Jacó separava os cordeiros e voltava o rebanho para as crias listradas e todas as escuras do rebanho de Labão. Assim formou rebanhos só para si e não os juntou com o rebanho de Labão.
1. Introdução
Este é o versículo mais confuso do capítulo, e a confusão está no original, não na tradução.
Comentaristas de várias escolas concordam num ponto: a frase hebraica é obscura, e as versões em português diferem entre si porque os tradutores tiveram de escolher entre leituras possíveis.
Três pontos organizam o que se pode dizer com segurança.
O primeiro é a separação. Jacó começa a apartar animais, e é a primeira vez no capítulo que ele faz isso.
O segundo é o posicionamento. Ele volta o rebanho para determinados animais, de modo que fiquem à vista — o mesmo princípio das varas, aplicado a bichos vivos.
O terceiro é a formação de um patrimônio. Pela primeira vez desde que chegou a Harã, Jacó tem rebanhos que a frase chama de "só para si".
Uma nota de método. Onde o texto é duvidoso, este estudo diz que é duvidoso, apresenta as leituras e não escolhe por conta própria.
2. Contexto Histórico e Cultural
Separar rebanhos sem cercas
Vale entender o problema prático que o versículo descreve, porque ele não é óbvio para quem nunca lidou com animais.
Não havia cerca. O pasto era aberto, e a única contenção física disponível era o curral de pedra ou de espinhos onde os animais passavam a noite. Durante o dia, manter dois grupos apartados dependia inteiramente do pastor.
Os recursos eram três. O primeiro é a distância: levar um grupo para uma direção e o outro para outra, com pastores diferentes. O segundo é o hábito: ovelhas e cabras seguem o pastor que conhecem, e reconhecem a voz dele — é essa a base da imagem que João 10:4 usará séculos depois. O terceiro é o cão, presente na criação da região, embora a Bíblia praticamente não fale dele com esse papel.
Um rebanho grande era normalmente dividido em lotes menores, cada um com o seu condutor. O próprio Jacó fará isso em Gênesis 32:16, quando mandar os presentes a Esaú "cada rebanho separadamente", com espaço entre um e outro.
Ou seja: formar rebanhos apartados era operação normal, exigia gente e era trabalhosa. O que este versículo descreve não é um gesto, é uma reorganização.
A composição de um rebanho da região
Ovelhas e cabras andavam juntas, e ainda andam. As duas espécies se complementam: as cabras comem arbustos e folhas altas, as ovelhas rente ao chão, e um rebanho misto aproveita melhor o pasto.
Havia também razão econômica: a ovelha dá lã e gordura, a cabra dá leite, pelo e couro. O motivo pelo qual as cores do acordo eram raras — as ovelhas da região tendendo ao branco e as cabras ao escuro — pertence ao versículo 32 e não se reabre aqui.
O que era ter rebanho próprio dentro do rebanho alheio
Esta é a questão de fundo do versículo, e ela tem lado jurídico.
Um pastor contratado que recebia parte da produção como pagamento acumulava animais que eram dele, e esses animais precisavam ser distinguidos dos do patrão. Sem isso, a conta final seria impossível.
Nos contratos mesopotâmicos, essa distinção se fazia por marcação, por registro escrito e por contagem em datas fixas, diante de testemunhas. Aqui não há nada disso: a única marca é a pelagem, e a única testemunha seria uma conferência que Labão faria algum dia.
Daí a importância do que o versículo descreve. Ao formar lotes fisicamente separados, Jacó cria, com os meios que tem, o equivalente a um registro: não há como confundir o que anda apartado.
Por que a separação também servia à criação
Há um segundo motivo, além da contabilidade, e ele é técnico.
Animais separados não se cruzam. Se as crias marcadas de Jacó permanecessem no meio do rebanho de Labão, os machos delas cobririam as fêmeas de Labão — e o efeito seria produzir mais animais marcados dentro do rebanho errado, que continuariam sendo de Labão.
