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Gênesis 7:14

✍️ Por Alberto Adriano·30 de junho de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 31 acessos
eles e todos os animais selvagens segundo as suas espécies, todos os animais domésticos segundo as suas espécies, todo réptil que rasteja sobre a terra segundo as suas espécies, e toda ave segundo as suas espécies, todo pássaro, tudo o que tem asas.
A grande procissao de animais - feras, gado, repteis e aves - subindo a rampa e entrando na arca de Noe, sob o ceu escurecido do inicio do diluvio.

Estudo


Eles e todos os animais silvestres segundo suas espécies, e todos os animais mansos segundo suas espécies, e todo réptil que anda arrastando sobre a terra segundo sua espécie, e toda ave segundo sua espécie, todo pássaro, toda espécie de animal voador.

1. Introdução

Depois de anunciar que a chuva comecou e que a porta da arca se abriu, o relato faz algo curioso: ele para e passa a listar. Como uma camera que se demora sobre cada grupo que sobe a rampa, o texto enumera os tipos de animais que entram na arca - os silvestres, os mansos, os que rastejam, as aves, tudo o que voa. Nao e pressa; e um inventario. O autor quer que o leitor veja, um a um, os grandes grupos da vida animal atravessando aquela porta. E essa lentidao proposital ja diz muito: o ponto do versiculo nao e a acao, e a abrangencia.

Quem leu o primeiro capitulo de Genesis reconhece de imediato o eco. A mesma divisao em grandes categorias - feras da terra, animais domesticos, repteis, aves - e a mesma expressao repetida como um refrao, 'segundo a sua especie', vem direto do relato da criacao. O que o versiculo esta dizendo, na estrutura, e que a arca carrega dentro de si uma amostra da criacao inteira. Quando o mundo la fora se desfaz nas aguas, aquele barco de madeira guarda, em miniatura, tudo o que Deus fizera nos dias em que a terra se encheu de vida.

Ha, portanto, duas leituras que caminham juntas aqui. Uma e concreta e ate biologica: a preservacao das especies, a garantia de que nenhum grande tipo de vida se perca no diluvio. A outra e teologica: a arca como um novo comeco guardado no meio do fim, um pedaco da criacao poupado para recomecar. O versiculo, com sua lista aparentemente seca, e na verdade uma das paginas mais esperancosas do relato do diluvio - porque, enquanto tudo morre, ele mostra o que vai viver.

2. Contexto Histórico e Cultural

A primeira coisa a entender e a palavra que se repete no versiculo: 'especie', em hebraico min. Ela aparece coladinha a cada grupo - a fera segundo a sua especie, o gado segundo a sua especie, o reptil segundo a sua especie, a ave segundo a sua especie. E exatamente o mesmo termo e o mesmo padrao do primeiro capitulo de Genesis, quando Deus faz a terra produzir seres vivos 'segundo as suas especies'. O autor esta amarrando de proposito o diluvio a criacao: a arca preserva a mesma ordem de vida que Deus estabelecera no principio. E honesto dizer, porem, que min nao e o nosso conceito cientifico de especie, com sua definicao precisa de reproducao e genetica. E uma classificacao popular e ampla, do jeito que um pastor antigo agrupava os animais a olho: os que voam, os que rastejam, os do curral, os do mato. Ler ali um tratado de biologia moderna e pedir ao texto o que ele nao quis dar.

A propria forma da lista reflete o modo antigo de organizar o mundo. O israelita nao pensava em reino, filo e classe; pensava em grandes familias visiveis: o animal selvagem (chayah), o animal domestico (behemah), o que se arrasta pelo chao (remes) e o que tem asas (oph). Sao as mesmas divisoes das leis alimentares que viriam depois, no livro de Levitico, e as mesmas do relato da criacao. Para o leitor original, ouvir essa lista era ouvir o mundo inteiro sendo nomeado e recolhido - nada de fora, nada esquecido. A abrangencia era o recado.

