levaram-no à terra de Canaã e o sepultaram na caverna do campo de Macpela, diante de Manre, campo que Abraão comprara de Efrom, o heteu, como propriedade para sepultura.
1. Introdução
O enterro acontece, e cabe num versículo.
Depois de seis versículos de comitiva, escolta, pranto e luto, o sepultamento em si é dito em uma frase — e mais da metade dessa frase não é sobre o enterro: é a descrição da propriedade. Caverna, campo, nome do lugar, ponto de referência, quem comprou, de quem comprou, e para que serve.
Esses dados já foram dados por inteiro no capítulo 23 do Gênesis, quando Abraão comprou o terreno, e de novo em Gênesis 49:30, quando Jacó deu a ordem. Esta é a terceira vez. O achado do versículo é a repetição — por que o texto recita a escritura outra vez, no momento em que ela finalmente se cumpre. O item 3 expõe as leituras.
Há um segundo ponto, e ele está no que o versículo não diz. Quem carrega o corpo são os filhos. A corte de Faraó, os anciãos do Egito, os carros e os cavaleiros — nada disso reaparece. O Gênesis não os menciona no túmulo.
2. Contexto Histórico e Cultural
Dois fundos materiais interessam aqui: como um corpo chega inteiro ao fim de uma viagem dessas, e o que é uma caverna de sepultura.
O que tornou a viagem possível
Um corpo não atravessa quatrocentos quilômetros em clima quente. O que este versículo executa só é possível por causa do que foi feito no versículo 2 deste capítulo, e o procedimento está tratado ali: o embalsamamento egípcio, com os prazos que o versículo 3 registra.
Vale medir o tempo decorrido. Quarenta dias de preparação do corpo, setenta de luto oficial — e os dois períodos provavelmente se sobrepõem em parte, como se discute no estudo do versículo 3 —, depois a negociação com a corte, depois a viagem, depois sete dias de parada na eira. Entre a morte de Jacó e este sepultamento passaram-se meses.
É um dado incomum e vale registrá-lo. No mundo do Antigo Testamento enterrava-se no mesmo dia, ou no dia seguinte. Deixar um corpo insepulto por meses seria impensável em Canaã — e aqui isso acontece porque o corpo foi tratado à maneira de outro povo.
A última subida
Hebrom fica a cerca de novecentos metros de altitude, no alto da cordilheira central de Canaã. Venha o cortejo por onde vier, o trecho final é uma subida — e é a mais dura de toda a viagem, com uma coluna carregada e um corpo a transportar.
Macpela fica na borda leste da cidade, no ponto em que o terreno começa a cair para o deserto de Judá. O detalhe geográfico "diante de Manre" está tratado no estudo do capítulo 23, onde a compra é narrada.
A caverna como sepultura
O sepultamento em caverna não é enterro no sentido de cavar e cobrir. O corpo é depositado: entra-se na câmara, deita-se o morto sobre uma prateleira de pedra ou no chão, e a entrada é fechada. Os que morrem depois entram na mesma câmara.
Isso muda o sentido do que está acontecendo neste versículo. Jacó não é posto num lugar isolado: é posto junto de Abraão, Sara, Isaque, Rebeca e Lia, que já estavam ali conforme a lista de Gênesis 49:31. O sepultamento familiar coletivo e a expressão "reunido ao seu povo" estão tratados nos estudos de Gênesis 25:9 e do capítulo 23.
A forma de uma escritura
A segunda metade do versículo tem a forma de um documento de compra, e é útil reconhecer a estrutura: o que se transfere (a caverna e o campo), onde fica (Macpela, diante de Manre), quem comprou (Abraão), de quem (Efrom, o heteu), e para que fim (propriedade para sepultura).
Faltam apenas o preço e as testemunhas, que estão no capítulo 23. A linguagem jurídica desse tipo de recitação e os contratos comparáveis do Oriente Próximo estão tratados no estudo de Gênesis 49:30. O que interessa aqui é outra coisa: por que ela reaparece pela terceira vez — e disso trata o item 3.
3. Análise Teológica do Versículo
"levaram-no à terra de Canaã"
O verbo é de carregar peso. E o sujeito, no hebraico, está dito com todas as letras: os filhos dele o carregaram.
Aqui está o primeiro achado do versículo, e ele é feito de ausência.
