O SENHOR disse a Moisés: “Vá ao povo e santifique-o hoje e amanhã; que lavem as suas roupas
1. Introdução
O povo vai encontrar Deus em três dias, e a primeira ordem de preparação é estranhamente doméstica: lavar a roupa. Antes disso, Moisés recebe a tarefa de "santificar" o povo durante dois dias, e o versículo não diz o que isso quer dizer — se é banho, abstinência, afastamento de toda impureza ou simplesmente prontidão. É a primeira vez na Bíblia que um povo inteiro passa por um rito de preparação para um encontro com Deus, e a tradição rabínica tirou desta frase o banho ritual de quem se converte ao judaísmo. O versículo põe a roupa limpa como condição concreta para o acontecimento mais solene da Torá.
2. Contexto Histórico e Cultural
Roupa limpa para entrar onde o deus está
A exigência de limpeza física antes de se aproximar de uma divindade era comum no Oriente antigo, e um dos textos mais explícitos vem dos hititas, o povo que dominou a Anatólia (a atual Turquia) no segundo milênio antes de Cristo. As Instruções aos sacerdotes e ao pessoal do templo, catalogadas como CTH 264 e já usadas no estudo de Êxodo 12:5 por outro ângulo, exigem que quem prepara o pão diário dos deuses esteja banhado, com os pelos e as unhas aparados e vestido com roupa limpa. A justificativa do texto é a mesma da casa comum: um senhor não aceita ser servido por um criado sujo.
O paralelo ajuda e engana. Ajuda porque mostra que lavar a roupa e o corpo antes de se aproximar do sagrado era expectativa partilhada, e que o leitor antigo não estranharia a ordem. Engana porque o texto hitita fala de funcionários do templo, gente de ofício, num serviço diário; o Êxodo dirige a mesma exigência a um povo inteiro, de uma vez, para um encontro que não se repete. Pela primeira vez, as regras de quem entra no santuário valem para todos.
A capa, a única peça de muitos
A palavra traduzida por "roupas" designa, no hebraico bíblico, sobretudo a capa externa, o pano grande que se vestia por cima da túnica e que servia de cobertor à noite. A lei do Êxodo dirá que, se alguém tomar a capa do próximo como penhor, deve devolvê-la antes do pôr do sol, "porque é a única coberta dele; com que dormiria?" (Êxodo 22:26-27). Para muita gente, era a peça de pano mais valiosa que possuía.
Lavar essa capa não era coisa de minutos. Lavava-se batendo e pisando o pano na água, e depois era preciso esperar que secasse. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) observa que o rico podia trocar de roupa, e o pobre só podia lavar a que tinha. Os dois dias de preparação, nesse quadro, têm também uma razão prática: lavar e secar a roupa de um acampamento inteiro leva tempo.
O banho dos prosélitos nasceu aqui
O uso mais duradouro deste versículo está na lei judaica sobre quem se converte. O Talmude Babilônico discute, no tratado Yevamot 46a-b, o que torna alguém judeu. Rabi Eliezer dizia que bastava a circuncisão, como no caso dos patriarcas; Rabi Yehoshua, que bastava o banho ritual, como no caso das matriarcas, que não foram circuncidadas. Para provar que os antepassados também se banharam, a primeira tentativa da discussão usa este versículo: se a Torá dispensa lavar a roupa em casos de impureza em que exige o banho do corpo, então, onde exige lavar a roupa, com mais razão exigirá o banho. O raciocínio vem da Mekhilta (o comentário rabínico antigo ao Êxodo), que formula a regra: "não há na Torá lavagem de roupa sem imersão".
O próprio Talmude, porém, recusa a prova, com uma objeção que qualquer leitor moderno faria: talvez a roupa tenha sido lavada só por limpeza, e não por pureza ritual. A discussão então busca o banho em outro lugar — no sangue aspergido sobre o povo na conclusão da aliança (Êxodo 24:8), porque não havia aspersão sem banho. O resultado foi a fórmula repetida no tratado Keritot 9a: Israel entrou na aliança por três atos — circuncisão, banho e sangue —, e o prosélito entra pelos mesmos. O convertido refaz, em pequeno, o caminho do Egito ao Sinai. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) inverte a comparação no seu comentário a Êxodo 25: os rabinos ensinavam ao convertido só alguns mandamentos antes de recebê-lo, como Deus fez com Israel no Sinai.
