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Gênesis 47:10

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✍️ Por Alberto Adriano·7 de setembro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 39 acessos
E Jacó abençoou a Faraó e retirou-se da sua presença.
Jacó de costas, afastando-se lentamente da sala do trono do Egito, com o rei ainda sentado ao fundo e a luz entrando pela porta aberta.

Estudo


E Jacó abençoou a Faraó e retirou-se da sua presença.

1. Introdução

A audiência termina do jeito como começou.

Três versículos antes, José apresentou o pai e "Jacó abençoou a Faraó". Agora, na saída, o texto escreve quase as mesmas palavras: Jacó abençoa Faraó e sai da presença dele.

É uma repetição, e ela é o assunto do versículo.

Três pontos se levantam daqui.

O primeiro é o que a repetição faz com a cena. Entre as duas bênçãos ficam a pergunta do rei e o balanço amargo do velho. Tudo o que se disse naquela sala está, portanto, emoldurado pelo mesmo gesto — e essa moldura é a única coisa que o encontro produziu de visível.

O segundo é que a fala do versículo 9 não muda o desfecho. O homem que acabou de declarar a própria vida curta e ruim abençoa o rei outra vez, e sai. O texto põe as duas coisas lado a lado e não as liga.

O terceiro é o que não acontece. Faraó não agradece, não responde, não faz outra pergunta e não dá nenhuma ordem nova. Jacó não pede nada, não se despede com discurso, não menciona Gósen. A audiência mais importante da vida daquela família termina em silêncio dos dois lados.

Vale dizer desde já: o conteúdo da bênção continua sem ser informado, como no versículo 7. O que se sabe sobre o alcance do verbo está no estudo daquele versículo, e não se repete aqui.

2. Contexto Histórico e Cultural

Abençoar como quem diz "bom dia" e "até logo"

O estudo do versículo 7 mostrou o que o Egito fazia com bênçãos: elas desciam do trono. Falta a outra ponta do quadro, e ela vem do lado de cá — do mundo de língua semítica a que Jacó pertencia.

Ali, a bênção era, entre outras coisas, uma fórmula de abertura e de fecho.

A evidência mais direta disso não está em livros: está em cacos de cerâmica e em paredes, escritos por gente comum.

Os cacos de Arade. Em Arade, no sul de Israel, escavou-se um arquivo de mais de cem pedaços de cerâmica com anotações e cartas curtas, do fim do período dos reis de Judá. São ordens de fornecimento, recibos, avisos militares — papelada de guarnição. Várias dessas cartas começam com a mesma coisa: uma saudação em que o remetente abençoa o destinatário pelo nome de Deus, e só depois entra no assunto, que costuma ser quantas medidas de vinho ou de farinha entregar a quem.

Repare no que isso indica. Abençoar, ali, não é um ato solene reservado a ocasiões religiosas. É o começo padrão de um bilhete sobre farinha.

As inscrições de Kuntillet Ajrud. Num posto de parada no deserto, a sudoeste de Canaã, apareceram inscrições em paredes e em jarros grandes com a mesma fórmula, algumas delas em forma de carta: "eu o abençoo pelo SENHOR" — seguido, em alguns casos, de outras expressões que suscitaram discussão longa e que não interessam a este versículo.

O que interessa é a fórmula: o abençoar aparece como a maneira normal de se dirigir a alguém e de desejar-lhe bem.

O mesmo se vê nas cartas achadas em Laquis, cujo tratamento está no estudo de Gênesis 43:28. E há, no vocabulário bíblico, uma fórmula de bênção fixa e antiga cujo texto foi encontrado gravado em prata — assunto do estudo de Gênesis 43:29.

O que isso permite dizer, e o que não permite

Permite afirmar que a estrutura da cena é reconhecível: um encontro entre duas pessoas, aberto e fechado pela mesma expressão de bem-querer, é o formato normal de um contato formal naquele mundo. Não há nada de excêntrico no fato de o texto registrar duas bênçãos em quatro versículos.

Não permite concluir que se tratasse de mera formalidade. Os documentos mostram a fórmula existindo; não mostram o que ia dentro dela em cada uso. Fórmulas de cortesia podem ser vazias e podem ser sinceras, e nenhum caco de cerâmica informa qual das duas coisas era.

Sair da presença do rei

A segunda metade do versículo descreve um ato, e ele também tinha forma.

