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Mateus 19:22

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✍️ Por Alberto Adriano·20 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 28 acessos
Quando o jovem ouviu isso, retirou-se triste, porque tinha muitos bens.
Um jovem de costas se afasta por um caminho da Judeia, com Jesus e os discípulos ao fundo.

Estudo


Quando o jovem ouviu isso, retirou-se triste, porque tinha muitos bens.

1. Introdução

O jovem não discute. Ouve, vira as costas e vai embora — e o texto diz que foi triste. A explicação vem na mesma frase, dada pelo próprio evangelho: ele tinha muitos bens. É o único personagem de Mateus que recebe de Jesus um "siga-me" e sai de cena sem seguir. O que acontece com ele depois, o texto não conta.

2. Contexto Histórico e Cultural

A palavra que Mateus usa para "bens" não é genérica. Ela designa aquilo que se adquiriu e se detém — e, no uso corrente do grego da época, aponta sobretudo para propriedade de terra. É a mesma palavra de Atos 5:1, onde Ananias "vendeu uma propriedade", e de Atos 2:45, em que os primeiros cristãos vendem as suas. Quando o texto diz que o jovem tinha muitos desses, está dizendo que ele era senhor de terras, no plural.

Como era isso na prática, os documentos mostram. Numa caverna do deserto da Judeia, perto do Mar Morto, foi encontrado um conjunto de cerca de trinta e cinco documentos que pertenceram a uma mulher judia chamada Babata, filha de Simeão, datados entre os anos 94 e 132. Ali estão escrituras de palmeirais, contratos de casamento, recibos de imposto, empréstimos, petições a tribunais. O arquivo é de algumas décadas depois deste episódio e de uma região vizinha, mas é o retrato mais concreto disponível do que significava, para uma família judia daquele mundo, "ter bens": um conjunto de parcelas nomeadas, com vizinhos identificados, herdadas, disputadas, registradas em papel e defendidas no tribunal.

A terra era também, naquele período, objeto de concentração. Josefo descreve as grandes propriedades da casa de Herodes e as terras da planície que passavam de mão em mão conforme as decisões de Roma. Uma parte significativa do campo era trabalhada por arrendatários e por diaristas, e o evangelho de Mateus conhece bem essa paisagem — o dono da vinha que sai de madrugada para contratar trabalhadores por um denário, na parábola do capítulo 20, é exatamente essa figura. Ter muitos bens, nesse arranjo, não é só ter dinheiro: é estar do lado de cima de uma cadeia de pessoas que dependem da sua terra para comer.

Daí a consequência que a ordem do versículo 21 de Mateus 19 carregava e que é fácil não ver. Vender tudo não transferia o homem de uma classe alta para uma classe média: punha-o do outro lado da cadeia. Sem terra, restavam o arrendamento, o trabalho por dia e a dependência — as três situações que a própria sociedade tratava como precárias. E não só ele: a casa inteira, com os dependentes que viviam dessa propriedade, mudaria de lugar junto.

Há ainda o que a riqueza obrigava. Em toda a região, o proprietário de posses ocupava um lugar de patrono: emprestava, socorria, financiava obra pública, sustentava clientes, e recebia em troca deferência e influência. Abrir mão do patrimônio dissolvia essa rede inteira — não apenas o conforto, mas as relações construídas sobre ele. Não há informação sobre o jovem além do que o versículo dá; o que se pode dizer, com base no funcionamento conhecido daquela sociedade, é que o que lhe foi pedido tinha um custo social que não se mede em moeda.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quando o jovem ouviu isso"

Até aqui, ele tinha resposta para tudo. Perguntou, pediu especificação, declarou cumprimento e perguntou de novo. Agora só ouve.

Não há contra-argumento, não há pedido de esclarecimento, não há negociação. Ele não pergunta se pode vender metade, não pergunta se há outro caminho, não pede prazo. O texto registra a escuta e, imediatamente, a saída. Quem falava o tempo todo fica calado justamente quando a exigência aparece.

"retirou-se"

O verbo é o de ir embora, afastar-se do lugar. Ele sai da cena em que entrou no versículo 16 de Mateus 19, e não volta em nenhum evangelho.

