📖 Navegar na Bíblia:

Gênesis 6:4

✍️ Por Alberto Adriano·30 de junho de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 44 acessos
Naqueles dias havia gigantes na terra, e também depois, quando os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Estes foram os valentes que, desde a antiguidade, foram homens de renome.
Guerreiros de grande estatura em pé sobre uma terra antiga ao entardecer, figuras heroicas e sombrias diante de um mundo prestes a ser julgado pelo dilúvio.

Estudo


Havia gigantes na terra naqueles dias, e também depois que entraram os filhos de Deus às filhas dos homens, e lhes geraram filhos: estes foram os valentes que desde a antiguidade foram homens de renome.

1. Introdução

Chegamos aos gigantes. Este é o versículo que povoa o imaginário, que alimenta livros, documentários e teorias sem fim: os Nefilins, os 'valentes', os 'homens de renome'. E é justamente por isso que ele exige de nós a maior disciplina. Aqui, mais do que em qualquer outro ponto, a tentação do sensacionalismo é grande, e o nosso compromisso é o oposto: pisar com firmeza no que o texto diz, apresentar as leituras sérias, marcar o grau de certeza e não transformar a Bíblia em roteiro de fantasia. O assunto é fascinante por si só; não precisa de exageros para impressionar.

A primeira coisa a notar é que o versículo é mais cuidadoso do que a fama sugere. Ele não diz, como muitos supõem, que os Nefilins eram os filhos dos 'filhos de Deus' com as 'filhas dos homens'. Leia com atenção: 'Havia gigantes na terra naqueles dias, e também depois que entraram os filhos de Deus às filhas dos homens.' O texto diz que os Nefilins já estavam na terra 'naqueles dias' — e continuaram 'depois'. A relação entre os Nefilins e a descendência das uniões é deixada em aberto pela própria gramática. Boa parte do que se afirma com certeza sobre os gigantes é, na verdade, dedução — legítima, mas dedução.

A palavra 'Nefilim' aparece só aqui e num outro lugar da Bíblia, quando os espiões voltam de Canaã aterrorizados. Isso levanta um enigma que a honestidade obriga a enfrentar: se os Nefilins estavam na terra 'naqueles dias', antes do dilúvio, como é que reaparecem em Canaã, séculos depois do dilúvio que supostamente destruiu toda a humanidade fora da arca? Esse é um problema real, e vamos encará-lo de frente, com as respostas que os estudiosos propõem — nenhuma delas totalmente livre de dificuldade.

Por trás de tudo isso está o mundo antigo, cheio de histórias de heróis semidivinos: filhos de um deus com uma mortal, guerreiros de força sobre-humana, homens cujos nomes ecoavam por gerações. Gênesis conhece esse imaginário e faz com ele algo surpreendente. Onde os povos vizinhos celebravam os semideuses como a glória de suas origens, o texto bíblico os coloca no lado sombrio da história — como o retrato de um mundo tão fora dos eixos que precisou ser lavado pelas águas. Os 'homens de renome' de Gênesis não são celebrados; são a última cena antes do juízo.

2. Contexto Histórico e Cultural

A palavra hebraica é nefilim, e a sua origem é discutida. A ligação mais aceita é com a raiz nafal, 'cair'. Daí saem dois sentidos possíveis: 'os caídos' — talvez no sentido de seres decaídos, ou de guerreiros que fazem os outros cair — ou 'aqueles que fazem cair', os que derrubam, os violentos. A antiga tradução grega, a Septuaginta, verteu a palavra por gigantes, 'gigantes', e é daí que vem toda a tradição de imaginá-los como seres de estatura enorme. Vale dizer com clareza: 'gigantes' é uma interpretação antiga e respeitável, mas o hebraico nefilim não significa literalmente 'os grandes' — a ideia de tamanho vem sobretudo dessa tradução e do relato dos espiões em Números.

