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Gênesis 36:20

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✍️ Por Alberto Adriano·5 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 33 acessos
Estes são os filhos de Seir, o horeu, moradores daquela terra: Lotã, Sobal, Zibeão, Aná,
Encosta de arenito avermelhado com aberturas escuras de cavernas naturais, e figuras humanas pequenas caminhando ao pé da rocha.

Estudo


Estes são os filhos de Seir, o horeu, moradores daquela terra: Lotã, Sobal, Zibeão, Aná,

1. Introdução

O capítulo muda de família sem avisar.

Acabou de encerrar a descendência de Esaú, e a linha seguinte começa a listar outra gente — os filhos de Seir, o horeu, que ocupavam a região antes. Não há transição, não há explicação, não há uma palavra sobre o motivo.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é quem eram os horeus. O nome é discutido, a identificação com um povo conhecido da arqueologia é contestada, e o que se sabe com segurança é pouco.

O segundo é o que a Bíblia diz que aconteceu com eles. Deuteronômio 2:12 e 2:22 afirmam que os filhos de Esaú os destruíram e ocuparam o lugar deles — e comparam isso, sem constrangimento, ao que Israel faria em Canaã.

O terceiro é o cruzamento. As duas genealogias não são independentes: uma mulher de Esaú vem desta linha, e uma concubina do filho mais velho dele também. O capítulo registra os dois fatos e não os comenta.

Há ainda a expressão "moradores daquela terra", que carrega mais do que parece.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem eram os horeus

Comecemos pelo tamanho da ignorância, que é grande.

Nenhum texto horeu chegou até nós. Não há inscrição que se possa atribuir a eles com segurança, não há edifício identificado, não há sepultura reconhecida como sua. Tudo o que se sabe vem da Bíblia, e o que a Bíblia diz cabe em poucas linhas: viviam na serra de Seir, foram atacados por reis vindos do norte em Gênesis 14:6, e foram deslocados pelos descendentes de Esaú.

Este capítulo é a fonte mais detalhada que existe sobre eles em qualquer lugar do mundo. Sete clãs, com nomes, filhos e chefes — e é só.

O nome: gente de caverna?

A explicação clássica liga o nome à palavra hebraica que significa buraco, cavidade, abertura na rocha. Por esse caminho, horeu seria "morador de caverna".

A leitura é antiga e tem defensores de peso. O Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) a adota, e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) fala de um povo que habitava as cavernas de arenito e calcário da região.

A proposta é geograficamente plausível. A serra de Edom é de arenito macio, e habitações escavadas na rocha existem ali em abundância — Petra, construída séculos depois pelos nabateus, é o exemplo mais espetacular. Um povo chamado pelos vizinhos de "os das cavernas" faria sentido naquela paisagem.

O problema é que a explicação depende inteiramente da semelhança entre duas palavras hebraicas, e não de nenhum dado externo. É plausível, e não é demonstrável.

O nome: gente livre?

Há uma segunda leitura, também antiga, que parte de outra palavra hebraica de forma parecida.

O hebraico usa um termo muito próximo para designar os notáveis, os homens livres, a camada de cima de uma cidade — aparece assim em 1 Reis 21:8 e em Neemias 2:16, traduzido por "nobres". O comentário rabínico reunido no Gênesis Rabá, compilado entre os séculos IV e VI, explica o nome dos horeus por esse caminho: seriam os que se fizeram livres, ou seja, independentes.

A explicação é engenhosa e reflete o modo como os antigos liam nomes — buscando sentido em palavras parecidas da própria língua. Ela vale como testemunho de interpretação, não como informação sobre a origem real do nome.

A identificação com os hurritas, e por que ela é contestada

Aqui está a proposta que dominou os estudos durante boa parte do século XX, e que hoje está em recuo.

Os hurritas foram um povo real, bem documentado. Vinham da região montanhosa a norte da Mesopotâmia, falavam uma língua que não é semítica nem indo-europeia, e a partir do segundo milênio antes de Cristo se espalharam pela Síria e pelo norte de Canaã. Fundaram o reino de Mitani, deixaram arquivos — as tabuinhas de Nuzi, cidade do norte da Mesopotâmia onde se acharam milhares de contratos, são hurritas — e o nome pelo qual se designavam soa muito próximo de "horeu".

