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Gênesis 19:35

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 33 min de leitura·👁 7 acessos
Também naquela noite deram vinho a beber ao pai; e a mais nova levantou-se e se deitou com ele, sem que ele percebesse quando ela se deitou nem quando se levantou.
Interior de uma caverna à noite, iluminado por uma lamparina de barro, com jarros de vinho ao lado de uma esteira.

Estudo


Também naquela noite deram vinho a beber ao pai; e a mais nova levantou-se e se deitou com ele, sem que ele percebesse quando ela se deitou nem quando se levantou.

1. Introdução

O versículo 35 é quase idêntico ao 33. Muda o nome de quem entra, muda um verbo, muda uma preposição — e nada mais.

Essa repetição não é descuido de copista. É recurso.

Um dos maiores comentaristas de Gênesis a chamou de particularmente artística, e observou algo que passa despercebido: a segunda conversa, no versículo 34, não era necessária para a ação acontecer.

Ela está ali para produzir o par. E é a simetria quase mecânica das duas noites que carrega o efeito.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde as três pessoas estão

A cena se passa numa caverna, no monte, acima de Zoar. O versículo 30 informou a mudança e o motivo: Ló teve medo de continuar na cidade pequena que havia acabado de pedir.

Vale reter a ironia geográfica. O monte é exatamente o destino que os mensageiros ordenaram em 19:17 e que Ló alegou não conseguir alcançar em 19:19. Ele chega lá por conta própria, sem ordem, depois.

Cavernas serviam de moradia e refúgio em toda a região montanhosa da Palestina. Davi se esconderá numa (1 Samuel 22:1), e Saul entrará noutra (1 Samuel 24:3). Não é cenário exótico: é abrigo comum de quem não tem casa.

De onde saiu o vinho

O texto não diz. E a pergunta não é moderna nem maliciosa: os leitores antigos a fizeram.

Três pessoas fogem de uma cidade em destruição, saem com o que carregam nas mãos, passam por Zoar, sobem ao monte e se instalam numa caverna. Duas noites seguidas há vinho suficiente para embriagar um homem adulto até a inconsciência.

Gênesis Rabá 51:8 responde que o vinho estava ali, disponível, preparado para a ocasião. Convém registrar o que essa resposta é: uma solução rabínica para uma dificuldade que o próprio relato cria, e não um dado do texto.

Do ponto de vista da composição, a explicação mais econômica é que o narrador não se interessa pela logística. Ele precisa do vinho porque o vinho cumpre função na história — e a função é a mesma que cumpriu no capítulo 9.

O vinho no mundo antigo

Vinho era bebida corrente, não luxo. Fazia parte da dieta, entrava nas ofertas do culto e acompanhava festa e hospitalidade.

A embriaguez, essa sim, era assunto de censura. Provérbios 23:29-35 descreve o bêbado com precisão clínica e algum humor; Isaías 5:11 condena os que madrugam atrás de bebida forte.

Há um texto profético que descreve exatamente o procedimento das filhas, embora não fale delas. Habacuque 2:15 lança um ai contra quem dá de beber ao próximo com a finalidade de o ver nu. A prática de embriagar alguém para fazer com ele o que não se faria de outro modo era conhecida, tinha nome e recebia condenação explícita.

Genesis não faz essa ligação. Mas ela existe dentro da Bíblia, e o leitor tem o direito de saber que existe.

O padrão de Noé

O antigo Oriente Próximo contava histórias sobre a origem dos povos vizinhos, e essas histórias costumavam explicar a posição de cada um pelo comportamento do ancestral.

Gênesis usa esse molde mais de uma vez, e uma das vezes é praticamente a mesma cena. Depois do dilúvio, Noé planta vinha, bebe, embriaga-se e fica descoberto na tenda; um filho faz alguma coisa; e a consequência recai sobre a descendência — Canaã, o povo (Gênesis 9:20-27).

Aqui: depois da destruição das cidades, um pai bebe, perde a consciência, algo acontece — e a consequência aparece na descendência, com dois povos nomeados no fim do capítulo.

Pai, vinho, ato sexual encoberto, povo vizinho estigmatizado. O molde é reconhecível, e reconhecê-lo não decide nada sobre o que aconteceu. Diz apenas em que gênero de narrativa estamos.

A dupla noite como técnica

Contar duas vezes quase com as mesmas palavras é procedimento antigo de composição oral e escrita. A repetição fixa a memória, marca o ritmo e cria o par.

No caso, o par tem função etiológica: são duas filhas, duas noites, dois filhos, dois povos. A estrutura precisa dos dois lados para chegar em Moabe e Amom.

3. Análise Teológica do Versículo

"Também naquela noite deram vinho a beber ao pai"

A primeira palavra do versículo carrega quase tudo, e no hebraico ela vem logo em seguida ao verbo: gam, "também".

É a partícula da repetição. Ela informa que o que vai ser narrado já foi narrado antes, e amarra as duas noites num único desenho.

