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Mateus 16:10

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✍️ Por Alberto Adriano·2 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 49 acessos
Nem dos sete pães para os quatro mil, e de quantos cestos vocês recolheram?
Dois cestos lado a lado sobre a areia de uma margem: um pequeno cesto de vime com alça e um cesto grande trançado de corda, com pedaços de pão dentro.

Estudo


Nem dos sete pães para os quatro mil, e de quantos cestos vocês recolheram?

1. Introdução

O versículo repete a pergunta anterior com outros números, e parece só isso.

É o mais curto do trecho e o que menos chama atenção. Nenhum comentário popular se detém nele. E, no entanto, ele guarda um detalhe que quase todo leitor perde, porque desaparece por completo na tradução.

Dois pontos organizam a leitura.

O primeiro é a força da repetição. Não é um argumento reforçado: é um segundo argumento. Se um caso podia ser tratado como excepcional, dois não podem. E o segundo era o mais recente — aconteceu no capítulo imediatamente anterior.

O segundo é a palavra "cesto". No versículo 9 ela traduz um termo grego; aqui, outro. São dois objetos diferentes, de tamanhos diferentes, e os evangelhos jamais os trocam: cada milagre conserva o seu, inclusive nesta recapitulação, feita meses depois. O item 10 desenvolve o assunto.

2. Contexto Histórico e Cultural

O cesto do viajante judeu

Antes do papelão e do plástico, quase tudo o que se transportava viajava em cestaria — vime, junco, palha, folha de palmeira, corda —, e por isso o grego tinha várias palavras para cesto, e não uma só. Distinguir tipos de cesto era tão corriqueiro quanto, para nós, distinguir sacola de mala.

O termo usado no versículo anterior designa um cesto de vime de tamanho moderado, de alça, do tipo que se leva na mão ou pendurado no ombro.

Esse objeto tinha, em Roma, uma associação específica. O poeta satírico Juvenal (poeta romano do fim do século I e começo do II, autor das Sátiras) zomba duas vezes dos judeus da cidade dizendo que toda a mobília deles se resume a um cesto e um pouco de feno. O nome latino do cesto na sátira é o mesmo termo grego, tomado por empréstimo.

A explicação mais aceita é prática. Quem cumpria as regras de pureza alimentar não podia comer o que fosse preparado por qualquer um nem em qualquer recipiente, e a saída era carregar a própria comida. O feno serviria de isolamento, para conservar o calor, ou de forro do cesto — os comentaristas divergem, e não é possível decidir.

O que interessa reter é a imagem: um cesto de mão, de porte pessoal, identificado com o judeu em viagem.

O cesto grande

A palavra deste versículo é outra e designa outra coisa: um cesto grande, trançado de junco ou de corda, do tipo usado para carregar carga.

Era o recipiente do trabalho pesado. Servia para transportar grão, peixe, produto de porto, e para içar e descer volumes com corda. Não é objeto que se leve na mão pelo caminho; é equipamento.

O tamanho pode ser medido por um episódio conhecido: em Atos 9:25, Paulo é descido pela muralha de Damasco dentro de um cesto designado por essa mesma palavra. Cabia um homem adulto.

Onde os dois se cruzam na cena

A diferença de tamanho tem consequência aritmética. Na primeira multiplicação houve mais gente e mais cestos — doze; na segunda, menos gente e menos cestos — sete, e parece que sobrou menos. Só que os sete são do tipo grande, e sete cestos de carga podem perfeitamente conter mais do que doze cestos de mão. Não há como resolver a conta com precisão, porque não se conhecem as medidas exatas de nenhum dos dois objetos; o que se pode afirmar é que a leitura corrente, a de que o segundo milagre foi menor, apoia-se num número que não mede o que se pensa que mede.

3. Análise Teológica do Versículo

"Nem dos sete pães para os quatro mil"

A terceira pergunta encadeia-se à anterior sem verbo próprio, e a economia é proposital.

Em português a frase precisa de muletas para não ficar solta; em grego ela apenas continua a anterior, como quem acrescenta um item a uma lista que o interlocutor já está acompanhando. O efeito é de acumulação.

E o acréscimo pesa mais do que a primeira pergunta, por um motivo simples: este episódio é o mais recente. Aconteceu no capítulo imediatamente anterior, poucos dias antes, com a mesma gente presente.