Foi essa semelhança sonora que levou William F. Albright, arqueólogo norte-americano que dominou o campo em meados do século XX, a identificar os dois povos. A proposta explicava bem por que a Bíblia menciona horeus em vários pontos e parecia ancorar o texto em história documentada.

As objeções, porém, são sérias, e cresceram com o tempo.

A primeira é de material. Não há vestígio hurrita em Edom — nem cerâmica, nem inscrição, nem nome de lugar. A presença hurrita está documentada no norte, e some ao sul.

A segunda é de nomes. Os nomes hurritas têm forma reconhecível, e nenhum dos nomes desta lista a tem. Lotã, Sobal, Zibeão, Aná, Disom, Eser, Disã são todos de aparência semítica, e vários coincidem com palavras hebraicas correntes.

A terceira é de geografia. A Bíblia coloca os horeus em Seir, e só ali; os hurritas estão em toda parte, menos ali.

Há ainda uma proposta intermediária, que separa as duas coisas: os hurritas seriam os heveus da Bíblia, e os horeus de Seir seriam a população local, sem relação com eles. É uma saída elegante e também não é demonstrável.

O estado atual da questão é este: a identificação não é impossível, perdeu força e não há consenso. O honesto é dizer que não se sabe.

Horeus e heveus: uma confusão de letras

Um detalhe do texto complica ainda mais o quadro, e vale registrá-lo.

Gênesis 36:2 chama Zibeão de heveu. Este versículo chama Seir de horeu. Mas Zibeão está listado logo a seguir entre os filhos de Seir — e portanto entre os horeus. As duas designações se aplicam à mesma família.

As duas palavras hebraicas diferem por uma única letra, e as letras envolvidas se parecem na escrita antiga. A Septuaginta e o Pentateuco Samaritano leem "horeu" também em Gênesis 36:2, o que sugere que a forma daquele versículo é variação de cópia.

O mesmo tipo de troca aparece em outros lugares, e alguns manuscritos gregos trazem "horeu" onde o hebraico tem "heveu". A conclusão prudente é que os dois nomes se confundiam na transmissão, e que isso desaconselha construir teorias sobre a distinção entre os dois povos com base nesses versículos.

O que Deuteronômio diz que aconteceu

Duas passagens do Deuteronômio contam o destino dos horeus, e as duas são breves e duras.

Deuteronômio 2:12 diz que em Seir habitaram antes os horeus, que os filhos de Esaú os desapossaram, os destruíram diante de si e habitaram no lugar deles. Deuteronômio 2:22 repete a informação e acrescenta que os edomitas ali estão "até o dia de hoje".

O detalhe que costuma escapar está no fim do primeiro versículo: o texto compara essa expulsão ao que Israel fez na terra que recebeu por herança. A comparação é feita sem qualquer desconforto, como quem explica um caso por outro conhecido.

Vale registrar o que isso implica, sem suavizar e sem transformar em escândalo. O Deuteronômio trata a substituição de um povo por outro como algo que aconteceu também com os vizinhos, e não apenas com Israel — e o mesmo capítulo diz o mesmo dos moabitas em relação aos emins e dos amonitas em relação aos zanzumins. É um modo de organizar a história da região, e ele relativiza a ideia de que a conquista israelita seria um caso único.

O problema: destruídos ou absorvidos?

Aqui aparece uma tensão que o próprio capítulo cria, e que não se resolve.

Se os horeus foram destruídos, como diz o Deuteronômio, por que este capítulo registra a genealogia deles com tanto cuidado, e por que ela se cruza com a de Esaú por dois casamentos?

Oolibama, mulher de Esaú, é filha de Aná, que está nesta lista. Timna, concubina do filho mais velho de Esaú, é irmã de Lotã, que também está aqui. Não são detalhes acidentais: são justamente os pontos em que as duas famílias se encontram.

As explicações propostas são três, e nenhuma fecha.

