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Gênesis 34:12

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 44 acessos
Exijam de mim o dote e os presentes que quiserem, por maiores que sejam, e eu darei o que me pedirem; apenas deem-me a moça por mulher.”
Balança de pratos e peças de prata sobre um pano estendido, ao lado de vasos de barro, em ambiente de pedra antiga.

Estudo


Exijam de mim o dote e os presentes que quiserem, por maiores que sejam, e eu darei o que me pedirem; apenas deem-me a moça por mulher.”

1. Introdução

Siquém termina de falar, e a última coisa que oferece é dinheiro sem teto.

Dote e presentes, no valor que quiserem, por maiores que sejam. E o pedido no fim: deem-me a moça por mulher.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é o vocabulário. As duas palavras que ele usa são termos técnicos do casamento antigo, e uma delas aparece só três vezes em toda a Bíblia hebraica.

O segundo é o que as leis previam para casos como este. Êxodo 22:16-17 e Deuteronômio 22:28-29 tratam do assunto, e o que estabelecem é pagamento ao pai e casamento sem direito de repúdio. É preciso dizer o que essas leis determinavam, o que revelam sobre o lugar da mulher naquele mundo, e por que são discutidas até hoje.

O terceiro é o fecho da frase. Depois de tudo, ele volta ao mesmo pedido do versículo 4 — a moça, por mulher. Sem nome, sem menção ao ocorrido, sem reconhecimento.

É a última fala de Siquém no capítulo.

2. Contexto Histórico e Cultural

O dote no antigo Oriente Próximo

A primeira das duas palavras que Siquém usa é o termo técnico para o pagamento que a família do noivo fazia à família da noiva.

Convém ser preciso, porque a palavra portuguesa "dote" atrapalha. No costume europeu tardio, dote era o que a família da noiva entregava ao noivo. Aqui é o contrário: quem paga é o lado do rapaz, e quem recebe é o pai da moça. Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII) já registrava a inversão, notando que se tratava do antigo costume de os homens comprarem as esposas.

A prática está documentada em todo o Oriente Próximo. Os contratos da Babilônia falam do terhatum; as tabuinhas de Nuzi (cidade do norte da Mesopotâmia, onde se acharam milhares de contratos do segundo milênio antes da era comum) registram valores entre trinta e quarenta siclos de prata; as Leis Assírias Médias fixam múltiplos em caso de violência.

Havia ordens de grandeza conhecidas. Deuteronômio 22:29 estipula cinquenta siclos de prata. Levítico 27:4-5, ao fixar o valor das pessoas para efeito de votos, avalia uma mulher adulta em trinta siclos. E Gênesis 37:28 registra que José foi vendido por vinte.

São números duros de ler enfileirados, e é assim mesmo que eles aparecem nos textos.

Para que servia o pagamento

A função exata é discutida entre estudiosos, e vale conhecer as posições.

A leitura mais antiga tratava o pagamento como compra pura e simples: a mulher passava de uma casa a outra mediante preço. É a leitura de Poole e de boa parte dos comentaristas do século XIX.

Outra leitura, hoje mais comum entre historiadores, entende o pagamento como compensação à casa da noiva pela perda do trabalho dela e pelo investimento feito na criação — algo mais próximo de indenização do que de compra de pessoa.

Uma terceira observa que, em várias culturas vizinhas, parte do valor ficava reservada à mulher, funcionando como garantia em caso de viuvez ou repúdio.

Não é possível decidir, e provavelmente a prática variou por lugar e por época. O que nenhuma das leituras desfaz é o dado central: a transação acontecia entre homens, e o valor não ia para a mulher.

Os presentes

A segunda palavra da oferta designa outra coisa, e a distinção é reconhecida pelos comentaristas.

Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) explica que a primeira é o preço pago aos pais e parentes, e a segunda são os presentes entregues à própria noiva e aos que a cercam. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) detalha: joias e roupas para as mulheres da casa, coisas de valor para os irmãos.

Gênesis 24:53 mostra a prática funcionando. O servo de Abraão tira joias de prata, joias de ouro e vestidos e os dá a Rebeca; e dá "coisas preciosas" ao irmão e à mãe dela.

