Estes são os filhos de Zibeão: Aiá e Aná. Este é o Aná que descobriu as fontes termais no deserto quando apascentava os jumentos de Zibeão, seu pai.
1. Introdução
A lista para de repente e conta uma coisa.
Depois de vinte e três versículos de nomes, o texto se interrompe para dizer que um dos homens listados encontrou alguma coisa no deserto enquanto cuidava dos jumentos do pai. É o único fato narrado em todo o capítulo.
E é aqui que está o problema mais discutido de Gênesis 36.
A palavra hebraica que diz o que ele encontrou aparece uma única vez em toda a Bíblia. Não há como conferi-la em outro lugar, não há palavra parecida que ajude, e as versões antigas divergem entre si de modo espetacular. Uma leu "águas quentes". Outra leu "mulas". Outra tratou a palavra como nome próprio. Outra ainda leu "gigantes".
A divergência chega às Bíblias em português: onde a tradução de Almeida corrigida traz "as mulas", a revista e atualizada traz "as fontes termais".
Este estudo apresenta as leituras, mostra em que cada uma se apoia e fecha sem veredito — porque não há veredito possível.
2. Contexto Histórico e Cultural
Cuidar dos jumentos do pai
A cena que o versículo descreve é modesta, e é bom vê-la como era.
O jumento foi, durante séculos, o animal de carga do Oriente Próximo. Antes que o camelo se generalizasse, era ele que transportava mercadoria pelas rotas, carregava a colheita e puxava o arado leve. Um rebanho de jumentos era patrimônio, e o Gênesis mede riqueza assim mais de uma vez — em Gênesis 12:16 e 30:43, entre outros lugares.
Pastorear jumentos não era tarefa de criança. Exigia conhecer água, pastagem e caminho, e levava o pastor para longe, às vezes por semanas. É por isso que a descoberta acontece "no deserto": era ali que o trabalho o punha.
A frase acrescenta que os animais eram do pai. O detalhe descreve o funcionamento normal de uma casa daquele tipo: o rebanho pertence ao chefe da família, e os filhos trabalham nele. Jacó fez isso para Labão, e os filhos de Jacó fizeram isso para ele.
Água no deserto de Edom
Se o que Aná encontrou foram fontes de água quente, a informação é de peso, e vale entender por quê.
A serra de Edom e a fenda que corre ao lado dela ficam sobre uma zona de falhas geológicas. Ali brotam fontes termais de verdade, e algumas são conhecidas desde a Antiguidade. As mais famosas ficam a leste do mar Morto, no vale que os romanos chamavam de Calírroe — Herodes, o Grande, foi levado até lá em busca de cura, segundo o historiador judeu Flávio Josefo. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) sugerem exatamente essa região como cenário do versículo.
Numa terra em que a chuva é escassa e irregular, encontrar uma fonte permanente muda a vida de um clã. Define onde se pode ficar no verão, quantos animais se pode manter e por onde passa a rota. É o tipo de descoberta que se lembra por gerações — e que justifica interromper uma lista para registrá-la.
Mulas, e por que a leitura incomoda
Se o que ele encontrou foram mulas, a informação é de outra natureza, e carrega uma acusação implícita.
A mula é o produto do cruzamento entre o jumento e a égua. É estéril, forte, resistente, e foi muito valorizada no mundo antigo: em Israel, montaria de gente importante — Absalão morre montado numa, em 2 Samuel 18:9, e Salomão é levado à unção na mula do próprio Davi, em 1 Reis 1:33.
Só que a lei israelita proíbe o cruzamento entre espécies diferentes. Levítico 19:19 diz, sem explicar: "não permitirás que se ajuntem misturadamente os teus animais de espécies diferentes". Produzir mulas era, portanto, coisa que Israel não podia fazer — e comprava de fora.
Daí o peso da leitura tradicional judaica. Se Aná "achou as mulas", no sentido de ter descoberto como produzi-las, ele aparece como o inventor de uma prática proibida. Comentaristas antigos exploram exatamente esse ângulo, e é assim que Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) apresenta a tradição, ainda que registrando objeções sérias a ela.