Esse relato é a chave para o enigma. Em Números 13, os espiões que voltam de Canaã dizem ter visto ali 'os Nefilins, filhos de Anaque', diante dos quais se sentiam 'como gafanhotos'. Ou seja, séculos depois do dilúvio, a palavra reaparece para descrever povos de grande estatura que habitavam a terra prometida — os anaquins, e depois os refains e os emins, todos lembrados como gigantes. Isso cria o problema: se o dilúvio destruiu toda a humanidade fora da arca, como havia Nefilins em Canaã? As respostas honestas são três, e nenhuma fecha a questão. Primeira: os espiões podem ter exagerado num relato de medo — o próprio texto de Números trata esse informe como falta de fé. Segunda: o 'e também depois' de Gênesis 6:4 talvez insinue que fenômeno semelhante voltou a ocorrer depois do dilúvio. Terceira, a mais sóbria: 'Nefilim' pode ter virado, com o tempo, um termo genérico para 'gigantes' ou 'guerreiros temíveis', aplicado a povos altos sem relação direta com os de antes do dilúvio.

O pano de fundo cultural é o mundo dos heróis semidivinos. Toda a Antiguidade do Oriente Próximo e, depois, do mundo grego, contava histórias de homens nascidos da união entre deuses e mulheres: Gilgamés, o herói mesopotâmico, era descrito como dois terços divino e um terço humano; a mitologia grega estava cheia de semideuses como Héracles. Havia também, na tradição mesopotâmica, os apkallu, sábios semidivinos anteriores a um grande dilúvio. Gênesis 6:4 se move nesse mesmo território imaginário — uniões entre o divino e o humano gerando figuras extraordinárias —, mas com uma diferença decisiva de julgamento, que veremos adiante.

A expressão 'homens de renome' merece atenção. No hebraico, é 'homens do shem' — homens do 'nome'. Eram os famosos, os que tinham 'feito um nome' para si, os heróis cujas façanhas eram cantadas. Aqui há um eco importante dentro do próprio Gênesis: poucos capítulos adiante, os construtores da torre de Babel dirão 'façamos um nome para nós' (Gênesis 11:4). O 'nome' que o homem constrói para a sua própria glória é, em Gênesis, quase sempre sinal de orgulho e de rebeldia. Os 'homens de renome' de 6:4 não são celebrados pelo narrador; são citados como parte do quadro de um mundo inflado de si mesmo, que caminhava para o juízo.

E aqui está a grande diferença entre Gênesis e os mitos vizinhos. Os povos antigos contavam as histórias de semideuses com admiração, como a origem gloriosa de seus reis e heróis. Gênesis conta uma história parecida, mas troca a admiração pela advertência. Esses 'valentes', esses 'homens de renome', aparecem no exato momento em que o texto está prestes a dizer que 'a maldade do homem se multiplicou na terra' e que Deus decidiu destruir o mundo. O que era glória para os pagãos, para o narrador bíblico é sintoma de decadência. Mais uma vez, Gênesis usa o vocabulário do mito para dizer o contrário do mito.

3. Análise Teológica do Versículo

“Havia gigantes na terra naqueles dias”

O termo 'Nefilim' é muitas vezes traduzido por 'gigantes' e deriva de uma raiz hebraica ligada a 'cair' ou 'fazer cair'. Isso sugere seres de grande estatura ou poder. A presença dos Nefilins é mencionada no contexto da maldade crescente sobre a terra, preparando o cenário da narrativa do dilúvio. A sua existência é ponto de intriga e de debate, havendo interpretações que os entendem como anjos caídos ou como a descendência deles. Os Nefilins também são mencionados em Números 13:33, onde os espiões israelitas relatam tê-los visto em Canaã, indicando a sua presença ou influência continuada na história bíblica.

“e também depois”

Esta expressão sugere que os Nefilins não estavam presentes apenas antes do dilúvio, mas também surgiram novamente depois. Isso deu origem a várias interpretações, incluindo a possibilidade de uma segunda incursão de anjos caídos ou a sobrevivência de características dos Nefilins por meio da família de Noé. A persistência do tema dos Nefilins sublinha a luta contínua entre o bem e o mal na narrativa bíblica.