Apartar os grupos, portanto, é ao mesmo tempo proteger a propriedade e controlar quem cruza com quem. As duas coisas andam juntas neste versículo, e é isso que o torna difícil de resumir numa frase só.
3. Análise Teológica do Versículo
"Jacó separava os cordeiros"
Primeira ação, e é uma novidade no capítulo.
Até aqui Jacó havia fabricado e instalado objetos. Agora ele mexe nos animais: aparta, divide, forma grupos.
O verbo é o de dividir em partes que se afastam uma da outra — o mesmo usado quando Abraão propõe a Ló que se separem, em Gênesis 13:9, e o mesmo que descreve o rio do Éden dividindo-se em braços, em Gênesis 2:10. Não é "escolher": é partir em dois.
Note-se que a palavra traduzida por "cordeiros" designa especificamente ovinos jovens, e não o rebanho todo. A ação começa pelos filhotes de ovelha.
"e voltava o rebanho para as crias listradas e todas as escuras do rebanho de Labão"
Aqui está a metade obscura do versículo, e vale explicar por que ela é obscura.
A frase hebraica diz, literalmente, algo como "e deu a face do rebanho para o listrado e todo escuro no rebanho de Labão". "Dar a face" é virar, orientar, fazer olhar em determinada direção.
O problema é saber de que rebanho se está falando em cada ponto. Se os animais marcados já haviam sido retirados no versículo 35, e se Jacó já está separando os seus, quais são os listrados e escuros "no rebanho de Labão"?
As leituras propostas são basicamente três.
A primeira entende que Jacó posicionava o rebanho uniforme de modo que ele enxergasse os animais marcados — os que iam nascendo e eram dele. É o mesmo princípio das varas, agora com animais vivos no lugar dos objetos. É a leitura de Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX), que descrevem Jacó fazendo o rebanho comum pastar de forma a ter os marcados constantemente à vista.
A segunda entende que se trata dos animais escuros e listrados que ainda restassem entre os de Labão, e que Jacó os usava do mesmo modo.
A terceira, defendida por parte dos comentaristas modernos, sustenta que a expressão "do rebanho de Labão" pode ser um acréscimo posterior, feito por quem copiava e quis esclarecer — e que ela é justamente o que torna a frase incoerente com o versículo 35.
É discutido, e não é possível decidir. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) chama a frase de sentença muito obscura no original, e essa é a avaliação mais honesta disponível.
O que sobrevive a todas as leituras, e por isso pode ser afirmado, é o princípio: Jacó organizava quem olhava para quem.
"Assim formou rebanhos só para si"
Esta é a frase que muda o capítulo, e ela não é obscura.
O verbo é o de estabelecer, dispor, constituir. O objeto é uma palavra que designa lotes de gado, grupos organizados. E a expressão final significa literalmente "para ele, à parte" — separado, isolado, dele só.
Pela primeira vez em catorze anos de narrativa, existe alguma coisa que pertence a Jacó.
Vale medir a distância que o capítulo percorreu. No versículo 30 ele pergunta quando vai trabalhar pela própria casa. No 36, apascenta "o restante" do rebanho de Labão. Aqui, forma rebanhos só para si.
E note-se a palavra "rebanhos", no plural. Não é um lote: são vários. O que existe já não é um punhado de animais marcados, e sim uma estrutura.
"e não os juntou com o rebanho de Labão"
O fecho repete, na negativa, o que a frase anterior disse na afirmativa. Em hebraico esse tipo de reforço é comum e serve para não deixar dúvida.
Mas há um conteúdo prático, e ele é importante. Não juntar significa manter dois rebanhos, com dois roteiros de pasto, dois pontos de água, provavelmente dois grupos de pastores. Custa trabalho e custa gente.
E significa outra coisa, que o texto não comenta: significa que não haverá mistura na hora da conferência. Se Labão vier contar, encontrará os lotes já apartados, cada um do seu lado, sem discussão possível sobre o que pertence a quem.
