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Gênesis 19:21

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 4 acessos
Ele lhe respondeu: “Pois bem, também nisto atendi ao seu pedido, e não destruirei a cidade de que você falou.
Homem prostrado ao amanhecer sendo erguido pela mão, com uma pequena cidade ao fundo na planície.

Estudo


Ele lhe respondeu: “Pois bem, também nisto atendi ao seu pedido, e não destruirei a cidade de que você falou.

1. Introdução

O pedido é atendido.

A expressão que o texto usa é uma imagem: "levantei o teu rosto". Era assim que se dizia, em hebraico, que um requerimento foi deferido.

E a concessão vem com um "também" — o que pressupõe que já houve outra antes desta.

2. Contexto Histórico e Cultural

"Pois bem"

A resposta começa com uma partícula de assentimento. Não há repreensão.

"Também nisto"

O "também" pressupõe concessão anterior. O texto não diz qual.

"Atendi ao seu pedido"

O hebraico diz, literalmente: levantei o teu rosto. É o idioma de deferir uma petição.

"Não destruirei a cidade"

A promessa é sobre a cidade, não sobre a rota de Ló.

"De que você falou"

O interlocutor devolve o pedido nos termos em que foi feito.

O singular

Quem responde fala como um só, embora fossem dois os enviados.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ele lhe respondeu"

Convém começar pelo número, porque ele continua o problema aberto nos versículos anteriores.

No versículo 18, o narrador disse que Ló falou a eles — plural, os dois enviados. E Ló respondeu no singular: "meu Senhor".

Aqui o narrador registra que ele respondeu. Singular.

Ou seja: a alternância não se resolve. O texto continua oscilando entre dois interlocutores e um.

Vale registrar as leituras possíveis sem escolher.

Uma: fala o porta-voz dos dois. O versículo 17 já dissera "um deles disse", o que singulariza sem eliminar o outro.

Outra: a fala é do SENHOR, e não dos mensageiros — leitura que a vocalização do versículo 18 favorece, e que a promessa deste versículo torna plausível, porque prometer não destruir uma cidade é decisão de quem tem autoridade sobre a destruição.

Outra ainda: a instabilidade é traço de composição, e atravessa os capítulos 18 e 19 sem coerência.

Não é possível decidir. E convém notar que o versículo 22 dirá "nada posso fazer enquanto você não chegar ali" — frase que, dependendo de quem fala, muda inteiramente de peso.

"Pois bem"

A resposta abre com uma partícula de assentimento — o equivalente hebraico de "eis que", usado aqui para introduzir a concordância.

Vale observar o que não está aqui.

Não há repreensão. Não há observação sobre a demora do versículo 16. Não há comentário sobre a recusa do versículo 18, nem sobre a alegação de incapacidade do versículo 19, nem sobre o argumento do tamanho no versículo 20.

Ló recusou uma ordem direta e alegou não conseguir cumpri-la. A resposta é: pois bem.

Registro o silêncio como dado. O texto não explica por que a recusa não gera reação — e, nesse silêncio, é o leitor que fica com a pergunta.

"também nisto atendi ao seu pedido"

Aqui há duas coisas a examinar, e a primeira é a palavrinha "também".

Ela pressupõe uma concessão anterior. Não se diz "também" para a primeira coisa concedida.

O texto não especifica qual foi. Convém apresentar as possibilidades.

A mais direta: o próprio resgate. Ló foi tirado da cidade, e o versículo 16 explicou que isso aconteceu por compaixão. Essa é a concessão anterior, e a de agora se soma a ela.

Outra, mais ampla: a negociação de Abraão no capítulo 18. Se aquela conversa produziu alguma coisa, e o versículo 29 dirá que Deus se lembrou de Abraão ao tirar Ló, então a série de concessões começa antes deste capítulo.

Não é possível decidir, e o texto não liga os pontos.

Mas o "também" está lá, e ele diz que esta não é a primeira vez.

A segunda coisa a examinar é a expressão traduzida por "atendi ao seu pedido", porque o hebraico diz outra coisa.

Literalmente: levantei o teu rosto.

