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Mateus 22:38

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 4 acessos
Este é o grande e primeiro mandamento.
Mestre de pé no pátio do Templo, com a mão levantada num gesto de quem conclui uma frase, diante de um grupo atento.

Estudo


Este é o grande e primeiro mandamento.

1. Introdução

Jesus devolve ao perguntador o adjetivo que ele usou e acrescenta um que ninguém pediu.

A pergunta foi por um mandamento "grande". A resposta diz "grande" e diz também "primeiro" — e as duas palavras não significam a mesma coisa. Uma classifica por peso; a outra, por ordem.

No Textus Receptus, a ordem das duas é "primeiro e grande"; nos textos críticos, "o grande e primeiro". A ABC traduz na segunda ordem, e isso merece registro.

Jesus poderia parar aqui. A pergunta está respondida, o adjetivo foi devolvido, a frase está fechada. O que vem no versículo seguinte é acréscimo dele.

2. Contexto Histórico e Cultural

Na oração judaica, esse mandamento era literalmente o primeiro. A confissão de fé recitada de manhã e à noite é composta de três trechos, e a ordem deles não é a da Bíblia: Deuteronômio 6:4-9 vem antes de Deuteronômio 11:13-21, que vem antes de Números 15:37-41. Como os trechos não são vizinhos na Torá e não são recitados na sequência em que aparecem nela, a Mishná (a primeira grande coleção de leis judaicas, compilada por volta do ano 200) teve de explicar a ordem. A explicação está no tratado Berakhot ("Bênçãos"), capítulo 2, parágrafo 2, e é atribuída a Rabi Josué ben Korchah.

O jugo do Reino antes do jugo dos mandamentos. A pergunta de Rabi Josué é: por que o trecho que começa com "ouve, Israel" vem antes do trecho que começa com "se vocês obedecerem aos meus mandamentos"? A resposta: "para que a pessoa primeiro aceite sobre si o jugo do Reino dos céus, e só depois aceite sobre si o jugo dos mandamentos". E ele continua, explicando por que o segundo trecho vem antes do terceiro: porque o segundo vale de dia e de noite, e o terceiro, que trata das franjas da veste, vale só de dia.

Essa passagem é o paralelo mais exato que existe para a frase deste versículo. A tradição judaica tinha um sentido técnico para a primazia desse texto, e o sentido era de ordem na aceitação: reconhecer de quem se é, antes de receber o que se deve fazer. "Primeiro" não queria dizer "mais importante do que os outros", queria dizer "aquele sem o qual os outros não começam". O registro é posterior ao Evangelho, e por isso não serve como fonte de Jesus; serve como evidência de que a ideia circulava no mesmo ambiente.

"Jugo" não era palavra depreciativa. A imagem é a da canga que se põe no boi, e no vocabulário religioso judaico ela descreve submissão assumida, não opressão sofrida. Aceitar o jugo do Reino dos céus é o ato pelo qual alguém se reconhece súdito de Deus, e era precisamente isso que a recitação diária fazia. O próprio Mateus usa a palavra em sentido positivo, em Mateus 11:29-30, onde Jesus oferece o seu jugo como suave.

O mandamento "primeiro" no Decálogo é outro texto. Quem perguntasse a um judeu do primeiro século qual era o primeiro mandamento poderia ouvir como resposta a abertura das dez palavras, que em Êxodo 20:2-3 diz "eu sou o SENHOR, o teu Deus" e "não terás outros deuses diante de mim". Jesus não cita nenhuma das dez — o ponto está desenvolvido no estudo de Êxodo 20:1. O que vale acrescentar é a consequência para esta palavra: ao chamar de "primeiro" um mandamento que não é o primeiro do Decálogo, a resposta desloca o critério de primazia da posição no texto para a função no conjunto.