É a única parte do arranjo em que alguma coisa chega às mãos da mulher.

O que a lei de Êxodo previa

Aqui é preciso tratar dos dois textos legais que se ocupam de casos como o deste capítulo. E é preciso tratá-los pelo que dizem, sem endossar.

Êxodo 22:16-17 estabelece: se um homem seduzir uma moça solteira e não prometida, e se deitar com ela, deverá pagar o dote e tomá-la por mulher. E acrescenta uma cláusula decisiva: se o pai dela recusar entregá-la, o homem pagará mesmo assim, na quantia correspondente ao dote das virgens.

Três coisas se aprendem desse texto.

A primeira: o verbo usado é o de seduzir, persuadir — não o de forçar. A lei está tratando, ao menos em primeiro lugar, de um caso sem violência física.

A segunda: o pai tem veto. O casamento não é automático.

A terceira: o pagamento é devido de qualquer maneira, com ou sem casamento — o que mostra que o que a lei está reparando é o dano patrimonial e de posição da casa.

O que a lei de Deuteronômio previa

Deuteronômio 22:28-29 é o texto mais discutido, e o mais duro.

Ele determina: se um homem encontrar uma moça virgem não prometida, e a agarrar, e se deitar com ela, e forem descobertos, ele pagará ao pai dela cinquenta siclos de prata; ela lhe será por mulher, porque a humilhou; e ele não poderá mandá-la embora enquanto viver.

Note-se que o texto usa, para descrever o que ele fez, o mesmo verbo do versículo 2 deste capítulo — o verbo em disputa, tratado ali.

Duas leituras dividem os estudiosos, e é honesto apresentar as duas.

A primeira lê o texto como obrigando a vítima de violência sexual a casar-se com o agressor. É a leitura que salta aos olhos de um leitor de hoje, e ela se apoia no verbo de agarrar e no verbo de humilhar.

A segunda observa que o verbo empregado aqui é mais fraco do que o usado três versículos antes, em Deuteronômio 22:25, onde o caso é de força inequívoca e a pena é de morte para o homem. Argumenta, por isso, que Deuteronômio 22:28-29 trata de um caso diferente — e sustenta ainda que a cláusula do casamento sem direito de repúdio funcionava, naquele mundo, como proteção: uma mulher nessa situação perdia a possibilidade de casamento e ficaria sem sustento, e a lei garantia que o responsável a mantivesse pelo resto da vida.

Acrescenta-se, dessa segunda leitura, que o veto paterno de Êxodo 22:17 provavelmente se aplicava também aqui, por serem textos do mesmo conjunto.

Não é possível decidir, e as duas leituras têm defensores sérios.

O que se pode afirmar, e é o que importa registrar, é o seguinte: nas duas leituras, quem recebe o pagamento é o pai, e o texto não pergunta nada à moça. Seja a lei protetora ou brutal, o lugar dela é o mesmo — aquilo sobre o que os homens decidem.

Uma ressalva de método

Nenhuma dessas leis existia no tempo de Gênesis 34. Deuteronômio e Êxodo são posteriores, e Siquém não está cumprindo lei nenhuma.

O que a comparação mostra é outra coisa, e é útil: qual era o horizonte de soluções que aquele mundo reconhecia para um caso assim. E o horizonte era pagamento e casamento.

É exatamente o que Siquém oferece. E é exatamente o que os irmãos vão recusar.

3. Análise Teológica do Versículo

"Exijam de mim o dote e os presentes que quiserem"

O verbo hebraico é o de aumentar, multiplicar, e vem no imperativo: aumentem sobre mim.

É uma construção curiosa, e vale prestar atenção nela. Ele não diz "digam quanto". Diz que subam o valor, e que subam muito. Está convidando a outra parte a exagerar.

As duas palavras que ele nomeia são termos técnicos, e são distintas. A primeira é o pagamento devido à casa da moça; a segunda são os presentes que acompanham o acordo. O item 2 trata do que cada uma significava, e o item 10 do alcance das palavras.

O que a escolha revela é o modo como ele entende a situação. Ele está usando o vocabulário normal de um pedido de casamento — o mesmo que qualquer noivo usaria numa negociação regular.

