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Gênesis 19:5

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 51 min de leitura·👁 2 acessos
E chamaram Ló, dizendo: “Onde estão os homens que vieram a você esta noite? Traga-os para fora, para que os conheçamos.”
Homens com tochas diante de uma porta fechada de casa antiga à noite, gritando para dentro, numa rua estreita de cidade murada.

Estudo


E chamaram Ló, dizendo: “Onde estão os homens que vieram a você esta noite? Traga-os para fora, para que os conheçamos.”

1. Introdução

Este é o versículo mais citado do capítulo e o menos lido com cuidado.

A multidão fala pela primeira vez. Faz uma pergunta, dá uma ordem e declara um propósito, tudo em duas linhas.

O propósito é uma única palavra em hebraico, e é essa palavra que carregou séculos de doutrina, de legislação e de violência: neda, "conheçamos".

Há um caminho fácil aqui, e há dois caminhos fáceis, na verdade — em direções opostas.

Um deles atravessa o versículo sem parar, achando que já sabe o que ele diz, e sai do outro lado com uma sentença sobre um grupo de pessoas que o texto não menciona.

O outro dissolve o versículo, alegando que o verbo não significa o que parece significar e que tudo se resolve em hospitalidade violada.

Os dois caminhos evitam o mesmo trabalho: ler o que está escrito, ver o que a palavra faz no resto da Bíblia, examinar os argumentos de cada leitura, e depois dizer com precisão o que se pode e o que não se pode afirmar.

É esse trabalho que este estudo tenta fazer. Ele inclui o versículo de Ezequiel que diz, com todas as letras, qual era o pecado de Sodoma — e que quase nunca aparece nos púlpitos que citam Gênesis 19.

E inclui também o que Gênesis 19 narra, sem apagar nada.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que a cidade sabia

A multidão pergunta pelos "homens que vieram a você esta noite". Ou seja: a cidade acompanhou a chegada.

Isso é coerente com o versículo 1. Ló estava sentado à porta da cidade, que é o lugar público por excelência, e recebeu os dois ali, na frente de quem passasse.

Numa cidade murada de algumas centenas de habitantes, a chegada de dois forasteiros era notícia dentro de uma hora. Não há mistério na informação; há vigilância.

O estrangeiro em cidade antiga

Quem chegava de fora não tinha parentes, não tinha bens no lugar, não tinha quem respondesse por ele. Era a pessoa mais desprotegida que podia atravessar um portão.

Duas instituições cobriam esse vazio. A primeira era a hospitalidade: quem recebia assumia a proteção do hóspede enquanto ele estivesse sob o seu teto. A segunda era o controle da cidade sobre quem entrava — os homens reunidos no portão podiam admitir ou expulsar.

As duas estão em conflito nesta cena. Ló invocou a primeira; a multidão invoca a segunda. E o versículo 9 dirá o que a cidade pensa da autoridade de Ló para invocar o que quer que seja.

A situação de Ló na cidade

Ló não é de Sodoma. O versículo 9 o dirá com todas as letras: veio morar como estrangeiro.

Um ger — residente estrangeiro — tinha moradia e podia ter negócios, mas não tinha os direitos plenos do cidadão. Não integrava o corpo que decidia no portão.

Isso é importante para entender o que está sendo disputado. Um residente estrangeiro acolheu dois desconhecidos sem consultar ninguém, e a assembleia da cidade veio cobrar satisfação. A cena tem, além de tudo, uma dimensão de jurisdição.

A violência sexual como instrumento de domínio no mundo antigo

Este ponto é desconfortável e é necessário.

Em várias culturas do antigo Oriente Próximo e do Mediterrâneo, o estupro de homens funcionava como ato de humilhação e de submissão — praticado contra prisioneiros de guerra, contra inimigos derrotados, contra estranhos. Não era expressão de desejo: era demonstração de poder.

Registro isso como pano de fundo cultural amplamente reconhecido, e não como afirmação sobre o que se passava especificamente naquela cidade, sobre a qual não existe documentação independente.

O que esse pano de fundo permite dizer é que uma exigência coletiva feita pela população masculina inteira de uma cidade contra dois forasteiros recém-chegados pertence, provavelmente, a esse registro — o da dominação — e não a qualquer categoria moderna de orientação.

O que a tradição fez com este capítulo

A palavra portuguesa "sodomia" vem daqui. Ela não existe no texto bíblico: nasceu no latim medieval, a partir do nome da cidade.

Entre o Gênesis e essa palavra há uma longa história de leitura. Nos escritos judaicos do período do Segundo Templo, e depois em Filo de Alexandria, no primeiro século, o episódio já aparece lido em chave predominantemente sexual. A tradição cristã posterior consolidou essa leitura e a transformou em categoria jurídica.

Conhecer essa história não decide o sentido do versículo. Mas mostra que a redução do capítulo a um único tema é um processo datável, com etapas, e não a leitura evidente do texto desde sempre.

O relato irmão, mais uma vez

Juízes 19 repete a cena com as mesmas palavras: a casa cercada, a exigência de que o hóspede seja entregue, a mesma construção verbal.

E ali o desfecho é narrado sem eufemismo: a concubina do levita é entregue, violentada a noite inteira e encontrada morta à porta pela manhã.

Aquele relato é o comentário mais antigo e mais brutal que a Bíblia oferece sobre o que este versículo está pedindo.

3. Análise Teológica do Versículo

"E chamaram Ló"

O verbo é qara, chamar, gritar, convocar, com a preposição que indica direção: chamaram a Ló.

Vale reparar no que eles não fazem. Não arrombam. Não entram. Não batem, sequer — o texto de Juízes 19 dirá que os homens de Gibeá batiam nas portas, e este não diz.

Eles chamam. É uma convocação feita de fora para dentro, e ela pressupõe que o de dentro vai responder.

A forma importa. Cercar a casa, no versículo 4, foi ato de força. Chamar é ato de autoridade: quem chama espera ser atendido porque se julga no direito.

Convém não exagerar a observação. Qara é verbo comum e pode significar apenas gritar alto o suficiente para ser ouvido. Mas a sequência — primeiro fechar o perímetro, depois convocar — descreve gente que se considera dona da situação, e não invasores apressados.

"Onde estão os homens que vieram a você esta noite?"

A pergunta abre com a partícula ayyeh, "onde".

Há aqui uma correspondência com o capítulo anterior que merece registro, porque é literal.

Em 18:9, os visitantes perguntaram a Abraão: ayyeh Sarah ishtekha — "onde está Sara, tua mulher?". Mesma partícula, mesma estrutura: uma pergunta feita ao anfitrião sobre quem está dentro.

Ali a pergunta precede o anúncio de um filho. Aqui precede uma exigência de violência.

É observação de composição, e a marco como tal — não é possível decidir se o narrador a construiu de propósito, e a partícula é comum demais para que a repetição prove intenção. Mas quem lê os dois capítulos em sequência ouve a mesma pergunta duas vezes, dirigida ao homem da casa, sobre alguém que está lá dentro.

Quanto ao conteúdo, a pergunta é retórica. Eles sabem onde os homens estão — cercaram a casa por isso. Perguntar é o modo de exigir sem ainda dar a ordem.

"os homens"

A multidão os chama de anashim, homens.

O narrador, no versículo 1, os havia chamado de malakhim, mensageiros — a palavra que se traduz por anjos.

Ou seja: a cidade não sabe com quem está lidando. Vê dois forasteiros.

Essa ignorância é o motor de tudo o que virá. No versículo 11, quem estava à porta será ferido de cegueira por aqueles que julgavam ter à mão.

Vale notar um detalhe do vocabulário do próprio narrador. A partir daqui, ele também passa a chamá-los de anashim — nos versículos 10, 12 e 16. A palavra da multidão vira a palavra do relato.