“quando os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens”

A expressão 'filhos de Deus' foi interpretada de várias formas. Tradicionalmente, é entendida como referência a seres angelicais, como se vê em Jó 1:6 e Jó 2:1, onde o termo descreve seres celestiais. Essa interpretação sugere uma união sobrenatural que produziu os Nefilins. Como alternativa, alguns propõem que os 'filhos de Deus' eram a linhagem piedosa de Sete, que se casou com a linhagem ímpia de Caim, levando à corrupção moral. Esta frase destaca a mistura entre os domínios divino e humano, tema recorrente na literatura do Antigo Oriente Próximo.

“E lhes geraram filhos, que foram os valentes que desde a antiguidade foram homens de renome”

A descendência dessas uniões era formada por 'valentes', o que sugere indivíduos de força ou habilidade extraordinárias. A expressão 'homens de renome' indica que eram figuras famosas — ou infames — da história antiga. Isso pode se referir a heróis ou guerreiros lendários, cujos feitos eram bem conhecidos. A narrativa prepara o cenário do dilúvio ao ilustrar a extensão da corrupção humana e a mistura dos elementos divino e humano, que exigiu a intervenção divina.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os Nefilins — O grupo misterioso deste versículo, muitas vezes traduzido por 'gigantes'. A raiz hebraica nafal ('cair') sugere 'os caídos' ou 'os que fazem cair', os violentos. A ideia de tamanho enorme vem sobretudo da tradução grega e do relato dos espiões em Números 13. O texto os situa 'naqueles dias' e 'também depois', sem afirmar de modo claro que eram os filhos das uniões descritas.

Os filhos de Deus — A mesma expressão debatida do versículo 2, aqui retomada. Anjos ou seres celestiais (leitura mais antiga), linhagem de Sete ou reis divinizados — as três leituras continuam em jogo, sem prova possível.

As filhas dos homens — As mulheres humanas com quem os 'filhos de Deus' se uniram. O fruto dessas uniões, diz o texto, foram os 'valentes'.

Os valentes, homens de renome — A descendência das uniões: guerreiros de força extraordinária, os 'homens do nome', famosos por suas façanhas. No mundo antigo, seriam celebrados como heróis; em Gênesis, aparecem como parte do quadro sombrio que antecede o dilúvio.

A terra 'naqueles dias' — O cenário: o mundo pré-dilúvio, tomado por uma corrupção que o texto está prestes a descrever como total. Os gigantes e os heróis são a última imagem antes do anúncio do juízo.

5. Pontos de Ensino

Encare o mistério sem sensacionalismo — A identidade dos Nefilins e dos 'filhos de Deus' é genuinamente incerta. A atitude sábia não é inventar teorias mirabolantes nem varrer o mistério para debaixo do tapete, mas apresentar as leituras sérias com humildade e reconhecer os limites do que sabemos. Fascínio é legítimo; sensacionalismo, não.

A grandeza humana não impressiona a Deus — Os 'homens de renome' eram os famosos, os poderosos, os heróis cantados de sua época. E aparecem justamente no versículo que antecede a decisão de Deus de destruir o mundo. A fama, a força e o 'nome' que o homem constrói para si não são, aos olhos de Deus, sinal de bênção — podem ser sintoma de um mundo cheio de si e à beira da ruína.

Cruzar as fronteiras de Deus gera corrupção, não glória — Onde os pagãos viam nas uniões entre o divino e o humano a origem de seus heróis, Gênesis vê corrupção que atrai o juízo. O que o mundo admira nem sempre é o que Deus aprova. Ultrapassar os limites que Ele traçou pode produzir figuras impressionantes e, ao mesmo tempo, um mundo podre.

