Eis que aquela cidade está perto o bastante para eu fugir para lá, e é pequena. Deixa-me fugir para ali — não é ela pequena? — e a minha alma viverá.”
1. Introdução
Finalmente vem o pedido. Ló quer uma cidade específica — perto, e pequena.
E o argumento dele é exatamente esse: que ela é pequena.
Ele repete a palavra duas vezes na mesma frase, e a segunda vez em forma de pergunta. Dessa palavra sairá o nome do lugar.
2. Contexto Histórico e Cultural
"Aquela cidade está perto"
Ló aponta. Ele sabe qual quer, e a proximidade é o primeiro argumento.
"E é pequena"
O segundo argumento. Ló pede que a cidade seja poupada por ser insignificante.
"Não é ela pequena?"
A mesma palavra, repetida em pergunta retórica. Ló insiste no ponto.
A palavra e o nome
É desse termo que sai o nome Zoar, como o versículo 22 dirá.
"E a minha alma viverá"
O mesmo verbo do versículo 19, e o mesmo que as filhas usarão no versículo 32.
O contraste que fica
Abraão negociou pela justiça. Ló negocia pelo tamanho.
3. Análise Teológica do Versículo
"Eis que aquela cidade está perto o bastante para eu fugir para lá"
Convém começar pela precisão do pedido, porque ela contrasta com tudo o que veio antes.
Nos versículos 18 e 19, Ló recusou e argumentou de modo geral: não posso, o mal me alcança, eu morro.
Aqui ele aponta. Não pede um lugar qualquer mais fácil: pede aquela cidade.
Vale reter o que isso implica. Ló sabe exatamente o que quer, e sabia antes de começar a falar. A alegação de incapacidade dos versículos anteriores desemboca num requerimento que já estava pronto.
Convém não converter isso em acusação. Quem foge conhece o próprio terreno, e alguém que morava naquela planície saberia quais eram as cidades ao alcance. Não há nada de suspeito em pedir o que se conhece.
Mas o texto registra a especificidade, e ela é notável depois de duas frases de generalidade.
Note-se também o dado geográfico implícito. O capítulo 14 já mencionara cinco cidades daquela região — Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Belá, "que é Zoar". Ou seja: a cidade que Ló pede não é uma descoberta do momento. Ela já foi nomeada, e já foi identificada com o nome que este capítulo vai explicar.
"e é pequena"
Aqui está o argumento, e ele merece ser examinado com cuidado, porque é o que o capítulo tem de mais estranho.
Ló pede que a cidade seja poupada — e a razão que apresenta é o tamanho dela.
Não diz que há justos ali. Não diz que a cidade é inocente. Não menciona os habitantes.
Diz que é pequena.
Convém apresentar as leituras possíveis, porque o texto não explicita a lógica.
Uma: é argumento de custo. Poupar uma cidade pequena custa pouco a quem destrói; a concessão pedida é mínima. Ló está minimizando o pedido para facilitar o sim.
Outra: é argumento de distância. Uma cidade pequena está mais perto do nada, e portanto o pedido de Ló é quase o de não pedir cidade nenhuma — apenas um lugar onde parar.
Outra ainda: não é argumento sobre a cidade, e sim sobre ele. Ló não está defendendo Zoar; está explicando por que consegue chegar até lá. A cidade é pequena e está perto — as duas coisas descrevem a viabilidade da fuga, não o mérito do lugar.
Registro as três. A terceira é a que melhor se encaixa no contexto imediato, porque o versículo 19 tratava justamente da capacidade de chegar.
Mas a formulação do versículo 21 vai contra ela. Ali a resposta será: "não destruirei a cidade de que você falou". Ou seja: o interlocutor entendeu o pedido como sendo sobre a cidade, e não apenas sobre a rota de Ló.
"Deixa-me fugir para ali — não é ela pequena?"
Convém observar a repetição, porque ela é deliberada e é o mecanismo do versículo.
Ló já disse que a cidade é pequena. Agora diz de novo, em forma de pergunta retórica.
Duas ocorrências da mesma palavra numa única fala curta.