O banho dos prosélitos, portanto, apoia-se neste versículo de modo indireto e discutido: o Talmude o tentou como prova e o descartou como prova insuficiente. Mas a ideia de que a entrada de um estrangeiro no povo repete o Sinai ficou.
3. Análise Teológica do Versículo
"O SENHOR disse a Moisés: 'Vá ao povo'"
Moisés está no alto, ou perto do alto, e precisa descer para cumprir a ordem; o versículo 14 dirá que ele desceu. A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) escreve aqui "desça e advirta o povo", as mesmas palavras que o hebraico usa só em Êxodo 19:21. O tradutor grego aproximou as duas descidas e transformou a ordem de preparar numa ordem de advertir.
"e santifique-o"
O verbo é o de "santo", na forma que significa "tornar santo". E o sujeito é Moisés: um homem recebe a ordem de tornar santas outras pessoas. O que isso pode querer dizer? A pergunta dividiu os comentaristas em quatro respostas.
Primeira leitura: santificar é preparar. É a de Rashi (rabino francês do século XI), que remete à tradução aramaica de Ônquelos: "prepare-os", isto é, diga-lhes que se preparem. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, século XII) reforça com um exemplo desconcertante: em Números 11:18, Deus manda o povo "santificar-se para amanhã", e o que vem no dia seguinte é carne de codorniz e uma praga. Ali não havia pureza ritual nenhuma em jogo; "santificar-se" é só ficar pronto para o que vem. Nessa leitura, o versículo não fala de rito, fala de prontidão.
Segunda leitura: santificar é banhar-se. É a de Abraão ibn Ezra (rabino espanhol do século XII): assim como as roupas são santificadas lavando-as, o corpo é santificado lavando-o. Ele lê a ordem de lavar a roupa como explicação da ordem de santificar.
Terceira leitura: santificar é manter-se afastado de toda impureza. É a de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII, também chamado Ramban), que derruba a de Ibn Ezra com uma pergunta simples: se fosse um banho, para que "hoje e amanhã", se um banho se toma uma vez? Santificar-se, para ele, é guardar-se durante um tempo: não tocar cadáver, não se aproximar de mulher. Ele cita os sacerdotes, que são "santos" porque não se contaminam com mortos (Levítico 21:1-6), e os homens de Davi, que estavam "santos" porque se tinham guardado de mulheres havia três dias (1 Samuel 21:5). O banho, para Ramban, já está implícito na ordem de lavar a roupa; santificar é a parte que dura.
Quarta leitura: santificar é um estado que se recebe, não se produz. É a mais teológica, e está nos comentários cristãos clássicos, como o de Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX): os atos exteriores são sinal de uma limpeza interior que não pode ser feita em dois dias. O texto não diz isso; é leitura simbólica posterior.
O versículo não permite decidir. O que ele mostra é a direção do movimento: a santidade aqui não é uma qualidade moral alcançada por esforço ao longo da vida, mas um estado produzido por procedimentos concretos, num prazo marcado, para uma ocasião. E é produzido por mediação: Moisés santifica, o povo é santificado. Em Gênesis 35:2, numa preparação semelhante, a família de Jacó se purificava a si mesma; a comparação entre as duas cenas foi feita no estudo daquele versículo.
"hoje e amanhã"
Dois dias, e o terceiro é o do encontro. A Mekhilta conta o "hoje" como o quarto dia do mês e o "amanhã" como o quinto, e Ibn Ezra observa que Deus alargou o prazo: o resto daquele dia e o dia seguinte inteiro.
O que se fazia nesses dois dias? A Mekhilta registra uma opinião de Rabi Yehudah que muda a ordem do livro: no quinto dia, Moisés teria levantado cedo e construído o altar ao pé do monte, com doze colunas para as doze tribos, oferecido sacrifícios, aspergido metade do sangue sobre o altar e lido ao povo o livro da aliança — tudo o que o Êxodo só conta no capítulo 24, depois das leis. Rashi adota a ideia com a regra rabínica de que "não há antes nem depois na Torá": a ordem das narrativas nem sempre é a dos fatos. Ibn Ezra e Ramban, em geral, resistem a esse tipo de rearranjo. É leitura possível, apoiada no fato de que o capítulo 24 descreve uma cerimônia de aliança que parece pertencer à véspera do Sinai; não é demonstrável.
