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Gênesis 34:20

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 41 acessos
Então Hamor e o seu filho Siquém foram à porta da cidade e falaram aos homens da sua cidade:
Portão de pedra de uma cidade antiga murada, com homens reunidos à sombra nos bancos laterais, dois deles de pé diante dos demais.

Estudo


Então Hamor e o seu filho Siquém foram à porta da cidade e falaram aos homens da sua cidade:

1. Introdução

A cena muda de lugar, e a mudança é o assunto do versículo.

Até aqui tudo se passou entre poucos: uma conversa no acampamento de Jacó, uma proposta, uma condição, uma aprovação. Agora Hamor e Siquém se levantam e vão à porta da cidade.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é o lugar. A porta não é uma passagem: é a instituição pública daquele mundo — tribunal, mercado, praça e assembleia num só ponto. Ir à porta é tornar oficial.

O segundo é quem vai. Os dois juntos, pai e filho, como no versículo 18. O príncipe e o herdeiro apresentando pessoalmente a proposta.

O terceiro é a repetição de uma palavra. Em uma única frase o texto diz duas vezes "a cidade deles": a porta da cidade deles, os homens da cidade deles. É a cidade que eles governam, e é a cidade que vão entregar.

Há ainda um eco que o leitor de Gênesis carrega. Duas vezes, no livro, a bênção sobre a descendência de Abraão fala em possuir a porta dos inimigos. Os netos de Rebeca estão prestes a tomar uma cidade por essa porta.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que era a porta da cidade

As cidades de Canaã eram pequenas e muradas, e a porta era o único ponto de entrada e saída. Isso a transformou em muito mais do que uma passagem.

A construção típica tinha câmaras laterais, bancos de pedra e sombra. Escavações em sítios como Megido, Gezer e Dã revelaram estruturas assim, com espaços de assento junto à passagem. Era ali que a vida pública acontecia.

Quatro funções se acumulavam no mesmo lugar. A porta era o tribunal, onde as causas eram julgadas pelos anciãos. Era o cartório, onde negócios se fechavam diante de testemunhas. Era o mercado, onde se comprava e vendia. E era a assembleia, onde os homens livres decidiam o que dizia respeito a todos.

Por isso "a porta" acabou virando, no hebraico, uma forma de dizer a própria autoridade da cidade. Tomar a porta de alguém é tomar a cidade.

Como funcionava uma decisão ali

Rute 4:1-11 é a descrição mais completa que a Bíblia oferece. Boaz sobe à porta, senta-se, chama a pessoa com quem precisa tratar, convoca dez anciãos como testemunhas, expõe o caso, ouve a resposta e sela o negócio com um gesto ritual — e o povo presente declara ter testemunhado.

Deuteronômio confirma o mesmo padrão em vários pontos: a causa do filho rebelde vai aos anciãos "à porta do seu lugar", em Deuteronômio 21:19; a questão do casamento contestado, em Deuteronômio 22:15; a recusa do dever de casamento com a viúva do irmão, em Deuteronômio 25:7.

O elemento comum é a testemunha. Não havia registro escrito nem autoridade executora: o que dava validade a um acordo era ter sido feito diante de quem podia depois confirmá-lo.

Um precedente no próprio livro

Gênesis já havia mostrado uma transação nesse formato, e vale ter a cena diante dos olhos.

Em Gênesis 23, Abraão negocia com Efrom, o heteu, a compra de uma caverna para sepultar Sara. A negociação acontece diante dos filhos de Hete, e o texto registra duas vezes que foi feita perante "todos os que entravam pela porta da sua cidade". Abraão insiste em pagar o preço integral, e o campo passa a lhe pertencer de modo incontestável.

É a mesma instituição que aparece aqui: a mesma cidade murada, a mesma porta, o mesmo público, a mesma finalidade de tornar um acordo inatacável.

A diferença está no que é levado até lá.

Quem participava

A assembleia da porta reunia os homens livres da cidade — os que tinham casa, terra ou ofício próprio. Não incluía mulheres, não incluía escravos, e não incluía estrangeiros residentes.

O versículo 24 usará uma expressão que descreve exatamente esse grupo: "todos os que saíam pela porta da cidade". É a fórmula que designa o conjunto dos cidadãos.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então Hamor e o seu filho Siquém foram à porta da cidade"

O deslocamento físico é o acontecimento do versículo.