Dizer qual é o primeiro era posição de escola. Marcos 12:28 põe a palavra "primeiro" já na pergunta: "qual é o primeiro de todos os mandamentos?". Em Mateus, a pergunta foi por um mandamento grande, e "primeiro" é palavra que entra com a resposta. A diferença é pequena no sentido e grande na dinâmica da cena: em Marcos, Jesus responde no vocabulário do interlocutor; em Mateus, ele acrescenta ao vocabulário do interlocutor.

Como se encerrava uma resposta. No debate público entre mestres, a sentença que classificava a resposta — "este é o grande", "esta é a regra" — funcionava como fecho, assinalando que o parecer estava dado e que a questão se considerava resolvida. A frase deste versículo tem essa forma. E é por isso que o versículo seguinte surpreende: a resposta estava formalmente encerrada quando Jesus voltou a falar.

3. Análise Teológica do Versículo

"Este é"

O pronome aponta para trás, e há uma pergunta legítima sobre o que exatamente ele alcança. Aponta para o versículo de Deuteronômio como texto? Para o ato de amar Deus? Para a tríade inteira, com os três "todos"?

A diferença não é escolástica. Se o pronome aponta para o texto, o grande mandamento é uma passagem da Escritura, e cumpri-lo é obedecer ao que ela diz. Se aponta para o ato, o grande mandamento é uma disposição, e o versículo citado é apenas a sua formulação mais conhecida. A segunda leitura é a mais natural em português e a mais comum na pregação; a primeira é a que corresponde ao que o especialista havia perguntado, já que ele perguntara por um mandamento dentro da Lei.

O grego não resolve a ambiguidade, e nenhum dos comentaristas clássicos a levanta. Fica registrada como ambiguidade real, com consequência no modo de usar a frase.

"o grande"

Este é o adjetivo que veio na pergunta, devolvido na resposta. O perguntador quis saber que mandamento é grande na Lei; a resposta diz qual é, usando a mesma palavra.

Devolver o termo do interlocutor é uma forma de aceitar a pergunta nos termos dela. Jesus não corrige a premissa de que a Lei tem graus, não discute se é legítimo ordenar mandamentos, não adverte contra o ranqueamento. Ele responde. E essa aceitação, que passa quase sem ser notada, é a decisão teológica mais importante do versículo: a Lei, conforme esta resposta, não é um bloco de preceitos todos iguais.

O que complica é o artigo. No Textus Receptus não há artigo nenhum: a frase diz "este é primeiro e grande mandamento". Nos textos críticos há artigo: "este é o grande e primeiro mandamento". Vincent registra a presença do artigo e não vai além. A diferença de sentido é pequena e não é nula — sem artigo, a frase classifica o mandamento numa categoria; com artigo, ela o identifica como único. A ABC traduz com artigo.

"e primeiro"

Esta é a palavra nova. Ninguém a pediu, e ela não é sinônimo da outra.

O que ela significa foi discutido com cuidado pelos comentaristas, e as respostas se agrupam em três.

Primeira leitura: "primeiro" quer dizer o mais importante. É a posição de Barnes, para quem a palavra se refere à importância e não à ordem no tempo, e que acrescenta um argumento: este mandamento é a fonte dos demais, porque amar Deus ordena corretamente o afeto por todas as outras coisas. Nessa leitura, "primeiro" e "grande" dizem a mesma coisa duas vezes, e a repetição é ênfase.

Segunda leitura: "primeiro" quer dizer anterior, no sentido de fundamento. Gill chama este mandamento de primeiro "em natureza, tempo, dignidade e causalidade" — isto é, ele vem antes porque os outros dependem dele, não porque pese mais na balança. Bengel desdobra ainda mais: o mandamento é o maior em necessidade, extensão e duração, e é primeiro "em natureza, ordem, tempo e evidência". Nessa leitura, as duas palavras dizem coisas diferentes: "grande" classifica por peso, "primeiro" por precedência.