É a mesma preocupação que aparecia no versículo 33, quando Jacó disse que a honestidade dele responderia por si. Ele continua construindo um arranjo em que não seja preciso acreditar na palavra de ninguém — inclusive na dele.
O que o versículo não diz
Não diz quando isso começou, nem quanto tempo levou.
Não diz se Labão soube. Não diz se houve reclamação.
E não diz nada sobre o efeito de posicionar o rebanho diante dos animais marcados. Assim como no versículo 39, o texto descreve o arranjo e cala sobre o resultado dele — que só aparecerá, e de outra forma, nos versículos 42 e 43.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jacó, agora com rebanho próprio
É a virada de posição dele no capítulo.
Chegou a Harã sem nada, segundo ele mesmo dirá em Gênesis 32:10: "com o meu cajado atravessei este Jordão". Trabalhou catorze anos pelas duas esposas e mais um período pelo rebanho. Neste versículo, pela primeira vez, o texto fala em rebanhos que são dele.
Convém não exagerar o tamanho da mudança. Ele continua sendo empregado de Labão, continua cuidando do rebanho do outro e continua a três dias de distância de qualquer arbitragem. O que mudou é que agora existe alguma coisa a perder.
Os cordeiros
A palavra designa ovinos jovens, e é a mesma que aparece no versículo 35, quando Labão retirou "todas as ovelhas escuras" — literalmente, todo escuro entre os cordeiros.
São eles o ponto de partida da separação. O texto não explica por que os ovinos vêm primeiro; pode ser porque os escuros entre eles eram a categoria mais fácil de identificar à distância.
Os dois rebanhos
A partir deste versículo há, sob os cuidados de Jacó, dois conjuntos distintos.
De um lado, o rebanho de Labão, uniforme, que ele apascenta por contrato. Do outro, os lotes formados com os animais marcados que lhe couberam pelo acordo.
Não confundir com o terceiro grupo, que está a três dias dali com os filhos de Labão desde o versículo 35. Esse não volta mais à história.
Labão, sempre ausente
O nome dele aparece duas vezes neste versículo e ele não faz nada. Desde o versículo 36 está longe e não age; reaparecerá como personagem em Gênesis 31:2, quando Jacó notar que o rosto dele mudou. Neste trecho, o nome funciona como marcador de propriedade, e não como personagem.
5. Pontos de Ensino
Separar é o que torna a propriedade visível
Enquanto os animais de Jacó andassem misturados aos de Labão, a diferença entre eles existia só na cabeça das partes.
Apartar os lotes transforma um direito em fato. Não é preciso discutir, contar nem confiar: os dois grupos estão em lugares diferentes, e qualquer pessoa vê.
O princípio é geral e vale onde o direito é frágil: o que não está separado, na prática, ainda não é seu.
O primeiro patrimônio nasce pequeno e no meio do de outro
O que Jacó forma aqui está dentro da operação de Labão, feito com os animais de Labão, no pasto de Labão, com o trabalho que ele deve a Labão.
Isso descreve a situação de quase todo mundo que começa alguma coisa: o próprio nasce dentro do alheio, sem ruptura e sem anúncio.
A parte difícil não é começar — é a que este versículo mostra: manter separado, dia após dia, o que se está construindo daquilo que continua sendo do outro.
Custa trabalho manter dois rebanhos
Não juntar significa dois pastos, dois roteiros, duas rotinas de água, provavelmente mais gente.
O texto resume tudo isso em cinco palavras, e o resumo esconde o custo. Quem já tentou tocar duas coisas ao mesmo tempo sabe que a dificuldade não está em decidir separar, e sim em pagar o preço da separação todos os dias.
Preparar a conferência antes de ela ser pedida
Rebanhos apartados são uma prestação de contas montada com antecedência.
