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Êxodo 11:6

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✍️ Por Alberto Adriano·24 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 26 acessos
E haverá grande clamor em toda a terra do Egito, como nunca houve nem jamais haverá.
Cortejo fúnebre egípcio ao entardecer, com mulheres de túnica branca e cabelos soltos erguendo os braços em lamento diante de casas de tijolo cru.

Estudo


E haverá grande clamor em toda a terra do Egito, como nunca houve nem jamais haverá.

1. Introdução

O versículo não anuncia mortes: anuncia um som. Depois de nomear quem vai morrer, o texto mede a praga pelo barulho que ela vai produzir — um grito em toda a terra do Egito.

A palavra escolhida para esse grito é a mesma com que o livro do Êxodo descreveu o clamor dos escravos hebreus, e o texto a põe ali sem tirar nenhuma conclusão. A frase que fecha o versículo, "como nunca houve nem jamais haverá", é a quinta vez que o livro recorre a uma fórmula de sem-precedente — e a única em que essa fórmula aparece sem régua nenhuma: sem país, sem data de fundação, sem "antes dele" e sem "depois dele".

Nada disso aconteceu ainda. Faraó ouve a sentença dentro da mesma audiência em que disse a Moisés que não visse mais o seu rosto, e tem o capítulo 12 inteiro pela frente.

2. Contexto Histórico e Cultural

No Egito, uma morte fazia barulho — e o barulho tinha regras

Para entender o que o versículo está anunciando, é preciso saber o que era, no Egito, o som normal de uma morte. Não era o choro particular de uma família atrás de uma porta. Era um acontecimento de rua, audível, com papéis distribuídos e uma sequência fixa.

O morto ia do lugar onde fora preparado até o túmulo num cortejo, e esse cortejo levava mulheres cuja função era chorar em voz alta — algumas da família, outras contratadas. Andavam com os cabelos soltos, batiam no peito, jogavam poeira sobre a cabeça e erguiam os braços num gesto de lamento que as pinturas de túmulo repetem por séculos, sempre igual.

As duas que faziam de deusas

No centro do cortejo iam duas mulheres com papel próprio. Eram chamadas de djeryt (em egípcio, "as milhafres" — o milhafre é uma ave de rapina de grito agudo e prolongado) e representavam Ísis e Néftis, as duas deusas que, na história de Osíris, procuram o corpo do deus morto e choram sobre ele; às vezes traziam na cabeça o sinal escrito que dizia qual das duas era cada uma. O nome vem da história: ao procurar Osíris, Ísis teria tomado a forma dessa ave.

Quem chorava num funeral egípcio, portanto, não estava apenas chorando. Estava ocupando um lugar num roteiro antigo, já chorado uma vez pelos deuses e repetido a cada morto.

A cena que se pode ver

O exemplo mais conhecido está no túmulo de Ramose, em Tebas, catalogado como TT55. Ramose foi vizir — o mais alto cargo administrativo do Egito — no reinado de Amenófis III e no começo do de Amenófis IV, por volta de 1350 a.C. A parede do seu túmulo traz o cortejo em detalhe: mulheres de túnica branca e cabelos soltos no meio da procissão; adiante, nove ajoelhadas que lamentam e cobrem a cabeça com cinza; e outras, de vermelho e amarelo, batendo no peito descoberto.

Essa é a imagem que um leitor antigo teria na cabeça ao ouvir "grande clamor em toda a terra do Egito". Não o silêncio de um país em choque: o som de um ritual conhecido, feito ao mesmo tempo em toda parte.

O que um anúncio desses põe em xeque

O roteiro egípcio do luto pressupunha sequência e distinção, e o versículo suspende as duas.

O funeral é uma procissão: sai de um lugar, passa por etapas, chega a outro, e exige quem carregue, quem cante, quem prepare o corpo — só o preparo consumia semanas, e os prazos estão no estudo de Gênesis 50:3. Um país em que, na mesma noite, cada casa tem um morto não tem como executar esse roteiro. As carpideiras não faltam por crueldade do texto: faltam porque estão todas no próprio luto.

E o luto egípcio era caro e desigual: quanto mais alto o morto, maior o cortejo e mais gente chorando. O que se anuncia aqui não distingue. A mesma frase que pôs lado a lado o primogênito de Faraó e o da escrava do moinho deixa, na noite seguinte, o mesmo som saindo do palácio e da casa de tijolo cru.

