Então lhe contou a mesma história, dizendo: "O escravo hebreu que você nos trouxe veio até mim para me insultar;
1. Introdução
Potifar chegou, e agora ouve.
O texto anuncia que ela lhe contou "a mesma história" — e em seguida registra palavras que não são as mesmas. A comparação com o versículo 14 foi feita ali, onde é o assunto; aqui basta a menção.
Dois pontos organizam a leitura.
O primeiro é a fórmula de introdução. Dizer que alguém falou "conforme estas palavras" é expressão corrente em hebraico e significa "deste modo", não "com estas exatas palavras". O texto não se contradiz; apenas deixa que o leitor confira.
O segundo é o paralelo egípcio. Existe um conto egípcio, escrito num papiro do século XIII antes de Cristo, com uma cena muito parecida com esta. Ele é citado em quase todo comentário sobre o capítulo, quase sempre sem a cautela necessária. O item 2 trata do que a comparação mostra e do que ela não prova.
É o versículo em que a acusação chega a quem pode executá-la.
2. Contexto Histórico e Cultural
O Conto dos Dois Irmãos
Existe um texto egípcio que os estudiosos comparam a este capítulo desde que foi traduzido, no século XIX. Convém apresentá-lo com precisão antes de discutir o que ele significa.
Trata-se do chamado Conto dos Dois Irmãos, conservado no Papiro d'Orbiney, hoje no Museu Britânico. A cópia que sobreviveu foi escrita em hieráticos — a escrita cursiva egípcia — durante a XIX dinastia, no reinado de Seti II, por volta de 1200 antes de Cristo. É, portanto, um manuscrito do Novo Império.
A história é a seguinte, na parte que interessa. Dois irmãos vivem e trabalham juntos: Anpu, o mais velho, casado, e Bata, o mais novo, que mora na casa do irmão e cuida do gado e da lavoura. Certo dia, a mulher de Anpu propõe-se a Bata. Ele recusa com indignação e volta ao trabalho.
Temendo ser denunciada, ela prepara a cena: rasga as próprias roupas, produz em si a aparência de quem foi agredida e, quando o marido chega, acusa Bata de tê-la atacado. Anpu procura matar o irmão.
Daí em diante o conto segue por outro caminho. Bata escapa, sustenta a inocência, e a narrativa entra num terreno de transformações mágicas, animais que falam e mortes seguidas de retorno à vida. No fim, Bata é vindicado e chega ao trono; o irmão, arrependido, mata a mulher.
O que a comparação mostra
Três coisas, e todas úteis.
A primeira é que a situação era inteligível no Egito. A cena de Gênesis 39 não descreve nada que a cultura egípcia desconhecesse: casa grande, subordinado jovem em posição de confiança, esposa do dono, acusação depois da recusa. Um leitor egípcio reconheceria o enredo.
A segunda é que a acusação falsa aparece, nos dois textos, acompanhada de uma prova material montada. Isso reforça o que o versículo 16 já mostrou sobre a função do objeto guardado.
A terceira é sobre o vocabulário do trabalho e da casa. Detalhes do conto egípcio — a administração da propriedade entregue ao mais novo, a confiança do dono, a rotina do campo — coincidem com o que Gênesis 39 pressupõe, e ajudam a reconstruir o pano de fundo.
O que a comparação não prova
Aqui é preciso ser rigoroso, porque a conclusão fácil é que um texto copiou o outro.
Primeiro, a cronologia não decide nada. A cópia egípcia é de cerca de 1200 antes de Cristo; a datação da composição de Gênesis é ela própria objeto de disputa, com propostas que vão do segundo milênio ao período persa. Não há como estabelecer qual texto é anterior, e portanto não há como estabelecer direção de influência.
Segundo, as diferenças são grandes e estruturais. No conto egípcio, os dois homens são irmãos; aqui, senhor e escravo. Lá a mulher fere a si mesma e usa as próprias roupas rasgadas; aqui a prova é uma peça de roupa dele, e ela não se machuca. Lá o acusado é perseguido para ser morto; aqui, preso. Lá ele é vindicado e a acusadora é executada; aqui não há vindicação nenhuma — José vai para a prisão e fica.