Este é o único caso em Mateus. "Siga-me" é dito aos irmãos pescadores em Mateus 4:19 e ao cobrador de impostos em Mateus 9:9, e nos dois casos o evangelho registra em uma linha que a pessoa seguiu. Há, é verdade, dois candidatos a discípulo em Mateus 8:19-22 que recebem respostas difíceis — mas nenhum dos dois havia sido chamado por Jesus, e o texto não diz o que eles fizeram depois. Aqui houve chamado explícito, e houve recusa registrada.

"triste"

A palavra escolhida não é de raiva nem de ofensa. Ele não sai irritado, não responde com ironia, não acusa o mestre de exagero. Sai com pesar, e a forma do verbo grego descreve um estado, não um instante: ele foi embora e continuou assim.

Essa palavra tem, dentro do próprio evangelho de Mateus, um uso que impede transformá-la em sintoma de pecado. É o mesmo verbo que descreve Jesus no Getsêmani, quando "começou a entristecer-se e a angustiar-se" (Mateus 26:37), e é o mesmo que descreve os discípulos na última ceia, ao ouvirem que um deles o entregaria (Mateus 26:22). A tristeza, em Mateus, é o que acontece a alguém diante de uma perda real — e não a marca de quem está errado.

Os comentadores leem o sentimento de modos opostos. Ellicott vê nele um elemento de esperança: alguém indiferente teria respondido com desprezo, e a tristeza mostra que houve conflito de verdade. Cambridge Bible entende que ele queria servir a Deus e ao dinheiro, e ficou triste ao perceber que o preço era alto demais. Meyer diz que a tristeza vem de ter de abrir mão da esperança que o trouxera. Bengel resume: ele não podia, ao mesmo tempo, conservar a riqueza e seguir Jesus. Gill vai para o lado oposto e chama aquilo de tristeza do mundo, que produz morte, e não de arrependimento.

Nenhuma dessas leituras está no versículo. Mateus escreve o estado e a causa, e não avalia nenhum dos dois.

"porque tinha muitos bens"

É a única vez, no episódio inteiro, em que o texto explica um motivo. Não se disse por que o homem se aproximou, não se disse o que ele pensava ao declarar cumprimento, não se disse com que tom perguntou o que faltava. Aqui, e só aqui, Mateus dá a razão.

E a razão é a informação que ele tinha guardado. O leitor soube, no versículo 16, que um homem chegou; no versículo 20, que era jovem; e agora, no fim, que era rico. A riqueza aparece como explicação no momento exato em que produz efeito.

A construção grega descreve posse continuada — algo como "ele vinha tendo muitos bens". Não é a notícia de uma aquisição recente: é a descrição de uma condição em que ele estava instalado.

O que o texto não diz

Não diz que ele se perdeu. Não diz que ele nunca voltou. Não diz que parou de procurar, que endureceu, que desistiu. Não diz sequer que ele estava errado em sentir o que sentiu.

A tradição dos comentários preencheu esse silêncio em várias direções, e é honesto mostrar como. Barnes escreve que ele "provavelmente não voltou mais" — e o advérbio é dele, não do texto. Ellicott especula que o Senhor, que amou o homem segundo Marcos 10:21, não o teria deixado entregue a si mesmo, e chega a sugerir que ele fosse Lázaro, de Betânia, cuja doença e ressurreição teriam sido a disciplina que o mudou. É construção sem nenhum apoio nos evangelhos. O Expositor's Greek Testament faz a pergunta e recusa respondê-la: teriam os espinhos da avareza sufocado aquele solo, ou ele acabou decidindo pela vida de discípulo?

Um detalhe do próprio texto pesa aqui. No versículo seguinte, Jesus não fala sobre este homem: fala sobre a dificuldade dos ricos em geral. Não há, em Mateus 19:23, nenhuma frase do tipo "aquele homem se perdeu". Quem conta a história não deu veredito, e quem fala dentro dela também não.

