Mas Ló lhes disse: “Não, meu Senhor, eu te peço!
1. Introdução
Ló acaba de ser arrancado da cidade pela mão. Acaba de ouvir a ordem: foge, não olhes para trás, escapa ao monte.
E a primeira palavra que ele diz é não.
O versículo tem oito palavras em hebraico. Todas as dificuldades do capítulo cabem nelas.
2. Contexto Histórico e Cultural
A primeira palavra é uma recusa
Depois de dois versículos inteiros como objeto dos verbos, Ló volta a falar — e começa negando.
"Meu Senhor"
Aqui está o problema textual do versículo. A forma admite duas leituras, e as duas mudam quem está sendo interpelado.
O singular
Eram dois os enviados. Ló responde no singular.
"Eu te peço"
A partícula de súplica, a mesma que ele usou no versículo 2 ao convidar os visitantes.
O que vem depois
Os versículos 19 e 20 trarão o argumento. Este traz só a recusa.
O que o texto não faz
Não comenta. Não repreende. Registra e segue.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas Ló lhes disse"
Convém começar observando onde este versículo cai, porque a posição dele é metade do seu peso.
Nos versículos 16 e 17, Ló não fala. Ele é agarrado pela mão, feito sair, depositado fora da cidade, e recebe uma ordem em quatro partes: foge por tua vida, não olhes para trás, não pares na planície, escapa ao monte.
Toda a gramática ali é passiva. Ele é objeto dos verbos.
Aqui ele volta a ser sujeito. E a primeira coisa que faz com a voz recuperada é recusar.
Vale registrar o dado sem transformá-lo em sentença. O narrador não comenta a recusa, não a chama de ingratidão, não a repreende. Ele a registra.
Mas ela existe, e quem lê em sequência percebe: o homem que precisou ser carregado para fora está, uma frase depois, discutindo o destino.
Observe-se também o número. O texto diz que ele disse a eles — plural, os dois enviados. Mas a resposta que ele dá está no singular: "meu Senhor". E o versículo 21 dirá que "ele lhe respondeu", também no singular.
Essa alternância entre plural e singular atravessa os dois capítulos, e não se resolve.
"Não"
A palavra é breve e o hebraico a escreve com duas letras.
Convém dizer o que ela está negando, porque não é uma coisa só.
A ordem do versículo 17 tinha quatro partes. Ló não recusa a fuga — ele quer fugir. Não recusa a pressa. O que ele recusa é o destino: o monte.
E, ao recusar o monte, recusa também a parte da ordem que dizia "não pares em toda esta planície", porque a cidade que vai pedir está na planície.
Ou seja: a recusa é parcial e é precisa. Ló aceita ser salvo; discorda de onde.
Vale reter isso porque muda a leitura da cena. Não é rebelião nem descrença — é negociação sobre condições.
"meu Senhor"
Aqui está o ponto denso do versículo, e ele exige que se explique como o texto hebraico é transmitido.
A forma escrita admite duas vocalizações, e a tradição as distingue.
Numa delas, o termo é o plural de majestade usado exclusivamente para Deus — o mesmo que a tradição judaica lê no lugar do nome divino.
Na outra, é a forma comum, profana, que significa "meu senhor" e serve para qualquer superior humano.
Vale confrontar com os dois lugares já examinados.
Em 18:3, Abraão usou essas consoantes e os massoretas vocalizaram a forma sagrada.
Em 19:2, Ló usou as mesmas consoantes ao convidar os visitantes, e ali vocalizaram a forma profana e plural: "meus senhores".
Aqui, no versículo 18, a tradição textual vocaliza a forma sagrada, no singular.
Convém medir com cuidado o que isso significa.
Significa que a tradição que transmitiu o texto leu esta fala como dirigida a Deus, e não aos dois mensageiros — e que leu 19:2 de outro modo, embora as consoantes sejam as mesmas.
Não significa que a camada consonantal fizesse essa distinção. Ela não faz. A diferença é decisão de leitura, tomada séculos depois.
E aqui a decisão é notável, porque o narrador acabou de dizer que Ló falou a eles, no plural, aos enviados. A vocalização puxa a fala para outro destinatário.
Registro como dado da transmissão, e registro o que ele revela: os transmissores perceberam que a alternância entre os enviados e o SENHOR, ao longo destes dois capítulos, é instável — e tomaram posição onde podiam tomar.
