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Gênesis 47:5

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✍️ Por Alberto Adriano·7 de setembro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 41 acessos
Então Faraó disse a José: “Seu pai e seus irmãos vieram a você.
O rei do Egito sentado no trono, voltado para José em pé ao seu lado, enquanto cinco homens aguardam calados a poucos passos.

Estudo


Então Faraó disse a José: “Seu pai e seus irmãos vieram a você.

1. Introdução

Cinco homens acabaram de falar. Expuseram a situação, deram a razão e fizeram um pedido com nome e endereço.

O rei responde — e responde a outra pessoa.

É a primeira coisa a notar neste versículo curto: quem pediu foram os irmãos; quem é respondido é José. O texto diz "Faraó disse a José", e a partir daí toda a decisão do capítulo será dirigida a ele, no singular, até o fim do versículo 6.

A segunda coisa é o que o rei diz. Nada sobre pasto, nada sobre a fome, nada sobre o ofício que devia escandalizá-lo. Uma frase de constatação: "Seu pai e seus irmãos vieram a você."

Todo mundo na sala sabia disso. O próprio José tinha vindo dizê-lo no versículo 1. Ainda assim, é por aí que o rei começa, e a escolha não é vazia: ele está enunciando o fundamento da decisão que vem a seguir. Não "chegaram uns pastores ao Egito", não "há gente pedindo terra". Vieram a você.

O versículo, sozinho, não concede nada. É a abertura de uma fala que só se completa no versículo 6, e a função dele é dizer em nome de quê a concessão será feita.

Vale registrar, por fim, que este trecho é o único do capítulo com um problema de texto que não aparece nas traduções em português: a antiga tradução grega do Antigo Testamento traz estes dois versículos em outra ordem e com uma frase a mais. O item 2 expõe o caso.

2. Contexto Histórico e Cultural

A resposta do rei vai para quem vai executá-la

O primeiro traço de época deste versículo está na direção da fala.

Nas monarquias antigas, uma decisão real não era uma conversa com o interessado. O soberano decidia e transmitia a decisão a quem tinha de aplicá-la; o beneficiário ficava sabendo pela execução. Petições chegavam ao trono por escrito ou pela boca de um funcionário, e a resposta descia pelo mesmo caminho, em sentido inverso.

É exatamente o que acontece aqui. Os cinco homens falaram — o rei deixou que falassem —, mas a resposta não é dirigida a eles. Vai para o segundo homem do Egito, que é quem tem poder de instalar gente em terra do reino.

Vale ver o efeito sobre a cena: os irmãos deixam de ser interlocutores no momento em que terminam de falar. O que se decide sobre a vida deles é dito na presença deles, na terceira pessoa.

A concessão como palavra do rei

O segundo traço é o modo da decisão. Ela não é escrita, não é selada, não é registrada diante de testemunhas — pelo menos, o Gênesis não menciona nada disso.

Isso é normal no que diz respeito ao rei: no Egito, a palavra do soberano era, por si, ato de governo, e as concessões de terra e de cargo passavam a valer por decisão dele. Documentos, quando existiam, registravam o que já fora concedido.

Reter apenas isto, porque a propriedade da terra no Egito é assunto do estudo de Gênesis 47:20: a autorização que a família recebe é um favor real, não um título. Vale enquanto valer a palavra de quem a deu.

Um problema de texto que as traduções não mostram

Este versículo e o seguinte são, na tradição manuscrita, o trecho mais movimentado do capítulo depois do versículo 21 — cujo problema textual pertence ao estudo daquele versículo.

O caso aqui é o seguinte.

No texto hebraico que serve de base às nossas traduções, a sequência é a que se lê: o rei diz a José que o pai e os irmãos vieram, põe o Egito à disposição dele, manda instalá-los no melhor da terra, concede Gósen e oferece o cargo de chefes do gado.

