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Gênesis 6:1

✍️ Por Alberto Adriano·30 de junho de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 183 acessos
Quando os homens começaram a se multiplicar sobre a face da terra e lhes nasceram filhas,
Vista ampla de uma humanidade antiga se espalhando por vales e planícies sob um céu carregado, filhas nascendo em famílias numerosas antes do dilúvio.

Estudo


E aconteceu que, quando começaram os homens a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas,

1. Introdução

O capítulo 6 de Gênesis abre com uma cena que parece a mais banal do mundo: gente nascendo, gente crescendo, famílias se formando. Depois das longas listas de nomes do capítulo 5 — homens que viveram séculos, geraram filhos e morreram —, o narrador dá um passo atrás e mostra o quadro inteiro: a humanidade se espalhando pela terra. À primeira vista, é só um dado demográfico. Mas quem conhece o resto do capítulo sabe que este versículo é a soleira de uma porta perigosa. Poucas linhas adiante estarão os 'filhos de Deus', as 'filhas dos homens', os gigantes e, no horizonte, o dilúvio. Este primeiro versículo é o silêncio antes da tempestade.

Convém dizer de saída, com honestidade: estamos entrando no trecho mais difícil e mais debatido de todo o livro de Gênesis, talvez de toda a Bíblia. Gerações de estudiosos, judeus e cristãos, discutiram o que estas frases realmente querem dizer, e não há acordo. Seria desonesto tratar Gênesis 6 como se fosse um texto simples, de sentido óbvio. Não é. Aqui vamos apresentar as leituras principais, dizer o grau de certeza de cada uma e resistir tanto ao sensacionalismo quanto à pressa de 'resolver' o mistério com uma explicação fácil.

O versículo 1, em si, ainda pisa em terreno firme. Ele apenas registra dois fatos: a humanidade começou a se multiplicar, e nasceram filhas. Nada de estranho — é o cumprimento da ordem dada no princípio, 'frutificai e multiplicai'. O incômodo começa quando percebemos como o narrador escolhe iluminar a cena. Ele não diz 'nasceram filhos e filhas', como fez no capítulo 5. Diz apenas 'nasceram filhas'. Esse foco não é acidental: o olhar do texto já se prepara para o que vem no versículo seguinte, quando alguém vai 'ver' essas filhas e tomá-las. O versículo 1 arma o palco; o drama vem logo atrás.

Ler bem este começo é aceitar uma tarefa dupla. De um lado, entender o que o texto diz com clareza: o mundo estava cheio de vida, a bênção da criação seguia produzindo gente. De outro, notar o tom sombrio que o narrador injeta na cena, como quem prepara o leitor para uma queda. A multiplicação que era bênção vai virar o cenário de uma corrupção sem precedentes. É essa mistura — vida e ruína no mesmo fôlego — que faz de Gênesis 6:1 um versículo muito menos inocente do que parece.

2. Contexto Histórico e Cultural

O versículo se encaixa logo após a genealogia de Adão até Noé, no capítulo 5. Aquela lista contava a história por meio de números impressionantes: homens que viviam oitocentos, novecentos anos. O efeito era mostrar uma humanidade que, apesar da morte que entrara pelo pecado, se espalhava e enchia a terra. Gênesis 6:1 recolhe esse movimento numa frase e o transforma em pano de fundo. Para o leitor antigo de Israel, isso soava como o cumprimento visível da bênção do Criador: a raça humana estava fazendo exatamente o que fora mandada fazer no jardim.

Há um detalhe cultural que o leitor de hoje pode perder: o texto diz que nasceram 'filhas', e não simplesmente 'crianças'. No mundo do Antigo Oriente Próximo, a mulher era, em grande medida, vista sob a ótica do casamento, da aliança entre famílias e da descendência. Filhas eram, para os pais, tanto uma bênção quanto um bem a ser negociado e protegido. Ao destacar o nascimento das filhas, o narrador não está enaltecendo a mulher; ele está preparando o leitor para vê-las se tornarem objeto do desejo e da tomada de outros, no versículo 2. É honesto reconhecer que a gramática do texto trata as mulheres, aqui, mais como alvo da ação do que como agentes dela. Elas são 'vistas', são 'tomadas'. Essa é a linguagem da época, e escondê-la seria falsear o texto.