Não há aqui palavra de indenização, de reparação ou de multa. Há o vocabulário do casamento, aplicado depois do versículo 2.

"por maiores que sejam"

O reforço é o ponto alto da oferta e o ponto baixo do discurso.

Somando com o versículo anterior, Siquém disse duas vezes a mesma coisa em duas frases: darei o que pedirem, e não importa o tamanho.

É a linguagem de quem quer o assunto encerrado. E é também a linguagem de quem tem certeza de que existe um número capaz de encerrá-lo.

Vale notar o pressuposto, porque ele organiza a fala inteira. Uma oferta sem teto só é generosa dentro de um mundo em que aquilo se compra. Fora desse mundo, ela não é generosa — é incompreensível, e soa como insulto.

O capítulo mostrará qual dos dois mundos era o dos irmãos de Diná. A resposta deles, no versículo 15, não conterá número nenhum.

"e eu darei o que me pedirem"

A repetição do versículo 11 chama atenção.

Duas frases seguidas dizem o mesmo: o que vocês disserem, eu darei. Não é descuido do texto — é a insistência de quem fala, registrada como ele falou.

Há aí um dado sobre o estado dele. Quem repete a mesma oferta em duas frases seguidas está com pressa, ou com medo, ou com muita vontade. O versículo 19 dirá que ele "não demorou em fazer o que fora dito, porque muito se agradara da filha de Jacó", o que combina com a insistência.

Não é possível saber qual dos três motivos operava. O texto registra a repetição e não a explica.

"apenas deem-me a moça por mulher"

A frase final volta ao começo, e é preciso ler o que ela faz.

Primeiro: é literalmente o mesmo pedido do versículo 4, quando ele falou com o pai. Ali disse "consiga-me esta moça por mulher"; aqui diz "deem-me a moça por mulher". Entre um e outro houve três versículos de proposta de Hamor e duas frases dele — e o pedido não mudou de uma palavra.

Segundo: ela não é nomeada. Em nenhuma das duas falas de Siquém o nome de Diná aparece. Em nenhuma das duas falas de Hamor, tampouco. Ninguém, em Gênesis 34, pronuncia o nome dela dentro de um discurso.

Terceiro: a moça de quem ele fala está, enquanto ele fala, na casa dele. Pede-se que entreguem quem já não está com quem deveria entregá-la.

Quarto, e é a ausência que atravessa quatro discursos seguidos: não há uma palavra sobre o que aconteceu. Nem admissão, nem negação, nem explicação, nem pesar.

O que a oferta inteira mostra

Vale somar tudo o que foi oferecido do versículo 8 até aqui, porque a soma é impressionante.

Casamento. Parentesco permanente entre as duas casas. Direito de morar. Direito de circular. Direito de comerciar. Direito de possuir terra. Dote sem teto. Presentes sem teto.

É mais do que qualquer lei do antigo Oriente Próximo exigiria para um caso desses — muito mais. Deuteronômio 22:29 fala em cinquenta siclos; aqui não há limite.

E é recusado.

Esse é o dado que organiza a leitura do capítulo inteiro. A negociação não fracassa por avareza de um lado nem por exigência excessiva do outro. Fracassa porque as duas partes estão discutindo coisas diferentes: uma oferece preço, e a outra não está tratando de preço.

O texto não diz isso. Mostra as duas falas, mostra a resposta, e deixa a distância entre elas visível.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Siquém

Esta é a última fala dele em Gênesis 34, e no restante da Bíblia.

Ao todo ele disse duas coisas no capítulo: um imperativo ao pai, no versículo 4, e estas duas frases diante da família de Diná. Nas duas, o pedido é idêntico, e nas duas o ocorrido não é mencionado.

O versículo 19 acrescentará que ele era o mais respeitado da casa do pai e que agiu sem demora. O versículo 26 registra a morte dele.

Hamor

Falou nos versículos 8 a 10 e voltará a falar no versículo 20, diante da cidade. Aqui está presente e calado.

É o pai que negocia e o filho que oferece o pagamento — divisão de papéis coerente com o costume da época, em que o pai conduzia e o rapaz não era parte formal do acordo.