"eu te peço"
A partícula hebraica de rogo, que se acrescenta a pedidos e ordens para amaciá-los.
Vale notar que é exatamente a mesma que Ló usou no versículo 2, ao insistir com os visitantes: "peço que venham à casa do seu servo".
A simetria é do texto. Ló pediu que entrassem; agora pede que o deixem não subir ao monte.
E vale notar o que essa partícula faz com o "não" que a precede. Ló recusa e suplica na mesma frase — a recusa vem embrulhada em deferência.
Não é confronto. É pedido de exceção.
O que este versículo prepara
Convém fechar apontando adiante, porque a frase é uma abertura e não um episódio.
Os versículos 19 e 20 trarão o argumento completo: Ló dirá que encontrou favor, que a misericórdia foi grande, que sua vida foi conservada — e então dirá que não consegue chegar ao monte, e pedirá uma cidade pequena, ali perto.
O versículo 21 trará a resposta, e ela será um sim.
O versículo 22 dará a razão da pressa e o nome do lugar.
Ou seja: este "não" é o começo de uma negociação bem-sucedida.
E vale registrar o paralelo que o capítulo anterior deixou armado, porque ele é difícil de não ver.
Em 18:23-33, Abraão negociou com Deus. Desceu de cinquenta a dez, e cada pedido dele era por outros — pela cidade, pelos justos que talvez houvesse ali.
Aqui Ló negocia também. E o pedido é por si mesmo.
O narrador não estabelece a comparação. Põe as duas negociações a dezoito versículos de distância e não diz nada.
Registro como leitura do encadeamento, e registro o seu limite: as situações não são iguais. Abraão negociava do lado de fora, sem risco; Ló negocia com a cidade prestes a arder atrás de si, e o texto acaba de dizer que ele mal conseguia andar.
Pedir por si, nessa circunstância, não é o mesmo que pedir por si em qualquer circunstância.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Ló — recupera a fala e a usa para recusar o destino que lhe foi dado.
Os dois mensageiros — o texto diz que Ló falou "a eles", no plural.
"Meu Senhor" — a forma vocalizada aqui é a que a tradição reserva a Deus, no singular.
O monte — o destino ordenado em 19:17 e recusado aqui.
A planície — onde está a cidade que Ló vai pedir nos versículos seguintes.
5. Pontos de Ensino
A primeira palavra de Ló é "não". Depois de dois versículos como objeto dos verbos.
O narrador não repreende. Registra a recusa e segue.
A recusa é parcial e precisa. Ló quer fugir; discorda do destino.
"Meu Senhor" está no singular. Mas o texto diz que ele falou aos dois.
A vocalização aqui é a forma sagrada. Em 19:2, com as mesmas consoantes, é a profana.
Isso é decisão de transmissão. A camada consonantal não distingue.
A partícula de rogo é a mesma do versículo 2. Ló pediu que entrassem; agora pede exceção.
Recusa e súplica na mesma frase. Não é confronto: é pedido de exceção.
Abraão negociou por outros; Ló negocia por si. O texto não compara — e as circunstâncias diferem.
6. Aspectos Filosóficos
Onde a frase cai
Metade do peso deste versículo está na sua posição, e convém começar por ela.
Nos dois versículos anteriores Ló não abre a boca: é agarrado pela mão, feito sair, depositado fora dos muros, e recebe uma ordem quádrupla — escapa por tua vida, não olhes para trás, não pares na planície, foge ao monte. A gramática toda o trata como aquilo sobre o que se age.
Agora ele volta a ser sujeito. E o primeiro uso que faz da voz recuperada é negar.
Cabe registrar sem converter em sentença: o narrador não qualifica a recusa, não a chama de ingratidão, não a censura. Apenas a consigna. Mas ela está lá, e quem lê em sequência nota que o homem carregado para fora está, uma frase depois, discutindo destino.
Note-se também o número. O relato diz que ele falou a eles — plural, os dois emissários —, mas a resposta sai no singular, e o versículo 21 dirá igualmente que "ele lhe respondeu". Essa oscilação percorre os dois capítulos e não se resolve.
O que exatamente é negado
A palavra é curta, e o hebraico a grafa com duas letras. Importa precisar o alcance dela, porque não recai sobre tudo.
