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Êxodo 10:21

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 29 acessos
Então o SENHOR disse a Moisés: “Estenda a mão para o céu, e haverá trevas sobre a terra do Egito — trevas que se apalpam.”
Moisés ergue a mão para o céu sobre o Egito e a luz do sol desaparece, deixando a terra em escuridão total.

Estudo


Então o SENHOR disse a Moisés: “Estenda a mão para o céu, e haverá trevas sobre a terra do Egito — trevas que se apalpam.”

1. Introdução

A ordem vem sem aviso ao rei: desta vez não há audiência, não há ameaça e não há prazo. Deus fala com Moisés, e a praga começa.

O gesto é para cima — a mão estendida em direção ao céu —, e o que desce é escuridão sobre a terra do Egito, o país cujo deus maior era o sol.

A expressão que fecha o versículo é das mais estranhas do Antigo Testamento: trevas que se apalpam. Escuridão que se toca com a mão.

Três coisas se examinam adiante: por que não houve aviso, o que o sol significava no Egito, e o que fazer com uma frase que atribui espessura à ausência de luz.

2. Contexto Histórico e Cultural

O Egito e o sol: o que estava em jogo quando a luz faltava

Para medir esta praga é preciso saber uma coisa que não está no texto: no Egito, o sol não era um astro entre outros. Era o deus principal, o modelo do poder real e a garantia de que o mundo continuava funcionando.

Os nomes variam conforme o lugar e a época — Rá em Heliópolis, Atum no poente, Khepri no nascente, e a fusão com o deus de Tebas que produziu Amon-Rá, mencionada de passagem nos estudos de Êxodo 3:6 e 8:15. O que não varia é a posição: o sol no centro.

A noite era uma travessia, e ela podia dar errado

Aqui está o ponto que o leitor moderno mais facilmente perde. Para o egípcio, o pôr do sol não era o fim de um dia: era a entrada do deus no mundo de baixo, a Duat (em egípcio, a região por onde o sol passa durante a noite).

Existe um livro inteiro sobre essa travessia, e ele foi escrito para ser lido pelos mortos. Chama-se Amduat — o título significa, aproximadamente, "aquilo que existe no mundo de baixo" — e divide a noite em doze horas, cada uma com a sua região, os seus habitantes e os seus perigos. O texto aparece nas paredes das tumbas reais do Império Novo, a partir do século XV a.C.

Em cada hora o sol enfrenta inimigos, e o principal deles é Apófis, a serpente gigantesca que tenta engolir a barca solar. O combate se repete todas as noites. O Egito não o tratava como vitória garantida: havia rituais, em templos, destinados a ajudar o deus a vencer — e a existência desses rituais é a prova de que a coisa era levada a sério.

O amanhecer, portanto, não era um fato automático. Era o resultado de uma luta bem-sucedida, renovado dia após dia.

A Ladainha de Rá, e as setenta e cinco formas do sol

Outro texto do mesmo conjunto ajuda a medir a densidade dessa religião. Chama-se Ladainha de Rá — em egípcio, algo como "Livro de adorar Rá no Ocidente", sendo o Ocidente o lado dos mortos.

Ele invoca o deus em setenta e cinco formas diferentes, uma a uma, cada uma com o seu nome e a sua imagem. Há o escaravelho da manhã, o carneiro do poente, o grande gato que decepa a serpente, o babuíno, o orix. E há, o que é mais notável, formas de escuridão: "o Escurecido", "o de Rosto Sombrio", "o Senhor das Trevas", que é a septuagésima quinta e última.

Repare no que isso significa. A teologia egípcia não opunha o sol às trevas como o bem ao mal. Ela incluía a escuridão dentro do próprio deus solar, como uma das fases por que ele passa. A noite não era o inimigo de Rá; era o lugar onde ele se renovava.

O texto aparece pela primeira vez na tumba de Tutmés III, no Vale dos Reis, e depois em quase todas as tumbas reais até Ramessés X. Fora da realeza, é raro — o vizir Useramon, também em Tebas, é uma das poucas exceções. A função declarada é transformadora: conhecendo as formas noturnas do deus, o rei morto se torna um com ele e passa a fazer a mesma travessia, morrendo e renascendo todo dia.

