Talvez haja cinquenta justos dentro da cidade; destruirás mesmo assim e não perdoarás ao lugar por causa dos cinquenta justos que nele houver?
1. Introdução
O princípio já foi enunciado. Agora entram os números.
E entram por uma palavra que sustenta o diálogo inteiro e passa despercebida: talvez.
Abraão não afirma que existam justos em Sodoma. Ele levanta a hipótese, e a hipótese é o que lhe permite continuar falando sem ter de provar nada.
Aqui também aparece, pela primeira vez na Escritura, a ideia que sustenta boa parte da teologia posterior: a de que a existência de alguns pode segurar o castigo de todos.
Convém adiantar que existe um profeta que nega essa ideia com todas as letras, citando três nomes. Trataremos dele.
2. Contexto Histórico e Cultural
Cinquenta, num mundo que contava por dezenas
O número que Abraão escolhe não é aleatório dentro do sistema de contagem daquele mundo.
Os grupos militares e administrativos de Israel eram organizados por milhares, centenas, cinquentenas e dezenas, segundo o conselho que Jetro dá a Moisés no Êxodo. "Chefes de cinquenta" é cargo mencionado várias vezes na Bíblia.
Cinquenta era, portanto, uma unidade reconhecível — grande o bastante para formar um corpo, pequena o bastante para caber numa cidade.
Que tamanho tinha uma cidade daquelas
Convém desfazer a imagem moderna. As cidades cananeias da Idade do Bronze eram povoações muradas de poucos hectares, com população estimada em algumas centenas a poucos milhares de pessoas.
Se Sodoma tinha esse porte, cinquenta adultos justos representariam algo entre uma parte apreciável e uma minoria pequena, dependendo de como se conte.
Registro que qualquer cálculo aqui é estimativa: a arqueologia não fixou a identificação das cidades da planície, e o texto não fornece números de população. O que se pode afirmar é que cinquenta não era um número desprezível nem uma multidão.
A hospitalidade e o hóspede: por que a cidade responde como corpo
Para entender por que se discute a sorte do lugar, e não a de cada pessoa, é preciso lembrar como funcionavam aquelas comunidades.
A cidade era uma unidade jurídica. Tinha anciãos, tinha porta onde se julgava, tinha responsabilidade coletiva por crimes cometidos no seu território — o Deuteronômio chega a prever um rito para a cidade mais próxima de um corpo encontrado no campo, quando não se sabe quem matou.
Nesse quadro, perguntar se o lugar será poupado por causa de cinquenta pessoas não é uma extravagância. É aplicar, em sentido favorável, a mesma lógica que tornava a cidade responsável em sentido desfavorável.
Um pedido feito no vocabulário do sacrifício
O verbo que Abraão usa para "perdoar" é o mesmo que a Bíblia emprega para carregar, levantar, suportar um peso.
Perdoar, naquela língua, é assumir o peso da falta em vez de deixá-lo cair sobre quem a cometeu. A grande proclamação do Êxodo 34 diz literalmente que o SENHOR "carrega" a iniquidade, a rebelião e o pecado.
Vale ter isso na cabeça ao ler o versículo: o pedido não é para que Deus finja que não houve nada. É para que ele suporte o peso.
A ideia do resto que salva
A noção de que uma minoria fiel pode segurar o destino de um povo inteiro atravessa a Bíblia depois deste capítulo.
Isaías dirá que, se o SENHOR não tivesse deixado alguns sobreviventes, o povo teria sido como Sodoma. Jeremias será mandado percorrer as ruas de Jerusalém à procura de um só homem que faça juízo, e a promessa é de perdão à cidade inteira caso o encontre. Ezequiel dirá que Deus buscou alguém que se pusesse na brecha e não achou ninguém.
Este versículo é a primeira aparição dessa linha de pensamento na Bíblia. E o mesmo Ezequiel, quatro capítulos antes, dirá algo que a contradiz frontalmente — assunto do item 3.
3. Análise Teológica do Versículo
"Talvez haja cinquenta justos dentro da cidade"
Comece-se pela primeira palavra, que é a mais importante da frase e a que menos atenção recebe.
O hebraico abre com ulai: talvez, quem sabe, porventura.
Não é enfeite. É a estrutura da cena inteira.
Abraão não afirma que há justos em Sodoma. Ele não tem como saber, e o texto não lhe atribui informação nenhuma sobre a cidade além do que o SENHOR acabou de dizer. Ele supõe.
E essa palavra reaparecerá em todos os lances seguintes: talvez faltem cinco, talvez se achem quarenta, trinta, vinte, dez. Seis vezes, sempre a mesma.
Vale notar onde mais essa palavra aparece na Bíblia, porque o padrão é revelador.
É a palavra de Sarai ao propor a escrava: talvez eu tenha filhos por ela. É a do servo enviado buscar mulher para Isaque: talvez a mulher não queira vir. É a de Moisés depois do bezerro de ouro: talvez eu possa fazer expiação pelo vosso pecado. É a de Amós ao chamar o povo à conversão: talvez o SENHOR tenha piedade do restante. É a dos ninivitas de Jonas: quem sabe Deus mude de ideia e se afaste do ardor da sua ira.
Reúna-se tudo e aparece uma constatação incômoda e honesta: a linguagem da intercessão, na Bíblia, é a linguagem do talvez.
Quem intercede não sabe se vai adiantar. Não tem garantia, não tem fórmula, não tem promessa prévia. Tem uma hipótese e a coragem de apresentá-la.
Registro que a observação é minha, extraída do padrão de uso. O texto não a enuncia. Mas o padrão é verificável, e ele desmonta a ideia corrente de que a oração eficaz é a que se faz com certeza absoluta do resultado.
Há ainda uma função tática no talvez, e seria ingênuo não a mencionar.
Ao supor em vez de afirmar, Abraão não se compromete com nada. Se não houver cinquenta justos, ele não terá mentido — terá apenas levantado uma hipótese. O talvez é ao mesmo tempo humildade e proteção, e as duas coisas convivem sem se anular.
Por que cinquenta?
O texto não diz, e quem afirma saber está inventando.
O que se pode observar é o seguinte.
Cinquenta era unidade organizacional corrente naquele mundo: o conselho de Jetro a Moisés estabelece chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez, e "capitão de cinquenta" aparece como posto militar em vários livros. Não é um número exótico; é um pelotão.
