Jesus, porém, disse: “Deixem as crianças e não as impeçam de vir a mim, pois o Reino dos céus pertence aos que são como elas.”
1. Introdução
A resposta desfaz a barreira e explica por quê.
São duas ordens seguidas — soltem, parem de impedir — e uma razão que não diz o que parece dizer. A frase final não afirma que o Reino é das crianças: afirma que é dos que são como elas, e a diferença entre as duas coisas sustentou séculos de discussão, inclusive sobre batismo. Quem está no lugar delas é a pergunta que o versículo deixa aberta.
2. Contexto Histórico e Cultural
A carreira deste versículo na história da igreja
Poucos versículos dos evangelhos foram tão disputados quanto este, e por um motivo específico: ele foi usado, desde cedo, para decidir se crianças podiam ser batizadas. Saber como essa discussão se armou ajuda a ler a frase com menos ruído.
A pergunta "o que impede?"
O verbo que a ABC traduz por "impedir" tem uma história curiosa dentro do Novo Testamento. Ele reaparece, sempre em forma de pergunta ou de recusa, nas cenas de batismo do livro de Atos.
Em Atos 8:36, o etíope pergunta a Filipe: "eis aqui água; o que me impede de ser batizado?" Em Atos 10:47, diante dos primeiros não judeus que recebem o Espírito, Pedro pergunta se alguém pode impedir a água para que não sejam batizados. Em Atos 11:17, ao relatar o episódio, Pedro diz que não poderia impedir a Deus.
A repetição chamou atenção de estudiosos do século XX, entre eles o suíço Oscar Cullmann, que propôs em 1948 a hipótese de que a igreja primitiva tivesse uma fórmula fixa para a admissão ao batismo, na qual se perguntava se havia algum impedimento — e que a presença do mesmo verbo neste versículo dos evangelhos seria eco dessa prática.
A hipótese é engenhosa e continua discutida. O que ela tem a favor é a insistência do verbo nas três cenas de Atos; o que tem contra é que o verbo é comum, serve para qualquer obstáculo e aparece em contextos sem relação nenhuma com batismo. Não é demonstrável, e convém tratá-la como o que é: uma proposta.
Tertuliano, e o primeiro a usar a frase contra o batismo de crianças
Tertuliano, escritor cristão de Cartago que produziu em latim por volta do ano 200, escreveu um tratado Sobre o batismo. No capítulo 18 ele recomenda adiar o rito, e trata expressamente do caso das crianças pequenas.
Os argumentos dele são práticos e duros. Por que expor os padrinhos ao risco de responder por uma promessa que a criança pode não cumprir? Por que apressar a remissão de faltas numa idade inocente? E então ele pega a frase deste versículo e a devolve ao contrário: que venham, sim — mas que venham enquanto crescem, enquanto aprendem, enquanto aprendem para onde vir.
A existência desse argumento prova duas coisas ao mesmo tempo. Primeira: já se batizavam crianças no fim do século II, porque ninguém argumenta contra o que não acontece. Segunda: o versículo já era citado no debate, e por quem defendia a espera.
Cipriano, e a resposta oposta
Cerca de cinquenta anos depois, também na África, um bispo chamado Fido escreveu a Cipriano, bispo de Cartago, com uma dúvida prática: seria preciso esperar o oitavo dia para batizar um recém-nascido, à semelhança do que a Lei mandava para a circuncisão?
Cipriano respondeu em nome de um concílio de sessenta e seis bispos. A decisão foi unânime, e contra Fido: nenhum deles concordou com a espera, e todos julgaram que a misericórdia e a graça de Deus não devem ser recusadas a ninguém que nasça de homem. O raciocínio usado foi o de que o batismo, circuncisão do espírito, não fica preso ao prazo da circuncisão da carne.
Em meio século, portanto, a mesma província da igreja produziu as duas posições, e ambas com bons argumentos.