Na tradução grega antiga do Antigo Testamento, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo, a ordem é outra. Ali o rei começa concedendo — "que habitem na terra de Gésen; e, se souberes que há entre eles homens capazes, põe-nos como chefes dos meus rebanhos" —, e só depois vem uma frase que não existe no hebraico: "e Jacó e os seus filhos entraram no Egito, junto a José, e ouviu isso Faraó, rei do Egito". Em seguida é que aparece o "seu pai e seus irmãos vieram a você" e a oferta do melhor da terra.

Ou seja: as duas metades trocam de lugar, e a versão grega tem uma sentença a mais.

O que se faz com isso? Especialistas em crítica do texto discutem o caso há muito tempo, e as posições se dividem. Uma explicação bastante discutida atribui a diferença a um acidente de cópia numa fase antiga da transmissão — do tipo que acontece quando o olho do copista salta de uma palavra para outra igual, algumas linhas adiante —, e sustenta que o texto hebraico que temos resulta de uma tentativa posterior de consertar o estrago. Outra posição entende que a tradução grega é que reorganizou o trecho, para desfazer a estranheza de o rei falar do pai e dos irmãos antes de o pai ter sido apresentado.

Não há consenso, e não é preciso escolher. O que interessa ao leitor é saber três coisas: a diferença existe, ela não muda nada do que o rei concede, e nenhuma tradução portuguesa a registra — todas seguem o hebraico.

3. Análise Teológica do Versículo

“Então Faraó disse a José”

Quatro palavras, e elas reorganizam a cena inteira.

Quem falou no versículo anterior foram os irmãos. Foram eles que expuseram a situação e fizeram o pedido. O rei ouviu tudo — e responde a José.

Não há aqui nenhuma descortesia declarada. É o protocolo de uma monarquia antiga funcionando, como o item 2 mostra: a decisão desce para quem vai executá-la. Mas o efeito narrativo é inegável, e o Gênesis não faz nada para suavizá-lo. Os cinco homens desaparecem da conversa no instante em que terminam de falar.

Repare no que isso significa para o pedido deles. Eles pediram Gósen. Gósen será concedida no versículo 6 — mas concedida a José, com a fórmula "que habitem na terra de Gósen", na terceira pessoa. Ninguém lhes responde "sim". A resposta acontece por cima deles.

E repare no silêncio de José. O rei se dirige a ele duas vezes, nos versículos 5 e 6, e o Gênesis não registra uma palavra de resposta. Nem um agradecimento, nem uma inclinação de cabeça. O texto continua, e no versículo 7 ele já está trazendo o pai.

“Seu pai e seus irmãos vieram a você”

O rei enuncia um fato que todos conhecem. É preciso perguntar por que ele o enuncia.

Não é informação: José tinha vindo dizer exatamente isso no versículo 1. Não é pergunta. Não é dúvida. É a razão da decisão, dita antes da decisão.

Compare-se com o que o rei poderia ter dito. Poderia começar pelo que ouviu — "há falta de pasto em Canaã". Poderia começar pelo pedido — "vocês querem Gósen". Poderia começar pelo ofício, que era o assunto da pergunta dele. Não faz nada disso.

Começa pelo vínculo. O que está em jogo, para o trono, não é uma questão de imigração nem de pasto: é que a família do homem que salvou o Egito chegou.

“a você”

Duas letras em hebraico, e é a palavra decisiva do versículo.

O rei não diz que vieram ao Egito. Não diz que vieram a ele, o soberano, embora estejam na sua sala pedindo terra sua. Diz que vieram a José.

É uma frase de reconhecimento e de deferência, e vale medir o tamanho dela. O rei do Egito descreve a chegada de setenta estrangeiros usando como referência não o próprio país e não a própria pessoa, mas um funcionário — que, dezoito anos antes, era um escravo estrangeiro numa casa particular e depois um preso.

Há ainda um detalhe de composição digno de nota. Esta frase — "vieram a mim" — é exatamente a que José havia planejado dizer ao rei, segundo Gênesis 46:31. No relatório que ele efetivamente deu, no versículo 1, a expressão não apareceu: ele disse que vieram de Canaã e que estavam em Gósen.

Agora é o rei quem a diz, na segunda pessoa, devolvendo-a a ele.

