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Gênesis 45:17

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✍️ Por Alberto Adriano·7 de setembro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 44 acessos
Faraó disse a José: “Diga a seus irmãos: ‘Façam assim: carreguem os seus animais e voltem à terra de Canaã;
Faraó sentado no trono dá instruções a José de pé diante dele, enquanto ao fundo servos preparam jumentos com fardos para a viagem.

Estudo


Faraó disse a José: “Diga a seus irmãos: ‘Façam assim: carreguem os seus animais e voltem à terra de Canaã;

1. Introdução

Faraó fala, e é a primeira vez que ele abre a boca desde Gênesis 41:55.

O versículo é curto e tem três coisas dentro dele.

A primeira está na direção da fala. O rei fala com José e manda José falar com os irmãos. Ele não se dirige aos onze homens que estão no país e cuja vinda acabou de lhe agradar; a palavra do soberano chega a eles pela boca de um intermediário — que por acaso é o irmão deles.

A segunda está na forma. “Façam assim” é fórmula de ordem, não de convite, e o versículo empilha imperativos: façam, carreguem, vão, venham. O que Faraó emite é um despacho.

A terceira está na ordem dos assuntos. O rei começa pela carga — carreguem os animais — e só no versículo seguinte chega às pessoas: tomem o seu pai e as suas famílias. A logística vem antes da família, e o Gênesis registra isso sem comentar.

Há ainda um detalhe de vocabulário que o item 10 desenvolve: o verbo traduzido por “carregar” não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia hebraica.

2. Contexto Histórico e Cultural

Ordens de rei não chegavam sozinhas

No Egito, a vontade do soberano tinha forma administrativa, e essa forma tinha nome: o decreto real. Era um documento emitido em nome do rei, copiado por escribas, enviado às repartições e, quando o caso pedia, lido em voz alta no lugar onde deveria produzir efeito.

Duas características desse sistema explicam o versículo.

A primeira é que a ordem passava sempre por um funcionário. O rei não executava nada. Entre a decisão e o mundo havia uma cadeia de gente com títulos, e quanto mais alto o assunto, mais alto o funcionário — o que põe o vizir no topo dessa cadeia. Faraó dizer a José “diga a seus irmãos” não é distância pessoal: é o funcionamento normal do Estado.

A segunda é que a ordem era transmitida em discurso direto. Cartas e despachos egípcios e do Oriente Próximo abrem com a fórmula “diga a fulano” — a mensagem é escrita como se o mensageiro fosse a voz de quem a enviou, e o portador a repete na primeira pessoa. É exatamente a construção deste versículo: diga a seus irmãos: façam assim. O “façam” já é a voz do rei, dita pela boca de José.

O paralelo mais próximo: um estrangeiro chamado de volta por decreto

Existe um texto egípcio que faz quase tudo o que este versículo faz, e ele é famoso.

Na História de Sinuhe (“História de Sinuhe”, relato egípcio do começo do segundo milênio antes de Cristo), um cortesão foge do Egito e passa décadas em Canaã, onde enriquece, casa e cria filhos. O estudo de Gênesis 42:9 trata da parte inicial dessa história, a da fuga e da fronteira vigiada. O que interessa aqui é o desfecho.

O rei toma conhecimento do paradeiro do fugitivo e manda buscá-lo. E o relato reproduz o documento: uma cópia do decreto real dirigido ao homem, ordenando que volte, garantindo que nada lhe será cobrado e prometendo o que ele não teria fora do Egito — casa, sustento vindo do palácio e sepultamento adequado. Sinuhe responde por escrito, arruma a vida que construiu em Canaã, deixa os bens aos filhos e desce ao Egito, onde é recebido na corte.

Os elementos coincidem com os deste bloco de versículos, um a um: o rei que toma a iniciativa, o decreto que ordena a viagem, a promessa de sustento no Egito e a instrução de não se prender ao que fica para trás — que é o que Faraó vai dizer, com todas as letras, no versículo 20.

Convém marcar o limite dessa comparação. Não se trata de fonte, nem de empréstimo, nem de prova de historicidade. Trata-se de mostrar que a cena do Gênesis está desenhada com peças que existiam: assim se chamava alguém de volta ao Egito, e quem ouvisse esta passagem naquele mundo reconheceria o procedimento.