Vale tocar, com naturalidade, num ponto que ja apareceu antes neste capitulo e que a erudicao discute ha muito tempo. Poucos versiculos atras, em 7:2, a ordem fora recolher os animais limpos de 'sete em sete' pares e os impuros aos pares; aqui, e no versiculo seguinte, a linguagem e simplesmente a de animais entrando 'de dois em dois', sem distincao entre limpos e impuros. Os estudiosos explicam essa alternancia como o entrelacamento de duas maneiras antigas de contar a mesma historia - uma mais interessada na distincao entre limpo e impuro e nos sacrificios, outra organizada pelas grandes categorias da criacao e pelo numero redondo do par. Isso ja foi discutido nos versiculos anteriores; aqui basta reconhecer, sem susto, que o texto final costurou as duas vozes. Nao e um erro a esconder, e a propria maneira como a Biblia guardou a memoria do diluvio.

Por fim, o cenario cultural do 'par'. No mundo antigo, o macho e a femea de cada especie eram a garantia obvia de continuidade: sem os dois, a linhagem morre. Ao insistir que cada tipo de animal entra representado, o texto fala a uma cultura que sabia, por experiencia direta de pastoreio e lavoura, que a vida se perpetua pela reproducao. A arca nao e so um abrigo; e um deposito de futuro. Cada casal que sobe a rampa e uma promessa de que, passado o juizo, o mundo tornara a se encher.

3. Análise Teológica do Versículo

“eles e todo animal silvestre segundo a sua especie”

Esta expressao realca a totalidade da ordem que Deus dera a Noe para preservar a vida. Os 'animais silvestres' sao as criaturas nao domesticadas, e a mencao delas destaca a diversidade da criacao de Deus. Isso espelha o relato da criacao em Genesis 1, onde Deus faz varias especies de animais. A preservacao desses animais indica a intencao de Deus de manter o equilibrio do mundo depois do diluvio. Reflete tambem o mandato de dominio dado a humanidade em Genesis 1:28, em que os seres humanos devem cuidar de todas as criaturas vivas.

“os animais mansos”

A mencao dos animais mansos, ou domesticos, aponta para as criaturas essenciais a sobrevivencia humana, que forneciam alimento, vestuario e trabalho. Nas culturas do antigo Oriente Proximo, o rebanho era sinal de riqueza e sustento. A inclusao desses animais na arca ressalta a continuidade da civilizacao humana e a importancia deles na vida depois do diluvio. Isso tambem prefigura o sistema de sacrificios que seria estabelecido mais tarde, no qual os animais domesticos tinham papel central na adoracao e na expiacao.

“todo reptil que anda arrastando sobre a terra”

Os repteis, ou criaturas que rastejam, abrangem uma ampla variedade de pequenos animais, incluindo reptes e insetos. Essas criaturas, muitas vezes ignoradas, sao vitais para o equilibrio da natureza, contribuindo em processos como a polinizacao e a decomposicao. A inclusao delas no relato da arca destaca o cuidado abrangente de Deus por todos os aspectos da criacao, por menos importantes que parecam. Isso reflete o tema biblico de que Deus valoriza toda vida, como se ve em Mateus 10:29-31, onde ate os pardais tem valor aos olhos de Deus.

“toda ave”

As aves sao muitas vezes simbolicas na Escritura, representando a liberdade e o espirito. A presenca delas no relato da arca e significativa, pois as aves estao entre as primeiras criaturas que Noe solta para avaliar a condicao da terra depois do diluvio (Genesis 8:7-12). Esse ato de soltar aves pode ser visto como figura do Espirito Santo, que sonda e revela a verdade. As aves tambem desempenham papel em varias aliancas e promessas biblicas, como a pomba na historia do batismo de Jesus (Mateus 3:16).

“toda especie de animal voador”

O termo 'animal voador' amplia a categoria para alem das aves, incluindo todos os seres que voam, e realca a diversidade e a totalidade da criacao de Deus. Essa expressao reforca a ideia de que cada aspecto da criacao esta sob o cuidado e a protecao soberana de Deus. A inclusao das criaturas aladas no relato da arca pode ser vista como um antegozo da visao de uma nova criacao, em que todas as criaturas vivem em harmonia, como se descreve em Isaias 11:6-9. Isso tambem aponta para a esperanca final de restauracao e paz nos novos ceus e na nova terra.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Noe — O homem justo escolhido por Deus para construir a arca e preservar a vida durante o diluvio. E a ele que os animais vem, e sob sua guarda que a criacao e recolhida.