Não se pode concluir daí que o rei esteja citando José, e o texto não o sugere. Pode ser simples coincidência de expressão comum, e é o mais provável. Registra-se, porém, porque é um fato do texto: a frase do ensaio, que não foi dita por quem a ensaiou, é dita pelo rei.

“Seu pai”, antes do pai aparecer

Uma observação de ordem, e ela tem consequência.

O rei menciona o pai em primeiro lugar. Jacó, porém, ainda não foi apresentado — só entrará em cena no versículo 7. Quem está diante do trono são cinco irmãos.

Isso é, aliás, o que motivou a diferença de ordem na tradução grega antiga, examinada no item 2: soa estranho o rei falar de alguém que ainda não chegou.

Duas leituras são possíveis e nenhuma se impõe. Uma é que o rei esteja seguindo o relatório do versículo 1, onde José também começou pelo pai. Outra é que o Gênesis não esteja narrando os episódios na ordem em que ocorreram — coisa comum no livro. Não é possível decidir.

O que o rei não diz

Feche-se pelo que falta, porque neste capítulo o que falta costuma ser o mais eloquente.

Ele não menciona o ofício. Perguntou-o no versículo 3, ouviu a palavra que segundo Gênesis 46:34 lhe seria abominável, e não volta ao assunto — nem agora, nem no versículo 6, onde aliás oferecerá emprego naquele mesmo ramo.

Ele não responde ao argumento. Nada sobre pasto, nada sobre a fome em Canaã.

Ele não impõe condição nenhuma. Não pede tributo, não fixa prazo, não exige contrapartida, não pergunta quantos são.

E ele não menciona o próprio convite (Gênesis 45:18-20), que teria sido o modo natural de dizer "eu já tinha mandado buscá-los".

Sobra uma frase, e ela é toda sobre José. É assim que o Gênesis explica, sem explicar, por que a concessão do versículo seguinte será tão generosa: o que o rei está atendendo não é um pedido de cinco pastores. É a chegada da família de alguém.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

Fala pela segunda vez no capítulo. Na primeira, fez uma pergunta de quatro palavras; agora abre a fala que se completará no versículo 6 e que decidirá onde a família de Israel vai morar.

O retrato que o Gênesis dá dele neste trecho é o de um homem que ouve sem interromper, não se ofende com o que ouviu e decide sem regatear. Não há nele nenhum traço de tirano nem de tolo, o que é notável num livro escrito de um ponto de vista estrangeiro ao Egito.

Vale lembrar o que o livro do Êxodo fará com essa figura poucos capítulos adiante — um rei "que não conhecia José". O contraste entre os dois reis é do leitor; o Gênesis não o prepara.

José

É a quem o rei se dirige, e é a personagem sobre quem a frase inteira gira: "vieram a você".

Está calado desde o versículo 2. O texto não registra reação dele à resposta dos irmãos, nem ao pedido de Gósen, nem agora à fala do rei.

A posição que ele ocupa foi definida em Gênesis 41:40-44: administra o país, dispõe dos recursos, responde só ao trono. É por isso que a decisão sobre a instalação de estrangeiros lhe é entregue como tarefa, e não comunicada como favor.

Jacó

É mencionado e não está presente. O rei fala do pai de José antes de conhecê-lo — só o verá no versículo 7.

Tem cento e trinta anos e está em Gósen. A ordem em que o rei o menciona, à frente dos irmãos, repete a do relatório de José no versículo 1.

Os cinco irmãos

Continuam de pé diante do trono, e deixam de ser interlocutores. Falaram nos versículos 3 e 4; a partir daqui são referidos na terceira pessoa, e não voltarão a falar no capítulo.

É o único episódio da história em que a família se dirige diretamente ao rei do Egito, e ele termina aqui.

A cena

A mesma audiência, no mesmo lugar, agora na fase da resposta. A conversa muda de direção: até o versículo 4, entre o rei e os cinco; do 5 em diante, entre o rei e José.

5. Pontos de Ensino

Uma vida de serviço vale mais do que um bom argumento

Os irmãos apresentaram razões corretas: falta pasto, a fome é pesada, precisamos de área. O rei não respondeu a nenhuma delas. Respondeu ao vínculo com José.