Carregar animais para a estrada

A viagem entre Canaã e o delta do Nilo, o que ia nos animais e como se calculava a ração do percurso são assunto do estudo de Gênesis 42:26, e não se repetem aqui.

O que este versículo acrescenta é uma escolha de palavra. Faraó não diz “levem trigo”. Diz que carreguem os animais — a instrução é sobre o peso, não sobre a mercadoria —, e usa para isso um verbo que a Bíblia hebraica não emprega em nenhum outro lugar.

3. Análise Teológica do Versículo

“Faraó disse a José: ‘Diga a seus irmãos’”

A frase tem dois destinatários e uma só voz.

O rei fala com o vizir. O vizir é que falará com os irmãos. E os irmãos — que estão no Egito, a poucos passos, e cuja chegada o palácio inteiro acabou de aprovar — não ouvem o soberano.

Isso é normal e vale notar mesmo assim, porque o efeito é curioso. Onze homens vão receber a maior oferta da vida deles, e vão recebê-la da boca do irmão que venderam. A palavra do rei do Egito lhes chega filtrada por José, e o Gênesis não registra que eles tenham ouvido Faraó falar em momento algum deste capítulo.

Só dois capítulos adiante, em Gênesis 47:3, o rei vai se dirigir a eles diretamente, e a primeira pergunta será sobre a profissão que exercem.

Há uma consequência de leitura nisso. Tudo o que os irmãos sabem sobre a boa vontade do Egito lhes vem por intermédio de uma pessoa que, dois dias antes, tinha acusado um deles de furto e ameaçado ficar com Benjamim. O texto não diz o que eles pensaram disso. Não diz nada: eles seguem calados desde o versículo 15.

“Façam assim”

São duas palavras em hebraico — literalmente “isto façam” — e é fórmula de comando.

A mesma expressão volta no versículo 19, na segunda metade da fala de Faraó, e as duas ocorrências dividem o discurso em dois blocos: o primeiro sobre a viagem de volta e a mudança, o segundo sobre os carros. É a maneira de um documento oficial enumerar providências.

O que ela não é: convite. O português “façam assim” soa quase amistoso; o hebraico é a linguagem seca de quem manda. E a diferença tem consequência prática — o que Faraó emite não é um gesto que a família de Jacó possa recusar sem consequência política, é uma disposição do Estado egípcio sobre pessoas que ainda estão em Canaã.

Convém não exagerar na leitura. Nada no texto sugere coação, e o conteúdo da ordem é inteiramente favorável a quem a recebe. O ponto é apenas de registro: o Gênesis escolheu a forma imperativa, e escolheu duas vezes.

“Carreguem os seus animais”

O primeiro item da agenda do rei é a carga.

Vale parar nisso um instante, porque é fácil passar por cima. Faraó acaba de saber que a família do homem que governa o Egito está em Canaã, passando fome. A primeira providência que ele enuncia não é “tragam seu pai” — isso vem na frase seguinte. É: ponham peso nos animais e voltem.

Duas explicações são compatíveis com o texto, e ele não decide entre elas.

A primeira é prática. Uma família em Canaã, no terceiro ano de uma fome de sete, precisa de comida para chegar viva ao ponto de partida. Mandar os homens de volta com os animais carregados é resolver o problema mais urgente antes de tratar da mudança.

A segunda é de estilo administrativo. Quem despacha começa pelo que pode ser executado imediatamente. O carregamento acontece no Egito, hoje; a mudança da casa de Jacó acontece em Canaã, semanas depois.

Seja qual for o motivo, o texto guarda uma ironia que não sublinha: os mesmos animais que desceram carregados de prata para comprar comida (Gênesis 43:12, 15) vão subir carregados de comida que ninguém pagou.

“e voltem à terra de Canaã”

O hebraico junta dois verbos de movimento onde o português usa um: literalmente “e vão, venham à terra de Canaã”.

A construção não é erro nem repetição vazia — o hebraico bíblico encadeia verbos assim para indicar uma ação completa, com partida e chegada. O item 10 trata da forma.

O que importa aqui é para onde a frase aponta. Faraó manda que voltem a Canaã, e todo o resto da fala dele existe para que eles não fiquem lá. É uma ordem de retorno cujo objetivo é o abandono definitivo do lugar para onde se retorna.