Vale reter o efeito. A pergunta retórica não acrescenta informação: ela pede assentimento. Ló não está informando o tamanho da cidade a quem já sabe — está pedindo que o interlocutor concorde com a irrelevância dela.
E vale reter o que a repetição prepara. O versículo 22 dirá: "por isso a cidade recebeu o nome de Zoar". O nome do lugar vem dessa palavra, repetida aqui duas vezes.
O texto está montando uma etimologia — e a monta pelo procedimento corrente da narrativa hebraica, que é fazer o nome brotar de uma fala dentro da cena.
Convém marcar o limite dessa observação. Essas explicações de nome, na Bíblia, são recurso literário, não análise linguística. O nome existia antes da história; a narrativa o reaproveita, ligando-o a uma palavra parecida dita no momento certo.
Aqui isso é especialmente visível, porque o capítulo 14 já chamara aquela cidade de Zoar, muito antes desta cena.
"e a minha alma viverá"
Este é o fecho, e convém segui-lo com atenção, porque o verbo atravessa o capítulo inteiro.
A construção é a do verbo viver, e o termo traduzido por alma designa a vida da pessoa, o ser vivente — não a alma no sentido grego, separável do corpo.
O que Ló pede, literalmente, é continuar vivo.
Vale rastrear o verbo, porque as três ocorrências no capítulo formam uma linha desconfortável.
No versículo 19, Ló agradeceu ao interlocutor por "conservar a minha vida" — a forma causativa do mesmo verbo.
Aqui, ele pede que a sua vida continue.
E no versículo 32, no fim do capítulo, as filhas dirão: "para que conservemos a descendência de nosso pai" — outra vez a forma causativa, aplicada a ele.
Três ocorrências, todas girando em torno da preservação da vida de Ló, e a última num contexto que o próprio texto narra sem comentar.
Registro a cadeia como dado do vocabulário. Não é possível decidir se o narrador a construiu de propósito — a repetição de raiz é traço corrente da prosa hebraica, e o verbo é comum.
Mas ela existe, e quem lê o capítulo inteiro a percebe.
O contraste com o capítulo anterior
Convém fechar aqui, porque este é o ponto em que as duas negociações se separam de vez.
Em 18:23-33, Abraão também pediu que uma cidade fosse poupada. E o argumento dele foi: "longe de ti que faças tal coisa, matar o justo com o ímpio... não fará justiça o Juiz de toda a terra?"
Abraão argumentou pela justiça. Perguntou se seria correto destruir os inocentes junto com os culpados, e negociou o número deles.
Ló argumenta pelo tamanho. Não menciona justos, não pergunta o que é correto, não fala dos habitantes.
O narrador não estabelece a comparação. Põe as duas negociações no espaço de trinta versículos e não diz nada.
Registro como leitura do encadeamento, e registro o limite.
Abraão negociava de longe, sem risco, à sombra, sobre uma cidade que não era a dele. Ló negocia em fuga, ao amanhecer, com a família atrás, sobre o lugar em que vai conseguir parar.
São situações diferentes, e o texto não julga nenhuma das duas.
Mas vale notar o que as duas têm em comum, e é o mais surpreendente: as duas funcionam. Abraão obteve o que pediu — a promessa até dez. E Ló obterá o que pede, no versículo seguinte.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Ló — formula finalmente o pedido, e o funda no tamanho da cidade.
O interlocutor — tratado no singular, como nos versículos 18 e 19.
A cidade pequena — Belá, já chamada Zoar em 14:2 e 14:8; receberá esse nome, no relato, em 19:22.
O monte — o destino recusado, que Ló alcançará por conta própria em 19:30.
Abraão — ausente da cena, mas dono da outra negociação, feita por justiça e não por tamanho.
5. Pontos de Ensino
Ló aponta uma cidade específica. Depois de duas frases genéricas, o pedido é preciso.
A cidade já fora nomeada em 14:2. Belá, "que é Zoar" — antes desta cena.
O argumento é o tamanho. Não há menção a justos nem aos habitantes.
Três leituras cabem. Custo baixo, pedido mínimo, ou viabilidade da fuga.