"que lavem as suas roupas"
O versículo manda lavar a roupa e não diz nada sobre o corpo. A Mekhilta preenche o silêncio com o raciocínio do mais para o menos (item 2): se a roupa precisa ser lavada, o corpo também. Mas o silêncio está lá, e é estranho. Nas leis de pureza que virão depois, as duas ordens andam sempre juntas — "lavará as suas roupas, banhar-se-á em água e ficará impuro até a tarde" é quase um refrão de Levítico 15. Aqui só a primeira aparece.
Há três modos de entender a ausência. O primeiro é dizer que o banho estava subentendido, como fazem a Mekhilta e Ramban. O segundo é ver na roupa o símbolo mais visível da pessoa: lavar o que se veste é apresentar-se de outro modo, sem precisar falar do corpo. O terceiro é o mais prosaico, e é o que o próprio Talmude levanta em Yevamot: talvez fosse só limpeza, e o encontro com Deus pedisse, antes de mais nada, que o povo não aparecesse sujo. Não é possível decidir, e as três podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
Um detalhe da sintaxe pesa na leitura. A ordem a Moisés é "santifique-o"; a ordem seguinte muda de sujeito: "que lavem", eles. Moisés santifica; o povo lava. O ato concreto fica com cada um, e o versículo 14 confirma a divisão: "santificou o povo, e eles lavaram as suas roupas".
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O SENHOR — dá a ordem e fixa o prazo. Não diz o que entende por "santificar"; deixa a execução a Moisés.
Moisés — recebe pela primeira vez uma função que depois será dos sacerdotes: preparar outros para se aproximarem de Deus. O livro ainda não tem sacerdócio de Arão; quem santifica é o profeta.
O povo — sujeito do ato concreto, lavar. O versículo não distingue homens, mulheres, crianças ou estrangeiros que tinham saído junto (Êxodo 12:38). A Mekhilta e o Talmude supõem que as mulheres também se banharam, e o Talmude dá a razão: senão, "com que elas teriam entrado debaixo das asas da presença divina?"
As roupas — a capa externa, peça principal do vestuário e cobertor da noite (item 2).
A água — o versículo pressupõe água bastante para um acampamento inteiro lavar roupa. Duas passagens indicam de onde viria: a rocha de Horebe, de onde Moisés tirou água pouco antes (Êxodo 17:6), e o "ribeiro que descia do monte", no qual ele vai lançar o pó do bezerro de ouro (Deuteronômio 9:21). O Sinai tinha água corrente ao alcance do acampamento.
O tempo — "hoje e amanhã": pela contagem da Mekhilta, o quarto e o quinto dias do terceiro mês, véspera e antevéspera da revelação.
5. Pontos de Ensino
1. A preparação para Deus começa pelo que é material. Antes de qualquer palavra sobre o coração, a ordem é lavar a roupa. O texto não separa o espiritual do físico.
2. A santidade aqui tem prazo e procedimento. Dois dias, atos definidos, uma data. Não é um estado de alma indefinido; é uma preparação que começa e termina.
3. Ninguém é dispensado. A ordem vale para o povo inteiro. Pela primeira vez, exigências que no mundo antigo cabiam a quem servia no templo são dirigidas a todos.
4. O sentido de "santificar" ficou aberto, e isso produziu tradição. Preparar, banhar-se, guardar-se de impureza: cada leitura deu origem a uma prática. A abertura do texto é parte da sua história.
6. Aspectos Filosóficos
Que tipo de pureza se consegue lavando roupa?
O versículo chama de "santificar" uma série de atos que incluem lavar a roupa, e trata o resultado como um estado que se alcança em dois dias. Isso levanta uma pergunta que a ética do século XX discutiu: a pureza é algo que se pode produzir? E, se é, que relação tem com a pureza que se atribui às pessoas boas?