Uma medida tardia, e o que ela vale

Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) acrescenta aqui uma observação de viagem: Reginald Stuart Poole (egiptólogo inglês ligado ao Museu Britânico) registrou que, na epidemia de cólera que atingiu o Cairo em 1848, o lamento das mulheres egípcias se ouvia a cerca de três quilômetros de distância.

O dado é de um europeu no Egito otomano, milhares de anos depois, e vem embalado numa linguagem de época — o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) fala em "violência das emoções orientais", categoria hoje reconhecida como pouco confiável. Não informa o que se ouvia no Egito antigo. O que documenta é mais modesto, e basta: o lamento coletivo numa cidade egípcia alcançava distâncias grandes. Um país inteiro fazendo-o ao mesmo tempo seria coisa ouvida, não imaginada — e é isso que o versículo promete a Faraó.

3. Análise Teológica do Versículo

"E haverá grande clamor"

O verbo está no futuro, e esse tempo verbal precisa ser segurado até o fim do capítulo. Nada aconteceu. Moisés está de pé diante de Faraó, dizendo o que vai acontecer, e entre esta frase e o cumprimento dela ainda existe o capítulo 12 inteiro.

Repare no que está sendo prometido. O versículo anterior nomeou os mortos, um por um, do trono às mós. Este não volta a eles: passa direto para o que os vivos vão fazer, e o que os vivos vão fazer é gritar.

A praga é medida pelo som. Não há contagem de corpos, não há estimativa, não há descrição de sintoma. A única grandeza que o texto oferece para o tamanho da coisa é o volume do grito que ela produz.

A palavra é a do outro lado

O grito prometido ao Egito é nomeado com a mesma palavra que o livro do Êxodo usou para o grito de Israel. Em Êxodo 3:7, na sarça, Deus diz que ouviu "o grito" do seu povo diante dos feitores; em Êxodo 3:9, o termo volta — "o grito dos filhos de Israel chegou até mim". Foi esse som que pôs o livro em movimento: sem ele não há chamado, não há Moisés de volta ao Egito, não há praga nenhuma.

E aqui ele reaparece, saindo das casas egípcias.

O circuito se fecha, e o texto não comenta que se fechou. Não está escrito que o Egito está recebendo o que fez, nem que é justiça, nem que Deus está devolvendo o grito a quem o causou. Está escrito que haverá um grande grito, e a palavra usada é aquela. Ponto.

Duas leituras se abrem, e as duas têm apoio.

Primeira leitura: o eco é intencional. O hebraico tinha outras palavras para o som do luto — a do gemido, a do pedido de socorro, a do uivo, a da lamentação fúnebre —, e o Êxodo já tinha usado duas delas. Escolher justamente esta, num livro feito para ser ouvido, seria escolha e não acaso.

Segunda leitura: é a palavra comum e nada decorre daí. O termo é corrente no hebraico para qualquer grito de aflição, e aparece em contextos sem ligação nenhuma entre si. Nessa leitura, o leitor é que está costurando o que o texto deixou solto.

Não é possível decidir. O que se pode afirmar é o dado bruto — a palavra é a mesma — e a ausência: nenhum versículo do Êxodo diz o que fazer com isso.

"em toda a terra do Egito"

É a medida que o livro vem usando desde a primeira praga, e ela sempre descreveu o alcance do desastre. Aqui descreve o alcance do grito.

A diferença muda o que está sendo afirmado. Dizer que o granizo caiu em toda a terra do Egito é falar de um fenômeno. Dizer que haverá grito em toda a terra do Egito é falar do que um país inteiro vai fazer ao mesmo tempo — e um país não faz nada ao mesmo tempo, a não ser quando a mesma coisa acontece a todos na mesma hora.

E fica a pergunta: e Gósen? Desde Êxodo 8:22 o livro vinha separando a região onde Israel estava, e este versículo não a menciona. O texto não diz se "toda a terra do Egito" inclui a região dos hebreus — e o versículo seguinte vai responder por outro caminho, falando de cães, e não de fronteira.

"como nunca houve nem jamais haverá"

Esta é a quinta vez que o Êxodo diz que algo não tem igual, e as cinco não são iguais entre si. Postas em fila, mostram o que o leitor de um versículo isolado não vê.