Convém explicar o idioma, porque ele é revelador.

No mundo antigo, quem suplicava se prostrava — rosto no chão. Levantar o rosto de alguém era o gesto de quem aceita o pedido e permite que o suplicante se erga.

A expressão passou a significar, por extensão, deferir um requerimento, mostrar favor, atender.

Vale rastreá-la, porque ela tem duas faces na Bíblia.

Do lado positivo, é a bênção sacerdotal de Números: "o SENHOR levante sobre ti o seu rosto e te dê a paz".

Do lado negativo, é o que a lei proíbe ao juiz: "não levantarás o rosto do pobre nem honrarás o rosto do grande" — ou seja, não farás acepção de pessoas.

A mesma imagem serve ao favor concedido e ao favorecimento indevido. O contexto é que decide.

Aqui é claramente o primeiro sentido: um pedido foi atendido.

Mas vale reter a ambivalência, porque ela ilumina o que o versículo faz. Uma cidade inteira é retirada da destruição a pedido de um único homem — e o critério não foi o mérito dela.

"e não destruirei a cidade de que você falou"

Aqui o versículo resolve uma ambiguidade que o anterior deixou aberta.

No versículo 20, não estava claro se Ló pedia pela cidade ou apenas por um lugar onde parar. As duas leituras eram possíveis.

A resposta decide: "não destruirei a cidade".

Ou seja: o interlocutor entendeu — e o narrador registra — que o pedido tinha por objeto o lugar, e não só a rota.

E convém notar a fórmula "de que você falou". Ela devolve o pedido nos termos exatos em que foi feito, o que é procedimento de quem concede formalmente.

Vale agora observar o que isso significa dentro da lógica do capítulo.

Uma das cinco cidades da planície é retirada do juízo. Não porque houvesse justos nela — ninguém alegou isso. Não porque fosse inocente — ninguém alegou isso tampouco.

Ela é poupada porque um homem em fuga pediu, e porque é pequena.

Registro o dado sem julgá-lo, porque o texto não o julga. Mas ele merece ser visto de frente, porque desmonta uma expectativa: o capítulo não funciona por um cálculo de mérito.

O eco do capítulo anterior

Convém fechar aqui, porque este versículo é a segunda concessão do bloco e o paralelo é do texto.

Em 18:26, à pergunta de Abraão, veio: "se eu achar em Sodoma cinquenta justos, pouparei todo o lugar por amor deles". E depois, sucessivamente, até dez.

Aqui, à súplica de Ló, vem: não destruirei a cidade.

Duas negociações; duas concessões.

Mas a diferença é grande, e é o que o encadeamento torna visível.

A concessão a Abraão era condicional: se houver justos. Ela nunca precisou ser cumprida, porque a condição não se verificou.

A concessão a Ló é incondicional. Não há "se". Zoar é poupada, ponto.

O narrador não comenta a diferença. Põe as duas cenas no espaço de trinta versículos e segue.

Registro como leitura do encadeamento. E registro que o versículo 30 dirá que Ló saiu de Zoar por medo — abandonando, por conta própria, a cidade que obteve nesta frase.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O interlocutor — responde no singular, embora o versículo 18 dissesse que Ló falou "a eles".

— tem o pedido deferido sem qualquer repreensão pela recusa anterior.

A cidade — Zoar, retirada da destruição a pedido de um homem em fuga.

"Levantar o rosto" — o idioma hebraico de deferir uma petição, aqui traduzido por "atendi ao seu pedido".

Abraão — ausente da cena, dono da outra concessão, que era condicional.

5. Pontos de Ensino

O narrador diz "ele respondeu", no singular. Mas o versículo 18 dissera que Ló falou aos dois.

A oscilação não se resolve. Porta-voz, o SENHOR, ou marca de composição — nada se decide.

Não há repreensão. Nem pela demora, nem pela recusa, nem pela alegação de incapacidade.

O "também" pressupõe concessão anterior. Provavelmente o próprio resgate; o texto não diz.

O hebraico diz "levantei o teu rosto". Quem suplicava se prostrava; erguer o rosto era deferir.