O rei era filho do sol

Essa ligação não valia só depois da morte. Desde a quarta dinastia, um dos títulos oficiais do faraó era "Filho de Rá" — em egípcio, sa-Ra —, e era justamente o título que introduzia o nome pessoal do rei nas inscrições.

Então o homem sentado no trono se apresentava, por definição de cargo, como filho do sol. A legitimidade dele estava presa à do astro.

O que isso faz com o versículo

Junte as peças e leia a frase de novo: haverá trevas sobre a terra do Egito.

Para quem morava ali, a frase não anuncia desconforto. Anuncia que a travessia noturna do deus não terminou — ou que ele não voltou. É o pior desfecho possível dentro daquele sistema, e é exatamente o que os rituais do templo existiam para evitar.

Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) diz o essencial em poucas palavras: Rá estava entre os principais objetos de culto do Egito, especialmente no delta, e uma escuridão prolongada equivaleria a dizer que o deus estava morto.

Duas ressalvas, e elas importam

Primeira: o Êxodo não diz nada disso. O texto não menciona Rá, não menciona a barca, não menciona Apófis e não apresenta a praga como disputa entre divindades. Toda a leitura acima é reconstrução de fundo, feita a partir de fontes egípcias — e reconstrução de fundo explica o que a cena pressupõe, não o que o texto afirma.

Segunda: nem toda praga tem alvo religioso identificável. É comum ler que cada uma das dez atinge um deus egípcio específico, com uma tabela de correspondências. Essa tabela é construção moderna, e funciona para algumas pragas e força a barra em outras. Esta é a que melhor se encaixa — o que aconselha, justamente, a não generalizar a partir dela.

O que sobra é firme e é bastante: numa terra em que o retorno do sol era o acontecimento religioso central, houve três dias sem sol.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então o SENHOR disse a Moisés"

Comece pelo que não acontece: ninguém avisa o rei.

Volte ao começo do capítulo e compare. Para os gafanhotos houve audiência: Moisés e Arão foram a Faraó, disseram "assim diz o SENHOR", fizeram a pergunta — "até quando você se recusará a se humilhar?" —, deram a condição, anunciaram o bicho, descreveram o estrago e marcaram a data: amanhã (Êxodo 10:3-6).

Para o granizo houve mais ainda: um aviso longo, com a ordem de recolher os rebanhos, e parte da corte obedeceu (Êxodo 9:13-21).

Aqui não há nada. Deus fala com Moisés no versículo 21, Moisés estende a mão no versículo 22, e a escuridão cai. Entre a ordem e a praga não existe um encontro com o rei.

Como entender isso? Três leituras, e cada uma afirma uma coisa.

Primeira leitura: não havia mais o que negociar. A última audiência terminou com a recusa do versículo 20, e não houve pedido novo. A praga vem sem conversa porque a conversa acabou.

Segunda leitura: o aviso pertencia a um padrão que esta praga não segue. As pragas do ciclo se organizam em grupos, e nem todas trazem advertência; esta seria uma das que não trazem.

Terceira leitura: o texto apenas não conta. Pode ter havido aviso, e o Êxodo pode tê-lo omitido por economia.

A terceira é sempre possível e nunca verificável. Entre as duas primeiras não é possível decidir, e as duas levam ao mesmo lugar: o rei não é procurado, não é advertido e não tem oportunidade de responder antes.

"Estenda a mão para o céu"

O gesto se repete, e é raro. Em todo o ciclo, só duas pragas são disparadas com a mão apontada para cima: o granizo, em Êxodo 9:22, e esta.

As outras têm gestos baixos — o cajado sobre o rio, a mão sobre as águas, o pó atirado para cima a partir de um punhado de fuligem, a mão sobre a terra. Aqui o alvo é o céu, e é do céu que vem o efeito.

Repare também num detalhe de vocabulário. O texto diz "mão", e no versículo 13, para os gafanhotos, tinha dito que Moisés estendeu o cajado — embora a ordem, no versículo 12, tivesse sido de estender a mão. Aqui não há cajado em lugar nenhum: nem na ordem, nem na execução do versículo 22.

E não há Arão. Desde Êxodo 10:12, as ordens vêm dirigidas a Moisés sozinho.