Em Êxodo 9:18, no anúncio do granizo: "como nunca houve no Egito desde o dia em que foi fundado até agora" — há um lugar e há um marco. Em Êxodo 9:24, no cumprimento: "desde que ela se tornou uma nação" — mesmo lugar, outro marco. Em Êxodo 10:6, na boca de Moisés: "o que os seus pais e os pais dos seus pais nunca viram" — a régua passa a ser a memória de três gerações. Em Êxodo 10:14: "antes deles nunca houve gafanhotos assim, e depois deles nunca mais haverá" — aqui entra a metade do futuro, e o assunto tem tratamento próprio no estudo daquele versículo.

E aqui: "como nunca houve nem jamais haverá". Nenhum lugar. Nenhum marco. Nenhum "antes dele" e nenhum "depois dele". A comparação ficou sem ponto de apoio.

Some-se a troca do objeto. As quatro fórmulas anteriores qualificam coisas — uma tempestade, um bando de insetos. Esta qualifica uma reação humana. Não se diz que a praga será como nunca houve; diz-se que o grito será. Uma tempestade pode, em tese, ser comparada a outra por quem tenha registros. Um grito não tem registro, não tem unidade e não deixa marca. Quem poderia conferir?

Como ele, mas como o quê?

Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) parou exatamente aqui, por um problema de gramática que o item 10 expõe. O que decorre dele para a leitura é isto: a frase diz que não haverá outro "como ele", e nunca diz a que "ele" se refere. Ao grito? À noite? Ao desastre? A resposta de Ibn Ezra é que a comparação se faz com a ruína, a destruição e a morte. O texto hebraico deixa a questão indecisa, e cada tradução escolhe sem avisar.

E por que a noite importa

Sforno (Obadias Sforno, médico e comentarista judeu italiano do século XVI) leu a frase por um ângulo que nenhum outro comentarista traz. Grito grande em cidade, argumenta ele, é coisa de noite de guerra — e cita Sofonias 1:10, com a voz de clamor da porta dos peixes, o uivo do segundo bairro e o grande ruído dos montes. Numa cidade sitiada, o clamor é esperado. O que o versículo anuncia é um clamor assim numa noite de paz: o Egito não estava em guerra, não havia exército à porta, e nada avisava.

Nessa leitura, o sem-precedente não está no volume, e sim na combinação — o som da catástrofe sem a catástrofe visível que costuma acompanhá-lo. É leitura de comentarista, e o versículo não a enuncia; o que ele enuncia é a hora, e a hora é a meia-noite anunciada dois versículos antes.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem grita

Ninguém é nomeado. O versículo não tem sujeito: não diz que os egípcios gritarão, nem que as mães gritarão, nem que Faraó gritará. Diz que haverá grito. A construção é impessoal, e o efeito é que o grito aparece como um fato do país, e não como ação de alguém.

É o único versículo do capítulo em que não há uma só pessoa nomeada — sem Faraó, sem Moisés, sem Arão, sem os filhos de Israel. Entre o versículo 5, que nomeia o rei e a escrava, e o versículo 7, que nomeia Israel, este fica vazio de gente.

Onde

"Toda a terra do Egito" é a fórmula corrente do livro para o alcance das pragas, e já tinha aparecido no sangue, nos piolhos, nas úlceras e nos gafanhotos. Aqui ela mede o som.

Quando

O acontecimento é futuro; a fala é presente. Moisés ainda está diante de Faraó, dentro da audiência que Êxodo 10:28-29 encerrou com a promessa de que os dois não se veriam mais. A hora do que se anuncia já foi dada: a meia-noite, em Êxodo 11:4.

O que acontece depois

Êxodo 12:30 é o versículo que fecha este. Lá, na noite da décima praga, o texto diz que houve grande clamor no Egito, porque não havia casa sem um morto — e usa a mesma palavra que este versículo usa agora. Entre os dois há um capítulo inteiro, e é nesse intervalo que o livro vai instituir a Páscoa.

5. Pontos de Ensino

A praga é medida pelo som, não pelo número

O texto tinha à disposição o recurso mais óbvio para dizer o tamanho de uma catástrofe — contar. Não conta. Descreve o que se vai ouvir, e para por aí. Quem lê o Êxodo esperando cifras encontra, em lugar delas, sons: o gemido dos escravos, o grito diante dos feitores, o clamor do Egito.

