📖 Navegar na Bíblia:
‹

Mateus 22:39

›
✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 2 acessos
E o segundo, semelhante a ele, é: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo.’
Dois homens de túnica frente a frente num pátio de pedra, um deles estendendo a mão ao outro, com o Templo ao fundo.

Estudo


E o segundo, semelhante a ele, é: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo.’

1. Introdução

O achado deste versículo é uma só palavra: "semelhante".

Ninguém pediu um segundo mandamento. Jesus o acrescenta e, ao acrescentá-lo, faz algo que vai além de citar mais um texto: declara que ele é da mesma natureza que o primeiro.

A frase citada vem de Levítico 19:18, e a sua carga está analisada em Mateus 19:19. Aqui o que está em jogo é a articulação — o que significa dizer que o amor ao próximo é parecido com o amor a Deus, e por que isso era novidade.

Há também um detalhe de texto com consequência: o Textus Receptus diz "semelhante a ele", e os textos críticos trazem uma forma que pode ser lida como "um segundo, semelhante, é este" — o que aproxima ainda mais os dois.

2. Contexto Histórico e Cultural

Alguém já havia juntado esses dois mandamentos? A pergunta é importante, porque dela depende saber se a resposta de Jesus repete uma ideia corrente ou inaugura algo. E ela não tem resposta limpa.

O que existe de mais próximo, e o problema que ele tem. Os Testamentos dos Doze Patriarcas são um conjunto de discursos de despedida atribuídos aos doze filhos de Jacó, provavelmente escritos em grego entre o século II a.C. e o século I d.C. No Testamento de Issacar, capítulo 5, o patriarca manda aos filhos: "guardem a lei de Deus, adquiram a simplicidade, andem sem malícia, não bisbilhotem os mandamentos de Deus nem os negócios do próximo; mas amem o Senhor e o seu próximo, tenham compaixão do pobre e do fraco". E no capítulo 7 do mesmo texto ele diz, em retrospecto: "amei o Senhor com toda a minha força; e igualmente amei cada homem como aos meus próprios filhos".

O par está ali, e é notável. O problema é de transmissão: os Testamentos chegaram até nós em manuscritos gregos copiados por cristãos, e há trechos abertamente cristãos no meio deles. Quanto do conjunto é judaico antigo e quanto é reescrita cristã posterior está em disputa há mais de um século, sem solução. Por isso o paralelo não serve como prova de que o par circulava no judaísmo antes de Jesus: ele pode ser exatamente o contrário, o eco de uma fórmula cristã inserida no texto judaico.

O que é sólido: a divisão em duas esferas. Fílon de Alexandria, filósofo judeu contemporâneo de Jesus que escreveu em grego no Egito, faz uma afirmação que resiste a qualquer dúvida de transmissão, porque está no corpo da sua própria obra. No tratado De Specialibus Legibus ("Das Leis Especiais", livro 2, parágrafo 63), ele diz que os inúmeros preceitos particulares da Lei se reduzem a duas cabeças: a conduta para com Deus, governada pela piedade e pela santidade, e a conduta para com os homens, governada pela filantropia — o amor aos seres humanos — e pela justiça. Cada uma dessas duas, acrescenta ele, se ramifica em muitas virtudes.

A estrutura é a mesma da resposta de Jesus: dois princípios, um voltado para Deus e outro para as pessoas, dos quais todo o resto deriva. A diferença é que Fílon nomeia virtudes, e Jesus nomeia dois versículos; Fílon fala de piedade e de filantropia, e Jesus usa a mesma palavra, "amarás", para os dois lados. Os tradutores do grego de Fílon costumam anotar que ele mesmo deixa aberta a possibilidade de haver outras cabeças além dessas duas — ou seja, a divisão é a dele, não um dado herdado.