Quando Labão vier verificar — e ele virá, em Gênesis 31 —, não haverá o que apurar: cada grupo estará do seu lado. Jacó constrói a defesa antes da acusação.
É prática, e não virtude. Quem trabalha em situação de desconfiança e não deixa o próprio registro pronto está apostando na boa memória do outro.
6. Aspectos Filosóficos
Quando o que se cuida passa a ser o que se tem
O versículo levanta uma questão simples de enunciar e difícil de responder: em que momento, exatamente, aqueles animais passaram a ser de Jacó?
Não foi no nascimento, porque nasceram dentro do rebanho de Labão, de fêmeas de Labão, em pasto de Labão. Não foi por compra, porque não houve pagamento. Não foi por doação, porque ninguém entregou nada.
Foi por definição prévia: o acordo do versículo 32 dizia que os animais de certa aparência seriam o salário. A propriedade, aqui, nasce de uma descrição combinada de antemão.
Por que isso é frágil
Porque a descrição vale enquanto as duas partes a reconhecerem.
Não há papel, não há testemunha, não há marca gravada no animal. Há uma conversa entre dois homens, num dia, e a cor da pelagem.
É por isso que a separação física deste versículo importa tanto. Ela é a única coisa que dá corpo ao acordo. Um direito que existe apenas em palavras, entre duas pessoas que já se enganaram, não é um direito muito robusto.
O outro lado da mesma questão
Convém não montar a leitura só do ponto de vista de Jacó.
Do ponto de vista de Labão, o que está acontecendo é que um empregado está construindo patrimônio próprio dentro do rebanho da casa, com métodos que o dono não conhece, a três dias de distância, sem prestação de contas. Não é preciso nenhuma simpatia por Labão para reconhecer que os filhos dele terão um argumento em Gênesis 31:1.
O texto não toma partido. Descreve os dois lados construindo, cada um a seu modo, uma posição de fato — e é dessa colisão que nascerá o capítulo seguinte.
O que fica em aberto
Gênesis não diz se Jacó tinha direito ao que separou.
Não diz se o método era legítimo, não diz se o acordo ainda valia depois do que Labão fez nos versículos 35 e 36, e não diz se a manobra de um justifica a do outro.
Quem quiser um veredito terá de escolher um dos lados por conta própria. O livro apresenta dois homens montando, cada um em silêncio, o arranjo que lhe convém.
7. Aplicações Práticas
Separar antes de precisar provar
A aplicação mais direta é também a mais prosaica: quando o que é seu está misturado ao que é de outro, a hora de separar é antes da discussão, não durante.
Vale para conta bancária de sociedade, para equipamento de trabalho, para material comprado com dinheiro próprio dentro de projeto alheio, para tudo que um dia terá de ser apartado.
A separação feita depois sempre parece manobra. A mesma separação feita antes é organização.
Aceitar o custo de manter duas coisas
Não juntar exige trabalho dobrado, e o versículo passa por cima disso em cinco palavras.
Quem constrói alguma coisa própria enquanto continua cumprindo obrigações com outro paga esse preço todos os dias — em horas, em atenção e em cansaço. Não há atalho, e fingir que há costuma acabar com as duas coisas misturadas de novo.
Começar dentro, sem romper
Jacó não larga o emprego para montar o rebanho dele. Faz as duas coisas ao mesmo tempo, e o texto registra que continuava apascentando o rebanho de Labão.
É um caminho menos heroico e bem mais viável do que a ruptura. A saída dele virá — e virá só quando já houver o que levar.
Desconfiar da frase lisa demais
Quando duas traduções respeitáveis divergem muito no mesmo versículo, quase sempre há uma dificuldade no original. Vale desconfiar de qualquer interpretação que dependa inteiramente de um trecho assim.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que a frase do meio é tão difícil?
Porque o hebraico não deixa claro a que grupo de animais cada expressão se refere, e porque o resultado parece entrar em choque com o versículo 35.