Leia o texto com cuidado antes de deduzir — Gênesis 6:4 não diz claramente que os Nefilins eram os filhos das uniões; a gramática deixa isso em aberto. Muita certeza popular sobre os gigantes é dedução, não afirmação do texto. Aprender a distinguir o que a Bíblia diz do que nós concluímos é parte de lê-la com honestidade.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta uma pergunta profunda sobre o que é a verdadeira grandeza. Aqueles homens eram 'valentes', 'de renome', os heróis de sua era — e o narrador os coloca na cena que precede a destruição do mundo. Há aqui uma crítica silenciosa e cortante à ideia humana de glória. Aquilo que uma civilização mais admira — a força, a fama, o nome que ecoa por gerações — pode ser exatamente o sintoma da sua doença. O mundo antes do dilúvio não era um mundo de fracos e covardes; era um mundo de heróis. E foi destruído. A grandeza, quando desligada de Deus, não é sinal de saúde; pode ser o brilho enganoso de algo que já está apodrecendo por dentro.

Há também a questão do 'nome'. Os 'homens de renome' são, literalmente, os 'homens do nome' — os que fizeram um nome para si. Poucos capítulos adiante, em Babel, a humanidade dirá: 'façamos um nome para nós.' A Bíblia trata essa busca de nome próprio com suspeita, porque ela é, no fundo, a tentativa de garantir a própria grandeza sem Deus, de eternizar-se pela fama. O contraste vem depois: será a Abraão que Deus dirá 'engrandecerei o teu nome'. O nome que o homem arranca para si conduz ao juízo; o nome que Deus concede conduz à bênção. Entre construir o próprio nome e receber um nome de Deus está uma das grandes escolhas da vida humana.

O enigma dos Nefilins que reaparecem em Canaã ensina algo sobre como lidar com as dificuldades da Bíblia. Diante da tensão — como havia gigantes depois do dilúvio? —, o caminho honesto não é fingir que o problema não existe, nem inventar uma harmonização forçada, nem descartar o texto como absurdo. É pôr as possibilidades na mesa: talvez os espiões tenham exagerado por medo, talvez a palavra tenha virado um termo genérico para povos altos, talvez o próprio texto insinue algo com o 'e também depois'. Conviver com uma tensão sem resposta definitiva, apresentando as opções com sobriedade, é mais honesto do que a falsa paz de uma explicação que não convence.

Por fim, o versículo diz algo sobre o fascínio humano pelo sobrenatural e pelo extraordinário. Há em nós uma atração antiga pelos gigantes, pelos heróis, pelo que transcende o comum — a mesma atração que enchia os mitos do mundo antigo. Gênesis não alimenta esse fascínio; ele o desloca. Em vez de convidar o leitor a admirar os 'valentes', o texto os cita de passagem e segue direto para o essencial: a maldade do coração humano e a resposta de Deus. É como se o narrador dissesse que o verdadeiro drama do mundo não está nos gigantes lendários, mas no coração comum de cada homem. O sobrenatural impressiona; mas é o coração que decide a história.

7. Aplicações Práticas

Não meça o seu valor pela sua grandeza aos olhos do mundo — Os 'homens de renome' eram admirados e, ainda assim, faziam parte de um mundo condenado. Fama, força e reconhecimento não são o que Deus valoriza. Cuidado em construir a sua vida sobre aquilo que impressiona os outros; isso pode brilhar por fora e estar vazio por dentro.

Cuidado com a fome de 'fazer um nome' — A busca de renome a qualquer custo aparece em Gênesis sempre ligada ao orgulho — nos gigantes e depois em Babel. Em vez de gastar a vida arrancando um nome para si, receba de Deus o seu lugar e o seu valor. O nome que Ele dá vale mais do que o nome que você constrói.

Não se deixe seduzir pelo sensacionalismo espiritual — Os Nefilins fascinam, e há uma indústria inteira que explora isso. Mantenha os pés no chão: a Bíblia cita os gigantes de passagem e vai direto ao que importa — o coração humano e a resposta de Deus. Desconfie de quem transforma mistérios do texto em espetáculo e teoria.