O que essa história ensina sobre a leitura do versículo
Três observações, e elas valem para quem lê hoje de qualquer lado.
A primeira: não há batismo neste versículo. Não se batiza ninguém, não se menciona água, não se menciona rito. Tudo o que se discutiu a partir daqui foi extraído de uma frase que trata de outra coisa.
A segunda: a disputa é antiga e nenhum dos dois lados inventou a sua posição no século XVI. Tertuliano e Cipriano estão separados por cinquenta anos e pela mesma região.
A terceira: o argumento decisivo, nos dois casos, não veio do versículo. Veio de fora — da doutrina sobre a falta herdada, da analogia com a circuncisão, do papel dos padrinhos. O versículo entrou como reforço, não como fundamento.
3. Análise Teológica do Versículo
“Jesus, porém, disse”
A resposta é dirigida aos discípulos, e não a quem trazia as crianças. Quem estava errado, na cena, era quem barrava.
Mateus não registra emoção nenhuma. Não há indignação, não há tristeza, não há reprovação verbal do comportamento deles. Há duas ordens e uma razão.
“Deixem as crianças”
O verbo grego é o de soltar, largar, deixar em paz — o mesmo que Mateus usa para perdoar dívidas e para abandonar redes e barco. Não é "tragam-nas" nem "recebam-nas": é tirem a mão de cima.
A ordem, portanto, não manda os discípulos fazerem algo pelas crianças. Manda que parem de fazer o que estavam fazendo. O movimento em direção a Jesus já existia; o que o impedia é que era removido.
“e não as impeçam de vir a mim”
A forma verbal em grego é a da proibição de uma ação em curso: não é "não venham a impedir", é "parem de impedir". A ordem pressupõe que o impedimento estava acontecendo naquele instante.
E o verbo seguinte tem sujeito próprio: são as crianças que vêm. Elas não são entregues, carregadas nem apresentadas — o texto as põe como quem se move na direção dele. É detalhe pequeno e tem consequência: a frase trata as crianças como capazes de chegar.
“pois o Reino dos céus pertence aos que são como elas”
Chegamos ao ponto do versículo, e ele depende de duas palavras gregas que a tradução tem de desdobrar.
O texto não diz "destas". Diz "dos tais" — de gente desse tipo, dessa espécie. É uma palavra de classe, não de indivíduo. Se Jesus quisesse apontar as crianças que estavam ali, a língua tinha o demonstrativo exato para isso, e ele é usado no capítulo 18, quando se fala de "esta criança".
Daí as três leituras que dividem os comentaristas, e a escolha entre elas não é detalhe.
Primeira leitura: são as crianças mesmas. "Dos tais" seria apenas um modo de falar, e o que a frase afirma é que o Reino pertence às crianças — inclusive às que estão ali. O comentarista alemão Bengel argumenta por acréscimo: se o Reino é dos que se parecem com crianças, por maioria de razão é também das crianças de verdade.
O preço dessa leitura é que ela força a palavra. "Dos tais" designa quem se assemelha, e a assemelhação supõe alguém que se assemelha a outro alguém.
Segunda leitura: são os que se parecem com elas. A frase falaria de adultos que ocupam a posição das crianças, e as crianças reais serviriam de referência. É a leitura da maioria dos comentaristas, e Meyer a defende com firmeza: não se trata de crianças, e sim de pessoas com disposição de criança.
O preço dessa leitura é que ela esvazia a cena. Há crianças de verdade diante dele, trazidas com esforço, e a resposta que as libera falaria de outra gente. Além disso, o versículo 15 mostra que as crianças foram efetivamente tocadas e abençoadas, e não apenas usadas como exemplo.
Terceira leitura: a frase serve às duas coisas de propósito. A palavra escolhida cobre tanto as crianças presentes quanto qualquer pessoa na posição delas, e o texto não separa. É a leitura mais defensável, porque explica por que a palavra usada não foi nem "destas" nem "dos adultos que se parecem com elas".