O versículo 21 responde "a cidade de que você falou". O interlocutor entendeu o pedido como sendo sobre ela.
A palavra "pequena" aparece duas vezes. A segunda em pergunta retórica, que pede assentimento.
Dessa palavra sai o nome Zoar. Etimologia narrativa, não análise linguística.
O verbo "viver" atravessa o capítulo. Versículos 19, 20 e 32, sempre sobre a vida de Ló.
Abraão argumentou por justiça; Ló, por tamanho. E as duas negociações funcionam.
6. Aspectos Filosóficos
Um pedido com endereço
Cabe abrir pela precisão do requerimento, que destoa de tudo quanto o precedeu.
Nos versículos 18 e 19 a fala fora genérica — não posso, o mal me alcança, morro. Agora se aponta com o dedo: não se pleiteia um lugar qualquer mais acessível, pleiteia-se aquela povoação.
A implicação merece registro: Ló sabia o que queria antes de começar a falar, e a alegação de incapacidade desemboca num requerimento já formado.
Não convém transformar isso em imputação. Quem foge conhece o próprio terreno, e quem morava naquela várzea saberia quais povoados estavam ao alcance; nada há de suspeito em pedir o que se conhece. Ainda assim, o relato consigna a especificidade, notável depois de duas frases vagas.
Repare-se ainda no dado geográfico implícito. O capítulo 14 já arrolara cinco cidades daquela região — Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Belá, "que é Zoar". A povoação solicitada não é, portanto, achado do momento: já fora nomeada, e já fora identificada com o nome que este capítulo se dispõe a explicar.
Pedir clemência alegando insignificância
Chega-se ao argumento, e ele é o que o capítulo guarda de mais estranho.
Solicita-se que a cidade seja poupada, e a razão apresentada é a dimensão dela. Não se alega que haja justos ali; não se alega inocência; não se mencionam os moradores. Alega-se que é pequena.
Três lógicas possíveis disputam o sentido, e o texto não explicita nenhuma. Pode ser cálculo de custo — poupar coisa pequena custa pouco a quem destrói, e o suplicante minimiza o pedido para facilitar a anuência. Pode ser cálculo de proporção — uma povoação diminuta está próxima do nada, de sorte que o pedido quase equivale a não pedir cidade alguma, apenas um ponto onde parar. Ou pode não versar sobre a cidade, e sim sobre ele: pequena e próxima descrevem a exequibilidade da fuga, não o mérito do lugar.
Esta última se ajusta melhor ao contexto imediato, já que o versículo 19 tratava justamente de capacidade de chegar. Contra ela, porém, milita a resposta do versículo 21 — "não destruirei a cidade de que você falou" —, formulação que revela ter o interlocutor entendido o pedido como referente à cidade, e não apenas ao itinerário do suplicante.
Dizer duas vezes a palavra que virará nome
A repetição é deliberada e constitui o mecanismo do versículo. Dito uma vez que a povoação é pequena, repete-se a informação sob forma de pergunta retórica — duas ocorrências do mesmo vocábulo numa fala breve.
O efeito é claro: interrogação retórica não acrescenta dado, solicita concordância. Não se está informando o tamanho a quem já sabe, está-se pedindo que se concorde com a irrelevância do lugar.
E a repetição prepara o que vem: o versículo 22 registrará que a cidade recebeu o nome de Zoar, nome extraído justamente desse termo. O relato monta uma etimologia pelo procedimento habitual da narrativa hebraica — fazer o nome brotar de uma fala dentro da cena.
Convém demarcar o alcance: tais explicações de nome são, na Bíblia, recurso literário, e não análise linguística. O nome preexistia à história, que o reaproveita associando-o a um vocábulo semelhante pronunciado no momento oportuno. Aqui isso salta aos olhos, pois o capítulo 14 já chamara aquela cidade de Zoar muito antes desta cena.
O verbo que percorre o capítulo
Resta o fecho, e ele merece ser rastreado, porque a raiz reaparece em pontos decisivos.
A construção é a do verbo viver, e o termo vertido por alma designa a vida da pessoa, o ser vivente — não a alma no sentido grego, destacável do corpo. Literalmente, pede-se continuar vivo.
