Estava ali conosco um jovem hebreu, servo do comandante da guarda; contamos a ele os nossos sonhos, e ele os interpretou, dando a cada um a interpretação do seu sonho.
1. Introdução
Aqui o copeiro apresenta José a Faraó. E a apresentação é o assunto do versículo.
Ele usa três palavras para dizer quem é o homem — jovem, hebreu, servo — e nenhuma delas é o nome dele. As três, juntas, descrevem alguém sem posição nenhuma: novo demais, estrangeiro e propriedade de outra pessoa.
Ao mesmo tempo, o relato dos fatos é impecável. Contaram, ele interpretou, e acertou a de cada um. Nada foi omitido do que aconteceu.
Menos uma coisa, e ela é grande: o copeiro não repete a frase que José dissera antes de interpretar qualquer coisa. Deus não aparece na versão dele.
Há ainda um detalhe de identificação que vale seguir: "servo do comandante da guarda". O copeiro localiza José pelo dono — e o dono é o homem em cuja casa José está preso.
Este estudo trata do que essas três palavras significavam no Egito, do nome que falta, e do que o copeiro escolheu não contar ao rei sobre a origem daquelas interpretações.
2. Contexto Histórico e Cultural
Asiáticos nas casas do Egito
Um estrangeiro do Levante servindo na casa de um oficial egípcio não é situação excepcional. É situação documentada.
O melhor exemplo é o Papiro Brooklyn 35.1446 (documento administrativo egípcio do Médio Império, hoje no Museu do Brooklyn, datado por volta dos séculos XIX-XVIII a.C.). O verso dele registra a transferência de 95 servidores para uma mulher chamada Senebtisi. Desses, cerca de 45 são identificados como asiáticos — gente vinda da região da Síria e de Canaã — e boa parte deles tem nome semítico, isto é, da mesma família linguística do hebraico.
O documento lista as funções: campo, tecelagem, cozinha, cerveja, cabeleireiro. Gente da casa, não do templo nem do exército.
É esse o mundo pressuposto pela frase do copeiro. Ele não precisa explicar a Faraó como um hebreu foi parar na casa de um comandante egípcio, porque não havia nada a explicar.
O que "hebreu" queria dizer na boca de um egípcio
O termo em si é tratado no estudo de Gênesis 40:15, onde José o usa a respeito da própria terra. O que interessa aqui é outra coisa: quem o usa e com que efeito.
No Gênesis, a palavra aparece quase sempre na boca de egípcios, e sempre para marcar distância. A mulher de Potifar chama José de "hebreu" duas vezes ao acusá-lo (Gênesis 39:14 e 17), e nas duas o termo faz parte da acusação. Mais adiante, Gênesis 43:32 registrará que os egípcios não comiam à mesa com os hebreus, "porque isso é abominação para os egípcios".
Ou seja: não é um dado geográfico neutro. É a etiqueta que separa quem é de dentro de quem é de fora. O copeiro usa a etiqueta na frase em que recomenda o homem.
"Jovem": idade ou posição?
A palavra do original, tratada no item 10, cobre as duas coisas — e essa ambiguidade é do próprio hebraico, não da tradução.
Pela contagem do livro, José tinha então uns vinte e oito anos: chegou ao Egito com dezessete (Gênesis 37:2) e se apresentará a Faraó com trinta (Gênesis 41:46). Não é criança nem adolescente.
Num contexto de corte, o termo diz mais sobre lugar do que sobre idade: designa o subalterno, o que está no começo, o que ainda não conta. É a palavra que se usa para quem não tem voz na sala.
Servo de quem
A expressão "comandante da guarda" traduz um título egípcio curioso que o estudo de Gênesis 40:3 examina. O que importa neste versículo é a relação: José é apresentado como propriedade daquele homem.
E aí está a estranheza da cena. O comandante da guarda é o mesmo Potifar que comprou José em Gênesis 39:1 e o mandou prender em Gênesis 39:20. Identificar José por ele é, ao mesmo tempo, dar-lhe um endereço na hierarquia e lembrar que ele está preso por decisão do próprio dono.
Numa corte, esse tipo de identificação era necessária. Ninguém apresentava um escravo pelo nome próprio: apresentava-o pela casa a que pertencia, porque era a casa que respondia por ele.