"e haverá trevas sobre a terra do Egito"

A delimitação é geográfica e vale notá-la: sobre a terra do Egito, não sobre o mundo.

O Êxodo é consistente nisso ao longo da série, e a consistência prepara o versículo 23, onde a exceção aparecerá dentro do próprio Egito.

Quanto à palavra "trevas", ela carrega no Antigo Testamento um peso que a palavra portuguesa não tem sozinha. É a palavra do princípio — em Gênesis 1:2 as trevas cobriam a face do abismo, antes de haver luz —, e é a palavra do luto, da cegueira, da prisão e do mundo dos mortos. Não descreve apenas a falta de iluminação; descreve um estado do mundo.

"trevas que se apalpam"

Esta é a expressão que faz o versículo ser lembrado, e ela é difícil no hebraico também — não só em português.

A dificuldade é lógica antes de ser linguística. Escuridão é a falta de luz; falta não se toca. Dizer que as trevas se apalpam é atribuir corpo ao que não tem.

Quatro leituras circulam, e vale dizer o que cada uma afirma.

Primeira leitura: é força de expressão. A frase intensifica, do mesmo modo que hoje se diz "escuridão que dá para cortar". Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) vão por aí: a expressão leva o pensamento ao grau máximo, e não descreve uma propriedade física.

Segunda leitura: o que se apalpa é a causa, não a escuridão. Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII) formula com precisão: a escuridão, sendo privação, não pode ser sentida propriamente — mas pode ser sentida na sua causa, isto é, no ar carregado que a produz. Quem já enfrentou uma tempestade de areia sabe o que isso quer dizer: a poeira se sente na pele, na boca e nos olhos.

Terceira leitura: quem apalpa são as pessoas. Ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) lê a frase assim: os egípcios tatearão na escuridão, como tateia o cego. Ele remete a Deuteronômio 28:29, onde o mesmo verbo aparece exatamente com esse sentido. Nessa leitura não há nada de estranho na frase: ela descreve o comportamento de quem não enxerga.

Quarta leitura: a escuridão é tratada como coisa. A frase diria o que diz, sem metáfora: uma escuridão com densidade. Essa leitura tem, a seu favor, o fato de o Antigo Testamento tratar as trevas noutros lugares como algo que se estende, se põe e se retira — e, contra si, o fato de que não há outra passagem em que alguém as toque.

A discussão gramatical que sustenta a terceira leitura está no item 10, e ela não é decisiva: a forma verbal admite mais de uma análise. Não é possível decidir.

Registre-se, porém, um dado que pesa. Ibn Ezra acrescenta uma observação de quem viu: a escuridão era tal que nem vela nem fogo davam luz. Ele apoia isso no versículo 23 — se ninguém via o outro durante três dias, então não bastava acender alguma coisa. Essa leitura torna a praga incompatível com qualquer explicação por falta de sol, porque uma lamparina funciona de noite.

O limite

O versículo anuncia e não explica. Não diz de onde vêm as trevas, não diz o que as compõe, não menciona vento, nuvem, areia, eclipse nem fumaça.

Quem quiser saber a causa não a encontra aqui, e as propostas — todas modernas, todas construídas de fora — estão reunidas no estudo de Êxodo 10:22. O que este versículo fornece é a ordem, o gesto, o alcance e uma expressão que ninguém conseguiu traduzir sem escolher um lado.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés, sozinho

A ordem é dada só a ele, e é ele quem a executa no versículo seguinte. Arão não é mencionado nem aqui nem no resto do episódio das trevas.

O arranjo vem de Êxodo 10:12 e é estável até o fim do capítulo. Nas primeiras pragas Arão tinha função de gesto — ele estendeu o cajado sobre as águas, ele feriu o pó da terra. A partir do meio do capítulo 9, essa função passa a Moisés.

Faraó, que não é avisado

O rei não aparece neste versículo, e é a ausência mais relevante dele em todo o capítulo.

Nas pragas anteriores o Êxodo costumava levar Moisés à presença do rei antes do golpe: de manhã, à beira da água, no palácio. Aqui não há encontro. Faraó só volta ao texto no versículo 24, depois de três dias de escuridão.

O céu

A palavra hebraica é plural — "os céus" — e designa tudo o que está acima: o ar, as nuvens, o lugar dos astros.