O contraste com os mitos de dilúvio das culturas vizinhas é o ponto mais revelador — e o mais surpreendente. Existe uma antiga epopeia mesopotâmica, chamada Atra-hasis, muito anterior a Israel e conhecida em todo o Oriente Próximo, que conta um dilúvio provocado exatamente por isto: a humanidade havia se multiplicado demais e fazia barulho demais. O deus Enlil não conseguia dormir por causa do clamor dos homens e, irritado, decidiu exterminá-los com uma enchente. Ou seja: naquele mito, a própria multiplicação humana era o crime. O simples fato de haver muita gente já bastava para acender a ira divina.

Gênesis conhece esse pano de fundo e o vira do avesso. Aqui, também, o dilúvio vem depois de a humanidade 'começar a se multiplicar' — a sequência narrativa é parecida. Mas a causa do juízo é radicalmente diferente. Deus não se incomoda com a quantidade de gente; Ele mesmo ordenara que a terra se enchesse. O que provoca o dilúvio, em Gênesis, não é o barulho nem o número dos homens, e sim a maldade do coração humano, que o capítulo vai descrever com dureza. O relato bíblico usa a moldura do mito conhecido, mas troca o motor da história: não um deus insone e mesquinho, mas um Deus justo que reage ao mal moral. É uma correção deliberada, não uma cópia.

Vale ainda lembrar onde estamos na estrutura de Gênesis. O livro vinha alternando bênção e queda: a criação boa, a queda no jardim, o primeiro homicídio com Caim, a linhagem violenta de Lameque, e agora a humanidade inteira em expansão. Gênesis 6:1 é o último respiro antes de o narrador declarar que 'a maldade do homem se multiplicara na terra' (6:5). A mesma raiz — multiplicar — que descreve a bênção da gente descreverá, poucos versículos adiante, a explosão do mal. O leitor atento sente o eco: multiplicou-se a vida, e com ela multiplicou-se o pecado.

3. Análise Teológica do Versículo

“E aconteceu que, quando começaram os homens a multiplicar-se sobre a face da terra”

Esta frase indica um aumento expressivo da população humana, sugerindo um período de crescimento rápido após a criação e as primeiras gerações. A multiplicação da humanidade cumpre a ordem de Deus em Gênesis 1:28: 'frutificai e multiplicai'. Esse crescimento prepara o cenário para os acontecimentos que conduzem ao dilúvio, pois o aumento da população também traz consigo o aumento da maldade. A expressão 'sobre a face da terra' enfatiza a natureza ampla e generalizada desse crescimento, que cobria todo o mundo habitado da época.

“e lhes nasceram filhas”

A menção às filhas destaca o processo natural da reprodução humana e a continuidade das linhagens familiares. Esse detalhe é significativo no contexto dos versículos seguintes, em que os 'filhos de Deus' reparam nessas filhas. O nascimento de filhas é parte normal da expansão humana, mas também introduz a narrativa da mistura entre grupos diferentes, que algumas interpretações entendem ter levado ao declínio moral e espiritual. Esta frase prepara o contexto para os acontecimentos seguintes, envolvendo os Nefilins e o juízo divino que se segue.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os homens (a humanidade) — Os descendentes de Adão e Eva, que começaram a crescer em número sobre a terra. Essa multiplicação representa o desenvolvimento da civilização humana e o cumprimento visível da bênção da criação.

As filhas — A prole feminina desses homens. O texto as destaca de propósito, não para exaltá-las, mas porque serão o centro do conflito do versículo seguinte. Elas continuam a linhagem humana, mas o narrador já as apresenta como alvo do olhar e da tomada de outros.

A terra — O cenário dessa multiplicação. A expressão 'a face da terra' sublinha o espalhamento da humanidade pelo mundo habitado, mostrando que o crescimento não era local, mas geral.

5. Pontos de Ensino

O crescimento da humanidade é bênção — A multiplicação da vida faz parte do projeto original do Criador. Encher a terra de gente não é, em si, um problema; é o cumprimento de uma ordem boa dada no princípio.