Vale marcar o que essa leitura pressupõe: que o verbo "achar" possa significar "descobrir como fazer". É estender bastante o sentido comum da palavra.
Gigantes na região
A terceira família de leituras liga a palavra a um povo, e ela também tem base no próprio texto bíblico.
Deuteronômio 2:10-11 fala dos emins, que habitavam antes o território de Moabe e eram "um povo grande, numeroso e alto como os anaquins". O mesmo capítulo menciona os zanzumins, na terra dos amonitas, e os refains. São nomes de populações antigas descritas como de estatura excepcional.
A palavra deste versículo se parece com o nome dos emins. Se a leitura for essa, Aná teria encontrado — no sentido de topar com, ou de enfrentar — um grupo desse povo no deserto. É assim que Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII) apresenta a possibilidade, e é assim que o Targum de Ônquelos, a tradução em aramaico usada nas sinagogas, verte a passagem: homens poderosos, gigantes.
A objeção é que a semelhança entre as duas palavras é aproximada, não exata, e que o resto do versículo — o deserto, os jumentos, o pastoreio — combina melhor com uma descoberta do que com um encontro hostil.
3. Análise Teológica do Versículo
"Estes são os filhos de Zibeão: Aiá e Aná"
A abertura é a de sempre, e o versículo poderia terminar aqui.
Dois filhos, nomes dados, lista encerrada — como nos versículos vizinhos. Nada no padrão do capítulo prepara o leitor para o que vem a seguir.
Vale registrar que Aiá não recebe nenhuma informação adicional, e nunca mais é mencionado. O texto o nomeia e o abandona. Toda a atenção do versículo vai para o irmão.
"Este é o Aná que"
A construção é de identificação, e ela tem uma função reconhecível: distinguir esta pessoa de outra com o mesmo nome.
A necessidade é real. O capítulo tem dois Anás — um listado entre os filhos de Seir, em Gênesis 36:20, e este, filho de Zibeão. Sem a fórmula, o leitor não saberia de qual se fala.
Mas repare no que o texto escolheu como marca distintiva. Não diz "este é o Aná, filho de Zibeão", nem "este é o Aná, pai de Oolibama" — que seriam as identificações genealógicas naturais, e que o capítulo usa em outros lugares. Diz: este é o Aná que encontrou aquilo no deserto.
Isso significa que o episódio era conhecido. Só se identifica alguém por um feito quando o feito é sabido de quem lê — como quem diz "aquele que descobriu o poço". O versículo pressupõe uma história que ele mesmo não conta, e que não chegou até nós por nenhuma outra via.
"que descobriu as fontes termais no deserto"
Aqui está a frase que o capítulo inteiro deve à posteridade, e ela não pode ser lida com segurança.
A palavra traduzida por "fontes termais" aparece uma única vez em toda a Bíblia hebraica. Não há segunda ocorrência para comparar, não há palavra aparentada que esclareça, e as versões antigas — que são o recurso normal nesses casos — divergem completamente entre si.
As opções em disputa e o que sustenta cada uma são assunto do item 10, onde a palavra é examinada. Aqui interessa o efeito sobre a leitura.
Se foram fontes de água quente, o versículo registra uma descoberta prática, de valor imediato para um povo de pastores: um recurso permanente numa terra sem água.
Se foram mulas, o versículo registra uma inovação técnica — e, aos olhos da lei israelita posterior, uma transgressão.
Se foram gigantes, o versículo registra um encontro, e o tom da frase muda por completo.
São três versículos diferentes dentro do mesmo versículo. E é honesto dizer que não é possível decidir entre eles.
Uma observação sobre o verbo
Vale notar, sem entrar na análise da língua, que o verbo empregado é o comum de "achar, encontrar" — o mesmo que se usa para quem acha um objeto perdido ou encontra uma pessoa pelo caminho.
Ele não é o verbo de inventar, criar ou produzir. Isso não elimina a leitura das mulas, porque em qualquer língua "descobrir" se estica para "descobrir como fazer". Mas mostra de que lado está o peso: o texto descreve alguém que topou com alguma coisa, não alguém que a fabricou.