O verbo está no causativo: elas não bebem, elas fazem beber. O hebraico usa a forma que se emprega para dar de beber a rebanhos e a hóspedes, e a construção põe o pai na posição de quem recebe a ação.

A distribuição de papéis gramaticais é constante nas duas noites. As filhas são sujeito de todos os verbos; o pai é objeto ou não é nada.

Repare no que o texto não informa. Não diz a quantidade. Não diz que houve engano quanto à bebida — nada indica que o vinho estivesse alterado, ou que Ló ignorasse que bebia vinho. Não diz se ele resistiu, hesitou ou aceitou de bom grado.

Essa lacuna abriu, desde a antiguidade, a discussão sobre a responsabilidade dele. Quem bebe até perder os sentidos duas noites seguidas responde por ter bebido, ainda que não responda pelo resto — e é exatamente aí que a maior parte dos leitores antigos vai localizar a culpa de Ló, como se verá no versículo seguinte.

Há ainda um detalhe de vocabulário que vale segurar. O verbo empregado aqui é o mesmo de Habacuque 2:15, o único lugar da Bíblia que descreve, como prática reprovável, dar de beber ao próximo para o ver nu.

Gênesis não cita Habacuque, e Habacuque não cita Gênesis. Registro a coincidência de vocabulário sem transformá-la em prova.

"e a mais nova levantou-se"

Duas palavras mudam de uma noite para a outra, e as duas estão nesta frase.

A primeira é o sujeito. Na noite anterior era habbekhirah, a primogênita; agora é hatze'irah, a mais nova. São os dois termos técnicos de ordem de nascimento, e o texto nunca dá nome a nenhuma das duas.

Vale observar isso, porque é escolha de composição: as personagens que agem no fim de Gênesis 19 são designadas apenas pela posição na fila dos filhos. Elas não têm nome nem no capítulo, nem no resto da Bíblia.

A segunda mudança é o verbo. No versículo 33 a mais velha "entrou" — o verbo do movimento para dentro, que a Bíblia frequentemente usa em contexto sexual. Aqui a mais nova "levantou-se".

Não é possível decidir o que a troca significa, e há duas leituras razoáveis.

A primeira é estilística: a prosa hebraica alterna verbos em passagens paralelas por gosto de variação, e isso acontece com frequência.

A segunda é posicional: a mais nova estaria deitada, dormindo, e precisa levantar-se para ir; a mais velha estaria fora e precisa entrar. A diferença descreveria a posição de cada uma no interior da caverna.

Há um terceiro dado, e esse é objetivo. A raiz de "levantar-se" reaparece no fim do mesmo versículo, na expressão "quando se levantou". O verso abre e fecha com a mesma raiz: ela se levanta para ir, ela se levanta para sair, e ele não percebe nenhum dos dois movimentos.

O versículo 33 não tem esse fecho circular, porque lá o verbo de entrada é outro. É um pequeno ganho de acabamento na segunda noite.

"e se deitou com ele"

Aqui está a diferença mais interessante entre as duas noites, e ela é invisível em português.

O verbo é o mesmo: shakhav, deitar-se. O que muda é o que vem depois dele.

No versículo 33, o hebraico escreve vattishkav et-aviha — com a partícula que marca o objeto direto: "deitou-se o seu pai", numa construção que soa estranha em qualquer língua moderna.

Aqui, no versículo 35, escreve-se vattishkav immo — com a preposição: "deitou-se com ele".

Convém explicar por que isso importa. Deitar-se com alguém tratando a pessoa como objeto direto do verbo é uma construção rara, e ela se concentra em contextos específicos.

Aparece em Gênesis 34:2, quando Siquém toma Diná. Aparece em 2 Samuel 13:14, quando Amnom força Tamar. E aparece nos estatutos de Levítico 20:11-12, que punem com a morte quem se deita com a mulher do pai e quem se deita com a nora — as duas leis de incesto que mais se aproximam da situação deste capítulo.

Muitos estudiosos propõem, a partir disso, que a construção com objeto direto carrega força de violação ou de coação, enquanto a construção com preposição é neutra.

Convém marcar o grau de certeza. A distribuição é sugestiva, não é regra sem exceção, e a diferença pode ser apenas cronológica — construções tardias substituindo antigas. Não é possível decidir com segurança.

O que se pode afirmar é o seguinte, e já é bastante.

Na noite da primogênita, o texto usa a construção que aparece nas cenas de força e nas proibições de incesto — e usa com uma inversão notável: nesses outros lugares, o homem é o sujeito e a mulher é o objeto; aqui a filha é o sujeito e o pai é o objeto.

Na noite da mais nova, o texto muda para a construção neutra.

Por que muda, o relato não diz. Registro como dado, não como conclusão.

"sem que ele percebesse quando ela se deitou nem quando se levantou"

O fecho é palavra por palavra igual ao do versículo 33, com uma única diferença de grafia, que fica para o item da análise do original.

O verbo negado é yada, conhecer, saber, perceber. E esse verbo tem uma história dentro deste capítulo.