A mesma palavra serve aos dois lados

O livro chama de grito o que sai dos hebreus e o que vai sair dos egípcios. Não há um termo nobre para a dor de uns e um termo menor para a dor dos outros. Isso está no vocabulário, não numa lição: o texto não diz que as duas dores se equivalem, nem que uma responde à outra. Apenas não inventa duas palavras.

O sem-precedente aqui não tem régua

Todas as outras vezes em que o Êxodo disse "como nunca houve", ele disse também desde quando e onde. Esta não diz. Quem cita a frase como prova de alguma coisa está citando uma afirmação que o próprio texto deixou sem meio de verificação.

O aviso vem antes, e é isso que faz o capítulo

A sentença é dita a quem ainda pode agir. Entre ela e o cumprimento há tempo, e o livro gasta um capítulo inteiro nesse intervalo. O peso de Êxodo 11 está aí: não no que acontece, mas no que ainda não aconteceu.

O texto não julga o Egito neste versículo

Não há adjetivo moral, não há explicação, não há "porque eles fizeram". Há o anúncio de um som. Todo o resto — o merecimento, a proporção, o sentido — é acrescentado por quem lê, e é honesto dizer de quem é o acréscimo.

6. Aspectos Filosóficos

Existe a maior dor de todas?

O versículo faz uma afirmação que, olhada de perto, é estranha: diz que um sofrimento será maior do que qualquer outro que já houve e do que qualquer outro que ainda venha a haver. Isso pressupõe que sofrimentos podem ser postos em ordem — que faz sentido dizer que esta dor é maior do que aquela, como se diz que este peso é maior do que aquele.

É uma pressuposição, e ela não é evidente. Comparar dores exige uma medida comum, e não está claro que exista uma.

Spinoza: os afetos têm força, e forças se comparam

Baruch de Spinoza (1632-1677, filósofo holandês de família judaica portuguesa, expulso da sinagoga de Amsterdã aos 23 anos) construiu na Ética (Ethica, publicada em 1677, logo após a sua morte) o sistema mais rigoroso já escrito sobre esse ponto.

Para ele, tristeza é a passagem de um estado de maior potência para um de menor, e dor é essa mesma passagem referida a uma parte do corpo. A consequência é o que interessa: se o afeto é passagem de um grau a outro, ele tem quantidade — e o que tem quantidade pode ser comparado. Spinoza afirma isso na quarta parte da obra: um afeto não pode ser refreado nem suprimido senão por outro afeto contrário e mais forte do que ele. A frase só faz sentido num mundo em que afetos têm intensidades mensuráveis entre si.

Nesse quadro, a pretensão do versículo é inteligível: há um máximo, e este grito o alcança.

O problema que o próprio sistema levanta

Só que Spinoza mede a força de um afeto sempre em relação a um indivíduo determinado, ao esforço daquele corpo em perseverar no seu ser. A medida é interna a cada um. Nada ali autoriza somar a dor de mil pessoas e comparar o total com o de outro país, em outro século.

Jeremy Bentham (1748-1832, jurista e filósofo inglês) tentou construir essa soma, com sete critérios para medir prazer e dor, entre eles a duração, a intensidade e a extensão — o número de pessoas afetadas. É o critério que mais se aproxima do que o versículo faz, já que a frase mede pelo alcance: toda a terra do Egito. O cálculo de Bentham aparece por outro ângulo no estudo de Gênesis 30:13.

E é aí que a dificuldade fica visível. Para somar, as parcelas precisam ser da mesma espécie. A dor de uma mãe no palácio e a de uma escrava atrás do moinho são grandezas do mesmo tipo? Responder que sim produz um número; suspeitar que não há resposta produz o silêncio do texto, que não dá número nenhum.

O guarda-corpo

Nenhum dos dois está comentando o Êxodo, e Spinoza recusaria de saída o quadro do versículo: no Apêndice da primeira parte da Ética ele ataca o hábito de ler tempestades e desgraças como mensagens divinas.

E há um limite do lado do texto. O Êxodo não argumenta que essa dor é a maior; ele declara. Não há lista, não há critério, não há nada com que comparar. É por isso que os comentaristas antigos, ao topar com a frase, foram procurar fora da quantidade o que a torna única — Sforno foi buscar a circunstância, a noite de paz. Quem quiser tratá-la como medida terá de dizer qual é a unidade. O texto não diz.