O idioma tem duas faces. É a bênção de Números e é o favorecimento que a lei proíbe ao juiz.

A resposta é sobre a cidade. Isso desfaz a ambiguidade do versículo 20.

Zoar é poupada sem alegação de mérito. Ninguém disse que havia justos ali.

A concessão a Abraão era condicional; esta não é. E em 19:30 Ló abandonará Zoar por medo.

6. Aspectos Filosóficos

Um responde por dois

Cabe abrir pelo número, que prolonga o problema deixado em aberto nas falas anteriores.

O narrador informara, no versículo 18, que Ló se dirigiu a eles, no plural, e a fala saíra no singular. Agora se registra que ele respondeu — outra vez singular. A oscilação, portanto, persiste.

Três explicações concorrem, sem que nenhuma se imponha. Pode falar o porta-voz da dupla, já que o versículo 17 dissera "um deles disse", singularizando sem excluir o outro. Pode falar o SENHOR, e não os emissários — leitura que a vocalização do versículo 18 favorece e que a promessa aqui torna verossímil, pois comprometer-se a não arrasar uma cidade é decisão de quem detém autoridade sobre a destruição. Ou pode a instabilidade ser marca de composição, atravessando os dois capítulos sem coerência.

Não há como decidir. E o versículo seguinte dirá "nada posso fazer enquanto não chegares ali" — frase cujo peso muda por inteiro conforme quem a pronuncie.

O que a resposta não contém

A réplica se abre por partícula de assentimento, o equivalente hebraico de "eis que", empregado aqui para introduzir concordância.

Vale reparar no que está ausente. Nenhuma censura. Nenhuma observação sobre a hesitação do versículo 16, sobre a negativa do 18, sobre a alegação de impotência do 19 ou sobre o argumento de tamanho do 20.

Recusou-se uma ordem direta e alegou-se incapacidade de cumpri-la. A resposta é: pois bem.

Consigno o silêncio como dado. O relato não esclarece por que a recusa não provoca reação, e é o leitor quem fica com a pergunta.

Uma concessão que não é a primeira

Dois pontos merecem exame, e o primeiro é o advérbio "também", que pressupõe deferimento anterior — ninguém diz "também" a respeito da primeira coisa concedida.

Qual tenha sido, o texto não especifica. A hipótese mais direta é o próprio resgate: Ló foi retirado da cidade, e o versículo 16 explicara que isso se deu por compaixão; a concessão de agora se somaria àquela. A hipótese mais ampla remete à negociação do capítulo 18, pois o versículo 29 dirá que Deus se lembrou de Abraão ao tirar Ló, o que faria a série começar antes deste capítulo. Não é possível decidir, e o relato não liga os pontos — mas o "também" permanece, e informa que esta não é a primeira vez.

O segundo ponto é a locução vertida por atender ao pedido, que no original diz coisa diversa: levantei o teu rosto.

O idioma merece explicação. Suplicava-se prostrado, com o rosto no chão; erguer o rosto de alguém era o gesto de quem acolhe o pedido e permite ao suplicante levantar-se. Por extensão, a expressão passou a significar deferir requerimento, mostrar favor.

Convém rastreá-la, porque tem duas faces na Bíblia. Pelo lado favorável, comparece na bênção sacerdotal de Números — que o SENHOR levante sobre ti o seu rosto e te dê a paz. Pelo lado desfavorável, é justamente o que a lei veda ao juiz: não levantarás o rosto do pobre nem honrarás o rosto do grande, isto é, não farás acepção de pessoas. A mesma imagem serve ao favor concedido e ao favorecimento indevido, e só o contexto decide.

Aqui o sentido é inequivocamente o primeiro. Mas a ambivalência ilumina o que se passa: uma cidade inteira é subtraída à destruição a pedido de um único homem, e o critério não foi o mérito dela.

A ambiguidade que se desfaz

Este versículo resolve o que o anterior deixara indeciso. Não se sabia, ali, se o pedido tinha por objeto a cidade ou apenas um ponto onde deter-se; ambas as leituras eram sustentáveis.