É o alvo do gesto e a origem do efeito. Em toda a série, só o granizo e as trevas vêm de lá.

A terra do Egito

A expressão delimita a área atingida, e é a mesma fórmula usada nas pragas anteriores.

Vale antecipar apenas isto, porque o versículo o pressupõe: o Egito habitado era uma faixa estreita ao longo do rio e o leque do delta. Uma escuridão "sobre a terra do Egito" cobre, na prática, toda a população do país.

O que acontecera antes

O episódio anterior terminou com o rei recusando, sem falar (Êxodo 10:20). O país estava sem colheita, sem pasto e sem fruto, do modo descrito em Êxodo 10:15 — os gafanhotos foram embora e o estrago ficou.

É sobre esse país que a escuridão desce. O Êxodo não informa quanto tempo se passou entre uma praga e a outra, aqui nem em nenhum ponto da série.

5. Pontos de Ensino

Nem toda advertência se repete

Oito pragas vieram com algum tipo de aviso, condição ou prazo. Esta vem sem nenhum.

O dado é do texto, e o ensino que sai dele é do tamanho do dado: a série de avisos não era garantia de que haveria sempre mais um. Quem tratava cada advertência como o começo de uma negociação estava supondo uma regularidade que o capítulo interrompe sem explicar.

O golpe acerta o que sustenta, não o que dói

Um enxame come a colheita; a escuridão não destrói nada. Nenhuma propriedade é danificada, nenhum animal morre, nenhuma planta se perde.

E é, entre todas, a que atinge mais fundo — porque acerta aquilo em que o país inteiro apoiava a sua ideia de ordem. Vale reparar nisso quando se avalia um dano qualquer: a conta do estrago material e a conta do que foi abalado nem sempre andam juntas.

Uma palavra pode resistir a todas as traduções

"Trevas que se apalpam" incomoda em qualquer língua, e três mil anos de comentário não produziram acordo.

O proveito disso é de leitura. Quando uma expressão soa estranha, o primeiro impulso é corrigi-la mentalmente para algo que faça sentido — e é justamente aí que se perde o que o texto tinha de próprio. Ficar com a estranheza, sabendo que ela é do original e não da tradução, é mais fiel do que resolvê-la depressa.

O gesto que não faz a coisa

Moisés estende a mão e a escuridão vem. A mão não produz escuridão nenhuma.

O Êxodo mantém essa distinção ao longo de todo o ciclo: há um gesto visível e há um efeito que ninguém atribui ao gesto. Quem confunde as duas coisas transforma o relato numa cena de magia — e é o próprio texto que separa, quando põe a ordem numa boca e a execução noutra.

6. Aspectos Filosóficos

A escuridão é alguma coisa, ou é a falta de alguma coisa?

A frase do versículo tropeça numa questão que a filosofia antiga discutiu por séculos, e que continua viva: existem ausências, ou só existem presenças?

Um lado responde que a escuridão não é nada. Ela é a luz que não está ali, do mesmo modo que o buraco é o pão que não está na rosca, e o silêncio é o som que falta. Nessa posição — chamada, tecnicamente, de doutrina da privação —, falar da escuridão como de uma coisa é um jeito abreviado de falar, cômodo e enganoso. Não há trevas; há lugares sem luz.

O outro lado responde que essa análise, embora correta na física, não descreve a experiência nem o uso comum da língua. Quando alguém entra num quarto escuro, o que ele encontra não parece a subtração de um ingrediente: parece uma presença que ocupa o espaço, que pressiona e que se pode atravessar. A língua acompanha essa experiência em todos os idiomas — a escuridão cai, desce, envolve, é cortada.

Onde o versículo entra nisso

A frase hebraica está do segundo lado, e vai além dele: ela não diz apenas que a escuridão desce, diz que ela se toca.

Isso cria uma dificuldade de tradução que não é de vocabulário. Quem traduz por "densas trevas" está decidindo que a frase é exagero e desfazendo o problema. Quem traduz por "trevas que se apalpam" conserva o problema e entrega ao leitor uma frase que não fecha.

A nossa versão escolheu conservar, e convém explicar por quê: a estranheza está no original. O hebraico tinha maneiras corriqueiras de dizer "escuridão muito grande" — e o versículo 22 usa uma delas. Esta frase é outra coisa, e apagá-la seria melhorar o texto.