Terceira leitura: "primeiro" é termo de ordenação prática, e a tradição judaica dava a ele sentido técnico. É a leitura que o paralelo da Mishná sustenta: a confissão de fé é recitada primeiro para que a pessoa aceite o jugo do Reino antes do jugo dos mandamentos. "Primeiro" seria, então, o que precisa ser aceito antes para que o resto faça sentido — nem o mais pesado, nem o mais antigo, mas o que abre a porta.

A segunda e a terceira leituras são compatíveis e se reforçam; a primeira é a mais fraca, porque torna a palavra redundante e não explica por que Jesus a acrescentaria. Mas o versículo não permite decidir, e o próprio Pulpit Commentary se contenta em notar que a ordem correta das palavras é "grande e primeiro", sem explicar a segunda.

A ordem das duas palavras

No Textus Receptus está escrito "primeiro e grande"; nos textos críticos, "o grande e primeiro". A ABC, que segue o Textus Receptus em Mateus, traduz nesta passagem na ordem dos textos críticos — "o grande e primeiro mandamento". É uma divergência entre a tradução e a sua base, e vale dizê-la em voz alta, porque o leitor que conferir o grego vai encontrar a outra ordem.

A ordem muda algo? Pouco, e não nada. "Primeiro e grande" começa pela precedência e usa "grande" como reforço. "O grande e primeiro" começa respondendo exatamente o que foi perguntado — o adjetivo da pergunta vem na frente — e só então acrescenta a palavra nova. A segunda ordem é mais eficaz como resposta; a primeira é mais eficaz como declaração. O Pulpit Commentary cita a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) nessa segunda forma: hoc est maximum et primum mandatum ("este é o máximo e primeiro mandamento").

O que o versículo faz na estrutura da resposta

Ele fecha. A pergunta foi feita, o texto foi citado, a classificação foi dada. Se o Evangelho terminasse o episódio aqui, não faltaria nada do ponto de vista da conversa — o perito recebeu o parecer que pediu, e com uma palavra de brinde.

É esse fechamento que torna visível o que acontece em seguida. O versículo 39 de Mateus 22 começa com "e o segundo", quando ninguém havia perguntado por um segundo. Barnes e o Pulpit Commentary notam a gratuidade do acréscimo; Bengel diz que Jesus responde mais do que lhe foi perguntado para que o perito não descuidasse do amor ao próximo. A observação de Bengel é interpretação de motivo e não está no texto. O dado que está no texto é mais seco: a resposta estava completa, e ele continuou.

O limite

Chamar um mandamento de primeiro e grande não diz o que acontece com os outros. O versículo não os revoga, não os rebaixa a conselho, não os declara dispensáveis — e o versículo 40 deste capítulo vai na direção contrária, afirmando que a Lei inteira pende dos dois, isto é, continua pendurada e continua valendo. Quem usa este versículo para dispensar o resto da Lei usa só metade da frase de Jesus, e o próprio Mateus fecha essa porta ao registrar, em Mateus 5:19, a advertência contra desfazer os mandamentos menores.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Rabi Josué ben Korchah. Mestre judeu do século II, cuja explicação da ordem dos trechos da confissão de fé ficou registrada na Mishná. É dele a formulação "primeiro o jugo do Reino dos céus, depois o jugo dos mandamentos", que é o paralelo mais próximo da palavra "primeiro" deste versículo. Não é contemporâneo da cena; representa a linguagem em que a primazia desse texto era pensada no mesmo meio.

Os três trechos da confissão. Deuteronômio 6:4-9, Deuteronômio 11:13-21 e Números 15:37-41. Recitados nessa ordem, que não é a da Bíblia, e cuja justificativa a Mishná registra. O mandamento que Jesus chama de primeiro está no primeiro deles.

O Decálogo. Entra aqui por contraste. O primeiro mandamento das dez palavras é outro texto, e Jesus não o cita. Chamar de primeiro um mandamento que não ocupa a primeira posição na lista mais conhecida da Lei é escolha com consequência.