Some a comitiva imensa. Os servos de Faraó, os anciãos da casa, os anciãos de toda a terra do Egito, os carros, os cavaleiros — o Gênesis dedicou três versículos a montar aquele aparato e não menciona nenhuma dessas pessoas no momento do sepultamento. O que ele nomeia são os filhos.
É preciso não exagerar o dado. O texto não diz que os egípcios foram impedidos de entrar, nem que ficaram para trás, nem que houve qualquer separação deliberada. O versículo 14 dirá que todos voltaram juntos, o que supõe que estavam por perto. O que se pode afirmar é apenas isto: no versículo do enterro, quem aparece são os filhos.
E a impressão que a leitura produz é limpa. A escolta acompanhou até onde uma escolta acompanha. O que se faz dentro de uma caverna de família é feito pela família.
"e o sepultaram na caverna do campo de Macpela, diante de Manre"
Esta é a única frase do capítulo que executa alguma coisa irreversível. Tudo o mais — o embalsamamento, o luto, a viagem, o pranto — era preparação, e podia em tese ser desfeito ou refeito. Isto não.
Repare também na economia. O Gênesis gastou dois versículos com a parada na eira de Atade, e gasta meia frase com o sepultamento. Nenhuma descrição do interior, nenhuma palavra dita, nenhum gesto. Entraram, puseram, e o texto passa ao que interessa a ele — que é a descrição da propriedade.
"campo que Abraão comprara de Efrom, o heteu, como propriedade para sepultura"
E aqui está o achado principal.
Essa informação não é nova. O capítulo 23 do Gênesis inteiro é sobre ela: a morte de Sara, a negociação com os filhos de Hete, o preço, a pesagem da prata, a transferência diante de testemunhas. E em Gênesis 49:30 Jacó recitou os mesmos dados ao dar a ordem aos filhos.
Esta é a terceira vez que o Gênesis diz a mesma coisa por inteiro. E a pergunta que interessa não é o que a frase diz — isso já está tratado nos dois estudos citados —, e sim por que o texto recita tudo de novo aqui.
Quatro leituras se apresentam, e nenhuma exclui as outras.
1. É a linguagem do ato jurídico. Um sepultamento em terreno próprio é exercício de direito, e no mundo antigo o direito se exercia dizendo. Recitar a origem do título no momento de usá-lo é o equivalente a ler a escritura antes de tomar posse. Nessa leitura, a repetição não é literária: é procedimento.
O custo dessa leitura é que não havia ninguém contestando. Ninguém disputa a caverna neste capítulo.
2. É o fecho de uma moldura. A relação da família com a terra de Canaã começa, no Gênesis, com uma compra — a do capítulo 23 — e termina com a mesma compra, citada palavra por palavra. Entre um ponto e outro há vinte e sete capítulos. Nessa leitura, o texto está fechando um arco, e a repetição é o modo de mostrar que ele fechou.
O custo: é uma observação do leitor sobre a forma do livro, e o texto não a enuncia.
3. É insistência sobre o que a família possui. O Gênesis quer que ninguém saia daqui sem saber que aquele pedaço de chão foi comprado, pago, e é de Abraão por título.
Essa leitura tem a seu favor a frase final, que a tradução conserva: "como propriedade para sepultura". É a cláusula de destinação de um documento, e ela não é necessária para contar a história. Está ali porque alguém quis que estivesse.
E leva a uma observação que o texto não faz e que o leitor não consegue evitar: essa caverna é tudo o que os patriarcas chegaram a possuir da terra prometida. Uma sepultura comprada de um estrangeiro, num campo com um ponto de referência. É o inventário completo. O Gênesis registra e não comenta.
4. É simplesmente como esse tipo de texto funciona. Relatos antigos repetem fórmulas, e cada vez que a fórmula aparece ela é dita por inteiro, porque quem ouve pode não ter ouvido as anteriores.
É a leitura mais sóbria e provavelmente a mais correta do ponto de vista de método. O custo dela é que não explica a escolha: por que esses dados, e não a idade de Jacó, ou o nome dos que o carregaram, ou o dia?
Não é possível decidir entre as quatro, e é provável que mais de uma valha ao mesmo tempo.