O verdadeiro campo de batalha é o coração comum — O narrador não se detém nos gigantes lendários; ele corre para falar da maldade do coração do homem. A sua vida espiritual não se decide em fenômenos extraordinários, mas no terreno banal das suas escolhas diárias. É ali, no comum, que se ganha ou se perde.

Aprenda a conviver com o que não se resolve — O enigma dos Nefilins em Canaã não tem resposta fechada, e tudo bem. Levar a Bíblia a sério inclui aceitar as suas tensões sem forçar soluções artificiais. A maturidade da fé se mede, também, pela paz de quem consegue dizer 'não sei ao certo' sem que isso abale a sua confiança em Deus.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Qual é o significado de Gênesis 6:4?

O versículo registra a presença dos Nefilins — traduzidos por 'gigantes' — na terra, antes e depois das uniões entre os 'filhos de Deus' e as 'filhas dos homens', e menciona os 'valentes', os 'homens de renome', que dessas uniões nasceram. Ele fecha o quadro sombrio do mundo pré-dilúvio: um mundo de heróis e grandeza aparente que, no entanto, estava tão corrompido que seria destruído. O que os pagãos celebrariam como glória, o texto apresenta como sinal de decadência.

2. Como os 'Nefilins' de Gênesis 6:4 se relacionam com a luta espiritual de hoje?

O texto não oferece base para transformar os Nefilins numa doutrina detalhada sobre demônios ou combate espiritual atual — quem faz isso vai muito além do que está escrito. O que ele ensina, de forma sóbria, é que a corrupção pode assumir formas grandiosas e impressionantes, e que a verdadeira batalha não está nos seres extraordinários, mas no coração humano. A vigilância espiritual real acontece no comum da vida, não na caça a mistérios.

3. Que lições tiramos dos 'valentes', dos 'homens de renome'?

Que a grandeza aos olhos do mundo não impressiona a Deus. Aqueles homens eram os famosos, os fortes, os heróis de sua época — e faziam parte de um mundo que seria julgado. A fama e o 'nome' construídos pelo homem, quando desligados de Deus, não são bênção, mas podem ser sintoma de um mundo cheio de si. O que o mundo aplaude nem sempre é o que Deus aprova.

4. Como Gênesis 6:4 se conecta ao juízo do dilúvio?

Ele é a última pincelada no quadro que justifica o dilúvio. Depois de descrever o cruzamento de fronteiras e o desejo sem freio, o texto mostra o mundo produzindo os seus 'heróis' e seguindo, logo em seguida, para o versículo em que 'a maldade do homem se multiplicou na terra'. Os gigantes e os valentes são a imagem de um mundo fora dos eixos, maduro para o juízo.

5. Como entender Gênesis 6:4 fortalece a nossa confiança na soberania de Deus?

Ao mostrar que nem mesmo a grandeza mais impressionante escapa ao juízo e ao propósito de Deus. Um mundo de gigantes e heróis não foi obstáculo para Ele. Isso firma a confiança de que nenhuma força, por maior que pareça, está acima de Deus. A soberania divina não é ameaçada pelo que é grande aos olhos humanos; Ele governa a história inteira, gigantes incluídos.

6. Que aplicações modernas surgem dos acontecimentos de Gênesis 6:4?

A principal é a desconfiança em relação à idolatria da grandeza — da fama, da força, do nome. Vivemos numa cultura que adora celebridades e heróis, tal como o mundo antigo. Gênesis nos lembra que isso pode ser sintoma, não saúde. E nos ensina a sobriedade diante do sensacionalismo espiritual: o mistério dos gigantes fascina, mas a vida com Deus se decide no coração comum, não na caça ao extraordinário.

7. Quem eram os Nefilins de Gênesis 6:4, e qual a sua importância?

Eram um grupo que o texto associa ao mundo pré-dilúvio, cujo nome vem provavelmente da raiz 'cair' — 'os caídos' ou 'os que fazem cair'. A tradução grega os chamou de 'gigantes', e o relato dos espiões, em Números 13, os liga a povos de grande estatura em Canaã. A sua importância no texto é servir de imagem de um mundo corrompido e violento, à beira do juízo. Além disso, o texto diz pouco com certeza sobre eles — muito do que se afirma é dedução.