No versículo 5, a multidão de Sodoma exige que Ló entregue os hóspedes "para que os conheçamos" — no sentido sexual, sem disfarce.

No versículo 8, Ló oferece as duas filhas dizendo que elas "não conheceram homem" — o mesmo verbo, descrevendo virgindade.

E agora, nos versículos 33 e 35, o verbo aparece negado, aplicado ao próprio Ló: ele não conheceu, não percebeu, não soube.

A palavra atravessa o capítulo em três posições: exigência violenta, oferta do pai, e ausência total de percepção do pai. Quem ofereceu as filhas alegando que elas não conheciam homem termina sendo o que não conhece o que se passa com ele.

Essa simetria é do texto. O narrador não a comenta, e não diz que se trata de castigo, de justiça poética ou de qualquer outra coisa.

Vale ainda notar o par de verbos que fecha a frase: deitar-se e levantar-se.

Os dois juntos formam uma expressão consagrada em hebraico para dizer "sempre", "em toda a extensão do dia". É a fórmula de Deuteronômio 6:7, sobre ensinar os mandamentos aos filhos "ao deitar-te e ao levantares-te".

No mesmo par de palavras que em outro lugar significa a totalidade da vida desperta, aqui se mede a totalidade do que Ló não percebeu. Registro como observação literária. Não há como estabelecer que um texto esteja aludindo ao outro.

A repetição como recurso deliberado

Falta tratar o mais evidente, que é justamente o que costuma passar batido: por que o narrador conta duas vezes a mesma coisa quase com as mesmas palavras.

Hermann Gunkel, no comentário clássico a Gênesis, chamou essa repetição de particularmente artística, e apontou o detalhe decisivo: a segunda exortação, no versículo 34, não era necessária para a ação.

A ação já estava decidida no versículo 32, e o plano previa as duas. A conversa do dia seguinte não acrescenta informação nova, não muda o plano, não encontra resistência. Ela está ali pelo par — pelo efeito de espelho entre as duas noites.

Leituras modernas acrescentam outra camada. Vários comentaristas leem a segunda noite como reencenação: a repetição idêntica de um ato, com os mesmos gestos e as mesmas palavras, é a forma que a narrativa encontra de mostrar algo que se tornou procedimento.

É uma leitura, não uma prova. Mas convém dizer que as duas descrições não competem.

Uma fala da técnica: o autor constrói um par simétrico porque a etiologia precisa de dois filhos. A outra fala do efeito: a simetria maquinal, repetida sem variação e sem hesitação, produz no leitor uma sensação particular, que nenhuma noite única produziria.

São a mesma observação vista dos dois lados. E o que a sustenta é objetivo: o narrador tinha a opção de resumir a segunda noite numa frase — "e na noite seguinte fez o mesmo a mais nova" — e escolheu repetir tudo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A filha mais novahatze'irah, designada apenas pela ordem de nascimento; age na segunda noite; nunca recebe nome na Bíblia.

A filha mais velhahabbekhirah, a primogênita do versículo 33; agiu na primeira noite e propôs a segunda no versículo 34.

— objeto gramatical de quase todos os verbos da cena; o texto registra que não percebeu nada, nas duas noites.

A caverna no monte — a moradia desde o versículo 30, acima de Zoar; o mesmo monte que ele dissera não conseguir alcançar.

O vinho — instrumento da cena; a origem não é informada pelo texto.

A segunda noite — repetição quase literal da primeira, com três diferenças: o sujeito, o verbo de aproximação e a construção de "deitar-se".

5. Pontos de Ensino

O versículo repete o 33 quase palavra por palavra. Mudam o sujeito, um verbo e uma preposição.

A repetição é deliberada. Gunkel a chamou de particularmente artística, e notou que a conversa do versículo 34 não era necessária para a ação.

O narrador podia ter resumido. Uma frase bastaria para a segunda noite; ele escolheu repetir tudo.

As filhas são sujeito de todos os verbos. O pai é objeto ou não aparece.

O texto não informa a quantidade de vinho nem de onde ele veio. A pergunta é antiga, e a resposta rabínica é solução para uma dificuldade do relato, não dado dele.

Na noite da primogênita o hebraico usa a construção das cenas de força. Aqui usa a preposição neutra. Por que muda, o texto não diz.

O verbo "conhecer" atravessa o capítulo. Exigência no versículo 5, virgindade no versículo 8, ausência de percepção nos versículos 33 e 35.

Deitar-se e levantar-se formam a fórmula da totalidade. A mesma de Deuteronômio 6:7, aqui medindo o que Ló não percebeu.

Habacuque 2:15 descreve a prática de embriagar alguém para o ver nu. Gênesis não faz a ligação, mas ela existe dentro da Bíblia.

O molde é o de Gênesis 9. Pai, vinho, ato encoberto, povo vizinho estigmatizado.

6. Aspectos Filosóficos

Um ato praticado sobre alguém que não está presente

A questão que este versículo põe diante do leitor não depende de época nem de cultura: o que se faz com um corpo cuja consciência foi retirada de propósito.