Uma nota sobre o verbo "comprara"
Vale registrar, sem reabrir, que este versículo diz que Abraão comprou o campo, enquanto no versículo 5 deste mesmo capítulo José cita o pai dizendo "o túmulo que cavei para mim". A tensão entre os dois verbos é discutida e está tratada no estudo do versículo 5.
E uma nota sobre o corpo
O homem que entra naquela caverna foi preparado por embalsamadores egípcios. Ele é depositado ao lado de Abraão, Sara, Isaque, Rebeca e Lia, que não foram. O Gênesis não faz nenhum comentário sobre isso, e o ponto está tratado no estudo do versículo 2.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os filhos
Os doze, sujeito do verbo de carregar. É a segunda frase seguida em que eles agem juntos, depois do versículo 12.
Macpela
O campo com a caverna, na borda de Hebrom, comprado por Abraão no episódio narrado em Gênesis 23. O nome e a localização estão tratados naquele capítulo.
Manre
O ponto de referência que localiza o campo. Aparece desde Gênesis 13:18, quando Abraão se estabelece ali, e é onde ele recebe os três visitantes em Gênesis 18.
Abraão
O comprador. Morto há bem mais de um século no tempo deste versículo, e sepultado na própria caverna, conforme Gênesis 25:9.
Efrom, o heteu
O vendedor, personagem do capítulo 23. Nomeado aqui pela última vez no Gênesis — e nomeado, note-se, num versículo em que todos os demais nomes são de mortos da família.
Os que já estavam na caverna
Segundo a lista que Jacó deu em Gênesis 49:31: Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, e Lia. Jacó é o sexto e o último.
O acontecimento
O sepultamento de Jacó. É o cumprimento do juramento de Gênesis 47:29-31 e da ordem de Gênesis 49:29-32, e é o último ato da família em Canaã dentro do livro do Gênesis.
5. Pontos de Ensino
O que se possui de verdade cabe em pouca coisa
No fim do Gênesis, tudo o que a família de Abraão tem em Canaã é um campo com uma caverna, comprado de um estrangeiro. O texto insiste nos dados dessa propriedade e não menciona nenhuma outra.
Não é preciso moralizar o dado para que ele funcione. Basta notá-lo.
A parte que ninguém pode fazer por você
Havia centenas de pessoas naquela viagem, muitas delas com mais recursos e mais poder que os filhos de Jacó. Quem carregou o corpo até a caverna foram os filhos.
Ato acaba depressa; preparação demora
Meses de embalsamamento, luto, negociação e viagem para uma frase de sepultamento. A desproporção não é defeito do relato: é como as coisas são. O momento que dá sentido a tudo costuma ser o mais curto.
Documento importa
O Gênesis podia ter escrito "e o sepultaram em Macpela". Escreveu de onde veio o direito sobre aquele chão, de quem foi comprado e para que fim. Numa cultura sem cartório, dizer isso era o registro.
Vale a observação prática: quem cuida de onde a família será sepultada, e deixa isso claro e documentado, resolve em vida um problema que costuma cair sobre gente enlutada e sem tempo.
Cumprir até o fim
A ordem de Jacó tinha três partes: tirar do Egito, levar a Canaã, pôr na caverna dos pais. As três foram cumpridas, na ordem, sem substituição por soluções mais fáceis — e havia soluções mais fáceis disponíveis o tempo todo.
6. Aspectos Filosóficos
Repare em quem está vivo neste versículo.
Abraão morreu. Efrom morreu. Sara, Isaque, Rebeca e Lia estão dentro da caverna. Jacó acaba de ser posto ali. Dos nomes próprios que a frase menciona, nenhum pertence a alguém vivo.
O que sobrevive a todos eles é a descrição de um negócio: um campo, uma caverna, um comprador, um vendedor, uma finalidade.
Isso levanta uma questão que vale examinar: por que um acordo dura mais que as pessoas que o fizeram?
A resposta óbvia é que ele foi registrado, e o registro sobrevive ao registrador. Mas isso apenas empurra a pergunta. Um pedaço de barro escrito não obriga ninguém sozinho. Se a compra de Abraão continua valendo cento e tantos anos depois, é porque gente que não participou dela decidiu continuar reconhecendo-a — os filhos de Efrom, os moradores de Hebrom, os filhos de Jacó.