8. Como os 'filhos de Deus' de Gênesis 6:4 se relacionam com anjos ou humanos?

É a mesma pergunta do versículo 2, e a resposta continua sem certeza. A leitura mais antiga entende os 'filhos de Deus' como seres celestiais ou anjos, apoiando-se no uso da expressão em Jó e nos ecos do Novo Testamento (Judas 6; 2 Pedro 2:4). A leitura tradicional posterior os vê como a linhagem de Sete; uma terceira, como reis divinizados. Nenhuma pode ser provada. Em 6:4, essa incerteza se soma à dúvida sobre a natureza dos Nefilins.

9. O que Gênesis 6:4 sugere sobre seres divinos interagindo com humanos?

Se a leitura celestial estiver correta, sugere uma transgressão de fronteiras — seres do domínio divino invadindo o humano —, tratada não como algo glorioso, mas como corrupção que atrai o juízo. É o oposto dos mitos vizinhos, que celebravam essas uniões. Mas convém a cautela: o versículo é breve e ambíguo, e construir sobre ele uma doutrina detalhada sobre a interação entre anjos e humanos é ir além do que o texto autoriza.

10. Quais são as grandes lições de Gênesis 6?

Que o desejo sem freio e o rompimento das fronteiras de Deus corrompem o mundo; que a grandeza humana — fama, força, 'nome' — não impressiona a Deus e pode ser sintoma de decadência; que diante dos mistérios do texto a atitude certa é a humildade sóbria, sem sensacionalismo; e que, apesar de um mundo tomado pelo mal, Deus preserva Noé pela graça. Um capítulo que junta a seriedade do juízo à persistência da misericórdia.

9. Conexão com Outros Textos

“Também vimos ali gigantes, filhos de Anaque, raça dos gigantes: e éramos nós, à nossa aparência, como gafanhotos; e assim lhes parecíamos a eles.” (Números 13:33)

Os espiões dizem ter visto 'os gigantes, filhos de Anaque', diante dos quais se sentiam gafanhotos. É a outra aparição da palavra Nefilim na Bíblia, e a origem do enigma: como havia gigantes em Canaã, séculos depois do dilúvio? O próprio texto trata esse relato como um informe de medo e falta de fé.

“Porque somente Ogue rei de Basã havia restado dos gigantes que restaram. Eis que sua cama, uma cama de ferro, não está em Rabá dos filhos de Amom?; o comprimento dela de nove côvados, e sua largura de quatro côvados, ao côvado de um homem.” (Deuteronômio 3:11)

Ogue, rei de Basã, é lembrado como o último 'resto dos gigantes', com uma cama de ferro enorme. A tradição de Israel guardava a memória de povos de grande estatura, ligando-os aos refains — parte do pano de fundo dos 'gigantes' bíblicos.

“(Os emins habitaram nela antes, povo grande, e numeroso, e alto como gigantes:” (Deuteronômio 2:10)

Os emins são descritos como 'povo grande, numeroso e alto como os anaquins', também contados entre os refains. Mostra como vários povos altos eram lembrados sob a mesma categoria de gigantes — sinal de que o termo se tornara amplo.

“Saiu então um homem do acampamento dos filisteus que se pôs entre os dois campos, o qual se chamava Golias, de Gate, e tinha de altura seis côvados e um palmo.” (1 Samuel 17:4)

Golias, o gigante filisteu de Gate, é o herdeiro mais famoso dessa tradição de homens de estatura descomunal. O 'valente' temido pelo seu tamanho reaparece na história de Israel, e é derrubado por um jovem pastor com uma funda.

“E em certo dia, os filhos de Deus vieram para se apresentarem diante do SENHOR, e Satanás também veio entre eles.” (Jó 1:6)

'Os filhos de Deus' se apresentam diante do SENHOR: a expressão, em Jó, designa seres celestiais. É o principal apoio da leitura que, em Gênesis 6:4, entende os 'filhos de Deus' como seres do mundo celestial.