Terceiro, e mais importante: o enredo não é exclusivo dos dois. A mesma armação aparece na literatura grega, em pelo menos dois casos famosos — a rainha que acusa Belerofonte diante do marido, na Ilíada, e Fedra contra Hipólito, na tragédia. Aparece também em narrativas de outras culturas, sem contato entre elas. Os estudiosos de literatura antiga classificam esse tipo de trama como recorrente, e situações recorrentes não exigem cópia para se repetirem.
Como fica, então
A posição defensável é a mais modesta. A semelhança é real e vale a pena conhecer; a dependência literária é discutida e não é demonstrável com o que se tem.
O que se pode afirmar é que uma casa egípcia, um subordinado estrangeiro e uma acusação desse tipo formam um conjunto plausível para a época e o lugar — e que Gênesis faz, com o material, algo diferente do que o conto egípcio faz. Ali a história termina em justiça feita. Aqui ela termina numa cela.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então lhe contou a mesma história"
A frase é do texto, não dela, e é preciso ler com cuidado o que ela afirma.
A expressão hebraica traduzida por "a mesma história" significa, literalmente, "conforme estas palavras". É fórmula corrente na Bíblia hebraica e quer dizer "deste modo", "nestes termos", "assim". Não é promessa de reprodução exata.
Isso importa porque a comparação com o versículo 14 mostra várias diferenças, e seria erro tratá-las como contradição do texto. Gênesis não afirma que ela repetiu as palavras; afirma que falou nessa linha. E, em seguida, registra a fala.
O procedimento é característico do livro. Ele diz "deste modo" e deixa o leitor conferir o modo. Quem confere encontra os deslocamentos — o pronome que muda de pessoa, a ofensa que passa de coletiva a individual, o homem que vira escravo, a acusação explícita que desaparece. Tudo isso pertence ao versículo 14, que é onde a comparação foi feita.
Vale registrar apenas o efeito de composição: o texto insere a fórmula de igualdade e apresenta uma diferença. A discrepância está ali, à vista, sem uma linha de comentário.
"O escravo hebreu"
Duas palavras, e é assim que José entra na conversa que vai decidir a vida dele.
Não pelo nome. Não pelo cargo, que era o de administrador de tudo o que Potifar possuía, segundo os versículos 4 a 6. Pela condição jurídica e pela origem.
Convém medir a distância entre essa designação e a realidade da casa. O homem chamado aqui de "o escravo" é aquele a quem o senhor entregou tudo o que tinha, e de quem o versículo 6 diz que dispensava qualquer preocupação. Entre o que ele era na prática e o que ele é nesta frase há uma queda inteira, e ela se dá em duas palavras.
Não é preciso supor cálculo para observar o efeito. Diante de um dono, chamar alguém de escravo é lembrar-lhe que se trata de propriedade — e propriedade se descarta com menos hesitação do que se descarta um homem de confiança.
"que você nos trouxe"
A acusação contra José vem grudada numa acusação contra quem a ouve.
A frase informa a Potifar que o problema entrou em casa pela mão dele. Ele comprou, ele instalou, ele promoveu. Se algo aconteceu, a origem remota do acontecimento é uma decisão dele.
Há um detalhe que a tradução preserva bem: o "nos". Não "que você me trouxe" — "que você nos trouxe". O plural, aqui, não recruta ninguém, porque não há plateia; funciona como lembrete de que a casa inteira foi exposta por aquela compra.
O que muda de pessoa gramatical em relação ao versículo 14 é o verbo, e o item 10 mostra a forma. O alvo deixa de ser um ausente e passa a ser o homem à frente dela.
"veio até mim para me insultar"
A acusação, diante do único homem com poder de puni-la, é mais curta do que foi diante dos empregados.
O verbo é o mesmo do versículo 14, e é largo: cobre desde a zombaria até a investida. Não nomeia um crime; nomeia um tratamento indigno e deixa o resto por conta de quem escuta.
Diante dos servos, a imprecisão era completada por uma frase concreta. Diante do marido, não é completada por nada. A parte explícita da acusação simplesmente não é repetida — e isso pertence à análise do versículo 14, onde as leituras propostas foram examinadas.
O que este versículo acrescenta é a mudança do alvo. Lá a ofensa era contra a casa; aqui, contra ela sozinha. E, dito ao marido, "contra mim" quer dizer, sem que seja preciso explicar, "contra você" — porque a honra dela era, naquele mundo, patrimônio dele.