Tudo o que veio antes foi privado. Hamor procurou Jacó; Siquém falou aos irmãos; a condição foi imposta e aceita entre poucos. A partir daqui, a mesma proposta passa a existir de outro modo: diante de todos, com testemunhas, no lugar em que as decisões da cidade se tornam obrigatórias.

Repare no que isso faz com a fraude. Ela não é escondida — é levada ao lugar mais público disponível e submetida ao procedimento correto. Nada no que Hamor está prestes a fazer viola a forma. A forma é impecável; o que está por trás dela é que não.

E há uma consequência prática que o resto do capítulo depende. Uma decisão tomada na porta obriga todos. Depois de aprovada ali, ela não será revista, não será discutida em casa, não terá dissidentes. É por isso que o versículo 24 pode terminar em unanimidade.

Os dois que vão juntos

Pai e filho aparecem juntos pela quarta vez no capítulo, sempre nas decisões: no versículo 18, quando aprovam; aqui, quando vão à porta; nos versículos 21 a 23, quando falam; e no versículo 26, quando morrem.

A presença dos dois tem função. Hamor é a autoridade, e é ele quem pode convocar. Siquém é o herdeiro, e é ele o mais considerado da casa, conforme o versículo anterior. Juntos, esgotam a liderança da cidade.

Há um detalhe físico que vale registrar com cautela. O versículo 19 informou que Siquém não demorou em cumprir a condição, e a ordem do relato coloca esse cumprimento antes desta cena. Se a ordem for cronológica, Siquém se dirige à assembleia já circuncidado — e apresenta a exigência tendo pago o preço no próprio corpo.

Não se pode afirmar isso com segurança, porque o hebraico narrativo às vezes antecipa informação. Mas a leitura é possível, e ela explicaria parte da persuasão do discurso que vem a seguir.

"e falaram aos homens da sua cidade"

A frase repete uma palavra, e a repetição é chamativa.

Em português se lê "a porta da cidade" e depois "os homens da sua cidade". No hebraico, as duas expressões trazem o mesmo termo com o mesmo sufixo: a porta da cidade deles, os homens da cidade deles.

Duas vezes na mesma frase, o texto marca a posse. É a cidade deles.

Pode ser apenas o modo de dizer, e a redundância é comum no hebraico narrativo. Mas o efeito de leitura existe: no versículo em que dois homens vão pedir à população que se submeta a uma cirurgia, o texto insiste em lembrar que aquela população é deles.

O que Hamor e Siquém estão prestes a fazer é usar essa posse. Não vão argumentar com iguais; vão apresentar uma proposta que a cidade deles já aprovou por eles.

A porta que a bênção mencionava

Há um eco no livro que vale registrar, com todas as ressalvas.

Duas vezes Gênesis usa a imagem da porta como imagem de conquista. Em Gênesis 22:17, depois do episódio do monte Moriá, a promessa a Abraão diz que a sua descendência possuirá "a porta dos seus inimigos". Em Gênesis 24:60, quando Rebeca parte para se casar com Isaque, a família a abençoa com quase as mesmas palavras: que a tua descendência possua "a porta dos que a odeiam".

Rebeca é avó dos homens que estão do outro lado desta negociação. E o que vai acontecer em Siquém é, ao pé da letra, a descendência dela tomando a porta de uma cidade.

É preciso ser claro sobre o estatuto dessa observação. Gênesis não faz a ligação. Não cita a bênção, não a lembra, não sugere que o que ocorre aqui a cumpra. E o contexto é tão diferente que a leitura chega a ser desconfortável: a bênção fala de inimigos, e a cidade de Siquém está, neste momento, tentando fazer aliança.

Vale como registro do vocabulário do livro, e não como interpretação do episódio. É leitura possível, não demonstrável, e o próprio texto não a autoriza.

O que o versículo prepara

Este é um versículo de transição, e ele estabelece as condições do que vem.

Estabelece o lugar: público, formal, vinculante. Estabelece os oradores: a autoridade máxima e o homem mais considerado. Estabelece o público: os homens livres da cidade.