Do ponto de vista da negociação, é uma abertura alta — e abrir alto é o procedimento normal de quem regateia. Quem quer chegar a dez não começa em doze.
Registro uma leitura possível, apresentada como leitura: quem abre em cinquenta e desce até dez conhece o ofício. A pergunta a fazer não é por que cinquenta, e sim por que ele não começou mais baixo, já que baixo é onde ele queria chegar. A resposta plausível é que uma proposta de partida modesta teria fechado o espaço de manobra.
"dentro da cidade" — e, no fim do versículo, "que nele houver"
Uma sutileza que a tradução dilui.
O hebraico usa, no começo da frase, a expressão que significa "no meio de", e no fim outra, que significa "no interior de", "nas entranhas de".
São duas palavras diferentes para dizer a mesma coisa, e o efeito da repetição é enfático: os justos estão dentro. Não moram fora dos muros, não formam um bairro separado, não são um grupo identificável de fora.
Isso não é detalhe decorativo. É o que torna o problema insolúvel pela via simples.
Se os justos vivessem num setor à parte, bastaria poupar o setor. Estando misturados, qualquer destruição da cidade os alcança — e é exatamente por isso que Abraão fala em poupar o lugar inteiro, e não em separar pessoas.
Vale registrar desde já, porque muda a leitura do capítulo 19: a solução que a narrativa acabará dando é justamente a que este versículo descarta. Ninguém poupa a cidade. Retira-se de dentro dela uma família, e o resto é varrido.
"destruirás mesmo assim"
Abraão repete aqui, palavra por palavra, a fórmula com que abriu o versículo anterior: a partícula interrogativa reforçada mais o verbo de varrer junto.
A repetição é técnica de argumentação e vale nomeá-la.
No versículo 23, a pergunta era abstrata: varrerás o justo com o ímpio? Agora ela volta com um número dentro. É a mesma pergunta, quantificada.
Quem argumenta assim está fazendo algo preciso: primeiro obtém o assentimento ao princípio, depois pede a aplicação. Se o interlocutor aceitou que varrer junto é problema, precisa dizer a partir de quantos o problema existe.
E note-se que o interlocutor, no versículo 26, não contesta o método. Responde dentro dele.
"e não perdoarás ao lugar"
Aqui está a palavra teologicamente mais densa do versículo, e a tradução portuguesa não tem como preservá-la.
O verbo hebraico é nasa. O seu sentido básico é levantar, erguer, carregar, suportar um peso.
É o verbo de quem pega uma carga nos ombros.
Quando aplicado a culpa, produz a expressão que a Bíblia usa para perdão: carregar a iniquidade. A proclamação do Êxodo 34, que é o texto clássico sobre o caráter de Deus, diz literalmente que ele é aquele que carrega a iniquidade, a rebelião e o pecado.
O mesmo verbo aparece na boca de Caim quando ele diz que o seu castigo é maior do que pode suportar, e no ritual do bode que leva sobre si as iniquidades para o deserto.
Reúna-se o campo: perdoar, naquela língua, não é apagar nem ignorar. É assumir o peso em vez de deixá-lo cair sobre quem o produziu.
Isso muda o que Abraão está pedindo. Não é que Deus finja que Sodoma é outra coisa. É que ele segure a conta.
Convém marcar o limite: extrair daqui uma doutrina completa da expiação seria ir longe demais, e o Gênesis não desenvolve o tema. O que se pode afirmar é que a metáfora subjacente ao perdão, em hebraico, é a de carregar peso, e que o leitor que ignora isso perde a força da frase.
"ao lugar" — e não "às pessoas"
Repare no objeto do perdão pedido.
Abraão não diz "não perdoarás aos habitantes". Diz "não perdoarás ao lugar". A palavra hebraica é maqom, sítio, local, ponto do espaço.
Ele pede pela cidade como entidade.
Isso é coerente com o modo antigo de pensar, em que a cidade era um sujeito jurídico com anciãos, porta, responsabilidade e destino próprios. Mas é também o que torna o pedido tão amplo — e tão difícil de atender.
Uma nota lateral que vale a pena, com o devido cuidado. Séculos depois, na literatura rabínica, HaMaqom — "o Lugar" — se tornaria um dos nomes usados para Deus. Não há relação com este versículo, e quem sugere que exista está antecipando um uso posterior. Registro a curiosidade e o seu limite.
"por causa dos cinquenta justos que nele houver"
Chegamos ao núcleo teológico do versículo, que é uma proposta ousada e que a Bíblia depois discutirá consigo mesma.
A proposta é: a presença de alguns justos deve valer pela cidade toda.
Não é um pedido de misericórdia genérica. É um argumento com estrutura: existe algo nos justos que, estando eles dentro, cobre os demais.
Vale medir o que isso afirma. Se a lógica do castigo coletivo diz que a culpa de uns arrasta os outros, Abraão está propondo a operação inversa com o mesmo mecanismo: que o mérito de uns segure os outros.
É a solidariedade coletiva com o sinal trocado.
E aqui há uma coisa fina, que merece ser dita: a mesma lógica que Abraão está combatendo é a que ele está usando. Ele objeta ao arrastamento coletivo no versículo 23 e propõe a cobertura coletiva no versículo 24. Se as pessoas fossem julgadas estritamente uma a uma, como quer Ezequiel 18, o pedido dele não faria sentido nenhum — bastaria poupar os justos e destruir o resto.
Registro a observação como observação, porque o texto não a comenta. Mas ela existe, é verificável, e mostra que a cena é mais complicada do que a leitura devocional costuma admitir.
O profeta que nega isso com todas as letras
Agora o texto que precisa ser posto na mesa, e que a pregação corrente quase nunca menciona quando trata deste capítulo.
Ezequiel, no capítulo 14, discute exatamente esta questão. Deus anuncia juízo sobre uma terra e diz: ainda que estivessem no meio dela estes três homens — Noé, Daniel e Jó —, eles, pela sua justiça, livrariam somente as suas próprias almas.
E repete, seis versículos adiante, agravando: ainda que Noé, Daniel e Jó estivessem no meio dela, não livrariam nem filho nem filha; livrariam somente as suas próprias almas.
Leia-se com atenção o que está sendo dito. Três justos de primeira grandeza, dentro da cidade, não salvam ninguém além de si mesmos. Nem os próprios filhos.