O que se perde quando falta a luz

Há um segundo problema no versículo, e ele é menos abstrato.

Numa escuridão completa, o que uma pessoa perde não é só a visão. Perde a orientação, porque não há referências. Perde a noção de distância, porque o som passa a ser a única pista. Perde a medida do tempo, porque o dia e a noite deixam de se distinguir — e Ibn Ezra reparou nisso com precisão: os egípcios não teriam como saber que haviam passado três dias, a não ser pelos israelitas, que tinham luz.

E perde os outros. É o que o versículo 23 vai registrar: ninguém via o seu irmão. A escuridão total não isola apenas do mundo; isola das pessoas que estão a um metro de distância.

Repare no que essa lista tem em comum. Nenhum desses prejuízos é dano físico. Ninguém fica ferido, nada é destruído — e, ainda assim, a vida para. O que a praga retira não é um bem, é uma condição: aquilo que não se possui e sem o que nada mais funciona.

A distinção é útil fora daqui e vale enunciá-la uma vez. Há coisas que se perdem e se contam — a colheita, o gado, a casa. E há coisas que não são bens de ninguém e sem as quais os bens não servem para nada: poder ver, poder se orientar, poder reconhecer quem está ao lado. As primeiras entram no inventário do prejuízo; as segundas não, e são as que mais falta fazem quando somem.

Um limite, para não converter isto em doutrina

Tudo o que se disse acima é reflexão a partir da cena, e não afirmação do Êxodo. O texto não discute a natureza das trevas, não define ausência e presença e não faz nenhuma consideração sobre o que a luz possibilita.

Ele escreve quatro palavras em hebraico e segue adiante. A dificuldade que elas levantam é real; a discussão que se faz a partir delas é nossa.

7. Aplicações Práticas

O que se perde sem ser destruído

A praga deste versículo não quebra nada. Nada é danificado, nada morre, nada se perde — e o país inteiro para.

A aplicação é para qualquer situação em que o inventário de danos não explica o tamanho do estrago. Uma família em que ninguém se fala continua com a casa em pé. Uma equipe que perdeu a confiança continua com todos os funcionários. O prejuízo mensurável pode ser zero e a coisa não funcionar mais.

O erro que isso corrige é comum: medir uma crise pelo que se consegue contar. O que sustenta costuma não ser contável.

Não esperar mais um aviso

Oito vezes o rei foi procurado antes do golpe. Na nona, não foi.

Quem lê a série inteira nota o padrão e, com ele, a expectativa que o padrão cria. A aplicação é sóbria e não vira ameaça: uma sequência de oportunidades não é promessa de mais uma, e tratar a regularidade do passado como garantia do futuro é uma aposta, não um cálculo.

Ficar com a frase que não fecha

"Trevas que se apalpam" é estranho, e é estranho no hebraico.

A aplicação aqui é de honestidade na leitura, e serve para muito além deste versículo: quando um texto diz algo que não encaixa, a primeira coisa a fazer é verificar se o desencaixe é do original ou da tradução. Se for do original, ele é informação — e corrigi-lo mentalmente é apagar a única coisa que aquele trecho tinha para dizer.

O limite do que se pode aplicar

Este versículo não é sobre atravessar períodos difíceis e não oferece conselho sobre isso.

É a ordem de uma praga, dada a um homem, contra um país. Ler nele a promessa de uma luz pessoal no fim de um túnel é um uso devocional legítimo em outro lugar, e não é o que está escrito aqui.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que não houve aviso desta vez?

O Êxodo não diz, e é uma das perguntas que ficam.

Duas explicações são defensáveis. Uma é que a negociação tinha acabado: a última audiência terminou na recusa do versículo 20, e não houve novo pedido do rei. A outra é de estrutura: as pragas do ciclo se distribuem em grupos, e nem todas trazem advertência — assunto do estudo de Êxodo 8:20.

Nenhuma das duas se comprova. O que se comprova é que entre a ordem deste versículo e a escuridão do seguinte não existe encontro com Faraó.

O que são, afinal, "trevas que se apalpam"?

Depende de como se analisa a forma verbal hebraica, e a análise não é unânime.