Quem era o "próximo" em Levítico. O versículo que Jesus cita vem de uma lista de leis sobre a convivência, e o próprio texto define o alcance na primeira metade da frase: "não se vingue nem guarde rancor contra os filhos do seu povo". O próximo de Levítico 19:18 é, antes de tudo, o compatriota. Dezesseis versículos adiante, no mesmo capítulo, a ordem é repetida com outro destinatário: o estrangeiro que mora com vocês será tratado como o natural, "e você o amará como a si mesmo, porque foram estrangeiros na terra do Egito" (Levítico 19:34).

O alcance estreitado, num texto do mesmo período. A comunidade que deixou os manuscritos do Mar Morto fechou a definição em vez de abri-la. A Regra da Comunidade, documento de organização interna encontrado em Qumran, manda amar todos os filhos da luz e odiar todos os filhos das trevas, cada um conforme a sua parte no desígnio de Deus. Isso mostra que a pergunta sobre a extensão do mandamento estava viva e tinha respostas opostas no judaísmo do primeiro século. O próprio Mateus registra, em Mateus 5:43, uma fórmula de mesmo teor, "amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo", que ele apresenta como algo que se dizia.

Por que Levítico, e não o Decálogo. Um mestre que quisesse resumir os deveres entre pessoas tinha à mão a segunda metade das dez palavras, com os mandamentos sobre matar, furtar, adulterar e cobiçar. Jesus não vai lá. Ele vai a um capítulo de Levítico que trata de respigar o campo, de não maldizer o surdo, de não pôr tropeço diante do cego, de pagar o salário no mesmo dia. É de dentro desse material miúdo e concreto que ele tira o segundo mandamento — e não da lista solene.

3. Análise Teológica do Versículo

"E o segundo"

Há um segundo porque Jesus decidiu que haveria. A pergunta do versículo 36 de Mateus 22 foi por um mandamento, no singular, e o versículo 38 já tinha dado a resposta e a fechado. Barnes registra que o perito não perguntou por um segundo mandamento; o Pulpit Commentary observa o mesmo. Bengel vai além e supõe o motivo — guardar o homem de descuidar do amor ao próximo —, o que é interpretação de intenção e não está escrito.

O que está escrito é um número. Chamar o mandamento de "segundo" faz duas coisas ao mesmo tempo, e elas tiram em direções contrárias. Põe-no depois: não é o primeiro, e a ordem é afirmada. E põe-no na mesma lista: é o segundo item de uma enumeração que começou com o amor a Deus, e não um assunto diferente. Se Jesus quisesse separar os dois planos, bastava mudar de vocabulário — dizer, por exemplo, que além dos mandamentos há o dever para com as pessoas. Ele conta.

"semelhante a ele"

Esta é a palavra decisiva, e ela não estava em jogo em nenhum lugar antes. Em que sentido o segundo é parecido com o primeiro? Três leituras foram propostas, e cada uma afirma algo diferente.

Primeira leitura: semelhante em dignidade e importância. É a posição de Barnes, para quem a semelhança está na importância, na dignidade, na pureza e na utilidade — e que acrescenta, para marcar o ponto, que nenhum mandamento sobre circuncisão ou sacrifício é maior do que este. Nessa leitura, a palavra nivela: o segundo vale tanto quanto o primeiro.

Segunda leitura: semelhante em natureza e em extensão. É a de Meyer, que sustenta que o mandamento tem a mesma qualidade do primeiro e por isso é igualmente radical e fundamental. O Pulpit Commentary lê na mesma direção, apontando a semelhança na natureza e no alcance — universal, puro, desinteressado — e lembrando que a palavra usada é a do amor que se ordena, não a do afeto espontâneo. Nessa leitura, a semelhança está no tipo do ato: os dois mandamentos pedem a mesma coisa, mudando o destinatário.

Terceira leitura: semelhante por derivação. É a de Gill, que coloca o segundo depois do primeiro em natureza, em tempo, em dignidade e em causalidade, porque o seu objeto é uma criatura e porque ele decorre do amor a Deus. Nessa leitura a palavra não nivela: ela indica parentesco entre desiguais. Bengel dá a essa ideia a sua imagem mais conhecida — o amor ao próximo se parece com o amor a Deus mais do que qualquer outro dever, como a lua se parece com o sol mais do que as estrelas.