A ordem anterior tinha quatro partes. Ló não rejeita a fuga — quer fugir; nem rejeita a pressa. O que rejeita é o lugar: a montanha. E, ao fazê-lo, rejeita de quebra a cláusula que proibia deter-se na planície, já que a cidade que vai solicitar fica justamente ali.
A negativa, portanto, é parcial e cirúrgica: aceita-se ser salvo, discute-se onde. Isso desloca a leitura da cena — não há rebeldia nem descrença, há negociação de condições.
Uma forma com duas leituras
Chega-se ao ponto denso, que exige explicar como o texto hebraico nos chegou.
A grafia admite duas vocalizações, e a tradição as distingue. Numa, o termo é o plural de majestade empregado exclusivamente para a divindade — o mesmo que a tradição judaica pronuncia no lugar do nome sagrado. Noutra, é a forma corrente e profana, "meu senhor", aplicável a qualquer superior humano.
Compare-se com os dois lugares já examinados. Em 18:3 Abraão usou estas consoantes e os massoretas puseram a vocalização sagrada. Em 19:2 Ló usou as mesmas consoantes ao convidar os visitantes, e ali escolheram a profana e plural, "meus senhores". Aqui a escolha recai sobre a forma sagrada, no singular.
O alcance disso pede cuidado. Atesta que a tradição transmissora leu esta fala como dirigida a Deus, e não aos mensageiros — e que leu 19:2 de modo diverso, apesar de as consoantes coincidirem. Não atesta que a camada consonantal operasse tal distinção, porque ela não a opera: trata-se de decisão de leitura, tomada séculos mais tarde.
E a decisão é notável justamente aqui, porque o narrador acabou de informar que Ló falou a eles, no plural. A vocalização arrasta a fala para outro interlocutor. É dado de transmissão, e o que ele revela é que os antigos perceberam a instabilidade da alternância entre os enviados e o SENHOR nestes capítulos, e tomaram partido onde lhes era possível.
Recusar suplicando
Segue-se a partícula hebraica de rogo, aquela que se anexa a pedidos e ordens para abrandá-los.
É exatamente a que Ló empregou no versículo 2, ao insistir com os visitantes para que entrassem em sua casa. A simetria pertence ao texto: pediu que entrassem, pede agora dispensa de subir.
E veja-se o que ela faz com a negativa que a antecede: Ló nega e implora na mesma frase, embrulhando a recusa em deferência. Não é enfrentamento — é requerimento de exceção.
Duas negociações a dezoito versículos de distância
Cabe fechar olhando adiante, pois a frase abre algo em vez de encerrar.
Os versículos 19 e 20 trarão o argumento inteiro — favor encontrado, misericórdia grande, vida conservada, incapacidade de alcançar o monte — e o pedido de uma cidade pequena ali perto. O 21 trará a resposta, que será afirmativa. O 22 dará a razão da urgência e o nome do lugar.
Este "não", portanto, inaugura uma negociação que dá certo.
E há um paralelo que o capítulo precedente deixou armado e é difícil não enxergar: em 18:23-33 Abraão negociou com Deus, descendo de cinquenta a dez, e cada lance seu era por outros — pela cidade, pelos justos que ali pudesse haver. Aqui também se negocia, mas o pedido é por si mesmo.
O narrador não estabelece a comparação: dispõe as duas cenas a dezoito versículos uma da outra e cala. Registro como leitura do encadeamento, com o seu limite — as situações não são equivalentes. Abraão negociava de fora, sem risco pessoal; Ló negocia com a cidade prestes a arder às suas costas, e o texto acabou de dizer que ele mal se movia. Pedir por si, nessa circunstância, não é o mesmo que pedir por si em qualquer outra.
7. Aplicações Práticas
A fala volta antes da iniciativa
Nos dois versículos anteriores Ló é agarrado pela mão, feito sair e depositado fora dos muros — objeto de todos os verbos. Aqui ele volta a ser sujeito, e o primeiro uso que faz da voz é negar.
O narrador não repreende: registra.
Vale reter o descompasso, porque ele se repete fora do texto. A capacidade de argumentar costuma reaparecer bem antes da capacidade de agir, e quem foi carregado para fora de uma situação frequentemente começa a discutir condições antes de conseguir andar sozinho.
Uma recusa pode ser cirúrgica
A ordem tinha quatro partes. Ló não recusa a fuga, nem a pressa: recusa o destino. E, ao recusar o monte, derruba de quebra a cláusula que proibia parar na planície, porque a cidade que vai pedir fica lá.