Se o verbo for o de tatear — e é essa a leitura de Ibn Ezra —, a frase diz que as pessoas apalparão na escuridão, como fazem os cegos. Não há nada de sobrenatural na formulação: é descrição de comportamento.

Se o verbo estiver na forma causativa com sentido próprio, a frase diz que a escuridão se deixa apalpar, e aí ela ganha espessura.

Há ainda quem proponha uma terceira raiz, com o sentido de "afastar-se", o que daria algo como "trevas que não se afastam". É minoritária.

Não é possível decidir. As traduções portuguesas escolhem e não avisam que escolheram.

Por que a praga atinge o Egito inteiro e não só o rei?

Porque é assim em toda a série, e o Êxodo não apresenta isso como problema.

O texto não oferece justificativa para o alcance coletivo. Não diz que o povo egípcio era cúmplice, não diz que o rei representa o país e não discute o assunto. Quem quiser uma explicação terá de trazê-la de fora.

Havia como acender uma luz?

O versículo não trata disso, e o 23 responde por implicação: ninguém via o seu irmão durante três dias.

Ibn Ezra tirou dali a conclusão de que nem vela nem fogo davam luz. É inferência, e é boa — mas continua sendo inferência: o texto não menciona lamparina nenhuma.

Esta praga tem a ver com o deus sol dos egípcios?

O Êxodo não diz que tem. Não nomeia nenhum deus egípcio nesta passagem e não apresenta a praga como disputa entre divindades.

O que se pode afirmar é o fundo: no Egito, o retorno do sol era o acontecimento religioso central, e o próprio rei se intitulava filho do sol. Uma escuridão de três dias, naquele lugar, teria um significado que não teria em outro.

Entre afirmar o fundo e afirmar a intenção do texto há uma distância, e é prudente não atravessá-la.

9. Conexão com Outros Textos

A outra praga que veio do céu

Êxodo 9:22 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Estenda a mão para o céu, e haverá granizo em toda a terra do Egito, sobre os homens, sobre os animais e sobre toda a planta do campo, na terra do Egito.'"

A ordem é quase a mesma, palavra por palavra, até o ponto em que se diz o que vai acontecer. Lá, granizo; aqui, escuridão. São as duas únicas pragas disparadas com a mão apontada para cima.

As trevas antes da luz

Gênesis 1:2 — "A terra era sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas."

Gênesis 1:3 — "Disse Deus: 'Haja luz.' E houve luz."

A palavra deste versículo é a mesma do segundo versículo da Bíblia. Ali as trevas são o estado anterior à primeira palavra; aqui elas voltam sobre um país, e a ordem que as traz tem a mesma forma da que trouxe a luz.

Tatear ao meio-dia

Deuteronômio 28:29 — "Andarás apalpando ao meio dia, como o cego apalpa nas trevas e não prosperarás nos teus caminhos; e somente serás oprimido e roubado em todo o tempo, e não haverá quem te salve."

É a passagem que Ibn Ezra usa para sustentar a sua leitura: o verbo deste versículo aparece ali com o sentido claro de tatear. A diferença é que em Deuteronômio quem apalpa é a pessoa, e no Êxodo o sujeito do verbo é discutido.

O mesmo verbo, com um homem cego, no Gênesis

Gênesis 27:22 — "Jacó aproximou-se de Isaque, seu pai, que o apalpou e disse: 'A voz é a voz de Jacó, mas as mãos são as mãos de Esaú.'"

A primeira ocorrência do verbo na Bíblia. Um velho que não enxerga reconhece pelo tato — e erra. O verbo das trevas do Egito é o mesmo das mãos de Isaque.

Tatear como imagem de juízo

Jó 12:25 — "Eles apalpam trevas e não luz; e fá-los cambalear como um ébrio."

Jó usa as duas palavras juntas — apalpar e trevas — para descrever o que acontece a quem perde o discernimento. É a formulação mais próxima da deste versículo em toda a Bíblia hebraica.

O dia do SENHOR como trevas, não como luz

Amós 5:18 — "Ai de vós que desejais o Dia do SENHOR! Para que desejais vós o Dia do SENHOR? Ele é trevas e não luz."

Os profetas pegam a imagem e a viram contra Israel. O que no Êxodo cai sobre o Egito, em Amós é anunciado aos que esperavam ser poupados.