O ponto de ensino não é que argumentos sejam inúteis. É que, quando alguém já provou o que vale ao longo de anos, isso decide questões que a melhor exposição não decidiria. José não estava pedindo nada naquela sala — e foi o que ele havia feito antes que abriu a porta.

Nem sempre a resposta vem para quem perguntou

Cinco homens pediram e o rei falou com outra pessoa. Não foi desprezo: foi como aquele mundo funcionava.

Vale registrar sem doçura: quem depende de uma decisão nem sempre é tratado como interlocutor dela. Acontece em repartições, em empresas, em hospitais, em processos. Saber que o pedido foi atendido não é o mesmo que ter sido ouvido, e a diferença entre as duas coisas costuma ficar com quem pediu.

Quem decide, decide por alguma razão — e ela nem sempre é a que se apresentou

A razão que o rei enuncia não é nenhuma das que foram ditas na sala. É a chegada da família de José.

Serve como advertência prática para quem prepara pedidos: o que pesa na decisão pode ser outra coisa, anterior à conversa. Saber qual é essa coisa vale mais do que aperfeiçoar o argumento.

Ser bem recebido por causa de alguém

A família inteira é acolhida pelo crédito de um só. Nenhum dos cinco fez nada pelo Egito; o irmão deles fez tudo.

É uma experiência comum e pouco confortável — entrar em algum lugar pela porta que outra pessoa abriu. Não há nada de errado nisso, e há duas maneiras de estragá-lo: fingir que a porta era sua, ou passar a vida se desculpando por ela.

O silêncio de quem não precisa responder

José não diz nada nestes dois versículos. Não agradece, não confirma, não pede mais. O texto simplesmente segue para o que ele faz depois: traz o pai.

Há situações em que a melhor resposta a uma concessão é executá-la. Discurso de agradecimento é fácil; o que se viu foi que, no versículo seguinte, ele estava trabalhando.

6. Aspectos Filosóficos

Ser falado na terceira pessoa

Cinco homens acabam de expor a própria situação. Em seguida, na frente deles, o rei se refere a eles como "seus irmãos" — e passa a tratar do assunto com outra pessoa.

Há uma diferença real entre estar presente e ser interlocutor. Quem é falado na terceira pessoa continua na sala, ouve tudo, e mesmo assim saiu da conversa: virou assunto. A experiência é conhecida de qualquer um que já esteve num consultório, numa repartição ou numa reunião em que decidiam a seu respeito.

Vale reconhecer que o desconforto não depende do resultado. Aqui o resultado é ótimo — eles recebem mais do que pediram. Ainda assim, alguma coisa se perdeu no caminho, e é a possibilidade de responder.

O que se aprende com isso é modesto e útil: falar com alguém e falar sobre alguém são atos diferentes, mesmo quando o conteúdo é o mesmo e mesmo quando a pessoa está ouvindo.

Por quem se é recebido

O segundo ponto está na razão que o rei enuncia. Ele não acolhe cinco pastores por causa da fome deles, nem por dever de hospitalidade, nem por cálculo econômico. Acolhe porque são a família de José.

Isso levanta uma questão antiga sobre o modo como se recebe alguém. Uma acolhida pode se dar por três motivos bem distintos: porque a pessoa precisa; porque acolher é o que se deve fazer; ou porque a pessoa está ligada a alguém que nos importa.

O terceiro caso é o mais frequente na vida real e o menos elogiado. Ele funciona: abre portas, resolve situações, salva famílias — como salvou esta. E tem um limite que não se pode esconder, porque o que ele acolhe não é exatamente a pessoa, é a ligação dela.

O Gênesis registra a coisa sem elogiar nem criticar, e não é preciso ir além. Fica a observação: setenta pessoas foram instaladas na melhor terra do Egito porque uma delas, vinte anos antes, tinha sido vendida por essa mesma família.

7. Aplicações Práticas

Trabalhe hoje pelo crédito de que precisará depois

A concessão que a família recebe não foi conquistada naquela audiência. Foi conquistada nos sete anos em que José organizou o abastecimento de um país.