Tudo isso está montado quando o versículo 21 abre as aspas. O que será dito ali chegará com o peso de quem diz e o peso de onde é dito.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Hamor

Chamado no versículo 2 de príncipe da terra. É a autoridade convocante, e nada no texto indica que precisasse de permissão para reunir a cidade.

Ele já havia oferecido a Jacó, nos versículos 9 e 10, exatamente o que agora vai propor aos seus: casamentos recíprocos, moradia comum, comércio. A diferença é o público.

Siquém

O mais respeitado de toda a casa do pai, segundo o versículo 19, e provavelmente já circuncidado quando esta cena acontece.

É a segunda vez que ele fala em público no capítulo. A primeira foi diante de Jacó e dos irmãos de Diná, nos versículos 11 e 12.

Os homens de Siquém

Aparecem aqui pela primeira vez como grupo. O texto nunca os individualiza: são "os homens da sua cidade" aqui, e "todos os que saíam pela porta da cidade" no versículo 24.

Nenhum deles tem nome, nenhum deles faz uma pergunta, nenhum deles sabe de nada.

A cidade de Siquém

Ficava na região montanhosa central de Canaã, entre os montes Ebal e Gerizim, num vale que controlava as rotas leste-oeste e norte-sul. A posição explica a importância dela.

É a primeira cidade que Abraão alcança ao entrar na terra, em Gênesis 12:6, e é onde ele levanta o primeiro altar. Jacó comprou ali um campo e levantou outro altar, conforme Gênesis 33:18-20. Muito depois, será o lugar da renovação do pacto sob Josué, em Josué 24, e o lugar onde o reino do norte se separará, em 1 Reis 12.

A porta como instituição no restante da Bíblia

Rute 4:1-11 mostra o procedimento completo. Deuteronômio 21:19, 22:15 e 25:7 tratam de causas levadas aos anciãos à porta. Amós 5:12 e 5:15 denunciam a corrupção do juízo "na porta". Provérbios 31:23 diz que o marido da mulher virtuosa é conhecido "nas portas", quando se assenta com os anciãos.

5. Pontos de Ensino

O procedimento correto não garante o conteúdo

Tudo o que Hamor faz aqui é regular. Convoca no lugar certo, diante de quem deve, com quem tem autoridade para convocar.

E o que ele vai apresentar é uma proposta cuja origem é uma fraude que ele desconhece. A forma está perfeita, e a forma não protege ninguém.

Isso vale como advertência prática sobre qualquer instituição. Regras de procedimento servem para impedir arbitrariedade, e é para isso que existem. Elas não conseguem, sozinhas, produzir decisões boas — e a aparência de regularidade é justamente o que faz uma decisão ruim passar sem exame.

Levar ao público o que já foi decidido em privado

A decisão do capítulo foi tomada no versículo 18, entre dois homens. A assembleia acontece depois.

É o padrão mais comum de funcionamento de conselhos, diretorias, comissões e assembleias de qualquer tipo, e nem sempre é desonesto — muitas decisões precisam mesmo ser preparadas antes.

O problema aparece quando a reunião pública deixa de ser deliberação e vira ratificação. Quem participa acha que está decidindo; está sendo informado com passos intermediários.

O sinal para reconhecer isso é simples: existe alguma resposta possível, naquela sala, que mudaria o resultado?

Publicidade não é o mesmo que transparência

A cena é inteiramente pública. Todos veem, todos ouvem, todos podem falar.

E a informação decisiva não está lá. Está do outro lado, com quem armou a proposta, e nenhuma quantidade de publicidade a traria à porta da cidade.

Publicar o que se decide é diferente de dar às pessoas o que elas precisariam para decidir. A primeira coisa é fácil e a segunda é rara.

Quem convoca já venceu metade

Hamor escolhe o momento, o lugar, o assunto e a ordem em que as coisas serão ditas.

Essa vantagem é enorme e quase invisível. Quem define a pauta define o que será considerado e o que nem chegará a ser mencionado — e, no discurso que vem a seguir, o que não será mencionado é justamente o crime que originou tudo.

6. Aspectos Filosóficos

Por que decisões precisam ser tomadas em público

O versículo mostra uma instituição funcionando, e vale perguntar para que ela serve.