O especialista na lei. Continua em cena, calado. Ele ouviu o que pediu — um mandamento grande — e recebeu também uma palavra que não pediu. Em Mateus ele não responde nada; em Marcos 12:32-33 ele responde e é elogiado.

O pátio do Templo. Mesmo lugar, mesma reunião de fariseus, mesma multidão. A frase é dita em voz alta diante de gente que recitava aquele texto duas vezes por dia.

5. Pontos de Ensino

1. "Grande" e "primeiro" não são a mesma coisa. Uma palavra classifica por peso, a outra por precedência. Um mandamento pode ser o mais pesado sem ser o primeiro, e pode ser o primeiro sem ser o mais pesado. A frase diz as duas coisas, e quem lê só uma perde metade.

2. Primazia aqui é de fundamento, não de hierarquia de cargos. As leituras mais sólidas entendem "primeiro" como aquilo de que o resto depende. É a mesma lógica da explicação judaica da ordem da oração: reconhecer de quem se é, antes de receber o que se deve fazer.

3. A resposta aceita que a Lei tem graus. Jesus não corrige a premissa do perguntador. Isso tem consequência doutrinária: segundo esta resposta, os mandamentos não são todos equivalentes, e ordená-los não é desrespeito.

4. Aceitar graus não é autorizar descarte. O versículo não diz nada contra os outros mandamentos, e o versículo 40 de Mateus 22 afirma que a Lei inteira continua dependendo destes dois. O primeiro sustenta o resto; não o substitui.

5. O primeiro mandamento, nesta resposta, não é o primeiro do Decálogo. A primazia vem da função no conjunto, e não da posição na lista. Quem procura o centro da Lei pela ordem em que os textos aparecem procura no lugar errado.

6. A resposta estava completa, e ele continuou. Este versículo fecha o parecer. O que vem depois é acréscimo não solicitado — e é por causa desse acréscimo que o episódio ficou conhecido como a resposta sobre dois mandamentos, e não sobre um.

6. Aspectos Filosóficos

O que significa dizer que um amor vem antes dos outros?

O teólogo norte-americano Edward Collins Vacek, jesuíta, dedicou um livro a essa pergunta: Love, Human and Divine ("Amor Humano e Divino", 1994). O alvo dele é uma posição que, segundo ele, dominou a ética cristã do século XX — a de que o essencial do cristianismo é o amor ao próximo, e o amor a Deus é apenas o motivo que o alimenta, ou mesmo outro nome para ele.

Vacek sustenta que isso inverte o que os textos dizem. Amar Deus, para ele, é um ato próprio, com objeto próprio, e não um modo de falar sobre a solidariedade humana. Reduzir o primeiro mandamento ao segundo transforma a religião em ética, e Vacek considera essa redução a maior perda da teologia moral recente.

Para sustentar isso, ele precisa de uma ferramenta: a ideia de que os amores se ordenam. Um ser humano ama muitas coisas — pessoas, trabalho, país, a si mesmo, Deus — e esses amores não convivem sem conflito. Haver uma ordem entre eles significa que, quando colidem, há um que decide. É nesse sentido que Vacek lê a primazia do amor a Deus: não como o único amor legítimo, mas como o que ordena os outros.

Posta diante deste versículo, a leitura funciona bem, e o próprio texto a favorece em dois pontos. O primeiro é a palavra "primeiro", que não é sinônimo de "único": há um segundo mandamento logo em seguida, e ele não é cancelado pelo primeiro. O segundo é a tríade do versículo anterior, que pede a pessoa inteira — o que só faz sentido se os outros amores dessa pessoa tiverem de ser reordenados, e não eliminados.