A réplica decide: não destruirei a cidade. O interlocutor entendeu — e o narrador consigna — que o requerimento versava sobre o lugar, e não somente sobre o itinerário. A fórmula "de que falaste" devolve o pedido nos termos exatos em que foi formulado, procedimento de quem concede formalmente.

Repare-se no que isso significa dentro da lógica do capítulo. Uma das cinco cidades da várzea é retirada do juízo — não por haver justos nela, que ninguém alegou, nem por ser inocente, que tampouco se alegou. É poupada porque um homem em fuga pediu, e porque é pequena.

Consigno sem julgar, pois o texto não julga. Mas o dado merece ser encarado, porque desfaz uma expectativa: o capítulo não opera por cálculo de mérito.

Duas concessões, uma condicional e outra não

Cabe fechar pelo paralelo, que é do próprio texto.

Em 18:26 respondera-se a Abraão: se eu achar em Sodoma cinquenta justos, pouparei todo o lugar por amor deles — e assim sucessivamente, até dez. Aqui responde-se a Ló: não destruirei a cidade.

Duas negociações, dois deferimentos. A diferença, porém, é considerável. A promessa feita a Abraão era condicional — se houvesse justos —, e jamais precisou ser honrada, porque a condição não se verificou. A promessa feita a Ló não traz condição alguma: Zoar é poupada, e ponto.

O narrador não comenta a assimetria: dispõe as duas cenas em trinta versículos e prossegue. Registro o encadeamento — e registro também que o versículo 30 contará que Ló deixou Zoar por medo, abandonando por conta própria a cidade obtida nesta frase.

7. Aplicações Práticas

"Levantar o rosto" era deferir um pedido

Quem suplicava no mundo antigo se prostrava, com o rosto no chão. Erguer o rosto de alguém era o gesto de quem acolhe o pedido e permite ao suplicante levantar-se — e a expressão passou a significar atender, mostrar favor.

O mesmo idioma aparece na bênção sacerdotal de Números e na proibição que a lei faz ao juiz: não levantarás o rosto do pobre nem honrarás o rosto do grande.

A imagem serve ao favor concedido e ao favorecimento indevido, e só o contexto separa os dois. Vale reter a ambivalência, porque ela existe fora do texto: o gesto de atender alguém e o gesto de privilegiar alguém têm a mesma aparência, e quem os pratica raramente distingue um do outro em si mesmo.

Não há repreensão, e o texto não explica por quê

Ló hesitou quando mandaram sair, recusou a ordem direta, alegou incapacidade e argumentou pelo tamanho da cidade. A resposta é: pois bem.

Nenhuma censura, nenhuma observação sobre nada disso.

O relato não esclarece o silêncio, e é o leitor que fica com a pergunta. Vale suportá-la sem preenchê-la — porque a tentação de inventar a reprimenda que o texto não deu costuma dizer mais sobre quem lê do que sobre o que está escrito.

"Também" quer dizer que não é a primeira vez

Ninguém diz "também" a respeito da primeira coisa concedida. O advérbio pressupõe uma concessão anterior — provavelmente o próprio resgate, que o versículo 16 atribuíra à compaixão, ou algo que remonte à negociação do capítulo 18.

O texto não especifica, e não liga os pontos.

Mas a palavra está lá, e ela reordena a cena: o que se está pedindo agora se soma a algo já recebido. Reconhecer isso muda a natureza do pedido — quem pede pela segunda vez pede de outro lugar, ainda que peça a mesma coisa.

Uma cidade é poupada sem que ninguém alegue seu mérito

Zoar sai do juízo. Não porque houvesse justos ali — ninguém disse isso. Não porque fosse inocente — ninguém disse isso tampouco. É poupada porque um homem em fuga pediu, e porque é pequena.

O texto não julga a lógica, e eu também não.

Mas ela desmonta uma expectativa que se leva para a leitura: a de que o capítulo funcione por cálculo de mérito. Não funciona. E ver isso de frente é mais honesto do que fabricar uma justificativa que o texto se recusou a dar.

Uma promessa condicional e uma promessa sem condição

A Abraão se prometera poupar a cidade se houvesse justos — e a promessa nunca precisou ser honrada, porque a condição não se verificou. A Ló se promete, sem qualquer "se", que Zoar não será destruída.