É a aplicação mais óbvia e a mais esquecida. Quase nada do que decide um pedido importante acontece na hora do pedido. O que se faz em anos comuns — o cuidado com o trabalho, o modo de tratar as pessoas, a palavra cumprida — é o que responde por alguém no dia em que ele precisar.

Ao decidir sobre alguém, fale com a pessoa

O rei fez o que o costume dele mandava, e não há por que julgá-lo por isso. Mas quem hoje decide sobre a vida de outros pode aprender pelo avesso.

Dirija-se a quem pediu, mesmo quando a execução couber a terceiros. Custa uma frase e muda a experiência inteira de quem está do outro lado — que, ao contrário de quem decide, vai lembrar daquele dia por muito tempo.

Não se envergonhe da porta que outro abriu, nem se esqueça dela

A família entra pela conta de José. É assim que muita gente entra em muitos lugares: pelo pai, pelo amigo, pelo professor, por quem indicou.

As duas reações erradas são fáceis de reconhecer. Uma é apagar a ajuda e contar a história como se tivesse sido só mérito. A outra é ficar devendo para sempre, e viver pedindo licença. A saída razoável é dizer com naturalidade como se entrou, e depois trabalhar como quem quer ficar.

Depois do sim, execute

José não responde ao rei. O que o texto mostra em seguida é ele trazendo o pai à presença dele e instalando a família na terra concedida.

Vale para qualquer autorização recebida: o valor dela aparece no que se faz nos dias seguintes. Concessão não usada volta a ser palavra.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o rei não responde aos irmãos?

Porque a decisão vai para quem vai executá-la. Numa monarquia antiga, o soberano decidia e transmitia a decisão ao funcionário competente — o interessado tomava conhecimento pela aplicação.

Não há indício de desprezo no texto. O rei deixou que falassem até o fim, ouviu o pedido e concedeu mais do que foi pedido. O que ele não fez foi tratá-los como parte da conversa.

Por que o rei repete uma informação que já tinha?

Porque não é informação: é fundamento. Ao dizer "seu pai e seus irmãos vieram a você", ele enuncia a razão pela qual vai conceder o que concede no versículo 6.

Note-se o que ele deixa de fora: o pasto, a fome, o pedido de Gósen e o ofício declarado. Nenhuma dessas coisas entra na frase. Entra o vínculo com José.

Por que ele fala do pai, que ainda não foi apresentado?

Não se sabe. Jacó só aparecerá diante do trono no versículo 7.

Pode ser que o rei esteja repetindo a ordem do relatório do versículo 1, onde José também começou pelo pai. Pode ser que os episódios não estejam narrados na ordem em que ocorreram, coisa comum no Gênesis. A estranheza foi sentida na Antiguidade: a antiga tradução grega organiza o trecho de outro modo, como o item 2 expõe.

A tradução grega é mais confiável aqui do que o hebraico?

Não há consenso, e o leitor não precisa escolher.

Uma explicação bastante discutida entende que o texto hebraico atual resulta do conserto de um acidente de cópia antigo, e que a ordem grega estaria mais próxima do original. Outra entende o contrário: que a versão grega arrumou o trecho para desfazer uma estranheza. As duas são leituras de especialistas, e nada do que o rei concede muda de uma para a outra.

Por que José não responde nada?

O texto não registra fala dele em nenhum dos dois versículos da concessão.

Pode ser economia de narrativa. Pode ser que o Gênesis queira mostrar o vizir em silêncio justamente no momento em que recebe. O que se observa é o que vem depois: no versículo 7 ele está trazendo o pai; no 11, instalando a família. A resposta dele, se houve, foi feita e não dita.

Este versículo concede alguma coisa?

Não. Sozinho, ele é só a abertura de uma fala.

É útil lê-lo junto com o versículo 6, que é onde estão a terra, a região e a oferta de emprego. Aqui está apenas o motivo — e é justamente por isso que o versículo importa: ele diz em nome de quem tudo o que vem a seguir será dado.