“E aos anjos que não guardaram sua origem, mas deixaram sua própria habitação, ele os reservou debaixo de grande escuridão em prisões eternas até o julgamento do grande dia.” (Judas 1:6)

Os 'anjos que não guardaram a sua origem, mas deixaram a sua própria habitação', reservados para juízo. Muitos veem aqui um comentário direto sobre os 'filhos de Deus' de Gênesis 6 — anjos que abandonaram o seu lugar.

“Porque se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, em vez disso lançando-os no inferno, entregou-os às cadeias da escuridão, tendo sido reservados para o julgamento;” (2 Pedro 2:4)

'Os anjos que pecaram', lançados em cadeias de trevas, mencionados logo antes do dilúvio. A proximidade dos temas sustenta a leitura de que anjos caídos estão ligados ao mundo de Gênesis 6.

“E disseram: Vamos, edifiquemo-nos uma cidade e uma torre, cuja ponta chegue ao céu; e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.” (Gênesis 11:4)

Em Babel, a humanidade diz: 'façamos um nome para nós.' É o mesmo impulso dos 'homens de renome' — os 'homens do nome' — de 6:4. Construir um nome para a própria glória é, em Gênesis, marca de orgulho e prenúncio de juízo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português:

Naqueles dias havia gigantes na terra, e também depois, quando os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Estes foram os valentes que, desde a antiguidade, foram homens de renome.

Texto hebraico:

הַנְּפִלִים הָיוּ בָאָרֶץ בַּיָּמִים הָהֵם וְגַם אַחֲרֵי־כֵן אֲשֶׁר יָבֹאוּ בְּנֵי הָאֱלֹהִים אֶל־בְּנוֹת הָאָדָם וְיָלְדוּ לָהֶם הֵמָּה הַגִּבֹּרִים אֲשֶׁר מֵעוֹלָם אַנְשֵׁי הַשֵּׁם׃

Transliteração:

hannefilim haiú va'árets baiyamim hahem vegam acharê-khen asher yavô'u benê ha'Elohim el-benôt ha'adam veyaldú lahem hêmmah haggibborim asher me'olám anshê hashêm.

Análise palavra por palavra:

hannefilim (הַנְּפִלִים) — 'os Nefilins': a palavra-enigma. A origem mais aceita a liga à raiz nafal, 'cair'. Daí 'os caídos' ou 'os que fazem cair', os que derrubam. A tradução grega verteu por 'gigantes', e daí vem a imagem de estatura enorme — mas o hebraico, em si, não diz 'os grandes'. A palavra só reaparece em Números 13:33.

haiú va'árets baiyamim hahem (הָיוּ בָאָרֶץ בַּיָּמִים הָהֵם) — 'estavam na terra naqueles dias': repare no verbo. O texto diz que os Nefilins estavam na terra 'naqueles dias' — não diz que nasceram das uniões. Isso é decisivo: a gramática não afirma que os Nefilins eram os filhos dos 'filhos de Deus', embora muitos o deduzam.

vegam acharê-khen (וְגַם אַחֲרֵי־כֵן) — 'e também depois': a expressão que alimenta o enigma. Os Nefilins estavam ali 'naqueles dias' e 'também depois'. É essa frase que permite ligar os Nefilins de antes do dilúvio aos 'gigantes' de Canaã, séculos mais tarde — mas ela é breve e não explica como isso se deu.

asher yavô'u... veyaldú lahem (אֲשֶׁר יָבֹאוּ... וְיָלְדוּ לָהֶם) — 'quando entravam... e lhes geravam': aqui, sim, o texto fala das uniões e da descendência. 'Entrar a' é, no hebraico, expressão para a união sexual. Dessas uniões nasceram filhos — mas note que o texto chama de 'valentes' esses filhos, sem os identificar diretamente com os Nefilins do início do versículo.