Esse é um dado que o capítulo instala sem discutir, e que o Gênesis vai carregar por muito tempo. A família da promessa — a que recebeu de Deus, em Gênesis 12:7 e em Gênesis 28:13, a terra em que está — recebe de um rei estrangeiro a ordem de sair dela. O texto não comenta a tensão. Ela só será enfrentada no capítulo seguinte, quando Jacó parar em Berseba e Deus lhe disser, em Gênesis 46:3-4, que não tenha medo de descer.

Vale marcar o limite: nada aqui condena a descida ao Egito, e nada a aprova. Neste versículo há apenas um rei mandando que homens voltem para casa a fim de buscar a família — e um livro que, quando quer avaliar, avalia, e aqui não avalia.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

Volta a falar depois de treze capítulos. A última fala registrada dele havia sido em Gênesis 41:55, quando remeteu os egípcios famintos a José: “vão a José e façam o que ele lhes disser”.

A simetria é exata e vale registrar: naquela ocasião o rei mandou os egípcios obedecerem a José; aqui ele manda José transmitir aos irmãos o que ele, rei, determinou. Nos dois casos a ordem passa pelo mesmo homem.

José

Aparece neste versículo na função, e não como personagem: é o canal por onde a ordem desce. Ele não responde, não agradece e não comenta. A execução vem no versículo 21.

Os irmãos de José

Ainda calados. Desde o fim do versículo 15 — “e depois disso seus irmãos falaram com ele” — o Gênesis não registra uma palavra deles, e não voltará a registrar até depois da viagem.

A terra de Canaã

A faixa entre o Jordão e o Mediterrâneo onde a família de Jacó vivia como estrangeira residente. É o lugar da promessa feita a Abraão em Gênesis 12:7, e é de lá que os irmãos desceram duas vezes para comprar trigo.

Neste versículo ela aparece como destino de uma viagem de ida e volta. A partir do versículo 18, aparece como lugar a ser deixado.

Os animais

O texto usa uma palavra genérica para bichos de carga, que a Bíblia hebraica emprega só seis vezes. Pelo contexto das duas viagens anteriores, trata-se de jumentos: são eles que aparecem em Gênesis 42:26 e em Gênesis 44:3, e são o animal de transporte da região.

O que acontece em seguida

A fala de Faraó continua sem interrupção até o fim do versículo 20 — é o discurso mais longo que ele faz no Gênesis. Só no versículo 21 o texto volta a narrar, e o que narra é José executando.

5. Pontos de Ensino

A palavra que chega por terceiros

O rei fala; o vizir repete; a família ouve. Entre a decisão e quem ela beneficia há uma pessoa, e essa pessoa é parte interessada.

Isso é matéria de leitura antes de ser matéria de conduta. Quando um relato mostra uma ordem sendo transmitida, o leitor cuidadoso pergunta se a transmissão foi fiel — e este é um caso em que dá para conferir, porque o Gênesis registra a ordem no versículo 17 e a execução no versículo 21. Vale comparar as duas e ver o que José acrescentou por conta própria.

Ordem não é convite, e o texto sabe a diferença

O Gênesis poderia ter escrito “Faraó convidou”. Escreveu uma sequência de imperativos.

Ler bem exige notar a forma, e não só o conteúdo. Uma oferta generosa emitida como ordem continua sendo ordem, e o modo como uma coisa é dita faz parte do que ela é.

Começar pelo que pode ser feito hoje

A fala do rei abre pela providência imediata — carreguem os animais — e só depois trata da mudança da casa inteira. É a ordem natural de quem despacha assunto: primeiro o que se resolve onde se está, depois o que depende de viagem.

É um ponto pequeno, e é um dos poucos deste versículo que se aplica diretamente à vida de qualquer pessoa que precise organizar uma mudança, uma obra ou uma emergência familiar.

O silêncio de quem recebe

Os irmãos não respondem nada, aqui nem nos quatro versículos seguintes. O Gênesis não os elogia por isso nem os critica.

Registrar o silêncio sem interpretá-lo é a atitude que o próprio livro adota. Quem quiser deduzir gratidão, medo ou constrangimento está deduzindo — e o texto, que teve espaço para narrar uma fala inteira de Faraó, não usou uma linha para dizer o que aqueles homens sentiram.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta uma questão que não é religiosa e é bem antiga: o que muda numa mensagem pelo fato de ela passar por alguém?