É a negação direta do que Abraão propõe aqui.
Convém não fugir da dificuldade, e convém também não exagerá-la. Registro as observações que a tornam menos brutal, e depois o que sobra.
Primeira: a expressão "no meio dela", que Ezequiel usa, é a mesma deste versículo. O profeta parece estar respondendo a esse tipo de argumento, e não apenas ensinando no vazio. Se for assim, temos um texto bíblico corrigindo expressamente uma expectativa que outro texto bíblico alimenta.
Segunda: os contextos diferem. Ezequiel fala a uma geração que estava usando o mérito alheio como desculpa para não mudar de vida — a promessa da cobertura vira, nesse uso, licença. Abraão fala antes de qualquer juízo, tentando evitá-lo.
Terceira: as duas coisas podem coexistir se distinguirmos o adiamento do juízo, que o mérito de poucos obtém, da salvação individual no juízo, que não se transfere. Essa distinção é razoável e é a mais usada.
Contra ela pesa o fato de Ezequiel dizer "nem filho nem filha", que é exatamente o caso de transferência dentro da casa, e de o próprio Gênesis, no capítulo 19, informar que Ló foi tirado porque Deus se lembrou de Abraão — o que é transferência de mérito em estado puro.
Não é possível decidir. A Escritura contém a proposta de Abraão, contém a negativa de Ezequiel, e contém, no capítulo 19, um desfecho que dá razão parcial aos dois.
E, do outro lado, os textos que apoiam Abraão
Honestidade exige apresentar também a outra série, que é forte.
Jeremias recebe a ordem de correr as ruas de Jerusalém, olhar nas praças e procurar se há um homem que faça juízo e busque a verdade — e a promessa é: se achares, eu perdoarei a cidade. Um homem.
Ezequiel — o mesmo Ezequiel — diz noutro lugar que Deus buscou entre eles um homem que tapasse o muro e se pusesse na brecha para que a terra não fosse destruída, e não achou ninguém. A frase pressupõe que, se tivesse achado, teria funcionado.
Um salmo afirma que Deus teria destruído o povo se Moisés, o seu escolhido, não se tivesse posto na fenda diante dele para desviar a ira.
Isaías declara que, não fossem alguns sobreviventes deixados pelo SENHOR, o povo teria sido como Sodoma — o que é dizer, com todas as letras, que o resto pequeno é o que impede o fim.
E, no Evangelho, a parábola do joio manda deixar o mau crescer junto com o bom até a colheita, para que ao arrancar um não se arranque o outro. A estrutura é a mesma deste versículo, com uma diferença decisiva: ali o adiamento é temporário e a separação vem no fim.
O mesmo mecanismo funciona ao contrário
Vale acrescentar o dado que impede a leitura sentimental.
Se poucos justos podem cobrir muitos culpados, poucos culpados também podem arruinar muitos inocentes — e a Bíblia narra isso sem hesitar.
Um homem esconde despojo consagrado, e um exército inteiro é derrotado; o texto diz expressamente que Israel pecou, no plural, por causa do ato de um.
É o mesmo raciocínio, com o sinal invertido. Quem quiser a cobertura coletiva como consolo terá de aceitar a contaminação coletiva como consequência.
Convém dizer o que não se pode afirmar. A Bíblia não sistematiza isso. Ela narra os dois movimentos, legisla contra um deles em certos livros, e o pressupõe em outros. Quem apresenta uma síntese limpa está costurando o que os textos deixaram solto.
O que o versículo estabelece, apesar de tudo
Fechando o item, três coisas ficam de pé.
A primeira: a hipótese é de Abraão, não de Deus. Foi ele quem inventou a possibilidade de haver justos ali, e foi ele quem escolheu o número.
A segunda: o pedido é pelo lugar, não pelas pessoas. Ele não pede que os justos sejam salvos — pede que a cidade seja poupada por causa deles.
A terceira: o interlocutor aceita a proposta sem discutir a premissa. E é essa aceitação, no versículo 26, que abre a porta por onde passarão os cinco lances seguintes.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Ulai (talvez) — a palavra que abre a proposta e reaparece em todos os lances seguintes, nos versículos 28, 29, 30, 31 e 32; é o termo com que a Bíblia costuma introduzir a intercessão.
Cinquenta — o número de abertura, escolhido por Abraão e não sugerido por Deus; unidade organizacional corrente, com "chefes de cinquenta" no conselho de Jetro a Moisés.
Tsaddiqim (justos) — agora no plural e com número, ao contrário do singular sem artigo do versículo anterior.
Betokh e beqirbah — as duas expressões de "dentro" que emolduram o versículo; a insistência marca que os justos estão misturados à população, e não separados dela.
Nasa (perdoar) — literalmente levantar, carregar, suportar; o perdão hebraico é assumir o peso da falta, como na proclamação de Êxodo 34:7.
Maqom (lugar) — o objeto do perdão pedido: a cidade como entidade, e não os seus moradores um a um.
Lema'an (por causa de) — a preposição de finalidade e de motivo; no versículo 26 a resposta divina usará outra, ba'avur.
Sodoma — a cidade em discussão, a única nomeada no diálogo; Gomorra aparecera no versículo 20 e não retorna daqui até o fim do capítulo.
Ezequiel 14:14 e 14:20 — o texto que nega a premissa deste versículo: Noé, Daniel e Jó livrariam apenas as próprias almas, nem filho nem filha.
Jeremias 5:1 — o texto que a apoia: um só homem que faça juízo em Jerusalém, e a cidade é perdoada.
Ezequiel 22:30 — o homem que se põe na brecha, procurado e não encontrado.
Isaías 1:9 — o resto de sobreviventes que impede o povo de se tornar como Sodoma.
Acã — em Josué 7, o caso inverso: o ato de um contamina o exército inteiro.
A parábola do joio — em Mateus 13:29-30, a mesma estrutura de adiamento para que o bom não seja arrancado com o mau.
5. Pontos de Ensino
A palavra que abre a proposta é "talvez". Abraão supõe e não afirma; não tem informação nenhuma sobre a existência de justos em Sodoma.
Esse "talvez" reaparece em todos os lances. Seis vezes, nos versículos 24, 28, 29, 30, 31 e 32.
É a palavra com que a Bíblia costuma introduzir a intercessão. Moisés depois do bezerro, Amós, os ninivitas de Jonas — todos usam o mesmo termo.