A primeira é que a linguagem do Deuteronômio é de conquista, e conquista não significa extermínio literal. O vocabulário de destruição total é comum em relatos antigos de guerra — inclusive fora da Bíblia — e costuma descrever a supressão de um povo como unidade política, não o desaparecimento das pessoas.

A segunda é que houve as duas coisas em momentos diferentes: primeiro convivência e casamento, depois domínio edomita.

A terceira é que os textos vêm de tradições distintas, com informações diferentes sobre a mesma região.

Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que o Gênesis, ao registrar esta genealogia, preserva a memória de um povo que outro texto bíblico dá por eliminado — e que isso, por si, já é um dado sobre como a Bíblia lida com o passado.

Por que a lista dos horeus está aqui

O capítulo não explica, e as explicações propostas são leituras.

Ellicott (comentarista inglês do século XIX) sustenta que a genealogia entrou em parte porque contém a ascendência de Oolibama e, principalmente, porque os horeus acabaram fundidos com os descendentes de Esaú — de modo que contar a história de Edom exige contar a deles.

Benson (Joseph Benson, ministro metodista inglês do século XVIII) puxa para outro lado e lê a lista como reprovação silenciosa: ela estaria ali para lembrar que os edomitas se misturaram com a gente da terra.

A primeira leitura é a mais econômica e explica melhor o material. A segunda atribui ao texto uma intenção crítica que ele em nenhum momento expressa — e este capítulo, vale lembrar, não emite juízo sobre nada.

Há ainda uma terceira possibilidade, mais simples: quem organizou o capítulo dispunha de um documento sobre os clãs de Seir e o incluiu porque tratava da mesma região. Documentos antigos se agrupam por assunto, e o assunto aqui é quem vive naquela terra.

3. Análise Teológica do Versículo

"Estes são os filhos de Seir, o horeu"

A frase abre uma lista nova, e o leitor demora um instante para perceber que saiu da família de Esaú.

Não há aviso. O versículo anterior fechou a genealogia edomita com "ele é Edom", e este começa com a fórmula de sempre — "estes são os filhos de" — como se continuasse. Só o nome revela a mudança.

Seir é o único personagem deste capítulo que dá nome a uma serra inteira. Como sempre acontece nestes casos, não é possível decidir se o homem deu nome ao lugar ou se a lista atribuiu ao lugar um antepassado — a segunda hipótese é comum em genealogias antigas, e o capítulo não fornece nada que permita escolher.

Repare também que ele é apresentado com o nome do povo colado: Seir, o horeu. É a única vez no capítulo em que um nome recebe essa qualificação, e ela funciona como aviso de que se mudou de linhagem.

"moradores daquela terra"

Esta é a expressão mais carregada do versículo, e ela é fácil de atravessar sem ver.

O hebraico usa aqui uma fórmula que aparece com frequência para designar a população que já estava num lugar quando outro grupo chegou. É a mesma construção usada para os habitantes de Canaã antes de Israel.

Dizer que os filhos de Seir eram "os moradores daquela terra" é, portanto, dizer três coisas ao mesmo tempo. Que estavam ali. Que estavam ali antes. E que o texto está olhando para eles a partir de um momento em que já não estão — porque só se descreve alguém como o morador anterior depois que outro morador chegou.

A frase pressupõe, então, tudo o que o Deuteronômio contará: a chegada dos filhos de Esaú e a substituição. O Gênesis não conta esse episódio em lugar nenhum. Ele o dá por sabido em quatro palavras.

"Lotã, Sobal, Zibeão, Aná"

Quatro nomes, e a lista continua no versículo seguinte com mais três, totalizando sete.

Nenhum deles recebe título neste ponto. O texto os apresenta como filhos, e só nos versículos 29 e 30 os chamará de chefes — repetindo, para os horeus, o mesmo procedimento em duas etapas que usou com a casa de Esaú.

Dois desses quatro nomes têm peso especial no capítulo, e por motivos opostos.

Zibeão é o avô de Oolibama, mulher de Esaú, segundo Gênesis 36:2 — e é ele que Gênesis 36:2 chama de heveu, criando a confusão de nomes de povo.

Aná é o pai dela, e é o único personagem de todo o capítulo sobre quem se conta um episódio. O que ele fez está em Gênesis 36:24, e é lá que o assunto pertence.