"quando apascentava os jumentos de Zibeão, seu pai"
A frase final situa a cena e acrescenta o detalhe mais humano do capítulo.
Não é uma expedição, não é uma campanha, não é uma busca. É um homem trabalhando. Cuidava dos animais do pai, longe de casa, e encontrou aquilo por acaso.
Há aqui uma coincidência que os comentaristas notam e que convém tratar com cuidado. Se a palavra em disputa significa mulas, então o versículo diz que ele achou mulas enquanto pastoreava jumentos — e a proximidade entre as duas coisas é o principal argumento a favor dessa leitura. Se significa fontes, a menção aos jumentos é apenas o contexto do trabalho.
Ou seja: o mesmo detalhe funciona como apoio de uma leitura e como cenário neutro da outra. É um bom exemplo de como, num texto ambíguo, a mesma informação muda de peso conforme a decisão que já se tomou.
Por que uma genealogia se interrompe
Vale a pergunta, porque a interrupção é única no capítulo.
Listas antigas às vezes guardam notas assim — um episódio breve preso a um nome, como uma anotação de margem que entrou no corpo do texto. O Gênesis faz o mesmo em Gênesis 10:8-9, com Ninrode, "poderoso caçador diante do SENHOR", no meio de uma lista de povos.
Essas notas costumam ser o que restou de tradições mais longas, das quais só sobreviveu a frase que identificava o personagem. É provável que seja o caso aqui, e o texto não permite ir além disso.
E vale marcar o que o Gênesis não faz: não avalia. Não diz se o que Aná encontrou foi bom ou mau, não elogia e não condena. Registra e volta à lista.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Aná
Filho de Zibeão, neto de Seir, e o único personagem de Gênesis 36 sobre quem se conta um episódio.
Ele é também o pai de Oolibama, mulher de Esaú, segundo Gênesis 36:2 e 36:25. Isso o coloca no ponto exato em que as duas genealogias do capítulo se cruzam — o sogro de Esaú é um horeu.
Há uma dificuldade conhecida na apresentação dele. Gênesis 36:20 o lista entre os filhos de Seir; este versículo o apresenta como filho de Zibeão, que é filho de Seir. A explicação usual é que "filhos de Seir" está no sentido largo, cobrindo netos. É plausível e o texto não confirma.
Há ainda a confusão de Gênesis 36:2, onde Oolibama é chamada de "filha de Aná, filha de Zibeão" — problema que pertence àquele versículo.
Aiá
Irmão de Aná, mencionado aqui e em 1 Crônicas 1:40, e nada mais.
O nome coincide com o de uma ave de rapina — a que aparece nas listas de animais impuros de Levítico 11:14 e Deuteronômio 14:13, geralmente traduzida por milhafre ou gavião. É um dos vários nomes de animais que aparecem na genealogia dos horeus.
O mesmo nome é usado por um israelita: Aiá, pai de Rispa, a concubina de Saul cuja história aparece em 2 Samuel 3:7 e 21:8-11. Não há relação.
Zibeão
Terceiro filho de Seir, apresentado em Gênesis 36:20, e avô de Oolibama.
Neste versículo ele aparece como dono do rebanho, o que é a única informação concreta que o capítulo dá sobre qualquer um dos chefes horeus: era proprietário de jumentos em número suficiente para exigir um pastor.
É ele que Gênesis 36:2 chama de heveu, onde o restante do capítulo diria horeu.
As fontes termais da região
Se a leitura das águas quentes estiver certa, os candidatos existem e são conhecidos.
A leste do mar Morto, no vale hoje chamado Zarqa Main, brotam fontes quentes com forte teor mineral. Os romanos as conheciam pelo nome de Calírroe, e Flávio Josefo conta que Herodes, o Grande, já muito doente, foi levado até lá na esperança de tratamento.
Há outras nascentes termais na fenda que corre do mar Morto ao golfo de Ácaba, e algumas ficam dentro do território que o capítulo chama de Seir. Qual delas — se alguma — seria a do versículo, não há como saber.
