do versículo, e o mais frequentemente perdido na tradução.

O significado da raiz é varrer, arrastar, levar junto na mesma passada. Descreve aquilo que é arrebatado por acompanhar, e não por ser o alvo. Não é o verbo comum de destruir: o verbo comum é shachat, que Abraão empregará a partir do versículo 28, e que aparece no relato do dilúvio.

A confirmação está no capítulo seguinte. Em Gênesis 19:15 os anjos apressam Ló "para que não pereças no castigo da cidade", e em 19:17 repetem "não seja que pereças". As duas formas vêm desta raiz.

Ou seja, o texto usa a mesma palavra para a pergunta de Abraão e para o resgate de Ló. Quem lê em hebraico não pode deixar de ouvir a ligação.

A mesma raiz descreve, em Números 16:26, o risco de os israelitas serem levados junto com os pecadores de quem devem se afastar, e, em 1 Samuel 26:10, a morte de Saul "descendo em batalha".

צַדִּיק (tsaddiq) — "justo"

Do campo de tsedeq, justiça, retidão, conformidade a um padrão.

No uso jurídico, que é o dominante, designa a parte que tem razão na causa — o absolvido. Deuteronômio 25:1 descreve o julgamento com este vocabulário exato: absolvem o justo e condenam o iníquo.

Está aqui no singular e sem artigo. Não é "os justos", com número e proporção, e sim o caso mínimo. Os números entram no versículo 24.

עִם (im) — "com"

Preposição de companhia. Não é a preposição de instrumento nem a de lugar: é a de estar junto.

É ela que produz o problema. O justo não seria destruído por causa do ímpio nem como ímpio, mas junto com ele — o que descreve exatamente aquilo que hoje se chamaria dano colateral.

רָשָׁע (rasha) — "ímpio"

O termo oposto de tsaddiq no par forense: o culpado, aquele contra quem a sentença corre.

Provérbios 17:15 fixa o valor dos dois termos ao declarar abominável ao SENHOR tanto quem absolve o culpado quanto quem condena o inocente — os dois erros simétricos que Abraão tem em vista.

Nota — a correção dos escribas no versículo 22

Este é um dado de história do texto que merece registro, porque é verificável e raramente mencionado.

A tradição judaica transmite uma lista de passagens que teriam sido deliberadamente alteradas por copistas antigos, por reverência, para evitar formulações consideradas indignas a respeito de Deus. A lista tem nome próprio nas fontes rabínicas e circulava entre os próprios transmissores do texto — ou seja, não é acusação externa, é memória interna dos copistas.

Gênesis 18:22 é um dos casos citados. O texto que temos diz que os homens partiram e que Abraão permaneceu diante do SENHOR. A tradição informa que a redação original seria a inversa: o SENHOR permanecendo diante de Abraão.

A razão alegada é de decoro. "Estar diante de" alguém é, no hebraico, expressão de quem serve ou de quem aguarda; dizer que Deus permanecia diante de um homem pareceu inadequado.

Convém pesar o dado nos dois sentidos, e não é possível decidir.

A favor da tradição: nenhum manuscrito precisaria conservar a alteração para que a memória dela sobrevivesse, e é difícil imaginar por que se inventaria uma acusação contra a fidelidade do próprio texto sagrado.

Contra: não há testemunho manuscrito da forma supostamente original, e há quem trate essas listas como notas explicativas de leitura, e não como registro de mudanças efetivas.

O que interessa ao leitor deste comentário é mais simples: o texto bíblico foi copiado à mão por séculos, por gente que reverenciava o que copiava, e a própria tradição guardou a lembrança de lugares em que a reverência mexeu na letra. Saber disso não abala nada; ignorar isso é que costuma abalar, quando a informação chega mais tarde e por má fonte.

Nota — a ausência de fórmula de tratamento

Vale observar uma coisa que só aparece quando se compara este versículo com os seguintes.