As três ocorrências formam uma linha incômoda. No versículo 19 agradeceu-se ao interlocutor por conservar a vida, na forma causativa; aqui pede-se que essa vida prossiga; e no versículo 32, ao fim do capítulo, as filhas dirão que pretendem conservar a descendência do pai — novamente o causativo, aplicado a ele.
Três empregos, todos gravitando em torno da preservação da vida do mesmo homem, o último num contexto que o relato narra sem comentar. Consigno a cadeia como dado de vocabulário, sem afirmar intenção: a repetição de raiz é corrente na prosa hebraica e o verbo é comum. Mas ela existe, e quem percorre o capítulo inteiro a percebe.
Duas negociações, dois fundamentos
Aqui as duas cenas se apartam de vez.
Em 18:23-33 também se pleiteou que uma cidade fosse poupada, e o fundamento foi outro: longe de ti fazer tal coisa, matar o justo com o ímpio — não fará justiça o Juiz de toda a terra? Argumentou-se por justiça, perguntando se seria correto destruir inocentes junto com culpados, e negociando o número deles.
Aqui se argumenta por dimensão. Não se mencionam justos, não se pergunta o que é correto, não se fala dos habitantes.
O narrador não confronta as cenas: dispõe-nas no espaço de trinta versículos e se cala. Registro o encadeamento com a ressalva devida — um negociava de longe, sem risco, à sombra, a respeito de cidade alheia; o outro negocia em fuga, ao raiar do dia, com a família às costas, a respeito do lugar onde conseguirá deter-se. As situações não se equivalem, e o texto não julga nenhuma delas.
O que ambas partilham, e é o mais surpreendente, é o desfecho: as duas prosperam. Obteve-se a promessa até dez; obter-se-á, no versículo seguinte, a cidade pedida.
7. Aplicações Práticas
O pedido vago vira preciso quando chega a hora
Nos dois versículos anteriores Ló falou em generalidades — não posso, o mal me alcança, morro. Aqui ele aponta uma cidade específica, que já conhecia.
Não há nada de suspeito nisso: quem foge conhece o próprio terreno. Mas o texto registra o contraste.
Vale notar o desenho, porque ele aparece em toda conversa difícil. Frequentemente a parte genérica de um pedido é preparação, e o requerimento real já estava formado antes de a primeira palavra ser dita. Reconhecer isso não é desconfiança — é ouvir a conversa inteira, e não só a frase final.
Pedir clemência alegando que a coisa é pequena
Ló não diz que há justos em Zoar, não diz que a cidade é inocente, não menciona os habitantes. Diz que é pequena.
Pode ser cálculo de custo, pode ser proporção, pode ser apenas a descrição de que a fuga é viável até ali. O texto não explicita.
Mas o argumento tem uma consequência que vale enxergar: fundar um pedido na insignificância do que se pede resolve o caso e não estabelece nada. Zoar não é poupada por merecer — é poupada por não valer a pena destruir. Quem é salvo assim continua sem ter recebido um juízo.
A pergunta retórica não informa, pede concordância
Ló diz que a cidade é pequena e repete a informação em forma de pergunta. Duas vezes a mesma palavra numa fala curta, e a segunda dirigida a quem já sabe.
Interrogação retórica não acrescenta dado: solicita assentimento.
É um recurso reconhecível e vale saber identificá-lo quando é usado com você. Quem pergunta o que ambos já sabem não está buscando informação — está buscando que você concorde em voz alta, porque o assentimento dito é mais difícil de retirar depois.
Argumentar por justiça e argumentar por tamanho
Trinta versículos antes, Abraão pediu que uma cidade fosse poupada perguntando se o Juiz de toda a terra faria justiça, e negociando o número de inocentes. Aqui o fundamento é a dimensão do lugar.
O narrador não compara: dispõe as duas cenas e cala.
Convém não converter isso em condenação, porque as circunstâncias diferem por inteiro — um negociava de longe, sem risco, sobre cidade alheia; o outro negocia em fuga, ao amanhecer, sobre onde conseguirá parar. Mas a diferença de fundamento é real, e vale para qualquer pedido: o que você invoca ao pedir define o que você recebe se disserem sim.