7. Aplicações Práticas

Este versículo não traz muita coisa para aplicar, e forçar seis lições a partir dele seria inventar.

Uma relação real existe, e é a do vocabulário. O texto usa a mesma palavra para o grito dos escravos hebreus e para o grito que virá das casas egípcias. Não há um nome digno para a dor de um lado e um nome menor para a do outro.

Isso tem consequência prática, e ela é de linguagem antes de ser de sentimento. Boa parte do modo como se fala de conflito consiste exatamente em manter dois vocabulários: o que acontece aos nossos tem um nome, o que acontece aos outros tem outro. O Êxodo não faz isso neste versículo, e ele teria como fazer — a língua hebraica oferecia alternativas.

O que não se pode tirar daqui é uma regra sobre compaixão ou sobre perdão. O texto não manda sentir nada, não elogia quem se comove e não repreende quem não se comove. Ele nomeia. Quem transformar isso num dever está acrescentando ao versículo uma camada que ele recusou escrever — e a recusa, num texto que fala da morte de crianças, provavelmente é deliberada.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o versículo fala do grito e não dos mortos?

Os mortos já foram nomeados no versículo anterior, e com precisão social — do trono às mós. Este acrescenta o que o anterior não tinha: o efeito sobre os vivos. Não há como saber se a escolha tem intenção literária ou se é apenas a ordem natural de um anúncio. O que se observa é que o Êxodo repete esse padrão em outros lugares, descrevendo acontecimentos pelo som que produzem, e que o cumprimento, em Êxodo 12:30, volta a falar do clamor antes de falar dos corpos.

Gósen também vai gritar?

O versículo diz "em toda a terra do Egito" e não abre exceção. Desde Êxodo 8:22 o livro vinha separando a região onde Israel morava, e em Êxodo 9:26 chegou a dizer que lá não houve granizo. Aqui, nada. Duas saídas são possíveis: ou "toda a terra do Egito" é fórmula fixa e não pretende incluir Gósen, ou a exceção está guardada para o versículo seguinte, que a formula de outro jeito — pelo silêncio dos cães. Não é possível decidir, e a segunda é a mais econômica, porque o versículo 7 começa justamente com um "mas".

Se a frase vale para sempre, ela pode ser desmentida?

Uma afirmação sobre o passado pode, em princípio, ser confrontada com registros; uma sobre o futuro não pode ser confrontada com nada. Três posições circulam: que a frase se limita ao Egito, embora não diga isso; que é fórmula de gênero e não pretensão de registro; e que deve ser lida ao pé da letra. A discussão das três, com os nomes de quem as defende, pertence ao estudo de Êxodo 10:14, onde o problema aparece pela primeira vez no livro.

O Êxodo está dizendo que o Egito recebeu o que fez?

Não está escrito. A palavra do grito é a mesma dos dois lados, e essa é a única ligação que o texto oferece — de vocabulário, sem frase que a explique. Afirmar que há correspondência entre o grito hebreu e o egípcio é uma leitura; negar que a repetição signifique alguma coisa também é. O texto não diz.

Por que ninguém é nomeado?

O versículo não tem sujeito humano: não são os egípcios que gritarão, é que "haverá" grito. A construção impessoal é frequente em hebraico e não é, por si, significativa. O que se observa sem forçar é o contraste dentro do capítulo: os versículos vizinhos são cheios de gente — o rei no trono, a serva na mó, os servos que se prostram —, e este fica sem ninguém.

9. Conexão com Outros Textos

A palavra do grito, do lado hebreu

Êxodo 3:7 — "E o SENHOR disse: 'Eu vi, sim, a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi o grito dele diante dos seus feitores; pois conheço as dores dele.'"

É o mesmo substantivo que aparece agora. O grito que Deus disse ter ouvido é o termo que o Egito vai usar.

Êxodo 3:9 — "Agora, pois, o grito dos filhos de Israel chegou até mim, e também vi a opressão com que os egípcios os oprimem."

Segunda ocorrência, dois versículos depois, e em posição de causa: é o grito que move o que vem.

Êxodo 2:23 — "Muito tempo depois, o rei do Egito morreu. E os filhos de Israel gemiam sob a escravidão e clamavam; e o grito deles subiu a Deus, por causa da escravidão."