Sobre Lotã e Sobal, o texto não diz nada além dos filhos que tiveram.

Duas famílias, uma terra

O que este versículo instala, sem comentar, é a convivência de duas genealogias no mesmo capítulo e no mesmo território.

A estrutura é simétrica: os filhos de Esaú, depois os chefes de Esaú; os filhos de Seir, depois os chefes de Seir. As duas listas recebem o mesmo tratamento, com as mesmas fórmulas, no mesmo grau de detalhe.

E elas se tocam em dois pontos, ambos por casamento. A mulher de Esaú vem daqui. A concubina do filho mais velho dele também.

Vale marcar o que o texto faz e o que não faz. Ele registra o cruzamento com precisão, repetindo a filiação de Oolibama várias vezes. E não diz uma palavra sobre o que isso significa — se foi aliança, se foi absorção, se foi bom ou ruim.

Quem quiser uma tese sobre isso terá de construí-la, e deve dizer que a está construindo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Seir, o horeu

O antepassado que dá nome à lista, e cujo nome é o mesmo da serra.

O Gênesis não conta nada sobre ele: nem quando viveu, nem de quem descende, nem o que fez. Aparece aqui e desaparece. Isso o distingue de todos os outros troncos genealógicos do livro, que costumam vir ligados a alguém já apresentado.

O nome se relaciona com a palavra hebraica para pelo, e a mesma raiz está no relato do nascimento de Esaú, que sai "todo peludo" em Gênesis 25:25. A coincidência é notada desde a Antiguidade e não estabelece nada: Esaú chegou àquela região depois, e o nome do lugar já existia. A geografia de Seir e o jogo de nomes com Esaú pertencem a Gênesis 36:8.

Lotã

O primeiro dos sete filhos de Seir. Sobre ele, o texto só informa os dois filhos e a irmã, em Gênesis 36:22.

Essa irmã, Timna, é o primeiro dos dois pontos em que as duas genealogias do capítulo se cruzam.

O nome é de origem duvidosa. A semelhança com Ló, sobrinho de Abraão, é acidental: as palavras hebraicas são diferentes.

Sobal

O segundo filho de Seir, com cinco filhos listados em Gênesis 36:23.

O nome reaparece na Bíblia aplicado a israelitas da linha de Judá, em 1 Crônicas 2:50 e 4:1, ali ligado à fundação de Quiriate-Jearim. Não há relação com este.

A origem é discutida. Foi proposta ligação com uma palavra para "leão jovem" e outra com a raiz de "fluir, correr". Nenhuma se impõe.

Zibeão

O terceiro filho de Seir, e o primeiro nome desta lista que tem consequência para a família de Esaú: Gênesis 36:2 apresenta Oolibama como filha de Aná e filha de Zibeão.

É também o nome que aquele versículo qualifica como heveu, onde este capítulo diria horeu — a variação que a Septuaginta e o Pentateuco Samaritano não trazem.

Ele terá dois filhos, segundo Gênesis 36:24: Aiá e Aná.

Aná

O quarto filho de Seir, e o personagem mais notável de todo o capítulo — porque é o único sobre quem se conta alguma coisa.

O episódio está em Gênesis 36:24, e o que exatamente ele encontrou no deserto é a questão mais discutida do capítulo.

Há aqui uma dificuldade que precisa ser registrada: este versículo o apresenta como filho de Seir, e Gênesis 36:24 o apresenta como filho de Zibeão, que é filho de Seir. As duas informações não batem no mesmo nível. A explicação usual é que "filhos de Seir" está no sentido largo, cobrindo netos; é plausível e o texto não confirma.

Os que faltam

Disom, Eser e Disã completam os sete filhos de Seir, no versículo seguinte.

Os dois primeiros e o último formam um trio de nomes que se parecem muito entre si, e essa semelhança será fonte de confusão nos versículos 26 e 28.

A serra de Seir

A cadeia montanhosa a leste do vale que desce do mar Morto ao golfo de Ácaba, no atual sul da Jordânia.