Se Labão retirou todos os animais marcados e os mandou para três dias de distância, a menção a listrados e escuros "no rebanho de Labão" é estranha. Daí as três leituras apresentadas no item 3, e a suspeita de parte dos comentaristas de que essa expressão final tenha sido acrescentada depois por um copista.
É discutido e não há consenso. Qualquer tradução que soe perfeitamente clara neste ponto está resolvendo por conta própria um problema que o original não resolve.
Jacó usou animais vivos como as varas?
É a leitura mais difundida, e ela tem apoio na primeira metade da frase, que fala em voltar o rebanho para determinada direção.
Se for essa a leitura correta, o método seria o mesmo do versículo 38, com uma diferença: em vez de objetos fabricados, os modelos seriam animais reais.
Não é possível afirmar com segurança. E vale notar que, seja qual for a resposta, ela não altera nada do que foi discutido no versículo 39 sobre causa e efeito.
Quantos animais Jacó já tinha nesse ponto?
O texto não informa em nenhum momento.
Fala em "rebanhos", no plural, o que sugere quantidade suficiente para formar mais de um lote. O versículo 43 dirá que ele teve "muitos rebanhos", e Gênesis 32:14-15 listará o presente enviado a Esaú — mais de quinhentas cabeças, e ainda assim apenas uma parte do que ele possuía.
São indícios, não números.
Labão poderia contestar essa separação?
Pelo acordo, não: os animais marcados eram de Jacó por definição.
Na prática, tudo dependia de Labão reconhecer o acordo — e Gênesis 31:7 registra a queixa de Jacó de que o salário foi mudado dez vezes. O que este versículo mostra é Jacó reduzindo a margem para esse tipo de contestação, colocando cada grupo num lugar próprio.
Isso conta como enriquecer às custas de Labão?
Depende de que ponto se olhe, e o texto não decide.
Os animais nasceram no rebanho de Labão, mas eram de Jacó pelo combinado. Labão havia esvaziado o combinado antes, nos versículos 35 e 36. Os filhos de Labão dirão, em Gênesis 31:1, que Jacó tomou tudo o que era do pai deles.
Cada uma dessas afirmações é verdadeira e nenhuma é a história inteira. O Gênesis registra todas e não sentencia.
9. Conexão com Outros Textos
Separar-se para não brigar
Gênesis 13:9 — "Separe-se de mim, por favor. Se você for para a esquerda, eu irei para a direita; se você for para a direita, eu irei para a esquerda."
O verbo de Abraão a Ló é o mesmo que aqui descreve Jacó apartando os cordeiros. Ali a separação evita o conflito entre pastores; aqui, protege uma propriedade que ainda não tem prova.
Gênesis 13:11 — "assim se separaram um do outro."
Rebanhos apartados, cada um por si
Gênesis 32:16 — "Entregou cada rebanho nas mãos dos seus servos, separadamente, e lhes disse: 'Passem à minha frente e mantenham distância entre um rebanho e outro.'"
Jacó voltará a usar exatamente esta técnica — lotes apartados, com espaço entre eles — dois capítulos adiante, com outra finalidade. É o mesmo homem, o mesmo recurso e outra intenção.
O que estava separado desde o começo
Gênesis 2:10 — "Saía do Éden um rio que regava o jardim, e dali se dividia, formando quatro braços."
A mesma raiz hebraica, no primeiro uso do Gênesis: separar é dividir em partes que seguem caminhos próprios.
Estar à parte
Gênesis 2:18 — "Não é bom que o homem fique sozinho."
A expressão "só para si", que aqui descreve os rebanhos de Jacó, é a mesma palavra que ali descreve o homem sozinho. No Gênesis, estar à parte é ora falta, ora posse.
Gênesis 32:24 — "Jacó, porém, ficou sozinho, e um homem lutou com ele até o romper do dia."
A queixa que virá
Gênesis 31:1 — "Jacó ouviu que os filhos de Labão diziam: 'Jacó tomou tudo o que era do nosso pai.'"