O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) acrescenta uma observação que o próprio silêncio do texto sustenta: quem nunca foi provado como aquele homem foi dificilmente está em posição de julgá-lo. É comentário, não é Escritura — mas está mais perto do que a passagem faz do que os vereditos.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

O jovem. Sai de cena aqui e não reaparece em nenhum dos quatro evangelhos. As três informações que o texto deu sobre ele — que se aproximou, que era jovem, que tinha muitos bens — estão distribuídas nos versículos 16, 20 e 22 de Mateus 19, e a última só aparece no momento em que explica a saída.

Jesus. Não o chama de volta, não corrige a ordem, não oferece alternativa. O evangelho não registra nenhuma palavra dirigida a ele depois da recusa. A frase seguinte é dita aos discípulos.

Os discípulos. Estavam presentes o tempo todo e assistiram à saída. É a eles que Jesus se dirige no versículo 23, e a reação deles — espanto, no versículo 25 — mostra que a cena os atingiu.

Babata, filha de Simeão. Mulher judia da região do Mar Morto cujo arquivo de documentos particulares, achado numa caverna do deserto da Judeia, sobreviveu ao século II. Não tem ligação com o episódio; serve como o retrato mais concreto que se tem do que era possuir terra naquele mundo.

Lugares

O caminho na Judeia, do outro lado do Jordão. O episódio inteiro, do versículo 16 ao 22 de Mateus 19, acontece sem mudança de cenário e sem que ninguém se sente.

Para onde ele foi. O texto não diz. A expressão grega indica apenas afastamento do lugar.

Eventos

A recusa. Não é declarada em palavras: é um gesto. Ele ouve e vai embora, e o evangelho trata a saída como resposta.

O que vem imediatamente depois. Jesus se volta para os discípulos e fala da dificuldade de um rico entrar no Reino dos céus. O episódio individual termina e começa um ensino geral, que ocupará o restante do capítulo.

5. Pontos de Ensino

A recusa foi feita em silêncio

Ele não argumentou, não pediu desconto, não propôs outra coisa. A resposta mais definitiva do episódio é a única que não foi dita em palavras. Nem toda recusa se anuncia.

Tristeza não é sinal de má vontade

O mesmo verbo que descreve o estado do jovem descreve Jesus no Getsêmani e os discípulos na última ceia. Transformar a tristeza dele em prova de culpa exige ignorar o uso da palavra dentro do próprio evangelho.

O texto explica o motivo uma única vez, e é aqui

Em sete versículos, Mateus não disse o que o homem pensava, o que sentia ou por que veio. A única explicação que oferece é esta: ele tinha muitos bens. A informação foi guardada até o instante em que passa a importar.

O evangelho não dá desfecho, e não cabe inventar um

Não está escrito que ele se perdeu, nem que se salvou, nem que voltou, nem que não voltou. Quem completa a história está acrescentando o que o texto reteve — e comentaristas respeitados fizeram isso em direções opostas.

O ensino que vem em seguida é geral, não é sobre ele

Jesus não comenta o caso. Fala da dificuldade dos ricos, no plural, e em termos de dificuldade, não de impossibilidade. Quem conta a cena e quem fala dentro dela evitam, os dois, o veredito individual.

Um chamado pode ser recusado

A ordem veio numa condicional — "se você quer" —, e o evangelho registra a resposta negativa sem drama, sem maldição e sem comentário. O texto trata a liberdade de recusar como algo que existe.

6. Aspectos Filosóficos

A tristeza deste versículo é um dado moral interessante porque ela não é nem aceitação nem rejeição limpa. Quem recusa uma exigência por achá-la absurda não fica triste — fica irritado, ou indiferente, ou debochado. A tristeza aparece quando as duas coisas em disputa têm valor real para quem escolhe: só se lamenta o que se perde, e só se perde o que se queria. O estado em que o jovem sai é, nesse sentido, a prova de que o convite significava algo para ele.

Isso abre a questão clássica de como alguém pode reconhecer o melhor e não fazê-lo. A resposta mais antiga sustenta que ninguém erra sabendo: quem age contra o próprio bem é porque, naquele momento, não o via como bem — e a falha seria de conhecimento, não de vontade. A resposta oposta afirma que a experiência comum desmente isso, porque as pessoas dizem o tempo todo "eu sei que deveria" e não fazem. O caso do versículo não decide a disputa, mas fornece um detalhe útil a ela: ele não discutiu. Não houve argumento nenhum do lado dele contra o que ouviu. O que houve foi silêncio e saída — o que se encaixa melhor na segunda descrição do que na primeira.