Faraó não fala com os irmãos. Manda José falar. E José, ao falar, não é um tubo neutro: é o irmão que eles venderam, é a autoridade que os prendeu, é a pessoa cuja família a ordem beneficia.

A ideia antiga do mensageiro é a do portador transparente — quem repete a palavra do rei é a palavra do rei, e a pessoa que a carrega não conta. O direito antigo trabalhava assim, e a construção da própria frase hebraica trabalha assim: “diga a seus irmãos: façam”, com o imperativo já na voz do soberano.

Mas transparência de mensageiro é uma convenção, não um fato. O portador escolhe o tom, a hora e a ênfase; decide o que explicar e o que deixar sem explicação; e, quando tem interesse no assunto, essa escolha deixa de ser inocente. O Gênesis dá ao leitor a chance rara de verificar: temos a ordem no versículo 17 e a execução no versículo 21, e é possível comparar.

Fica também um problema de confiança que o texto não resolve. Quem recebe a mensagem não tem acesso à fonte. Os irmãos não podem checar com Faraó, não falam a língua, não conhecem o palácio — dependem inteiramente da palavra de um homem que, três dias antes, mentia para eles sistematicamente. O Gênesis não registra que eles tenham hesitado, e não registra que tenham confiado. Registra que fizeram.

7. Aplicações Práticas

Conferir o recado quando a fonte é inacessível

A situação do versículo é comum: uma decisão que muda a vida de alguém chega pela boca de um intermediário, e quem recebe não tem como falar com quem decidiu.

Acontece com quem é informado do resultado de um processo por um atendente, de uma decisão de família por um parente, de uma mudança no trabalho por um chefe intermediário. A aplicação honesta não é desconfiar por princípio — é saber que o intermediário existe, que ele tem visão parcial e às vezes interesse, e que perguntar “isso foi dito assim mesmo?” é razoável e não é ofensa.

Resolver primeiro o que está ao alcance

Faraó manda carregar os animais antes de tratar da mudança. É a ordem certa: o que se pode fazer agora, no lugar onde se está, vem antes do que depende de viagem, de negociação e de terceiros.

Em crise familiar — doença, luto, mudança forçada — a paralisia costuma vir de olhar primeiro para a parte grande do problema. A parte grande, aqui, é convencer um velho a deixar a terra em que viveu a vida inteira. A parte pequena é a comida da volta. O rei começa pela pequena.

Uma ordem generosa continua sendo uma ordem

Este é o ponto delicado, e ele se aplica a quem tem poder.

Faraó oferece tudo, e oferece mandando. Quem está numa posição alta e quer ajudar alguém precisa saber que a forma da ajuda não é indiferente: o mesmo favor pode chegar como opção ou como determinação, e a pessoa que o recebe sente a diferença mesmo quando não pode reclamar dela.

O Gênesis não faz essa crítica ao rei — a fala dele é inteiramente favorável, e o texto não sugere abuso. A observação é do leitor, e é útil para o leitor.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Faraó não falou diretamente com os irmãos?

O texto não diz, e a resposta mais simples é administrativa: o soberano tratava com o funcionário responsável, e o funcionário responsável era José.

Vale notar que a distância não era protocolar por princípio. Em Gênesis 47:3, o mesmo rei conversa com eles cara a cara e lhes faz perguntas. Entre um momento e outro, o que mudou foi que eles deixaram de ser um assunto e passaram a ser visitantes apresentados na corte.

“Façam assim” é ordem ou convite?

Gramaticalmente é ordem: são imperativos, e a mesma fórmula reaparece no versículo 19 abrindo a segunda providência.

Quanto ao conteúdo, é oferta. As duas coisas convivem sem contradição — governos antigos concediam benefícios em forma de decreto, porque decreto era a única forma que a vontade do rei tinha.

Os irmãos tinham como recusar?

O texto não levanta a hipótese, e por isso qualquer resposta é especulação. O que se pode observar é que, na prática, a decisão não era deles: quem teria de aceitar era Jacó, que estava em Canaã e ainda não sabia de nada, e o capítulo termina exatamente com ele decidindo.

Que animais são esses?