O narrador não comenta a assimetria.

Vale notar a diferença prática entre os dois tipos de compromisso, porque ela decide tudo. Uma promessa condicional transfere o risco para quem a recebe; uma promessa sem condição o mantém em quem a fez. E é sempre a segunda que custa alguma coisa.

O que se consegue nem sempre é o que se quer ficar

Ló pede Zoar, argumenta por ela, é atendido. Nove versículos depois, sairá de Zoar por medo e subirá ao monte que dissera não conseguir alcançar.

O texto não comenta nem uma coisa nem outra.

Fica o desenho, e ele é reconhecível: obter o que se pediu não garante que o pedido estivesse certo. Às vezes a concessão apenas dá tempo para descobrir que se pediu a coisa errada.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quem responde a Ló: os mensageiros ou o SENHOR?

O narrador escreve no singular — "ele respondeu" —, embora tivesse dito, no versículo 18, que Ló falou "a eles". Três explicações concorrem: fala o porta-voz da dupla, já que o versículo 17 dissera "um deles disse"; fala o SENHOR, leitura que a vocalização do versículo 18 favorece e que a promessa aqui torna verossímil; ou a instabilidade é marca de composição, atravessando os dois capítulos. Não há como decidir.

Por que não há repreensão?

O texto não explica. Ló hesitou quando mandaram sair, recusou uma ordem direta, alegou incapacidade e argumentou pelo tamanho da cidade — e a resposta se abre com uma partícula de assentimento, sem qualquer censura.

O que significa "também nisto"?

Pressupõe concessão anterior, porque ninguém diz "também" a respeito da primeira coisa concedida. A hipótese mais direta é o próprio resgate, que o versículo 16 atribuíra à compaixão; a mais ampla remete à negociação do capítulo 18, já que o versículo 29 dirá que Deus se lembrou de Abraão ao tirar Ló. O texto não especifica.

O hebraico diz mesmo "atendi ao seu pedido"?

Literalmente diz: levantei o teu rosto. Suplicava-se prostrado, com o rosto no chão, e erguer o rosto de alguém era o gesto de quem acolhe o pedido e permite ao suplicante levantar-se. Por extensão, a expressão passou a significar deferir, mostrar favor.

Esse idioma aparece em outros lugares?

Sim, e com duas faces. Pelo lado favorável, na bênção sacerdotal de Números — "o SENHOR levante sobre ti o seu rosto e te dê a paz". Pelo lado desfavorável, no que a lei veda ao juiz: "não levantarás o rosto do pobre nem honrarás o rosto do grande", isto é, não farás acepção de pessoas. Só o contexto decide, e aqui o sentido é claramente o primeiro.

O pedido era pela cidade ou só por um lugar onde parar?

O versículo 20 deixava as duas leituras abertas. Esta resposta decide: "não destruirei a cidade de que você falou". O objeto do pedido era o lugar, e não apenas o itinerário — e a fórmula "de que você falou" devolve o requerimento nos termos exatos em que foi feito.

Zoar é poupada por mérito?

Ninguém alegou que houvesse justos ali, e ninguém alegou que fosse inocente. Ela é poupada porque um homem em fuga pediu, e porque é pequena. O texto não julga essa lógica.

Como isso se compara à promessa feita a Abraão?

Em 18:26 a promessa era condicional — "se eu achar em Sodoma cinquenta justos, pouparei todo o lugar" —, e nunca precisou ser honrada, porque a condição não se verificou. A promessa feita a Ló não traz condição alguma. O narrador não comenta a assimetria. E o versículo 30 contará que Ló deixou Zoar por medo.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 19:20Deixa-me fugir para ali — não é ela pequena? — e a minha alma viverá.

O pedido que este versículo defere.

Gênesis 19:18E Ló lhes disse: Não, meu Senhor.

O plural do narrador contra o singular da fala.

Números 6:26O SENHOR levante sobre ti o seu rosto e te dê a paz.

O mesmo idioma, na bênção sacerdotal.