As mulas
Animal híbrido, filho de jumento com égua, estéril, mais resistente que o cavalo e mais forte que o jumento.
No Antigo Testamento aparece como montaria de gente de posição: os filhos de Davi montam mulas em 2 Samuel 13:29, Absalão morre pendurado numa árvore quando a sua passa por baixo dela em 2 Samuel 18:9, e Salomão é conduzido à unção na mula do rei em 1 Reis 1:33.
A lei de Levítico 19:19 proíbe o cruzamento entre espécies diferentes, o que significa que as mulas usadas em Israel vinham de fora — 1 Reis 10:25 e Ezequiel 27:14 registram a importação.
Os emins
Povo mencionado em Deuteronômio 2:10-11 como antigo habitante do território que depois foi de Moabe, descrito como numeroso e de grande estatura, contado entre os refains.
O nome se parece com a palavra em disputa neste versículo, e é essa semelhança que sustenta a leitura "gigantes", adotada pelo Targum de Ônquelos e pela versão samaritana.
5. Pontos de Ensino
Há palavras que não se pode traduzir com segurança
Este versículo é o melhor exemplo do Antigo Testamento para uma coisa que raramente se diz do púlpito: existem trechos cuja tradução não é escolha entre certo e errado, mas entre hipóteses.
Uma palavra que aparece uma única vez, sem parente conhecido na língua, é praticamente indecifrável. O que sobra são as versões antigas — e aqui elas discordam entre si de modo radical.
Reconhecer isso não abala nada. Mostra apenas onde estão os limites, e permite tratar o resto com mais confiança.
Uma lista guarda o que sobrou de uma história
"Este é o Aná que" pressupõe que o leitor conhecia o episódio. Ninguém identifica alguém por um feito desconhecido.
Havia, portanto, uma história sobre esse homem, contada e recontada, da qual restou uma frase presa a uma genealogia. O resto desapareceu.
É assim que a maior parte do passado chega: em fragmentos que pressupõem o que não se tem mais.
O trabalho comum é onde as coisas acontecem
A única descoberta registrada no capítulo aconteceu com um homem cuidando dos animais do pai.
Não houve expedição, revelação nem busca. Houve alguém no lugar onde o trabalho o pôs, atento o suficiente para notar o que estava ali.
O Gênesis não comenta isso, e é preciso dizê-lo. O dado, porém, está no texto.
A mesma informação muda de peso conforme a leitura adotada
A menção aos jumentos é o principal argumento a favor da leitura "mulas" — e é apenas cenário neutro na leitura "fontes".
Vale reparar no mecanismo, porque ele se repete em qualquer interpretação. Uma vez adotada uma hipótese, os detalhes passam a confirmá-la. É por isso que decidir cedo demais é o erro mais caro na leitura de um texto difícil.
O texto não julga o que registra
Se a leitura tradicional judaica estiver certa, este versículo registra a origem de uma prática que a lei viria a proibir — e não diz uma palavra sobre isso.
A contenção é característica do capítulo inteiro, e é útil tê-la em mente. O Gênesis distingue com clareza entre narrar e aprovar, e quem confunde as duas coisas encontra endosso onde há apenas registro.
6. Aspectos Filosóficos
Quando a evidência acaba antes da resposta
Este versículo põe um problema que é, no fundo, sobre os limites do conhecimento.
Uma palavra, uma única ocorrência, nenhuma testemunha independente, e quatro leituras antigas que se excluem. Não há mais dado a produzir: os manuscritos são os que são, e nenhum achado novo é esperado.
A pergunta que fica é: o que se faz quando a pergunta é boa, a resposta importa e os meios de decidir não existem?
A tentação de decidir assim mesmo
A resposta que a prática mais dá é: decide-se do mesmo jeito.
Escolhe-se a leitura mais provável, ou a mais conveniente, ou a que a tradição consagrou, e escreve-se como se fosse a leitura. Uma tradução tem de pôr alguma palavra ali; um comentário tem de dizer alguma coisa; um sermão não sobrevive a "não se sabe".