A porta da cidade resolve um problema real. Sem escrita corrente, sem cartório, sem polícia e sem tribunal permanente, como um acordo se torna obrigatório? A resposta daquele mundo foi: fazendo-o diante de todos.

A publicidade cumpre três funções ao mesmo tempo. Cria testemunhas, e portanto prova. Cria constrangimento, porque romper a palavra dada em praça é caro. E cria participação, porque quem esteve presente e não objetou fica vinculado.

É um arranjo engenhoso, e é o antepassado direto de tudo o que hoje se chama de deliberação pública.

O que a publicidade não consegue fazer

E aqui o capítulo mostra o limite do arranjo, sem enunciá-lo.

A porta garante que a decisão seja conhecida, testemunhada e vinculante. Não garante que seja informada. Ela funciona sobre o que é dito ali, e não tem nenhum mecanismo para trazer o que foi deliberadamente deixado de fora.

Nenhuma quantidade de testemunhas corrige uma premissa falsa. Mil pessoas concordando com uma coisa errada continuam erradas, e o número apenas torna a decisão mais difícil de reverter.

Disso decorre uma observação incômoda: procedimentos públicos protegem contra o abuso de quem decide, e não protegem contra o engano de quem informa. São defesas contra problemas diferentes, e é fácil confundi-las.

O consentimento como assinatura em branco

Os homens de Siquém vão concordar. Terão participado, terão ouvido, terão tido a chance de falar.

E terão consentido com uma coisa que não é a que está acontecendo. O gesto será livre; o conteúdo do gesto, não.

Isso levanta uma questão que continua aberta em qualquer sistema de decisão coletiva: o que exatamente se legitima quando um grupo aprova algo? A aprovação legitima o procedimento, e é isso que ela pode fazer. Ela não transforma em verdadeiro aquilo que foi apresentado.

Onde a leitura para

Gênesis não discute nada disso. Registra que dois homens foram à porta e falaram, e passa ao discurso.

Toda a reflexão sobre deliberação pública é do comentarista. O texto não critica a assembleia, não a defende e não sugere que ela devesse ter feito diferente.

E vale a ressalva que o capítulo cobra a cada versículo: analisar o mecanismo não é distribuir responsabilidade. Os homens de Siquém serão mortos por uma decisão que tomaram sem saber o que decidiam, e nada nesta análise diz que a culpa foi deles.

7. Aplicações Práticas

Perguntar quem preparou a reunião

Antes de qualquer assembleia, conselho ou reunião de decisão, vale saber o que já foi combinado fora dela.

Não é suspeita: é leitura correta da situação. Reuniões quase sempre chegam com uma direção pronta, e conhecê-la é a diferença entre participar e assistir.

A pergunta prática é direta: quem propôs esta pauta, e o que essa pessoa quer que aconteça?

Notar o que não está sendo dito

O discurso que começa no versículo seguinte será cuidadoso, coerente e persuasivo. E deixará de fora a única informação que mudaria tudo.

Diante de qualquer apresentação bem-feita, o exercício útil é inverter a atenção: em vez de avaliar os argumentos apresentados, listar o que seria preciso saber e não foi mencionado.

Em geral a lista é curta e a ausência é reveladora.

Não confundir formalidade com garantia

Contratos assinados, atas registradas, reuniões convocadas na forma devida — tudo isso é bom e necessário, e nada disso examina o mérito.

Uma decisão pode ser perfeitamente regular e completamente equivocada. Quem confia no procedimento como se ele decidisse o conteúdo está protegido apenas contra um tipo de problema.

Dar às pessoas o que elas precisam para discordar

Quem conduz qualquer decisão coletiva tem uma responsabilidade que raramente é assumida: fornecer aos outros a informação com que eles poderiam dizer não.

Uma concordância obtida sem isso não vale nada — nem moralmente, nem na prática, porque desaba na primeira dificuldade.

O teste é desconfortável e é o único que funciona: eu apresentei este assunto de um modo que permitiria a alguém recusar com bons argumentos?

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Hamor precisava da aprovação da cidade?

O texto não explica a estrutura de poder, e as duas leituras são possíveis.

Ele é chamado de príncipe da terra e convoca a assembleia sem que ninguém questione. Por outro lado, a exigência atingia o corpo de cada homem livre, e é difícil imaginar que pudesse ser simplesmente ordenada.