É terra de arenito e calcário, cortada por desfiladeiros estreitos, com abundância de cavidades naturais e paredes fáceis de escavar. Foi nessa rocha que os nabateus, muitos séculos depois, talharam as fachadas de Petra.

O território é o mesmo que o capítulo já atribuiu a Esaú. Este versículo informa quem estava lá antes.

5. Pontos de Ensino

O texto guarda quem foi vencido

Deuteronômio 2:12 diz que os horeus foram destruídos. Este capítulo lista os nomes deles, um por um, com filhos e chefes.

Não é contradição necessária — é diferença de tarefa. Um texto conta o que aconteceu; o outro registra quem havia. E o resultado é que o único lugar do mundo onde os horeus ainda têm nome é a Bíblia do povo que os descreve como deslocados.

Há valor nisso, e ele é fácil de perder de vista: registros costumam apagar os vencidos, e este não apagou.

Conquista e casamento andam juntos

O capítulo mostra os dois movimentos ao mesmo tempo, sem os harmonizar.

Os filhos de Esaú tomam a terra. E casam com as filhas de quem estava nela. A segunda coisa costuma ser esquecida quando se conta a primeira, e é justamente ela que explica por que os dois grupos aparecem misturados na mesma genealogia.

Populações raramente somem. Elas se dissolvem em quem chegou, e a genealogia é o lugar onde essa dissolução fica visível.

O que não se sabe é grande

Um povo inteiro, com sete clãs e chefes reconhecidos, do qual não sobrou uma linha escrita, um edifício ou um objeto identificável.

Vale ter isso em mente ao ler afirmações confiantes sobre povos antigos. A maior parte do que existiu não deixou rastro, e o que sobrou chegou quase sempre pela mão de outro.

Cautela com semelhanças sonoras

A identificação dos horeus com os hurritas nasceu de dois nomes que soam parecido, e dominou o campo por décadas antes de perder força.

É um caso instrutivo. Semelhança de som é ponto de partida legítimo para uma hipótese e nunca é prova. O que decide são os dados independentes — objetos, inscrições, nomes de lugares —, e no caso dos horeus eles não vieram.

O texto pressupõe uma história que não conta

"Moradores daquela terra" resume, em quatro palavras, a substituição de um povo por outro. O Gênesis não narra esse episódio em lugar nenhum.

Ler bem exige perceber essas pressuposições. Elas mostram o que o texto esperava que o leitor já soubesse — e, por isso mesmo, revelam algo sobre quem ele era.

6. Aspectos Filosóficos

Dois relatos do mesmo acontecimento

O versículo levanta um problema que não é apenas histórico.

Um texto diz que os horeus foram destruídos. Outro texto, este, lista as famílias deles e mostra que uma filha dessa gente foi mulher de Esaú e mãe de três chefes de Edom. As duas coisas não se encaixam com facilidade.

A pergunta que interessa é: o que fazer quando um acontecimento chega em duas versões que não combinam?

A linguagem da conquista exagera, e isso é sabido

Relatos antigos de guerra falam em destruição total com frequência espantosa, inclusive quando se sabe, por outras fontes, que o povo continuou existindo.

A inscrição do rei moabita Mesa, do século IX a.C., diz que Israel "pereceu para sempre" — e Israel não pereceu. Textos egípcios e assírios trazem fórmulas semelhantes. Não é mentira exatamente: é o vocabulário do gênero, em que aniquilar um adversário significa acabar com ele como poder, não com cada pessoa.

Aplicada ao caso, essa observação desarma boa parte da tensão. O Deuteronômio descreveria o fim dos horeus como unidade política; o Gênesis registraria a continuidade das famílias.

Onde a saída fácil não resolve

Convém não usar essa explicação como chave universal.

Ela é plausível e não é verificável caso a caso. Não há como saber quanto de exagero há em cada passagem, e transformar toda linguagem de destruição em figura de linguagem é tão pouco rigoroso quanto tomá-la sempre ao pé da letra.

Além disso, resta o fato bruto: um povo com nome, chefes e território desapareceu como povo. Chamar isso de deslocamento em vez de extermínio muda a descrição, não o desaparecimento.

O que sobra

Sobra a honestidade de dizer que os dois textos não dizem a mesma coisa, e que as tentativas de conciliá-los são leituras, não dados.