Jacó e os filhos

Ouviram cinco versículos seguidos de proposta e ainda não disseram uma palavra.

Falarão a partir do versículo 13, e o texto qualifica a resposta antes de reproduzi-la: responderam com engano.

Jacó, especificamente, não falará em momento nenhum da negociação.

Diná

Chamada aqui de "a moça" — o mesmo termo do versículo 3, e não o do versículo 4.

Está na casa de Siquém, conforme se deduz do versículo 26, e permanecerá lá até depois do massacre.

O que vem em seguida

O versículo 13 traz a resposta dos filhos de Jacó, e o texto a chama de engano antes de contá-la.

Do 14 ao 17, a condição que eles imporão. Do 18 ao 19, a aceitação de Hamor e Siquém. Do 20 ao 24, o discurso à cidade e a circuncisão de todos os homens. Do 25 em diante, o massacre.

5. Pontos de Ensino

Oferta sem teto pressupõe um mundo em que tudo tem preço

Siquém oferece o que pedirem, por maior que seja. Dentro da lógica dele, é o máximo possível.

Mas a oferta ilimitada carrega uma afirmação implícita: a de que o assunto se resolve por quantia. Quem entrega o valor à outra parte está definindo o terreno antes de qualquer negociação.

Quando a outra parte não aceita o terreno, a generosidade não produz gratidão. Produz distância.

As leis descrevem um mundo, e descrever não é aprovar

Êxodo 22:16-17 e Deuteronômio 22:28-29 tratam de casos como este, e o que preveem é pagamento ao pai e casamento sem repúdio.

É preciso dizer o que esses textos determinam, sem suavizar e sem endossar. E é preciso registrar o que eles revelam: numa sociedade em que uma mulher nessa situação ficaria sem sustento e sem lugar, a lei resolveu o problema tratando com o pai.

Ler bem exige as duas coisas ao mesmo tempo — entender por que a solução fazia sentido naquele mundo, e não fingir que ela seria aceitável em qualquer outro.

Quem recebe a reparação diz quem foi lesado

Em todas as leis da época, e na oferta de Siquém, o pagamento vai para o pai.

É a informação mais reveladora do conjunto, e ela não precisa de comentário: o destinatário da reparação é a definição prática de quem se considera prejudicado.

Vale como critério fora do texto. Em qualquer acordo, perguntar para quem vai o dinheiro é perguntar quem o sistema entende que sofreu o dano.

Repetir a oferta não é responder à objeção

Nos versículos 11 e 12, Siquém diz duas vezes a mesma coisa: pedirei o que quiserem, darei o que pedirem.

Não houve objeção entre as duas frases — ninguém respondeu nada ainda. Ele está reforçando por conta própria.

É o padrão de quem tenta convencer aumentando o volume da mesma proposta, em vez de examinar se a proposta é a certa. Costuma indicar que quem fala já percebeu que algo não está funcionando, sem saber o quê.

O pedido que não muda

A frase final é a mesma do versículo 4, palavra por palavra na estrutura: deem-me a moça por mulher.

Entre um e outro houve uma proposta de aliança, terra, comércio, propriedade e pagamento ilimitado. O objetivo nunca se moveu.

Vale reconhecer o padrão: quando tudo o que se oferece muda e o que se pede permanece idêntico, o que está sendo negociado não é o acordo — é a resistência da outra parte.

6. Aspectos Filosóficos

A questão de fundo

O versículo põe um preço onde houve um crime, e a lei antiga fazia o mesmo. Isso levanta uma pergunta que vale a pena enfrentar sem rodeios: o que uma lei está fazendo quando fixa a quantia devida por um dano que não se repara?

É pergunta sobre o direito, e não sobre a bondade de quem o escreveu.

Duas coisas que uma lei pode estar fazendo

Convém separá-las, porque a confusão entre as duas produz leituras ruins nos dois sentidos.

Uma lei pode estar autorizando uma prática — dizendo que ela é boa, ou ao menos aceitável, e organizando o modo correto de realizá-la.

Ou pode estar limitando uma prática que já existe e que ela não tem força para abolir — impondo condições, prazos, custos e obrigações a quem a pratica, de modo a reduzir o dano.