Essa pressão é real e não é desonesta. Mas ela produz um efeito colateral: a incerteza desaparece do texto final, e o leitor recebe como informação o que era aposta.
Suspender o juízo é uma posição, não uma omissão
Há uma alternativa, e ela é mais trabalhosa: apresentar as leituras, mostrar em que cada uma se apoia, dizer qual tem mais peso e não concluir.
Isso não é falta de opinião. É reconhecer que a força de uma conclusão não pode ser maior que a das evidências que a sustentam — e que apresentar como certo o que é provável é um erro de grau, não de conteúdo, mas erro assim mesmo.
O custo é entregar ao leitor um problema em vez de uma resposta. O ganho é que ele fica sabendo o que se sabe e o que não se sabe, que são duas informações diferentes e igualmente úteis.
Onde a leitura não vale
Convém marcar o limite. O versículo não discute nada disso: ele conta um episódio, e a dificuldade é inteiramente nossa, criada pela distância de milênios e pela perda de uma palavra.
Quem escreveu não tinha problema nenhum. Sabia perfeitamente o que Aná encontrou, e supunha que o leitor também soubesse.
7. Aplicações Práticas
Dizer que não se sabe
A aplicação mais direta deste versículo é sobre honestidade intelectual, e ela é desconfortável.
Há situações em que a resposta certa é "não sei", e em que qualquer outra coisa é invenção com aparência de competência. Vale para quem ensina, para quem aconselha, para quem opina em assunto que domina só por fora.
O custo aparente é perder autoridade. O custo real de fazer o contrário é maior: quem afirma o que não sabe perde a credibilidade também no que sabe.
Reparar no que está no caminho
Aná encontrou algo enquanto fazia o trabalho de todo dia, no lugar onde o trabalho o levava.
Não há aqui lição sobre esforço nem sobre recompensa — o texto não a oferece. Há apenas o registro de que a única coisa memorável do capítulo aconteceu com alguém que estava fazendo o serviço comum e prestou atenção.
Não confundir registro com aprovação
O Gênesis conta o que Aná fez e não diz se foi bom.
É um hábito de leitura que serve para a Bíblia inteira, e sobretudo para o Gênesis, que narra poligamia, engano e violência sem comentar. Quem toma tudo o que está narrado como recomendado lê mal — e quem supõe que tudo o que está narrado é condenado lê igualmente mal.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Afinal, o que Aná encontrou?
Não é possível decidir.
As traduções modernas em geral optam por fontes de água quente, seguindo a Vulgata e a explicação de Jerônimo. A tradição judaica antiga leu mulas. O Targum de Ônquelos e a versão samaritana leram gigantes. A Septuaginta tratou a palavra como nome próprio. A palavra ocorre uma única vez em toda a Bíblia, e não há como arbitrar.
Por que as Bíblias em português discordam?
Porque seguem tradições diferentes.
A tradução de Almeida corrigida traz "as mulas", acompanhando a leitura tradicional judaica que passou às versões europeias antigas. A revista e atualizada e a Nova Versão Internacional trazem "fontes termais" e "fontes de águas quentes", seguindo a opção hoje majoritária entre os estudiosos.
Nenhuma das duas está errada no sentido de ter traduzido mal: as duas escolheram entre hipóteses.
Por que a genealogia se interrompe justamente aqui?
Porque a frase serve para identificar de qual Aná se trata — há dois no capítulo.
E, para servir de identificação, o episódio precisava ser conhecido. Isso indica que havia uma tradição sobre esse homem, da qual só restou esta linha.
Se foram mulas, Aná fez algo proibido?
Pela lei de Levítico 19:19, cruzar espécies diferentes é proibido em Israel. Mas Aná não é israelita, e a lei ainda não existia no tempo suposto pelo relato.
O Gênesis não emite juízo. Quem lê o versículo como censura está trazendo de fora uma norma que o texto não invoca.
Por que uma palavra que aparece uma única vez é tão difícil?
Porque o sentido de uma palavra se estabelece pelo uso, e uma ocorrência isolada não fornece uso.