Um acordo, portanto, não dura por causa do documento. Dura porque cada geração seguinte o mantém de pé. E o documento serve para tornar essa manutenção possível: ele diz o que exatamente se está mantendo.
Há uma consequência incômoda nisso, e é honesto enunciá-la. Se o que sustenta um direito antigo é o reconhecimento continuado, então nenhum direito é tão firme quanto o seu titular gostaria. Ele depende de gente que não o assinou. Basta uma geração que se recuse a reconhecer, e o campo de Macpela volta a ser um campo qualquer.
É provável que seja por isso que o Gênesis recita os dados três vezes. Um direito que depende de ser lembrado precisa ser dito de novo — e a repetição que o item 3 examina talvez não seja estilo, e sim manutenção.
O que se pode afirmar com segurança é modesto: um contrato é uma promessa que se pede às gerações seguintes que continuem honrando, e elas não estavam presentes para consentir. Que isso funcione, e funcione há milênios, é mais estranho do que costuma parecer.
7. Aplicações Práticas
Deixar resolvido onde se quer ser sepultado
É uma das poucas decisões que uma pessoa pode tomar sobre o próprio fim, e é a que mais se adia. Jacó tomou a dele com antecedência, disse a quem precisava ouvir e garantiu por juramento.
O efeito prático é o que este versículo mostra: quando chegou a hora, ninguém precisou decidir nada. Não houve discussão entre os irmãos, não houve dúvida sobre o lugar, não houve improviso. Só houve execução.
Cuidar da papelada antes de precisar dela
O direito da família sobre aquele terreno vinha de uma compra feita mais de cem anos antes, com preço pago e testemunhas. Foi por isso que o sepultamento foi um ato simples.
Vale para muita coisa: jazigo, escritura de imóvel, seguro, inventário. O trabalho chato feito com folga transforma, mais tarde, um problema em uma tarefa.
Fazer a parte que é sua
Uma comitiva de centenas subiu por aquela estrada. No momento do enterro, quem carregou foram os filhos. Há tarefas que se podem delegar e há tarefas em que a presença de quem tem o vínculo é o conteúdo da tarefa.
Terminar
Este versículo encerra uma sequência que começou em Gênesis 47:29, com um velho pedindo. Passaram-se três capítulos, uma morte, meses de preparação e uma viagem internacional. Terminar o que se começou raramente é dramático — costuma ser assim: uma frase curta, depois de muito trabalho, sem plateia.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que o texto repete os dados da compra pela terceira vez?
Não há resposta única. O item 3 expõe quatro leituras — a linguagem do ato jurídico, o fecho de uma moldura literária, a insistência sobre o que a família possui e o funcionamento normal desse tipo de relato — e observa que provavelmente mais de uma vale ao mesmo tempo. Não é possível decidir.
Os egípcios entraram no túmulo?
O texto não diz nem que entraram nem que ficaram de fora. Diz apenas que os filhos carregaram e sepultaram. O versículo 14 mostra que a comitiva estava por perto, já que todos voltam juntos. Concluir que houve uma separação deliberada é ler mais do que está escrito; observar que o versículo do enterro nomeia só os filhos é ler o que está.
Como um corpo aguentou meses de viagem?
Por causa do embalsamamento do versículo 2, tratado ali. Sem ele, nada disto seria possível — e é por isso que o cumprimento do pedido de Jacó dependeu, na prática, de um procedimento do país de onde ele queria sair.
Se Abraão comprou, por que o versículo 5 fala em "cavei"?
É uma tensão real dentro do próprio capítulo, e o verbo do versículo 5 é discutido — pode significar "cavar" ou "adquirir". O assunto está tratado no estudo daquele versículo, e este aqui traz a formulação mais direta: Abraão comprou.
Quem já estava na caverna?
Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, e Lia, conforme a lista que o próprio Jacó recitou em Gênesis 49:31. Raquel não está: ela foi sepultada no caminho de Efrata, conforme Gênesis 35:19, e o próprio Jacó menciona isso em Gênesis 48:7.
Este é o fim da história da terra prometida no Gênesis?
É o último ato da família em Canaã dentro do livro. O que a família possui ali, ao fim do Gênesis, é o campo e a caverna deste versículo — e o versículo seguinte mostra todos voltando ao Egito.