O hebraico usa um termo genérico para bichos de carga, que aparece só seis vezes na Bíblia. Pelo que as duas viagens anteriores registram, eram jumentos.

O detalhe tem peso na cena seguinte: jumento carrega, mas não carrega gente velha nem criança pequena por semanas de estrada. É essa insuficiência que torna necessários os carros do versículo 19.

Por que carregar antes de buscar a família?

O texto não explica. As duas leituras razoáveis são a prática — mandar comida para uma casa faminta que ainda vai levar semanas para se mudar — e a administrativa: despachar primeiro o que se executa no lugar onde se está.

Não é possível decidir, e as duas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

9. Conexão com Outros Textos

A outra vez em que Faraó manda obedecer a José

Gênesis 41:55 — “Quando toda a terra do Egito sentiu fome, o povo clamou a Faraó por pão. Faraó disse a todos os egípcios: ‘Vão a José e façam o que ele lhes disser.’”

É a fala anterior do rei nesta história, e tem a mesma estrutura: o soberano remete ao vizir a execução do que decidiu.

Quando o rei finalmente fala com eles

Gênesis 47:3 — “Faraó perguntou aos irmãos de José: ‘Qual é a ocupação de vocês?’ E eles responderam: ‘Os seus servos são pastores de ovelhas, tanto nós como os nossos pais.’”

A descida a Canaã e a descida ao Egito

Gênesis 12:7 — “O SENHOR apareceu a Abrão e disse: ‘À sua descendência darei esta terra.’”

Gênesis 46:3-4 — “E disse: ‘Eu sou Deus, o Deus de seu pai. Não tenha medo de descer ao Egito, porque ali farei de você uma grande nação. Eu descerei com você ao Egito e certamente também o farei voltar.’”

A ordem de Faraó manda a família sair da terra prometida. O capítulo seguinte é que trata dessa tensão, e trata pela boca de Deus, não pela de um rei.

Os mesmos animais, nas viagens anteriores

Gênesis 42:26 — “Eles carregaram o trigo sobre os seus jumentos e partiram dali.”

Gênesis 44:3 — “Ao amanhecer, os homens foram despedidos com os seus jumentos.”

“Diga a…”: a fórmula do recado real

2 Reis 18:19 — “E o comandante lhes disse: ‘Digam agora a Ezequias: Assim diz o grande rei, o rei da Assíria: Que confiança é essa em que você se apoia?’”

Mesma construção: o rei manda dizer, o oficial repete, e o imperativo que sai da boca do mensageiro é a voz do soberano.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Faraó disse a José: “Diga a seus irmãos: ‘Façam assim: carreguem os seus animais e voltem à terra de Canaã;

Texto hebraico

וַיֹּ֤אמֶר פַּרְעֹה֙ אֶל־יוֹסֵ֔ף אֱמֹ֥ר אֶל־אַחֶ֖יךָ זֹ֣את עֲשׂ֑וּ טַֽעֲנוּ֙ אֶת־בְּעִ֣ירְכֶ֔ם וּלְכוּ־בֹ֖אוּ אַ֥רְצָה כְּנָֽעַן׃

Transliteração

wayyómer par‘ôh el-Yosêf emor el-achêicha zot assú ta‘anú et-be‘irchêm ulechú-vô’u ártsah Kená‘an

Análise palavra por palavra

אֱמֹר · emor — “diga”

Imperativo do verbo dizer, no singular masculino: a ordem é dirigida a uma pessoa só, José.

O que vem depois dela é fala dentro de fala. O hebraico não tem aspas, e a estrutura fica marcada apenas pela mudança de número: emor está no singular — Faraó falando com José —, e todos os verbos seguintes estão no plural — Faraó falando, por dentro da frase, com os onze.

זֹאת עֲשׂוּ · zot assú — “isto façam”

Duas palavras: o pronome demonstrativo feminino, que funciona como um neutro, e o imperativo plural do verbo fazer.

A ordem das palavras é enfática. O hebraico normal poria o verbo primeiro; aqui o objeto vem antes, o que em português se traduziria por algo como “é isto que vocês vão fazer”. É a abertura de uma lista de providências, e a mesma fórmula reabre a fala no versículo 19.

טַעֲנוּ · ta‘anú — “carreguem”

Aqui está a curiosidade do versículo.