Aqui não há vocativo. Abraão não diz "meu Senhor", não diz "eis que me atrevi", não pede que a ira não se acenda. Nada disso.

A partir do versículo 27, as fórmulas se acumulam e vão ficando mais insistentes justamente à medida que o pedido fica mais ousado.

A primeira frase é a mais crua do diálogo inteiro. Quem quiser medir a ousadia da cena deve medi-la aqui, antes de o narrador começar a acolchoá-la.

11. Conclusão

Um homem dá um passo à frente e faz uma pergunta que ninguém, na Bíblia, tinha feito antes: o que está prestes a acontecer é justo? Não é súplica, não é lamento e não é oração no formato que a palavra costuma ter. É objeção, dita em voz alta, na segunda pessoa, dirigida a quem acaba de anunciar o que vai fazer. O verbo com que ele se aproxima serve, em outros lugares da Escritura, para exércitos que avançam, para sacerdotes que se chegam ao altar e para partes que se apresentam a juízo — e é o mesmo com que Judá, muitos capítulos adiante, abrirá o pedido pela vida do irmão mais novo.

A escolha das palavras revela quem está falando. Onde as traduções escrevem "destruirás", o hebraico traz o verbo de varrer, de levar junto na mesma passada aquilo que não era alvo — e não o verbo comum de destruição, que só entrará em cena cinco versículos adiante. A acusação, portanto, já vem embutida no vocabulário: pergunta-se pelo arrastamento, não pela sentença. E há um detalhe que o leitor de hebraico não consegue ignorar: essa mesmíssima palavra ressurge no capítulo seguinte, quando os anjos puxam Ló pelo braço e lhe dizem que corra para não ser varrido junto. O risco enunciado aqui é aquele de que o sobrinho será retirado lá — só que retirado, e não poupado dentro da cidade, que era o que Abraão pedia.

Justo e ímpio, por sua vez, não são categorias de altar. São categorias de porta de cidade, onde os anciãos julgavam: um é o que sai com razão, outro é o que sai condenado. Ao usá-las no singular e sem artigo, Abraão enuncia o princípio despido de qualquer número — e só depois, com o princípio no bolso, começará a leiloar quantidades. O método é reconhecível para quem já negociou alguma coisa na vida, e é reconhecível porque é o método do mercado aplicado ao assunto mais grave que existe.

Por baixo da pergunta corre uma dificuldade que a Bíblia carrega inteira e nunca resolve. Há textos em que o castigo se estende — a fórmula das gerações no Decálogo, a casa de Acã apedrejada com filhos e animais, as famílias engolidas com Corá — e há textos em que ele se recusa a estender-se, do Deuteronômio que manda cada um morrer pelo próprio pecado até Ezequiel proibindo o provérbio das uvas verdes. As saídas propostas explicam parte dos dados e deixam sobra: a do desenvolvimento histórico esbarra na cronologia discutida, a da distinção entre consequência e imputação não cobre Acã, e a do pensamento coletivo daquelas sociedades explica por que ninguém estranhava sem responder se estava certo. Convém acrescentar o que quase nunca se diz: quem faz esta objeção dentro da Bíblia não são leitores modernos incomodados, e sim Moisés, Arão e Davi, com as mesmas palavras.

Fica, por fim, aquilo que o versículo faz e aquilo que ele não faz. Ele não afirma que houvesse justos em Sodoma — o capítulo 13 dissera o contrário, e a hipótese é de Abraão, não do narrador. Ele não menciona Ló, e não mencionará em nenhuma das onze linhas seguintes, embora o parente esteja lá dentro e o leitor saiba disso. E ele não é repreendido: a resposta que virá aceita o terreno em que a pergunta foi posta, sem discurso do meio da tempestade e sem retirada de palavra. O que se abre aqui é uma conversa em que um ser humano cobra critério de Deus e a cobrança é aceita como legítima — e o que virá adiante mostrará que ser aceita como legítima não é o mesmo que ser respondida.

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