As três são defensáveis, e o versículo não permite decidir. O que ele exclui é a leitura oposta, de que os dois mandamentos pertencem a planos sem relação: a palavra "semelhante" fecha essa porta, qualquer que seja o grau de semelhança que se lhe atribua.

Por que isso era novidade

Não porque o mandamento de Levítico fosse desconhecido — era citado e discutido. Nem porque fosse estranho reduzir a Lei a dois campos: a divisão entre deveres para com Deus e deveres para com os homens existia, e Fílon a formulou com clareza no mesmo período.

A novidade está em três coisas juntas, e elas não aparecem juntas em nenhuma fonte judaica anterior que se possa datar com segurança. Primeiro, o par é feito de dois versículos nomeados, e não de duas categorias de virtude. Segundo, os dois versículos começam com a mesma palavra, "amarás", de modo que o dever para com Deus e o dever para com o vizinho recebem o mesmo verbo. Terceiro, e mais importante, o segundo é declarado semelhante ao primeiro — isto é, não é uma consequência secundária, é um mandamento do mesmo tipo.

Marcos 12:31 fecha a resposta com uma frase que Mateus não tem: "não há outro mandamento maior do que estes". O plural é do texto. Em Marcos, os dois juntos ocupam o topo.

"Amarás o teu próximo como a ti mesmo"

O mandamento é o de Levítico 19:18, e o que ele faz com a lista em que aparece, a medida tirada de quem obedece e a sua carreira como resumo da Lei no Novo Testamento estão desenvolvidos no estudo de Mateus 19:19.

Resta uma questão que aquele estudo não trata, e que é de leitura do hebraico. A frase de Levítico não liga o verbo ao próximo da maneira esperada: em vez de pôr o próximo como objeto direto do verbo amar, como o hebraico faz em quase todos os outros lugares, ela usa uma preposição — algo como "amarás ao teu próximo". A construção é incomum, e isso abriu duas leituras minoritárias entre hebraístas. Uma entende que a preposição suaviza o verbo, de modo que a ordem seria "seja amoroso para com o teu próximo", isto é, aja com amor, sem exigir o sentimento. A outra, mais ousada, separa as duas últimas palavras do resto e as lê como frase própria: "ame o teu próximo — ele é como você", em que a semelhança deixaria de ser a medida do amor e passaria a ser o seu motivo.

Nenhuma das duas é a leitura corrente, e nenhuma é absurda. A segunda tem a seu favor que o capítulo de Levítico insiste, no versículo 34, na identidade de condição — "porque foram estrangeiros na terra do Egito" —, que é exatamente o argumento do "ele é como você". A tradição e a esmagadora maioria das traduções, incluindo a Septuaginta e o grego dos evangelhos, leem "como a ti mesmo", e é essa a leitura que o Novo Testamento consagrou. Registra-se a alternativa porque ela existe e porque muda o sentido: numa, a régua é você mesmo; na outra, a razão é que o outro é gente como você.

O que o versículo não diz

Não diz quem é o próximo. A pergunta sobre a extensão do mandamento não é feita aqui — ela aparece em Lucas 10:29, na boca de um perito em lei que quer se justificar, e a resposta é a parábola do samaritano. Em Mateus, o mandamento é citado sem definição de alcance, e quem o lê trazendo de fora a sua própria definição está preenchendo um espaço que o texto deixou vazio.