Cinquenta é escolha de Abraão. Deus não sugeriu número nenhum, e o texto não explica por que ele começa aí.
Abrir alto é procedimento de quem negocia. Quem pretende chegar a dez não começa em doze.
O versículo insiste que os justos estão dentro. Duas expressões diferentes para "no meio da cidade" emolduram a frase.
Estando misturados, não há como poupar só eles. É por isso que o pedido é pelo lugar inteiro.
Perdoar, em hebraico, é carregar. O verbo nasa significa levantar um peso e assumi-lo.
O pedido é pelo lugar, não pelas pessoas. Abraão não pede que os justos escapem; pede que a cidade seja poupada por causa deles.
A proposta é a solidariedade coletiva com o sinal trocado. O mesmo mecanismo que ele contesta no versículo 23 é o que ele usa aqui.
Ezequiel 14 nega essa possibilidade expressamente. Noé, Daniel e Jó salvariam apenas a si mesmos, nem filho nem filha.
Jeremias 5:1 e Ezequiel 22:30 a apoiam. A Bíblia guarda as duas posições sem harmonizá-las.
6. Aspectos Filosóficos
Agir sem saber se adianta
Vale começar pela palavra que abre a fala, porque ela contraria uma ideia muito difundida.
Costuma-se ensinar que a oração legítima é a que se faz com certeza, e que a hesitação a invalida. Este versículo faz o contrário: começa por uma suposição, e a suposição não é sobre o que Deus fará — é sobre um fato do mundo que quem fala não conhece.
Abraão não sabe se há justos em Sodoma. Ele age assim mesmo.
Há aqui uma estrutura que vale muito além da religião. Praticamente toda ação de consequência é tomada sem informação suficiente: quem denuncia não sabe se será ouvido, quem socorre não sabe se chegará a tempo, quem insiste com alguém não sabe se a insistência serve para alguma coisa.
A alternativa a agir sob hipótese não é agir com certeza. É não agir.
Registro que a leitura é minha; o texto apenas usa a palavra.
O peso que alguém precisa carregar
A metáfora que o hebraico usa para perdão merece uma parada, porque ela contraria a imagem corrente.
Nós pensamos o perdão como apagamento: alguma coisa deixa de contar. O verbo hebraico pensa como transporte: alguma coisa é levantada e carregada.
A diferença é enorme. Na primeira imagem, o custo desaparece. Na segunda, o custo permanece e muda de ombro.
Isso descreve com precisão o que acontece em qualquer perdão real. Quem foi lesado e não cobra não fez o prejuízo evaporar: ficou com ele. A dívida não some — passa a ser paga por quem perdoou.
Convém não transformar a observação linguística em prova teológica. O que se pode afirmar é que a língua em que este versículo foi escrito pensava assim, e que a imagem tem valor descritivo independentemente do que se conclua dela.
Não dá para separar o joio do trigo sem arrancar os dois
O detalhe das duas expressões de "dentro" produz uma consequência prática dura.
Se os justos estivessem separados, o problema seria de logística. Estando misturados, o problema é de impossibilidade: qualquer medida contra o conjunto atinge os dois grupos.
É a situação de toda punição coletiva, antiga ou contemporânea. Um bloqueio, uma sanção, uma operação numa área ocupada, uma regra criada para conter uma minoria — em todos esses casos, alguém pergunta se é possível atingir só quem deve, e a resposta honesta costuma ser não.
Convém marcar o limite da comparação, porque ela é fácil demais. O texto trata de um juízo divino sobre uma cidade, com pressupostos que não são os de uma decisão política humana. Uso a comparação como analogia estrutural, e não como equivalência.
O que a analogia mostra é apenas isto: o problema que Abraão levanta não é um problema religioso antigo. É a forma mais antiga registrada de um problema que continua sem solução.
A contradição que ninguém aponta
Há aqui uma incoerência aparente que merece ser encarada, porque encará-la torna a cena mais interessante, e não menos.
No versículo anterior, Abraão objeta contra a lógica que faz o justo pagar pelo ímpio. Neste, ele propõe a lógica que faz o ímpio ser poupado pelo justo.
São o mesmo mecanismo. Solidariedade coletiva, num caso arrastando para baixo, no outro segurando por cima.
Se ele quisesse coerência estrita com o princípio individual, o pedido teria de ser outro: separa os justos e destrói o resto. Ele não pede isso. Pede pelo lugar.
Registro duas leituras possíveis, e as duas se sustentam.
Uma diz que ele não está defendendo um princípio abstrato, e sim usando os argumentos disponíveis para salvar vidas — o que é o comportamento normal de quem pleiteia.
A outra diz que a solidariedade coletiva era simplesmente a única forma de pensar disponível naquele mundo, e que ele a usa nas duas direções porque não conhece outra.
Não é possível decidir. O que não se pode é fingir que a tensão não existe.
Quando um texto bíblico responde a outro
A comparação com Ezequiel 14 obriga a uma reflexão sobre como a Bíblia funciona, e ela vale mais que a solução do caso particular.
Um texto propõe que a justiça de poucos cubra muitos. Outro, séculos depois, diz expressamente que três justos exemplares não salvariam nem os próprios filhos.
Diante disso, há três atitudes.
A primeira é negar a diferença, forçando as palavras até que digam o mesmo. É o que mais se pratica, e é o que menos resiste ao exame.
A segunda é escolher um dos textos e tratar o outro como superado. É honesto quanto ao fato de haver diferença, e cobra o preço de decidir por conta própria qual página da Bíblia vale.
A terceira é registrar que os dois estão lá, entender o que cada um combate, e viver com a sobra. Ezequiel fala contra quem usava o mérito alheio como licença; o Gênesis narra alguém tentando impedir uma destruição. São situações distintas, e a distinção explica muito — só não explica tudo.
Fico com a terceira, e digo por quê: as duas primeiras produzem um leitor que se assusta quando encontra sozinho o texto que lhe foi escondido.
O que se pede quando se pede pelo lugar
Fecho com aquilo que me parece o mais original deste versículo.
Abraão não pede pelos justos. Pede pela cidade, por causa dos justos.
Isso é diferente de tudo o que a leitura devocional costuma extrair daqui. Não se trata de proteger os bons: trata-se de usar a existência dos bons como razão para poupar os outros.
Quem é beneficiado, na proposta, é o culpado.