As duas produzem textos parecidos. A diferença está no que aconteceria se a lei não existisse.

Aplicando a distinção

Deuteronômio 22:29 obriga o homem a pagar cinquenta siclos, a casar-se e a jamais repudiar a mulher.

Lida como autorização, a cláusula é monstruosa: obriga alguém a viver com quem lhe fez mal.

Lida como limitação, ela é outra coisa: num mundo em que uma mulher nessa situação perderia a possibilidade de casamento, ficaria sem sustento e dependeria da casa do pai pelo resto da vida, a lei transfere o ônus permanente para quem causou o dano e retira dele qualquer saída.

Nenhuma das duas leituras é obviamente a correta, e estudiosos sérios defendem as duas. O que se pode dizer é que a segunda explica melhor a cláusula do repúdio, que seria inútil numa lei feita para favorecer o homem.

O que a distinção não resolve

Resta uma coisa que nenhuma das leituras conserta, e é a mais importante.

Em ambas, a mulher não é consultada. A lei protetora e a lei brutal têm em comum o fato de que o arranjo é feito entre o agressor e o pai, e de que a vontade dela não é elemento do procedimento.

Uma proteção que se impõe sem perguntar continua sendo melhor do que o desamparo. Mas continua sendo imposta.

É por isso que a discussão sobre se essas leis eram boas ou más para as mulheres, embora legítima, deixa escapar o essencial: o problema não está no conteúdo da regra, está em quem tem voz no processo.

Onde parar

Gênesis não discute nada disso, e nem poderia — as leis são posteriores ao livro.

O que este versículo faz é mostrar um homem oferecendo dinheiro pela mesma coisa que a lei viria a tarifar, e mostrar que a oferta não foi aceita.

A recusa dos irmãos, porém, não deve ser lida como progresso moral. Eles não recusam o preço porque a pessoa vale mais do que qualquer soma; recusam porque, para eles, o que estava em jogo era a honra da casa. E o que farão em seguida será pior do que qualquer preço.

7. Aplicações Práticas

Perguntar para quem vai a reparação

No arranjo deste versículo, o pagamento vai para o pai e para os irmãos. A pessoa lesada não recebe nada e não participa.

É um critério que continua valendo, e é simples de aplicar: em qualquer acordo sobre um dano, verificar quem recebe. O destinatário revela quem o sistema entende que foi prejudicado.

Onde a reparação vai para um lado e o dano ficou em outro, há um problema que nenhum valor corrige.

Não aceitar que o terreno seja definido pela oferta

Quem chega dizendo "diga quanto" está afirmando que o assunto é de quanto.

A resposta útil não é um número maior. É recolocar a questão: dizer o que precisa ser tratado antes de qualquer valor.

Vale para negociação de dano material, para conflito de trabalho, para conversa de família. Quem responde no terreno proposto já concordou com a premissa.

Distinguir norma que autoriza de norma que limita

Ao ler qualquer regra antiga — ou qualquer regra atual que pareça absurda —, a pergunta que esclarece é: o que aconteceria se ela não existisse?

Se a resposta é "nada aconteceria", a regra provavelmente autoriza. Se a resposta é "aconteceria algo pior, e sem obrigação nenhuma para quem causou", a regra provavelmente limita.

A distinção não redime nada por si só. Mas evita os dois erros comuns: tratar como endosso o que era contenção, e tratar como sabedoria o que era conveniência.

Repetir mais alto não é argumentar

Siquém diz duas vezes a mesma oferta, sem que ninguém tenha objetado entre uma frase e outra.

É o que se faz quando se percebe que algo não está funcionando e não se sabe o quê. Aumenta-se a proposta em vez de examinar se ela responde à questão.

O exercício que corrige é perguntar diretamente: o que está faltando aqui? A resposta costuma não ter relação nenhuma com o valor.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Siquém estava comprando Diná?

A pergunta é natural e a resposta é discutida.

A leitura antiga, de Poole e de outros comentaristas, tratava o dote como preço de compra. Historiadores mais recentes tendem a vê-lo como compensação à casa pela perda do trabalho e do investimento, e observam que, em algumas culturas vizinhas, parte do valor ficava reservada à mulher.