A separação descrita neste versículo é exatamente o que os filhos de Labão enxergarão do lado de fora. Um homem formando rebanhos próprios dentro da criação da casa.
O pastor que os animais seguem
João 10:4 — "e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz."
Explica como era possível conduzir grupos separados sem cerca nenhuma. A técnica que este versículo pressupõe é a mesma que aquela imagem descreve.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Jacó separava os cordeiros e voltava o rebanho para as crias listradas e todas as escuras do rebanho de Labão. Assim formou rebanhos só para si e não os juntou com o rebanho de Labão.
Texto hebraico
וְהַכְּשָׂבִים הִפְרִיד יַעֲקֹב וַיִּתֵּן פְּנֵי הַצֹּאן אֶל־עָקֹד וְכָל־חוּם בְּצֹאן לָבָן וַיָּשֶׁת־לוֹ עֲדָרִים לְבַדּוֹ וְלֹא שָׁתָם עַל־צֹאן לָבָן׃
Transliteração
vehakkesavim hifrid Ya'aqov vayyitten penei hatson el-aqod vekhol-chum betson Lavan vayyashet-lo adarim levaddo velo shatam al-tson Lavan
Análise palavra por palavra
וְהַכְּשָׂבִים — vehakkesavim, "e os cordeiros".
A palavra designa ovinos, e nesta forma tende a indicar os jovens. É a mesma que aparece no versículo 35, na expressão "todo o escuro entre os cordeiros".
Note-se que ela vem em primeiro lugar na frase, antes do verbo. Em hebraico, essa ordem invertida costuma marcar ênfase ou mudança de assunto: quanto aos cordeiros, Jacó separou.
הִפְרִיד — hifrid, "separou, apartou".
A raiz é parad, cujo sentido é dividir, apartar, fazer com que duas coisas sigam caminhos diferentes.
A forma verbal é a causativa: fazer separar-se. Não é o sujeito que se afasta, é ele que provoca o afastamento de outros.
O verbo tem ocorrências marcantes. Em Gênesis 2:10 é o rio do Éden que se divide em quatro braços. Em Gênesis 13:9 e 13:11 é a separação entre Abraão e Ló. Em Gênesis 10:5 é a dispersão dos povos pelas terras. E em Provérbios 16:28 é o que o mexeriqueiro faz entre amigos íntimos.
O campo de sentido, portanto, é o da divisão de algo que estava junto — e o resultado dessa divisão pode ser bom ou ruim conforme o caso.
וַיִּתֵּן פְּנֵי הַצֹּאן — vayyitten penei hatson, "e deu a face do rebanho".
Expressão idiomática, e é dela que vem boa parte da dificuldade do versículo.
Panim é "face", "rosto", e a construção "dar a face para" significa voltar-se, orientar-se, dirigir-se a alguma direção. A mesma imagem aparece em 2 Crônicas 20:3, quando Josafá "põe o rosto" para buscar o SENHOR, e em Daniel 9:3, com sentido semelhante.
Aplicada a um rebanho conduzido por um pastor, a expressão descreve o ato de virar os animais para determinado lado.
Vale notar a coerência interna do trecho. No versículo 38 as varas foram postas "de frente" para o rebanho; no 39 os animais entraram no cio "voltados para" as varas; aqui o rebanho tem a face "dada" a certos animais. Três versículos seguidos, três construções diferentes, todas sobre a direção do olhar.
אֶל־עָקֹד וְכָל־חוּם בְּצֹאן לָבָן — el-aqod vekhol-chum betson Lavan, "para o listrado e todo escuro no rebanho de Labão".
O ponto obscuro.
As duas palavras de cor foram examinadas no item 10 do versículo 35 e não se reabrem. O problema não é lexical, é de referência: não se sabe com segurança de que animais o texto está falando, já que os marcados haviam sido retirados.