Este verbo não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia hebraica. Ele existe uma única vez, e é aqui, na boca de Faraó. Os léxicos o definem pelo contexto e pelo aramaico e pelo árabe, onde a raiz correspondente significa carregar um animal, pôr fardo sobre o lombo.

Duas observações se impõem, e a segunda é mais interessante que a primeira.

A primeira é de método. Quando uma palavra ocorre uma vez só, o sentido não vem do uso interno da Bíblia — vem das línguas irmãs e do contexto. Isso não a torna duvidosa neste caso, porque o contexto é inequívoco: fala-se de animais e de viagem. Mas convém dizer que a tradução é sólida por convergência, não por comparação de ocorrências.

A segunda é de estilo. A Bíblia hebraica tem verbos correntes para carregar — nasa (“levantar, carregar”) é um deles, e aparece três vezes neste mesmo capítulo. O texto podia usar um deles e usou uma palavra que não usa em nenhum outro lugar, justamente quando quem fala é o rei do Egito.

É uma observação que vários comentaristas fazem, e ela permanece hipótese: a de que o Gênesis marque, com vocabulário incomum, a fala de personagens estrangeiros. Não há como demonstrar isso a partir de uma ocorrência única, e o argumento contrário é simples — palavras raras aparecem também em falas israelitas.

בְּעִירְכֶם · be‘irchêm — “os seus animais”

Substantivo coletivo para bichos domésticos de carga e de trabalho, com o sufixo de segunda pessoa do plural. Aparece seis vezes na Bíblia hebraica: aqui, em Êxodo 22:5, três vezes em Números 20 e uma no Salmo 78:48.

O detalhe que vale reter é o de Números 20:4, 8 e 11, onde a palavra designa os animais do povo no deserto, morrendo de sede junto com os donos. É a mesma palavra, e é a mesma gente algumas gerações depois, indo na direção contrária.

Quanto ao sentido, é coletivo e genérico: bichos de carga, sem especificar a espécie. As viagens anteriores identificam jumentos.

וּלְכוּ־בֹאוּ · ulechú-vô’u — “e vão, venham”

Dois imperativos plurais colados: do verbo halach, ir, caminhar, e do verbo bo, vir, entrar, chegar.

O português não suporta a construção e traduz por um verbo só — “voltem”. O hebraico encadeia os dois para descrever a ação inteira: ponham-se a caminho e cheguem lá.

Vale notar que bo é o verbo do versículo anterior, onde a notícia dizia que os irmãos de José tinham vindo. A raiz vai e volta pelo capítulo como o próprio movimento da história: eles vieram, agora vão e vêm, e no versículo 18 Faraó dirá “venham a mim”.

אַרְצָה כְּנָעַן · ártsah Kená‘an — “à terra de Canaã”

A palavra terra, érets, aqui traz no fim uma letra que o hebraico usa para indicar direção: não “na terra”, mas “em direção à terra”, “para a terra”.

É a mesma forma que aparece em Gênesis 37:25, na caravana que descia “para o Egito” levando José. A gramática marca o rumo, e o rumo, nesta história, sempre foi de descer ao Egito ou de subir a Canaã — nunca os dois termos são neutros.

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo.

A primeira diz respeito a quem fala. A oferta que reorganiza a vida da família de Jacó é emitida por um rei que não fala com essa família. Ela chega pela boca de José, e o Gênesis dá ao leitor a possibilidade rara de comparar o que foi mandado dizer com o que foi efetivamente feito, porque registra a ordem aqui e a execução no versículo 21. Quem lê o capítulo em ordem tem os dois lados do recado.

A segunda diz respeito à forma. O que o Egito emite é decreto: imperativos empilhados, abertos pela fórmula de comando que reaparece no versículo 19. O conteúdo é favorável do começo ao fim, e a forma continua sendo a de quem manda. Notar isso não é desconfiar do rei — é ler o que está escrito em vez de ler o que soaria simpático.

A terceira é a que o capítulo carrega para diante. A ordem manda que os irmãos voltem a Canaã, e existe para que eles saiam de Canaã. A família que recebeu de Deus aquela terra recebe de um soberano estrangeiro a instrução de deixá-la, com carga, com carros e com garantias — e o Gênesis não emite juízo nenhum sobre isso neste versículo. O juízo, se vier, virá no capítulo seguinte, e virá de outra boca.

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