Vale medir o que isso implica sobre a função de quem é justo, tal como este versículo a imagina. Ela não é a de ser recompensado, nem a de ser salvo primeiro. É a de servir de motivo para que outros não sejam destruídos.
Registro como leitura, e como leitura que o capítulo 19 vai contrariar: quando a destruição chega, ninguém é poupado por causa de ninguém dentro da cidade. Retira-se uma família e o lugar é varrido.
7. Aplicações Práticas
Suposição não é fraqueza de argumento
A frase que abre o pedido começa por "talvez". Abraão não sabe se há justos em Sodoma, não tem como saber, e não finge saber. Ele apresenta uma hipótese e trabalha a partir dela.
Esse mesmo termo reaparece nos cinco lances seguintes, e é o que a Bíblia costuma pôr na boca de quem intercede — em Moisés depois do bezerro de ouro, em Amós, nos ninivitas de Jonas.
Vale contra o hábito de só levantar uma questão quando se tem tudo comprovado. Muita coisa importante nunca é dita porque quem poderia dizê-la está esperando reunir certeza — e, quando a certeza chega, a decisão já foi tomada. Apresentar algo como hipótese, deixando claro que é hipótese, é uma forma legítima e honesta de entrar numa conversa.
Comece a negociação onde você pode descer
Cinquenta é número de Abraão, não de Deus. Ninguém sugeriu quantidade nenhuma; ele escolheu, e escolheu alto o bastante para descer cinco vezes.
Quem pretende chegar a dez e começa em doze não tem para onde ir.
Isso não é astúcia condenável — é o funcionamento normal de qualquer conversa em que duas posições precisam se encontrar. Vale saber disso dos dois lados: ao pedir, deixe espaço; ao receber um pedido, considere que a primeira cifra raramente é a real. E note que o texto não repreende Abraão por usar o método; o que ele faz com o método é que decide se a coisa é honesta.
Perdoar é ficar com a conta
O verbo hebraico deste versículo significa levantar e carregar. Perdoar, naquela língua, é pôr o peso nos próprios ombros, e não fazer o peso desaparecer.
É a mesma palavra da grande proclamação do Êxodo, onde se diz que Deus carrega a iniquidade, a rebelião e o pecado.
Repare no que isso corrige. Quem perdoa uma dívida não a anulou: passou a pagá-la. Quem releva um prejuízo continua com o prejuízo. Isso explica por que o perdão custa, por que às vezes demora, e por que a exigência de que a pessoa lesada perdoe rápido costuma ser feita por quem não vai carregar nada.
Quem está misturado não pode ser separado
O versículo insiste, com duas expressões diferentes, que os justos estão dentro da cidade. Não num bairro, não num grupo identificável: misturados.
É por isso que o pedido é pelo lugar inteiro, e não pela retirada de alguns.
Vale para toda medida que se toma contra um conjunto por causa de parte dele. Uma regra criada para conter os poucos que abusam recai sobre todos; uma desconfiança dirigida a um grupo atinge quem nunca fez nada. Antes de defender uma medida assim, é útil perguntar quem é o justo que está no meio — e se a resposta for "não há", vale verificar se você conhece o conjunto o suficiente para afirmar isso.
Você pode estar usando o argumento que acabou de recusar
No versículo anterior, Abraão contesta que o justo seja arrastado pelo ímpio. Neste, propõe que o ímpio seja poupado pelo justo. É o mesmo mecanismo, aplicado nas duas direções conforme convém.
O texto não comenta a incoerência, e não é possível decidir se ele a percebeu.
Vale como exercício de autoexame em qualquer discussão. Costumamos aceitar um raciocínio quando ele nos favorece e recusá-lo quando nos prejudica, sem notar que é o mesmo raciocínio. O teste é simples e desconfortável: pergunte se você aceitaria esse argumento com o sinal trocado. Se não aceitaria, o problema não está na conclusão do outro — está no seu critério.
Beneficiar quem não merece é o pedido, não o efeito colateral
Abraão não pede pela salvação dos justos. Pede pela cidade, por causa deles. Quem sai ganhando, na proposta, é justamente o culpado.
É uma inversão do que a leitura devocional costuma extrair daqui, e está escrito com todas as letras: perdoar ao lugar, por causa dos cinquenta que nele houver.
Vale pensar em como isso reorganiza a ideia de ser uma pessoa correta. Nesta proposta, a função de quem age bem não é receber prêmio nem escapar primeiro: é servir de razão para que outros não sejam destruídos. Quem entende assim a própria retidão passa a olhar de outro jeito para o ambiente em que está — não como quem se preserva num lugar ruim, mas como quem, estando ali, segura alguma coisa.
Textos que discordam entre si são um problema para todo mundo
A proposta deste versículo é negada, séculos depois, por Ezequiel: nem Noé, nem Daniel, nem Jó salvariam filho ou filha. E é apoiada, no mesmo profeta e em Jeremias, pela busca de um homem que se ponha na brecha.
As harmonizações propostas explicam parte e deixam sobra, e não é possível decidir.
Aplique isso ao modo como você recebe informação sobre assuntos em que já tem posição. Quando alguém lhe apresenta apenas os textos, dados ou casos de um lado, o problema não é que a conclusão esteja errada — pode até estar certa. O problema é que você não tem como saber, porque não lhe deram o material. Desconfiar de exposições sem contraprova é hábito barato e rende a vida inteira.
A mesma lógica que consola também condena
Se a justiça de poucos pode cobrir muitos, o erro de poucos pode arruinar muitos — e a Bíblia narra isso sem constrangimento, com Acã e o despojo escondido derrotando um exército inteiro.
Não dá para ficar com metade do mecanismo.
Vale como advertência contra o consumo seletivo de ideias. Gostamos da noção de que estamos ligados uns aos outros quando ela significa que seremos amparados, e a rejeitamos quando significa que responderemos por gente com quem não escolhemos conviver. Ou a ligação existe, com as duas consequências, ou não existe. Escolher só o lado agradável não é uma posição — é uma preferência.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Abraão diz "talvez" em vez de afirmar?
Porque ele não sabe. Nada no texto lhe dá informação sobre a população de Sodoma, e o único dado que a narrativa oferece corre em sentido contrário: o capítulo 13 diz que os homens da cidade eram maus e pecadores em grande maneira. O talvez é ao mesmo tempo honestidade e tática — ele levanta a possibilidade sem se comprometer com ela, e mantém o pedido de pé mesmo que a hipótese seja falsa.