O que o versículo não registra
As ausências são grandes e vale enumerá-las.
Não há descrição da reação de Potifar — ela virá no versículo 19, e virá em três palavras. Não há pergunta dele. Não há menção de que a roupa tenha sido mostrada, embora o versículo 16 tenha registrado que ela foi guardada exatamente para isto. Não há registro de que ele tenha mandado chamar José.
E, mais uma vez, não há nome. Em cinco versículos de acusação, ela nunca diz "José" — observação que pertence ao versículo 14 e que aqui apenas se confirma pela quarta vez.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Potifar
Reaparece na narrativa depois de dez versículos de ausência. A última menção direta a ele foi no versículo 8, dentro da fala de José.
O que o capítulo já informou sobre ele é o que importa agora: é oficial do faraó e chefe da guarda, segundo o versículo 1; entregou a casa inteira a José, segundo o versículo 4; e confiava a ponto de não se ocupar de nada, segundo o versículo 6.
Esse é o homem que ouve a acusação. Ele conhece o acusado melhor do que qualquer outra pessoa na casa e tem treze anos de convivência para comparar com o que está sendo dito. O texto não informa nada sobre o que ele pensou.
Neste versículo ele é ouvinte e nada mais. Não fala, não pergunta, não reage — a reação está no versículo 19.
A mulher de Potifar
É a quarta e última vez que ela fala no capítulo. Depois do versículo 18, desaparece do texto e não é mencionada de novo em toda a história de José.
Vale registrar isso, porque contraria a expectativa. Não há desfecho para ela: nenhuma punição, nenhuma revelação, nenhuma retratação. Gênesis simplesmente deixa de falar dela.
José
Ausente pelo sexto versículo consecutivo. Está sendo julgado numa conversa em que não é parte, não é ouvido e não é nomeado.
O Conto dos Dois Irmãos e o Papiro d'Orbiney
O papiro é um documento real e localizável: manuscrito egípcio do fim do século XIII antes de Cristo, adquirido no século XIX e conservado no Museu Britânico, onde recebeu número de catálogo.
Os personagens do conto — Anpu e Bata — têm nomes que correspondem a divindades egípcias, e a segunda metade da história é abertamente mitológica. Isso é relevante para avaliar o gênero do texto: não se trata de crônica, e sim de narrativa de tradição oral posta por escrito.
O item 2 trata do valor da comparação.
5. Pontos de Ensino
"A mesma história" não significa as mesmas palavras
A fórmula hebraica indica maneira, não literalidade. Quem lê em português e entende "exatamente o mesmo relato" atribui ao texto uma afirmação que ele não faz.
A observação vale além deste versículo. Boa parte das contradições que se apontam na Bíblia hebraica nasce de expressões de aproximação lidas como se fossem de exatidão.
A designação escolhida faz metade do trabalho
"O escravo hebreu" reduz a duas informações um homem que administrava toda a propriedade. Nenhuma das duas é falsa; juntas, apagam tudo o mais.
Isso não é mentira e é mais eficaz do que mentir. Selecionar quais verdades dizer é o recurso mais difícil de refutar, porque cada elemento resiste à checagem.
Acusar envolvendo quem julga
Ao lembrar que foi Potifar quem trouxe José para casa, ela coloca o juiz dentro do caso. Quem julga passa a ter algo a perder no resultado.
É procedimento comum e produz efeito duplo: pressiona a decidir e desestimula a investigação, porque investigar a fundo seria examinar também a própria escolha.
O texto não conclui a história da acusadora
Ela some depois do versículo 18. Não há punição, confissão ou desmascaramento.
Isso é incomum em narrativas de acusação falsa, inclusive na egípcia, onde a mulher é morta no fim. Gênesis recusa o desfecho e deixa a assimetria de pé.
6. Aspectos Filosóficos
O que uma história repetida em muitas culturas prova
O paralelo egípcio levanta uma questão que não é sobre José nem sobre o Egito: o que se pode concluir do fato de uma mesma trama reaparecer em lugares sem contato entre si?
A tentação é responder que a repetição revela algo sobre a vida — que a situação é comum porque as histórias são comuns. É um passo rápido demais.
Por que o passo não se sustenta
Histórias não se repetem porque os fatos se repetem. Repetem-se porque funcionam como histórias.