Ló não consente e não recusa. Ele foi colocado, por meio deliberado, num estado em que nenhuma das duas coisas é possível. E a frase final registra a operação de forma técnica: não soube quando ela se deitou, não soube quando se levantou.

Nossa linguagem jurídica moderna tem palavras para isso que o hebraico não tem. Convém não projetá-las sobre o texto como se ele as usasse. O que se pode afirmar é mais simples e não exige vocabulário moderno: quem retira a consciência de alguém para agir sobre ele age sozinho, e a ausência de reação não é aprovação.

Habacuque 2:15 mostra que a Bíblia sabia disso. O profeta lança um ai contra quem dá de beber ao próximo com o fim de o ver nu — o procedimento nomeado e reprovado, ainda que em outro contexto.

Repetir é uma forma de deliberar

Há uma diferença moral, reconhecida em praticamente toda tradição de reflexão sobre a ação, entre o que se faz uma vez e o que se refaz.

A primeira vez pode ser explicada por pânico, cálculo apressado, circunstância extraordinária. A segunda vez tem, entre ela e a primeira, um dia inteiro.

O relato aproveita esse dia. O versículo 34 traz uma conversa em plena luz, com balanço do que ocorreu e planejamento do que vai ocorrer. Entre as duas noites houve tempo, palavra e escolha.

Por isso a estrutura do episódio é, ela própria, um argumento — e não um argumento do comentarista, mas do arranjo do texto. Quem quiser sustentar que houve arrebatamento tem de explicar a conversa do meio-dia.

Vale dizer também o contrário, para não fazer da observação uma sentença. Repetição também descreve outra coisa: a passagem de um ato extraordinário à condição de procedimento. O que se fez uma vez custa; o que se faz duas já tem forma, ordem e método. O texto mostra a segunda noite com exatamente os mesmos passos da primeira, e essa exatidão é o que mais impressiona nela.

O silêncio de quem conta

O narrador de Gênesis 19 não avalia nada nesta cena. Não elogia, não condena, não introduz uma voz divina, não antecipa consequência.

Essa contenção tem efeito filosófico preciso. Um relato que julga entrega ao leitor a conclusão pronta e o dispensa de pensar; um relato que descreve e cala transfere o trabalho.

Há um risco nisso, e a história da interpretação demonstra o risco: o silêncio foi preenchido de todas as maneiras possíveis, e cada leitor antigo encontrou no espaço vazio a resposta que já trazia. O versículo seguinte reunirá essas respostas.

Mas há também um ganho, e ele é grande. Um texto que não decide obriga a distinguir três operações que costumam vir embrulhadas: descrever o que aconteceu, explicar por que aconteceu, e dizer se estava certo. As três são diferentes, e confundir a segunda com a terceira é o erro mais comum de quem lê narrativa antiga.

A necessidade cria permissão?

As irmãs deram uma razão, no versículo 31: o pai é velho e não há homem na terra. A razão é de sobrevivência da linhagem, não de desejo.

A pergunta filosófica que daí decorre é antiga e continua aberta: uma finalidade legítima transforma em legítimo o meio que se usa para alcançá-la.

Convém expor os dois lados sem escolher, porque o próprio texto não escolhe.

De um lado, há situações-limite reais, e negar que existam é ingenuidade. Quem julga uma decisão tomada dentro de uma catástrofe a partir da poltrona de quem não está nela julga mal.

De outro lado, a premissa das irmãs era falsa, e o próprio capítulo fornece a prova: elas vinham de Zoar, cidade poupada a pedido do pai delas, habitada, que acabavam de deixar. Não havia homem na terra é uma frase que o versículo 30 já desmente.

Registro isso como o que é: um dado do relato, não uma acusação. Pessoas em estado de choque produzem certezas falsas com regularidade, e o isolamento fecha o mundo depressa.

Quem age e quem é agido

Uma última observação sobre a distribuição de papéis, porque ela inverte o padrão do restante da Bíblia hebraica.

Na quase totalidade das cenas sexuais do Antigo Testamento, o homem é o sujeito dos verbos e a mulher é objeto ou complemento. Aqui a gramática se inverte inteiramente: as filhas decidem, executam, avaliam, repetem. O pai é objeto.

Não convém extrair disso uma tese sobre a condição da mulher no mundo antigo, porque uma inversão isolada não faz padrão, e o mesmo capítulo, no versículo 8, mostra o pai dispondo das filhas como bens.

O que se pode dizer é que o texto registra as duas coisas, com poucos versículos de distância, sem harmonizá-las. As mesmas duas filhas oferecidas à multidão pelo pai são as que, no fim, dispõem dele.

7. Aplicações Práticas

Fazer duas vezes não é fazer uma vez de novo

Entre a primeira noite e a segunda houve um dia inteiro, e o texto registra o que aconteceu nesse dia: uma conversa, um balanço, um plano.

É a diferença entre o ato que se explica pela circunstância e o ato que se transformou em método.