Não é possível decidir com segurança entre a segunda e a terceira. O que se pode afirmar com segurança é o que a frase não diz: ela não afirma que o Reino é das crianças por serem crianças. Quem lê assim está substituindo uma palavra por outra.
Parecer-se com elas em quê?
O versículo não informa. Não enumera qualidade nenhuma, não menciona inocência, pureza, confiança ou simplicidade, e não diz que crianças sejam melhores do que adultos.
Mateus já tinha dado a resposta, em outro lugar e em outro contexto: tornar-se humilde, no sentido de descer ao lugar de quem não tem posição. A explicação está no estudo de Mateus 18:2-5, que é dono do assunto.
Aqui, a frase fica deliberadamente sem complemento. E isso tem um efeito que costuma passar batido: sem complemento, ela não estabelece requisito. Não há nada a cumprir, nenhuma virtude a exibir, nenhum teste a passar.
A fórmula que Mateus já tinha usado duas vezes
A construção do fim do versículo — "deles é o Reino dos céus" — é exatamente a de duas bem-aventuranças.
Em Mateus 5:3, o Reino é dos pobres em espírito. Em Mateus 5:10, é dos perseguidos por causa da justiça. Nos três casos, o Reino é atribuído a uma classe descrita, e não a indivíduos nomeados; e nos três casos a classe é definida por uma posição desvantajosa, e não por uma conquista.
Essa é a companhia em que a frase deste versículo se encaixa. Os que são como crianças entram numa lista em que já estavam os pobres e os perseguidos.
O que Mateus não repete aqui
Marcos e Lucas acrescentam, logo depois, uma frase que Mateus não traz: quem não receber o Reino como criança não entrará nele (Marcos 10:15; Lucas 18:17).
A ausência é explicável. Mateus já tinha dado o equivalente dessa frase no capítulo 18, e não a repete. O efeito, porém, é que no relato dele o versículo termina em afirmação, e não em advertência: diz de quem é o Reino, e não o que acontece a quem não entra.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Quem é corrigido
Os discípulos. A ordem está no plural e é dirigida a eles, que no versículo anterior haviam repreendido. Não há nome, não há líder identificado, não há resposta registrada da parte deles.
A correção é de conduta, não de doutrina: eles não tinham dito nada errado, tinham feito algo errado.
As crianças
Permanecem sem nome, sem número e sem idade, como no versículo anterior. Não falam, não pedem nada, não reagem. A única coisa que o versículo lhes atribui é o movimento: vir até ele.
Tertuliano
Quinto Sétimo Florente Tertuliano (cerca de 155 a 220) foi o primeiro grande escritor cristão de língua latina, ativo em Cartago, no norte da África. Formou boa parte do vocabulário teológico do Ocidente e foi também um polemista feroz.
O tratado dele sobre o batismo é o texto cristão mais antigo que se conservou inteiramente dedicado ao assunto, e é nele que este versículo aparece na discussão sobre o batismo de crianças — usado, como o item 2 mostra, para defender a espera.
Cipriano
Cipriano (cerca de 200 a 258) foi bispo de Cartago, na geração seguinte à de Tertuliano, e morreu decapitado numa perseguição. Presidia concílios regionais e respondia por escrito a consultas práticas de outros bispos.
Foi numa dessas respostas, dada em nome de um concílio de sessenta e seis bispos, que ele registrou a posição contrária à de Tertuliano quanto ao prazo do batismo de recém-nascidos.
Oscar Cullmann
Oscar Cullmann (1902-1999) foi um estudioso luterano de origem alsaciana, professor em Basileia e em Paris, conhecido por trabalhos sobre o tempo na teologia do Novo Testamento e sobre as origens do culto cristão.
É dele a hipótese, exposta no item 2, de que o verbo "impedir" neste versículo guarde o eco de uma fórmula usada no batismo primitivo. A proposta é discutida e não foi aceita por todos.