A arca — A grande embarcacao construida por Noe segundo as instrucoes de Deus, para salvar a sua familia e casais de cada especie de animal. Neste versiculo, ela se revela um abrigo da vida inteira, uma amostra da criacao guardada das aguas.

O diluvio — O juizo divino enviado por Deus para limpar a terra da maldade generalizada. E o pano de fundo diante do qual a preservacao dos animais ganha peso: enquanto tudo morre, a arca guarda o que vai viver.

Os animais — As varias especies de feras, animais mansos, repteis e aves recolhidas na arca para garantir a continuidade da vida depois do diluvio. Representam a criacao inteira, do maior ao menor, nada esquecido.

Deus — O Criador que orquestra os acontecimentos do diluvio como meio de juizo e de renovacao. E o mesmo que, no principio, fizera cada animal 'segundo a sua especie', e que agora zela para que nenhuma especie se perca.

5. Pontos de Ensino

A soberania e a ordem de Deus — Deus organiza com cuidado a preservacao da vida, demonstrando o seu dominio e o seu zelo sobre a criacao. Nada fica ao acaso; cada tipo de vida tem lugar garantido.

Fe e obediencia — As acoes de Noe mostram a importancia de confiar em Deus e obedecer-lhe, mesmo quando as ordens parecem enormes ou sem precedente.

Juizo e misericordia — O diluvio lembra o juizo de Deus contra o pecado, mas a arca cheia de vida mostra, ao mesmo tempo, a sua misericordia em prover um meio de salvacao.

O cuidado com a criacao — A preservacao das especies ressalta a responsabilidade humana de cuidar e zelar da criacao de Deus, tarefa confiada ao homem desde o principio.

Prontidao para a vinda de Cristo — Assim como Noe se preparou para o diluvio, os que creem sao chamados a viver prontos para a volta de Cristo.

6. Aspectos Filosóficos

Ha uma ternura escondida na parte mais arida deste versiculo. O texto se da ao trabalho de mencionar tambem 'todo reptil que anda arrastando sobre a terra' - as criaturas pequenas, sem beleza aparente, que ninguem colocaria numa lista de coisas dignas de salvar. E, no entanto, elas estao la, com o mesmo direito de atravessar a porta que os grandes animais. Isso diz algo sobre o olhar de Deus: ele nao mede o valor da vida pela utilidade ou pela grandeza. O inseto que rasteja e a fera imponente sobem a mesma rampa. Numa cultura - a nossa - que hierarquiza tudo, o versiculo lembra que a criacao inteira importa ao Criador, inclusive aquilo que o homem despreza ou nem enxerga.

A insistencia na palavra 'especie' tem um peso teologico que vale desenterrar. Ao repetir o refrao da criacao, o autor esta dizendo que o diluvio nao apaga a ordem que Deus estabelecera; apenas a poe a salvo. O mundo tem uma estrutura, tipos de vida distintos, uma variedade querida por Deus - e essa variedade e digna de ser preservada. Ha aqui uma dignidade da diversidade da vida que a fe reconhece muito antes de qualquer discurso ecologico moderno. A arca e, nesse sentido, o primeiro gesto de conservacao da natureza da historia: guardar cada tipo para que nenhum se perca.

Convem ser honesto com o alcance do texto. Ele nao pretende responder as perguntas que um leitor moderno traz - como caberiam tantas especies num so barco, como se alimentariam, como chegariam ali de continentes distantes. Essas questoes surgem quando se le a lista como um relatorio de logistica, e nao era essa a intencao do autor. O que a lista quer transmitir e teologico e emocional: a totalidade, a certeza de que nada essencial se perdeu, a imagem consoladora de um mundo inteiro salvo dentro de uma casca de madeira. Forcar o versiculo a resolver problemas de engenharia e trocar o ouro que ele oferece por uma discussao que ele nunca abriu.

Por fim, ha o detalhe das duas maneiras de contar - os pares e os sete pares dos limpos - entrelacadas no mesmo relato. Longe de ser um constrangimento, isso ensina algo sobre como a Biblia foi formada e como devemos le-la. O texto sagrado nao caiu pronto do ceu; foi guardado, transmitido e costurado por maos humanas ao longo de geracoes, que preservaram mais de uma voz da mesma memoria. Reconhecer isso com serenidade nao enfraquece a mensagem - torna a leitura mais verdadeira. Deus fala atraves de um texto real, com historia real, e continua dizendo, por entre as costuras, a mesma coisa: nenhuma vida foi esquecida.