E sobra uma observação sobre este capítulo em particular: ele preserva o que a outra versão suprime. Quem quisesse apagar os horeus da memória não escreveria sete clãs com nomes de filhos.

Onde a leitura não vale

É preciso marcar o limite. O versículo não discute nada disso — apresenta quatro nomes e uma qualificação.

A tensão aparece quando se lê o Gênesis ao lado do Deuteronômio, e é obra de quem compara. Atribuir ao texto a intenção de contradizer o outro, ou a de corrigi-lo, é pôr nele o que não está escrito.

7. Aplicações Práticas

Quem estava aqui antes

O versículo não oferece aplicação direta, mas oferece uma pergunta que serve para muita coisa: quem estava aqui antes?

Vale para um lugar, para uma empresa, para uma casa, para um cargo. Quase tudo o que se ocupa já era de alguém, e quase sempre esse alguém sumiu do relato. Perguntar por ele muda a compreensão do que se tem.

Registrar o que se vai perder

Sete clãs sobreviveram porque alguém os escreveu numa lista que não era sobre eles.

É um argumento prático a favor de anotar o que parece sem importância — nomes, datas, quem fez o quê. O que hoje é óbvio demais para valer registro é exatamente o que ninguém vai conseguir recuperar depois.

Desconfiar da explicação bonita

"Horeu quer dizer morador de caverna" é uma explicação elegante, memorizável e possivelmente falsa.

Explicações assim circulam com facilidade justamente porque são fáceis de repetir. A pergunta útil, diante de qualquer uma delas, é simples: além de fazer sentido, em que ela se apoia?

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a genealogia dos horeus está no meio da de Esaú?

O capítulo não explica, e há mais de uma leitura.

A mais econômica é a de que contar a história de Edom exige contar a deles, porque os dois grupos se fundiram — e porque a mulher de Esaú vem desta linha. Também é possível que quem organizou o capítulo simplesmente dispusesse de um documento sobre os clãs da região e o tenha incluído por tratar do mesmo território. Não é possível decidir.

Os horeus eram mesmo moradores de cavernas?

Não se sabe.

A explicação vem da semelhança entre o nome e a palavra hebraica para buraco, e a paisagem da região a torna plausível. Falta qualquer confirmação independente — nenhuma habitação escavada foi atribuída a eles com segurança.

Horeus e hurritas são o mesmo povo?

A identificação foi dominante e hoje está em recuo.

Ela se apoia na semelhança entre os nomes. Contra ela pesam a ausência de vestígio hurrita em Edom e o fato de os nomes desta lista não terem forma hurrita. Não há consenso.

Se foram destruídos, como uma filha deles foi mulher de Esaú?

Essa é a tensão central do capítulo, e ela não se resolve.

A explicação mais aceita é que a linguagem de destruição total do Deuteronômio descreve o fim de um poder político, não o desaparecimento das pessoas. É plausível e não é verificável.

Por que o Gênesis nunca conta a conquista de Seir?

Porque a dá por sabida. A expressão "moradores daquela terra" pressupõe a chegada de outro morador, sem narrá-la.

O episódio só aparece, e de passagem, em Deuteronômio 2. O que se pode concluir é que a informação circulava e não precisava ser contada.

Sobrou alguma coisa dos horeus?

Nada material que se possa identificar com segurança.

O que sobrou são estes nomes, e o fato de metade deles reaparecer, adiante no capítulo, como território e como chefia edomita. A absorção deixou rastro na lista, e não no chão.

9. Conexão com Outros Textos

Os horeus antes de Esaú

Gênesis 14:6 — "e aos horeus, no seu monte Seir, até El-Parã, que está junto ao deserto."

A menção mais antiga, no relato da campanha dos reis do norte. Já ali os horeus estão em Seir, e ainda não há edomitas.

O que Deuteronômio conta

Deuteronômio 2:12 — "Também os horeus habitaram antes em Seir; porém os filhos de Esaú os desapossaram, e os destruíram de diante de si, e habitaram no seu lugar, assim como Israel fez à terra da sua herança, que o SENHOR lhes deu."