E não diz o que fazer quando os dois mandamentos parecem pedir coisas diferentes. A palavra "semelhante" cria o problema sem resolvê-lo: se o segundo é da mesma natureza do primeiro, ele não pode ser simplesmente sacrificado em nome dele — e a história do cristianismo está cheia de casos em que foi.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O próximo. Em Levítico 19:18, o compatriota — o texto o define na primeira metade da frase, "os filhos do seu povo". No mesmo capítulo, no versículo 34, a ordem é estendida ao estrangeiro residente. No Evangelho, o mandamento é citado sem definição de alcance, e a pergunta "quem é o meu próximo?" aparece em outro episódio, registrado por Lucas.

Levítico 19. Capítulo de onde sai a citação. Não é um texto solene: é uma lista de regras miúdas sobre convivência — deixar a sobra da colheita para o pobre, não maldizer o surdo, não pôr tropeço diante do cego, pagar o salário do jornaleiro no mesmo dia, não ser parcial no julgamento. O segundo mandamento da resposta vem desse ambiente.

Fílon de Alexandria. Filósofo judeu de língua grega, contemporâneo de Jesus, que viveu no Egito. Dividiu os preceitos da Lei em duas cabeças — a conduta para com Deus e a conduta para com os homens — na obra sobre as leis especiais. Não cita Levítico 19:18 nem Deuteronômio 6:5 nesse ponto: a divisão dele é por virtudes, não por versículos.

Os Testamentos dos Doze Patriarcas. Conjunto de discursos de despedida atribuídos aos filhos de Jacó, conservado em manuscritos gregos copiados por cristãos. O Testamento de Issacar junta o amor ao Senhor e o amor ao próximo numa mesma ordem. O quanto o texto foi reescrito por mãos cristãs está em disputa, e por isso o paralelo não decide a questão da origem do par.

A comunidade de Qumran. Grupo judeu que produziu os manuscritos achados perto do Mar Morto. A sua regra interna manda amar os filhos da luz e odiar os filhos das trevas — exemplo documentado de leitura restritiva do mandamento, no mesmo período.

O especialista na lei. Continua ouvindo, calado em Mateus. É a ele que o segundo mandamento é dado, sem que o tenha pedido.

5. Pontos de Ensino

1. O segundo mandamento é acréscimo, não resposta. Ninguém o pediu. Isso significa que a parte mais citada da resposta de Jesus é a parte que ele deu por iniciativa própria — e que, sem ela, a frase sobre o maior mandamento teria ficado inteiramente voltada para Deus.

2. "Semelhante" é a palavra que faz o trabalho. Sem ela, haveria dois mandamentos em ordem. Com ela, há dois mandamentos da mesma natureza. É o que impede tratar o amor às pessoas como consequência menor da devoção.

3. O par é feito de dois versículos, e isso é o incomum. Dividir a Lei em deveres para com Deus e deveres para com os homens era ideia disponível — Fílon a formulou. Nomear dois textos específicos, começando ambos pelo mesmo "amarás", é outra coisa.

4. O segundo mandamento vem do material miúdo da Lei. Não sai do Decálogo: sai de um capítulo sobre respiga, salário de jornaleiro e tratamento do deficiente. O topo da Lei, nesta resposta, está num texto sobre o dia a dia.

5. A extensão do mandamento não está definida aqui. O texto de Levítico fala dos filhos do próprio povo e, adiante, do estrangeiro residente; Qumran o restringiu aos seus; Mateus 5:43 registra uma fórmula que o restringia também. Quem lê "próximo" como "todo ser humano" está fazendo uma leitura — defensável, e não dada pelo versículo.

6. A medida é interna, e há uma leitura minoritária que a troca. A versão consagrada diz "como a ti mesmo", e nela a régua é quem obedece. Uma leitura minoritária do hebraico propõe "ele é como você", e nela a razão do mandamento passa a ser a igualdade de condição. As duas produzem obediências diferentes.

6. Aspectos Filosóficos

Se o amor ao próximo é a medida de tudo, o que fazer com o amor a si mesmo?