Contar o sonho a alguém era ato comum
Vale registrar, para não parecer que a cena da prisão foi excepcional.
Contar o sonho da manhã a quem estivesse por perto era prática corrente no Oriente antigo, e não exigia especialista. Juízes 7:13-15 mostra dois soldados midianitas fazendo exatamente isso no acampamento: um conta, o outro responde de imediato o que aquilo quer dizer.
O que era excepcional na prisão não foi contarem o sonho. Foi o resultado.
3. Análise Teológica do Versículo
"Estava ali conosco"
A primeira coisa que o copeiro diz sobre José é onde ele estava: junto deles, na cela.
É informação verdadeira e incompleta. José não era apenas mais um preso naquele lugar. Gênesis 39:22 informa que o carcereiro pôs sob a mão dele todos os presos e tudo o que se fazia ali; e Gênesis 40:4 diz que foi José quem recebeu a incumbência de servir os dois oficiais.
O copeiro apaga essa camada. Na versão dele, José é um homem que por acaso estava no mesmo lugar. Não era um encarregado; era um companheiro de detenção.
O texto não diz por que a fala é assim, e há mais de uma explicação plausível. Pode ser economia — o rei não precisa da organização interna da prisão. Pode ser cautela — mencionar que um preso administrava a cadeia do comandante da guarda talvez levantasse perguntas indesejadas. Não é possível decidir.
"um jovem hebreu, servo do comandante da guarda"
Três palavras, três degraus para baixo, e nenhum nome.
Jovem: não tem experiência. Hebreu: não é daqui. Servo: não é dono de si. Cada uma das três, sozinha, já bastaria para desqualificar alguém numa corte. As três juntas descrevem a pessoa mais improvável de ser ouvida por um rei do Egito.
E há o que falta. José tinha pedido ao copeiro, em Gênesis 40:14, que se lembrasse dele e o mencionasse a Faraó. O copeiro está fazendo exatamente isso, dois anos depois — e o faz sem dizer o nome do homem.
O detalhe fica mais nítido dois versículos adiante. Em Gênesis 41:14, Faraó manda chamar José, pelo nome. Alguém sabia o nome, e o texto não diz quem informou nem quando.
Convém marcar o limite antes de tirar conclusões morais. O Gênesis não comenta a omissão, não a chama de ingratidão e não a corrige. Também é possível que, numa apresentação de corte, dar o nome de um escravo estrangeiro fosse irrelevante, e que a menção ao dono cumprisse a função de identificar. O que se pode afirmar é que a fala descreve o homem por três desvantagens e não por aquilo que ele fez de notável até ali.
Deus sumiu do relato
Este é o ponto que mais custa perceber, porque é uma ausência.
Na prisão, antes de ouvir qualquer sonho, José tinha dito uma frase — que as interpretações pertencem a Deus. O que ela fazia ali é assunto do estudo de Gênesis 40:8, e não se reabre aqui.
O que interessa é que ela não sobreviveu à travessia. O copeiro conta o que aconteceu com precisão e devolve a José exatamente o crédito que José tinha recusado: ele contou, o homem interpretou, e acertou. Na versão do palácio, a interpretação é uma habilidade de um jovem hebreu.
Não há como saber se ele esqueceu a frase, se não a entendeu ou se a considerou dispensável diante do rei. O texto não diz. Mas a consequência é visível quatro versículos adiante: quando Faraó repetir a descrição — "sabe interpretar" —, José terá de recolocar Deus na conversa, e é isso que ele fará em Gênesis 41:16.
"contamos a ele os nossos sonhos, e ele os interpretou"
Aqui o relato fica seco e exato.
Dois verbos, na ordem: contamos, interpretou. Sem preparação, sem consulta, sem intervalo. O copeiro não menciona que José tenha pedido tempo, feito perguntas, consultado alguma coisa ou anunciado que ia orar.
E isso confere com o que Gênesis 40 mostrou: José ouviu e respondeu na hora, nos dois casos, com a mesma fórmula curta.
O efeito diante de um rei que acabou de ficar sem resposta é considerável. O que está sendo descrito não é um método demorado — é alguém que ouve e diz.
"dando a cada um a interpretação do seu sonho"
A frase fecha o versículo repetindo a estrutura do versículo anterior, e a repetição é o argumento.