Nicolai Hartmann (1882-1950), filósofo alemão nascido em Riga, professor em Marburgo, Colônia, Berlim e Göttingen, escreveu em 1926 uma Ética de quase oitocentas páginas que é a exposição mais sistemática da chamada ética dos valores. A tese de fundo é que os valores — o bom, o justo, o nobre — não são invenções humanas nem ordens de alguém; existem por si, como as verdades da matemática, e são percebidos por uma espécie de sentimento, assim como o olho percebe cores.
Entre os valores morais fundamentais, Hartmann põe a pureza, e a descreve de um modo que choca com este versículo. Pureza, para ele, é a qualidade de quem ainda não foi tocado pelo mal: a inocência, a simplicidade, a falta de dobra interior. E ela tem uma característica cruel: não se conquista. Quem se esforça para ser puro já perdeu alguma coisa dela, porque o esforço supõe conhecer aquilo de que se foge; e, uma vez perdida, não volta. Hartmann a opõe a outro valor, a plenitude — a riqueza de quem viveu muito, conheceu muito, se arriscou —, e vê entre as duas uma antinomia (um conflito sem solução): quanto mais se vive, menos inocente se é.
O que o versículo faz com essa ideia
A pureza do Sinai é o oposto da de Hartmann em todos os traços. Pode ser produzida: lava-se, espera-se, guarda-se. Tem prazo: dois dias. Pode ser recuperada: as leis de Levítico vão repetir, dezenas de vezes, como quem se contaminou volta a ficar puro. E não supõe inocência: o povo que lava a roupa é o mesmo que vai fazer o bezerro de ouro quarenta dias depois. Não é pureza de quem não conhece o mal; é pureza de quem se prepara apesar dele.
Para Hartmann, isto não seria pureza moral, mas no máximo um símbolo dela. A tradição bíblica, por sua vez, não aceita a separação com tanta nitidez: "quem subirá ao monte do SENHOR? O que tem mãos limpas e coração puro" (Salmos 24:3-4) junta na mesma frase o que se lava e o que não se lava. O versículo do Êxodo fica num ponto anterior à distinção, e é por isso que a pergunta do item 3 — santificar é preparar, banhar-se ou guardar-se? — não tem resposta única.
O alto apoiado no baixo
Há outra ideia de Hartmann que ilumina o versículo melhor do que a sua teoria da pureza. Na obra de ontologia que escreveu depois da Ética, ele descreve a realidade em camadas — a matéria, a vida, a alma, o espírito — e formula uma lei: a camada superior depende da inferior, apoia-se nela, mas não se reduz a ela. Na ética, aplicou a mesma regra aos valores: os valores mais baixos são os mais fortes, e violá-los é mais grave (matar é pior que ser mesquinho); os mais altos são os mais frágeis, e realizá-los é mais meritório.
O versículo monta exatamente essa escada. O acontecimento mais alto da Torá — Deus descendo à vista do povo — é preparado pelo ato mais baixo da vida doméstica: lavar a roupa. A roupa limpa não produz o encontro; mas, sem ela, segundo o texto, o encontro não acontece como foi ordenado. Hartmann diria que a camada inferior é condição, não causa. A frase dá ao ato mais comum uma importância que nenhuma teoria espiritualista lhe daria.
Onde o modelo não alcança
Hartmann rejeitava a ideia de um Deus pessoal que governa o mundo: para ele, uma providência que dirige tudo anularia a liberdade humana, e a ética teria de escolher a liberdade. Os valores dele não mandam; atraem. O versículo começa com uma ordem: "o SENHOR disse a Moisés". A preparação do Sinai não nasce da percepção de um valor, mas da obediência a quem vai chegar. É a diferença que impede de ler o versículo como ilustração da ética dos valores — e que mostra o quanto o texto supõe uma relação, e não apenas um ideal.
7. Aplicações Práticas
Encontros importantes pedem preparação concreta. O versículo não se contenta com "estejam com o coração aberto". Manda lavar a roupa. Antes de um culto, de uma conversa difícil, de um casamento, de uma visita a quem está doente, os gestos materiais — chegar limpo, chegar a tempo, chegar descansado — não são superficialidade. São parte do respeito.