O provável é que houvesse autoridade real e limitada ao mesmo tempo — modelo comum nas cidades pequenas de Canaã. Não é possível ir além disso.

Siquém já estava circuncidado quando falou à cidade?

A ordem do relato sugere que sim, porque o versículo 19 registra o cumprimento antes desta cena.

Mas o hebraico narrativo às vezes antecipa informação em vez de seguir estritamente a cronologia. Não é possível decidir, e a questão é discutida.

Se a leitura cronológica estiver certa, ela acrescenta um dado ao discurso seguinte: quem pede o sacrifício já o fez.

Por que Gênesis descreve o lugar em vez de ir direto à fala?

Porque o lugar é informação. Dizer "foram à porta da cidade" comunica ao leitor antigo tudo aquilo que o item 2 precisa explicar hoje: publicidade, testemunhas, caráter vinculante.

É economia de narrativa, não descrição de cenário. O livro faz o mesmo em Gênesis 23, ao registrar que a compra de Abraão se deu diante dos que entravam pela porta.

A assembleia poderia ter recusado?

Nada no texto indica que não pudesse. O versículo 24 registra concordância, não obediência forçada.

O que não se sabe é quanto de real havia nessa possibilidade, dado que o príncipe e o herdeiro estavam os dois a favor. Comentaristas antigos oscilam entre atribuir a unanimidade à afeição pela casa dominante e ao poder que ela exercia. Não há como decidir.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma instituição, no mesmo livro

Gênesis 23:10 — "Ora, Efrom estava sentado no meio dos filhos de Hete; e respondeu Efrom, o heteu, a Abraão, aos ouvidos dos filhos de Hete, de todos os que entravam pela porta da sua cidade."

Gênesis 23:18 — "...a Abraão em possessão, diante dos olhos dos filhos de Hete, de todos os que entravam pela porta da sua cidade."

A transação pública mais detalhada de Gênesis, com a mesma fórmula da porta. Ali Abraão insiste em pagar o preço inteiro para que a compra seja incontestável.

O procedimento completo

Rute 4:1-2 — "Boaz subiu à porta e assentou-se ali; e eis que o resgatador de que Boaz falara ia passando. Então tomou dez homens dos anciãos da cidade e disse: Assentai-vos aqui. E assentaram-se."

A cena que mostra como funcionava: o lugar, as testemunhas, a convocação, a exposição do caso.

Deuteronômio 25:7 — "Ela subirá à porta, aos anciãos, e dirá: Meu cunhado recusa suscitar a seu irmão nome em Israel."

A porta como tribunal, acessível inclusive a quem não fazia parte da assembleia.

A porta como imagem de domínio

Gênesis 22:17 — "Certamente te abençoarei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus e como a areia que está na praia do mar; e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos."

Gênesis 24:60 — "E abençoaram a Rebeca e disseram-lhe: Ó nossa irmã, sejas tu em milhares de milhares, e que a tua descendência possua a porta dos que a odeiam."

As duas ocorrências da imagem no livro. Rebeca é avó dos irmãos de Diná. Gênesis não faz a ligação com este capítulo, e ela é registrada aqui apenas como coincidência de vocabulário.

A corrupção do juízo na porta

Amós 5:15 — "Aborrecei o mal e amai o bem, e estabelecei o juízo na porta."

A porta como lugar onde a justiça deveria acontecer, e onde deixava de acontecer. O profeta pressupõe a instituição que este versículo mostra em funcionamento.

A assembleia que decidirá

O resultado do que este versículo põe em movimento, quatro versículos adiante.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então Hamor e o seu filho Siquém foram à porta da cidade e falaram aos homens da sua cidade:

Texto hebraico

וַיָּבֹא חֲמוֹר וּשְׁכֶם בְּנוֹ אֶל־שַׁעַר עִירָם וַיְדַבְּרוּ אֶל־אַנְשֵׁי עִירָם לֵאמֹר

Transliteração

vayyavo Chamor u-Shechem beno el-sha'ar iram, vaydabberu el-anshe iram lemor.

Análise palavra por palavra

וַיָּבֹא — vayyavo, "e veio". Raiz bo, vir, entrar, chegar.