Vacek acrescenta um ponto que vale pela sua estranheza. Para ele, a relação com Deus descrita pelo Novo Testamento não é bem descrita por nenhum dos dois modelos usuais — nem o desejo que sobe, nem a doação que desce —, mas por um terceiro: a amizade, que é mútua e na qual as duas partes recebem algo. Ele insiste que Deus, nos textos, é afetado pelo que a criatura faz, e que uma relação em que só um lado é afetado não é amor em sentido pleno. A tese é discutida e tem adversários sérios, porque toca na questão de Deus poder ou não ser afetado — e vale marcar que este versículo não a decide: ele manda amar, e não descreve o que acontece em Deus quando alguém o ama.

Resta a objeção mais prática ao esquema de Vacek, e ela é a seguinte. Uma ordem entre amores só é útil se houver um procedimento para aplicá-la, e ele não existe. Quando o cuidado com um filho doente e um compromisso religioso se excluem na mesma manhã, dizer que o amor a Deus é primeiro não informa o que fazer — e a resposta mais comum da tradição cristã, de que cuidar do filho é o amor a Deus naquele momento, reabre pela porta de trás exatamente a redução que Vacek combate.

O versículo não resolve o impasse. Ele afirma uma precedência e não dá o procedimento. O que ele exclui, isso sim, é a posição oposta: que não haja ordem nenhuma e que todos os amores de uma pessoa estejam no mesmo plano, a serem equilibrados conforme a circunstância. A palavra "primeiro" fecha essa porta.

7. Aplicações Práticas

Saber o que vem primeiro só serve quando duas coisas se excluem. Numa semana sem conflito, toda ordem de prioridades é decorativa. Ela existe para o dia em que dois compromissos legítimos não cabem juntos — e, nesse dia, quem nunca definiu a ordem decide pelo que grita mais alto.

O primeiro não é o único. Este versículo é citado com frequência para justificar o abandono de deveres concretos em nome da devoção. Ele não autoriza isso: há um segundo mandamento na frase seguinte, e o versículo 40 de Mateus 22 diz que a Lei inteira continua pendendo dos dois. Primazia é o que ordena o resto, não o que o dispensa.

Reconhecer antes de obedecer. A explicação judaica da ordem da oração — o jugo do Reino antes do jugo dos mandamentos — descreve uma sequência que vale na prática. Obediência sem adesão produz a religião que o próprio Mateus denuncia, de lábios perto e coração longe; e adesão sem obediência produz sentimento sem efeito. A ordem importa porque a primeira sustenta a segunda, e não o contrário.

Desconfie da sua própria lista de prioridades. A ordem real de alguém não é a que ele declara: é a que aparece na agenda, no extrato bancário e no que ele faz quando está cansado. O exercício útil é comparar as duas listas uma vez por ano e olhar a diferença sem desculpa.

Responder mais do que foi perguntado é, às vezes, a coisa certa. A resposta estava completa neste versículo. O acréscimo que vem depois é o que impediu que a frase fosse usada para separar a devoção do trato com as pessoas — e esse acréscimo foi feito a quem tinha vindo testar. Nem toda generosidade depende de o interlocutor merecê-la.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. "Primeiro" significa primeiro em importância ou primeiro em ordem?

As duas leituras existem e os comentaristas se dividem. Barnes fica com importância; Gill e Bengel preferem precedência — o mandamento vem antes porque os outros dependem dele. A segunda leitura tem a vantagem de não tornar a palavra redundante, já que "grande" já dava a importância. O texto não decide, e as duas podem valer ao mesmo tempo.

2. Por que a ABC traduz "o grande e primeiro" se o Textus Receptus diz "primeiro e grande"?

Essa é uma divergência real entre a tradução e a sua base, e não há como contorná-la. O Textus Receptus, em Scrivener e em Estêvão, traz a ordem inversa e sem artigo. A tradução segue a ordem dos textos críticos, que é também a da Vulgata. A diferença de sentido é pequena, e o leitor que confere o grego precisa saber disso.

3. Se este é o primeiro, os outros mandamentos perderam valor?

Não, segundo o próprio Mateus. O versículo seguinte acrescenta um segundo mandamento semelhante, o versículo 40 diz que a Lei e os Profetas pendem dos dois — isto é, continuam dependurados —, e Mateus 5:19 adverte contra desfazer os menores. A frase ordena; não revoga.