Os comentaristas antigos notaram isso. O ponto é que a distância no tempo não explica a falha. Não se trata de memória gasta pelos anos — trata-se de um acontecimento ainda quente que não produziu efeito nenhum sobre o modo de raciocinar.

Repare também no que a frase faz com os dois episódios. Ela os mantém separados. Não se diz "das vezes em que houve pão de sobra": diz-se um, depois o outro, cada qual com seus números. O texto trata os dois como acontecimentos distintos e não os funde.

A relação entre os números

Vale parar nas contas, porque elas parecem dizer o contrário do que dizem.

No primeiro caso: cinco pães para cinco mil. No segundo: sete pães para quatro mil. Mais matéria-prima e menos gente.

Se alguém quisesse medir a intensidade dos dois milagres, teria de concluir que o segundo foi menor. E é essa a leitura que costuma ser feita.

Ela é frágil por duas razões. A primeira é que os cestos do segundo caso são de outro tipo, maiores, o que embaralha a comparação do que sobrou. A segunda é mais de fundo: cinco pães para cinco mil e sete para quatro mil são a mesma impossibilidade. Entre uma impossibilidade e outra não há grau.

E é justamente por não haver grau que a repetição funciona como argumento. Não se trata de um caso forte e um fraco: são dois casos do mesmo tipo, e é a quantidade deles que importa.

"e de quantos cestos vocês recolheram?"

A pergunta se repete quase palavra por palavra — quase.

Muda uma coisa, e ela é invisível em português: o substantivo. No versículo anterior é um cesto; aqui é outro, de outro tamanho e de outro uso. Até o pronome interrogativo muda de forma para concordar com ele.

Isso não é preciosismo de tradutor. É a marca de que quem escreveu — e, antes, quem transmitiu a lembrança — sabia distinguir os dois acontecimentos até no detalhe do recipiente. A palavra grega e o alcance dessa constatação são tratados no item 10.

Aqui interessa a consequência para a leitura da cena. Jesus está pedindo aos discípulos que separem dois episódios, e o próprio vocabulário da frase já os separa. O rigor da recapitulação é parte do argumento: não é uma lembrança vaga de dias em que houve fartura, é a exumação de dois fatos precisos, com números e objetos.

Duas provas e nenhuma conclusão

O ponto teológico do versículo está no que ele deixa sem dizer.

Depois de duas demonstrações do mesmo tipo, com participação direta dos envolvidos, o comportamento diante da terceira dificuldade foi idêntico ao da primeira vez. O acréscimo de evidência não mudou nada.

Isso tem alcance maior do que a cena. Se dois casos não bastaram, três provavelmente também não bastariam, e a discussão sobre quantos sinais seriam necessários perde o sentido — o que liga este versículo, por um caminho inesperado, ao pedido de sinal do começo do capítulo. Lá eram adversários pedindo prova; aqui são discípulos que já tiveram duas e continuam calculando.

Convém marcar o limite. O texto não diz que evidência é inútil, nem que ela não deveria convencer. Registra que não convenceu. A conclusão geral, se houver, é de quem lê.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A segunda multiplicação

Mateus 15:32-39, no capítulo imediatamente anterior, e o único episódio que este versículo nomeia.

O que o distingue do primeiro já foi visto: público majoritariamente não judeu, na faixa das cidades gregas a leste do lago, e três dias de permanência antes de a comida acabar. Sete pães, alguns peixes pequenos, quatro mil homens além de mulheres e crianças, sete cestos de sobra.

Um detalhe merece registro porque muda a cena: no primeiro caso foram os discípulos que levantaram o problema da comida; no segundo foi Jesus. Ele diz que tem compaixão da multidão e que não quer despachá-la em jejum, e são os discípulos que respondem com a objeção de que não haveria pães no descampado. Ou seja: já na segunda vez eles reagiram como se a primeira não tivesse acontecido — que é exatamente o comportamento repreendido agora.

A fuga de Paulo em Damasco

Este episódio não tem ligação com a cena, e entra aqui por um motivo só: é o que permite medir o objeto de que o versículo fala.