7. Aplicações Práticas

Enxergue valor no que o mundo despreza — Se Deus fez questao de guardar ate os pequenos repteis, nenhuma vida e insignificante aos seus olhos. Isso muda o modo como voce olha as pessoas que a sociedade descarta, as tarefas sem brilho, as criaturas ignoradas. O Criador nao mede valor por tamanho ou utilidade - e voce tambem nao deveria medir.

Cuide da criacao como quem foi encarregado dela — A arca foi o primeiro grande gesto de preservacao da vida na Biblia. Zelar pela natureza, evitar o desperdicio, respeitar os animais e a terra nao e modismo: e continuar uma tarefa que Deus confiou ao homem desde o principio e reafirmou no diluvio.

Confie que Deus preserva o que importa — Quando tudo em volta parece se desfazer, lembre-se de que Deus sabe guardar o essencial em meio ao fim. Ele nao salvou tudo do diluvio, mas nao perdeu nada que precisasse continuar. Na sua vida, ele conhece o que deve ser preservado e o tem em suas maos.

Nao peca ao texto o que ele nao promete — Em vez de gastar a fe tentando explicar a logistica da arca, ouca o que o versiculo de fato diz: nenhuma vida foi esquecida, e a criacao tem futuro depois do juizo. A fe amadurece quando para de brigar com perguntas fora de lugar e escuta a mensagem que o texto quis dar.

Valorize a diversidade como dom de Deus — A variedade de criaturas nao e acidente, e riqueza querida pelo Criador. Aprenda a ver na diferenca - de dons, de pessoas, de formas de vida - um reflexo do Deus que ama a multiplicidade e faz questao de preserva-la.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Qual e o significado de Genesis 7:14?

O versiculo lista, grupo por grupo, os tipos de animais que entram na arca: os silvestres, os mansos, os que rastejam, as aves, tudo o que voa. A repeticao 'segundo a sua especie' ecoa o relato da criacao e mostra que a arca preserva uma amostra do mundo inteiro. O ponto nao e a acao, e a abrangencia: nenhuma grande forma de vida fica de fora.

2. Como Genesis 7:14 mostra o cuidado de Deus por toda a criacao?

Pela propria minucia da lista. O texto poderia dizer apenas 'e os animais entraram', mas se demora a nomear cada categoria, ate os repteis que ninguem valorizava. Isso revela um Deus que se importa com a criacao inteira, do maior ao menor, e que faz questao de que nada essencial se perca no juizo.

3. Por que o versiculo repete a expressao 'segundo a sua especie'?

Porque e o mesmo refrao do primeiro capitulo de Genesis, quando Deus faz cada ser vivo 'segundo a sua especie'. Ao repeti-lo, o autor amarra o diluvio a criacao: a arca preserva a mesma ordem de vida que Deus estabelecera no principio. E preciso lembrar que 'especie' aqui e uma classificacao popular e ampla, nao o conceito cientifico moderno.

4. A lista de animais de 7:14 combina com a ordem de 'sete pares' dada em 7:2?

Aqui a linguagem e a de animais entrando aos pares, sem distinguir limpos e impuros, enquanto 7:2 falara em sete pares dos limpos. Os estudiosos explicam essa alternancia como o entrelacamento de duas tradicoes antigas da mesma historia, ja comentado nos versiculos anteriores. Nao e uma contradicao a esconder, e a costura de vozes que o proprio texto biblico preservou. A mensagem permanece intacta: toda especie foi guardada.

5. O que significa a arca preservar 'toda especie de animal voador'?

Significa totalidade. O texto amplia a categoria das aves para abarcar tudo o que voa, deixando claro que nenhum canto da criacao ficou de fora. E uma imagem de plenitude: o mundo inteiro, do que rasteja ao que voa, guardado dentro da arca. Muitos leem nisso um antegozo da nova criacao, em que toda vida vive em paz.

6. Como caberiam tantos animais na arca?

Essa e uma pergunta moderna, que nasce quando se le a lista como um relatorio de engenharia. O autor antigo nao estava respondendo a isso; o objetivo dele era teologico - transmitir a abrangencia da preservacao, a certeza de que nada essencial se perdeu. Ler o versiculo como um problema de logistica e trocar a mensagem que ele oferece por um debate que ele nunca abriu.