9. Conexão com Outros Textos
A compra, narrada por inteiro
Gênesis 23:17-18 — "Assim o campo de Efrom, que estava em Macpela, em frente de Manre, o campo e a caverna que nele estava, e todo o arvoredo que no campo havia, foi confirmado a Abraão em possessão, diante dos filhos de Hete."
A primeira vez que os dados aparecem completos. O episódio inteiro está tratado naquele capítulo.
A ordem de Jacó, recitando os mesmos dados
Gênesis 49:30 — "na caverna que está no campo de Macpela, que está em frente de Manre, na terra de Canaã, a qual Abraão comprou com aquele campo de Efrom, o heteu, por herança de sepultura."
A segunda vez. Este versículo é a terceira.
Quem já estava lá
Gênesis 49:31 — "Ali sepultaram a Abraão e a Sara, sua mulher; ali sepultaram a Isaque e a Rebeca, sua mulher; e ali sepultei eu a Lia."
A lista, na boca do próprio Jacó. Ele é o sexto a entrar.
A que não está lá
Gênesis 48:7 — "Vindo eu, pois, de Padã, morreu-me Raquel na terra de Canaã, no caminho, havendo ainda pequena distância para chegar a Efrata; e eu a sepultei ali no caminho de Efrata."
Jacó menciona a ausência de Raquel dois capítulos antes de morrer.
O enterro de Abraão, no mesmo lugar
Gênesis 25:9-10 — "E Isaque e Ismael, seus filhos, o sepultaram na caverna de Macpela, no campo de Efrom, filho de Zoar, o heteu, que estava em frente de Manre. O campo que Abraão comprara aos filhos de Hete."
Também ali os dados da compra são repetidos no momento do sepultamento. O procedimento deste versículo não é novidade no livro.
A promessa da terra, feita ao homem que só comprou um campo
Gênesis 13:15 — "Porque toda esta terra que vês, te hei de dar a ti e à tua descendência, para sempre."
Ao fim do Gênesis, o que a família tem dessa terra é o campo e a caverna deste versículo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
levaram-no à terra de Canaã e o sepultaram na caverna do campo de Macpela, diante de Manre, campo que Abraão comprara de Efrom, o heteu, como propriedade para sepultura.
Texto hebraico
וַיִּשְׂא֨וּ אֹת֤וֹ בָנָיו֙ אַ֣רְצָה כְּנַ֔עַן וַיִּקְבְּר֣וּ אֹת֔וֹ בִּמְעָרַ֖ת שְׂדֵ֣ה הַמַּכְפֵּלָ֑ה אֲשֶׁ֣ר קָנָה֩ אַבְרָהָ֨ם אֶת־הַשָּׂדֶ֜ה לַאֲחֻזַּת־קֶ֗בֶר מֵאֵ֛ת עֶפְרֹ֥ן הַחִתִּ֖י עַל־פְּנֵ֥י מַמְרֵֽא׃
Transliteração
wayyis’ú otó vanáv ártsah Kená‘an, wayyiqberú otó bim‘arát sedéh ha-makhpeláh, ashér qanáh Avrahám et-ha-sadéh la’achuzzát-qéver me’ét ‘Efrón ha-chittí ‘al-penê Mamré
Análise palavra por palavra
וַיִּשְׂאוּ · wayyis’ú — "e carregaram"
Raiz nasa, "levantar", "erguer", "carregar", no Qal, a forma simples do verbo hebraico.
É um verbo de peso físico: levanta-se uma carga e leva-se. O mesmo verbo aparece em contextos muito diferentes — levantar os olhos, levantar a voz, carregar a culpa —, mas o sentido básico é o de erguer alguma coisa que tem massa.
Aplicado a um corpo, ele diz o que a cena tem de concreto: alguém pegou aquele homem no colo e o levou.
בָּנָיו · vanáv — "os seus filhos"
O hebraico repete o sujeito, que já estava no versículo 12. A nossa versão não o repete, para evitar a redundância em português, e por isso o leitor precisa da observação: o original diz de novo, e com todas as letras, que quem carregou foram os filhos.
A repetição em versículos seguidos é o que dá relevo ao ponto tratado no item 3 — a comitiva egípcia não aparece aqui.