Onde o livro começou — e com a precisão devida: as palavras deste versículo são parentes das de Êxodo 11:6, não idênticas. A identidade exata está com Êxodo 3:7.

O mesmo par de palavras, no Gênesis

Gênesis 27:34 — "Ao ouvir as palavras de seu pai, Esaú soltou um grito alto e amargo e disse ao pai: 'Abençoe também a mim, meu pai!'"

No hebraico, a expressão de Esaú é a mesma que abre Êxodo 11:6 — "grande clamor". Fora do Êxodo, é a única vez que ela aparece na Torá, e sai da boca de um primogênito que acaba de perder o que era dele.

O cumprimento

Êxodo 12:30 — "E Faraó levantou-se de noite, ele e todos os seus servos e todos os egípcios; e houve grande clamor no Egito, porque não havia casa em que não houvesse um morto."

A frase anunciada volta quase palavra por palavra, agora no passado — e o texto acrescenta o que aqui não estava: o motivo, casa por casa.

A fórmula do sem-precedente noutros livros

Joel 2:2 — "Dia de trevas e de escuridão, dia de nuvens e densas trevas… um povo grande e poderoso, como nunca houve desde a antiguidade, nem depois dele jamais haverá, de geração em geração."

A mesma construção de duas pontas, aplicada a outra calamidade. O conflito que ela cria com o Êxodo está tratado no estudo de Êxodo 10:14.

Mateus 24:21 — "Pois haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá."

A fórmula completa reaparece no Novo Testamento, e com a régua mais larga possível: o princípio do mundo. Daniel 12:1 traz a mesma construção olhando só para trás, medida pelo surgimento das nações.

O grito como reação coletiva

Números 16:34 — "E todo Israel, os que estavam em redor deles, fugiram ao grito deles; porque diziam: 'Que a terra não nos trague também a nós.'"

Um grito que faz um povo inteiro correr: o som da catástrofe ouvido por quem não foi atingido.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E haverá grande clamor em toda a terra do Egito, como nunca houve nem jamais haverá.

Texto hebraico

וְהָיְתָה צְעָקָה גְדֹלָה בְּכָל־אֶרֶץ מִצְרָיִם אֲשֶׁר כָּמֹהוּ לֹא נִהְיָתָה וְכָמֹהוּ לֹא תֹסִף׃

Transliteração

we-hayetah tse'aqah gedolah be-khol erets Mitsrayim, asher kamohu lo nihyatah we-khamohu lo tosif.

Análise palavra por palavra

וְהָיְתָה — we-hayetah, "e haverá".

Verbo hayah, "ser, acontecer", no Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), terceira pessoa feminina do singular, com a conjunção que encadeia a narrativa e projeta a ação no futuro. O feminino concorda com a palavra seguinte. E não há sujeito humano: o hebraico diz "e será grito grande", do mesmo modo como diz "e houve luz". O grito é tratado como coisa que passa a existir, não como ação de alguém.

צְעָקָה — tse'aqah, "clamor, grito".

Substantivo feminino da raiz tsa'aq, variante, com outra consoante inicial, da raiz za'aq; as duas convivem na Bíblia hebraica com o mesmo sentido. O campo semântico completo dessa família está tratado no estudo de Gênesis 18:20 e não se reabre.

Duas ocorrências pertencem a este versículo.

A primeira: é exatamente o substantivo de Êxodo 3:7, onde aparece com sufixo — tsa'aqatam, "o grito deles" —, e de Êxodo 3:9, tsa'aqat benei Yisra'el. A palavra que nomeou o som dos escravos é a que nomeia agora o som do Egito; a consequência disso está no item 3.

A segunda: a expressão inteira, tse'aqah gedolah, "grito grande". Na Torá ela aparece em três lugares e só em três — Gênesis 27:34, quando Esaú descobre que perdeu a bênção; aqui; e Êxodo 12:30, no cumprimento. Nos três, um primogênito ou os primogênitos estão em causa. Se a coincidência é construída ou acidental, é discutido, e o texto não a aponta.

גְדֹלָה — gedolah, "grande".

Adjetivo feminino de gadol, a palavra mais comum do hebraico para tamanho, força e importância. Aplicada a som, significa volume. É o mesmo adjetivo que, três versículos antes, qualifica Moisés em Êxodo 11:3; ler nessa repetição uma intenção seria ir além do que se pode afirmar.