Não convém tirar disso mais do que comporta: a alternância entre "mensageiros" e "homens" é comum nas narrativas de aparição e provavelmente não carrega juízo. Mas ela mantém, ao longo do episódio, a ambiguidade que a cidade não percebe.

"que vieram a você esta noite"

A frase informa duas coisas.

A primeira é que a cidade acompanhou a chegada. Ló os recebeu à porta da cidade, no espaço público, e a notícia correu.

A segunda está na preposição: vieram a você. Não "vieram à cidade". A multidão trata os hóspedes como assunto de Ló, e Ló como responsável por eles.

Isso prepara a acusação do versículo 9, onde o problema deixará de ser os hóspedes e passará a ser o próprio Ló — o estrangeiro que se arvora a decidir quem entra.

"Traga-os para fora"

O verbo é yatsa na forma causativa: fazer sair, trazer para fora.

É a palavra que estrutura o capítulo inteiro, e vale acompanhar o percurso dela, porque o texto a distribui de um modo que não pode ser acidental.

Aqui, no versículo 5, a multidão exige: traga-os para fora, para nós.

No versículo 8, Ló responde com o mesmo verbo: eu as trarei para fora, para vocês. Ele não recusa a estrutura da exigência — aceita a gramática e troca o objeto.

No versículo 12, os mensageiros usam o mesmo verbo dirigindo-se a Ló: tire deste lugar os seus.

No versículo 16, o narrador o emprega para o que os mensageiros fazem: o tiraram e o puseram fora da cidade.

No versículo 17, ao terminarem de tirá-los, vem a ordem de fuga.

Ou seja: o mesmo verbo serve à exigência da multidão, à oferta desesperada de Ló e ao resgate. Tirar para fora é o que todo mundo quer neste capítulo, e o destino do que se tira é que muda tudo.

Registro isso como leitura da composição. O verbo é corrente e a repetição pode ser natural numa narrativa em que gente entra e sai de uma casa. Mas o eixo existe no texto e é visível a quem o lê inteiro.

"para que os conheçamos"

Chega-se à palavra. O hebraico é we-neda otam, do verbo yada, conhecer, com o marcador de objeto direto.

É preciso ir devagar, porque aqui se decide tudo o que se dirá depois.

O que o verbo significa em geral

Yada é um dos verbos mais frequentes do Antigo Testamento — aparece perto de novecentas vezes. O sentido básico é conhecer, saber, perceber, reconhecer.

O campo é largo e vale percorrê-lo, porque ele explica por que o verbo pode ir tão longe.

Conhecer, no hebraico, não é primariamente ter informação sobre alguma coisa. É ter experiência dela. Por isso o mesmo verbo serve para dizer que se conhece uma pessoa, que se conhece o caminho, que se conhece a fome.

Daí decorrem usos que soam estranhos em português. Amós diz que Deus "conheceu" apenas Israel dentre todas as famílias da terra, e o sentido é de escolha, de vínculo. O Salmo 1 diz que o SENHOR "conhece" o caminho dos justos, e o sentido é de aprovação e cuidado. Oseias faz Deus dizer "eu te conheci no deserto".

Em todos esses casos, conhecer é estabelecer relação, não coletar dados.

E é exatamente por causa dessa amplitude que o verbo pôde ser usado, num pequeno número de passagens, para relações sexuais — o modo mais completo de experimentar outra pessoa.

O uso sexual: onde ele ocorre

Convém listar, porque a lista é curta e a discussão depende dela.

Em Gênesis 4:1, "Adão conheceu a sua mulher Eva, a qual concebeu". O sentido é inequívoco, e é a primeira ocorrência do verbo com esse valor na Bíblia.

Em Gênesis 4:17 e 4:25 a mesma construção se repete, com Caim e com Adão de novo.

Em Gênesis 24:16, Rebeca é descrita como virgem, "à qual homem não havia conhecido".

Em Gênesis 38:26, Judá reconhece Tamar e o texto encerra dizendo que "nunca mais a conheceu".

Em Números 31:17-18 e 31:35, a ordem de matar as mulheres "que conheceram homem" e poupar as que não conheceram.

Em Juízes 11:39, a filha de Jefté "nunca conheceu homem".

Em Juízes 21:11-12, a mesma distinção entre as que se deitaram com homem e as quatrocentas virgens.

Em 1 Samuel 1:19, "Elcana conheceu Ana, sua mulher".

Em 1 Reis 1:4, sobre Abisague e o rei Davi: "o rei nunca a conheceu".

E em Juízes 19:25, sobre a concubina entregue à multidão de Gibeá: "e eles a conheceram, e abusaram dela toda a noite".

São cerca de dez a quinze ocorrências, dependendo de como se contam os casos duvidosos, num total de quase novecentas.

Vale extrair a estatística com honestidade, porque ela é usada pelos dois lados da discussão. O uso sexual é raríssimo em termos proporcionais. E, ao mesmo tempo, é perfeitamente estabelecido: ninguém discute que ele exista, e ele aparece justamente no livro do Gênesis, com a construção mais simples possível.

A leitura que propõe "interrogar" ou "identificar"

Existe uma leitura alternativa, e ela merece ser apresentada com seriedade, porque foi feita com seriedade.

Ela ganhou forma acadêmica em meados do século XX, com um autor britânico que propôs entender neda otam como "tomemos conhecimento deles" — ou seja, examinemos quem são, verifiquemos as credenciais desses forasteiros.

Os argumentos a favor são reais e vale enumerá-los.

Primeiro, a estatística: em quase novecentas ocorrências, o verbo significa conhecer no sentido comum, e é anômalo escolher o sentido raro sem necessidade.

Segundo, a jurisdição: o versículo 9 mostra que o problema da cidade com Ló é ele ser um residente estrangeiro que "quer se fazer de juiz". Isso encaixa com uma disputa sobre quem tem autoridade para admitir gente de fora.

Terceiro, o eixo do capítulo: tudo em Gênesis 19 gira em torno de acolher ou não acolher, de quem abre e quem fecha a porta. A hospitalidade é o tema, e a leitura da verificação de credenciais o respeita.

Quarto, Ezequiel: o único texto do Antigo Testamento que enumera o pecado de Sodoma nomeia soberba, fartura e indiferença ao pobre — assunto que combina com xenofobia e não com o que a tradição posterior leu aqui.

As objeções a essa leitura

As objeções são igualmente reais, e é preciso apresentá-las com a mesma seriedade — a maioria dos estudiosos não aceitou a proposta.

A primeira objeção é a mais forte, e vem de três versículos adiante. No versículo 8, Ló oferece as filhas dizendo que elas "não conheceram homem". É o mesmo verbo, na mesma cena, a três frases de distância, e ali o sentido sexual é indiscutível.

Ou seja: o narrador emprega yada duas vezes no mesmo diálogo. Sustentar que na primeira vez significa "interrogar" e na segunda "ter relações" exige uma explicação, e a explicação não é evidente.

A segunda objeção é a oferta em si. Se a multidão quisesse examinar documentos, oferecer duas filhas virgens em lugar dos hóspedes seria uma resposta incompreensível. A troca proposta por Ló só faz sentido se o que se pede for sexual.

O autor da leitura alternativa respondeu que Ló estava em pânico e disse um absurdo. É resposta possível, mas é explicação de circunstância, e explicações de circunstância pesam menos do que a lógica da cena.

A terceira objeção é o paralelo de Juízes 19:22, e é decisiva quanto à construção da frase. Ali os homens de Gibeá dizem: "Tira fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos". É o mesmo verbo de tirar para fora e o mesmo verbo de conhecer, na mesma forma. E o desfecho daquele episódio, narrado em 19:25, não deixa nenhuma dúvida: "e eles a conheceram, e abusaram dela toda a noite".

O relato de Juízes usa a mesma construção e depois a explicita. É o comentário mais antigo que existe sobre o que essa frase pede.