O teólogo norte-americano Paul Ramsey enfrentou essa pergunta no livro que inaugurou a ética protestante do século XX em língua inglesa, Basic Christian Ethics ("Ética Cristã Fundamental", 1950). A tese dele é tão simples quanto radical: a ética cristã tem uma norma, uma só, e ela é o amor ao próximo. Não há regras independentes, não há lista de virtudes, não há cálculo de consequências — há a obrigação de buscar o bem do outro, e tudo o mais são aplicações disso em circunstâncias que mudam.

Ramsey insistia em dois traços desse amor. O primeiro é que ele é desinteressado: não calcula retorno, não depende de reciprocidade, não escolhe o próximo pelo mérito. O segundo é que ele é inteiramente voltado para fora — e é aqui que a frase "como a ti mesmo" se torna um problema para ele.

A leitura difundida diz que o versículo manda três coisas: amar Deus, amar o próximo e amar a si mesmo, sendo a terceira o fundamento da segunda. Ramsey nega a terceira. Para ele, "como a ti mesmo" não ordena nada: descreve. O texto não manda que você se ame; ele parte do fato de que você já se ama, toma isso como dado da natureza humana e usa esse fato como régua do que você deve ao outro. Em vez de autorizar o amor-próprio, o mandamento o põe a serviço alheio.

Bengel, dois séculos antes e por outro caminho, chegara a algo parecido: dizia que o amor a si mesmo não precisa de mandamento próprio, porque quem ama Deus já se ama retamente. Gill, ao contrário, lê o versículo como pressupondo um amor-próprio legítimo — cuidar do corpo, da família, da alma — e vê nele a referência do que se deve ao próximo.

A diferença entre as duas posições não é acadêmica. Se o amor-próprio é dado e não mandado, então nenhuma renúncia é demais: o limite do sacrifício é a necessidade do outro. Se o amor-próprio é também um dever, então existe um ponto em que entregar-se a mais deixa de ser virtude e passa a ser falta. É a diferença entre uma ética que não consegue dizer "pare" e uma que consegue.

Ramsey sabia do risco e tentou contê-lo pelo lado do próximo: se há muitos próximos, e há, então o bem de cada um limita o que se pode dar a um só, e o cálculo retorna por essa via. A solução é engenhosa e deixa de fora exatamente o caso em que o problema aparece — quem se destrói cuidando de uma única pessoa que de fato precisa.

Posto diante do versículo, o esquema de Ramsey ganha e perde ao mesmo tempo. Ganha porque o texto, de fato, não traz um terceiro mandamento: são dois, e o segundo tem o próximo como objeto. Perde porque o versículo anterior já havia pedido a pessoa inteira — coração, alma, entendimento — e uma pessoa destruída não tem o que entregar. A tríade do primeiro mandamento supõe um sujeito de pé.

Resta a objeção de fundo a toda ética de norma única, e Ramsey a ouviu durante quarenta anos: um princípio que explica tudo não orienta nada. Ele próprio acabou recuando, nos livros seguintes, para o que chamou de amor com princípios — a ideia de que o amor ao próximo, para ser aplicável, precisa cristalizar em regras estáveis que não sejam renegociadas caso a caso. O recuo é honesto e dá razão parcial ao versículo seguinte: a Lei inteira pende dos dois mandamentos, e continua pendurada ali, inteira, com todas as suas regras miúdas.

7. Aplicações Práticas

Devoção que não muda o trato com as pessoas não cumpre a resposta. A palavra "semelhante" existe para impedir que os dois mandamentos sejam separados. Quem tem vida de oração intensa e trata mal quem está perto não está cumprindo o primeiro e falhando no segundo: está falhando num mandamento que Jesus declarou da mesma natureza do primeiro.

O inverso também não fecha. Reduzir a fé ao bom comportamento social apaga a metade que o versículo 37 de Mateus 22 pede. Os dois mandamentos são dois, e a frase os conta — não os funde.

A régua está na sua mão, e você já sabe usá-la. A medida do segundo mandamento é o cuidado que você tem consigo: quanto se desculpa, quanto se explica, quanto se poupa. Não é preciso curso nenhum para aplicá-la. É preciso coragem para aplicá-la sem desconto.