Essa palavra aparece em outros lugares?
Aparece, e o padrão é notável. É a palavra de Moisés ao subir de novo o monte depois do bezerro de ouro, dizendo que talvez possa fazer expiação; a de Amós ao dizer que talvez o SENHOR tenha piedade do restante; a dos ninivitas em Jonas, com o "quem sabe Deus mude de ideia". A linguagem da intercessão bíblica é a linguagem da hipótese, e não a da garantia.
Por que ele começa em cinquenta?
O texto não diz. Pode-se observar que cinquenta era unidade organizacional corrente naquele mundo, com chefes de cinquenta previstos desde o conselho de Jetro a Moisés, e pode-se observar que abrir alto é o procedimento normal de quem negocia. Quem pretende chegar a dez não abre em doze. As duas observações são plausíveis e nenhuma está escrita.
Por que o versículo repete que os justos estão "dentro" da cidade?
Porque o hebraico usa duas expressões diferentes, uma no começo e outra no fim, e a repetição é enfática. O ponto é que os justos estão misturados à população. Se estivessem separados, bastaria poupar o setor onde vivessem. Estando dentro, qualquer destruição os alcança — e é por isso que o pedido tem de ser pelo lugar inteiro.
O que significa exatamente "perdoar" aqui?
O verbo é nasa, cujo sentido básico é levantar, erguer, carregar. Aplicado a culpa, produz a imagem do perdão como carregamento de peso: em Êxodo 34:7 diz-se que o SENHOR carrega a iniquidade, a rebelião e o pecado. Perdoar, nessa língua, não é apagar — é assumir a carga em vez de deixá-la cair sobre quem a produziu.
Por que ele pede perdão para o "lugar" e não para as pessoas?
Porque a cidade, naquele mundo, era uma unidade jurídica com anciãos, porta de julgamento e responsabilidade própria. Pedir pelo maqom é pedir pela entidade inteira. E é isso que torna o pedido tão amplo: o beneficiado direto da proposta não é o justo, é o culpado que mora ao lado dele.
Abraão não está sendo incoerente?
Há uma tensão real, e vale registrá-la. No versículo 23 ele contesta que o justo seja arrastado pelo ímpio; aqui propõe que o ímpio seja poupado pelo justo. É o mesmo mecanismo de solidariedade coletiva, usado nas duas direções. Quem quisesse coerência estrita com a responsabilidade individual pediria a separação dos justos, não o perdão do lugar. O texto não comenta a incoerência, e não é possível decidir se ele a percebeu.
A Bíblia concorda que poucos justos podem salvar muitos?
Em parte sim e em parte não, e os textos precisam ser postos lado a lado. A favor: Jeremias 5:1 promete perdão a Jerusalém se um só homem justo for encontrado; Ezequiel 22:30 lamenta não ter achado quem se pusesse na brecha; o Salmo 106 diz que Moisés se pôs na fenda e desviou a destruição; Isaías 1:9 atribui a sobrevivência do povo a alguns sobreviventes deixados. Contra: Ezequiel 14:14 e 14:20 afirmam que Noé, Daniel e Jó livrariam apenas as próprias almas, nem filho nem filha.
Como se explica a contradição com Ezequiel 14?
A explicação mais usada distingue o adiamento do juízo, que o mérito de poucos pode obter, da salvação individual dentro do juízo, que não se transfere. É razoável e cobre bastante coisa. Contra ela pesa o "nem filho nem filha" de Ezequiel, que é exatamente o caso da transferência dentro da casa, e pesa o próprio Gênesis 19:29, que informa que Ló foi retirado porque Deus se lembrou de Abraão. Não é possível decidir; a Escritura contém as duas afirmações.
Existe o efeito contrário — poucos culpados arruinando muitos?
Existe, e é narrado sem constrangimento. Em Josué 7, um homem esconde parte do despojo consagrado e o exército inteiro é derrotado; o texto diz que Israel pecou, no plural. É o mesmo mecanismo com o sinal invertido, e quem quer a cobertura coletiva como consolo precisa aceitar a contaminação coletiva como consequência.
Há paralelo disso no Novo Testamento?
A parábola do joio, em Mateus 13, tem a mesma estrutura: não se arranca o joio para não arrancar o trigo junto. A diferença é decisiva — ali o adiamento é temporário e a separação vem na colheita. No capítulo 19 do Gênesis acontece algo parecido: não há poupança do lugar, há retirada de uma família antes do fim.
Deus contesta a premissa de Abraão?
Não. A resposta do versículo 26 concede o pedido sem discutir o raciocínio, e é justamente essa aceitação que torna possíveis os cinco lances seguintes. Convém notar o que isso significa na prática: o terreno da negociação foi fixado por Abraão, e o interlocutor aceitou jogar nele.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 18:26 — Então respondeu o SENHOR: Se achar em Sodoma cinquenta justos dentro da cidade, perdoarei a todo este lugar por causa deles.
A resposta imediata, que concede a proposta e não discute o raciocínio.
Êxodo 34:7 — Que guarda a misericórdia em milhares, que perdoa a iniquidade, a rebelião, e o pecado, e que de nenhum modo justificará ao malvado; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos, sobre os de terceira, e quarta gerações.
O verbo traduzido por "perdoa" é o mesmo deste versículo, e significa literalmente carregar.
Ezequiel 14:14 — E ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel, e Jó, eles por sua justiça livrariam somente suas almas, diz o Senhor DEUS.
A negação direta da premissa deste versículo, e com a mesma expressão "no meio dela".
Ezequiel 14:20 — Ainda que Noé, Daniel, e Jó estivessem no meio dela, vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não livrariam filho nem filha; eles por sua justiça livrariam suas próprias almas.
A repetição agravada: nem os próprios filhos seriam cobertos pela justiça do pai.
Jeremias 5:1 — Correi pelas ruas de Jerusalém, e olhai agora, e informai-vos, e buscai em suas praças, para ver se achais algum homem, se há alguém que faça juízo, que busque a verdade; e eu a perdoarei.
O outro lado: um só homem bastaria para poupar a cidade inteira.
Ezequiel 22:30 — E busquei dentre eles um homem que tapasse o muro, e que se pusesse na brecha diante de mim pela terra, para que eu não a destruísse; porém a ninguém achei.