Atos 9:23-25 conta que, poucos dias depois da conversão de Paulo, houve um plano para matá-lo em Damasco. Os portões da cidade eram vigiados dia e noite. Os discípulos o desceram então pela muralha, à noite, dentro de um cesto — e a palavra empregada é a mesma deste versículo.

A informação é útil e concreta. O recipiente em que sete porções de sobra foram recolhidas na segunda multiplicação é do porte de um em que cabe um homem adulto agachado.

Vale notar que o próprio Paulo conta o episódio em 2 Coríntios 11:32-33 e usa outra palavra, que designa um cesto de cordas trançadas. As duas descrições são compatíveis, e a variação mostra que havia mais de um termo disponível para objetos desse porte.

5. Pontos de Ensino

Duas vezes é diferente de uma vez

A pergunta não acrescenta um detalhe ao caso anterior. Abre um segundo caso.

Um acontecimento isolado admite ser arquivado como exceção, e exceção não obriga a rever nada. Dois acontecimentos do mesmo tipo tiram essa saída: já não é um episódio extraordinário, é um padrão.

É por isso que o versículo existe. Sem ele, a repreensão poderia ser respondida com um encolher de ombros; com ele, não.

A memória recente falha igual à antiga

O segundo episódio era o mais próximo no tempo — dias, não anos.

Disso decorre uma constatação prática: o problema não é a passagem do tempo. Um acontecimento de ontem pode ser tão inoperante quanto um de dez anos atrás, se nada o convocar na hora em que ele faria diferença.

Quem espera que uma experiência forte "dure" por si mesma tem aqui um aviso.

6. Aspectos Filosóficos

Por que dois casos idênticos não convencem

O versículo instala um problema que não é religioso, e sim de teoria do conhecimento. Duas demonstrações do mesmo tipo, presenciadas de perto e com participação ativa, não alteraram o modo de raciocinar de quem as viveu. Por que não?

Thomas Kuhn (historiador e filósofo da ciência norte-americano, 1922-1996) enfrentou exatamente essa pergunta a respeito da ciência, num livro de 1962 chamado A Estrutura das Revoluções Científicas. A resposta dele mudou o modo como se pensa sobre evidência.

O que Kuhn sustenta

A tese central é que os cientistas não trabalham diretamente com fatos. Trabalham dentro do que ele chamou de paradigma: um conjunto de suposições, procedimentos e exemplos que define o que conta como problema legítimo, como dado relevante e como solução aceitável. Enquanto o paradigma funciona, a atividade é o que ele chama de ciência normal — resolver quebra-cabeças dentro das regras estabelecidas, sem questioná-las.

Aparecem então as anomalias: fatos que não encaixam. E aqui está o ponto que interessa. Uma anomalia não derruba um paradigma. Na maioria das vezes ela é ignorada, tratada como erro de medição, adiada, ou absorvida por algum ajuste. Só quando as anomalias se acumulam a ponto de gerar crise é que a mudança acontece — e, quando acontece, tem menos de demonstração e mais de mudança de olhar. Kuhn compara a passagem a uma conversão, e lembra a observação de Max Planck (físico alemão, 1858-1947) de que uma verdade nova costuma vencer não por convencer os adversários, mas por eles morrerem.

Onde isso encontra o versículo

Os discípulos operavam dentro de um quadro perfeitamente razoável: comida se leva, provisão se calcula, quem esquece o pão tem um problema. Esse quadro funcionava para tudo na vida deles e continuava funcionando.

As duas multiplicações eram anomalias. Não foram negadas — pelo contrário, ficaram guardadas com números e detalhes. Mas foram arquivadas em uma prateleira separada, a dos acontecimentos extraordinários, e de lá não interferiam no cálculo do dia seguinte.

É esse arquivamento que a leitura de Kuhn ajuda a explicar. A anomalia não força a revisão sozinha. Ela precisa ser reconhecida como pertencente ao mesmo mundo dos problemas comuns, e é justamente isso que não acontece: o milagre virou memória de milagre, e o pão da travessia continuou sendo assunto de logística.

A pergunta de Jesus, nessa leitura, é uma tentativa de forçar a passagem — de colocar os dois acontecimentos de volta na mesa em que se decide o que fazer hoje. Não é pedido de mais evidência: é pedido de outro uso da que já existe.