No versículo 11 o copeiro disse que cada sonho tinha o seu próprio significado. Aqui ele diz que José deu a cada um o significado do seu. A dificuldade e a solução usam as mesmas palavras.
É a maneira mais eficiente possível de dizer ao rei o que ele quer ouvir: o problema que você tem já foi resolvido uma vez, exatamente nesses termos.
E convém notar o que essa formulação implica. Não se diz que José adivinhou o futuro nem que teve visão. Diz-se que ele encaixou cada sentido no seu sonho — que é, no vocabulário do capítulo, o trabalho de desatar o que estava fechado.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
José
Entra no capítulo aqui, e entra sem nome. Filho de Jacó e Raquel, vendido pelos irmãos em Gênesis 37, comprado por um oficial egípcio em Gênesis 39:1, preso em Gênesis 39:20 depois da acusação da mulher da casa.
Na altura desta conversa está preso há anos e não sabe que está sendo mencionado. Faz dois anos que pediu ao copeiro para ser lembrado.
O comandante da guarda
O oficial egípcio a quem José pertence. É Potifar, nomeado em Gênesis 37:36 e Gênesis 39:1 — dono, patrão e, depois da acusação, o homem que o mandou prender.
O copeiro o menciona sem nome, apenas pelo cargo, que era como se referia a um alto funcionário diante do rei.
O chefe dos copeiros
Quem fala. Está no meio da própria defesa, e este é o versículo em que ele entrega ao rei o que veio entregar: um nome — ou, mais exatamente, a descrição de um homem.
O chefe dos padeiros
Presente na cena relatada, ausente da frase. Ele é o "nós" de "contamos a ele os nossos sonhos". Já estava morto havia dois anos quando esta conversa acontece.
O lugar
A casa do comandante da guarda, onde ficava o cárcere. É o mesmo lugar de onde José será tirado no versículo 14 — e a distância entre esse lugar e o salão onde a conversa acontece é a distância que o capítulo vai vencer em duas frases.
5. Pontos de Ensino
Dá para contar a verdade inteira e ainda assim diminuir alguém
O copeiro não mente em nada. Os fatos que ele relata são todos confirmáveis em Gênesis 40.
E, mesmo assim, o homem que sai da fala dele é menor do que o homem que estava lá. Basta escolher quais verdades dizer: a idade, a origem e a condição servil são verdades — e são as três que menos ajudam.
Quem devolve um favor nem sempre devolve o crédito
José pediu para ser lembrado. Foi lembrado. O pedido foi atendido.
Mas o crédito que voltou não é o mesmo que ele havia dado: José tinha atribuído as interpretações a Deus, e o copeiro as atribui ao próprio José. Serviço prestado, história alterada.
O que se cala numa recomendação costuma ser o mais revelador
Falta o nome. Falta a função que José exercia na prisão. Falta Deus.
Três ausências, e nenhuma delas é mentira. Ao ouvir alguém falar bem de outra pessoa, vale a pena reparar não só no que está sendo dito, mas naquilo que caberia ali e não foi dito.
Ser útil não protege ninguém de ser esquecido
José acertou as duas interpretações e continuou preso por dois anos. A competência dele não produziu, sozinha, nenhuma mudança na situação dele.
O que mudou a situação foi um rei precisando de alguma coisa. É um dado desconfortável e o texto não o suaviza.
A descrição desfavorável não impediu a convocação
Este é o outro lado, e o Gênesis o deixa acontecer sem alarde.
Faraó ouve "jovem, hebreu, servo" — e manda chamar. As três desvantagens estavam na mesa e não pesaram nada diante da necessidade. Vale reter isso antes de tirar do versículo qualquer lição sobre o poder das etiquetas.
6. Aspectos Filosóficos
Uma pessoa cabe inteira na descrição do que ela é?
O versículo põe a questão de forma bruta: três atributos e nenhum nome. Idade, origem, condição jurídica. Se essas três coisas dizem quem é aquele homem, então trocá-las trocaria a pessoa.
O pensamento antigo demorou a produzir uma palavra para negar isso. Quando produziu, foi Boécio, filósofo romano do século VI, num escrito sobre disputas teológicas de sua época, que fixou a definição que atravessaria a Idade Média: pessoa é a substância individual de natureza racional.
O que essa fórmula difícil quer dizer é simples. O que faz alguém ser alguém não é o conjunto de características que ele apresenta, e sim o fato de ser aquele indivíduo — e não outro. As características podem mudar todas sem que o sujeito vire outro.