O verbo está no singular, embora o sujeito seja duplo — Hamor e Siquém. É construção comum no hebraico: quando dois sujeitos agem juntos e o primeiro é o principal, o verbo pode concordar apenas com ele.

O detalhe não é insignificante. Ele indica quem conduz: Hamor vem, e Siquém vem com ele. Já o verbo seguinte, o de falar, está no plural — os dois falam.

שַׁעַר — sha'ar, "porta", "portão".

É a palavra da entrada da cidade murada, e por extensão da autoridade que se exerce ali. O item 2 trata das funções que se concentravam nesse lugar.

O uso figurado é frequente. Em Gênesis 22:17 e Gênesis 24:60 a descendência abençoada "possuirá a porta" dos inimigos, o que significa dominar as cidades deles. Em Provérbios 31:23 o marido é conhecido "nas portas", isto é, entre os que decidem.

A palavra volta no versículo 24, duas vezes, na expressão que designa os cidadãos.

עִירָם — iram, "a cidade deles". Substantivo ir com o sufixo de posse da terceira pessoa do plural.

A palavra aparece duas vezes neste único versículo, com o mesmo sufixo: a porta da cidade deles, os homens da cidade deles.

A repetição é chamativa. O hebraico poderia dizer "à porta da cidade" e depois "aos homens dela", e o texto opta por repetir a expressão inteira.

No versículo 24 a mesma palavra reaparecerá, mas com o sufixo do singular — "a porta da sua cidade", referindo-se a um só possuidor. A troca de número é notada por comentaristas e não tem explicação estabelecida.

וַיְדַבְּרוּ — vaydabberu, "e falaram". Piel (forma verbal hebraica que costuma intensificar ou tornar transitiva a ação) da raiz davar.

Agora no plural: os dois falam. O texto não distingue o que cada um disse, e o discurso dos versículos 21 a 23 vem numa voz só.

É o mesmo verbo do versículo 13, onde os filhos de Jacó "falaram" depois de responder com engano. A palavra é comum demais para que a coincidência signifique alguma coisa.

אֶל־אַנְשֵׁי — el-anshe, "aos homens de". Plural construto de ish, homem, varão, indivíduo.

A expressão "os homens da cidade" designa os cidadãos livres, os que participavam da assembleia. Não é o conjunto da população: mulheres, crianças, servos e estrangeiros residentes não estavam incluídos.

A mesma expressão aparece em Juízes 8:16 e em 1 Samuel 5:9, sempre com esse sentido de corpo de cidadãos.

לֵאמֹר — lemor, "dizendo". Infinitivo de 'amar, dizer.

É a partícula que abre discurso direto no hebraico, equivalente aos dois-pontos e às aspas. Não se traduz nas versões modernas, e sinaliza que o que vem a seguir são as palavras exatas.

A mesma fórmula aparece em Gênesis 23:10, na boca de Efrom, também diante dos que estavam à porta da cidade.

11. Conclusão

Três conclusões decorrem deste versículo.

A primeira é sobre o que muda quando a cena muda de lugar. Levar a proposta à porta da cidade não é comunicar uma decisão: é submetê-la ao único procedimento que a torna obrigatória para todos. Depois de aprovada ali, diante de testemunhas, ela não será revista. É por isso que o capítulo pode chegar à unanimidade do versículo 24 sem registrar uma única objeção.

A segunda é sobre a relação entre forma e conteúdo. Nada do que Hamor faz aqui é irregular. Ele convoca no lugar certo, com a autoridade que tem, diante de quem deve. A fraude não é escondida do público — é conduzida através dele. Disso decorre que a regularidade de um procedimento nada informa sobre o que está sendo decidido, e que instituições de publicidade protegem contra o abuso de quem decide, não contra o engano de quem informa.

A terceira é sobre a ordem dos acontecimentos. O acordo foi fechado no versículo 18, entre dois homens; a assembleia acontece depois. A cidade não é convocada para deliberar, e sim para aderir ao que já está decidido — e quem convoca escolhe o lugar, o momento, o assunto e o que não será mencionado.

Fica o registro do vocabulário, sem conclusão: duas vezes Gênesis falou em possuir a porta dos inimigos, e uma dessas vezes foi na bênção sobre Rebeca. O que acontecerá em Siquém tem essa forma. O livro não faz a ligação, e este comentário também não a faz.

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