A frase pressupõe que, se tivesse encontrado, o efeito seria o que Abraão pede aqui.
Salmos 106:23 — Por isso ele disse que teria os destruído, se Moisés, seu escolhido, não tivesse se posto na fenda diante dele, para desviar sua ira, para não os destruir.
Um homem entre a destruição e o povo, exatamente na posição que Abraão ocupa neste capítulo.
Isaías 1:9 — Se o SENHOR dos exércitos não tivesse nos deixado alguns sobreviventes, teríamos sido como Sodoma, seríamos semelhantes aos de Gomorra.
O resto pequeno como aquilo que impede o fim — e a comparação é justamente com esta cidade.
Josué 7:24 — Então Josué, e todo Israel com ele, tomou a Acã filho de zerá, e o dinheiro, e o manto, e a barra de ouro, e seus filhos, e suas filhas, e seus bois, e seus asnos, e suas ovelhas, e sua tenda, e tudo quanto tinha, e levaram-no tudo ao vale de Acor;
O mecanismo invertido: o ato de um contamina o conjunto, e o conjunto é punido junto com ele.
Mateus 13:29 — Ele, porém, lhes respondeu: “Não, para não haver que, enquanto tirais o joio, arranqueis com ele também o trigo.
A mesma estrutura de adiamento, com a diferença de que ali a separação virá na colheita.
Gênesis 19:29 — Assim foi que, quando destruiu Deus as cidades da planície, lembrou-se Deus de Abraão, e enviou fora a Ló do meio da destruição, ao assolar as cidades onde Ló estava.
O desfecho, que dá razão parcial aos dois lados: houve transferência de mérito, mas não poupança do lugar.
Amós 5:15 — Odiai o mal, amai o bem, e praticai justiça na porta da cidade; talvez o SENHOR Deus dos exércitos tenha piedade do restante do povo de José.
A mesma palavra "talvez" na boca de um profeta, séculos depois, no mesmo tipo de pedido.
Jonas 3:9 — Quem sabe Deus mude de ideia e se arrependa, e se afaste do ardor de sua ira, para não perecermos?
A hipótese como fundamento da ação, na boca de uma cidade pagã ameaçada de destruição.
Gênesis 7:1 — E o SENHOR disse a Noé: Entra tu e toda tua casa na arca porque a ti vi justo diante de mim nesta geração.
O precedente que Abraão poderia ter invocado e não invoca: um justo, e a casa dele salva por causa dele.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Talvez haja cinquenta justos dentro da cidade; destruirás mesmo assim e não perdoarás ao lugar por causa dos cinquenta justos que nele houver?
Texto hebraico
אוּלַי יֵשׁ חֲמִשִּׁים צַדִּיקִם בְּתוֹךְ הָעִיר הַאַף תִּסְפֶּה וְלֹא־תִשָּׂא לַמָּקוֹם לְמַעַן חֲמִשִּׁים הַצַּדִּיקִם אֲשֶׁר בְּקִרְבָּהּ
Transliteração
ulai yesh chamishim tsaddiqim betokh ha'ir ha'af tispeh velo-tissa lammaqom lema'an chamishim hatsaddiqim asher beqirbah
Palavra por palavra
אוּלַי (ulai) — "talvez"
Advérbio de possibilidade. Introduz uma hipótese que quem fala não pode verificar.
É a palavra que estrutura o diálogo inteiro: reaparece nos versículos 28, 29, 30, 31 e 32, sempre abrindo o lance seguinte.
O seu uso na Bíblia é concentrado em situações de pedido e de risco. Aparece na boca de Sarai ao propor a escrava, na do servo de Abraão temendo que a mulher recuse o casamento, na de Moisés ao dizer que talvez possa fazer expiação depois do bezerro de ouro, na de Amós ao esperar piedade para o restante, e na dos ninivitas de Jonas.
Convém registrar a consequência, marcando que é leitura: a Bíblia coloca a intercessão no modo hipotético, e não no modo assertivo. Quem intercede, nesses textos, não sabe se será atendido.
יֵשׁ (yesh) — "há"
Partícula de existência. Não é um verbo: é o termo que afirma que algo existe, e o hebraico o usa sem flexão de tempo.
Combinado com ulai, produz exatamente o efeito desejado: "talvez exista". Nenhum compromisso com o fato.
חֲמִשִּׁים (chamishim) — "cinquenta"
Forma plural derivada de cinco. Unidade de organização corrente: o conselho de Jetro em Êxodo 18 estabelece chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez, e "capitão de cinquenta" aparece como posto em Reis e em Isaías.
O número é escolha de Abraão. Nada, no texto, sugere que lhe tenha sido dado.
צַדִּיקִם (tsaddiqim) — "justos"
O plural do termo do versículo anterior, agora com número. Note-se que a grafia aqui é a defectiva, sem a vogal longa marcada, o que é comum na ortografia do Pentateuco e não altera o sentido.
A mudança do singular sem artigo, no versículo 23, para o plural quantificado, aqui, marca a passagem do princípio para o caso.
בְּתוֹךְ הָעִיר (betokh ha'ir) — "no meio da cidade"
Tokh designa o meio, o interior, o centro. É a mesma palavra que Ezequiel usará ao dizer que Noé, Daniel e Jó estariam "no meio dela".
Ir é a cidade murada, o povoado com defesa e porta.
הַאַף תִּסְפֶּה (ha'af tispeh) — "acaso varrerás junto"
Repetição literal da fórmula do versículo 23, tratada em detalhe naquele item.
O que importa aqui é a função da repetição: a pergunta de princípio volta com uma quantidade dentro. É a mesma objeção, agora aplicada a um caso.
וְלֹא־תִשָּׂא (velo-tissa) — "e não perdoarás"
Raiz nasa, segunda pessoa do imperfeito, precedida da negação.
O sentido básico da raiz é levantar, erguer, carregar, transportar. Usa-se para quem levanta os olhos, para quem carrega uma carga, para quem suporta um peso.
Aplicada a culpa, produz a expressão hebraica do perdão: carregar a iniquidade. Êxodo 34:7 e Números 14:18 empregam a raiz nesse sentido, e é ela que aparece quando Caim diz que o seu castigo é maior do que pode suportar.
Ou seja: perdoar, no hebraico, é assumir o peso da falta. A imagem é de transporte, não de apagamento.