Vale usar essa régua na própria conduta, porque ela é honesta e desconfortável na medida certa. A pergunta não é "por que fiz aquilo", que quase sempre encontra resposta. A pergunta é "por que fiz de novo, tendo tido tempo de pensar entre uma vez e outra" — e essa costuma não encontrar.

Retirar a capacidade de recusar não produz consentimento

Ló não aceita nem recusa: foi posto, de propósito, num estado em que nenhuma das duas coisas era possível. O texto marca isso duas vezes, com o verbo de perceber negado.

Habacuque 2:15 lança um ai contra quem dá de beber ao próximo para o ver nu. A prática tinha nome no mundo bíblico, e tinha condenação.

O princípio vale muito além da cena. Ausência de reação não equivale a concordância, e quem produziu a ausência não pode invocá-la a seu favor. Isso se aplica a bebida, mas também a cansaço, a pressa fabricada, a informação sonegada — a qualquer arranjo em que se obtém um sim de alguém que não tinha condição de dizer não.

Quem narra sem julgar não está aprovando

O relato descreve os dois atos com frieza de inventário e não emite parecer. Nenhuma voz divina fala, nenhuma consequência é anunciada.

Ainda assim, o mesmo livro registra a lei que proíbe, o profeta que condena o procedimento e a genealogia que carrega a marca.

Vale trazer isso para a leitura da Bíblia inteira, porque poupa erros grosseiros nos dois sentidos. Um texto que não condena não está autorizando; um texto que não condena também não está escondendo nada. Ele está contando, e deixando o julgamento em outro lugar do cânon — ou em lugar nenhum.

O isolamento fabrica certezas falsas

A premissa das irmãs, dita no versículo 31, era que não havia homem na terra. Havia: elas tinham acabado de sair de Zoar, cidade poupada e habitada.

Nada indica má-fé. Elas viram uma planície inteira virar fumaça e subiram para uma caverna.

Convém guardar o mecanismo, porque ele é comum e não exige catástrofe para funcionar. Quem passa a viver num círculo fechado, sob choque ou sob medo, começa a tomar o próprio horizonte pelo tamanho do mundo — e decisões extremas parecem razoáveis quando a única alternativa que se enxerga é o fim. O remédio raramente é argumento: é o contato com quem está fora do círculo.

Ser salvo não é ser curado

A família saiu de Sodoma. Os quatro que atravessaram a porta chegaram vivos ao outro lado, e um deles ficou pelo caminho.

O que este capítulo mostra em seguida é que sair do lugar não é sair do estado. O pai que ofereceu as filhas à multidão no versículo 8 aparece aqui inconsciente, e as filhas que ele ofereceu aparecem dispondo dele.

Ler a ligação entre as duas cenas é leitura, não é afirmação do texto — o narrador não a faz. Mas o desenho merece atenção prática: tirar alguém do incêndio é a parte visível e rápida do socorro; o que o incêndio deixou dentro da pessoa leva outro tempo, exige outro tipo de ajuda, e quase nunca é objeto de comemoração.

A repetição anestesia

A segunda noite é contada com exatidão maior que a primeira, e sem uma linha de hesitação. Os passos são os mesmos, na mesma ordem, com as mesmas palavras.

É essa exatidão que perturba o leitor atento, mais do que o ato em si.

O mecanismo é conhecido fora da Bíblia e dentro de qualquer biografia. O que se faz pela primeira vez encontra resistência interna; o que se faz pela segunda já tem procedimento, e a resistência não é vencida, é dispensada. Vale prestar atenção ao momento em que alguma coisa deixa de custar — porque esse momento, e não o primeiro, costuma ser o decisivo.

Perguntar de onde veio o vinho

O texto não diz como três fugitivos de uma cidade destruída, morando numa caverna, dispunham de vinho suficiente para duas noites.

Os leitores antigos notaram e ofereceram respostas; as respostas resolvem a dificuldade, mas nenhuma delas está no relato.

Vale reter o hábito, porque ele serve para ler qualquer coisa. Notar a lacuna é trabalho legítimo e produtivo; preencher a lacuna e depois citar o preenchimento como se fosse o texto é o erro que produz metade das leituras ruins da Bíblia. As duas operações são distintas, e o leitor honesto avisa qual das duas está fazendo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o versículo 35 repete o 33 quase palavra por palavra?

Porque a repetição é recurso, e não descuido. Gunkel a chamou de particularmente artística e apontou a prova: a conversa do versículo 34 não era necessária para a ação, já decidida no versículo 32. Ela existe para formar o par. Além disso, a estrutura precisa de duas noites, porque a narrativa termina em dois filhos e dois povos.

O que muda entre uma noite e outra?

Três coisas. O sujeito — a primogênita na primeira, a mais nova na segunda. O verbo de aproximação — "entrou" no versículo 33, "levantou-se" aqui. E a construção de "deitar-se" — objeto direto lá, preposição aqui. O resto é idêntico.

Essa mudança de construção tem algum peso?