Uma trama sobrevive quando concentra conflito em pouco espaço, quando cria expectativa e quando o público a entende sem explicação. A armação da acusação falsa tem essas três qualidades: opõe duas pessoas, produz suspense sobre o desfecho e dispensa qualquer contexto para ser compreendida.
Daí decorre que a frequência de um enredo mede o interesse dos que contam, não a frequência do acontecimento. Assassinatos são raros e histórias de assassinato são incontáveis.
O que a repetição informa, então
Informa algo mais modesto e ainda assim útil: que a situação era pensável. Que existia, naquele mundo, o repertório mental necessário para imaginar uma casa, um subordinado de confiança, uma acusação e um dono decidindo sozinho.
Isso não confirma nem desmente o episódio. Estabelece que ele não é anacrônico — o que é pouco, e é o que se pode ter.
Onde a leitura não pode ir
Convém marcar dois limites, porque se erra nas duas direções.
Não se pode concluir que Gênesis tenha inventado a partir de um enredo em circulação; a existência de um tipo narrativo não diz nada sobre a origem de um caso particular. E não se pode concluir o contrário, que a semelhança seja irrelevante; ela é real e merece ser conhecida por quem lê o capítulo.
O texto, evidentemente, não participa dessa discussão. Ele conta o que conta e não conhece nenhum papiro. As considerações acima são inteiramente do comentarista, e é assim que devem ser lidas.
7. Aplicações Práticas
Cuidado com o "ele disse a mesma coisa"
Em conflitos reais, a informação de que alguém repetiu o que já havia dito costuma ser aceita sem conferência. Este versículo mostra por quê: a fórmula de igualdade é confortável, e ninguém volta atrás para comparar.
Quando a comparação é possível — mensagens, gravações, documentos —, ela custa pouco e às vezes muda tudo.
Reparar em como a pessoa é nomeada
Chamar alguém por uma função, uma origem ou uma condição, em vez do nome, não é detalhe de estilo. É a parte do relato que trabalha sem ser notada.
Vale nos dois sentidos: para desconfiar de quem faz isso e para perceber quando se está fazendo.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O texto se contradiz ao dizer "a mesma história"?
Não. A expressão hebraica significa "conforme estas palavras", isto é, "deste modo", e é fórmula comum de aproximação.
Quem a lê como promessa de literalidade encontra contradição onde não há. O que há é a discrepância entre as duas falas, que o texto expõe sem apontar.
Gênesis copiou o conto egípcio?
Não é possível decidir, e a pergunta talvez esteja mal posta.
As datas não permitem estabelecer anterioridade, as diferenças entre os dois textos são estruturais, e o mesmo tipo de trama aparece em culturas sem contato. A hipótese de dependência literária direta é discutida e não é demonstrável.
Potifar mostrou a roupa? Interrogou José?
O texto não diz nem uma coisa nem outra.
É um silêncio notável, porque o versículo 16 registrou que a peça foi guardada precisamente até este momento. Que ela tenha sido exibida é suposição razoável; que Potifar tenha ouvido José é suposição sem qualquer apoio.
Por que ela envolve o marido na acusação?
O texto não explica o motivo, e há mais de uma leitura possível: pressioná-lo a agir, antecipar-se a uma eventual dúvida dele, ou simples irritação.
O que se pode afirmar é o efeito. Um homem lembrado de que o problema entrou em casa por decisão sua tem menos disposição para examinar o caso com calma.
O que aconteceu com ela depois?
Nada, até onde a Bíblia informa. Ela desaparece do texto no versículo seguinte e não é mencionada em nenhum outro lugar.
Tradições posteriores, judaicas e islâmicas, criaram desfechos para o personagem. Nenhum deles está em Gênesis, e nenhum é antigo o bastante para servir de informação histórica.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma acusação, diante do outro público
Gênesis 39:14 — "Vejam, ele nos trouxe um hebreu para nos insultar! Ele veio até mim para se deitar comigo, mas eu gritei bem alto."
O termo de comparação. As diferenças entre as duas falas foram examinadas naquele versículo.
A fórmula "conforme estas palavras"
Gênesis 39:19 — "Quando o seu senhor ouviu as palavras que a mulher lhe dizia — 'Foi assim que o seu escravo me tratou' —, acendeu-se a sua ira."
A mesma fórmula reaparece dois versículos adiante, agora resumindo a fala num único trecho ainda mais curto.