Onde a aproximação não vale

Kuhn descreve comunidades científicas ao longo de décadas, com publicações, controvérsias e formação de novas gerações. Aqui há doze homens num barco, num intervalo de poucos dias: a escala é incomparável, e o mecanismo social que ele descreve não tem equivalente na cena. Além disso, os discípulos não tinham teoria nenhuma a defender — tinham hábito. Chamar de paradigma o costume de contar pães é usar a palavra em sentido frouxo, e é o comentarista quem faz a extensão.

E há a diferença que mais importa. Para Kuhn, resistir à anomalia é comportamento racional e até necessário: uma comunidade que abandonasse o quadro a cada dado estranho não conseguiria trabalhar. No versículo, a mesma resistência é repreendida. O evangelho trata como falta o que a filosofia da ciência trata como funcionamento saudável.

Essa divergência é o dado mais interessante da comparação, e não se resolve. Ela sugere que o texto pressupõe algo que Kuhn não pressupõe: que havia, ali, obrigação de rever. De onde viria essa obrigação, o versículo não diz.

A aproximação, portanto, explica um mecanismo plausível e não interpreta o texto. A leitura é do comentarista e vale como tal.

7. Aplicações Práticas

Repetir a mesma prova não muda ninguém

A aplicação mais útil deste versículo é negativa, e contraria o instinto.

Quando alguém não se convence de algo, a reação comum é oferecer mais do mesmo: mais um argumento igual, mais um exemplo igual, mais um dado igual. O versículo mostra dois casos do mesmo tipo produzindo o mesmo resultado, que é resultado nenhum.

O que muda a situação, na cena, não é a terceira demonstração. É uma pergunta que obriga a pessoa a manusear ela mesma o que já sabe. Vale como método: quem quer convencer alguém ganha mais fazendo perguntas sobre a experiência do outro do que acrescentando provas.

Guardar o detalhe, não só o resumo

A distinção entre os dois cestos sobreviveu porque alguém a manteve, sem que ela servisse para nada de imediato.

Isso vale como hábito prático em qualquer registro — de trabalho, de saúde, de decisão importante. O resumo é o que se perde primeiro, porque já vem interpretado. O detalhe bruto é o que permite reconstruir depois, inclusive contra a própria interpretação de hoje.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Houve mesmo duas multiplicações, ou é o mesmo relato contado duas vezes?

Esta é a questão mais discutida do trecho, e ela merece ser exposta inteira.

A favor de um só acontecimento pesam três coisas. A estrutura dos dois relatos é quase idêntica, passo a passo. Os discípulos fazem, no segundo, a mesma objeção do primeiro, o que soa implausível. E Lucas e João trazem apenas uma multiplicação, não duas.

A favor de dois acontecimentos pesam outras três. Mateus e Marcos, que trazem os dois relatos, tratam-nos como distintos e os recapitulam separadamente aqui, com números que não se confundem. Os públicos e os lugares são diferentes. E há o detalhe do vocabulário: cada episódio conserva a sua palavra para cesto, em todas as ocorrências, sem uma única troca — o que é difícil de explicar se os dois relatos vierem da mesma lembrança.

Esse último ponto é o mais forte do lado de quem sustenta dois acontecimentos, e costuma ser o menos citado.

Ainda assim, não é decisivo. Quem defende um só acontecimento pode responder que a diferença de palavra nasceu na transmissão, ao longo do caminho pelo qual cada versão andou, e que se fixou depois. É resposta possível, embora exija supor que a fixação tenha sido perfeita nas onze ocorrências.

Não é possível decidir com o material disponível. O que se pode dizer com segurança é que o texto que temos conta dois e trata dois como dois.

Os números doze e sete têm significado?

Leituras simbólicas foram propostas desde os primeiros séculos: doze para as tribos de Israel, sete para a totalidade das nações. Elas se encaixam bem com a diferença de público entre os dois episódios.

É preciso dizer, porém, que nenhum evangelho faz essa ligação. Ela é acréscimo de quem interpreta. Pode estar certa e continua sendo proposta, não dado.

9. Conexão com Outros Textos

O episódio recapitulado

Mateus 15:34-37 — "E Jesus disse-lhes: Quantos pães tendes? E eles disseram: Sete, e uns poucos peixinhos... E comeram todos e se saciaram; e levantaram, do que sobrou dos pedaços, sete cestos cheios."