Não é possível decidir, e a prática provavelmente variou. O que nenhuma leitura desfaz é que a transação era entre homens e que o valor não ia para ela.

A oferta dele era suficiente pelos padrões da época?

Era muito mais do que suficiente.

Deuteronômio 22:29 fixaria cinquenta siclos; as tabuinhas de Nuzi registram trinta a quarenta como valores correntes; as Leis Assírias Médias falam em múltiplos do valor normal em caso de violência.

Siquém não oferece um valor: oferece o que pedirem, sem limite, além de tudo o que Hamor já havia posto na mesa. A recusa não se explica por insuficiência.

Deuteronômio 22:28-29 obriga a vítima a casar com o agressor?

É a leitura mais imediata para um leitor de hoje, e ela tem defensores.

Há uma leitura concorrente. Ela observa que o verbo usado ali é mais fraco do que o de Deuteronômio 22:25, onde a força é inequívoca e o homem é morto; e sustenta que a cláusula do casamento sem repúdio funcionava como garantia de sustento vitalício numa sociedade em que a mulher ficaria sem lugar. Acrescenta ainda que o veto do pai, previsto em Êxodo 22:17, provavelmente valia também para este caso.

Não há consenso. O que os dois lados admitem é que o pagamento ia para o pai e que a moça não era consultada.

Essas leis valiam no tempo de Gênesis 34?

Não. Êxodo e Deuteronômio são posteriores, e Siquém não está cumprindo norma alguma.

O valor da comparação é outro: mostrar qual era o repertório de soluções que aquele mundo reconhecia. E o repertório era pagamento e casamento — exatamente o que ele oferece.

Por que os irmãos não pediram simplesmente uma quantia altíssima?

O texto não explica, e a pergunta é boa.

Podiam ter feito isso. A oferta era ilimitada, e uma quantia enorme teria enriquecido a casa e encerrado o caso dentro das regras do lugar.

Não fizeram. O versículo 13 dá o motivo da resposta que darão — a desonra da irmã — e o versículo 15 mostra que o que pediram não era pagável.

Se isso indica que o dinheiro lhes parecia insuficiente, ou que a decisão de matar já estava tomada, não é possível determinar.

9. Conexão com Outros Textos

As três ocorrências da palavra "dote"

Êxodo 22:16-17 — "Se alguém seduzir uma virgem que não estiver desposada, e se deitar com ela, certamente a dotará por sua mulher. Se o pai dela inteiramente recusar dá-la, ele pagará dinheiro conforme o dote das virgens."

1 Samuel 18:25 — "Assim direis a Davi: O rei não deseja dote algum, senão cem prepúcios de filisteus. Porém Saul tencionava fazer cair Davi pela mão dos filisteus."

A palavra aparece três vezes em toda a Bíblia hebraica: aqui, em Êxodo e neste texto de Samuel. Vale registrar a coincidência: nos dois relatos em que o dote é objeto de negociação — este capítulo e o de Saul —, o que acaba sendo exigido não é dinheiro, e o desfecho é morte. O texto não estabelece ligação alguma entre os dois episódios.

A lei sobre o caso

Deuteronômio 22:28-29 — "Se um homem achar uma moça virgem, que não for desposada, e a pegar, e se deitar com ela, e forem apanhados, o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinquenta siclos de prata, e ela lhe será por mulher, porquanto a humilhou; não poderá mandá-la embora todos os seus dias."

Deuteronômio 22:25-26 — "Se um homem achar no campo a moça desposada, e a forçar, então só morrerá o homem que se deitou com ela. Porém à moça não farás nada; a moça não tem culpa de morte."

Os dois textos usam verbos diferentes e chegam a resultados opostos. É a base da discussão sobre o alcance do primeiro.

Os presentes de casamento

Gênesis 24:53 — "O servo tirou joias de prata, joias de ouro e vestidos, e deu-os a Rebeca; também deu coisas preciosas a seu irmão e a sua mãe."

A prática em funcionamento, num casamento negociado pelas vias normais.