O recurso normal é procurar palavras da mesma raiz, ou o mesmo termo em línguas aparentadas. Aqui, nenhuma dessas vias produziu resultado claro — e é por isso que a discussão continua aberta depois de dois mil anos.
Alguma descoberta futura pode resolver isso?
Em princípio, sim: o aparecimento da mesma palavra num texto antigo de língua aparentada resolveria a questão.
Na prática, é improvável. Os textos disponíveis nas línguas vizinhas já foram vasculhados, e nada apareceu. O mais provável é que a dúvida permaneça.
9. Conexão com Outros Textos
A lista paralela, que corta o episódio
1 Crônicas 1:40 — "Os filhos de Zibeão: Aiá e Aná."
A versão paralela traz os dois nomes e omite inteiramente a história. É um dado interessante: quem organizou Crônicas não reproduziu a única narrativa do capítulo.
Aná e a ligação com a casa de Esaú
Gênesis 36:25 — "Estes são os filhos de Aná: Disom e Oolibama, filha de Aná."
Gênesis 36:2 — "e Oolibama, filha de Aná, filha de Zibeão."
Os dois versículos que fazem deste pastor de jumentos o sogro de Esaú.
Uma nota parecida em outra genealogia
Gênesis 10:8-9 — "Cuxe gerou a Ninrode; este começou a ser poderoso na terra. Ele foi poderoso caçador diante do SENHOR."
O outro caso do Gênesis em que uma lista de nomes se interrompe para dizer algo sobre um deles. Também ali a nota pressupõe uma tradição que o texto não conta.
Se foram mulas
Levítico 19:19 — "Guardareis os meus estatutos: não permitirás que se ajuntem misturadamente os teus animais de espécies diferentes."
A lei que torna a leitura tradicional carregada de censura — e que, no tempo do relato, ainda não existia.
2 Samuel 18:9 — "Absalão ia montado num mulo; o mulo entrou debaixo dos ramos espessos de um grande carvalho."
1 Reis 1:33 — "Fazei montar Salomão, meu filho, na mula que é minha."
O valor do animal em Israel: montaria de príncipe e de rei.
Se foram gigantes
Deuteronômio 2:10-11 — "Os emins dantes habitaram nela; um povo grande, numeroso e alto como os anaquins. Também eles foram considerados refains, como os anaquins; e os moabitas lhes chamavam emins."
O povo cujo nome se parece com a palavra em disputa.
O jumento como riqueza
Gênesis 12:16 — "e ele teve ovelhas, bois, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos."
Gênesis 30:43 — "e teve muitos rebanhos, servas e servos, camelos e jumentos."
A medida de patrimônio no Gênesis inclui sempre os jumentos.
Água que decide onde se pode viver
Gênesis 26:19-22 — "Cavaram os servos de Isaque naquele vale e acharam ali um poço de águas vivas."
O episódio dos poços de Isaque mostra o que uma fonte significava: motivo de disputa, e razão para ficar ou partir.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Estes são os filhos de Zibeão: Aiá e Aná. Este é o Aná que descobriu as fontes termais no deserto quando apascentava os jumentos de Zibeão, seu pai.
Texto hebraico
וְאֵלֶּה בְנֵי־צִבְעוֹן וְאַיָּה וַעֲנָה הוּא עֲנָה אֲשֶׁר מָצָא אֶת־הַיֵּמִם בַּמִּדְבָּר בִּרְעֹתוֹ אֶת־הַחֲמֹרִים לְצִבְעוֹן אָבִיו
Transliteração
ve'elleh venei-Tziv'on: ve'Ayah va'Anah; hu' 'Anah 'asher matza' 'et-hayyemim bammidbar bir'oto 'et-hachamorim leTziv'on 'aviv.
Análise palavra por palavra
אַיָּה — 'Ayah, "Aiá".
A palavra designa uma ave de rapina, listada entre as impuras em Levítico 11:14 e Deuteronômio 14:13. As traduções oscilam entre milhafre, gavião e falcão; a espécie exata não é identificável.