9. Conexão com Outros Textos

A frase do ensaio, dita por outra boca

Gênesis 46:31 — “E José disse a seus irmãos e à casa de seu pai: ‘Subirei para avisar a Faraó e lhe direi: Meus irmãos e a casa de meu pai, que estavam na terra de Canaã, vieram a mim.’”

"Vieram a mim" é a expressão que José havia planejado usar, e que não aparece no relatório que ele efetivamente deu (Gênesis 47:1). Aqui é o rei que a diz, na segunda pessoa.

Pode ser coincidência de expressão comum, e provavelmente é. Registra-se porque o par existe.

O convite que o rei tinha feito antes

Gênesis 45:17-18 — “Faraó disse a José: ‘Diga a seus irmãos: Façam assim: carreguem os seus animais e voltem à terra de Canaã; tomem o seu pai e as suas famílias e venham a mim, que eu lhes darei o melhor da terra do Egito, e vocês comerão da fartura da terra.’”

A promessa já estava feita, e feita ao próprio José. Este versículo é o momento em que o rei constata que ela se cumpriu — e o versículo 6 usará quase as mesmas palavras que ele empregou ali.

Vale notar uma diferença: no convite, o rei dissera "venham a mim". Agora diz que vieram a você.

A posição que torna tudo isso possível

Gênesis 41:40 — “Você estará sobre a minha casa, e todo o meu povo obedecerá à sua ordem; somente no trono serei maior que você.”

É a definição do lugar que José ocupa, e a razão de o rei lhe entregar a decisão como tarefa em vez de anunciá-la como favor.

Entre aquele versículo e este passaram-se nove anos: sete de fartura e dois de fome (Gênesis 45:6).

O outro rei, no livro seguinte

Êxodo 1:8 — “Levantou-se, entretanto, um novo rei sobre o Egito, que não conhecia José.”

Todo o acolhimento deste capítulo depende de um rei que conhece José. O Êxodo abrirá dizendo que veio outro, que não o conhecia — e é aí que a situação da família se inverte.

O Gênesis não prepara esse contraste nem o antecipa. Ele é visível apenas para quem lê os dois livros.

Quando a resposta chega pela boca de um intermediário

Gênesis 41:55 — “Quando toda a terra do Egito sentiu fome, o povo clamou a Faraó por pão. Faraó disse a todos os egípcios: ‘Vão a José e façam o que ele lhes disser.’”

O mesmo movimento, com outros pedintes: o povo se dirige ao rei, e o rei o encaminha a José.

Os egípcios famintos e os cinco pastores estrangeiros recebem, do trono, o mesmo tratamento — o assunto é com o vizir. É um traço constante do retrato que o Gênesis faz deste rei: ele decide pouco e delega quase tudo a uma pessoa só.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então Faraó disse a José: “Seu pai e seus irmãos vieram a você.

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר פַּרְעֹה אֶל־יוֹסֵף לֵאמֹר אָבִיךָ וְאַחֶיךָ בָּאוּ אֵלֶיךָ

Transliteração

vayomer Par'oh el-Yosef lemor avicha ve'acheicha ba'u eleicha

Análise palavra por palavra

וַיֹּאמֶר פַּרְעֹה אֶל־יוֹסֵף — vayomer Par'oh el-Yosef. “E disse Faraó a José.”

A preposição el marca a direção da fala: para José. É a mesma preposição que aparece nos versículos 3 e 4, onde a fala ia do rei para os irmãos e dos irmãos para o rei.

Aqui ela muda de destinatário, e é a coisa mais importante do versículo. Quem pediu foi um grupo; quem é respondido é um homem.

Repare também no nome. Em hebraico, José aparece com o nome que a família lhe deu, não com o nome egípcio que o rei lhe pusera em Gênesis 41:45. O Gênesis usa "Zafenate-Panéia" uma vez só, na cena da nomeação, e nunca mais — nem quando é o próprio rei quem fala.

לֵאמֹר — lemor. “Dizendo.”

Uma palavrinha que quase nunca é traduzida, e que vale conhecer.