A fonte dos dois números deste versículo. É ali que a palavra grega para o cesto grande aparece pela primeira vez em Mateus.

A versão com as respostas

Marcos 8:20 — "E, quando parti os sete entre os quatro mil, quantos cestos cheios de pedaços levantastes? E disseram-lhe: Sete."

Marcos usa, nesse versículo, exatamente a mesma palavra que Mateus usa aqui — e, no versículo anterior, exatamente a outra. A distinção atravessa os dois evangelhos sem uma falha.

O cesto que carrega um homem

Atos 9:25 — "Tomando-o, porém, de noite, os discípulos o desceram, dentro de um cesto, pelo muro."

A única ocorrência da palavra fora dos relatos de multiplicação, e a que dá a medida do objeto.

2 Coríntios 11:32-33 — "Em Damasco, o governador... guardava a cidade dos damascenos, para me prender. E foram-me descidas numa cesta por uma janela da muralha, e assim escapei das suas mãos."

O mesmo episódio contado pelo próprio Paulo, com outra palavra grega — a de um cesto trançado de cordas. Não há contradição; há dois modos de nomear um objeto do mesmo porte.

O cesto no Antigo Testamento grego

Salmo 81:6 — "Tirei de sobre os seus ombros a carga; as suas mãos ficaram livres dos cestos."

Na tradução grega do Antigo Testamento, a palavra usada nesse versículo para o cesto do trabalho forçado no Egito é a mesma do versículo 9. É uma das poucas pistas do uso do termo antes do Novo Testamento, e aponta para carga leve carregada à mão.

A objeção que se repetiu

Mateus 15:33 — "E os seus discípulos disseram-lhe: Donde nos viriam num deserto tantos pães, para saciar tal multidão?"

A frase que torna a repreensão inevitável. É a segunda vez que a fazem, e não há no texto nenhum sinal de que se lembrem da primeira.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Nem dos sete pães para os quatro mil, e de quantos cestos vocês recolheram?

Texto grego

οὐδὲ τοὺς ἑπτὰ ἄρτους τῶν τετρακισχιλίων, καὶ πόσας σπυρίδας ἐλάβετε;

Transliteração

oude tous hepta artous tōn tetrakischiliōn, kai posas spyridas elabete?

Análise palavra por palavra

οὐδὲ — oude, "nem". A mesma partícula que ligava as duas perguntas do versículo anterior, agora encadeando a terceira.

A frase inteira depende dos verbos do versículo 9 e não tem verbo próprio até o fim. Em grego isso é natural e elegante; em português exige que se repita "nem se lembram".

τοὺς ἑπτὰ ἄρτους τῶν τετρακισχιλίων — tous hepta artous tōn tetrakischiliōn, "os sete pães dos quatro mil".

Construção idêntica à do versículo anterior, com os números trocados. Tetrakischilioi é composto de tetrakis, "quatro vezes", com chilioi, "mil".

O paralelismo é perfeito, e é ele que faz a comparação saltar aos olhos de quem lê em grego: duas frases com o mesmo desenho, os mesmos artigos, a mesma ordem — e uma única palavra diferente no fim.

πόσας σπυρίδας — posas spyridas, "quantos cestos".

Aqui está o achado do versículo, e ele precisa ser exposto com calma.

As duas palavras para cesto

O grego do Novo Testamento usa dois termos distintos nos relatos de multiplicação, e nunca os mistura.

O primeiro é kophinos, o do versículo 9. Designa um cesto de vime de tamanho moderado, com alça, de uso pessoal. Aparece seis vezes no Novo Testamento — em Mateus 14:20, Mateus 16:9, Marcos 6:43, Marcos 8:19, Lucas 9:17 e João 6:13 — e todas as seis se referem ao mesmo acontecimento, a multiplicação dos cinco pães.

O segundo é spyris, o deste versículo. A palavra vem de uma raiz ligada a torcer, enrolar, trançar, e designa um cesto grande, de junco ou corda, próprio para carga. Aparece cinco vezes: Mateus 15:37, Mateus 16:10, Marcos 8:8, Marcos 8:20 e Atos 9:25. As quatro primeiras se referem à multiplicação dos sete pães; a quinta é a fuga de Paulo em Damasco.