A ambiguidade do crescimento — O mesmo aumento que é bênção torna-se, aqui, o palco da corrupção. Crescer em número não garante crescer em bondade. Quanto maior a sociedade, maior também a capacidade de espalhar o mal — algo que o capítulo vai deixar explícito.

O valor e a fragilidade da condição da mulher — Ao destacar o nascimento das filhas, o texto revela como o mundo antigo enxergava a mulher, muitas vezes como objeto de desejo e de posse. Ler isso com honestidade nos leva a valorizar e proteger a dignidade da mulher hoje, corrigindo o que aquele mundo tratava como natural.

A soberania de Deus sobre a história — Mesmo quando a humanidade se espalha e a trama caminha para o juízo, Deus não perde o controle do enredo. O crescimento dos homens não escapa do seu olhar nem do seu propósito.

6. Aspectos Filosóficos

Há uma ironia profunda escondida neste versículo. A palavra que descreve a bênção — multiplicar-se — é a mesma que, poucas linhas adiante, descreverá a tragédia: 'a maldade do homem se multiplicou na terra'. O bem e o mal crescem lado a lado, alimentados pela mesma força de expansão da vida. Isso diz algo desconfortável sobre a natureza humana: não somos máquinas de produzir bem nem máquinas de produzir mal; somos criaturas capazes das duas coisas, e quanto mais nos multiplicamos, mais multiplicamos ambas. O progresso não purifica o coração; apenas dá a ele um palco maior.

O texto também levanta a velha questão do olhar. No versículo 1 nascem as filhas; no versículo 2 alguém as 'vê' e as toma. É o mesmo movimento do jardim, quando a mulher 'viu que a árvore era boa' e tomou do fruto. Ver, desejar, tomar: essa sequência atravessa a Bíblia como o desenho anatômico do pecado. O versículo 1 ainda é inocente, mas planta a semente. Ele nos lembra que muitas quedas começam num olhar aparentemente neutro, num dado banal que carrega, sem alarde, o começo de algo grave.

Existe ainda uma tensão que a honestidade obriga a nomear: por que o narrador ilumina justamente as filhas, e não os filhos? A resposta não é lisonjeira para o mundo antigo. Naquela cultura, a mulher era frequentemente vista pelo prisma do desejo masculino e da aliança entre famílias. O texto não inventa essa mentalidade nem a aprova; ele a retrata. E ao retratá-la, sem suavizar, deixa o leitor moderno diante de uma pergunta legítima: quanto do que aquele mundo achava natural sobre a mulher precisa, à luz da própria Escritura, ser corrigido? Ler a Bíblia com seriedade é aprender a distinguir o que ela descreve do que ela prescreve.

Por fim, o versículo fala do tempo. 'Quando começaram os homens a multiplicar-se' marca um início, uma era. A Bíblia não vê a história como um ciclo que se repete eternamente, ao modo de muitos povos antigos, mas como uma linha que avança, com começo, crise e desfecho. Aqui começa uma era que vai terminar debaixo das águas. Perceber isso é entender que, para o pensamento bíblico, os atos humanos têm consequências que se acumulam no tempo. Não vivemos num presente eterno e sem peso; construímos, geração após geração, um mundo que um dia será pesado na balança.

7. Aplicações Práticas

Não confunda crescer com melhorar — A humanidade de Gênesis 6 estava maior, mais numerosa, mais espalhada — e caminhava para a ruína. Vale para a vida pessoal: mais dinheiro, mais seguidores, mais influência não significam mais integridade. O crescimento amplia o que você já é. Se o coração não é cuidado, crescer só aumenta o alcance do estrago.

Cuide do olhar — A queda que vem no versículo seguinte começa num ver que vira tomar. Vigie aquilo para onde os seus olhos correm, porque muitas ruínas começam ali, num desejo que parecia inofensivo. O que você contempla com frequência acaba governando o que você faz.

Honre a mulher onde o mundo a diminui — O texto mostra, sem disfarce, um mundo que tratava as filhas como alvo. A resposta do crente não é repetir aquela mentalidade, mas superá-la: enxergar em cada mulher a mesma dignidade de imagem de Deus, e protegê-la onde a cultura ainda a reduz a objeto.