Cuidado com a renúncia que destrói o renunciante. Se "como a ti mesmo" não ordena o cuidado consigo, o limite da entrega desaparece — e muita gente religiosa se desfez por essa porta, com aplauso em volta. O primeiro mandamento pede a pessoa inteira, e pessoa inteira é o que sobra de quem não se arruinou.

Não preencha "próximo" com a sua própria lista. O mandamento, como Jesus o cita, não traz definição de alcance. Toda vez que alguém o recita já sabendo quem está dentro e quem está fora, está acrescentando ao texto — e a comunidade de Qumran mostra onde esse acréscimo pode chegar, em plena fidelidade à letra.

O segundo mandamento se cumpre em coisas pequenas. Ele sai de um capítulo sobre deixar sobra na colheita, pagar o diarista no mesmo dia e não enganar o cego. É onde a obediência se verifica: no salário em dia, no troco certo, na palavra cumprida com quem não pode cobrar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Em que sentido o segundo mandamento é "semelhante" ao primeiro?

Há três leituras, e todas têm defensores sérios: semelhante em importância (Barnes), semelhante em natureza e alcance (Meyer e o Pulpit Commentary), e semelhante por derivar do primeiro, sendo portanto parecido mas não igual (Gill, com a imagem de Bengel da lua e do sol). O texto não decide. O que ele exclui é a leitura de que os dois pertençam a planos sem relação.

2. Jesus foi o primeiro a juntar esses dois mandamentos?

Não há como afirmar isso com segurança, e também não há paralelo judaico datável que o desminta. O Testamento de Issacar junta os dois amores, mas o texto chegou por mãos cristãs e o grau de reescrita está em disputa. Fílon reduz a Lei a duas cabeças — Deus e os homens — sem citar estes dois versículos. O que é próprio da resposta de Jesus é o par de textos nomeados, o mesmo verbo nos dois e a declaração de semelhança.

3. O mandamento manda amar a si mesmo?

A frase não tem forma de ordem nessa parte: "como a ti mesmo" é comparação. Ramsey sustenta que ela descreve um fato e o usa como régua, sem ordenar nada; Gill entende que ela pressupõe um amor-próprio legítimo. A diferença tem consequência prática enorme, e o versículo não resolve — mas o mandamento anterior, que pede a pessoa inteira, pressupõe alguém de pé.

4. Por que Jesus não citou a segunda metade do Decálogo?

Não se sabe. A observação possível é sobre o efeito: os mandamentos sobre matar, furtar e adulterar são proibições com contorno definido, e o versículo de Levítico é uma exigência positiva sem ponto de chegada. Resumir os deveres entre pessoas numa proibição é mais fácil de verificar; resumi-los no amor deixa o cumprimento permanentemente aberto.

5. "Próximo" inclui o inimigo?

Não neste versículo. Levítico 19:18 fala dos filhos do próprio povo, e o mesmo capítulo estende a ordem ao estrangeiro residente, sem mencionar inimigos. É em Mateus 5:44 que Jesus manda amar os inimigos, e ali ele apresenta isso como contraposição a uma fórmula corrente. Juntar as duas coisas é leitura do conjunto do evangelho, e é defensável; não está nesta frase.

6. Qual é a leitura correta: "como a ti mesmo" ou "ele é como você"?

A primeira é a consagrada, está na Septuaginta, está no grego dos evangelhos e é a única que o Novo Testamento conhece. A segunda é uma possibilidade gramatical do hebraico de Levítico, minoritária entre hebraístas, e tem a seu favor o argumento de identidade de condição que o próprio capítulo usa no versículo 34. Quem lê o Novo Testamento lê a primeira; quem lê o hebraico encontra a segunda como alternativa discutida.

9. Conexão com Outros Textos

O texto citado, com a definição de alcance que o próprio versículo traz

Levítico 19:18 — "Não se vingue nem guarde rancor contra os filhos do seu povo; mas ame o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o SENHOR."