É discutido. A construção com objeto direto aparece em Gênesis 34:2, em 2 Samuel 13:14 e nas leis de incesto de Levítico 20:11-12, e muitos estudiosos propõem que ela carregue força de coação. A distribuição é sugestiva, mas não é regra sem exceção, e a alternância pode ser apenas variação de estilo ou diferença de época. Não é possível decidir.

De onde veio o vinho?

O texto não diz. A pergunta é antiga: Gênesis Rabá 51:8 responde que o vinho estava ali, preparado para a ocasião. Convém tratar isso pelo que é — uma solução para uma dificuldade que o relato cria, e não uma informação do relato. A explicação mais econômica é que o narrador não se interessa pela logística.

Ló é responsável por ter bebido?

O texto não pronuncia veredito nenhum, mas registra o dado: ele bebeu duas noites seguidas. É exatamente aí que a maioria dos leitores antigos localizará a culpa dele, e o versículo seguinte reúne essas leituras.

Por que o narrador não condena?

Gênesis narra sem avaliar em vários pontos difíceis, e este é um deles. Nenhuma voz divina fala nos versículos 30 a 38, nenhuma consequência é anunciada. O julgamento, quando existe, está em outros lugares do cânon: nas leis de Levítico 18 e 20, na maldição de Deuteronômio 27:20, no ai de Habacuque 2:15. Silêncio narrativo não é aprovação, e também não é ocultação.

Que ligação existe com a história de Noé?

O molde é o mesmo: um pai bebe, perde a consciência, algo sexualmente carregado acontece com ele, e a consequência aparece na descendência, com um povo vizinho nomeado. Gênesis 9:20-27 e Gênesis 19:30-38 usam a mesma estrutura. Reconhecer o molde diz em que gênero de narrativa se está, e não decide o que aconteceu.

O verbo "conhecer" tem alguma função no capítulo?

Tem, e é notável. No versículo 5 a multidão exige conhecer os hóspedes; no versículo 8 Ló diz que as filhas não conheceram homem; nos versículos 33 e 35 o mesmo verbo aparece negado, aplicado a ele. Quem ofereceu as filhas alegando virgindade termina como o que nada percebe. O narrador não comenta a simetria.

A frase "quando se deitou nem quando se levantou" tem algo especial?

O par deitar-levantar é, em hebraico, expressão consagrada de totalidade — a mesma de Deuteronômio 6:7. Aqui ela mede a extensão do que Ló não percebeu. Não há como estabelecer que um texto esteja aludindo ao outro; registro como observação literária.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 19:33E deram a beber vinho a seu pai aquela noite: e entrou a maior, e dormiu com seu pai; mas ele não sentiu quando se deitou com ela nem quando se levantou.

A primeira noite, que este versículo repete quase palavra por palavra.

Gênesis 19:32Vem, demos a beber vinho a nosso pai, e durmamos com ele, e conservaremos de nosso pai geração.

O plano completo, decidido antes da primeira noite — o que torna dispensável a conversa do versículo 34.

Gênesis 19:5E chamaram a Ló, e lhe disseram: Onde estão os homens que vieram a ti esta noite? tira-os a nós, para que os conheçamos.

O verbo "conhecer" em sentido sexual, na exigência da multidão.

Gênesis 19:8Eis aqui agora eu tenho duas filhas que não conheceram homem; eu as tirarei fora para vós...

O mesmo verbo na boca de Ló, sobre as mesmas duas filhas.

Habacuque 2:15Ai daquele que dá bebidas a seu próximo, tu que embebedas com teu furor, para que possas vê-los nus.

O único texto bíblico que descreve e condena o procedimento. Não cita Gênesis.

Gênesis 9:21E bebeu do vinho, e se embriagou, e estava descoberto dentro de sua tenda.

O outro pai embriagado de Gênesis, no mesmo molde narrativo.

Gênesis 9:24E despertou Noé de seu vinho, e soube o que havia feito com ele seu filho o mais jovem.

Ali o pai acorda e sabe. Aqui o texto insiste duas vezes que não soube.

Gênesis 34:2E viu-a Siquém, filho de Hamor heveu, príncipe daquela terra, e tomou-a, e deitou-se com ela, e a desonrou.

A construção com objeto direto, numa cena de força.

2 Samuel 13:14Mas ele não a quis ouvir; antes podendo mais que ela a forçou, e lançou-se com ela.

A mesma construção, no episódio de Amnom e Tamar.

Levítico 20:11Qualquer um que se deitar com a mulher de seu pai terá revelado a nudez de seu pai; ambos serão mortos.

Um dos dois estatutos de incesto que usam a mesma construção verbal.

Deuteronômio 6:7E as repetirás a teus filhos, e falarás delas estando em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e quando te levantes.

O par deitar-levantar como fórmula da totalidade do dia.

Provérbios 23:33Teus olhos verão coisas estranhas, e teu coração falará perversidades.

A descrição bíblica do estado que o vinho produz.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Também naquela noite deram vinho a beber ao pai; e a mais nova levantou-se e se deitou com ele, sem que ele percebesse quando ela se deitou nem quando se levantou.