Lembre que os seus atos entram na história — Aquela geração construiu, dia após dia, o mundo que seria julgado. As suas escolhas também se somam, silenciosas, ao mundo que você deixa. Viva sabendo que o presente não é leve nem descartável: ele é a matéria-prima do futuro.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Qual é o significado de Gênesis 6:1?

Ele registra o momento em que a humanidade se espalhava pela terra, cumprindo a bênção da criação, e destaca o nascimento das filhas. Aparentemente simples, o versículo é a porta de entrada do trecho mais debatido de Gênesis: ele arma o cenário para a história dos 'filhos de Deus', das 'filhas dos homens', dos gigantes e do dilúvio. É o silêncio que antecede a tempestade.

2. Como Gênesis 6:1 mostra o crescimento da humanidade e o seu peso espiritual?

O versículo apresenta a multiplicação como algo bom, fruto da bênção original. Mas o narrador logo revelará que, junto com a gente, multiplicou-se também o mal. O crescimento humano é retratado como uma força neutra: ela amplia tanto a vida quanto a corrupção. Por isso o texto carrega, desde já, um peso espiritual — o número não salva ninguém; o coração é que decide o rumo.

3. Que lições tiramos de 'começaram os homens a multiplicar-se'?

A principal é que expansão não é o mesmo que virtude. Uma sociedade pode crescer, prosperar e se espalhar e, ao mesmo tempo, apodrecer por dentro. O crescimento é bênção quando acompanhado de integridade, e maldição quando serve só para dar mais alcance ao mal. Crescer exige, portanto, vigilância redobrada, não menos.

4. Como Gênesis 6:1 se conecta com a ordem de Gênesis 1:28?

As palavras 'multiplicar-se' e 'encher a terra' são o eco direto do mandato dado a Adão e Eva: 'frutificai e multiplicai, e enchei a terra'. Gênesis 6:1 mostra esse mandato sendo cumprido. A ironia é que o cumprimento da bênška da criação se torna o cenário do maior juízo da criação. O plano de Deus avança, mas o coração do homem o contamina no caminho.

5. Como aplicar Gênesis 6:1 às preocupações modernas com o crescimento populacional?

O texto não trata a quantidade de gente como um mal — ao contrário dos mitos vizinhos, em que a superpopulação irritava os deuses. Para Gênesis, o problema nunca foi haver muita gente, e sim haver muito pecado. Isso desloca o foco: o desafio de qualquer época não é conter o número de pessoas, mas cuidar do caráter delas e da justiça entre elas.

6. Que perigos espirituais surgem quando 'nasceram filhas' aos homens?

O perigo não está nas filhas, e sim no que virá a seguir: o olhar que as reduz a objeto de desejo e a tomada que ignora os limites de Deus. O versículo prepara a cena de uma cobiça sem freio. O risco espiritual retratado é o de transformar pessoas em coisas a serem possuídas — uma inversão que a Bíblia trata como raiz de corrupção.

7. Quem são os 'filhos de Deus' mencionados em Gênesis 6:1-2?

Essa é a grande pergunta do capítulo, e não há resposta unânime. Três leituras principais disputam: (1) seres celestiais ou anjos que se uniram a mulheres — a interpretação mais antiga, apoiada pela tradução grega antiga, pelo livro de 1 Enoque e por textos do Novo Testamento como Judas 6 e 2 Pedro 2:4; (2) a linhagem piedosa de Sete que se misturou com a linhagem ímpia de Caim — leitura tradicional posterior, defendida por vários pais da Igreja; (3) reis e governantes que se autoproclamavam divinos. Trataremos disso a fundo no versículo 2. Por ora, basta dizer: quem afirmar ter certeza absoluta está indo além do que o texto permite.

8. O que Gênesis 6:1-2 sugere sobre a interação entre o humano e o divino?

Seja qual for a leitura correta, o trecho aponta para o cruzamento perigoso de fronteiras que Deus estabeleceu. Algo que pertencia a uma esfera invade outra, e o resultado é corrupção e juízo. A Bíblia costuma tratar com muito cuidado essas fronteiras entre o céu e a terra, entre o sagrado e o comum. O texto sugere que apagá-las, em vez de aproximar, gera desordem.