A quarta objeção é a reação de Ló no versículo 7. Ele chama o que está sendo pedido de raah, maldade. Verificar a identidade de forasteiros não seria maldade; seria procedimento.

O balanço

Reunido tudo, o que se pode afirmar com segurança é isto.

O sentido sexual é o mais provável, e por larga margem. O contexto imediato, o uso do mesmo verbo no versículo 8, a resposta de Ló e o paralelo de Juízes convergem, e nenhum dos quatro depende dos outros.

A leitura alternativa não é absurda e não foi feita de má-fé. Ela apontou algo verdadeiro e que estava sendo ignorado: o capítulo inteiro trata de hospitalidade e de direito de asilo, e não de outra coisa. Esse ponto sobreviveu, mesmo depois de a proposta lexical ter sido em grande parte rejeitada.

O que não se pode fazer é decidir a questão pela estatística sozinha. Um verbo raro num sentido continua sendo esse sentido quando o contexto o exige, e aqui o contexto o exige em quatro frentes.

Marco o grau de certeza: não se trata de demonstração, porque o texto não define o verbo. Trata-se de uma convergência forte, e é o máximo que a evidência permite.

Ezequiel 16:49 — o único lugar que diz

Aqui está o dado que precisa aparecer em qualquer tratamento honesto deste versículo.

Em todo o Antigo Testamento, Sodoma é mencionada dezenas de vezes como exemplo de destruição. Mas há um único texto que enumera o que ela fez.

É Ezequiel 16:49, e diz assim: esta foi a maldade da tua irmã Sodoma — ela e as suas filhas tiveram soberba, fartura de pão e abundância de conforto, e nunca ajudaram a mão do pobre e do necessitado.

Quatro itens. Orgulho. Comida em excesso. Ociosidade despreocupada. E a omissão diante de quem passava necessidade.

Nenhum deles é sexual.

Convém agora ser rigoroso, porque este versículo costuma ser citado pela metade, e a metade que falta muda alguma coisa.

O versículo seguinte, 16:50, continua: e se tornaram arrogantes, e fizeram abominação diante de mim, por isso eu as tirei quando vi isto.

A palavra traduzida por "abominação" é toevah. É a mesma palavra de Levítico 18:22.

Então o texto de Ezequiel não é apenas social. Ele lista quatro pecados sociais, e depois acrescenta um termo genérico de reprovação religiosa.

Vale medir o que esse acréscimo permite dizer.

Toevah é palavra de uso amplo em Ezequiel. Ele a emprega para idolatria, para injustiça, para violência, para extorsão — em Ezequiel 18:12, por exemplo, ela aparece na mesma lista que oprimir o pobre e não devolver o penhor. Não é termo técnico para conduta sexual.

Portanto: não se pode afirmar que Ezequiel 16:50 esteja se referindo ao episódio de Gênesis 19. Também não se pode afirmar que não esteja. O texto não especifica, e não é possível decidir.

O que se pode afirmar com segurança é mais modesto e continua importante: quando um profeta de Israel resolveu explicar o que Sodoma tinha feito, ele começou pela soberba, pela fartura e pela indiferença ao pobre — e a maior parte das pregações que citam Gênesis 19 nunca leu essa lista em voz alta.

O que os outros profetas dizem

Vale ampliar, porque o padrão se confirma.

Isaías, no capítulo 1, chama os líderes de Jerusalém de "líderes de Sodoma" e o povo de "povo de Gomorra". E as acusações que ele faz em seguida são: mãos cheias de sangue, injustiça, não fazer justiça ao órfão, não defender a causa da viúva.

Isaías 3:9 diz que declaram o seu pecado como Sodoma, sem disfarçar — o que é acusação de descaramento, sem especificar o pecado.

Jeremias 23:14 compara os profetas de Jerusalém a Sodoma, e as acusações são adultério, andar com falsidade e fortalecer as mãos dos malfeitores.

Amós 4:11 e Deuteronômio 29:23 mencionam a destruição sem nomear a falta. Lamentações 4:6 fala do castigo de Sodoma sem descrever o pecado. Sofonias 2:9 usa a cidade como imagem de ruína.

Recolhido o conjunto, o resultado é claro e não depende de interpretação: nas menções a Sodoma dentro do Antigo Testamento, as acusações explícitas são predominantemente de injustiça social, soberba e descaramento.

Isso não apaga o que Gênesis 19 narra. Mas mostra que os próprios profetas de Israel, ao usarem o nome da cidade, não estavam pensando no que a tradição posterior passou a pensar.

O que o Novo Testamento faz com Sodoma

Convém seguir a linha até o fim, porque também aqui há surpresa.

Jesus menciona Sodoma três vezes nos evangelhos, e sempre no mesmo contexto: cidades que não recebem os mensageiros enviados.

Em Mateus 10:14-15, a instrução é sacudir o pó dos pés ao sair da casa ou cidade que não receber os discípulos — e a sentença é que no dia do juízo será mais tolerável para a região de Sodoma do que para aquela cidade. Em Lucas 10:10-12, a mesma coisa. Em Mateus 11:23-24, Cafarnaum é comparada a Sodoma, que "teria permanecido até hoje" se tivesse visto os mesmos milagres.

Ou seja: o uso que Jesus faz de Sodoma, nos três casos, é sobre recusar acolhida a quem foi enviado.

A Epístola de Judas, no versículo 7, vai por outro caminho: fala de imoralidade sexual e de terem ido "após outra carne". A expressão é debatida. Uma leitura muito defendida observa que o versículo anterior, Judas 6, trata dos anjos que abandonaram a sua própria habitação — e que o par de exemplos pode estar apontando para a transgressão da fronteira entre o humano e o celeste, nos dois sentidos.

Não há consenso sobre essa interpretação. Registro-a como leitura sustentada pelo contexto imediato, sem afirmar que seja a única possível.

A Segunda Epístola de Pedro, em 2:6-8, menciona a destruição das cidades e descreve Ló como atormentado pela conduta dos que o cercavam, sem detalhar a conduta.

E o Apocalipse, em 11:8, usa "Sodoma" como nome simbólico de uma cidade, ao lado de "Egito" — ou seja, como imagem de opressão, e não de um pecado específico.

O que o texto diz

Recolhendo tudo, vale fixar as fronteiras com clareza.

Gênesis 19:5 narra que a população masculina inteira de uma cidade, do jovem ao velho, cercou uma casa e exigiu que o anfitrião entregasse dois hóspedes recém-chegados, declarando o propósito de "conhecê-los".

O sentido sexual dessa declaração é o mais provável, por larga margem, pelas quatro razões já expostas.

O que o texto narra, portanto, é uma tentativa de violência sexual coletiva contra hóspedes protegidos, feita pela cidade inteira, contra estrangeiros sem defesa, e recusada pelo anfitrião como maldade.

O que o texto não diz

Vale enumerar, porque cada item foi acrescentado depois.

O texto não diz nada sobre orientação sexual. A categoria não existia naquele mundo, e uma população inteira — incluindo velhos casados e os genros de Ló, que iam se casar com as filhas dele — não pode ser descrita por nenhuma categoria desse tipo.

O texto não descreve relação consentida entre pessoas. Descreve uma multidão exigindo hóspedes para violentá-los.

O texto não estabelece uma lei nem enuncia um princípio geral. É narrativa, e narrativa não legisla.

O texto não diz que este foi o pecado que causou a destruição. O clamor de 18:20 é anterior à chegada dos mensageiros, e a decisão já estava tomada antes desta noite. O que acontece aqui confirma a avaliação; não a origina.

O texto não menciona Levítico. Levítico 18:22 e 20:13 são outros textos, com o seu próprio contexto e a sua própria discussão, e tratá-los como se fossem o mesmo assunto é confundir gêneros diferentes.

Onde a leitura tradicional foi além

Convém dizer isto com precisão, sem panfleto de nenhum lado.