O nome próprio existe justamente para marcar isso. Ele não descreve nada e não é substituível por descrição nenhuma. "Jovem hebreu servo" pode caber em milhares de homens; "José" cabe em um.
Daí a força do que acontece no versículo 14, quando Faraó manda chamar José pelo nome. A corte que só sabia descrever passa a nomear.
Convém marcar o limite: nada disso está formulado no Gênesis. Boécio escreve mais de dois mil anos depois e responde a outro problema. A aproximação é leitura do comentarista — o que o texto fornece é o dado, não a teoria.
7. Aplicações Práticas
Diga o nome
É a aplicação mais direta que este versículo oferece, e não é banal.
Ao falar de alguém que fez algo por você, o mais fácil é descrever a função: "um rapaz lá do suporte", "a moça da recepção", "um estagiário". Tudo verdade, e o crédito evapora. Quem ouve não fica sabendo de ninguém.
O copeiro fez isso diante do rei do Egito. Dois versículos depois, alguém teve de fornecer o nome mesmo assim.
Ao recomendar, diga o que a pessoa fez, não de onde ela vem
A fala do copeiro gasta três palavras com a origem e a condição de José, e uma oração com o que ele realizou.
Inverter essa proporção é a coisa mais útil que se pode fazer por alguém numa recomendação. O que a pessoa resolveu é verificável; de onde ela vem só serve para colocá-la em uma caixa.
Devolva o crédito na moeda em que ele foi dado
José tinha atribuído as interpretações a Deus. O copeiro atribuiu a José.
Parece elogio e é uma troca. Quando alguém explica por que fez algo — por convicção, por fé, por dever para com outra pessoa —, repetir a explicação dele faz parte de contar a história direito.
O favor prometido pode chegar tarde e ainda assim chegar
Dois anos separam o pedido de José da menção do copeiro. Nesse intervalo não houve nada.
Não é lição sobre paciência recompensada, e o texto não a formula assim. É apenas o registro de que o intervalo existiu e não foi curto — e vale mais como advertência a quem promete do que como consolo a quem espera.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O copeiro está sendo ingrato ao não dizer o nome de José?
A leitura é possível e é a mais comum, mas o texto não a autoriza sozinho.
Contra ela pesa o costume: apresentar um escravo estrangeiro pelo dono, e não pelo nome próprio, era o modo normal de identificar alguém numa corte. A favor dela pesa o contraste com o pedido de José em Gênesis 40:14, que era um pedido pessoal.
O Gênesis não julga a fala. Quem quiser chamá-la de ingrata está fazendo uma leitura defensável, não citando o texto.
Se o copeiro não disse o nome, como Faraó chama José pelo nome no versículo 14?
O texto não explica, e essa é a resposta honesta.
As possibilidades são várias: alguém da corte perguntou depois, o comandante da guarda foi consultado, ou o Gênesis simplesmente não se ocupa dessa etapa e passa direto ao essencial. Nada permite escolher entre elas.
Por que ele diz "hebreu" se isso deprecia o homem que está recomendando?
Porque provavelmente não lhe ocorreu que depreciasse. Era a designação corrente para gente daquela procedência, e aparece em outras bocas egípcias no Gênesis sem que ninguém a explique.
O que o leitor de hoje percebe como etiqueta era, ali, informação de cadastro. O incômodo é nosso, e é útil — mas não deve ser atribuído ao personagem.
José exercia autoridade na prisão. Por que isso não aparece?
Gênesis 39:22-23 mostra o carcereiro entregando tudo nas mãos dele. Nada disso entra na fala do copeiro.
Pode ser economia de palavras diante de um rei, pode ser cautela. Também pode ser que, para o copeiro, isso não fosse a informação relevante: o que ele quer provar é que o homem interpreta, não que administra.
Faltar Deus no relato muda alguma coisa na história?
Muda o que José terá de fazer quando chegar ao palácio.
Faraó vai receber a informação de que existe um homem que sabe interpretar sonhos, e é assim que ele formulará o convite em Gênesis 41:15. A primeira frase de José diante do rei será uma correção — e o estudo de Gênesis 41:16 trata dela.