9. Como Gênesis 6:1-2 se relaciona com o conceito de pecado original?

O trecho mostra o pecado já instalado e se espalhando por toda a raça humana, várias gerações depois do jardim. Não é o momento em que o pecado entra no mundo — isso foi em Gênesis 3 —, mas a demonstração de até onde ele chegou. A corrupção descrita aqui é o pecado original em plena floração: uma humanidade inteira dobrada para o mal, a ponto de exigir um recomeço.

10. Quais são as grandes lições de Gênesis 6?

Em resumo: o crescimento sem caráter caminha para a ruína; ultrapassar os limites que Deus estabeleceu gera corrupção; o mal, quando não é contido, se espalha e contamina tudo; e, ainda assim, Deus preserva um remanescente — Noé — pela graça. O capítulo une, num só quadro, a seriedade do juízo e a persistência da misericórdia.

9. Conexão com Outros Textos

“E Deus os abençoou; e disse-lhes Deus: Frutificai e multiplicai, e enchei a terra, e subjugai-a, e dominai os peixes do mar, as aves dos céus, e todos os animais que se movem sobre a terra.” (Gênesis 1:28)

A ordem original: frutificar, multiplicar e encher a terra. Gênesis 6:1 mostra esse mandato sendo cumprido pela humanidade — a mesma multiplicação que era bênção torna-se, agora, o cenário do juízo.

“E Deus abençoou Noé e seus filhos, e disse-lhes: Frutificai, e multiplicai, e enchei a terra:” (Gênesis 9:1)

Depois do dilúvio, a mesma ordem de multiplicar é repetida a Noé. A história recomeça exatamente onde havia começado, provando que o juízo não anulou o propósito da criação.

“os filhos de Israel cresceram e multiplicaram, e foram aumentados e fortalecidos grandemente; de maneira que a terra encheu-se deles.” (Êxodo 1:7)

A multiplicação de Israel no Egito usa a mesma linguagem de Gênesis 6:1. A fecundidade abençoada atravessa toda a Escritura como sinal do favor de Deus, mesmo em terra estrangeira.

“E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos: e gerou filhos e filhas.” (Gênesis 5:4)

A genealogia anterior falava de 'filhos e filhas'. Gênesis 6:1 escolhe destacar só as filhas — uma mudança de foco que já aponta para o conflito do versículo seguinte.

“Assim como foram os dias de Noé, assim também será a vinda do Filho do homem.” (Mateus 24:37)

Jesus toma os dias de Noé como retrato dos últimos tempos: uma humanidade absorvida na rotina de comer, beber e casar, alheia ao juízo que se aproximava. O crescimento e a normalidade não impediram a catástrofe.

“E como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem.” (Lucas 17:26)

O mesmo aviso: a vida seguia comum, as pessoas se multiplicavam e se casavam, até o dia em que Noé entrou na arca. A aparente tranquilidade era enganosa.

“Nem perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, anunciador da justiça, com outros sete, trazendo o dilúvio sobre o mundo dos ímpios;” (2 Pedro 2:5)

Pedro lembra que Deus não poupou o mundo antigo, mas preservou Noé. A multiplicação daquela geração não a protegeu do juízo — só a graça sobre um remanescente.

“Portanto, assim como por um homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os seres humanos, porque todos pecaram.” (Romanos 5:12)

Paulo explica por que a humanidade inteira, ao se multiplicar, carregava o pecado: ele entrou por um só homem e passou a todos. A corrupção de Gênesis 6 é esse pecado se espalhando com a própria raça.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português:

Quando os homens começaram a se multiplicar sobre a face da terra e lhes nasceram filhas,

Texto hebraico:

וַֽיְהִי כִּֽי־הֵחֵל הָֽאָדָם לָרֹב עַל־פְּנֵי הָֽאֲדָמָה וּבָנוֹת יֻלְּדוּ לָהֶם׃

Transliteração:

vaiehí ki-hechel ha'adam larôv al-penê ha'adamáh uvanôt yulledú lahem.