A leitura tradicional acertou ao reconhecer que a exigência do versículo 5 é sexual. Quem nega isso está forçando o texto.

Ela foi além do texto em três movimentos.

O primeiro foi transformar um episódio de violência coletiva contra estrangeiros numa afirmação sobre uma categoria de pessoas. Do relato de um estupro coletivo tentado não decorre nada sobre relações consentidas, do mesmo modo que do estupro da concubina em Juízes 19 ninguém extrai uma doutrina sobre relações entre homem e mulher.

O segundo foi tomar este capítulo como a definição do pecado de Sodoma, ignorando que o único texto bíblico que enumera esse pecado enumera outra coisa.

O terceiro foi produzir uma palavra — "sodomia" — que fixou a redução na própria língua, e depois usá-la em leis e em sentenças.

Nada disso decorre de Gênesis 19. Decorre de uma história de leitura, e essa história tem datas.

A ironia do verbo

Vale fechar com uma observação que o texto oferece e não comenta.

O verbo que a multidão usa é o verbo de conhecer.

E eles não sabem quem está dentro daquela casa. Chamam os hóspedes de "homens". Exigem, do lado de fora, seres que no versículo 11 os ferirão de cegueira sem sair do lugar.

A cidade pede conhecimento no sentido mais violento que a palavra comporta, e o que ela demonstra é ignorância no sentido mais literal.

E o castigo imediato, dois versículos depois do fim deste diálogo, será exatamente a perda da capacidade de enxergar — a incapacidade de achar a porta que estavam cercando.

Registro como leitura literária. O narrador não a assinala, e é possível que a sequência seja apenas o desenrolar dos fatos. Mas o encadeamento entre o verbo pedido e o sentido perdido está no texto, e é difícil não vê-lo depois de apontado.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os homens da cidade — falam pela primeira vez, e falam no plural, sem que ninguém seja nomeado. Fazem uma pergunta, dão uma ordem e declaram um propósito.

— chamado de fora, tratado como responsável pelos hóspedes. Ainda não respondeu; responderá no versículo 7.

Os dois hóspedes — chamados de anashim, homens, pela multidão. Ninguém do lado de fora sabe quem são.

qara (קָרָא) — chamar, gritar, convocar. A multidão não arromba nem bate: convoca, como quem se julga no direito de ser atendido.

ayyeh (אַיֵּה) — "onde?". A mesma partícula da pergunta que os visitantes fizeram a Abraão em 18:9, sobre Sara.

anashim (אֲנָשִׁים) — homens, varões. A palavra da multidão para os hóspedes; a partir daqui, também a do narrador.

malakhim (מַלְאָכִים) — mensageiros, "anjos". O termo do versículo 1, que a cidade desconhece.

yatsa na forma causativa (הוֹצִיא) — fazer sair, trazer para fora. O verbo que atravessa o capítulo: a multidão exige, Ló repete no versículo 8, os mensageiros o usam no 12 e o cumprem no 16.

yada (יָדַע) — conhecer. Verbo de quase novecentas ocorrências, com o sentido básico de ter experiência de alguma coisa; em cerca de uma dúzia de passagens, relações sexuais.

Gênesis 4:1 — "Adão conheceu a sua mulher Eva, a qual concebeu". A primeira ocorrência do uso sexual do verbo na Bíblia.

Gênesis 19:8 — "duas filhas que não conheceram homem". O mesmo verbo, três frases adiante, em sentido indiscutivelmente sexual.

Juízes 19:22 — a mesma construção, palavra por palavra: tira fora o homem, para que o conheçamos. E o versículo 25 explicita o que isso significou.

Ezequiel 16:49 — o único texto do Antigo Testamento que enumera o pecado de Sodoma: soberba, fartura de pão, ociosidade despreocupada e indiferença ao pobre e ao necessitado.

toevah (תּוֹעֵבָה) — "abominação", termo de reprovação amplo em Ezequiel, usado para idolatria, extorsão e violência. Aparece em Ezequiel 16:50, logo depois da lista.

Derrick Sherwin Bailey — autor britânico que, em 1955, propôs entender neda otam como "tomemos conhecimento deles". A proposta lexical foi majoritariamente rejeitada; o realce que ele deu ao tema da hospitalidade permaneceu.

Filo de Alexandria — pensador judeu do primeiro século, na linha dos que leram o episódio em chave predominantemente sexual, muito antes da tradição cristã posterior.

"Sodomia" — palavra do latim medieval, formada a partir do nome da cidade. Não existe no texto bíblico.

5. Pontos de Ensino

A multidão chama, não arromba. Cercar foi força; chamar é autoridade — quem convoca espera ser atendido.

A pergunta é retórica. Eles sabem onde os hóspedes estão; cercaram a casa por isso.

"Onde estão" repete a pergunta de 18:9. Ali os visitantes perguntaram a Abraão por Sara. A partícula é a mesma.

A cidade os chama de "homens". Não sabe que são mensageiros, e essa ignorância decide o desfecho no versículo 11.

"Vieram a você" atribui a Ló a responsabilidade. Não são hóspedes da cidade; são o problema dele.

"Traga-os para fora" é o verbo que estrutura o capítulo. A mesma forma volta no versículo 8, no 12 e no 16.

Ló aceitará a gramática da exigência. No versículo 8 ele usa o mesmo verbo e apenas troca o objeto.

Yada aparece quase novecentas vezes. O sentido básico é ter experiência de algo, não coletar informação.

O uso sexual é raro e é certo. São cerca de uma dúzia de passagens, começando por Gênesis 4:1.

Houve quem propusesse "interrogar". A leitura tem apoio real: a estatística do verbo, o eixo da hospitalidade e a disputa de jurisdição do versículo 9.

Quatro razões pesam contra ela. O mesmo verbo em sentido sexual no versículo 8; a oferta das filhas; o paralelo de Juízes 19:22 com o desfecho do 19:25; e Ló chamando o pedido de maldade.

O sentido sexual é o mais provável, por larga margem. Não por demonstração, e sim por convergência de indícios independentes.

Ezequiel 16:49 é o único texto que enumera o pecado de Sodoma. Soberba, fartura de pão, ociosidade e a mão que não se estendeu ao pobre.

O versículo seguinte acrescenta "abominação". É termo amplo em Ezequiel, usado para idolatria e injustiça; não especifica conduta.

Os profetas acusam Sodoma de injustiça social. Isaías, Jeremias e Ezequiel, quando detalham, detalham isso.

Jesus cita Sodoma para falar de cidades que não recebem os enviados. É o único uso que os evangelhos fazem do nome.

O texto não fala de orientação. A categoria não existia, e a cena descreve uma cidade inteira, com velhos casados e futuros genros.

A palavra "sodomia" é medieval. Nasceu no latim, a partir do nome da cidade, e não existe na Bíblia.

6. Aspectos Filosóficos

Quando o raro é o certo

A discussão sobre o verbo desta frase é um caso exemplar de um problema geral de método: em que condições se abandona o sentido comum de uma palavra em favor do sentido raro.

A resposta preguiçosa é nunca — o que produziria absurdos, porque o sentido raro existe e é usado.

A resposta correta é: quando o contexto o exige, e quando a exigência vem de mais de uma direção independente. Aqui vem de quatro — a resposta de Ló no versículo seguinte, a oferta das filhas, a mesma palavra em sentido sexual três frases adiante, e o paralelo de Juízes com o desfecho explicitado.

Nenhuma dessas quatro frentes depende das outras, e é essa independência que dá força ao conjunto. Vale reter o critério, porque ele serve para qualquer texto antigo: uma leitura sustentada por indícios que se apoiam mutuamente vale menos do que uma leitura sustentada por indícios que chegam de lugares diferentes.

O que uma palavra faz depois que sai do texto

Do nome desta cidade saiu um substantivo comum, que entrou em códigos legais e serviu de base para condenações durante séculos.