Numa corte antiga, entrar e sair da presença do soberano eram momentos regulados. O relevo egípcio mostra os cortesãos deixando a sala curvados, e nenhum texto conhecido descreve alguém virando as costas para o rei e caminhando embora. A informação sobre o gesto de entrada foi tratada no estudo do versículo 7.

Vale a mesma cautela de sempre: o Gênesis não descreve como Jacó saiu. Diz apenas que saiu. A frase que ele usa — "de diante de Faraó" — é a expressão corrente em hebraico para o encerramento de uma audiência, e ela aparece com o mesmo rei e com outro personagem em Gênesis 41:46, num contexto que o item 9 registra.

3. Análise Teológica do Versículo

“E Jacó abençoou a Faraó”

O texto repete a frase do versículo 7 quase sem alteração. É a mesma construção, com o mesmo verbo, o mesmo sujeito e o mesmo objeto.

Repetição assim, num livro econômico como o Gênesis, é escolha. Vale examinar o que ela produz.

Primeiro: a audiência fica cercada.

Ponha os quatro versículos em ordem. O 7 é a entrada e a bênção. O 8 é a pergunta do rei. O 9 é a resposta de Jacó. O 10 é a bênção outra vez e a saída.

O encontro está fechado entre duas ocorrências do mesmo gesto. O que houve dentro dele — uma pergunta sobre idade e um balanço amargo — está contido por elas.

Não se deve exagerar o achado. O Gênesis não comenta a moldura e não diz que ela significa alguma coisa; é o leitor que a percebe ao ler os quatro versículos seguidos. Mas ela está lá, e é o traço mais visível da construção da cena.

Segundo: o que a moldura torna visível.

Entre as duas bênçãos aconteceu uma coisa só: um homem disse, ao rei do Egito, que a vida dele tinha sido curta e ruim.

E depois disso ele abençoa outra vez.

Este é o achado do versículo, e é preciso enunciá-lo com cuidado, porque ele é fácil de estragar nas duas direções.

A leitura devota transforma isso numa lição sobre fé apesar do sofrimento: mesmo amargurado, o patriarca abençoa. É bonito e é uma construção do leitor — o texto não estabelece nenhuma relação entre as duas coisas, não diz "apesar disso", não elogia o gesto e não registra esforço nenhum da parte de Jacó.

A leitura oposta transforma tudo em protocolo: a bênção seria formalidade de saída, e por isso o desabafo anterior não a afeta. Também é uma construção — nada no versículo diz que o gesto era automático.

O que se pode afirmar é apenas o que está escrito, e já é bastante: as duas coisas estão no mesmo encontro, o texto as põe em sequência, e não as liga nem as opõe. Quem quiser uma relação de causa entre elas terá de fornecê-la.

Terceiro: o conteúdo continua ausente.

Como no versículo 7, o texto não informa o que foi dito. Duas bênçãos, nenhuma palavra. O que se sabe sobre o alcance do verbo — que ele cobre desde o cumprimento formal até a bênção plena — está no estudo daquele versículo, e a discussão não se reabre aqui.

Vale registrar apenas uma consequência da repetição para aquele debate. Se o gesto fosse exclusivamente uma saudação de corte, a repetição na saída é exatamente o que se esperaria, e ela reforça essa leitura. Se fosse bênção no sentido pleno, uma segunda ocorrência três versículos depois é curiosa, mas não impossível. O versículo 10, portanto, empurra um pouco a favor da primeira leitura — sem fechá-la, porque as duas coisas podiam conviver.

“e retirou-se da sua presença”

Ao pé da letra, o hebraico diz que ele saiu de diante de Faraó.

É a expressão corrente para o fim de uma audiência, e ela tem um espelho dentro do próprio livro. Em Gênesis 41:46, depois de ser investido, "saiu José de diante de Faraó" e percorreu toda a terra do Egito. A mesma frase, o mesmo trono, e dois destinos opostos: o jovem sai para governar um país; o velho sai para ir morrer em Gósen.

O Gênesis não faz essa comparação. Ela salta para quem lê os dois capítulos, e reconhecê-la é leitura do comentarista.

O que não acontece neste versículo

A lista é curta e é reveladora.

Faraó não responde ao balanço que acabou de ouvir. Não faz comentário, não oferece consolo, não estranha, não pergunta mais nada.