9. Conexão com Outros Textos
O pedido que este versículo atende
Gênesis 40:14 — "Mas lembre-se de mim quando as coisas forem bem com você; rogo que use de bondade comigo, mencione-me a Faraó e me tire desta casa."
José pediu para ser mencionado a Faraó. É o que está acontecendo — sem o nome.
Gênesis 40:23 — "O chefe dos copeiros, porém, não se lembrou de José; esqueceu-se dele."
A frase que separa o pedido do cumprimento. Entre ela e este versículo há dois anos.
Quem é o dono mencionado
Gênesis 39:1 — "José foi levado ao Egito, e Potifar, oficial do faraó, capitão da guarda, homem egípcio, o comprou da mão dos ismaelitas que o haviam levado para lá."
"Servo do comandante da guarda" é este homem. O copeiro identifica José pelo comprador.
O que o copeiro não conta sobre a prisão
Gênesis 39:22 — "O carcereiro-chefe entregou nas mãos de José todos os presos que havia no cárcere; e tudo o que ali se fazia, era ele quem o dirigia."
Gênesis 40:4 — "O comandante da guarda encarregou José deles, e ele os servia; e passaram algum tempo na prisão."
Os dois versículos mostram um José com função. Na fala ao rei ele apenas "estava ali".
"Hebreu" em bocas egípcias
Gênesis 39:14 — "chamou os homens da sua casa e lhes disse: 'Vejam, ele nos trouxe um hebreu para nos insultar!'"
Gênesis 43:32 — "Serviram-no à parte, e a eles à parte, e à parte os egípcios que comiam com ele; pois os egípcios não podem comer com os hebreus, porque isso é abominação para eles."
A palavra aparece no Gênesis quase sempre para marcar separação, e é essa palavra que entra na recomendação.
Como a recomendação chega ao rei
Gênesis 41:15 — "Faraó disse a José: 'Tive um sonho, e não há quem o interprete; mas ouvi dizer de você que, ao ouvir um sonho, sabe interpretá-lo.'"
É a fala do copeiro devolvida pelo rei, e sem Deus nela — exatamente como ele a entregou.
Fora do Gênesis
1 Samuel 16:18 — "Então um dos moços respondeu: 'Eis que vi um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar, homem valente, guerreiro, sábio nas palavras, de boa aparência, e o Senhor está com ele.'"
O contraste é útil. Ali um servidor apresenta um desconhecido ao rei e enche a apresentação de qualidades — inclusive a última, que o copeiro não usa.
Ester 2:21-23 — "Mardoqueu... soube disso e o contou a Ester, a rainha; e Ester o disse ao rei em nome de Mardoqueu... e escreveu-se no livro das crônicas, diante do rei."
Aqui o nome é registrado, e o registro é o que salvará Mardoqueu depois. A comparação mostra o que faz falta na fala do copeiro.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Estava ali conosco um jovem hebreu, servo do comandante da guarda; contamos a ele os nossos sonhos, e ele os interpretou, dando a cada um a interpretação do seu sonho.
Texto hebraico
וְשָׁם אִתָּנוּ נַעַר עִבְרִי עֶבֶד לְשַׂר הַטַּבָּחִים וַנְּסַפֶּר־לוֹ וַיִּפְתָּר־לָנוּ אֶת־חֲלֹמֹתֵינוּ אִישׁ כַּחֲלֹמוֹ פָּתָר׃
Transliteração
we-sham ittanu na'ar ivri eved le-sar ha-tabbachim wa-nesapper-lo wa-yiftor-lanu et-chalomoteinu ish ka-chalomo patar.
Análise palavra por palavra
וְשָׁם אִתָּנוּ — we-sham ittanu, "e ali, conosco".
Duas palavras que localizam antes de identificar. Sham é o advérbio "ali"; ittanu é "com nós", da preposição et no sentido de companhia.
A frase começa pelo lugar. Só depois vem quem estava nele.
נַעַר — na'ar, "jovem", "rapaz", "servidor".
Palavra de campo largo. Designa o menino (Gênesis 21:17, sobre Ismael), o rapaz (Gênesis 22:5, sobre os dois moços que acompanham Abraão), e também o subordinado, o assistente, o escudeiro — em Juízes 7:10-11 é o servidor que acompanha Gideão, e em 1 Samuel 2:13 são os auxiliares dos sacerdotes.