Esse é um fenômeno que merece atenção por si mesmo: um relato particular — uma noite, uma casa, uma multidão — vira categoria geral, e a categoria depois circula sozinha, sem o relato.

Quando isso acontece, algo se perde de forma quase irrecuperável. A palavra passa a carregar o peso moral do episódio e a dispensar os seus detalhes: quem estava lá, o que exatamente foi exigido, quem era a vítima, o que estava sendo violado.

A observação é minha e vale como disciplina: sempre que uma palavra derivada de uma história for usada como argumento, convém voltar à história. Quase sempre ela diz menos, ou diz outra coisa, do que a palavra passou a dizer.

A hospitalidade como fronteira entre a ordem e o seu colapso

Naquele mundo, receber o estrangeiro não era virtude opcional. Era a peça que sustentava a circulação de pessoas num território sem estalagens, sem polícia e sem tribunal para quem vinha de fora.

O que está sendo exigido nesta porta não é apenas violência contra dois indivíduos. É a inversão do dispositivo: o lugar que deveria abrigar transforma-se no lugar do perigo, e quem chega em busca de proteção é justamente quem se torna presa.

Daí vem, provavelmente, a razão de o episódio ter ficado como imagem da cidade condenada. Não é o grau de crueldade que o distingue — a Bíblia narra crueldades piores. É o fato de a crueldade ocorrer exatamente onde a proteção deveria estar garantida.

E vale acrescentar o que os profetas fizeram com isso: quando quiseram acusar Jerusalém de indiferença ao pobre, à viúva e ao órfão, chamaram-na de Sodoma. Eles leram o episódio como falha na proteção do desamparado, e não como outra coisa.

Pedir conhecimento sem saber nada

Há uma ironia estrutural nesta cena, e ela não é ornamento: é o eixo do que acontece a seguir.

O verbo empregado pela multidão é o verbo de conhecer, e no hebraico ele designa a experiência mais completa que se pode ter de alguém.

Mas quem fala não sabe absolutamente nada sobre quem está do outro lado da porta. Vê dois forasteiros e supõe duas presas.

O que a cena expõe é uma forma específica de cegueira: a de quem confunde poder com conhecimento. Ter alguém à mão, poder alcançá-lo, poder fazer o que quiser com ele — nada disso é conhecer, e a distância entre as duas coisas é o que o versículo 11 vai medir, quando a multidão perder até a capacidade de achar a porta.

O que se pode extrair de uma narrativa

Este versículo levanta uma questão de método que vale muito além dele: o que uma história pode ou não pode fundamentar.

Narrativas descrevem casos. Leis enunciam regras. São gêneros diferentes, com formas diferentes de obrigar, e a Bíblia contém os dois.

Quando uma narrativa é usada como se fosse lei, acontecem duas distorções simultâneas. O caso perde o que tem de particular — as circunstâncias, os agentes, o que estava em jogo naquela noite. E a regra ganha uma autoridade que não foi enunciada por ninguém, mas extraída de um episódio por quem o leu.

Digo com clareza: isso não é argumento para tirar força do texto. É argumento para não pedir dele um serviço que ele não presta. O que Gênesis 19 faz é narrar. O que se conclui a partir daí é responsabilidade de quem conclui, e deveria ser assumido como tal.

O incômodo que fica

Convém não terminar com a impressão de que a análise resolveu alguma coisa.

O que este versículo narra é uma tentativa de violência coletiva. O anfitrião vai chamá-la de maldade, e vai em seguida oferecer as próprias filhas em troca — o que é outra atrocidade, e o narrador tampouco a comenta.

A tentação de quem estuda é sentir que compreender neutraliza. Compreender o verbo, o contexto, a instituição da hospitalidade, a história da interpretação — e sair do texto com a sensação de que o problema foi administrado.

Não foi. O relato continua descrevendo uma cidade que cercou uma casa à noite para violentar dois estranhos, e um homem que ofereceu duas filhas para impedi-lo. Nenhum dado filológico altera isso, e a honestidade exige deixar o incômodo onde ele está.

7. Aplicações Práticas

Ler o versículo antes de usá-lo

Este é provavelmente o versículo do Antigo Testamento mais citado por quem nunca o leu inteiro, e certamente um dos mais citados sem o versículo de Ezequiel que o acompanha.

A prática que decorre daí não tem nada de sofisticado: quando um texto for usado como argumento na sua frente — ou pela sua boca —, leia-o no lugar onde ele está, com o que vem antes e depois.

Isso custa dez minutos e desarma a maior parte das citações irresponsáveis, inclusive as próprias. Vale acrescentar que o custo é sempre menor do que o de defender publicamente uma leitura que não se conferiu.

Citar o texto inteiro, inclusive a parte que não ajuda

Ezequiel 16:49 lista soberba, fartura, ociosidade e indiferença ao pobre. É frequentemente citado até aí, e para.

O versículo 50 acrescenta arrogância e "abominação", com um termo que Ezequiel usa para muitas coisas e que não especifica nenhuma.

Quem cita só o 49 está fazendo o mesmo que quem cita só Gênesis 19: escolhendo a metade útil. A disciplina é ler os dois versículos, dizer o que cada um permite afirmar e reconhecer onde a evidência acaba. Isso enfraquece o discurso e fortalece a pessoa que o faz.

Distinguir violência de qualquer outra coisa

O que este versículo narra é uma multidão exigindo dois estrangeiros para violentá-los.

De um estupro coletivo tentado não se extrai nada sobre relações consentidas — do mesmo modo que ninguém extrai, do estupro narrado em Juízes 19, uma doutrina sobre o casamento.

A distinção parece óbvia enunciada assim, e foi ignorada durante séculos. Vale como exercício geral: antes de generalizar a partir de um caso, verifique se o que o caso tem de essencial — aqui, a coerção — sobrevive à generalização. Quase nunca sobrevive.

Reparar em quem está sozinho na cidade

Os dois hóspedes não têm parentes ali, não têm bens, não têm quem responda por eles. É por isso que são alvo.

A multidão não escolheu quem lhe daria trabalho. Escolheu quem ninguém procuraria.

Esse padrão não mudou. Em qualquer lugar, a violência procura quem tem menos capacidade de reagir depois — o recém-chegado, o que não fala a língua, o que não tem a quem recorrer. Saber disso muda o que se olha ao entrar num ambiente novo: a pergunta útil não é quem manda, é quem está desprotegido.

O grupo dá coragem para o que ninguém faria sozinho

Ninguém é nomeado nesta cena. A exigência vem no plural, de um corpo sem rosto, e é feita em voz alta na rua.

Nenhum daqueles homens, sozinho, bateria à porta de um vizinho com esse pedido.

A observação prática é sobre o mecanismo, não sobre a moral: multidões não somam coragens, elas dissolvem responsabilidades. Quem participa sente que a decisão foi de todos, ou seja, de ninguém. Reconhecer esse efeito em si mesmo — no grupo de trabalho, na conversa que se degradou, na piada que se aceitou — é a única forma prática de não ser levado por ele.

Quem exige acesso não conhece ninguém

O verbo que a multidão usa é o de conhecer, e eles não sabem nada sobre quem está lá dentro.

Confundem alcançar com conhecer. Acham que ter alguém à disposição é uma forma de saber quem ele é.

A confusão é antiga e continua ativa em formas mais suaves — a exigência de acesso, de resposta imediata, de explicação; a ideia de que ter direito sobre alguém equivale a compreendê-lo. Não equivale. Conhecer alguém é o oposto de dispor dele, e a diferença aparece exatamente no ponto em que a outra pessoa pode dizer não.

O que a comunidade ensina é o que ela faz de madrugada

O versículo anterior colocou na rua desde os mais jovens até os mais velhos. Este põe na boca deles uma exigência que ninguém precisou explicar a ninguém.

Não houve deliberação registrada, não houve discurso, não houve convencimento. A multidão já sabia o que queria ao chegar.