Levítico 19:34 — "Como o natural entre vocês será o estrangeiro que mora com vocês, e você o amará como a si mesmo, porque foram estrangeiros na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, seu Deus."

O material miúdo do mesmo capítulo

Levítico 19:13-14 — "Não oprimirás o teu próximo nem o roubarás; o salário do jornaleiro não ficará contigo até a manhã. Não maldirás o surdo nem porás tropeço diante do cego; e terás temor do teu Deus. Eu sou o SENHOR."

É deste ambiente que sai o segundo mandamento da resposta.

A frase que Mateus não traz e Marcos traz

Marcos 12:31 — "E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes."

O plural "estes" põe os dois juntos no topo.

A fórmula restritiva, registrada por Mateus

Mateus 5:43-44 — "Vocês ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo a vocês: amem os seus inimigos, abençoem os que os amaldiçoam, façam o bem aos que os odeiam e orem pelos que os maltratam e os perseguem."

A pergunta sobre o alcance, que este versículo não faz

Lucas 10:29 — "Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo?"

Os dois mandamentos ligados fora dos evangelhos

1 João 4:20-21 — "Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia o seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama o seu irmão, a quem viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele recebemos este mandamento: que quem ama a Deus ame também o seu irmão."

A carta transforma a semelhança deste versículo em teste: o segundo mandamento serve para verificar o primeiro.

A regra de conduta que Mateus já tinha dado como resumo

Mateus 7:12 — "Portanto, tudo o que vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles; porque isto é a Lei e os Profetas."

O amor que cumpre a Lei, em Paulo

Gálatas 5:14 — "Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás o teu próximo como a ti mesmo."

Paulo usa um só dos dois mandamentos onde Jesus usa dois — e é o segundo que ele escolhe.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

E o segundo, semelhante a ele, é: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo.’

Texto grego (Textus Receptus)

Δευτέρα δὲ ὁμοία αὐτῇ, Ἀγαπήσεις τὸν πλησίον σου ὡς σεαυτόν.

Transliteração

Deutera de homoia autē, Agapēseis ton plēsion sou hōs seauton.

Análise palavra por palavra

Δευτέρα (Deutera) — "segunda". Adjetivo ordinal, feminino, concordando com o substantivo "ordem", que não é repetido e fica subentendido. É a palavra de onde vem o nome do livro Deuteronômio, "segunda lei", porque repete a legislação do Sinai. Vincent nota que o adjetivo vem sem artigo, e que por isso algumas versões inglesas deixam de traduzir "o segundo" com artigo definido.

δὲ (de) — "e", "mas". Partícula fraca de ligação, que aqui apenas emenda. Não há "porém": o segundo mandamento não é apresentado como ressalva ao primeiro.

ὁμοία (homoia) — "semelhante". De homos, "o mesmo", raiz que em português dá o prefixo "homo-". O adjetivo indica semelhança de natureza ou de aparência, e não identidade: duas coisas homoia são do mesmo tipo, não a mesma coisa. É a palavra com que Mateus abre sete comparações do Reino dos céus no capítulo 13 — "o Reino dos céus é semelhante a…" —, e isso dá a medida do seu uso: ela aproxima sem fundir.

αὐτῇ (autē, com iota subscrito) — "a ela". Pronome no caso dativo, que marca o termo da comparação: semelhante a ela, isto é, à primeira ordem. Esta é a leitura do Textus Receptus, e Meyer a defende expressamente.

Ἀγαπήσεις (Agapēseis) — "amarás". O mesmo verbo, no mesmo futuro com força de ordem, do versículo 37. A repetição literal é o dado mais importante da frase: o dever para com Deus e o dever para com o próximo recebem a mesma palavra, na mesma forma.