Análise palavra por palavra:

vaiehí (וַיְהִי) — 'e aconteceu que': fórmula clássica que abre uma nova cena no hebraico narrativo. É como um 'era uma vez' que sinaliza: começa aqui um novo episódio. O narrador está mudando de assunto, saindo das genealogias e entrando num drama.

hechel (הֵחֵל) — 'começaram': do verbo chalal, iniciar. Marca o ponto de partida de um processo. Curiosamente, a mesma raiz pode ter o sentido de 'profanar', e alguns leitores antigos ouviam aí um duplo sentido sombrio; mas o significado direto e seguro aqui é 'dar início'.

ha'adam (הָאָדָם) — 'o homem', 'a humanidade': o termo coletivo para o ser humano, a mesma palavra que dá nome a Adão. Não se refere a um indivíduo, mas à raça inteira que se espalhava.

larôv (לָרֹב) — 'a multiplicar-se', 'a tornar-se muitos': da raiz ravah, aumentar em número, a mesma da bênção de Gênesis 1:28. É a palavra da fecundidade abençoada. A ironia do capítulo é que essa mesma raiz de 'multiplicar' reaparece em 6:5 para descrever a multiplicação da maldade.

ha'adamáh (הָאֲדָמָה) — 'a terra', 'o solo': note o jogo de palavras com ha'adam (o homem). O ser humano (adam) se multiplica sobre o solo (adamah) do qual foi tirado. Hebraico gosta desses ecos sonoros: o homem é, literalmente, o 'terreno' que se espalha sobre a terra.

uvanôt (וּבָנוֹת) — 'e filhas': plural de bat, filha. A palavra é posta em destaque no início da frase, chamando a atenção justamente para elas. Não é 'nasceram filhos e filhas'; é só 'filhas'. O foco é proposital.

yulledú lahem (יֻלְּדוּ לָהֶם) — 'nasceram-lhes', 'foram-lhes geradas': o verbo está numa forma passiva — as filhas 'foram geradas' a eles. A construção reforça que, na cena, as mulheres aparecem como aquilo que é dado, e não como quem age. É a gramática de um mundo que via a mulher pelo prisma da posse.

Nota teológica e textual:

O peso do versículo está no jogo entre ravah (multiplicar) e o foco sobre as banôt (filhas). O verbo é o da bênção; o foco já anuncia a queda. É como se o narrador dissesse, em uma só frase, 'a vida cresce' e 'algo vai dar errado'. Vale registrar, com honestidade, que o versículo em si não tem variantes textuais problemáticas — a dificuldade não está em 6:1, mas no que vem logo depois. Este versículo é firme; ele apenas nos leva, de mãos dadas, até a beira do abismo interpretativo dos versículos 2 a 4.

11. Conclusão

Gênesis 6:1 parece um versículo de passagem, um dado de fundo. Mas é a porta de entrada de um dos trechos mais intensos da Bíblia. Ele mostra a humanidade fazendo o que fora chamada a fazer — encher a terra — e, ao mesmo tempo, deixa no ar um tom de ameaça. A vida se multiplica, mas o narrador já prepara o leitor para ver essa mesma vida se corromper. Bênção e ruína entram em cena no mesmo fôlego.

A grande lição deste começo é que crescer não é o mesmo que amadurecer. Uma sociedade pode se expandir, prosperar e dominar a terra e, apesar disso, estar apodrecendo por dentro. O número nunca foi garantia de virtude. O que decide o rumo de uma geração não é o seu tamanho, mas o seu coração — e o coração daquela geração, o capítulo dirá sem rodeios, estava inclinado para o mal.

Fica também um convite à honestidade diante do texto. A partir daqui, Gênesis nos leva a um terreno de perguntas difíceis, sem respostas fáceis. Quem quiser ler a Bíblia com seriedade precisa aprender a conviver com o mistério, sem inventar certezas que o próprio texto não oferece, e sem esvaziar o texto de sua estranheza para deixá-lo mais confortável. O versículo 1 é o último degrau firme antes dessa escalada. Do próximo em diante, caminharemos com cuidado, com o texto numa mão e a humildade na outra.

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