Isso descreve o modo real como valores se transmitem: não por ensino explícito, mas por prática repetida até virar evidente. Vale como pergunta desconfortável sobre qualquer ambiente do qual se participe — o que ali já é tão comum que ninguém precisa mais justificar?

Onde a evidência acaba, dizer que acaba

Sobre este versículo é possível afirmar muita coisa com segurança e algumas com probabilidade alta, e há pontos em que não é possível decidir.

Que o sentido do verbo é sexual: probabilidade alta, por convergência de quatro indícios independentes, e não demonstração.

Que Ezequiel 16:50 esteja se referindo a este episódio: não é possível decidir, porque o termo empregado é amplo demais.

Distinguir esses graus não é fraqueza de argumentação: é o que separa quem estuda de quem milita. E tem uma vantagem prática — quem marca os próprios limites não precisa recuar depois, porque nunca avançou além do que podia sustentar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O que exatamente a multidão está pedindo?

Que Ló entregue os dois hóspedes, com o propósito declarado de "conhecê-los". O sentido sexual dessa declaração é o mais provável por larga margem, embora não seja demonstrável a partir da palavra isolada.

Por que "conhecer" significaria isso?

Porque no hebraico o verbo yada designa ter experiência de alguma coisa, e não apenas ter informação sobre ela. Daí ele servir, num pequeno número de passagens, para relações sexuais — a começar por Gênesis 4:1, "Adão conheceu a sua mulher Eva".

Quantas vezes o verbo tem esse sentido?

Cerca de uma dúzia, em quase novecentas ocorrências. É raríssimo em proporção, e é perfeitamente estabelecido: ninguém discute que o uso exista.

Alguém já defendeu que aqui significa "interrogar"?

Sim. A proposta ganhou forma acadêmica em 1955, com o autor britânico Derrick Sherwin Bailey, que entendeu neda otam como "tomemos conhecimento deles" — examinar quem são aqueles forasteiros.

Essa leitura tem apoio real?

Tem quatro apoios. A estatística do verbo. A disputa de jurisdição, que o versículo 9 explicita ao acusar Ló de ser um estrangeiro que quer se fazer de juiz. O eixo do capítulo, que é a hospitalidade do começo ao fim. E Ezequiel 16:49, que enumera o pecado de Sodoma sem mencionar nada sexual.

Então por que a maioria dos estudiosos não a aceitou?

Por quatro razões independentes entre si. No versículo 8 o mesmo verbo aparece em sentido inequivocamente sexual, três frases adiante. A oferta das filhas em troca só faz sentido se o pedido for sexual. Juízes 19:22 usa a mesma construção e o versículo 25 explicita o que ela significou. E Ló, no versículo 7, chama o pedido de maldade — verificar identidade de forasteiros não seria maldade.

Sobrou alguma coisa da proposta de Bailey?

Sobrou o que ela apontou de verdadeiro: o capítulo inteiro trata de acolhida e de direito de asilo. Esse ponto entrou definitivamente na discussão, mesmo entre quem rejeita a leitura lexical.

Qual era, então, o pecado de Sodoma?

O único texto do Antigo Testamento que o enumera é Ezequiel 16:49: soberba, fartura de pão, abundância de conforto ocioso, e nunca terem ajudado a mão do pobre e do necessitado. Nenhum item é sexual.

Ezequiel não fala de "abominação" logo depois?

Fala, no versículo 50. A palavra é toevah, a mesma de Levítico 18:22. Mas em Ezequiel ela é usada amplamente — para idolatria, extorsão, violência, opressão do pobre. Não é termo técnico de conduta sexual, e o texto não especifica. Não é possível decidir a que ele se refere.

E os outros profetas?

Isaías chama os líderes de Jerusalém de "líderes de Sodoma" e acusa mãos cheias de sangue, injustiça, abandono do órfão e da viúva. Jeremias 23:14 compara os profetas de Jerusalém a Sodoma por adultério, falsidade e por fortalecer as mãos dos malfeitores. Amós, Deuteronômio, Lamentações e Sofonias mencionam a destruição sem detalhar a falta.

E Jesus, o que diz sobre Sodoma?

Menciona a cidade três vezes, sempre no mesmo contexto: cidades que não recebem os mensageiros enviados. Em Mateus 10:15, em Lucas 10:12 e em Mateus 11:23-24. O uso é sobre recusa de acolhida.

E a Epístola de Judas?

Judas 7 fala de imoralidade sexual e de terem ido "após outra carne". A expressão é debatida. Uma leitura bem sustentada observa que o versículo anterior trata dos anjos que deixaram a sua habitação, e que o par de exemplos pode apontar para a transgressão da fronteira entre o humano e o celeste. Não há consenso.

O texto está falando de orientação sexual?

Não. A categoria não existia naquele mundo, e o versículo anterior colocou na rua a população masculina inteira — do mais jovem ao mais velho, incluindo homens casados e os genros de Ló, que iam se casar com as filhas dele. Nenhuma categoria desse tipo descreve uma cidade inteira.

Então o texto não condena nada?

Condena o que narra: uma tentativa de violência sexual coletiva contra hóspedes protegidos, feita pela cidade inteira contra estrangeiros indefesos. Ló a chama de maldade no versículo 7. O que não se pode fazer é estender a condenação a situações que o texto não descreve.

E Levítico 18:22?

É outro texto, com o seu próprio contexto e a sua própria discussão. Tratá-lo como se fosse a explicação de Gênesis 19 confunde gêneros diferentes: um é lei, o outro é narrativa, e eles não foram escritos para se explicarem mutuamente.

Foi este episódio que causou a destruição da cidade?

Não segundo a ordem do texto. O clamor de 18:20 é anterior à chegada dos mensageiros, e a decisão já estava tomada antes desta noite. O que acontece aqui confirma a avaliação; não a origina.

De onde vem a palavra "sodomia"?

Do latim medieval, formada a partir do nome da cidade. Não existe no texto bíblico. Entre o Gênesis e essa palavra há uma longa história de leitura, que se pode datar — nos escritos judaicos do período do Segundo Templo e em Filo de Alexandria a chave já é predominantemente sexual, e a tradição posterior a consolidou em categoria jurídica.

Por que a multidão usa justamente o verbo "conhecer"?

É a expressão corrente, e há nela uma ironia que o texto não comenta: eles não sabem nada sobre quem está dentro da casa. Chamam os hóspedes de "homens". E no versículo 11 serão feridos de cegueira, perdendo até a capacidade de achar a porta que cercavam.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 4:1E Adão conheceu a sua mulher Eva, a qual concebeu e deu à luz a Caim, e disse: Obtive um homem pelo SENHOR.

A primeira ocorrência do verbo yada em sentido sexual, com a construção mais simples possível.

Gênesis 19:8Eis aqui agora eu tenho duas filhas que não conheceram homem; eu as tirarei fora para vós, e fazei delas como bem vos parecer.

O mesmo verbo, três frases adiante, em sentido indiscutível — e o mesmo verbo de "tirar fora" do versículo 5.

Juízes 19:22E quando estavam jubilosos, eis que os homens daquela cidade, homens malignos, cercam a casa, e batiam as portas, dizendo ao homem velho dono da casa: Tira fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos.

A mesma construção, palavra por palavra. O paralelo mais próximo que a Bíblia oferece.

Juízes 19:25Mas aqueles homens não lhe quiseram ouvir; pelo que tomando aquele homem sua concubina, tirou-a fora: e eles a conheceram, e abusaram dela toda a noite até a manhã, e deixaram-na quando apontava a alva.

O desfecho daquele episódio, com o mesmo verbo, explicitado sem eufemismo.

Gênesis 24:16E a moça era de muito belo aspecto, virgem, à que homem não havia conhecido; a qual desceu à fonte, e encheu seu cântaro, e se voltava.