בְּכָל־אֶרֶץ מִצְרָיִם — be-khol erets Mitsrayim, "em toda a terra do Egito".

Fórmula fixa do livro, com kol ("todo, tudo") e a forma ligada de erets ("terra, país"). Aparece cerca de vinte vezes no Êxodo, sempre para dizer que alguma coisa não deixou canto de fora.

אֲשֶׁר כָּמֹהוּ — asher kamohu, "tal que como ele".

Asher é o relativo geral do hebraico. Kamohu é a preposição de comparação ke ("como") com sufixo de terceira pessoa masculina singular: "como ele".

E aqui está o nó da frase, apontado por Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII). O sufixo é masculino; os dois verbos que vêm a seguir são femininos. Não concordam.

Ele escreve que não se vê em toda a Escritura outra frase construída assim, e propõe que falte ali uma preposição, de modo que os verbos se liguem ao grito — feminino — e o "ele" se refira a outra coisa: a ruína, a destruição, a morte. A dificuldade continua aberta, e o português a apaga sem avisar, porque "como nunca houve" não tem gênero.

לֹא נִהְיָתָה — lo nihyatah, "não houve".

Verbo hayah no Nifal (a forma passiva ou reflexiva do verbo hebraico), perfeito, terceira pessoa feminina do singular — literalmente "não veio a ser".

Esta forma passiva de "ser" é rara: hayah é dos verbos mais frequentes da língua, mas quase sempre no Qal. No Nifal ele aparece pouco mais de vinte vezes em toda a Bíblia hebraica, e quase sempre para um acontecimento que veio a ocorrer — Deuteronômio 27:9, Juízes 19:30, Ezequiel 21:12, Daniel 8:27, Neemias 6:8. O sentido não é "existir", é "acontecer, dar-se". Não se diz que nunca existiu grito assim; diz-se que nunca se deu grito assim.

וְכָמֹהוּ לֹא תֹסִף — we-khamohu lo tosif, "e como ele não acrescentará".

Verbo yasaf, "acrescentar, tornar a fazer", no Hifil (a forma causativa do verbo hebraico), imperfeito, terceira pessoa feminina do singular.

Aqui está a diferença mais concreta em relação às outras fórmulas de sem-precedente do livro. Em Êxodo 10:14, sobre os gafanhotos, o hebraico diz lo yihyeh — "não haverá", com o verbo de ser. Aqui não é o verbo de ser: é o verbo de acrescentar, que é como o hebraico diz "de novo". Quem "acrescenta e fala" está falando outra vez. O que a frase nega não é a existência de outro grito igual: é a repetição deste.

E falta na frase o que estava nas outras quatro: não há "no Egito", não há "desde que foi fundada", não há "antes dele" e "depois dele". É essa ausência que o item 3 examina.

11. Conclusão

Duas conclusões se tiram do que foi exposto, e nenhuma delas resolve o versículo.

A primeira é sobre o que o Êxodo escolheu contar. Tendo acabado de nomear os mortos, o livro não os descreve nem os conta: descreve o som que a morte deles vai produzir, e é por aí que mede o tamanho da décima praga. A palavra que ele usa para esse som é a mesma que usou para o som dos escravos hebreus. O circuito que Êxodo 3:7 abriu fecha-se aqui no vocabulário e em nenhum outro lugar — nenhuma frase do livro explica a coincidência, aponta para ela ou tira dela uma lição. Quem ler ali uma correspondência entre os dois gritos está lendo, e deve dizer que é leitura.

A segunda é sobre o tipo de afirmação que a frase final faz. "Como nunca houve nem jamais haverá" pretende um superlativo absoluto sobre sofrimento humano sem oferecer unidade, critério ou ponto de comparação — ao contrário das quatro fórmulas parecidas que o livro já usara, todas com lugar e marco. Não é conclusão de medição: é declaração. Os leitores antigos sentiram isso, e cada um reagiu ao seu modo — Ibn Ezra tropeçou na gramática, Sforno foi procurar fora da quantidade o que tornava aquela noite única. Uma afirmação assim não pode ser confirmada nem desmentida, e continua em aberto enquanto houver futuro.

Resta o tempo do capítulo. Nada disso aconteceu. O rei ouviu a sentença e tem diante de si um capítulo inteiro — e é esse intervalo, não o desastre, o assunto de Êxodo 11.

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