Não há agradecimento de nenhum dos dois lados. Jacó não agradece Gósen — que, aliás, ele nem menciona em toda a audiência. Faraó não agradece a bênção.

Não há promessa, não há acordo, não há convite para voltar.

E não há nenhuma indicação de que a bênção tenha produzido efeito. O capítulo seguirá adiante e, poucos versículos depois, mostrará o Egito perdendo o dinheiro, o gado, a terra e a liberdade. Se alguém quiser ligar uma coisa à outra, terá de fazê-lo por conta própria: o texto não liga, e cada um daqueles versículos tem o seu próprio estudo.

Uma nota sobre o fim da cena

Esta é a última coisa que Jacó faz no capítulo por muito tempo. Nos versículos 11 e 12 ele ainda aparece, mas como quem é instalado e sustentado — objeto dos verbos, não sujeito. Só voltará a agir e a falar no versículo 29, ao chamar José para lhe pedir que não o sepulte no Egito.

O que entra no lugar dele é outro assunto inteiro — a fome, o dinheiro, o gado, a terra —, e a passagem de um para o outro é feita sem transição, no versículo 13. O corte pertence ao estudo daquele versículo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jacó, saindo

É a última ação dele nesta parte do capítulo. Entrou conduzido pelo filho, no versículo 7; sai por conta própria, no 10.

Vale notar a diferença de verbos. Na entrada, alguém o trouxe e alguém o pôs de pé. Na saída, o sujeito é ele: saiu. É a única coisa que ele faz sozinho na cena inteira, além de falar e abençoar.

Faraó, calado

O rei não diz nada neste versículo. Ouviu a resposta do velho no versículo 9 e não respondeu — nem aqui, nem em lugar nenhum do capítulo. As duas únicas falas dele são as perguntas dos versículos 3 e 8 e a concessão do versículo 6.

Depois desta cena, ele voltará a falar uma única vez no livro: em Gênesis 50:6, para autorizar José a levar o corpo do pai a Canaã. Tudo o mais que ele determina no capítulo é referido, não citado.

A presença do rei, como lugar

O hebraico trata o "diante de Faraó" quase como um espaço em que se entra e de que se sai. Jacó foi posto lá dentro no versículo 7 e sai dele agora.

Não é figura de estilo do português: é a construção que o texto usa, e ela aparece do mesmo modo em Gênesis 41:46, com José. O item 9 traz a comparação.

O evento: o encerramento da audiência

Quatro versículos, do 7 ao 10. Uma apresentação, uma pergunta, uma resposta, uma despedida — e duas bênçãos, uma em cada ponta.

É o único encontro entre um patriarca e o soberano de um império em todo o Gênesis, e cabe em quatro linhas. Depois dele, o capítulo muda de assunto e não volta mais à corte.

5. Pontos de Ensino

1. A repetição de uma frase é uma escolha, não um descuido. O Gênesis escreve duas vezes, em quatro versículos, que Jacó abençoou Faraó. Num livro que corta detalhes o tempo todo, isso merece ser notado antes de ser interpretado.

2. O que acontece dentro de uma moldura é lido pela moldura. Entre as duas bênçãos estão a pergunta do rei e o balanço amargo do velho. A cena inteira está contida por um gesto de bem-querer — e essa é a forma que o texto lhe deu.

3. Um desabafo não cancelou o gesto. Ele disse que os anos foram poucos e maus, e em seguida abençoou. O texto põe as duas coisas em sequência sem explicar a relação entre elas, e quem construir essa relação deve dizer que a construiu.

4. O silêncio de quem ouve também é resposta. Faraó não comenta o que ouviu, não consola, não estranha. Nem toda confidência recebe retorno, e o texto registra isso sem julgar o rei.

5. Ninguém agradece nada nesta cena. Jacó não agradece a terra, Faraó não agradece a bênção, e o encontro termina sem que ninguém deva nada a ninguém. É um desfecho mais seco do que a pregação costuma admitir.

6. Sair também é um ato. É a única coisa que o velho faz por si mesmo na cena: entrou trazido, foi posto de pé, e sai andando. O texto muda o sujeito dos verbos, e a mudança diz alguma coisa sobre onde termina a ajuda de um filho.

6. Aspectos Filosóficos

Há uma questão filosófica pequena e sólida neste versículo, e ela é sobre forma.