Valores de referência

Levítico 27:4-5 — "Se for mulher, a tua avaliação será de trinta siclos."

Gênesis 37:28 — "Venderam José por vinte moedas de prata aos ismaelitas."

Números do mesmo mundo, úteis para medir os cinquenta siclos de Deuteronômio.

O pedido que se repete

Gênesis 34:4 — "E Siquém disse a Hamor, seu pai: Consiga-me esta moça por mulher."

Oito versículos antes, o mesmo pedido, com a mesma estrutura e sem o nome dela.

A resposta

À oferta ilimitada não se responde com uma quantia. O motivo que o texto declara é o que ninguém do outro lado mencionou em cinco versículos de proposta.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Exijam de mim o dote e os presentes que quiserem, por maiores que sejam, e eu darei o que me pedirem; apenas deem-me a moça por mulher.”

Texto hebraico

הַרְבּוּ עָלַי מְאֹד מֹהַר וּמַתָּן וְאֶתְּנָה כַּאֲשֶׁר תֹּאמְרוּ אֵלָי וּתְנוּ־לִי אֶת־הַנַּעֲרָ לְאִשָּׁה׃

Transliteração

harbu 'alay me'od mohar umattan we'ettenah ka'asher tomeru 'êlay utenu-li 'et-hanna'ara le-'ishah.

Análise palavra por palavra

הַרְבּוּ עָלַי מְאֹד — harbu 'alay me'od, "aumentai sobre mim muito". Raiz ravah, na forma causativa chamada Hiphil, no imperativo plural.

A raiz significa ser muito, tornar-se numeroso, multiplicar. É a mesma de "frutificai e multiplicai-vos", em Gênesis 1:28, e a da promessa de multiplicar a descendência de Abraão, em Gênesis 22:17.

A forma empregada aqui é causativa: fazer aumentar. E o imperativo é dirigido a eles — sejam vocês a aumentar.

A preposição seguinte é a de peso: sobre mim. Em hebraico, encargos e obrigações caem "sobre" alguém. Ele está pedindo, literalmente, que ponham mais peso nas costas dele.

O advérbio fecha o convite: muito. É a mesma palavra de "muito bom", em Gênesis 1:31, e do "arderam-lhes muito" do versículo 7 deste capítulo.

A construção inteira é notável e não tem paralelo exato na Bíblia hebraica. Ninguém mais pede que aumentem o preço que terá de pagar.

מֹהַר — mohar, "dote".

É o termo técnico do pagamento que a família do noivo entrega à família da noiva, e ele aparece três vezes em toda a Bíblia hebraica: aqui, em Êxodo 22:17 e em 1 Samuel 18:25.

Há também a forma verbal correspondente, em Êxodo 22:16, com o sentido de pagar o dote — "certamente a dotará por sua mulher".

A raiz tem parentes nas línguas vizinhas: o acádico terhatum designa a mesma coisa nos contratos da Babilônia, e o árabe mahr mantém o uso até hoje.

É importante não traduzir por "dote" sem explicar, porque o costume europeu era o inverso: ali quem levava bens era a noiva. Aqui, quem paga é o lado do rapaz.

O caso de 1 Samuel 18:25 merece nota. Saul propõe a Davi um dote que não é dinheiro — cem prepúcios de filisteus — e o texto informa, na mesma frase, que a intenção era ver Davi morto. É a única outra vez em que a palavra aparece numa negociação narrada, e o desfecho é violento.

וּמַתָּן — umattan, "e presente".

Vem da raiz natan, dar — é, literalmente, "o dado".

A palavra é rara: aparece em Gênesis 34:12, em Números 18:11 (as ofertas dadas aos sacerdotes) e três vezes em Provérbios, sempre no sentido de presente que abre portas — "o presente do homem alarga-lhe o caminho", em Provérbios 18:16.

A distinção em relação à palavra anterior é reconhecida pelos comentaristas: o dote é o valor devido à casa; os presentes são o que se entrega à noiva e aos parentes, fora do preço acertado. Gênesis 24:53 mostra os dois tipos de entrega no mesmo episódio.

Note-se que Siquém oferece os dois sem estipular nenhum. Ele nomeia as categorias e deixa os valores em branco.