2 Reis 5:4 — "Então entrou e contou ao seu senhor, dizendo: Assim e assim falou a moça que é da terra de Israel."
Exemplo do mesmo tipo de expressão em outro livro, onde fica claro que se trata de resumo, não de citação.
José chamado pela origem, não pelo nome
Gênesis 41:12 — "Estava ali conosco um jovem hebreu, servo do capitão da guarda."
O copeiro, dois capítulos depois, usa exatamente as mesmas duas informações — origem e condição — para apresentar José ao faraó. A designação não é exclusiva de quem acusa.
Gênesis 40:15 — "Porque, na verdade, fui roubado da terra dos hebreus."
O próprio José usa o termo ao falar com egípcios.
Acusação levada a quem tem poder de decidir
Daniel 6:12-13 — "Então se aproximaram e falaram diante do rei a respeito do decreto real: (...) Daniel, que é dos exilados de Judá, não tem consideração a você, ó rei."
A acusação começa lembrando ao rei uma decisão dele e identifica o acusado pela origem estrangeira. O procedimento é o mesmo.
Ester 3:8 — "Existe espalhado um povo, entre os povos de todas as províncias do seu reino, cujas leis são diferentes das leis de todos os povos."
Julgar sem ouvir a outra parte
João 7:51 — "Acaso a nossa lei julga um homem sem primeiro ouvi-lo e saber o que ele fez?"
O princípio formulado como pergunta, muitos séculos depois. Gênesis não registra que ele tenha sido observado aqui.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então lhe contou a mesma história, dizendo: "O escravo hebreu que você nos trouxe veio até mim para me insultar;
Texto hebraico
וַתְּדַבֵּר אֵלָיו כַּדְּבָרִים הָאֵלֶּה לֵאמֹר בָּא־אֵלַי הָעֶבֶד הָעִבְרִי אֲשֶׁר־הֵבֵאתָ לָּנוּ לְצַחֶק בִּי׃
Transliteração
wattedabbēr 'ēlāyw caddevārîm hā'ēlleh lê'mōr bā'-'ēlay hā'eved hā'ivrî 'ăsher-hēvē'tā lānû leṣaḥeq bî
Análise palavra por palavra
וַתְּדַבֵּר — wattedabbēr, "e ela falou". Verbo dāvar na forma intensiva (Piel), terceira pessoa feminina.
Há uma diferença de vocabulário em relação ao versículo 14 que passa despercebida em português, e ela é regular no hebraico bíblico.
Diante dos empregados, o texto usou 'āmar, "dizer" — o verbo comum, que introduz fala direta e não carrega peso próprio. Aqui usa dāvar, "falar, discursar, tratar de um assunto", que costuma aparecer em contextos de comunicação formal, dirigida, com conteúdo.
O mesmo verbo volta duas vezes no versículo 19, quando o texto se refere ao que ela disse ao marido. Ou seja: o que ela faz diante dos servos é dizer; o que faz diante de Potifar é falar-lhe.
A distinção entre os dois verbos não é rígida em toda a Bíblia hebraica, e não convém forçá-la. Mas a alternância, neste trecho, acompanha exatamente a mudança de interlocutor.
כַּדְּבָרִים הָאֵלֶּה — caddevārîm hā'ēlleh, "conforme estas palavras". Preposição ke, "como, conforme", mais o plural de dāvar, "palavra, coisa, assunto", com o demonstrativo.
Esta é a expressão que a tradução verte por "a mesma história", e vale explicar por que a versão é legítima e ao mesmo tempo pode induzir a erro.
A palavra dāvar significa tanto "palavra" quanto "coisa", "assunto", "caso" — a mesma ambiguidade que o português tem em "isso é outra história". A fórmula "conforme estas palavras" é usada no Antigo Testamento para introduzir um relato resumido ou uma fala reproduzida em substância, não necessariamente em literalidade.
Portanto, o texto não está afirmando que as palavras foram idênticas. Está dizendo que ela falou nesse sentido — e em seguida registra as palavras, que o leitor pode comparar com as do versículo 14.
A mesma expressão reaparece no versículo 19, ali com um efeito notável: o texto a usa para resumir a fala dela numa frase de quatro palavras.