A cena tem uma estrutura fechada: abre com um gesto, termina com o mesmo gesto, e no meio acontece o que acontecer. Essa é a definição do que se chama de ritual — não no sentido religioso, mas no sentido mais amplo: um conjunto de atos cuja sequência é fixada de antemão, independentemente do que as pessoas envolvidas estejam sentindo.

A objeção corrente a isso é conhecida: forma fixa seria o contrário de sinceridade. Quem diz sempre a mesma coisa ao entrar e ao sair não está dizendo nada; está cumprindo protocolo.

Vale examinar a objeção, porque ela é mais fraca do que parece.

A forma fixa faz uma coisa que a espontaneidade não faz: ela não depende do estado de quem a executa. É exatamente por isso que existe. Quem cumprimenta ao chegar cumprimenta bem ou mal disposto; quem se despede se despede satisfeito ou aborrecido. A forma garante um mínimo, e o mínimo garantido é o que permite que pessoas em desacordo — ou em desânimo — continuem convivendo.

Aplicado à cena: entre a primeira e a segunda bênção, um homem declarou em voz alta que a vida dele tinha sido curta e ruim. Se o desfecho dependesse do que ele estava sentindo, a audiência terminaria de outro jeito, ou não terminaria. Terminou como começou.

Há um segundo efeito, e é o que mais interessa aqui.

Um encontro com começo e fim marcados é contido. Ele não vaza. O que se disse ali fica ali, e a moldura serve para dizer que acabou. É por isso que despedidas existem, que reuniões têm encerramento e que conversas difíceis são mais fáceis quando alguém as fecha formalmente: sem o fecho, o assunto continua aberto e sem lugar.

Um limite, para não estender demais. Nada disso está no Gênesis, que apenas registra os dois gestos e não teoriza sobre eles. E nada permite afirmar que a segunda bênção fosse formalidade — o texto não diz o que ela era, e o estudo do versículo 7 mostrou que a palavra comporta as duas coisas.

O que se pode dizer é isto, e é modesto: a cena tem a forma de algo que se abre e se fecha, e é essa forma que dá lugar ao que foi dito dentro dela.

7. Aplicações Práticas

Terminar como se começou

A cena oferece um hábito prático, e ele é dos poucos que se pode adotar hoje mesmo.

Encontros que abrem e fecham do mesmo jeito são mais fáceis de suportar. Vale para uma consulta, uma reunião de trabalho, uma visita a um parente idoso, uma conversa difícil com um filho. O cumprimento na entrada e a despedida na saída não são enfeite: eles marcam onde a coisa começou e onde terminou.

Quem já saiu de uma conversa sem despedida sabe o efeito. O assunto fica solto, continua rodando na cabeça, e é preciso inventar um fim para ele depois, sozinho.

Não corrigir quem desabafou

Este é o ponto mais útil do versículo, e ele vem de uma ausência.

Faraó ouviu um homem dizer que a vida dele tinha sido curta e ruim, e não respondeu nada. Não discordou, não consolou, não listou os motivos pelos quais aquilo era exagero.

O impulso contrário é forte e quase sempre atrapalha. Quando alguém diz "não deu certo", "perdi meu tempo", "foi tudo difícil", a resposta automática é argumentar. E argumentar, nesse momento, tem um efeito específico: informa a pessoa de que aquilo não devia ter sido dito.

O texto não recomenda nada — apenas registra que o rei ficou calado e que o velho o abençoou em seguida. Mas a sequência é instrutiva, e vale ficar com ela.

Sair andando

Um último ponto, pequeno.

Jacó entrou trazido pelo filho e posto de pé pelo filho. Saiu por si. Há uma diferença entre ser ajudado a chegar a um lugar e depender de ajuda para tudo o que se faz nele, e o texto marca essa diferença mudando o sujeito dos verbos.

Serve para quem ajuda alguém idoso ou fragilizado: a ajuda tem um ponto em que deve parar, e o ponto costuma ser antes do que se imagina.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto registra a mesma coisa duas vezes?

O Gênesis não explica. As leituras disponíveis são três, e o item 3 as examina: a repetição pode refletir o formato normal de uma visita, com saudação na entrada e na saída; pode ser ênfase; ou pode servir para fechar a cena como unidade. Nenhuma exclui as outras, e não é possível decidir.