Texto hebraico

וַתַּשְׁקֶיןָ גַּם בַּלַּיְלָה הַהוּא אֶת־אֲבִיהֶן יָיִן וַתָּקָם הַצְּעִירָה וַתִּשְׁכַּב עִמּוֹ וְלֹא־יָדַע בְּשִׁכְבָהּ וּבְקֻמָהּ

Transliteração

wattashqeina gam ballaylah hahu et-avihen yayin wattaqom hatze'irah wattishkav immo we-lo yada be-shikhvah u-vequmah

Palavra por palavra

וַתַּשְׁקֶיןָ (wattashqeina) — "e fizeram beber"

Forma causativa da raiz shaqah, beber. O causativo transforma o verbo em "dar de beber", "fazer beber".

É a mesma raiz de Habacuque 2:15, no ai contra quem dá de beber ao próximo para o ver nu.

A terminação marca sujeito feminino plural: as duas agem juntas.

גַּם (gam) — "também"

Partícula da adição e da repetição. Colocada logo depois do verbo, ela amarra esta noite à anterior.

É a palavra que informa ao leitor que o que vem a seguir já foi lido antes.

אֶת־אֲבִיהֶן יָיִן (et-avihen yayin) — "ao pai delas, vinho"

O pai é o objeto direto do verbo de fazer beber, e yayin, vinho, é o segundo objeto.

O sufixo de avihen está no feminino plural: o pai delas. O parentesco é dito em cada frase da passagem.

וַתָּקָם הַצְּעִירָה (wattaqom hatze'irah) — "e levantou-se a mais nova"

A raiz é qum, levantar-se, pôr-se de pé.

No versículo 33 o verbo era bo, entrar, vir — verbo que a Bíblia usa com frequência em contexto sexual.

Tze'irah é o termo de menor idade, contraposto a bekhirah, a primogênita. Nenhuma das duas recebe nome em toda a Bíblia.

וַתִּשְׁכַּב עִמּוֹ (wattishkav immo) — "e deitou-se com ele"

Aqui está a diferença que não aparece em nenhuma tradução portuguesa.

O versículo 33 traz vattishkav et-aviha, com a partícula de objeto direto. Este traz immo, preposição: com ele.

A construção com objeto direto ocorre em Gênesis 34:2, em 2 Samuel 13:14 e nos estatutos de Levítico 20:11-12. É discutido se ela carrega força de coação; a distribuição é sugestiva, não conclusiva.

וְלֹא־יָדַע (we-lo yada) — "e não soube"

Raiz yada, conhecer, saber, perceber — e, em muitos contextos, conhecer sexualmente.

É o verbo do versículo 5 ("para que os conheçamos") e do versículo 8 ("não conheceram homem"), aqui negado e aplicado a Ló.

בְּשִׁכְבָהּ וּבְקֻמָהּ (be-shikhvah u-vequmah) — "no deitar-se dela e no levantar-se dela"

Duas formas de infinitivo com preposição e sufixo feminino de terceira pessoa.

O par shakhav e qum é a fórmula de totalidade do hebraico, a mesma de Deuteronômio 6:7.

Note-se que qum fecha o versículo e também o abriu, no verbo da mais nova que se levanta: um pequeno círculo que o versículo 33 não tem.

Nota textual — o ponto extraordinário está no versículo 33, não aqui

Este é um detalhe que quase nunca chega ao leitor de língua portuguesa, e vale expô-lo com cuidado.

O Texto Massorético traz, em quinze lugares da Bíblia hebraica — dez deles na Torá —, pontos colocados acima de certas letras ou palavras. São os chamados pontos extraordinários, sinais deixados pelos escribas para assinalar alguma coisa: dúvida sobre a leitura, marca de tradição, ou observação a ser transmitida.

Um desses pontos está em Gênesis 19:33, sobre a letra vav da palavra "e no levantar-se dela".

Aqui, no versículo 35, a mesma palavra aparece em grafia defectiva — escrita sem o vav interno — e, sem a letra, não há ponto.

A tradição rabínica lê o sinal como informação. Gênesis Rabá 51:8, e a discussão paralela no tratado Nazir do Talmude Babilônico, extraem dele a leitura de que Ló não soube quando ela se deitou, mas soube quando ela se levantou.

A consequência é imediata na lógica dessa leitura: se soube ao fim da primeira noite, então bebeu na segunda noite sabendo. A responsabilidade dele deixaria de ser a de quem foi surpreendido e passaria a ser a de quem consentiu na repetição.

Convém separar as camadas com honestidade. O ponto sobre a letra é um dado material dos manuscritos massoréticos, e está lá. O sentido que se atribui ao ponto é interpretação rabínica, e é uma leitura entre outras possíveis — os pontos extraordinários também são explicados, em outros lugares, como marcas de suspeita textual sobre a palavra assinalada.