O salmo que conta esta praga

Salmo 105:28 — "Ele enviou trevas, e ficou escuro; e não rebelaram contra as suas palavras."

É a única releitura das pragas dentro do Antigo Testamento que dá às trevas um versículo próprio. Ela acrescenta um verbo que o Êxodo não usa — "enviou" — e o resto da frase é discutido: o hebraico admite entender que eles não se rebelaram contra as palavras de Deus, e há quem proponha ler exatamente o contrário. Não há consenso.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então o SENHOR disse a Moisés: “Estenda a mão para o céu, e haverá trevas sobre a terra do Egito — trevas que se apalpam.”

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר יְהוָה אֶל־מֹשֶׁה נְטֵה יָדְךָ עַל־הַשָּׁמַיִם וִיהִי חֹשֶׁךְ עַל־אֶרֶץ מִצְרָיִם וְיָמֵשׁ חֹשֶׁךְ׃

Transliteração

wa-yomer YHWH el-Mosheh: neteh yadekha al-ha-shamayim wi-hi choshekh al-erets Mitsrayim, we-yamesh choshekh.

Análise palavra por palavra

נְטֵה יָדְךָ — neteh yadekha, "estenda a sua mão".

Verbo natah na forma simples (o Qal), imperativo, masculino singular. A raiz significa estender, inclinar, estirar — é o verbo de armar uma tenda, esticando a lona, e o de inclinar o ouvido para escutar.

O imperativo está no singular: a ordem é dada a uma pessoa. Nas primeiras pragas ela era dirigida a Arão (Êxodo 8:5, por exemplo); desde Êxodo 10:12, é Moisés quem a recebe.

Yad é mão, com sufixo de segunda pessoa do masculino singular. Não há cajado neste versículo nem no seguinte — o que o distingue de Êxodo 10:13, onde a ordem falava em mão e a execução trouxe o cajado.

עַל־הַשָּׁמַיִם — al-ha-shamayim, "sobre os céus".

Shamayim é a palavra hebraica para céu, e está sempre no plural — uma forma que o hebraico usa para algumas coisas de extensão indefinida, como "águas" e "vida". A tradução para o singular é obrigatória em português.

A preposição al significa "sobre", "em direção a", "contra". Em Êxodo 9:22, na ordem do granizo, a construção é exatamente a mesma.

וִיהִי חֹשֶׁךְ — wi-hi choshekh, "e haja trevas".

Verbo hayah, ser, existir, acontecer, na forma que exprime ordem branda — um "que haja". A construção é a mesma de Gênesis 1:3, yehi or, "haja luz". Aqui o que se ordena é o contrário.

Choshekh é a palavra comum para escuridão, e o seu campo no Antigo Testamento é largo. Ela nomeia: a escuridão anterior à criação (Gênesis 1:2); o mundo dos mortos, na fala de Jó; a cegueira; o desamparo; a desgraça anunciada pelos profetas. É substantivo masculino singular, e não tem artigo aqui — "trevas", não "as trevas".

עַל־אֶרֶץ מִצְרָיִם — al-erets Mitsrayim, "sobre a terra do Egito".

Fórmula fixa no ciclo das pragas, que delimita o alcance. Erets é terra, país, região.

וְיָמֵשׁ חֹשֶׁךְ — we-yamesh choshekh, "e apalpe-se a escuridão".

Aqui está a dificuldade, e ela é real: esta é uma das expressões mais discutidas do Pentateuco, e nenhuma solução reúne consenso.

Comece pelo que é seguro. O verbo é da raiz mashash, apalpar, tatear, revistar com as mãos. É palavra rara: ocorre nove vezes em toda a Bíblia hebraica.

Vale conhecer a lista inteira, porque ela é curta e esclarece o campo. Quatro ocorrências estão no Gênesis: Isaque apalpando Jacó para identificá-lo (Gênesis 27:12 e 27:22) e Labão revistando a tenda em busca dos ídolos roubados (Gênesis 31:34 e 31:37). Uma está aqui. Uma está em Deuteronômio 28:29, "andarás apalpando ao meio-dia, como o cego apalpa nas trevas". E duas estão em Jó, 5:14 e 12:25, as duas descrevendo quem tateia às cegas em pleno dia.