A segunda bênção é a mesma da primeira?

Não se sabe, porque o texto não informa o conteúdo de nenhuma das duas. Nada indica que fossem iguais, e nada indica que fossem diferentes.

Jacó abençoou porque queria agradecer Gósen?

É uma explicação frequente e não tem apoio no versículo. Ele não menciona Gósen em nenhum momento da audiência, e o texto não registra agradecimento algum. A terra já lhe tinha sido concedida antes de ele entrar na sala.

Faraó ficou ofendido com a resposta do versículo 9?

O texto não diz nada sobre a reação dele. Não há sinal de ofensa, e também não há sinal de acolhimento — há silêncio. Quem afirma uma coisa ou outra está preenchendo uma lacuna.

O que significa "saiu de diante de Faraó"?

É a expressão hebraica corrente para o fim de uma audiência real, e ela trata a presença do rei quase como um lugar de onde se sai. Aparece do mesmo modo em Gênesis 41:46, com José. Não há nela nenhuma indicação sobre o modo como a pessoa se retirou.

Jacó voltou a ver Faraó depois disso?

O Gênesis não registra nenhum outro encontro entre os dois. Jacó viverá mais dezessete anos no Egito, e o livro não menciona uma segunda visita à corte. Depois da morte dele, quem trata com o rei é José, e por intermediários (Gênesis 50:4-6).

A bênção teve algum efeito sobre o Egito?

O texto não afirma nada nesse sentido. É tentador ligá-la ao que acontece no restante do capítulo, mas a ligação teria de ser feita pelo leitor, e o capítulo seguirá para uma sequência de acontecimentos que não é fácil de encaixar em nenhuma das duas direções. Cada um daqueles versículos tem o seu próprio estudo.

9. Conexão com Outros Textos

A outra metade da moldura

Gênesis 47:7 — "Depois José trouxe Jacó, seu pai, e o apresentou diante de Faraó; e Jacó abençoou a Faraó."

A frase que este versículo repete. O que a repetição faz com a cena está no item 3; o que se sabe sobre o alcance do verbo está no estudo daquele versículo.

Sair de diante do mesmo trono

Gênesis 41:46 — "E José tinha trinta anos quando se apresentou a Faraó, rei do Egito; e saiu José de diante de Faraó e passou por toda a terra do Egito."

A mesma expressão, o mesmo rei e o mesmo livro. Um homem de trinta anos sai daquela sala para governar um país; um de cento e trinta sai para ir viver os últimos anos em Gósen. O Gênesis não faz a comparação — ela aparece a quem lê os dois capítulos.

Gênesis 4:16 — "E saiu Caim de diante do SENHOR, e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden."

A mesma construção, com outro destinatário e outro sentido. Serve para mostrar que a expressão é de uso amplo em hebraico, e não carrega, por si, nenhuma carga positiva ou negativa.

Encontros abertos e fechados por bênção

Gênesis 24:60 — "E abençoaram Rebeca e lhe disseram: 'Você é nossa irmã; seja mãe de milhares de milhares.'"

Uma bênção de despedida, dita à porta, no momento em que alguém parte. É o uso do verbo que mais se aproxima do desta cena.

2 Samuel 6:18 — "E, acabando Davi de oferecer os holocaustos e as ofertas pacíficas, abençoou o povo em nome do SENHOR dos Exércitos."

Aqui o movimento é o inverso do nosso versículo: é o rei que abençoa os súditos, que é a direção habitual quando um rei está envolvido.

O último encontro da família com aquele rei

Gênesis 50:6 — "E Faraó disse: 'Suba e sepulte o seu pai, como ele o fez jurar.'"

A única outra vez em que o rei do Egito fala neste livro depois desta cena, e o assunto é o enterro do homem que acabou de abençoá-lo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E Jacó abençoou a Faraó e retirou-se da sua presença.

Texto hebraico

וַיְבָרֶךְ יַעֲקֹב אֶת־פַּרְעֹה וַיֵּצֵא מִלִּפְנֵי פַרְעֹה

Transliteração

vayvarekh Ya'akov et-Par'oh vayetze mi-lifnei Far'oh

Análise palavra por palavra

וַיְבָרֶךְ יַעֲקֹב אֶת־פַּרְעֹה — vayvarekh Ya'akov et-Par'oh. "E Jacó abençoou a Faraó."