A comparação do fim da frase é o que torna esta passagem notável: a substituição de um povo por outro é apresentada como algo que também aconteceu com os vizinhos.

Deuteronômio 2:22 — "como fez com os filhos de Esaú, que habitam em Seir, quando destruiu os horeus de diante deles, e os desapossaram, e habitaram no seu lugar até este dia."

Deuteronômio 2:5 — "porquanto a Esaú dei a região montanhosa de Seir por herança."

A posse edomita reconhecida como legítima, e protegida por ordem expressa.

Os pontos em que as duas famílias se cruzam

Gênesis 36:2 — "e Oolibama, filha de Aná, filha de Zibeão, o heveu."

A mulher de Esaú, com filiação nesta lista — e com a variação de nome de povo que a Septuaginta não traz.

Gênesis 36:22 — "e Timna era irmã de Lotã."

O segundo cruzamento, do lado da concubina do filho mais velho de Esaú.

A fórmula dos moradores anteriores

Números 13:32 — "A terra pela qual passamos a espiar é terra que consome os seus moradores."

Josué 9:24 — "que o SENHOR, teu Deus, ordenou ao seu servo Moisés que vos desse toda esta terra e destruísse todos os moradores da terra diante de vós."

A mesma expressão aplicada aos habitantes de Canaã. Ela sempre designa quem estava antes.

Os outros povos deslocados da mesma região

Deuteronômio 2:10-11 — "Os emins dantes habitaram nela; um povo grande, numeroso e alto como os gigantes. Também eles foram considerados refains, como os anaquins."

Deuteronômio 2:20-21 — "Também esta é considerada terra de refains; dantes habitavam nela refains, e os amonitas lhes chamavam zanzumins."

Moabe e Amom descritos do mesmo modo que Edom: povos que tomaram o lugar de moradores anteriores.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Estes são os filhos de Seir, o horeu, moradores daquela terra: Lotã, Sobal, Zibeão, Aná,

Texto hebraico

אֵלֶּה בְנֵי־שֵׂעִיר הַחֹרִי יֹשְׁבֵי הָאָרֶץ לוֹטָן וְשׁוֹבָל וְצִבְעוֹן וַעֲנָה

Transliteração

'elleh venei-Se'ir haChori yoshvei ha'aretz: Lotan veShoval veTziv'on va'Anah.

Análise palavra por palavra

שֵׂעִיר — Se'ir, "Seir".

A forma coincide com a palavra hebraica para "peludo, cabeludo", da mesma raiz de se'ar, "cabelo". A mesma raiz aparece na palavra que designa o bode, e ainda em termos ligados a mata fechada e a lugar hirsuto de vegetação.

Aplicada ao território, a explicação corrente é a de uma serra coberta de mato baixo. Aplicada ao homem desta lista, não há como saber: pode ser nome de pessoa que passou ao lugar, pode ser o inverso.

הַחֹרִי — haChori, "o horeu".

Aqui está a palavra que dá nome ao povo, e ela merece cuidado porque três palavras hebraicas de forma muito próxima disputam a explicação.

A primeira é chor, "buraco, cavidade, abertura" — usada em 1 Samuel 14:11 para os buracos onde os hebreus se escondiam e em 2 Reis 12:9 para o furo na tampa de um cofre. Daí a leitura "moradores de cavernas".

A segunda é chor no sentido de "nobre, homem livre", que aparece no plural em 1 Reis 21:8 e em Neemias 2:16. Daí a leitura rabínica de que seriam "os livres, os independentes".

A terceira é o nome próprio do povo hurrita, conhecido dos documentos da Mesopotâmia e da Síria, cuja forma se aproxima muito desta. Daí a identificação proposta no século XX, hoje contestada.

Nenhuma das três se impõe. O que o hebraico permite dizer é apenas que a forma é ambígua, e que a escolha entre elas depende de dados que a língua não fornece.

Vale registrar ainda a proximidade com haChivvi, "o heveu", que difere por uma única letra. Gênesis 36:2 traz essa segunda forma para um homem que está nesta lista, e as versões antigas não a confirmam.

יֹשְׁבֵי הָאָרֶץ — yoshvei ha'aretz, "moradores da terra".