7. Que licao 7:14 traz para a vida hoje?

A de que Deus valoriza toda vida e sabe preservar o que importa em meio ao caos. Isso alimenta o respeito pela criacao, o cuidado com os fracos e ignorados, e a confianca de que, quando tudo parece se desfazer, o Criador guarda o essencial. A arca cheia de vida e, no meio do juizo, uma das paginas mais esperancosas do relato.

9. Conexão com Outros Textos

“E disse Deus: Produza a terra seres viventes segundo a sua espécie, animais e serpentes e animais da terra segundo sua espécie: e foi assim. E fez Deus animais da terra segundo a sua espécie, e gado segundo a sua espécie, e todo animal que anda arrastando sobre a terra segundo sua espécie: e viu Deus que era bom.” (Genesis 1:24-25)

O relato da criacao, com o mesmo refrao 'segundo a sua especie' e as mesmas categorias - feras, animais domesticos, repteis. A lista da arca em 7:14 e um eco proposital deste texto: a criacao guardada da destruicao.

“E de tudo o que vive, de toda carne, dois de cada espécie porás na arca, para que tenham vida contigo; macho e fêmea serão. Das aves segundo sua espécie, e dos animais segundo sua espécie, de todo réptil da terra segundo sua espécie, dois de cada espécie entrarão contigo para que tenham vida.” (Genesis 6:19-20)

A ordem previa que este versiculo cumpre: recolher de toda especie de ser vivo, aves, animais e repteis, para conservar a vida. O que fora mandado, agora acontece diante dos olhos do leitor.

“E disse Deus: Produzam as águas répteis de alma vivente, e aves que voem sobre a terra, na expansão aberta dos céus. E criou Deus as grandes criaturas marinhas, e toda coisa viva que anda arrastando, que as águas produziram segundo a sua espécie, e toda ave de asas segundo sua espécie: e viu Deus que era bom. E Deus os abençoou dizendo: Frutificai e multiplicai, e enchei as águas nos mares, e as aves se multipliquem na terra.” (Genesis 1:20-22)

A criacao das aves e dos seres que enchem o ar e as aguas. As mesmas criaturas aladas que Deus abencoara para se multiplicar sao agora poupadas na arca, para de novo encherem a terra.

“Como são muitas as suas obras, SENHOR! Tu fizeste todas com sabedoria; a terra está cheia de teus bens. Este grande e vasto mar, nele há inúmeros seres, animais pequenos e grandes.” (Salmo 104:24-25)

O poema que celebra a variedade imensa das criaturas de Deus - 'a terra esta cheia das tuas riquezas'. A lista da arca preserva justamente essa diversidade querida pelo Criador.

“Não se vendem dois pardais por uma pequena moeda? Mas nem um deles cairá em terra contra a vontade de vosso Pai.” (Mateus 10:29)

Jesus lembra que nem um pardal cai por terra sem o Pai. O mesmo cuidado divino que, em 7:14, se demora a incluir ate os pequenos repteis e aves na arca.

“Em que havia de todos os animais quadrúpedes da terra, e animais selvagens, e répteis, e aves do céu.” (Atos 10:12)

Na visao de Pedro, um lencol descido do ceu contem 'todos os quadrupedes, repteis e aves' - as mesmas categorias de Genesis. Deus declara limpo o que criara, retomando a linguagem da criacao e do diluvio.

“E o lobo morará com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito; e o bezerro, o filhote de leão, e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa se alimentarão juntas, seus filhos juntos se deitarão; e o leão comerá palha como o boi.” (Isaias 11:6-7)

A visao da nova criacao, em que as feras e os animais mansos convivem em paz. A arca, que aqui guarda todas as especies juntas, aponta de longe para esse mundo restaurado e reconciliado.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em portugues:

eles e todos os animais selvagens segundo as suas espécies, todos os animais domésticos segundo as suas espécies, todo réptil que rasteja sobre a terra segundo as suas espécies, e toda ave segundo as suas espécies, todo pássaro, tudo o que tem asas.