Não é rebeldia nem descrença — é negociação de condições.
Serve como distinção prática que se perde com frequência. Discordar de onde não é discordar de se, e tratar as duas coisas como a mesma costuma transformar um ajuste possível numa ruptura desnecessária.
Negar e suplicar na mesma frase
A partícula de rogo que Ló usa aqui é exatamente a que ele empregou no versículo 2, ao insistir com os visitantes para que entrassem em sua casa. Pediu que entrassem; pede agora dispensa de subir.
A recusa vem embrulhada em deferência — não é enfrentamento, é requerimento de exceção.
É um registro que vale conhecer, porque funciona: quem pede exceção reconhecendo a autoridade de quem concede está numa posição diferente de quem simplesmente se recusa. O texto não elogia isso, mas a resposta do versículo 21 será um sim.
Quem transmite decide, e a decisão fica
As consoantes de "meu Senhor" aqui são as mesmas de 19:2, onde a tradição leu "meus senhores", dirigido a dois homens. Aqui a vocalização é a forma reservada a Deus — e isso apesar de o narrador acabar de dizer que Ló falou a eles, no plural.
Não é o texto consonantal que distingue; é a leitura, tomada séculos depois.
Fica como exercício permanente: em qualquer texto antigo, uma parte do que parece evidente foi decidida por alguém no caminho. Reconhecer onde está a decisão não desfaz o texto — deixa de fazer passar por dado o que é interpretação.
Duas negociações, e o que as separa
Dezoito versículos antes, Abraão negociou com Deus descendo de cinquenta a dez, e cada lance era por outros. Aqui se negocia de novo, e o pedido é por si.
O narrador não compara: dispõe as duas cenas e cala.
Mas convém não converter isso em condenação, porque as circunstâncias diferem por inteiro. Abraão negociava de fora, sem risco; Ló negocia com a cidade prestes a arder às costas, e acabou de ser carregado porque não conseguia andar. Pedir por si nessa situação não é o mesmo que pedir por si em qualquer outra — e o hábito de comparar pessoas ignorando de onde cada uma fala produz julgamentos que não se sustentam.
Um "não" pode ser o começo de um acordo
Esta recusa não termina nada: abre os versículos 19 e 20, onde vem o argumento completo, e desemboca no 21, que é um sim.
A negociação dá certo.
Vale notar o desenho, porque contraria a expectativa de que a objeção seja o fim da conversa. Aqui ela é o início — e o que vem depois do "não" é que determina se a frase era muro ou porta.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que a primeira palavra de Ló é "não"?
O texto não explica. Registra que, depois de dois versículos em que ele é agarrado pela mão, feito sair e depositado fora da cidade — sempre como objeto dos verbos —, ele recupera a fala e a usa para recusar.
Ló está recusando a salvação?
Não. A ordem do versículo 17 tinha quatro partes, e ele rejeita apenas o destino: o monte. Não rejeita a fuga nem a pressa. Ao recusar o monte, derruba também a cláusula que proibia parar na planície, porque a cidade que vai pedir fica lá. É negociação de condições, não rebeldia.
O narrador condena essa recusa?
Não a qualifica de nenhum modo. Não a chama de ingratidão, não a censura, não comenta. Apenas a consigna e segue.
Ló fala com os mensageiros ou com Deus?
O narrador diz que ele falou "a eles", no plural. Mas a resposta sai no singular — "meu Senhor" —, e o versículo 21 dirá igualmente que "ele lhe respondeu". Essa oscilação percorre os dois capítulos e não se resolve.
E a forma "meu Senhor" — é a mesma de 19:2?
As consoantes são as mesmas, mas a vocalização difere. Em 19:2 a tradição pôs a forma comum e plural, "meus senhores", dirigida a dois homens; aqui pôs a forma que se reserva à divindade, no singular. Em 18:3, com Abraão, também a forma sagrada.
Isso prova que Ló falava com Deus?
Prova que a tradição transmissora leu assim. Não prova que a camada consonantal — a mais antiga — fizesse a distinção, porque nela as passagens coincidem. É decisão de leitura, tomada séculos depois, e notável justamente aqui, onde o narrador acabou de dizer que ele falou aos dois.
O que significa "eu te peço"?