4. Jesus está dizendo que o amor a Deus é mais importante que o amor às pessoas?

Está dizendo que é primeiro, e chamando o segundo de semelhante. O que ele não faz é opor um ao outro, e também não explica o que fazer quando os dois parecem exigir coisas diferentes. A pergunta prática fica em aberto no texto, e a tradição cristã a respondeu de maneiras muito diversas.

5. O que é o "jugo do Reino dos céus" que a Mishná menciona?

É o nome dado ao ato de se reconhecer súdito de Deus, que a recitação diária da confissão realizava. A imagem da canga indica submissão assumida, não castigo — o próprio Mateus usa a palavra em sentido favorável em Mateus 11:29-30. O paralelo é posterior ao Evangelho e ilustra a linguagem do meio, sem ser fonte dele.

6. Por que o Evangelho não registra reação do especialista a esta frase?

Mateus simplesmente não a registra, e o homem não volta a falar neste evangelho. Em Marcos 12:32-33 ele responde, aprova e acrescenta que amar vale mais que holocaustos, e ouve de Jesus que não está longe do Reino. Qual dos dois relatos preserva a cena não é possível decidir.

9. Conexão com Outros Textos

A palavra "primeiro" já na pergunta, em Marcos

Marcos 12:28 — "Qual é o primeiro de todos os mandamentos?"

Marcos 12:31 — "E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes."

Marcos acrescenta uma frase que Mateus não tem: a de que não há mandamento maior do que os dois juntos.

O primeiro mandamento das dez palavras é outro texto

Êxodo 20:2-3 — "Eu sou o SENHOR, o teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim."

O que o mandamento primeiro exclui

Mateus 6:24 — "Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro."

A consequência prática da primazia, dita em outro lugar do mesmo evangelho.

"Primeiro" como termo de ordem na boca de Jesus

Mateus 6:33 — "Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas."

Mateus 23:26 — "Fariseu cego! Limpe primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo."

Nos dois casos, "primeiro" indica o que precisa vir antes para que o resto funcione — e não o que vale mais.

O jugo, em sentido favorável

Mateus 11:29-30 — "Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para a sua alma. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve."

A advertência contra dispensar os mandamentos menores

Mateus 5:19 — "Portanto, qualquer um que desobedecer a um destes mandamentos, ainda que dos menores, e assim ensinar às pessoas, será chamado o menor no Reino dos céus; mas aquele que os cumprir e ensinar, esse será chamado grande no Reino dos céus."

Amar Deus como primeira exigência, no próprio Deuteronômio

Deuteronômio 11:13 — "E será que, se diligentemente obedecerdes aos meus mandamentos que hoje vos ordeno, de amar o SENHOR vosso Deus e de o servir de todo o vosso coração e de toda a vossa alma…"

O trecho que, na oração judaica, vem imediatamente depois do que Jesus citou — e é a essa ordem que a explicação da Mishná se refere.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Este é o grande e primeiro mandamento.

Texto grego (Textus Receptus)

αὕτη ἐστὶ πρώτη καὶ μεγάλη ἐντολή.

Transliteração

hautē esti prōtē kai megalē entolē.

Análise palavra por palavra

αὕτη (hautē) — "esta". Pronome demonstrativo feminino, concordando com entolē, que em grego é palavra feminina. Em português a concordância se desfaz, porque "mandamento" é masculino, e a ABC traduz "este". O pronome aponta para o que acabou de ser dito, mas o grego não precisa qual é o referente — se o texto citado, se o ato de amar.

ἐστί (esti) — "é". Terceira pessoa do presente do verbo ser. O Textus Receptus de Scrivener traz a forma curta, esti; o de Estêvão e os textos críticos trazem estin, com a consoante final. É variação ortográfica antiga, condicionada pelo que vem depois, sem efeito no sentido.