Levítico 19:15Não farás injustiça no juízo; não levantarás o rosto do pobre, nem honrarás o rosto do grande.

O mesmo idioma, como acepção de pessoas proibida.

Gênesis 18:26Se eu em Sodoma achar cinquenta justos... pouparei todo o lugar por amor deles.

A outra concessão, e ela era condicional.

Gênesis 19:16Porque o SENHOR se compadecia dele.

A concessão anterior que o "também" pressupõe.

Gênesis 19:22Nada posso fazer enquanto você não chegar ali.

A frase seguinte, cujo peso depende de quem fala.

Gênesis 19:30E subiu Ló de Zoar... porque temia habitar em Zoar.

A cidade obtida aqui, abandonada depois.

Gênesis 14:2E o rei de Belá (esta é Zoar).

A cidade, nomeada cinco capítulos antes.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Ele lhe respondeu: “Pois bem, também nisto atendi ao seu pedido, e não destruirei a cidade de que você falou.

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר אֵלָיו הִנֵּה נָשָׂאתִי פָנֶיךָ גַּם לַדָּבָר הַזֶּה לְבִלְתִּי הָפְכִּי אֶת־הָעִיר אֲשֶׁר דִּבַּרְתָּ

Transliteração

wayyomer elav hinneh nasati faneikha gam laddavar hazzeh levilti hofki et-hair asher dibbarta

Palavra por palavra

וַיֹּאמֶר אֵלָיו (wayyomer elav) — "e ele disse a ele"

Singular nos dois: um fala, um ouve.

Compare-se com o versículo 18, onde o narrador escreveu "a eles", no plural.

הִנֵּה (hinneh) — "eis"

Partícula de apresentação. Aqui introduz o assentimento.

נָשָׂאתִי פָנֶיךָ (nasati faneikha) — "levantei o teu rosto"

Aqui está o idioma do versículo.

Nasa é o verbo de levantar, erguer, carregar. Panim é o rosto, a face.

Juntos, formam a expressão de deferir uma petição — e, em contexto judicial, a de fazer acepção de pessoas.

גַּם לַדָּבָר הַזֶּה (gam laddavar hazzeh) — "também quanto a esta coisa"

Gam, também. É a palavra que pressupõe algo anterior.

Davar significa palavra e também coisa, assunto, matéria. Aqui, o objeto do pedido.

לְבִלְתִּי הָפְכִּי (levilti hofki) — "de modo a eu não subverter"

O verbo é hafakh, virar, revirar, subverter.

Não é o verbo genérico de destruir. É o de virar do avesso, e é o termo que a Bíblia associa especificamente ao destino destas cidades.

O sufixo é de primeira pessoa: eu não subverterei.

אֲשֶׁר דִּבַּרְתָּ (asher dibbarta) — "de que falaste"

O verbo davar, falar — a mesma raiz de davar, "coisa", usada acima.

Nota — o verbo que nomeia a catástrofe

Vale fechar por esse verbo, porque ele é o termo técnico da destruição destas cidades e reaparece ao longo da Bíblia.

Hafakh significa virar, revolver, pôr de cabeça para baixo. É o que se faz com um vaso que se emborca, ou com uma página que se vira.

Aplicado a Sodoma, produz a imagem de uma cidade revirada — e é essa palavra que a Bíblia fixa como o nome do acontecimento.

Ela reaparece no versículo 25 deste capítulo, e no 29. E reaparece nos profetas: Amós fala de cidades "subvertidas como Deus subverteu Sodoma e Gomorra"; Isaías e Jeremias usam a mesma raiz para a mesma comparação; e o Deuteronômio a emprega ao descrever a terra devastada.

O substantivo derivado, mahpekhah, torna-se praticamente um nome próprio — "a Subversão" —, do modo como se diz "o Dilúvio".

Convém notar o que esse verbo implica e o que não implica.

Implica reviramento: o que estava em cima vai para baixo. É imagem de inversão, não apenas de ruína.

Não determina o mecanismo. O versículo 24 falará de enxofre e fogo, mas o verbo em si não descreve incêndio nem terremoto.

E aqui, na promessa, ele aparece negado: a cidade pequena não será virada do avesso.