Repare no padrão: em oito das nove ocorrências, quem apalpa é uma pessoa — para identificar, para procurar, ou porque não enxerga. A nona é este versículo.

O problema gramatical

A forma yamesh é analisada, na maioria das edições, como pertencente à conjugação causativa do hebraico (o Hifil). Isso abre duas saídas.

Primeira: causativo com sentido próprio — "e que a escuridão faça apalpar", isto é, que ela seja de tal ordem que se possa senti-la. É a leitura que produz "trevas que se apalpam", e é a que as traduções portuguesas seguem.

Segunda: sujeito indeterminado — "e que se apalpe a escuridão", ou "e apalparão na escuridão". É a leitura de Ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII), que rejeita as alternativas e sustenta que o sentido é o de Deuteronômio 28:29: os egípcios tatearão com as mãos.

Há ainda uma terceira, que parte de outra raiz: mush, "afastar-se, remover-se", que também produziria uma forma parecida. Daria "e a escuridão não se afastará", ou algo próximo. É minoritária e costuma ser descartada porque exige supor uma negação que o texto não tem.

Não é possível decidir. As três análises são gramaticalmente defensáveis, e a escolha acaba sendo feita pelo sentido que cada tradutor considera mais provável.

O que a escolha custa

Cada saída tem o seu preço, porque ele não é o mesmo.

A primeira leitura produz uma frase extraordinária e sem paralelo: escuridão com espessura. Ela é a única das três que faz o versículo dizer algo fora do comum — e é justamente por isso que se desconfia dela.

A segunda leitura é a mais econômica e a mais coerente com o uso do verbo no resto da Bíblia. Em compensação, torna a frase quase banal: as pessoas tateiam no escuro, o que é o que sempre acontece no escuro.

A terceira resolve a estranheza inventando um problema novo.

Nossa versão ficou com a primeira, e por um motivo que convém declarar: o hebraico tinha modos comuns de dizer "escuridão muito grande", e o versículo seguinte usa um deles. Se o autor quisesse apenas intensificar, tinha a expressão pronta à mão. Ele escreveu outra coisa.

A tradução grega antiga

A Septuaginta traduziu kai genestho skotos epi gen Aigyptou, pselaphēton skotos — "e haja escuridão sobre a terra do Egito, escuridão palpável".

O adjetivo grego escolhido, pselaphētos, significa "que se pode tocar", e vem do verbo de apalpar, tatear. Os tradutores de Alexandria, portanto, entenderam a frase do primeiro modo: para eles, quem se apalpa é a escuridão.

Essa escolha teve efeito duradouro. Ela passou para o latim — tenebrae tam densae ut palpari queant, "trevas tão densas que se possam apalpar" — e daí para as línguas modernas. A leitura de Ibn Ezra, mais econômica, nunca chegou às Bíblias populares.

11. Conclusão

A nona praga começa sem que ninguém avise o rei. Não há audiência, não há condição e não há prazo — e essa é a primeira conclusão do versículo: a sequência de advertências, que vinha desde o capítulo 7, é interrompida sem explicação.

Conclui-se, em seguida, que o alvo mudou de natureza. As pragas anteriores destruíram coisas: água, gado, colheita, fruto. Esta não destrói nada. Ela retira uma condição — a luz — e, com ela, a possibilidade de fazer qualquer coisa.

Conclui-se, terceiro, que o lugar onde isso acontece importa para entender o tamanho do golpe. Num país em que o retorno do sol era tratado como a vitória diária de um deus sobre os seus inimigos, e em que o próprio rei se intitulava filho desse sol, uma escuridão prolongada não é mau tempo. O Êxodo não diz isso; as fontes egípcias permitem dizê-lo.

Resta a frase final, e a conclusão a respeito dela é de método. "Trevas que se apalpam" resiste há três mil anos, e as traduções escolhem sem avisar que escolheram. O que se pode afirmar é o que é seguro: o verbo é o de tatear, ele aparece nove vezes na Bíblia, e em oito delas quem tateia é gente.

O versículo anuncia e não explica. Nem de onde vêm as trevas, nem do que são feitas, nem quanto vão durar — isso vem no versículo seguinte.

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Êxodo 10:21

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