Há ainda a diferença entre não querer e não conseguir, que o versículo deixa aberta. Se ele não quis, a tristeza é a de quem paga um preço escolhido. Se ele não conseguiu, a tristeza é de outro tipo: a de quem descobre um limite próprio que não sabia ter. As duas produzem a mesma cena vista de fora, e o texto não dá acesso ao lado de dentro. Quem sustenta uma das duas está lendo, não observando.

O episódio também põe em questão o que define uma pessoa — o que ela quer ou o que ela faz. O jovem queria a vida eterna: isso está estabelecido desde a primeira pergunta e é confirmado pela tristeza no fim. E não fez o que lhe foi pedido: isso também está estabelecido. Se alguém é aquilo que deseja, ele é um homem em busca. Se alguém é aquilo que faz, ele é um homem que foi embora. Essas duas descrições são igualmente verdadeiras e apontam em direções contrárias, e o evangelho não escolhe entre elas — escolher é exatamente o que ele se recusa a fazer ao terminar a cena sem desfecho.

Por fim, o problema de se avaliar uma vida por um momento. Toda a informação que existe sobre este homem cabe em sete versículos e num único dia. Julgá-lo a partir disso é tratar um instante como se fosse um balanço — e é um vício comum, dentro e fora da religião, porque instantes são visíveis e vidas não são. A recusa do texto a dizer o que aconteceu depois não é falta de informação: é o que impede que a cena vire sentença.

7. Aplicações Práticas

Reconhecer a recusa que não se diz. A resposta mais clara do episódio foi dada com os pés. Em conversas difíceis — em casa, no trabalho, numa igreja — a decisão real costuma aparecer no que a pessoa faz depois, e não no que ela responde na hora.

Não tomar tristeza por má-fé. Quem sai abalado de uma exigência está reconhecendo que ela tinha peso. Tratar isso como prova de coração errado fecha uma porta que o próprio texto deixa aberta.

Resistir ao desfecho inventado. A pergunta "e o que aconteceu com ele?" é natural e não tem resposta. O exercício útil é notar o desconforto de ficar sem desfecho — e não preenchê-lo, porque o preenchimento diz mais sobre quem lê do que sobre quem foi lido.

Avaliar o que uma escolha custa de verdade. Para aquele homem, vender tudo não era mudar de padrão de vida: era mudar de lugar numa estrutura social inteira, com pessoas dependendo dele. Antes de estranhar uma decisão alheia, vale perguntar o que exatamente ela custaria a quem a toma.

Não julgar quem não passou pela mesma prova. A observação é velha e continua valendo: quem nunca foi posto diante daquele pedido tem pouco a dizer sobre quem foi.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O jovem se perdeu?

O texto não diz. Não há, em nenhum dos três evangelhos que contam o episódio, uma frase sobre o destino dele. Barnes escreve que ele provavelmente não voltou mais, e o "provavelmente" é dele. Ellicott imagina o contrário. O Expositor's Greek Testament levanta a pergunta e deixa sem resposta. Quem afirma qualquer das duas coisas está indo além da informação disponível.

2. Por que Jesus não o chamou de volta?

O evangelho não explica, e o silêncio é notável, porque um chamado insistido teria sido possível. Uma leitura plausível é que a ordem viera numa condicional — "se você quer" — e que insistir depois da recusa teria desfeito a condicional. É leitura, e o texto não a confirma nem a exclui.

3. Ele era avarento?

O texto diz apenas que tinha muitos bens, e dá isso como causa da tristeza. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII) e outros identificam a avareza como o pecado que o dominava, e a leitura é antiga. Contra ela pesa que avareza costuma produzir irritação diante de quem pede, e não tristeza; e que o texto, que poderia ter dito "porque era avarento", disse "porque tinha muitos bens" — uma condição, não um vício.