Outra ocorrência do uso sexual, na fórmula negativa que descreve virgindade.

Juízes 11:39Passados os dois meses, voltou a seu pai, e fez dela conforme seu voto que havia feito. E ela nunca conheceu homem.

A mesma fórmula, aplicada à filha de Jefté.

Amós 3:2Somente reconheci a vós mesmos de todas as famílias da terra; por isso punirei contra vós todas as vossas injustiças.

O mesmo verbo no sentido de escolher e vincular-se. Mostra a largura do campo semântico.

Salmos 1:6Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos maus perecerá.

Conhecer como aprovar e cuidar, não como coletar informação.

Gênesis 18:9E lhe disseram: Onde está Sara tua mulher? E ele respondeu: Aqui na tenda.

A mesma partícula interrogativa, na mesma estrutura: pergunta-se ao anfitrião sobre quem está dentro.

Ezequiel 16:49Eis que esta foi a maldade de tua irmã Sodoma: ela e suas filhas tiveram soberba, fartura de pão, e abundância de conforto; porém nunca ajudaram a mão do pobre e do necessitado.

O único texto do Antigo Testamento que enumera o pecado da cidade.

Ezequiel 16:50E se tornaram arrogantes, e fizeram abominação diante de mim, por isso eu as tirei quando vi isto.

A continuação que costuma ser omitida. "Abominação" traduz toevah, termo amplo em Ezequiel, sem especificação aqui.

Ezequiel 18:12Oprimir o pobre e o necessitado, cometer roubos, não devolver o penhor, levantar seus olhos para os ídolos, praticar abominação,

A mesma palavra toevah na companhia de opressão do pobre e roubo — prova de que o termo não é técnico para conduta sexual.

Isaías 1:10Ouvi a palavra do SENHOR, vós líderes de Sodoma! Ouvi a Lei do nosso Deus, vós povo de Gomorra!

Jerusalém chamada de Sodoma; e o que vem a seguir são acusações de injustiça.

Isaías 1:17Aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo; ajudai ao oprimido; fazei justiça ao órfão; defendei a causa da viúva.

O remédio que o profeta prescreve à cidade que ele acabou de chamar de Sodoma.

Jeremias 23:14Mas nos profetas de Jerusalém tenho vejo coisas horríveis: cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores... Para mim, todos eles são como Sodoma, e seus moradores como Gomorra.

Outro profeta, outra lista, e de novo sem o tema que a tradição posterior fixou.

Mateus 10:15Em verdade vos digo que no dia do julgamento mais tolerável será para a região de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade.

O contexto é o versículo anterior: a cidade que não recebe os mensageiros enviados.

Lucas 10:12E eu vos digo, que mais tolerável será naquele dia para Sodoma, do que para aquela cidade.

A mesma comparação, na mesma moldura de acolhida recusada.

Judas 1:7Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que como aquelas, tendo cometido pecados sexuais, e seguido uma carne ilícita, foram postas como exemplo, recebendo a punição do fogo eterno.

O texto do Novo Testamento que lê o episódio em chave sexual. "Carne ilícita" é expressão debatida, e o versículo anterior trata dos anjos que deixaram a sua habitação.

Levítico 18:22Não te deitarás com homem como com mulher: é abominação.

Texto legal, com o seu próprio contexto. Frequentemente lido junto de Gênesis 19, embora sejam gêneros distintos que não se explicam mutuamente.

Apocalipse 11:8E os cadáveres delas jazerão na praça da grande cidade, que espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde nosso Senhor também foi crucificado.

O nome usado como símbolo de opressão, ao lado do Egito — e não de um pecado específico.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E chamaram Ló, dizendo: “Onde estão os homens que vieram a você esta noite? Traga-os para fora, para que os conheçamos.”

Texto hebraico

וַיִּקְרְאוּ אֶל־לוֹט וַיֹּאמְרוּ לוֹ אַיֵּה הָאֲנָשִׁים אֲשֶׁר־בָּאוּ אֵלֶיךָ הַלָּיְלָה הוֹצִיאֵם אֵלֵינוּ וְנֵדְעָה אֹתָם

Transliteração

wayyiqreu el-Lot wayyomeru lo ayyeh ha-anashim asher-bau eleikha hallaylah hotsiem eleinu we-nedah otam

Palavra por palavra

וַיִּקְרְאוּ אֶל־לוֹט (wayyiqreu el-Lot) — "e chamaram a Ló"

Da raiz qara, קָרָא: chamar, gritar, convocar, proclamar. É o verbo de quem levanta a voz para ser ouvido à distância.

A preposição el indica direção: chamaram a ele, de fora para dentro.

Note-se o que o texto não usa. Não há verbo de bater, nem de forçar, nem de arrombar — isso virá no versículo 9. Aqui há apenas convocação.

אַיֵּה (ayyeh) — "onde?"

Advérbio interrogativo de lugar. Distingue-se de ayyekah, a forma com sufixo que aparece em Gênesis 3:9, quando Deus chama o homem no jardim.

A mesma partícula abre a pergunta dos visitantes a Abraão em 18:9: ayyeh Sarah ishtekha. Duas cenas de hospedagem, duas perguntas ao anfitrião sobre quem está dentro.

הָאֲנָשִׁים (ha-anashim) — "os homens"

Plural de ish, אִישׁ, homem, varão, com o artigo definido.

É a palavra da multidão. O narrador havia usado malakhim, מַלְאָכִים, mensageiros, no versículo 1 — e a partir daqui passará a usar também anashim, nos versículos 10, 12 e 16.

אֲשֶׁר־בָּאוּ אֵלֶיךָ (asher-bau eleikha) — "que vieram a ti"

Asher é o pronome relativo. Bau é a raiz bo, בּוֹא, vir, entrar — o mesmo verbo do versículo 3, quando os hóspedes entraram na casa.

A preposição é decisiva: vieram a ti, e não "à cidade". A multidão atribui os hóspedes a Ló.

הַלָּיְלָה (hallaylah) — "esta noite"

Laylah, לַיְלָה, noite, com o artigo. Em hebraico, o substantivo com artigo pode funcionar como advérbio de tempo: "a noite" equivale a "esta noite", "hoje à noite".

A precisão do dado revela vigilância: a cidade sabe quando os dois chegaram.

הוֹצִיאֵם אֵלֵינוּ (hotsiem eleinu) — "faze-os sair para nós"

Imperativo da forma causativa da raiz yatsa, יָצָא, sair. Na forma causativa (hifil), o sentido é fazer sair, trazer para fora, extrair.

É a mesma forma que Ló usará no versículo 8 ao oferecer as filhas, que os mensageiros usarão no versículo 12, e que o narrador usará no 16 quando eles tirarem a família da cidade.

O sufixo -em é o pronome de terceira pessoa do plural: "faze-os sair". E eleinu, "a nós", marca o destino.

וְנֵדְעָה אֹתָם (we-nedah otam) — "e conheçamo-los"

Da raiz yada, יָדַע, conhecer. A forma é o coortativo de primeira pessoa do plural, que exprime propósito ou exortação: "para que conheçamos", "vamos conhecer".

Otam é o marcador de objeto direto com sufixo de terceira pessoa do plural — a construção que aponta pessoas como objeto do verbo.

O sentido básico da raiz é ter experiência de algo, e não possuir informação a respeito. Daí ela cobrir o conhecimento de uma pessoa, de um caminho, da fome — e, em cerca de uma dúzia de passagens, as relações sexuais.

Aqui, quatro indícios independentes convergem para o sentido sexual: o mesmo verbo em sentido inequívoco no versículo 8, a oferta das filhas em troca, a mesma construção em Juízes 19:22 com desfecho explicitado em 19:25, e a qualificação de raah, maldade, que Ló dá ao pedido no versículo 7.

É convergência forte, não demonstração. O texto não define o verbo, e nenhuma passagem o define.