Texto hebraico:

הֵמָּה וְכָל־הַחַיָּה לְמִינָהּ וְכָל־הַבְּהֵמָה לְמִינָהּ וְכָל־הָרֶמֶשׂ הָרֹמֵשׂ עַל־הָאָרֶץ לְמִינֵהוּ וְכָל־הָעוֹף לְמִינֵהוּ כֹּל צִפּוֹר כָּל־כָּנָף׃

Transliteracao:

hemmah vechol-hachayah leminah, vechol-habehemah leminah, vechol-haremes haromes al-ha'arets leminehu, vechol-ha'oph leminehu, kol tsippor kol-kanaf.

Analise palavra por palavra:

chayah (חַיָּה) - animal silvestre, fera: literalmente 'o vivente', o animal selvagem do campo, nao domesticado. E a mesma palavra ligada a 'vida' (chai); a criatura selvagem e chamada, com simplicidade, de 'a viva'.

behemah (בְּהֵמָה) - animal manso, gado: o animal domestico, do curral e do rebanho, aquele que serve ao homem para trabalho, alimento e sacrificio. A distincao entre a fera e o gado organiza toda a vida animal do mundo antigo.

remes (רֶמֶשׂ) - reptil, o que rasteja: de ramas, mover-se rente ao chao. Abrange os pequenos animais que se arrastam - repteis, insetos, tudo o que anda colado a terra. E a categoria mais humilde da lista, e nem por isso deixada de fora.

oph (עוֹף) - ave, o que voa: tudo o que se move pelo ar. O versiculo ainda acrescenta tsippor (צִפּוֹר), o passaro, e kanaf (כָּנָף), a asa - 'toda asa' -, como quem quer esgotar por completo o mundo do que voa.

leminah / leminehu (לְמִינָהּ / לְמִינֵהוּ) - 'segundo a sua especie': o refrao que se repete. Min e a palavra-chave, a mesma do primeiro capitulo de Genesis. A repeticao amarra o diluvio a criacao e diz, sem falar alto, que a arca preserva a ordem inteira da vida.

Nota teologica e textual:

Duas observacoes honestas. A primeira: a palavra min, 'especie', nao carrega o sentido tecnico que a biologia moderna da ao termo. E uma classificacao popular e ampla, a olho, do jeito que um povo de pastores agrupava os animais - por isso e um equivoco usar este versiculo como argumento cientifico num ou noutro sentido. A segunda: a linguagem de animais entrando genericamente, sem separar limpos e impuros, pertence a mesma tradicao que fala do 'par' (vista tambem em 7:15-16), enquanto 7:2 falava de sete pares dos limpos. Os estudiosos veem ai o entrelacamento de duas vozes antigas, ja comentado. Reconhecer a costura nao apaga o refrao que atravessa tudo: leminah, segundo a sua especie - a criacao inteira, guardada.

11. Conclusão

Genesis 7:14 parece, a primeira vista, apenas uma lista. Mas e uma lista que carrega uma das imagens mais consoladoras de toda a Escritura: enquanto o mundo se afoga, uma arca de madeira guarda dentro de si a criacao inteira. Feras e gado, repteis e aves, o grande e o minusculo - tudo atravessa a mesma porta. O refrao 'segundo a sua especie', repetido do relato da criacao, diz que Deus nao esta apagando o seu mundo, e sim poupando-o das aguas para recomeca-lo.

Ha uma teologia inteira nessa minucia. Um Deus que se importa em salvar tambem o reptil que rasteja e um Deus que nao mede o valor da vida pela grandeza ou pela utilidade. A arca ensina, muito antes de qualquer discurso ecologico, que a diversidade da criacao e digna de ser preservada, e que o cuidado com a vida - toda ela - faz parte do coracao de Deus. Diante desse texto, o desprezo pelo pequeno, pelo fraco, pelo ignorado, aparece como aquilo que e: estranho ao olhar do Criador.

E ha, no fundo, uma palavra de esperanca para quem le. O mesmo Deus que soube guardar o essencial no meio do fim continua sabendo. Ele nem sempre preserva tudo - o diluvio nao poupou o mundo -, mas nunca perde o que precisa continuar. Quando a sua vida parecer se desfazer nas aguas, lembre-se da arca cheia de vida: no meio do juizo, Deus ja tem em maos o que vai recomecar. Nenhuma especie foi esquecida ali. Nenhuma vida que ele quer guardar se perde nas suas maos.

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