E há um dado gráfico simples que não se deve inflar. A grafia defectiva do versículo 35 é fenômeno corriqueiro no hebraico bíblico, onde a mesma palavra oscila entre forma plena e defectiva sem mudança de sentido. Ela explica por que não há ponto aqui, e não precisa significar mais do que isso.

Nota — quem é sujeito e quem é objeto

Vale fechar por uma observação de gramática que carrega peso interpretativo.

Em todo o versículo, as filhas são sujeito: fizeram beber, levantou-se, deitou-se. Ló aparece duas vezes, e nas duas como objeto: objeto do verbo de fazer beber, e sujeito de uma única oração, que é justamente a da negação — não soube.

O único verbo que Ló governa neste versículo é um verbo negado.

11. Conclusão

O que primeiro salta aos olhos de quem compara este versículo com o anterior é a quantidade de material idêntico. Três diferenças, e nenhuma outra: entra a filha mais nova onde estava a primogênita, o verbo de aproximação passa de "entrar" para "levantar-se", e a construção sintática de "deitar-se" abandona a partícula de objeto direto em favor da preposição. Todo o restante — o vinho, a noite, o parentesco repetido em cada oração, a negação final do verbo de perceber — vem transcrito da noite anterior. O narrador dispunha da alternativa óbvia de despachar a segunda noite numa linha, dizendo que o mesmo se fez com a outra filha, e recusou essa alternativa. Gunkel, no comentário clássico, qualificou a repetição de particularmente artística e localizou a prova no lugar certo: a conversa do versículo 34 nada acrescenta ao plano já traçado no versículo 32, e portanto existe para completar o par. Leituras mais recentes acrescentam que a simetria sem falha, executada duas vezes na mesma ordem e com as mesmas palavras, funciona como reencenação. As duas descrições não disputam entre si — uma diz como o texto foi construído, a outra diz o que a construção provoca em quem lê.

A diferença sintática merece registro separado, porque desaparece por completo em qualquer tradução. Na noite da primogênita, o hebraico trata o pai como objeto direto do verbo de deitar-se, construção incomum que reaparece na tomada de Diná por Siquém, na violência de Amnom contra Tamar e nos dois estatutos de Levítico 20 que punem com morte o incesto com a mulher do pai e com a nora. Nessas outras ocorrências, quem ocupa a posição de objeto é sempre a mulher; aqui a posição cabe ao pai, e o sujeito é a filha. Na segunda noite, o texto recua para a preposição neutra. Muitos estudiosos propõem que a construção acusativa carregue força de coação, e a distribuição das ocorrências apoia a proposta sem a demonstrar — a regra tem exceções, e a alternância pode dever-se a estilo ou a época. Não é possível decidir. O que fica é o dado, exposto sem conclusão: a mudança existe, é deliberada o bastante para aparecer em versículos gêmeos, e o relato não a explica.

Sobre o vinho, a informação disponível é escassa e nenhuma quantidade é mencionada. Três pessoas fogem de uma catástrofe, atravessam Zoar, sobem ao monte e passam a viver numa caverna; nessas condições, duas noites seguidas de bebida suficiente para levar um homem adulto à inconsciência constituem detalhe que o relato não se dá ao trabalho de justificar. A tradição rabínica preencheu a lacuna afirmando que a bebida se achava ali, disponível para o momento; convém tratar essa afirmação como o que é, resposta a uma dificuldade criada pelo relato e não informação dele. Tampouco se diz se houve engano quanto ao que se bebia, se houve insistência ou se houve boa vontade. O que o texto diz é apenas que elas fizeram beber e que ele nada percebeu, nas duas ocasiões — e é sobre essa escassez que se ergueram, ao longo dos séculos, todas as avaliações a respeito da responsabilidade de Ló.

Resta a palavra que costura o capítulo, e ela é o verbo de conhecer. A multidão de Sodoma o empregou em sentido sexual, sem disfarce, ao exigir os hóspedes; o próprio Ló o empregou logo depois, ao oferecer as filhas alegando que não haviam conhecido homem; e agora ele reaparece, duas vezes, sob negação, tendo Ló por sujeito. Quem dispôs das filhas invocando a virgindade delas termina como aquele que nada apreende do que lhe sucede. A simetria pertence ao texto; a leitura moral que dela se possa tirar, não — o narrador não a formula, não anuncia castigo e não introduz voz divina alguma nesta cena. O par de infinitivos que encerra a frase, deitar-se e levantar-se, é justamente a fórmula que o hebraico usa para dizer a extensão inteira de um dia, e aqui mede a extensão inteira daquilo que escapou a Ló. Sobre a letra assinalada pelos escribas no versículo anterior, e sobre a leitura antiga que dela extraiu a percepção parcial do pai, cabe distinguir o sinal, que está nos manuscritos, da interpretação, que é uma entre várias. E resta o essencial: a etiologia precisa de duas noites porque terminará em dois filhos e dois povos, e é por isso que a segunda noite existe — construída com esmero maior que a primeira, sem uma linha de hesitação, e fechando em círculo com a mesma raiz verbal com que começou.

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Gênesis 19:35

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