É mais um dos nomes de animais que aparecem na genealogia dos horeus, ao lado dos que se discutem em Gênesis 36:20.
הוּא עֲנָה אֲשֶׁר — hu' 'Anah 'asher, "este é o Aná que".
Construção de identificação: pronome, nome e o relativo que introduz a característica distintiva.
O hebraico usa o pronome no lugar do verbo "ser", que não existe no presente. A fórmula equivale a apontar: aquele Aná, o de tal coisa.
מָצָא — matza', "achou, encontrou".
Verbo comum e de sentido amplo, mas com um núcleo bem definido: dar com alguma coisa, deparar-se com ela. É o verbo de quem acha um objeto perdido, encontra alguém pelo caminho ou descobre um lugar.
Ele não é o verbo de fabricar, produzir ou criar — para isso o hebraico tem outros. A observação importa, porque a leitura tradicional exige entender "achou" como "descobriu o modo de produzir", o que estica o sentido.
Não é impossível: "descobrir" se estende assim em muitas línguas. Mas o sentido próprio do verbo puxa para o encontro fortuito, e é essa a leitura mais econômica.
אֶת־הַיֵּמִם — 'et-hayyemim, "os yemim".
Aqui está o problema, e ele é insolúvel com os dados existentes.
Comecemos pelo que é seguro. A palavra aparece uma única vez em toda a Bíblia hebraica. Vem com o artigo — "os yemim" — e com a partícula que marca o objeto direto de um verbo, o que indica objeto definido: não uma coisa qualquer, mas aquilo que o leitor deveria reconhecer.
Esse detalhe é interessante e costuma ser esquecido. O texto não diz "achou umas fontes"; diz "achou os yemim", como quem menciona algo já conhecido do público. É mais um indício de que havia uma tradição por trás da frase.
Fora isso, não há nada. Nenhuma outra ocorrência, nenhuma palavra da mesma raiz que resolva, nenhuma aparição segura em textos das línguas vizinhas. O sentido de uma palavra se estabelece pelo uso, e aqui não há uso.
As leituras antigas
Sem apoio na própria língua, o recurso é ver como leram os tradutores antigos, que estavam mais perto no tempo. O resultado é desconcertante: eles discordam entre si por completo.
A Vulgata — águas quentes. Jerônimo, ao traduzir a Bíblia para o latim no fim do século IV, verteu aquas calidas, "águas quentes". Ellicott registra que Jerônimo justificou a escolha dizendo que a palavra significa fontes quentes em púnico, a língua semítica falada em Cartago e no norte da África, aparentada ao hebraico e ainda viva no tempo dele.
Esse é o argumento mais forte a favor da leitura hoje majoritária, e vale medir o seu peso com cuidado. A favor: Jerônimo tinha acesso a uma língua semítica viva, hoje extinta, e essa informação não pode ser conferida nem refutada. Contra: exatamente por não poder ser conferida, ela é um testemunho isolado, e Jerônimo pode ter recolhido uma explicação corrente e não verificada.
O Targum de Ônquelos — gigantes. A tradução aramaica lida nas sinagogas verte a palavra por "poderosos", "gigantes". Gill registra a leitura e a aproxima do nome dos emins, o povo de grande estatura de Deuteronômio 2:10-11. A versão samaritana segue o mesmo caminho, e Poole a apresenta desta forma: Aná teria topado com os emins e os ferido.
A Septuaginta — um nome próprio. A tradução grega feita em Alexandria não traduziu a palavra: transcreveu-a como se fosse nome, na forma Iamein. É a atitude de quem não sabe o que a palavra significa e prefere não arriscar.
Isso é, por si, um dado precioso. Já no século III ou II a.C. — mais de dois milênios atrás — os tradutores gregos, que liam hebraico corrente, não sabiam o que essa palavra queria dizer.
A tradição judaica — mulas. A leitura mais difundida no judaísmo antigo entende que Aná descobriu, ou produziu, mulas. É a que passou às traduções europeias antigas e chegou à Almeida corrigida, com "as mulas".