τὸν πλησίον σου (ton plēsion sou) — "o teu próximo". Plēsion é, na origem, um advérbio — "perto, ao lado" — usado aqui como substantivo com artigo: literalmente "o de perto". É a palavra com que a Septuaginta traduz o hebraico rea ("companheiro, vizinho, compatriota"). O sentido geográfico de "quem está ao lado" está na raiz da palavra grega, e é o que torna tão natural a pergunta de Lucas 10:29 sobre até onde vai essa proximidade.

ὡς σεαυτόν (hōs seauton) — "como a ti mesmo". Hōs é a partícula de comparação, "como"; seauton é o pronome reflexivo de segunda pessoa no acusativo. A construção grega é comparativa e não imperativa: ela não manda amar-se, estabelece a medida. No hebraico de Levítico 19:18 a construção é outra e admite discussão, examinada no item 3.

Variantes

Há uma variante real, e ela tem consequência de sentido.

O Textus Receptus, tanto em Estêvão como em Scrivener, lê homoia autē, com o pronome no dativo: "uma segunda, semelhante a ela". Os textos críticos leem homoia hautē, com o pronome demonstrativo no nominativo — o que permite entender "uma segunda, semelhante, é esta", em que a palavra "semelhante" passa a qualificar o próprio mandamento em vez de compará-lo ao anterior. A diferença no grego é de um espírito e de um acento, e a pronúncia antiga era praticamente a mesma; por isso a confusão entre as duas formas é fácil de explicar na cópia.

O Expositor's Greek Testament observa que a leitura dos textos críticos aproxima ainda mais os dois mandamentos, como se o segundo fosse também ele um primeiro, e o amor a Deus e ao próximo formassem um só. Meyer, ao contrário, defende a leitura do Textus Receptus e sustenta que o dativo já diz o bastante: o mandamento tem a mesma natureza e a mesma qualidade do primeiro, sendo igualmente radical e fundamental.

O Textus Receptus traz ainda a partícula de, que os textos críticos omitem. A ABC segue o Textus Receptus nos dois pontos, traduzindo "e o segundo, semelhante a ele".

11. Conclusão

Quatro conclusões saem deste versículo.

A primeira é que a parte mais lembrada da resposta é a que ninguém pediu. A pergunta era por um mandamento, a resposta estava dada e fechada, e Jesus acrescentou um segundo por conta própria. Sem esse acréscimo, a frase sobre o maior mandamento teria ficado inteiramente voltada para Deus — e é por causa dele que o episódio ficou conhecido como a resposta sobre dois mandamentos.

A segunda é que o trabalho pesado está na palavra "semelhante". Ela é o que impede tratar o amor às pessoas como efeito colateral da devoção. O quanto de semelhança ela afirma continua em disputa entre leitores igualmente competentes; o que ela não permite é separar os dois mandamentos em planos sem relação.

A terceira é sobre o que há de novo e o que não há. O mandamento de Levítico era conhecido e citado; a divisão da Lei em deveres para com Deus e deveres para com os homens existia e foi formulada por Fílon no mesmo período. O que não se encontra em nenhuma fonte judaica datável com segurança é o conjunto: dois versículos nomeados, começando ambos pelo mesmo "amarás", declarados semelhantes entre si.

A quarta é sobre onde o segundo mandamento foi buscado. Não na parte solene da Lei, e sim num capítulo de regras miúdas — sobra de colheita, salário do diarista, tratamento do cego e do surdo. Se o topo da Lei está ali, então o lugar de verificar a obediência é o mesmo: o miúdo.

Fica um problema aberto, e ele é honesto. A semelhança cria a possibilidade de conflito entre os dois mandamentos sem dar critério para resolvê-lo. Enquanto o segundo era consequência do primeiro, a solução era simples: em caso de dúvida, Deus. Declarado semelhante, ele deixa de poder ser simplesmente sacrificado — e a frase que vem a seguir, dizendo que a Lei inteira pende dos dois, aumenta a dificuldade em vez de resolvê-la.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 22:39

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%