הָעֶבֶד הָעִבְרִי — hā'eved hā'ivrî, "o escravo hebreu". Substantivo 'eved com artigo, seguido do termo de origem, também com artigo.
Duas mudanças em relação ao versículo 14, e as duas são de forma, não de tradução.
A primeira é o substantivo. Lá era 'îsh, "homem"; aqui é 'eved, "escravo, servo". A palavra 'eved vem da raiz 'āvad, "trabalhar, servir", e cobre desde o servo doméstico até o funcionário de alto posto — em contexto de corte, é o termo usado para os oficiais do rei. No caso de José, comprado no versículo 1, o sentido jurídico é o pleno.
A segunda é o artigo. Lá a construção era indefinida, "um homem hebreu"; aqui é duplamente definida, "o escravo, o hebreu". A forma pressupõe que o ouvinte sabe de quem se trata — e Potifar sabe, evidentemente.
Há ainda a proximidade sonora entre 'eved e 'ivrî, que compartilham duas consoantes. É coincidência de som, não de origem: as raízes são distintas. Registra-se porque a sequência das duas palavras juntas produz um efeito de eco no hebraico que nenhuma tradução reproduz.
Sobre o termo 'ivrî em si — de onde vem, quem o usa e a discussão sobre os 'apiru —, o tratamento está no versículo 14, que é onde a palavra aparece pela primeira vez no capítulo.
אֲשֶׁר־הֵבֵאתָ לָּנוּ — 'ăsher-hēvē'tā lānû, "que você trouxe para nós".
Hēvē'tā é o verbo bô' na forma causativa (Hifil), "fazer vir, trazer", na segunda pessoa masculina do singular.
Esta é a diferença de morfologia mais direta entre as duas falas. No versículo 14, a mesma raiz na mesma conjugação aparecia na terceira pessoa — hēvî', "ele trouxe". Aqui está na segunda: "você trouxe".
O sufixo lānû, "para nós", permanece plural nas duas versões. Só o sujeito do verbo muda.
לְצַחֶק בִּי — leṣaḥeq bî, "para me insultar", literalmente "para fazer troça de mim".
O verbo é o mesmo do versículo 14, na mesma forma intensiva, e a faixa de sentido foi tratada ali: vai da zombaria à investida sexual, e não nomeia um crime específico.
O que muda é o sufixo da preposição. No versículo 14 era bānû, "contra nós"; aqui é bî, "contra mim". Uma sílaba, e a ofensa deixa de ser da casa e passa a ser dela.
A frase termina nessa palavra. É a última coisa que Potifar ouve antes do versículo seguinte.
11. Conclusão
Do que foi examinado decorrem quatro conclusões.
A primeira é sobre a fórmula de abertura. "A mesma história" traduz uma expressão que significa "deste modo", e não é promessa de literalidade — de modo que o texto não se contradiz ao registrar, logo depois, palavras diferentes das do versículo 14. Ele apenas põe as duas versões no papel e não avisa que são diferentes.
A segunda é sobre a designação. Diante do dono, José é reduzido a duas informações verdadeiras: é escravo e é hebreu. Nenhuma é falsa, e juntas apagam a única coisa que poderia protegê-lo — os anos de administração fiel que o próprio Potifar conhecia melhor do que ninguém. Selecionar verdades é mais eficaz do que mentir, porque resiste a qualquer verificação.
A terceira é sobre quem julga. Ao lembrar que foi ele quem trouxe o homem para casa, ela coloca a decisão anterior de Potifar dentro do caso. Investigar a fundo passaria a significar examinar também o próprio julgamento — o que desestimula a investigação e apressa a punição.
A quarta é sobre o paralelo egípcio. O Conto dos Dois Irmãos mostra que esse tipo de episódio era inteligível no Egito e que a acusação falsa com prova montada pertencia ao repertório da época. Não mostra dependência literária: as datas não decidem, as diferenças são estruturais, e a mesma trama aparece em culturas sem contato entre si. A semelhança estabelece plausibilidade, e plausibilidade não é prova — nem a favor nem contra.
Fica de pé uma diferença que o paralelo torna visível. No conto egípcio, o acusado é vindicado e a acusadora, morta. Aqui não há vindicação: José vai para a cadeia, e a mulher desaparece do texto sem que nada lhe aconteça. Gênesis recusa o desfecho que a própria trama pedia.