haggibborim (הַגִּבֹּרִים) — 'os valentes', 'os poderosos': de gibbor, herói, guerreiro forte. É a mesma palavra usada depois para descrever Ninrode, o 'poderoso caçador', e os grandes guerreiros de Davi. Designa homens de força e proeza militar — os heróis, no sentido guerreiro do termo.

asher me'olám (אֲשֶׁר מֵעוֹלָם) — 'que desde a antiguidade': olam aqui tem o sentido de tempo remoto, 'os antigos'. São os heróis do passado distante, as figuras lendárias de que as gerações se lembravam.

anshê hashêm (אַנְשֵׁי הַשֵּׁם) — 'homens do nome', 'homens de renome': shem é 'nome'. Eram os que tinham 'feito um nome' para si, os famosos. A expressão ecoa, poucos capítulos adiante, o 'façamos um nome para nós' de Babel — sinal de que, em Gênesis, o nome que o homem constrói para a própria glória costuma anunciar o orgulho que precede o juízo.

Nota teológica e textual:

A honestidade com o hebraico revela que Gênesis 6:4 diz menos do que a tradição popular afirma. O texto não declara, de forma inequívoca, que os Nefilins eram a descendência das uniões entre os 'filhos de Deus' e as mulheres; ele diz que os Nefilins 'estavam' na terra naqueles dias, e que das uniões nasceram 'valentes'. A ligação entre uma coisa e outra é deixada em aberto pela sintaxe — é uma dedução razoável, mas dedução. Sobre a própria palavra nefilim, a origem é discutida e o sentido de 'gigantes' vem sobretudo da tradução grega e do relato de Números 13, não de um significado direto do hebraico. E o enigma dos Nefilins em Canaã, depois do dilúvio, permanece sem solução definitiva: os espiões podem ter exagerado num relato de medo, a palavra pode ter virado termo genérico para povos altos, ou o 'e também depois' pode insinuar uma repetição do fenômeno. Diante de tudo isso, a postura responsável é a mesma de todo o capítulo: apresentar as leituras, marcar o grau de certeza e não transformar o mistério em espetáculo.

11. Conclusão

Gênesis 6:4 é o versículo dos gigantes, e por isso mesmo o que mais exige sobriedade. Sob a camada de fascínio — Nefilins, valentes, homens de renome — há um texto cuidadoso, que diz menos do que a fama sugere e deixa vários pontos em aberto. Os Nefilins 'estavam' na terra; das uniões nasceram 'valentes'; a ligação exata entre uns e outros o texto não fecha. A honestidade com o hebraico nos ensina a distinguir o que a Bíblia afirma do que nós deduzimos, e a resistir à tentação de preencher os silêncios com certezas inventadas.

O coração do versículo, porém, é claro e cortante. Ele mostra um mundo de heróis, de grandeza e de nomes famosos — e o coloca na cena que antecede a destruição. É a crítica bíblica à glória humana desligada de Deus: aquilo que uma civilização mais admira pode ser exatamente o brilho enganoso de algo que já apodrece. O mundo antes do dilúvio não era um mundo de fracos; era um mundo de gigantes e valentes. E foi lavado pelas águas. A força, a fama e o nome não protegeram ninguém.

Fica, por fim, o contraste que atravessa toda a Bíblia. Os 'homens de renome' fizeram um nome para si e desapareceram no dilúvio; logo adiante, os construtores de Babel tentarão o mesmo e serão dispersos. Mas a Abraão Deus dirá: 'engrandecerei o teu nome.' Entre arrancar a própria grandeza e receber um nome das mãos de Deus está uma das escolhas mais decisivas da vida humana. Os gigantes fascinam, mas passam. O verdadeiro drama, o narrador logo dirá, nunca esteve na estatura dos heróis, e sim no coração de cada homem — e é ali, no coração comum, que a história de fato se decide.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Gênesis 6:4

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia1.039 / 31.102 3,34%
Antigo Testamento548 / 23.145 2,37%
Novo Testamento491 / 7.957 6,17%