Preparar-se leva tempo, e o tempo faz parte. Dois dias para um encontro. Quem chega a coisas sérias sem nenhuma pausa antes costuma chegar disperso. O prazo do versículo não serve só para secar roupa: separa o encontro da rotina.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Moisés também precisou se santificar?
O versículo não diz. A ordem é para o povo, e Moisés aparece só como quem santifica. Sforno, comentando o versículo seguinte, sugere que para Moisés a preparação foi outra e mais longa — a separação permanente que o Deuteronômio deixa entrever quando Deus manda o povo voltar às tendas e diz a Moisés: "você, fique aqui comigo" (Deuteronômio 5:30-31). É leitura dos comentaristas, não dado do texto.
Os estrangeiros que saíram com Israel também lavaram as roupas?
Uma "mistura de gente" saiu do Egito com os israelitas (Êxodo 12:38). O versículo diz "o povo" e não distingue. Se os estrangeiros estavam incluídos, o rito do Sinai teria sido também a sua entrada no povo — o que dá ainda mais força à leitura talmúdica do banho dos convertidos. O texto não permite afirmar.
Os animais do acampamento precisavam de algo?
Não para a preparação, mas o versículo 13 incluirá o animal na proibição de tocar o monte. A santificação é só de pessoas; a proibição alcança também os bichos. O texto não explica a diferença.
Por que roupas, e não o corpo?
O item 3 expôs as três respostas possíveis. Resta a pergunta histórica: se o banho do corpo era tão óbvio que não precisava ser dito, por que as leis de pureza posteriores fazem questão de dizê-lo sempre? A diferença pode indicar que este texto é anterior à sistematização de Levítico, ou apenas que a narrativa economiza onde a lei detalha. Não há consenso.
9. Conexão com Outros Textos
A preparação que veio antes
Gênesis 35:2 — "Então Jacó disse à sua família e a todos os que estavam com ele: 'Removam os deuses estrangeiros que há no meio de vocês, purifiquem-se e troquem as suas roupas.'"
Lá, trocar a roupa; aqui, lavá-la. Lá, cada um se purifica; aqui, Moisés santifica. O estudo de Gênesis 35:2 comparou as duas cenas.
Êxodo 19:14 — "Moisés desceu do monte ao povo e santificou o povo, e eles lavaram as suas roupas."
O cumprimento, quatro versículos depois, com as mesmas palavras da ordem.
"Santificar-se" como prontidão
Números 11:18 — "Ao povo você dirá: 'Santifiquem-se para amanhã, e vocês comerão carne.'"
O exemplo de Rashbam: o mesmo verbo para ficar pronto para uma refeição que terminará em praga.
Josué 3:5 — "E Josué disse ao povo: 'Santifiquem-se, porque amanhã o SENHOR fará maravilhas no meio de vocês.'"
A travessia do Jordão repete o padrão do Sinai: santificar-se hoje para o que Deus fará amanhã.
1 Samuel 16:5 — "Santifiquem-se e venham comigo ao sacrifício. E ele santificou Jessé e os seus filhos, e os convidou para o sacrifício."
Como no Êxodo, alguém santifica outros: Samuel faz com a família de Jessé o que Moisés faz com o povo.
A roupa nas leis de pureza
Levítico 15:5 — "Quem tocar na cama dele lavará as suas roupas, banhar-se-á em água e ficará impuro até a tarde."
A fórmula completa que o versículo do Sinai não traz: roupa, corpo e espera.
Números 8:21 — "Os levitas se purificaram e lavaram as suas roupas, e Arão os apresentou como oferta movida diante do SENHOR."
A consagração dos levitas retoma a lavagem de roupa do Sinai como rito de entrada num serviço.
O que se lava e o que não se lava
Salmos 24:3-4 — "Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem ficará no seu lugar santo? O que tem mãos limpas e coração puro."