As duas negociações funcionam
É o dado mais surpreendente das duas cenas juntas. Abraão obteve a promessa até dez. Ló obterá a cidade no versículo seguinte.
Nem o argumento elevado nem o argumento pequeno foram recusados.
Isso desmonta uma expectativa comum, a de que só o pedido nobre é atendido. O texto não estabelece essa regra — e quem lê esperando encontrá-la acaba lendo o que não está escrito.
Um verbo que atravessa o capítulo até o fim
"Conservar a vida" aparece no versículo 19, "a minha alma viverá" aqui, e no versículo 32 as filhas dirão que pretendem conservar a descendência do pai. Três ocorrências da mesma raiz, todas girando em torno da preservação da vida do mesmo homem.
Não é possível decidir se o narrador construiu a cadeia de propósito.
Mas ela existe, e ensina algo sobre como se lê um capítulo: palavras que voltam costumam voltar carregadas do que ficou para trás, e a última ocorrência raramente significa o que a primeira significava.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Que cidade Ló está pedindo?
Uma povoação específica, que ele conhece. O capítulo 14 já arrolara cinco cidades daquela região — Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Belá, "que é Zoar" —, de modo que o lugar não é achado do momento: já fora nomeado, e já fora identificado com o nome que este capítulo se dispõe a explicar.
Por que o argumento é o tamanho da cidade?
O texto não explicita a lógica. Três leituras cabem: cálculo de custo, já que poupar coisa pequena custa pouco a quem destrói; cálculo de proporção, sendo o pedido quase equivalente a não pedir cidade alguma; ou descrição da viabilidade da fuga — pequena e próxima descreveriam o alcance, não o mérito do lugar.
Qual dessas leituras é a mais forte?
A terceira se ajusta melhor ao contexto imediato, porque o versículo 19 tratava justamente de capacidade de chegar. Contra ela milita a resposta do versículo 21 — "não destruirei a cidade de que você falou" —, que revela ter o interlocutor entendido o pedido como referente à cidade, e não apenas ao itinerário.
Ló menciona os habitantes de Zoar?
Não. Não alega que haja justos ali, não alega inocência, não fala dos moradores. Alega que é pequena.
Por que ele repete "é pequena"?
Porque a segunda ocorrência é pergunta retórica, e pergunta retórica não acrescenta informação: solicita concordância. Não se está informando o tamanho a quem já sabe — está-se pedindo que se concorde com a irrelevância do lugar.
É daí que vem o nome Zoar?
É o que o versículo 22 dirá. O relato monta a etimologia pelo procedimento habitual da narrativa hebraica: fazer o nome brotar de uma fala dentro da cena. Mas essas explicações de nome são recurso literário, não análise linguística — o nome preexistia à história, tanto que o capítulo 14 já chamava aquela cidade de Zoar.
O que significa "a minha alma viverá"?
Literalmente, continuar vivo. O termo vertido por alma designa a vida da pessoa, o ser vivente — não a alma no sentido grego, destacável do corpo. E a raiz percorre o capítulo: no versículo 19, conservar a vida; aqui, que essa vida prossiga; no versículo 32, as filhas falando em conservar a descendência do pai.
Como isso se compara à negociação de Abraão?
Em 18:23-33 o fundamento era a justiça — "não fará justiça o Juiz de toda a terra?" —, com negociação sobre o número de inocentes. Aqui o fundamento é a dimensão do lugar. O narrador não confronta as cenas, e as circunstâncias diferem: um negociava de longe e sem risco, sobre cidade alheia; o outro negocia em fuga, ao amanhecer. Mas as duas negociações prosperam.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 14:2 — E o rei de Belá (esta é Zoar).
A cidade já nomeada, cinco capítulos antes desta cena.
Gênesis 19:22 — Por isso se chamou o nome da cidade Zoar.
A etimologia que este versículo prepara.
Gênesis 19:19 — Ao me conservar a vida.
A primeira ocorrência do verbo que fecha este versículo.
Gênesis 19:32 — Para que conservemos a descendência de nosso pai.