Nota — a arquitetura da fala

Vale observar como a exigência está construída, porque a ordem das três partes é significativa.

Primeiro uma pergunta cuja resposta eles já têm. Depois um imperativo. Depois um coortativo que declara o propósito.

A pergunta não busca informação: estabelece que quem pergunta tem o direito de perguntar. O imperativo estabelece que quem manda tem o direito de mandar. E o coortativo diz, sem constrangimento, para que serve tudo aquilo.

Não há ameaça nesta fala. A ameaça só aparecerá no versículo 9, depois da recusa. Aqui a multidão fala como quem não espera ser contrariada.

Nota — Ezequiel e o limite do que se pode afirmar

Convém registrar aqui, com precisão, o estado da questão sobre "o pecado de Sodoma".

Ezequiel 16:49 é o único lugar do Antigo Testamento que enumera o que a cidade fez: soberba, fartura de pão, abundância de conforto ocioso, e a mão que não se estendeu ao pobre e ao necessitado.

Ezequiel 16:50 acrescenta arrogância e toevah, "abominação". A palavra é a mesma de Levítico 18:22 — e é também a palavra que Ezequiel 18:12 usa numa lista que inclui oprimir o pobre, roubar e não devolver o penhor.

Daí decorrem três afirmações e um limite.

Primeira: os profetas de Israel, quando detalham a acusação contra Sodoma, detalham injustiça social e soberba. Isso é verificável e não depende de interpretação.

Segunda: Ezequiel acrescenta um termo genérico de reprovação, sem especificar a conduta.

Terceira: Gênesis 19 narra uma exigência de violência sexual coletiva, e isso está no texto.

O limite: não é possível decidir se toevah, em Ezequiel 16:50, se refere ao episódio de Gênesis 19 ou a outra coisa. Quem afirmar qualquer das duas alternativas estará indo além da evidência disponível.

11. Conclusão

Três movimentos compõem esta fala, e a ordem em que aparecem já diz quase tudo sobre quem a pronuncia. Vem primeiro uma interrogação cuja resposta os interrogadores possuem — cercaram a casa justamente porque sabem onde estão os hospedados. Vem depois um imperativo. Vem por último uma forma verbal de propósito, aquela que o hebraico reserva para o que um grupo se propõe fazer em conjunto. Nenhuma ameaça acompanha o conjunto: ameaçar será necessário apenas no versículo 9, quando a recusa aparecer. Nesta altura, quem fala fala como quem não concebe contrariedade, e a estrutura gramatical da frase transmite essa segurança melhor do que qualquer adjetivo transmitiria.

O peso da passagem, porém, concentra-se na última palavra, e é preciso encará-la sem pressa. Yada percorre o Antigo Testamento perto de novecentas vezes com o sentido de tomar experiência de alguma coisa — motivo pelo qual Amós pode dizer que Deus "conheceu" apenas Israel entre as nações, e o primeiro salmo pode afirmar que o SENHOR "conhece" o caminho dos justos. Trata-se de vínculo, não de arquivo. Essa mesma amplitude abriu espaço para que o verbo designasse, numa dúzia escassa de passagens, a união sexual. A raridade proporcional é real e serviu de base para uma proposta acadêmica de meados do século passado, segundo a qual a multidão pediria apenas para averiguar a procedência dos recém-chegados. A hipótese não nasceu de má-fé nem de ignorância: apoiava-se na frequência do verbo, na condição de residente estrangeiro que o versículo 9 atribui a Ló, no fato de que acolher e recusar acolhida constituem o eixo do capítulo inteiro, e na lista de Ezequiel, que nomeia outras faltas.

Quatro obstáculos, contudo, se levantam contra ela, e a força deles está em não dependerem uns dos outros. A três frases de distância, no versículo 8, o narrador emprega o mesmo verbo para dizer que as filhas de Ló não conheceram varão, e ali ninguém discute o sentido. A contrapartida oferecida pelo pai — duas jovens no lugar dos hóspedes — seria resposta ininteligível a um pedido de conferência de credenciais. Gibeá reproduz a construção sílaba por sílaba e, poucas linhas adiante, narra o que ela significou naquela noite, sem qualquer atenuação. E o próprio Ló classificará a exigência como raah, maldade, palavra que não se aplica a um procedimento administrativo. Convergência de quatro frentes independentes é o que existe aqui; demonstração, não, porque nenhuma passagem define o verbo. Quem quiser precisão dirá que a leitura sexual é altamente provável, e essa formulação não é covardia — é o que a evidência sustenta.

Resta então a pergunta que este versículo herdou e que raramente se faz com honestidade: de que a cidade foi acusada? Dentro do próprio Antigo Testamento, uma só passagem responde por extenso. Ezequiel 16:49 elenca arrogância, abundância de alimento, ócio despreocupado e a recusa em socorrer o miserável — quatro itens, nenhum deles sexual. É comum parar a citação exatamente aí, e parar aí seria repetir, com sinal trocado, o vício que se pretende corrigir: o versículo seguinte prossegue falando em soberba e em toevah, o mesmo substantivo que Levítico 18:22 aplica. Ocorre que Ezequiel distribui esse substantivo por idolatria, extorsão, violência e opressão do necessitado, o que impede tratá-lo como rótulo técnico de conduta sexual. Conclusão possível: não se pode determinar a que ele se refere ali. Conclusão igualmente possível e mais interessante: quando os profetas de Israel invocaram o nome daquela cidade, invocaram-no contra a soberba dos poderosos e contra o abandono do pobre — Isaías o fez chamando os chefes de Jerusalém de chefes de Sodoma antes de exigir que defendessem a viúva e o órfão; Jeremias o fez contra profetas adúlteros e mentirosos.

O Novo Testamento acrescenta duas linhas que puxam em direções distintas, e apagar uma delas seria desonesto. Nos evangelhos, as três menções que Jesus faz à cidade ocorrem todas dentro do mesmo assunto: localidades que não recolhem os enviados. Sacudir a poeira das sandálias e seguir adiante, porque no juízo haverá mais tolerância para Sodoma do que para quem fechou a porta. Já a Epístola de Judas fala em imoralidade e em ir "após outra carne", expressão sobre a qual não há acordo — a linha imediatamente anterior trata dos anjos que abandonaram sua morada própria, e diversos leitores entendem que o par de exemplos aponta para a violação da fronteira entre o celeste e o humano. É leitura defensável e não é a única. Registrada como está, sem escolher por conveniência.

Cabe, por fim, delimitar o terreno, porque a maior parte do estrago feito com esta passagem nasceu de não delimitá-lo. Está escrito: a população masculina inteira de um lugar, sem exceção de idade, exigiu que dois viajantes recém-acolhidos lhe fossem entregues, e o anfitrião chamou aquilo de maldade. Não está escrito: nada a respeito de inclinações, categoria que aquele mundo desconhecia e que nenhuma população inteira poderia encarnar — havia ali homens casados, e havia os futuros genros de Ló. Não está escrito: nenhuma regra geral, porque relato não é legislação, e extrair de um estupro coletivo frustrado qualquer conclusão sobre vínculos consentidos equivale a extrair de Juízes 19 uma teoria do matrimônio. Não está escrito: que esta noite tenha motivado a sentença, já que o clamor mencionado em 18:20 antecede a chegada dos mensageiros. O substantivo que a Idade Média formou a partir do nome da cidade não veio do hebraico nem do grego; veio de séculos de leitura, e séculos de leitura podem ser datados, examinados e corrigidos. Sobra, depois de tudo, uma ironia que o narrador não sublinha e que fica difícil de esquecer: aqueles homens exigem conhecer, empregando o verbo mais denso de que a língua deles dispunha, e ignoram por completo quem está atrás daquela porta — a ponto de, seis versículos adiante, perderem a vista e não conseguirem sequer encontrar a entrada que estavam cercando.

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Gênesis 19:5

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