O salmo pergunta pelo mesmo acesso ao monte que o Sinai regula, e responde juntando a limpeza das mãos à do coração.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
O SENHOR disse a Moisés: “Vá ao povo e santifique-o hoje e amanhã; que lavem as suas roupas
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר יְהֹוָה אֶל־מֹשֶׁה לֵךְ אֶל־הָעָם וְקִדַּשְׁתָּם הַיּוֹם וּמָחָר וְכִבְּסוּ שִׂמְלֹתָם׃
Transliteração
va-yomer YHWH el-Mosheh: lekh el-ha-am ve-qiddashtam ha-yom u-machar, ve-khibbesu simlotam.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר יְהֹוָה אֶל־מֹשֶׁה — va-yomer YHWH el-Mosheh, "o SENHOR disse a Moisés". Mesma abertura do versículo anterior, sem nenhuma palavra de transição: a ordem segue direto ao anúncio da nuvem.
לֵךְ — lekh, "vá". Imperativo do verbo halakh, "andar, ir". É o verbo do movimento comum, não o de "descer"; a Septuaginta é que põe "desça".
אֶל־הָעָם — el-ha-am, "ao povo". Preposição de direção e o substantivo coletivo que o capítulo usa o tempo todo.
וְקִדַּשְׁתָּם — ve-qiddashtam, "e santifique-os". Verbo qadash, "ser santo, separado", na forma intensiva do hebraico chamada Piel, que aqui tem valor de "fazer ser": tornar santo, pôr em estado de santidade. A forma é de perfeito com o "e" de continuação, que em hebraico prolonga o imperativo anterior: "vá… e santifique". O sufixo -am é "eles": o objeto é o povo, no plural. A mesma raiz aparecerá na forma reflexiva — "santifiquem-se" — quando a ordem for dirigida aos sacerdotes (Êxodo 19:22). A Septuaginta traduz por hágnison, "purifique", verbo grego da limpeza ritual, e não por hagíason, "santifique": o tradutor escolheu a leitura de pureza entre as várias do item 3. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, século IV) mantém sanctifica.
הַיּוֹם וּמָחָר — ha-yom u-machar, "hoje e amanhã". Ha-yom é "o dia" com artigo, que em hebraico vale "hoje"; machar é "amanhã". O par marca um prazo contínuo de dois dias.
וְכִבְּסוּ — ve-khibbesu, "e lavem". Verbo kavas, na mesma forma intensiva, o verbo próprio de lavar tecido batendo e pisando, distinto do verbo de lavar o corpo; a distinção entre os dois foi analisada no estudo de Gênesis 49:11. A mudança de pessoa é visível no hebraico: depois de "santifique-os", dirigido a Moisés, vem "e lavem eles", em terceira pessoa do plural. O povo passa a ser sujeito.
שִׂמְלֹתָם — simlotam, "as suas roupas". Plural de simlah, a capa externa (item 2), com o sufixo "deles". A palavra tem uma variante com as letras trocadas de lugar, salmah, e as duas aparecem lado a lado na lei do penhor: salmat em Êxodo 22:26 e simlato em Êxodo 22:27. É a palavra das roupas que os irmãos de José rasgam (Gênesis 44:13) e da roupa com que Sem e Jafé cobrem o pai (Gênesis 9:23).
A pontuação
No hebraico, o versículo termina com o sinal de fim de versículo; o sentido, porém, continua no seguinte, "e estejam prontos". A ABC deixa a frase aberta, sem ponto final, para que o leitor perceba que a ordem de lavar e a de estar pronto são uma só.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o versículo põe a preparação para o encontro com Deus no plano dos atos concretos e datados. Santificar, aqui, não é um estado de espírito; é um conjunto de procedimentos com prazo, cujo único ato nomeado é lavar a roupa.
A segunda é que o texto deixa em aberto o que esse "santificar" incluía, e é dessa abertura que nasceram práticas duradouras. A leitura que encontrou ali o banho do corpo deu ao judaísmo o modelo de entrada dos convertidos; a que encontrou ali o guardar-se de impureza preparou as leis de Levítico; a que encontrou só prontidão manteve o texto perto da vida comum. O versículo não decide, e a tradição viveu das três.
A terceira é que o texto não separa o material do espiritual. A primeira exigência feita a um povo inteiro antes de ouvir a voz de Deus é a mesma que o mundo antigo fazia aos servidores dos templos: apresentar-se limpo. O Sinai estende a todos uma regra que até então era de ofício.