A primeira palavra vem da raiz de "sentar-se, assentar-se, habitar". O hebraico usa o mesmo verbo para sentar e para morar, e a imagem de fundo é a de quem se assenta num lugar e fica.

A expressão inteira é fórmula fixa. Aparece em Números 13:32, em Josué 9:24 e em vários outros pontos, sempre para designar a população que já estava num território antes da chegada de outro grupo.

É por isso que a frase carrega mais do que descreve. Ela pressupõe uma chegada posterior — e a chegada, aqui, é a dos filhos de Esaú.

A palavra 'aretz cobre desde "chão" até "país". Com o artigo, como aqui, aponta para um território determinado que o leitor já sabe qual é.

לוֹטָן — Lotan, "Lotã".

Origem duvidosa. Foi proposta ligação com uma raiz de "cobrir, envolver", o que daria algo como "envolvido" ou "escondido". A semelhança com o nome de Ló, sobrinho de Abraão, é superficial: as consoantes não são as mesmas.

שׁוֹבָל — Shoval, "Sobal".

Também de origem discutida. Duas propostas circulam: uma o liga a uma palavra para leão jovem, outra a uma raiz de "fluir, correr, transbordar". Nenhuma tem apoio suficiente.

צִבְעוֹן — Tziv'on, "Zibeão".

A proposta mais citada liga o nome a tzavoa', a hiena — animal que dá nome ao "vale de Zeboim" mencionado em 1 Samuel 13:18.

A proposta ganha força pelo conjunto: vários nomes desta lista de horeus coincidem com nomes de animais, e isso foi notado desde o século XIX. Aiá é uma ave de rapina; Disom e Disã coincidem com o nome de um animal de caça permitido em Deuteronômio 14:5; e há outros. Uma explicação antiga, hoje pouco aceita, via nisso marcas de clãs identificados por animais. A observação sobre os nomes é sólida; a teoria que se construiu sobre ela, não.

עֲנָה — 'Anah, "Aná".

Origem incerta. Propõe-se ligação com a raiz de "responder" e com a de "afligir, humilhar", que em hebraico têm formas muito próximas; nenhuma convence.

Vale notar que a forma do nome não distingue homem de mulher, o que contribuiu para as dificuldades de leitura em Gênesis 36:2 e 36:25, onde a filiação de Oolibama é registrada de modo confuso.

11. Conclusão

O versículo abre a segunda genealogia do capítulo, e disso decorrem algumas conclusões.

A primeira é sobre o que se sabe. Este capítulo é, no mundo inteiro, a fonte mais detalhada sobre os horeus — e ainda assim não permite dizer quem eram. O nome admite três explicações concorrentes, a identificação com os hurritas perdeu força por falta de vestígio material, e nenhum objeto, texto ou construção lhes foi atribuído com segurança. Reconhecer isso é mais útil do que escolher a explicação mais bonita.

A segunda é sobre a expressão "moradores daquela terra". Ela pressupõe uma história que o Gênesis não conta em lugar nenhum: a chegada dos filhos de Esaú e a substituição da população anterior. O livro dá o episódio por sabido, e só o Deuteronômio o registra, em duas linhas.

A terceira é sobre a tensão entre os dois textos. Deuteronômio 2:12 diz que os horeus foram destruídos; este capítulo mostra os descendentes deles casados na casa de Esaú. A explicação mais aceita — a de que a linguagem de destruição descreve o fim de um poder, e não o desaparecimento das pessoas — é plausível e não é verificável. Não é possível decidir, e forçar a harmonia custaria mais do que admitir a divergência.

A quarta é sobre a estrutura do capítulo. As duas genealogias recebem o mesmo tratamento, com as mesmas fórmulas e o mesmo detalhe, e se encontram em dois casamentos. O texto registra os cruzamentos com precisão e não os comenta — nem como aliança, nem como falta.

Resta o que este versículo faz sem propor. Ele preserva o nome de um povo que outro livro bíblico dá por eliminado. Registros costumam apagar quem perdeu; este não apagou, e é por isso que os horeus ainda têm nome.

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Gênesis 36:20

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