Isto é: a palavra pode marcar idade, posição, ou as duas coisas. Em Gênesis 37:2 ela já fora aplicada a José aos dezessete anos. Aqui, com uns vinte e oito, o sentido de "subalterno" pesa pelo menos tanto quanto o de "moço".
Vale registrar que esta é a última vez que a palavra é aplicada a José no Gênesis. Depois do palácio, ele não será mais na'ar de ninguém.
עִבְרִי — ivri, "hebreu".
A origem do termo e as três explicações propostas para ele estão no estudo de Gênesis 40:15, onde José usa o plural para falar da própria terra. Não se reabre aqui.
O que este versículo acrescenta é a posição da palavra: ela vem imediatamente depois de na'ar, formando o par "moço hebreu". Não é o modo como José se apresenta; é o modo como os egípcios o classificam.
עֶבֶד לְשַׂר הַטַּבָּחִים — eved le-sar ha-tabbachim, "servo do chefe dos tabbachim".
Eved é servo, escravo — da raiz avad, trabalhar, servir. É a palavra que descreverá Israel no Egito em Êxodo, e é a mesma que aparece no início deste capítulo, em Gênesis 41:10, quando o copeiro chama a si mesmo e ao padeiro de "servos" de Faraó.
O detalhe é esse. A palavra é a mesma para os dois casos, mas o alcance não: o copeiro é servo do rei — o que é honra —, e José é servo de um oficial — o que é propriedade.
Quanto ao título sar ha-tabbachim, ele é examinado no estudo de Gênesis 40:3. A tradução "comandante da guarda" é razoável; a palavra que o hebraico usa é bem mais concreta.
וַנְּסַפֶּר־לוֹ — wa-nesapper-lo, "e contamos a ele".
Do verbo saphar, na forma intensiva: contar, narrar, relatar por extenso. Não é o verbo do resumo — é o de quem descreve tudo.
É o mesmo verbo de Gênesis 40:9, quando o copeiro contou o próprio sonho a José. Ele repete agora, diante do rei, o verbo que usou dentro da cela.
וַיִּפְתָּר־לָנוּ אֶת־חֲלֹמֹתֵינוּ — wa-yiftor-lanu et-chalomoteinu, "e interpretou para nós os nossos sonhos".
Aqui está o verbo raro do bloco, patar, cujo alcance no cânon é tratado no estudo de Gênesis 41:11.
Duas observações próprias deste versículo. A primeira: "para nós" — o hebraico marca que o serviço foi prestado a eles, não que José exibiu uma habilidade. A segunda: "os nossos sonhos" está no plural, ao contrário do singular de Gênesis 41:11. A frase anterior juntava; esta já separa.
אִישׁ כַּחֲלֹמוֹ פָּתָר — ish ka-chalomo patar, "cada um conforme o seu sonho ele interpretou".
O fecho repete a construção do versículo anterior quase palavra por palavra, com uma troca: onde antes estava o substantivo "interpretação", agora está o verbo "interpretou".
O efeito, no original, é de encaixe: o problema foi enunciado com um par de palavras, e a solução é enunciada com o mesmo par. E o verbo fica na última posição da frase, que em hebraico não é a posição comum — o que lhe dá destaque.
11. Conclusão
Do que foi examinado, três conclusões.
A primeira: a recomendação que tira José da prisão é a pior recomendação possível, e funciona assim mesmo. Ela descreve o homem por idade curta, procedência estrangeira e condição de escravo, não diz o nome dele e apaga a função que ele exercia. Duas frases depois o rei manda buscá-lo. O Gênesis não sublinha o contraste; apenas o deixa acontecer.
A segunda: o que o copeiro entrega ao palácio é uma habilidade, não uma fonte. José tinha dito a quem pertenciam as interpretações; o copeiro conta só que ele interpretou. É por isso que a primeira frase de José diante de Faraó terá de ser uma correção, e não uma apresentação.
A terceira: o versículo mede a distância entre o que aconteceu e o que se conta que aconteceu. Não há mentira em nenhuma linha da fala. Há seleção — e a seleção, sozinha, já produz um outro homem. O leitor que conhece Gênesis 39 e 40 percebe isso; Faraó não tinha como perceber.
Fica ainda um dado em aberto que o próprio texto não fecha: alguém, entre este versículo e o seguinte, forneceu o nome de José. O Gênesis não diz quem.