Estas quatro palavras são idênticas às que fecham o versículo 7. Mesma forma verbal, mesmo sujeito, mesma partícula de objeto, mesmo objeto. Não há uma letra de diferença.

A raiz, a forma verbal e o campo do verbo — inclusive o uso em que ele significa cumprimentar e despedir-se — foram tratados no item 10 do estudo daquele versículo, e não se repetem aqui.

O que interessa registrar é a repetição em si. O hebraico bíblico usa a repetição literal com frequência, e ela costuma cumprir uma de duas funções: marcar que uma ação foi executada exatamente como foi ordenada, ou delimitar um trecho, fechando-o com as mesmas palavras que o abriram.

Aqui não há ordem nenhuma a executar. Resta a segunda função, e o efeito é visível quando se leem os versículos 7 a 10 seguidos: o trecho começa e termina com a mesma frase.

וַיֵּצֵא — vayetze. "E saiu."

Da raiz y-ts-a, sair. É o verbo mais comum da língua para o movimento de dentro para fora, e está aqui na forma simples, sem nenhuma nuance especial.

Vale registrar o contraste com os verbos da entrada. No versículo 7, Jacó foi trazido e foi posto de pé — duas formas causativas, em que outra pessoa é quem age. Aqui, o verbo é simples e o sujeito é ele.

מִלִּפְנֵי פַרְעֹה — mi-lifnei Far'oh. "De diante de Faraó."

A expressão é formada por três peças: a preposição min ("de", indicando afastamento), a preposição lifnei ("diante de", literalmente "à face de") e o nome do rei.

Repare no que a soma produz: "de diante de". O hebraico trata o espaço à frente de alguém como um lugar do qual se pode sair — e é exatamente lifnei, "diante de", a preposição que o versículo 7 usou para dizer onde Jacó foi colocado.

De modo que a moldura da cena é dupla, e a segunda camada está nas preposições. No versículo 7, José põe o pai diante de Faraó. No versículo 10, o pai sai de diante de Faraó. Entrou-se num lugar e saiu-se dele.

A expressão inteira é a fórmula corrente para encerrar uma audiência real, e o mesmo livro a usa para José em Gênesis 41:46. Ela também aparece, com outro tipo de sujeito, em Gênesis 4:16, quando Caim sai "de diante do SENHOR" — o que mostra que a construção é de uso amplo e não carrega significado próprio além do afastamento.

Uma nota sobre o nome do rei

Como no versículo 7, o nome "Faraó" aparece duas vezes na mesma frase: uma como objeto da bênção, outra dentro da expressão de saída. O texto não usa pronome em nenhuma das duas, e a repetição do nome dá à frase a formalidade de um registro.

11. Conclusão

Do que foi examinado, três conclusões se sustentam.

A primeira: a audiência é uma unidade fechada, e o fecho é feito de bênção.

Os versículos 7 a 10 abrem e terminam com as mesmas quatro palavras em hebraico, e até as preposições acompanham — entra-se "diante de" Faraó e sai-se "de diante de" Faraó. O que houve entre uma coisa e outra foi uma pergunta e uma resposta. É a única cena do capítulo construída assim.

A segunda: o balanço amargo não alterou o desfecho, e o texto não explica por quê.

Um homem declarou a própria vida curta e ruim diante do rei do Egito, e em seguida o abençoou e saiu. As duas coisas estão na mesma cena, encostadas uma na outra, sem conjunção, sem comentário e sem juízo. Quem quiser ler ali fé apesar do sofrimento, ou protocolo indiferente ao que se sente, terá de acrescentar a ligação — e deve dizer que acrescentou.

A terceira: o encontro termina sem que nada tenha sido trocado.

Ninguém agradece, ninguém promete, ninguém pede. Faraó não responde ao que ouviu, Jacó não menciona a terra que recebeu, e o texto não registra efeito nenhum das duas bênçãos. A única coisa que sobra da audiência é a forma dela.

Fica, disso, o dado mais seco e mais duradouro deste versículo: o Gênesis dedicou quatro linhas ao único encontro entre um patriarca e o soberano de um império, e o que ele guardou desse encontro não foi um acordo, uma promessa ou uma revelação. Foi um velho entrando, dizendo o que pensava da própria vida, abençoando e indo embora.

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