אַרְצָה כְּנַעַן · ártsah Kená‘an — "para a terra de Canaã"
A terminação -ah em ártsah é a forma que o hebraico usa para indicar direção: "para a terra". É a mesma terminação que aparece em "para o Egito" no versículo 14.
O par é notável quando se lê os dois versículos seguidos: neste, a direção é Canaã; no seguinte, é o Egito.
מְעָרָה · me‘aráh — "caverna"
Da raiz que indica o que está desnudo ou aberto — a caverna é a abertura na rocha. Não é construção: é acidente do terreno aproveitado.
É a palavra que o Gênesis usa em todo o episódio do capítulo 23 e nas menções posteriores.
הַמַּכְפֵּלָה · ha-makhpeláh — "Macpela"
O nome vem com artigo, o que sugere que funcionava também como descrição, e não só como nome próprio. A raiz é kafal, "dobrar", "duplicar" — daí a leitura tradicional de "a dobrada", talvez uma caverna de duas câmaras. É leitura antiga e plausível, e está tratada no estudo do capítulo 23.
קָנָה · qanáh — "comprou"
O verbo da aquisição. Cobre comprar, adquirir e tomar posse mediante pagamento, e é o verbo usado no capítulo 23 para a transação com Efrom.
Vale registrar o contraste, sem desenvolvê-lo: no versículo 5 deste capítulo o verbo é outro, e a diferença entre os dois está tratada naquele estudo.
לַאֲחֻזַּת־קֶבֶר · la’achuzzát-qéver — "como propriedade para sepultura"
Esta é a expressão técnica da frase.
Achuzzah vem da raiz achaz, "agarrar", "segurar", "tomar posse". Designa a propriedade que se detém com firmeza — o bem que fica, que não circula, que passa aos herdeiros. É o termo que o Levítico e o livro de Josué usam para a terra atribuída a cada tribo.
Qéver é "sepulcro", da mesma raiz do verbo "sepultar" que aparece no meio deste versículo.
Juntas, as duas palavras formam a cláusula de destinação de um documento: para que serve o bem adquirido. A linguagem jurídica desse tipo de recitação está tratada no estudo de Gênesis 49:30.
מֵאֵת עֶפְרֹן הַחִתִּי · me’ét ‘Efrón ha-chittí — "de Efrom, o heteu"
A preposição indica a procedência do bem: de quem se comprou. Num documento de venda, este é o nome do transmitente.
O adjetivo de origem — "o heteu" — vem junto, como vinha no capítulo 23. Nomeia-se o vendedor e a que povo ele pertence, exatamente como se faz num registro.
עַל־פְּנֵי מַמְרֵא · ‘al-penê Mamré — "diante de Manre"
Literalmente "sobre a face de Manre", isto é, defronte, do lado de cá. É a maneira hebraica de localizar por referência a um ponto conhecido.
Em um documento de terra, é a demarcação: sem cadastro nem medida, o que identifica um imóvel é o que ele tem em frente.
A forma do conjunto
Reunindo as peças, a segunda metade do versículo traz, na ordem: o bem, a localização, o adquirente, a destinação, o transmitente e a demarcação. Falta apenas o preço, que está em Gênesis 23:16.
11. Conclusão
Três conclusões.
Primeira: o texto recita a escritura pela terceira vez, e a repetição é o achado. Os dados de Macpela já estavam completos no capítulo 23 e em Gênesis 49:30. Aqui voltam inteiros — bem, lugar, comprador, vendedor, destinação. Quatro leituras explicam por quê, e nenhuma exclui as outras: é procedimento jurídico, é fecho de moldura, é insistência sobre o que a família possui, ou é simplesmente o modo como esse tipo de relato funciona. Não é possível decidir.
Segunda: quem carrega o corpo são os filhos, e o hebraico diz isso duas vezes seguidas. A comitiva imensa que o capítulo montou em três versículos não é mencionada no sepultamento. O texto não afirma que houve separação, e o versículo 14 mostra todos por perto — mas no versículo do enterro quem aparece é a família.
Terceira: o inventário da família em Canaã está completo nesta frase. Um campo, uma caverna, comprados de um estrangeiro, com finalidade de sepultura. É tudo o que os patriarcas chegaram a possuir da terra que lhes foi prometida em Gênesis 13:15. O Gênesis anota os dados com precisão de documento e não faz um único comentário a respeito.