Somando: onze ocorrências, dois acontecimentos, e nenhuma troca. Nem quando os episódios são narrados, nem quando são recapitulados aqui, meses depois, nem quando outro evangelho conta a mesma recapitulação.

O detalhe gramatical que confirma

Há um sinal a mais, e ele é involuntário, o que o torna interessante.

Kophinos é palavra masculina; spyris é feminina. Por isso o pronome interrogativo muda de forma entre um versículo e outro: posous no versículo 9, posas aqui.

Ou seja: a distinção não está só na escolha do substantivo. Ela contamina a gramática da frase inteira. Quem quisesse trocar uma palavra pela outra teria de mexer também no pronome — e ninguém, em onze passagens, mexeu.

O tamanho de cada um

A diferença de porte é a razão de existirem duas palavras, e há dois indícios independentes sobre ela.

Para spyris, o indício é direto: em Atos 9:25 cabe um homem adulto, descido pela muralha de Damasco. Não é objeto de mão.

Para kophinos, o indício vem de fora da Bíblia. O poeta romano Juvenal, nas Sátiras, associa duas vezes o cesto de vime — pelo nome latino tomado do grego — aos judeus pobres de Roma, que carregavam nele a própria comida. É objeto pessoal, de porte de bagagem de mão.

Na tradução grega do Antigo Testamento, kophinos aparece no Salmo 81:6 para os cestos do trabalho forçado no Egito, o que aponta na mesma direção: carga que se leva nas mãos.

O que se pode e o que não se pode concluir

Convém separar o dado da interpretação, porque este é um ponto em que se costuma exagerar.

O dado é firme: são duas palavras, com dois sentidos distintos, aplicadas a dois episódios, sem cruzamento em onze ocorrências.

A interpretação mais comum é que isso demonstra dois acontecimentos históricos distintos, guardados por testemunhas que sabiam de qual estavam falando. É leitura defensável e forte, e é o argumento mais concreto de que dispõe esse lado da discussão.

Mas ela não é a única possível. Também se pode sustentar que a distinção de vocabulário se fixou cedo na transmissão de cada relato e depois foi conservada com fidelidade, sem que isso decida a questão histórica de fundo. Não é possível decidir entre as duas explicações apenas com o vocabulário.

O que se pode afirmar sem risco é mais modesto e ainda assim notável: quem transmitiu esses textos foi cuidadoso com uma diferença que não tinha função teológica nenhuma, que ninguém notaria, e que a tradução apaga por completo.

ἐλάβετε — elabete, "vocês tomaram, receberam".

O mesmo verbo do versículo anterior, no mesmo tempo. A repetição é literal e mantém o efeito: os cestos são postos nas mãos dos discípulos, não descritos de longe.

11. Conclusão

O versículo mais curto do trecho é também o que carrega o dado mais concreto. Dele decorrem três conclusões.

A primeira diz respeito à força do argumento. Um caso podia ser arquivado como exceção; dois do mesmo tipo não podem, e o segundo era o mais recente de todos. A repetição não reforça a primeira pergunta — instala um padrão, e é contra um padrão que os discípulos estavam raciocinando quando calcularam pão.

A segunda diz respeito ao que a evidência consegue fazer. Duas demonstrações diretas, com participação física dos envolvidos, não alteraram o comportamento diante da terceira dificuldade. Segue daí que o obstáculo não estava do lado dos fatos, e que acrescentar um terceiro caso provavelmente não resolveria. O texto registra isso e não explica onde estava o obstáculo.

A terceira nasce de uma palavra que a tradução não consegue mostrar. Os dois episódios chegaram ao texto com recipientes diferentes, e essa diferença foi conservada em todas as vezes em que qualquer evangelho os mencionou, inclusive na gramática das frases. Isso não prova a questão histórica em disputa, mas estabelece um fato verificável: a transmissão preservou um detalhe sem utilidade e sem brilho. Detalhes assim são o tipo de coisa que se perde primeiro quando um relato é reconstruído de memória.

Fica de pé, sem resposta no texto, a pergunta que o versículo levanta ao ser lido junto com o começo do capítulo. Ali adversários pediam um sinal e ouviram que nenhum lhes seria dado. Aqui discípulos receberam dois e continuaram como antes.

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