O argumento a favor está no próprio versículo: ele pastoreava jumentos, e a mula nasce do cruzamento do jumento com a égua. A objeção, registrada pelo próprio Gill, é que o verbo empregado significa achar, não inventar, e que a palavra hebraica para mula é outra, bem atestada.
Outras propostas. Circularam ainda leituras minoritárias: "águas salgadas", "plantas" ou "ervas", e a proposta de corrigir o texto para uma palavra parecida que significaria simplesmente "as águas". Nenhuma reuniu apoio.
Onde a discussão está
A opção majoritária hoje é a das fontes de água quente, e ela se apoia quase inteiramente na afirmação de Jerônimo sobre o púnico, reforçada pelo fato de existirem fontes termais reais na região.
Isso é menos do que parece. Uma leitura que depende de um testemunho único, não verificável, sobre uma língua extinta, é uma hipótese razoável — não um resultado.
O honesto é registrar o estado da questão: a palavra ocorre uma vez, as versões antigas discordam, a leitura corrente tem apoio frágil ainda que plausível, e não é possível decidir.
בַּמִּדְבָּר — bammidbar, "no deserto".
A palavra midbar não designa areal. Designa a terra não cultivada, o pasto aberto para onde se levam os rebanhos — região seca, de vegetação rala, mas capaz de sustentar animais.
É o mesmo termo que dá nome ao livro de Números na Bíblia hebraica, e o mesmo que aparece no Salmo 23 quando se fala de pastos. Traduzir por "deserto" é correto e pode induzir a imaginar um vazio absoluto, que não é o caso.
בִּרְעֹתוֹ — bir'oto, "ao apascentar ele", "enquanto pastoreava".
Forma do verbo "apascentar" que indica ação simultânea: a descoberta acontece durante o trabalho, e não em outra ocasião.
A mesma raiz dá ro'eh, "pastor" — a palavra do Salmo 23:1, "o SENHOR é o meu pastor".
אֶת־הַחֲמֹרִים — 'et-hachamorim, "os jumentos".
Plural de chamor, o jumento doméstico, animal de carga por excelência. A palavra tem forte parentesco sonoro com a raiz de "vermelho, avermelhado", que descreve a cor comum do animal.
לְצִבְעוֹן אָבִיו — leTziv'on 'aviv, "de Zibeão, seu pai".
A preposição indica posse: os jumentos pertenciam ao pai. A construção deixa claro que Aná trabalhava no rebanho da casa, e não em rebanho próprio.
11. Conclusão
O versículo é o único do capítulo que conta alguma coisa, e dele decorrem algumas conclusões.
A primeira é sobre o limite do que se pode saber. A palavra que diz o que Aná encontrou aparece uma única vez em toda a Bíblia, e as versões antigas leram nela quatro coisas diferentes: águas quentes, mulas, gigantes e um nome próprio. A opção hoje corrente — fontes termais — apoia-se sobretudo numa afirmação de Jerônimo sobre uma língua extinta, que não pode ser verificada. É hipótese razoável, não resultado. Não é possível decidir.
A segunda é sobre o que a dificuldade revela. Já os tradutores gregos, mais de dois mil anos atrás, não sabiam o que a palavra significava — e preferiram transcrevê-la a arriscar. O problema, portanto, não nasceu da distância moderna: é antigo quase quanto o texto.
A terceira é sobre a história perdida. Identificar alguém dizendo "este é o Aná que" só funciona se o feito for conhecido. Havia uma tradição sobre esse homem, e dela restou uma linha presa a uma lista de nomes. É assim que quase todo o passado chega.
A quarta é sobre o tom. Se a leitura tradicional estiver certa, o versículo registra a origem de uma prática que a lei viria a proibir — e o Gênesis não diz uma palavra a respeito. Narrar não é aprovar, e este capítulo é um bom lugar para aprender a diferença.
Resta o retrato mais concreto do capítulo inteiro: um homem cuidando dos animais do pai, longe de casa, que encontrou algo por acaso e ficou conhecido por isso. É a única imagem humana em quarenta e três versículos de nomes.