A terceira ocorrência, no fim do capítulo.
Gênesis 18:25 — Longe de ti que faças tal coisa... não fará justiça o Juiz de toda a terra?
O outro fundamento de negociação.
Gênesis 18:32 — Não a destruirei, por amor dos dez.
O resultado da negociação por justiça.
Gênesis 19:21 — Também nisto atendi ao seu pedido.
O resultado da negociação por tamanho.
Gênesis 19:30 — E subiu Ló de Zoar... porque temia habitar em Zoar.
A cidade pedida aqui, abandonada depois.
Isaías 15:5 — Os seus fugitivos vão até Zoar.
A cidade ainda de pé, séculos depois.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Eis que aquela cidade está perto o bastante para eu fugir para lá, e é pequena. Deixa-me fugir para ali — não é ela pequena? — e a minha alma viverá.”
Texto hebraico
הִנֵּה־נָא הָעִיר הַזֹּאת קְרֹבָה לָנוּס שָׁמָּה וְהִיא מִצְעָר אִמָּלְטָה נָּא שָׁמָּה הֲלֹא מִצְעָר הִוא וּתְחִי נַפְשִׁי
Transliteração
hinneh-na hair hazzot qerovah lanus shammah wehi mitsar immaletah na shammah halo mitsar hi uteḥi nafshi
Palavra por palavra
הָעִיר הַזֹּאת (hair hazzot) — "esta cidade"
Com artigo e demonstrativo: não uma cidade qualquer, mas aquela.
O demonstrativo pressupõe que ela esteja à vista, ou que ambos saibam de qual se trata.
קְרֹבָה לָנוּס שָׁמָּה (qerovah lanus shammah) — "próxima para fugir para lá"
Qarov, próximo, perto. Nus, fugir, é o verbo da fuga diante do perigo.
A construção liga a proximidade à possibilidade: perto o bastante para alcançar.
מִצְעָר (mitsar) — "pequena"
Aqui está a palavra do versículo.
Vem da raiz tsaar, ser pequeno, insignificante. O substantivo designa pouquidade, coisa mínima.
Ela aparece duas vezes nesta fala — e é dela que sairá o nome Tsoar, Zoar, no versículo 22.
אִמָּלְטָה נָּא (immaletah na) — "que eu escape, peço"
Do verbo malat, escapar, pôr-se a salvo — o mesmo da ordem em 19:17 e da alegação em 19:19.
A forma é coortativa, de quem se propõe a fazer algo, acompanhada da partícula de rogo.
הֲלֹא מִצְעָר הִוא (halo mitsar hi) — "não é pequena ela?"
A partícula interrogativa negativa introduz pergunta retórica, que espera concordância.
É a segunda ocorrência da palavra na mesma frase.
וּתְחִי נַפְשִׁי (uteḥi nafshi) — "e viva a minha alma"
Do verbo ḥayah, viver, no jussivo: que ela viva.
Nefesh designa a vida da pessoa, o ser vivente.
Nota — a palavra repetida e o nome que ela produz
Vale fechar observando o mecanismo, porque ele é montado com cuidado.
Ló diz mitsar e repete mitsar. Dois versículos adiante, o narrador dirá que a cidade se chamou Tsoar.
As duas palavras vêm da mesma raiz. A ligação é sonora e é evidente em hebraico; em português desaparece por inteiro.
Convém marcar bem o que esse tipo de construção é e o que não é.
É recurso narrativo. A prosa hebraica gosta de explicar nomes fazendo-os nascer de uma palavra dita dentro da cena — e isso vale para Babel, para Isaque, para Moisés e para dezenas de outros.
Não é etimologia no sentido técnico. Não estabelece a origem histórica do nome, e frequentemente a contradiz.
Aqui a evidência disso é interna e é forte: o capítulo 14 já chamou essa cidade de Zoar, duas vezes, muito antes de Ló abrir a boca.
Ou seja: o nome já existia na narrativa. O que este capítulo faz é ligá-lo a uma fala — e a fala escolhida é justamente aquela em que alguém pede clemência alegando pequenez.