Repare também que os adjetivos estão no singular, funcionando como coletivos — "o listrado", "todo escuro" —, o que dificulta ainda mais dizer se o texto se refere a indivíduos ou a categorias.
É por isso que parte dos comentaristas modernos considera a expressão "no rebanho de Labão" um acréscimo de copista. A hipótese resolve a dificuldade, e é preciso dizer que ela resolve por remoção, o que é sempre a solução mais fácil e a menos comprovável.
וַיָּשֶׁת־לוֹ עֲדָרִים לְבַדּוֹ — vayyashet-lo adarim levaddo, "e pôs para si rebanhos à parte".
Aqui a frase volta a ser clara, e é a mais importante do versículo.
O verbo é shit, pôr, colocar, estabelecer — parente próximo do verbo usado nos versículos 36, 41 e 42, e como eles um verbo de posicionamento. Vem acompanhado do mesmo "para si" que apareceu no versículo 37, quando Jacó tomou as varas.
Eder é o lote de gado, o grupo conduzido junto. Está no plural: são vários.
E levaddo significa "à parte", "sozinho", "só ele". A palavra vem de uma raiz ligada a separação e aparece em passagens conhecidas: em Gênesis 2:18, "não é bom que o homem fique sozinho"; em Gênesis 32:24, quando Jacó fica sozinho antes da luta noturna; em Deuteronômio 8:3, "nem só de pão viverá o homem".
Reunindo: Jacó estabeleceu para si mesmo lotes apartados. Três marcas de posse e de separação em quatro palavras.
וְלֹא שָׁתָם עַל־צֹאן לָבָן — velo shatam al-tson Lavan, "e não os pôs junto ao rebanho de Labão".
O mesmo verbo de antes, agora na negativa, com o pronome que retoma os lotes.
A preposição al significa aqui "sobre", "junto a", "misturado com". A frase é o reforço negativo da anterior — recurso comum no hebraico, que afirma e depois nega o contrário para não deixar margem.
Note-se que o nome de Labão fecha o versículo, como fechou o versículo 36. Nos dois casos, a última palavra da frase é a marca de quem ainda é dono da maior parte.
11. Conclusão
Do que foi examinado decorrem três conclusões.
A primeira é sobre o estado do texto. Metade deste versículo não é compreensível com segurança, e dizê-lo é parte do trabalho. Não se sabe a que animais a frase do meio se refere, as leituras propostas são três e uma delas supõe que uma expressão tenha entrado no texto por engano de copista. Qualquer tradução perfeitamente clara neste ponto está escolhendo por conta própria — e quem construir uma interpretação apoiada só nesta frase estará apoiando-a em terreno incerto.
A segunda é sobre o que sobrevive a todas as leituras. Seja qual for a solução da frase difícil, o princípio é o mesmo dos versículos anteriores: Jacó organiza o que fica no campo de visão de quem. Ele não força, não impede e não subtrai. Arruma o cenário e deixa o rebanho fazer o que faria de qualquer maneira. Nos versículos 37 e 38 os modelos eram objetos; aqui, se a leitura mais aceita estiver certa, são animais vivos.
A terceira é a virada que o versículo registra sem alarde. Depois de catorze anos em que tudo era de outro, existem rebanhos que o texto chama de "só para si" — no plural, apartados, e com o cuidado explícito de não serem misturados. É o primeiro patrimônio de Jacó, e ele nasce dentro da propriedade alheia, sem ruptura e sem anúncio.
Fica, ao fim, uma colisão que o livro monta e não resolve. De um lado, um empregado que constrói o que é seu conforme um acordo que o patrão já tentou esvaziar. Do outro, uma casa que verá crescer, dentro do próprio rebanho, o patrimônio de um estrangeiro. As duas leituras são possíveis a partir dos mesmos fatos, e Gênesis 31:1 mostrará que a segunda também teve quem a defendesse.