4. Por que Mateus guardou a informação da riqueza para o fim?

Não se sabe, e o efeito é o que se pode observar: o leitor acompanha o diálogo inteiro sem saber quem está falando, e só recebe o dado quando ele explica a saída. Quem lê pela primeira vez ouve as perguntas do homem sem preconceito nenhum sobre ele, o que é uma escolha de quem escreveu.

5. Tristeza é arrependimento?

Não necessariamente, e essa é uma distinção que o Novo Testamento faz em outro lugar. Gill usa aqui a categoria da "tristeza do mundo", tomada de 2 Coríntios 7:10, que separa a tristeza que leva à mudança daquela que não leva a nada. A aplicação é dele: Mateus não a faz, e o verbo que ele usa aparece, no mesmo evangelho, aplicado a Jesus e aos discípulos.

6. Se ele tivesse vendido tudo, estaria salvo?

A pergunta supõe que a ordem fosse um preço, e o próprio episódio já tinha desmontado o formato de preço no versículo 17. O que a ordem pedia, no fim, era seguir; vender era o que desimpedia. Não há como responder a partir do texto, e a resposta que Jesus dará aos discípulos no versículo 26 de Mateus 19 vai justamente na direção contrária à ideia de operação garantida.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo desfecho nos outros evangelhos

Marcos 10:22 — "Mas o homem, contrariado com essas palavras, retirou-se triste, porque tinha muitos bens."

Lucas 18:23 — "Quando ouviu essas palavras, ficou cheio de tristeza, porque era muito rico."

Marcos acrescenta o abatimento no rosto; Lucas não registra que ele foi embora, apenas que ficou triste.

Os que seguiram

Mateus 4:20 — "E eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram."

Mateus 9:9 — "E Jesus, passando adiante dali, viu um homem sentado na coletoria de impostos, chamado Mateus, e disse-lhe: Siga-me. E ele se levantou e o seguiu."

As duas respostas positivas a um chamado direto, no mesmo evangelho, e as duas registradas em uma linha.

Os que venderam tudo com alegria

Mateus 13:44 — "O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Um homem o encontrou e o escondeu de novo; então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo."

A mesma operação, com o sentimento invertido.

O mesmo verbo da tristeza, aplicado a outros

Mateus 26:22 — "Muito entristecidos, começaram a perguntar-lhe, um após outro: ‘Por acaso sou eu, Senhor?’"

Mateus 26:37 — "Levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se profundamente."

A palavra que descreve o jovem é a que Mateus usa para os discípulos e para o próprio Jesus.

O tipo de bem que ele tinha

Atos 5:1 — "Mas um homem chamado Ananias, com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade."

A palavra grega para "propriedade" é a mesma que Mateus usa para os "bens" do jovem.

O que Jesus diz logo depois

Mateus 19:23 — "Em verdade digo a vocês que dificilmente um rico entrará no Reino dos céus."

Mateus 19:26 — "Jesus olhou para eles e disse: Para os homens isto é impossível, mas para Deus tudo é possível."

A fala seguinte é sobre os ricos em geral, e termina numa frase que recusa tratar a questão como conta fechada.

Um rico que respondeu de outro jeito

Lucas 19:8 — "Zaqueu, levantando-se, disse a Jesus: Senhor, vou dar a metade dos meus bens aos pobres e, se em alguma coisa defraudei alguém, restituo quatro vezes mais."

O contraste mais próximo dentro dos evangelhos, e com desfecho oposto.

10. Original Grego e Análise

Texto em português (ABC)

Quando o jovem ouviu isso, retirou-se triste, porque tinha muitos bens.

Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)

ἀκούσας δὲ ὁ νεανίσκος τὸν λόγον ἀπῆλθε λυπούμενος· ἦν γὰρ ἔχων κτήματα πολλά.

Transliteração

Akousas de ho neaniskos ton logon apēlthe lypoumenos; ēn gar echōn ktēmata polla.

Análise palavra por palavra

ἀκούσας (akousas) — particípio aoristo ativo, nominativo masculino singular, de akouō, "ouvir". O aoristo marca a ação como concluída antes da seguinte: ouviu e então saiu. É a raiz da palavra "acústica".