É a partícula hebraica de rogo, que se anexa a pedidos para abrandá-los — exatamente a que Ló usou no versículo 2 ao insistir com os visitantes. Ele nega e implora na mesma frase: a recusa vem embrulhada em deferência, e é requerimento de exceção, não enfrentamento.
Há relação com a negociação de Abraão no capítulo 18?
O narrador não a estabelece — dispõe as duas cenas a dezoito versículos uma da outra e cala. Abraão desceu de cinquenta a dez, e cada lance era por outros; aqui o pedido é por si. Mas as circunstâncias diferem: Abraão negociava de fora, sem risco, e Ló negocia com a cidade prestes a arder às costas, tendo sido carregado porque não conseguia andar.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 19:17 — Escapa-te por tua vida; não olhes para trás, e não pares em toda esta campina; escapa-te lá para o monte, para que não pereças.
A ordem em quatro partes que este versículo recusa em parte.
Gênesis 19:16 — Os homens lhe pegaram pela mão... e o puseram fora da cidade.
Os verbos em que Ló era objeto.
Gênesis 19:2 — Eis agora, meus senhores, peço que venham à casa do seu servo.
As mesmas consoantes, vocalizadas de outro modo, e a mesma partícula de rogo.
Gênesis 18:3 — Senhor meu, se agora achei graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo.
A forma sagrada, na boca de Abraão.
Gênesis 18:30 — Não se ire o Senhor, se ainda falar.
A outra negociação, feita por outros.
Gênesis 19:20 — Eis que aquela cidade está perto... deixa-me fugir para ali.
O pedido que este "não" prepara.
Gênesis 19:21 — Também nisto atendi ao seu pedido.
A resposta, que é um sim.
Êxodo 4:13 — Envia, peço-te, pela mão daquele a quem tu hás de enviar.
Outra recusa embrulhada na mesma partícula de rogo.
Juízes 6:15 — Ai, Senhor meu, com que livrarei eu a Israel?
A objeção deferente diante de uma ordem.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Mas Ló lhes disse: “Não, meu Senhor, eu te peço!
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר לוֹט אֲלֵהֶם אַל־נָא אֲדֹנָי
Transliteração
wayyomer Lot alehem al-na adonai
Palavra por palavra
וַיֹּאמֶר לוֹט (wayyomer Lot) — "e disse Ló"
É a primeira vez, desde o versículo 14, que Ló é sujeito de um verbo de fala.
Nos versículos 16 e 17 ele não fala: é agarrado, feito sair, depositado, e recebe ordens.
אֲלֵהֶם (alehem) — "a eles"
A preposição com sufixo de terceira pessoa do plural masculino.
O narrador é explícito: são dois os interlocutores.
Isso importa para o que vem em seguida, porque a resposta virá no singular.
אַל־נָא (al-na) — "não, peço"
A partícula al é a negativa usada com pedidos e ordens — distinta de lo, que nega afirmações.
O acréscimo de na é a partícula de rogo, que abranda: "não, por favor".
Note-se que Ló usou essa mesma partícula de rogo em 19:2, ao convidar os visitantes.
אֲדֹנָי (adonai) — "meu Senhor"
Aqui está o ponto de transmissão do versículo.
As consoantes são as mesmas de 19:2. A vocalização é que difere: ali, a forma comum e plural, "meus senhores"; aqui, a forma que a tradição reserva à divindade, no singular.
Em 18:3, com Abraão, a vocalização também é a sagrada.
A camada consonantal não distingue os três lugares. A distinção é decisão dos vocalizadores.
Nota — três palavras e uma tensão inteira
Vale fechar observando a economia da frase, porque ela é curtíssima e carrega o problema todo.
O hebraico tem, depois do verbo e do nome, apenas três elementos: "a eles", "não, peço", "meu Senhor".
E os dois últimos brigam com o primeiro.
"A eles" é plural e aponta para os dois mensageiros. "Meu Senhor", como foi vocalizado, é singular e aponta para Deus.
Numa só frase de oito palavras, o texto diz que Ló falou a dois e registra a fala dirigida a um.
Convém não resolver o que o texto não resolve.
Uma explicação possível: o singular é fórmula de tratamento respeitoso, e Ló se dirige ao que fala em nome dos dois — o versículo 17 disse "um deles disse", o que já singularizava.
Outra: a vocalização registra uma leitura teológica posterior, que identificou o interlocutor com o SENHOR.