11. Conclusão
A precisão do requerimento contrasta com tudo quanto o antecedeu. As duas falas anteriores haviam sido vagas — não consigo, a desgraça me alcança, pereço —, ao passo que aqui se aponta com o dedo: não se pleiteia um refúgio qualquer mais acessível, pleiteia-se aquela povoação determinada, com artigo e demonstrativo, forma que pressupõe estar ela à vista ou ser conhecida de ambos. Segue-se que o suplicante já sabia o que queria antes de tomar a palavra, e que a alegação de incapacidade desemboca num pedido previamente formado. Nada disso constitui imputação: quem foge conhece o próprio terreno, e quem habitava aquela várzea saberia enumerar os povoados ao alcance. Registre-se, porém, o dado geográfico implícito — o capítulo 14 já arrolara cinco cidades da região, entre elas Belá, "que é Zoar", de modo que o lugar solicitado fora nomeado muito antes desta cena, e já sob o nome que o presente capítulo se dispõe a explicar.
O fundamento invocado é o que a passagem guarda de mais singular: pede-se que a cidade seja preservada, e a razão apresentada é a sua pequenez. Não se alegam justos, não se alega inocência, não se mencionam moradores. Três lógicas disputam o sentido, sem que o texto opte: cálculo de custo, pois poupar coisa mínima pouco onera quem destrói; cálculo de proporção, já que uma povoação diminuta beira o nada e o pedido quase equivale a não pedir cidade alguma; ou, terceira hipótese, nada disso versa sobre a cidade e sim sobre o suplicante — próxima e pequena descreveriam a exequibilidade da fuga, não o mérito do lugar. Esta última se ajusta melhor ao que viera antes, onde se tratava exatamente de capacidade de chegar; contra ela, contudo, pesa a resposta seguinte, que dirá "não destruirei a cidade de que falaste", revelando que o interlocutor tomou o pedido como referente à cidade, e não ao itinerário.
Há, ainda, um mecanismo montado com cuidado. O vocábulo que significa pequenez é dito, e logo redito sob forma de interrogação retórica — figura que nada informa e que solicita concordância de quem já sabe. Duas ocorrências numa fala curta, e duas ocorrências que preparam o que virá: o narrador registrará, dois versículos adiante, que a cidade passou a chamar-se Zoar, nome extraído dessa mesma raiz. A ligação é sonora, evidente no original e integralmente perdida em português. Convém demarcar o que esse procedimento é: recurso narrativo, o mesmo que a prosa hebraica aplica a Babel, a Isaque, a Moisés e a dezenas de outros nomes, fazendo-os brotar de uma palavra pronunciada dentro da cena. Não é etimologia técnica, não estabelece origem histórica e amiúde a contraria — e aqui a prova é interna e robusta, pois aquela cidade já fora chamada Zoar no capítulo 14, duas vezes, antes de o suplicante abrir a boca.
Fecha-se com um verbo que percorre o capítulo. Pede-se, literalmente, continuar vivo, empregando-se o termo que designa a vida da pessoa, o ser vivente, e não a alma destacável do corpo no sentido grego. A raiz comparece três vezes: agradecendo, na fala anterior, a conservação da vida; requerendo, aqui, que essa vida prossiga; e ressurgindo no desfecho, quando as filhas manifestarem o propósito de conservar descendência do pai. Três empregos girando em torno da preservação do mesmo homem, o último num contexto que o relato narrará sem comentário. Consigno a cadeia como dado de vocabulário, sem afirmar deliberação, pois a repetição de raiz é corriqueira nessa prosa. Resta a comparação que o narrador jamais estabelece, limitando-se a dispor as cenas a trinta versículos uma da outra: antes se pleiteara por uma cidade invocando a justiça e perguntando se o Juiz de toda a terra faria o que é reto; agora se pleiteia invocando dimensão. As situações não se equivalem — uma negociação transcorria de longe, à sombra, sem risco próprio e sobre cidade alheia; a outra transcorre em fuga, ao raiar do dia, sobre onde será possível deter-se. O texto não julga nenhuma. E ambas prosperam.