ὁ νεανίσκος (ho neaniskos) — "o jovem". A mesma palavra do versículo 20 de Mateus 19, repetida agora com o artigo que retoma a figura já apresentada. É a última vez que ela aparece no episódio.

τὸν λόγον (ton logon) — "a palavra", acusativo com artigo. Logos aqui não tem nenhum peso filosófico: designa o dito, a fala, o que acabou de ser pronunciado. Os manuscritos mais antigos acrescentam touton ("esta"), que o Textus Receptus não traz; o sentido não muda.

ἀπῆλθε (apēlthe) — aoristo do indicativo ativo de aperchomai, composto de apo ("para longe de") com erchomai ("ir"). O prefixo carrega o afastamento: não é apenas "foi", é "foi-se embora dali". O aoristo apresenta a saída como fato consumado, sem duração.

λυπούμενος (lypoumenos) — particípio presente, voz média ou passiva, de lypeō, "causar dor, entristecer". Na forma média ou passiva, o verbo significa "estar em pesar", "ser tomado de tristeza". O tempo presente é o que mais importa aqui: em contraste com o aoristo de "foi-se embora", que é pontual, o particípio presente descreve um estado que continua. Ele saiu de uma vez; a tristeza ficou.

O substantivo correspondente, lypē, é o da "tristeza segundo Deus" e da "tristeza do mundo" em 2 Coríntios 7:10. Dentro deste evangelho, o verbo aparece em Mateus 26:22, com os discípulos, e em Mateus 26:37, com o próprio Jesus no Getsêmani. A palavra, portanto, não carrega nenhuma condenação embutida.

ἦν γὰρ ἔχων (ēn gar echōn) — imperfeito do verbo "ser" mais o particípio presente de echō, "ter": literalmente, "pois ele estava tendo". A construção com o verbo "ser" mais particípio é frequente no grego dos evangelhos e tem paralelo no hebraico e no aramaico; ela acentua a duração do estado. Não descreve uma aquisição, e sim uma condição estabelecida.

O "pois" é a única explicação de causa que o texto dá no episódio inteiro.

κτήματα πολλά (ktēmata polla) — "muitos bens", acusativo neutro plural. Ktēma vem do verbo ktaomai, "adquirir, tornar-se dono de", e designa a coisa possuída, com forte tendência, no uso corrente, para a propriedade de terra. No Novo Testamento aparece em Atos 2:45, 5:1 e 5:3, e nos dois primeiros casos trata-se de venda de propriedades. Note-se a diferença em relação ao versículo 21 de Mateus 19: ali Jesus disse ta hyparchonta, "as coisas que estão à tua disposição"; aqui o texto diz ktēmata, "o que foi adquirido". A ordem falava do que ele dispunha; a explicação fala do que ele detinha.

11. Conclusão

A primeira conclusão é sobre a forma da resposta. Ele não respondeu com palavras: ouviu e foi embora, e o evangelho trata a saída como resposta suficiente. Num episódio construído sobre perguntas — quatro delas, todas dele —, a decisão final é a única coisa que não é dita.

A segunda é sobre a tristeza. O verbo que Mateus escolhe é o mesmo que ele aplica aos discípulos e a Jesus, o que retira da palavra qualquer carga de censura. Tristeza, aqui, é o que acontece a quem perde algo que queria — e o fato de ele ter saído assim indica que o convite pesava de verdade.

A terceira é sobre a explicação. "Porque tinha muitos bens" é a única razão que o texto oferece em sete versículos, e é uma condição, não um defeito de caráter. O evangelho não escreve que ele era avarento, apegado ou hipócrita. Escreve o que ele tinha.

A quarta é sobre o silêncio final. Não há desfecho, não há sentença e não há informação sobre o que veio depois. A frase seguinte de Jesus é sobre os ricos em geral, e não sobre este homem. Quem lê a cena como exemplo de condenação e quem a lê como caso de conversão adiada estão, os dois, escrevendo o que Mateus não escreveu — e o que se pode afirmar é apenas isto: um homem procurou, ouviu o que lhe foi pedido, e não fez.

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