וְאֶתְּנָה — we'ettenah, "e eu darei". Raiz natan.

A forma verbal é a do desejo ou da disposição — "que eu dê", "hei de dar". Não é promessa fria: tem um tom de oferecimento voluntário.

É o mesmo verbo do versículo anterior, e o mesmo que Hamor usou no versículo 8 ao pedir que dessem a moça. O verbo de dar percorre toda a negociação, mudando de sujeito conforme quem fala.

כַּאֲשֶׁר תֹּאמְרוּ אֵלָי — ka'asher tomeru 'êlay, "conforme me disserdes".

Repete quase exatamente a fórmula do versículo 11, com a partícula de comparação no lugar da relativa: "segundo o que me disserdes".

O verbo continua sendo o de dizer, e não o de pedir. A oferta é do que for dito, seja o que for.

וּתְנוּ־לִי — utenu-li, "e dai-me". Imperativo plural da mesma raiz, com o pronome de proveito.

Terceira ocorrência do verbo de dar em duas frases. Ele dá, eles dão — e o que eles têm de dar é uma pessoa.

Repare que aqui não há a partícula de cortesia que Hamor usou no versículo 8. O pedido final vem no imperativo seco.

אֶת־הַנַּעֲרָ לְאִשָּׁה — 'et-hanna'ara le-'ishah, "a moça por mulher".

A palavra é na'arah, a jovem em idade de casar — a mesma do versículo 3, e não a do versículo 4, que era do campo da infância.

Vem com o sinal de objeto direto e com o artigo: a moça, aquela de quem se está tratando. Sem nome.

E a fórmula final, "por mulher", é a mesma dos versículos 4, 8, 16 e 21. Cinco ocorrências no capítulo, e nenhuma delas se cumpre.

Uma nota sobre a tradução

Vale registrar, para quem compara versões, que o hebraico deste versículo não traz nenhuma palavra correspondente a "apenas".

A frase final é simplesmente "e dai-me a moça por mulher". O advérbio que várias traduções acrescentam — apenas, somente, tão-somente — é decisão do tradutor, e ela reforça a ideia de que o pedido é modesto diante da oferta.

Não é erro: a construção admite esse sentido, e o contraste entre a oferta ilimitada e o pedido único está de fato na frase. Mas convém saber que a ênfase foi acrescentada.

11. Conclusão

A última fala de Siquém fecha cinco versículos de proposta, e dela decorrem algumas conclusões.

A primeira é sobre o vocabulário. As duas palavras que ele oferece são termos técnicos do casamento — o pagamento devido à casa e os presentes que o acompanham —, e não termos de indenização ou de multa. Disso decorre que ele está tratando o caso como um pedido de casamento a ser concluído, e não como um dano a ser respondido.

A segunda é sobre o horizonte de soluções daquele mundo. Êxodo 22:16-17 e Deuteronômio 22:28-29 tratam de casos como este, e o que preveem é pagamento ao pai e casamento sem direito de repúdio. Disso decorre que a oferta de Siquém não é excêntrica: é a solução que a cultura reconhecia, apresentada em versão ampliada e sem teto.

A terceira é sobre o que essas leis mostram. Discute-se se protegiam ou se aprisionavam, e as duas leituras têm defensores sérios; nenhuma delas altera o dado que as atravessa — o valor vai para o pai, o acordo é entre homens, e a moça não é parte do procedimento. Disso decorre uma informação sobre o lugar da mulher naquele mundo que não depende de como se resolva a disputa entre as duas leituras.

A quarta é sobre o fracasso da negociação. Somadas as ofertas dos versículos 8 a 12 — casamento, parentesco, terra, comércio, propriedade, dote e presentes sem limite —, tem-se muito mais do que qualquer lei da época exigiria. Disso decorre que a recusa não veio por avareza: veio porque as duas partes estavam tratando de coisas diferentes, e uma delas não estava tratando de preço.

Fica de pé, ao fim de cinco versículos de proposta, a mesma ausência do começo: nenhuma palavra sobre o que aconteceu, nenhuma devolução, e o nome de Diná não pronunciado uma única vez por quem fala.

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Gênesis 34:12

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