πρώτη (prōtē) — "primeira". Adjetivo ordinal, do qual vem o prefixo "proto-" em português. O campo de sentido cobre tanto a ordem — o primeiro de uma série — quanto o grau: o principal, o mais importante. Essa dupla possibilidade é a raiz da discussão sobre o versículo. Em Mateus a palavra aparece em sentido de ordem em Mateus 10:2, "o primeiro, Simão", e em sentido de posição de honra em Mateus 20:27, "quem quiser ser o primeiro entre vocês". Marcos 12:28 e 12:29 usam a mesma palavra.

καὶ (kai) — "e". Liga os dois adjetivos, que ficam assim coordenados e não subordinados: o mandamento é as duas coisas, e não uma delas por causa da outra.

μεγάλη (megalē) — "grande". O mesmo adjetivo, no mesmo grau normal, que o perguntador usou no versículo 36. A resposta devolve a palavra da pergunta.

ἐντολή (entolē) — "mandamento, preceito". A palavra da pergunta, repetida. No Textus Receptus ela vem sem artigo, e o mesmo vale para os dois adjetivos: literalmente, "esta é primeira e grande ordem". Nos textos críticos há artigo antes do primeiro adjetivo — "a grande e primeira" —, e Vincent registra essa presença. Sem artigo, a frase classifica; com artigo, identifica.

Variantes

Esta é a variante com mais consequência de tradução em todo o trecho, e convém dizê-la com clareza.

O Textus Receptus — tanto a edição de Estêvão, de 1550, quanto a de Scrivener, de 1894 — lê prōtē kai megalē entolē: "primeira e grande ordem", sem artigo. Os textos críticos leem hē megalē kai prōtē entolē: "a grande e primeira ordem", com artigo e com os adjetivos em ordem inversa. A diferença tem apoio manuscrito dos dois lados e não altera doutrina nenhuma; altera a sequência em que o leitor recebe as duas palavras.

A ABC, que segue o Textus Receptus no Novo Testamento, traduz este versículo na ordem dos textos críticos e com o artigo: "Este é o grande e primeiro mandamento". É divergência entre a tradução e a sua base textual, e fica registrada. O Pulpit Commentary observa que a leitura correta é "o grande e primeiro", e cita a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV): hoc est maximum et primum mandatum ("este é o máximo e primeiro mandamento") — note que o latim ainda vai além e põe o adjetivo no superlativo, o que nenhum dos textos gregos faz.

11. Conclusão

O versículo é curto e deixa três conclusões.

A primeira é que a resposta aceita a premissa da pergunta. Jesus não discute se a Lei pode ser ordenada: ele a ordena. Isso o afasta da posição que a tradição judaica defendeu com mais insistência — a de cuidar do mandamento leve como do pesado — e o aproxima da outra, que também era antiga, de que há um texto do qual tudo depende.

A segunda é que a palavra acrescentada muda a natureza da afirmação. "Grande" responde à pergunta; "primeiro" diz algo que não foi perguntado, e o que esse algo é não está definido no texto. As leituras mais sólidas o tomam como precedência de fundamento: o mandamento que vem antes porque sem ele os outros não começam. A tradição judaica tinha essa mesma ideia e a expressava com a imagem do jugo aceito em duas etapas.

A terceira é sobre o que a primazia não faz. Ela não cancela nada. O mandamento é chamado de primeiro num discurso que logo acrescenta um segundo, declara os dois semelhantes e afirma que a Lei inteira e os Profetas continuam pendurados neles. Primazia, aqui, é função de sustentação — e uma base que dispensasse o edifício não seria base.

Fica registrada, por fim, uma divergência de texto que o leitor tem o direito de conhecer: a ABC traduz este versículo na ordem dos textos críticos, enquanto a base que ela segue no Novo Testamento traz a ordem inversa e sem artigo. O sentido sobrevive às duas formas; a informação, não, e por isso ela está no item 10.

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