לַמָּקוֹם (lammaqom) — "ao lugar"
Maqom significa lugar, sítio, ponto do espaço, e por extensão o local determinado para alguma coisa. É a palavra usada para o lugar onde Jacó dorme e sonha, e para o lugar do sacrifício em Moriá.
Note-se o objeto do perdão pedido: a cidade como entidade, e não os seus moradores.
Registro uma curiosidade e o seu limite: séculos mais tarde, na literatura rabínica, "o Lugar" passou a ser um dos nomes com que se designava Deus. Não há vínculo com este versículo, e usar o dado como se houvesse seria projetar para trás um uso posterior.
לְמַעַן (lema'an) — "por causa de"
Preposição composta que exprime finalidade e motivo: em favor de, por amor de, para o bem de.
Vale comparar com a resposta divina do versículo 26, que usa outra preposição, ba'avur, com sentido próximo. A alternância entre as duas atravessa o diálogo: Abraão diz lema'an aqui, e as respostas divinas usarão ba'avur nos versículos 26, 29, 31 e 32.
אֲשֶׁר בְּקִרְבָּהּ (asher beqirbah) — "que estão no interior dela"
Qerev designa o interior, as entranhas, o meio de alguma coisa. É palavra mais física do que tokh: usa-se para as vísceras de um animal e para o íntimo de uma pessoa.
O versículo, portanto, diz duas vezes que os justos estão dentro, com dois termos diferentes. A insistência é significativa e a tradução portuguesa não consegue reproduzi-la sem soar repetitiva.
Nota — o que a insistência no "dentro" implica
Vale desenvolver a consequência, porque ela organiza o capítulo inteiro.
Se os justos estivessem fora, ou num setor separado, o problema seria de execução: bastaria destruir uma parte. O texto fecha essa saída duas vezes.
Estando misturados, qualquer ação sobre a cidade os atinge. Daí a forma do pedido: não "poupa os justos", e sim "perdoa ao lugar por causa deles".
E daí também a ironia do desfecho. No capítulo 19, o problema é resolvido pela via que este versículo descarta: ninguém poupa o lugar; retira-se de dentro dele uma família e o resto é varrido.
Nota — a preposição e a lógica do mérito
Uma observação sobre o que a construção afirma, e sobre o que ela não afirma.
A frase diz que o perdão ao lugar seria por causa dos justos. Não diz que os justos intercedem, nem que fazem alguma coisa, nem que a cidade se converte por influência deles.
A mera presença é o argumento.
Isso é notável e vale registrar o alcance. Nada, no pedido de Abraão, exige atividade dos justos. Eles não pregam, não corrigem, não avisam. Estão ali, e isso deveria bastar.
Convém marcar o limite do que se pode concluir. O Gênesis não desenvolve a ideia, e construir a partir daqui uma doutrina do mérito seria ir além do texto. O que está escrito é uma proposta feita por um homem, aceita no versículo seguinte, e contradita séculos depois por Ezequiel — que é onde a discussão fica.
11. Conclusão
Depois de estabelecer o princípio, Abraão entra com quantidade — e o faz por uma palavra que a leitura apressada atropela. O hebraico abre com o termo que significa "talvez", e é ele que volta em cada um dos cinco lances seguintes. Nada, no texto, informa a Abraão que existam justos em Sodoma; o único dado disponível, dado pela própria narrativa cinco capítulos antes, diz o contrário. Ele supõe. E supor, quando se lê o resto da Bíblia, é o modo padrão de quem intercede: é assim que fala Moisés depois do bezerro, é assim que fala Amós, é assim que falam os ninivitas ameaçados. A intercessão bíblica não se apresenta como certeza de resultado, e sim como hipótese levada adiante.
O número escolhido é dele, não do interlocutor. Cinquenta era grandeza reconhecível naquele mundo — havia chefes de cinquenta na organização proposta a Moisés —, e é também uma abertura confortavelmente alta para quem tem cinco descidas pela frente. Registro como leitura, porque nada disso está escrito. O que está escrito é a moldura da frase, e ela é insistente: os justos estão dentro. O versículo diz isso duas vezes, com duas palavras diferentes, uma no começo e outra no fim. A insistência tem consequência prática: gente misturada não se separa, e é justamente por isso que o pedido não pode ser "salva os justos", e sim "poupa o lugar".
Perdoar, na palavra que ele emprega, significa levantar e carregar. É a imagem de quem põe uma carga nos ombros — a mesma que aparece na proclamação do Êxodo, onde se diz que o SENHOR carrega a iniquidade, a rebelião e o pecado, e a mesma que Caim usa ao dizer que o seu castigo pesa mais do que ele suporta. O pedido, portanto, não é para que se finja que Sodoma é outra coisa. É para que alguém segure a conta. E o beneficiário direto da proposta não é o justo: é o culpado que mora ao lado dele, e que seria poupado por causa de uma presença que talvez nem soubesse existir.
Aqui aparece uma tensão que quase nunca se menciona. No versículo anterior, Abraão contesta a lógica que faz o inocente pagar pelo culpado; neste, propõe a lógica que faz o culpado ser poupado pelo inocente. É o mesmo mecanismo de solidariedade coletiva, usado nas duas direções. E a Bíblia, mais adiante, discutirá isso consigo mesma sem chegar a acordo: Jeremias promete perdão a Jerusalém pela existência de um só homem justo, Ezequiel lamenta não ter achado quem se pusesse na brecha, um salmo credita a Moisés a sobrevivência do povo — mas o mesmo Ezequiel, no capítulo 14, declara que Noé, Daniel e Jó, estando no meio da cidade, não livrariam nem filho nem filha. A distinção entre adiar o juízo e salvar dentro dele explica parte do caso e deixa sobra, e não é possível decidir.
Resta observar que a proposta é aceita sem discussão. O versículo 26 concede, e concede nos termos em que o pedido foi formulado — o que fixa o terreno de tudo o que vem depois. Vale registrar, porém, o modo desconcertante como a história responderá: no capítulo 19 ninguém é poupado por causa de ninguém dentro dos muros. Uma família é puxada para fora pela mão, e o narrador informa que isso aconteceu porque Deus se lembrou de Abraão. Houve, portanto, transferência de mérito — só que não a que ele pediu, e não pela via que ele propôs. A cidade que ele tentou cobrir foi varrida inteira.