É a forma do verbo "dizer" que o hebraico usa como sinal de que vêm as palavras exatas de alguém — funciona, na prática, como as aspas de abertura, que o hebraico antigo não tinha. Aparece em todo o Antigo Testamento nesta função.

O curioso é a construção aqui: "e disse Faraó a José, dizendo". Ao pé da letra soa redundante, e não é erro — é a fórmula corrente. As traduções portuguesas a suprimem, com razão.

Há, porém, um detalhe que merece nota. Esta é uma construção típica de mensagem transmitida — a fórmula com que se introduz o que alguém manda dizer a outro por intermédio de terceiros. Alguns leitores viram nisso um indício de que a fala do rei chega a José como comunicação formal, e não como conversa. É observação plausível e não é demonstrável: a fórmula é comum demais para carregar tanto peso sozinha.

אָבִיךָ וְאַחֶיךָ — avicha ve'acheicha. “Teu pai e teus irmãos.”

As mesmas duas palavras do versículo 1, com o sufixo trocado. Lá José disse "meu pai e meus irmãos"; aqui o rei diz "teu pai e teus irmãos".

É um detalhe de composição e é bonito: a frase que o filho disse na primeira pessoa volta a ele na segunda, pela boca do rei. O vínculo que José assumiu diante do trono é o vínculo com que o trono lhe responde.

A ordem também se repete — o pai antes dos irmãos —, embora Jacó ainda não tenha sido apresentado. O item 3 examina o que se pode e o que não se pode concluir daí.

בָּאוּ — ba'u. “Vieram.”

O mesmo verbo do versículo 1 e do versículo 4, na mesma forma do passado acabado. É a terceira vez no capítulo que este verbo descreve a chegada da família, e as três vezes com sujeito plural.

O Gênesis podia ter variado; não variou. A chegada é dita sempre com a mesma palavra, por José, pelos irmãos e agora pelo rei.

אֵלֶיךָ — eleicha. “A ti.”

A palavra que decide o versículo, e é a preposição el outra vez, agora com o sufixo de segunda pessoa.

Duas observações.

A primeira é sobre o que a preposição faz. Ela marca destino, não lugar: não diz onde os viajantes estão, diz para quem foram. O hebraico tinha como dizer "vieram ao Egito" ou "vieram a esta terra" — os próprios irmãos usaram essa construção no versículo 4. O rei escolhe outra: vieram a você.

A segunda é sobre quem a diz. É o rei do Egito descrevendo a entrada de setenta estrangeiros no país dele, e o ponto de referência que ele usa não é o país nem ele mesmo. É um funcionário.

Fica assim, em duas sílabas, o fundamento de toda a concessão do versículo seguinte. E fica também a razão de o versículo 6 vir tão generoso: o que o rei está atendendo, na frase dele, não é um pedido de estrangeiros — é a chegada de uma família a alguém.

11. Conclusão

Três conclusões, de um versículo que parece não dizer nada.

A resposta muda de destinatário, e isso é o versículo. Quem expôs a situação e pediu foram os cinco irmãos; quem recebe a resposta é José. Não há descortesia declarada — é o funcionamento normal de uma monarquia antiga, em que a decisão desce para quem vai aplicá-la. O efeito, ainda assim, fica registrado: a partir daqui os peticionários são tratados na terceira pessoa e não voltam a falar no capítulo.

O rei enuncia a razão antes da decisão, e a razão é uma só. Não o pasto, não a fome, não o pedido de Gósen, não o ofício que ele mesmo perguntara. "Seu pai e seus irmãos vieram a você." A concessão que vem no versículo seguinte se apoia inteira no crédito de um homem — e é por isso que ela será maior do que o que foi pedido.

E o texto tem aqui um problema de transmissão que as traduções não mostram. A antiga versão grega traz estes dois versículos em outra ordem e com uma frase a mais. Há explicações opostas para a diferença, nenhuma delas consensual, e nada do que o rei concede se altera de uma para a outra. O honesto é registrar a variante, apresentar as duas explicações como leituras de especialistas e não escolher.

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