11. Conclusão

Persiste, na abertura, a oscilação de número que os versículos anteriores haviam instaurado. O narrador informara que Ló se dirigira a eles, no plural, e a fala do suplicante saíra no singular; agora consigna-se que ele respondeu, também no singular, e a dois ouvintes corresponde uma só voz. Três explicações competem sem que nenhuma prevaleça: o porta-voz da dupla, já que se dissera antes "um deles disse", forma que singulariza sem excluir; o próprio SENHOR, hipótese que a vocalização anterior favorece e que a promessa aqui torna verossímil, pois comprometer-se a poupar uma cidade cabe a quem tem autoridade sobre a destruição; ou uma instabilidade de composição, que atravessa os dois capítulos sem coerência. E o versículo seguinte, ao declarar que nada se pode fazer antes que o fugitivo chegue, terá peso inteiramente diverso conforme quem o pronuncie.

A réplica começa por partícula de apresentação, aqui empregada para introduzir concordância — e convém notar o que está ausente dela. Nenhuma censura pela hesitação de quem precisou ser carregado para fora dos muros; nenhuma observação sobre a negativa dirigida a uma ordem expressa; nenhum comentário sobre a alegação de impotência nem sobre o argumento fundado em dimensão. Recusou-se um mandamento direto, e a resposta é assentimento. O silêncio fica como dado, e o relato não o explica: quem carrega a pergunta é quem lê.

Dois elementos pedem exame. O primeiro é o advérbio que significa "também", e que pressupõe deferimento prévio, já que a ninguém ocorre dizê-lo acerca da primeira coisa concedida. Qual tenha sido, não se especifica — o próprio resgate, atribuído pelo versículo 16 à compaixão, é a hipótese mais direta; a negociação do capítulo 18 é a mais ampla, uma vez que se dirá adiante ter Deus se lembrado de Abraão ao retirar Ló. Não é possível decidir, mas o advérbio informa que esta não é a primeira vez. O segundo elemento é a locução que nossas versões vertem por atender ao pedido e que no original diz outra coisa: levantei o teu rosto. Suplicava-se prostrado, rosto contra o chão, e erguer o rosto de alguém era o gesto de quem acolhe o requerimento e permite ao suplicante levantar-se; por extensão, passou a designar o deferimento. A expressão tem, contudo, duas faces na Escritura — comparece na bênção sacerdotal, quando se pede que o SENHOR levante o rosto sobre alguém e lhe dê a paz, e comparece na proibição imposta ao juiz, que não deve levantar o rosto do pobre nem honrar o rosto do grande, isto é, não deve fazer acepção de pessoas. Aqui o sentido é inequívoco; a ambivalência, porém, ilumina o que se passa, pois uma cidade inteira é subtraída à ruína a pedido de um só homem, e não por mérito próprio.

Resolve-se, por fim, a ambiguidade deixada pela súplica anterior, que tanto podia versar sobre a cidade quanto sobre um simples ponto de parada: a promessa fala expressamente da cidade, e a fórmula "de que falaste" devolve o pedido nos termos exatos em que foi formulado, à maneira de quem concede formalmente. O verbo negado é aquele que a Bíblia fixou como termo técnico para o destino daquelas cidades — virar, revolver, pôr de cabeça para baixo —, imagem de inversão antes que de mero estrago, e que reaparecerá nos versículos 25 e 29, nos profetas e no Deuteronômio, chegando a produzir um substantivo que funciona quase como nome próprio do acontecimento. Uma das cinco cidades da várzea escapa, portanto, ao juízo, sem que se tenha alegado nela justos nem inocência: escapa porque alguém em fuga pediu, e porque é pequena. Consigno sem julgar, como o texto não julga, mas o dado desfaz a expectativa de que a cena opere por cálculo de mérito. E a assimetria com a concessão anterior é notável: aquela vinha condicionada à existência de justos, jamais precisou ser honrada e nunca custou nada; esta não traz condição alguma. O narrador não a comenta — e nove versículos adiante contará que o beneficiário abandonou, por medo, a cidade que obtivera nesta frase.

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