Outra ainda: a alternância entre os enviados e o SENHOR, que atravessa os capítulos 18 e 19 sem coerência, aflora aqui em três palavras.
Não é possível decidir. E o versículo 21, ao responder no singular, mantém a ambiguidade em vez de desfazê-la.
11. Conclusão
A força desta frase vem, em boa medida, de onde ela está colocada. Nos dois versículos precedentes Ló permanece mudo: é seguro com firmeza pela mão, retirado, largado fora dos muros, e recebe uma injunção de quatro membros — escapa pela vida, nada de olhar para trás, nada de deter-se na várzea, sobe ao monte. Toda a construção o trata como aquilo sobre o que se atua. Recobra agora a condição de sujeito, e a estreia da voz recuperada é uma negativa. O relato não a adjetiva, não fala em ingratidão, não censura — apenas consigna; mas ela está ali, e quem percorre a sequência repara que o homem transportado para fora discute destino uma frase depois.
Convém precisar sobre o que recai a negativa, pois não cobre tudo. Das quatro cláusulas da ordem, Ló descarta uma só: o lugar. Não descarta a fuga, que deseja, nem a urgência. Ao rejeitar a montanha, derruba de passagem a proibição de estacionar na várzea, uma vez que a povoação a ser solicitada fica exatamente lá. Trata-se, portanto, de recusa parcial e de mira estreita — aceita-se ser salvo, discute-se onde —, o que remove da cena qualquer coloração de revolta ou incredulidade e a devolve ao terreno da negociação de condições. E a negativa vem acompanhada da partícula hebraica de súplica, aquela que se agrega a rogos e mandamentos para amaciá-los, a mesmíssima que Ló empregara no versículo 2 ao insistir para que os hóspedes entrassem: nega e implora simultaneamente, e o que resulta não é enfrentamento, e sim pedido de exceção formulado em registro deferente.
Resta o termo com que ele se dirige ao interlocutor, e aqui é preciso explicar como o texto nos chegou. A grafia consonantal comporta duas vocalizações que a tradição distingue: uma é o plural de majestade privativo da divindade, aquele que se pronuncia no lugar do nome sagrado; a outra é a forma corrente e profana, aplicável a qualquer superior humano. Em 18:3 Abraão empregou estas consoantes e os vocalizadores optaram pela sagrada; em 19:2 Ló empregou as mesmas ao convidar os visitantes, e ali optaram pela profana, no plural; aqui a escolha recai novamente sobre a sagrada, no singular. Atesta-se, com isso, que a tradição transmissora entendeu esta fala como endereçada a Deus e a de 19:2 como endereçada a dois homens — apesar de as consoantes coincidirem nos três lugares. Não se atesta que o estrato consonantal fizesse tal separação, porque não faz: a distinção é ato de leitura, posterior em séculos, e particularmente chamativa aqui, onde o narrador acabou de informar, com preposição no plural, que Ló falou a eles. Numa sentença de oito palavras convivem, sem conciliação, um plural que aponta para os mensageiros e um singular que aponta para o SENHOR. As explicações disponíveis — fórmula respeitosa dirigida ao porta-voz, já que o versículo 17 dissera "um deles disse"; camada de leitura teológica tardia; ou o afloramento, em três vocábulos, da alternância instável que atravessa os dois capítulos — não permitem decidir, e o versículo 21, ao responder também no singular, preserva a ambiguidade em vez de dissolvê-la.
Cabe, por fim, notar que este "não" nada encerra: abre o argumento dos versículos 19 e 20 — favor encontrado, misericórdia grande, vida preservada, impossibilidade de alcançar a montanha, súplica por uma povoação pequena e próxima — e desemboca num consentimento. A negociação prospera. E há o eco daquela outra, dezoito versículos atrás, em que o patriarca desceu de cinquenta a dez pleiteando sempre por terceiros, ao passo que aqui se pleiteia por si. O narrador não confronta as duas cenas: dispõe-nas e se cala. Registro o encadeamento com a ressalva devida, porque as situações não se equivalem — um negociava de fora, sem perigo próprio; o outro negocia com a cidade a ponto de arder às costas, tendo acabado de ser carregado por não conseguir mover-se. Suplicar por si nessas condições não é o mesmo que suplicar por si em quaisquer outras.