Onde e quando
Na região da Judeia, do outro lado do Jordão, no mesmo dia e na mesma cena do versículo anterior. Não há mudança de lugar entre os dois versículos, nem intervalo assinalado.
5. Pontos de Ensino
A ordem é para parar, não para agir
Os dois verbos mandam soltar e cessar. Nada é pedido aos discípulos a favor das crianças; pede-se apenas que saiam da frente.
A frase não diz que o Reino é das crianças
Diz que é dos que são como elas. A palavra grega é de classe e de semelhança, e substituí-la por "delas" muda o sentido da sentença — ainda que a leitura mais defensável mantenha as crianças presentes dentro do alcance da frase.
Em que consiste a semelhança, o versículo não diz
Não há qualidade enumerada. Quem lê aqui inocência ou pureza traz de fora o que o texto não traz, e a explicação que Mateus deu ao assunto está em outro capítulo.
O Reino é atribuído a uma posição, não a um mérito
A mesma construção aparece nas bem-aventuranças, aplicada aos pobres em espírito e aos perseguidos. Em nenhum dos três casos a classe é definida por algo que se conquistou.
As crianças vêm por si
O verbo tem sujeito próprio: são elas que vêm. O texto não as trata como carga a ser entregue, e sim como quem se move em direção a alguém.
Este versículo foi usado para decidir questões que ele não trata
A disputa sobre o batismo de crianças começou no século II e citou esta frase dos dois lados. Não há batismo aqui, e reconhecê-lo é condição para ler a frase pelo que ela diz.
6. Aspectos Filosóficos
Pertencer por semelhança
A frase atribui um bem a um grupo definido de modo incomum. Não diz quem tem direito ao Reino pelo que fez, pelo que sabe ou pelo que crê. Diz que ele é dos que são como certas pessoas.
Definir um grupo por semelhança a um caso concreto é diferente de defini-lo por uma propriedade. Uma propriedade pode ser verificada: quem tem tantos anos, quem cumpriu tal exigência. A semelhança não tem contorno nítido — ela admite graus, depende do aspecto em que se compara e nunca fica completa. Por isso um grupo assim definido não tem fronteira que se possa desenhar.
O efeito prático é notável. Ninguém consegue montar a lista dos que estão dentro, porque o critério não produz lista. E ninguém consegue excluir alguém com segurança, pela mesma razão.
O paradoxo de imitar uma condição
Há uma dificuldade mais funda, e ela aparece assim que se pergunta como alguém faria para se parecer com uma criança.
O que caracteriza a posição de uma criança naquele mundo não era uma virtude, e sim uma situação: não ter voz, não ter bens, não decidir nada. Ora, quem se põe nessa situação por decisão própria já exerceu exatamente o que a situação não permite — decidir. A imitação deliberada de uma condição desfaz, no ato de imitar, aquilo que se pretendia imitar.
A dificuldade é real e não tem saída elegante. Quem se rebaixa de propósito sabe que se rebaixou, e esse saber é uma posse que a criança não tem. É o problema clássico de todo esforço que se anula ao ser percebido: tentar ser espontâneo, tentar esquecer, tentar não pensar em alguma coisa.
O que o versículo faz com esse impasse é não enfrentá-lo. A frase não manda ninguém se parecer com criança nenhuma. Ela constata a quem pertence o Reino e manda tirar o obstáculo do caminho. A exigência de imitação vem do capítulo anterior; este versículo apenas descreve.
Um bem que não exige ser compreendido
Resta a questão que a cena inteira levanta: o Reino é atribuído a quem, por hipótese, não tem como saber o que lhe foi atribuído.
Isso contraria uma intuição forte, a de que os bens mais altos exigem um sujeito capaz de recebê-los conscientemente. De que serve uma honra a quem não sabe que a tem? A objeção é séria.
Ela supõe, porém, que todo bem seja da ordem do reconhecimento. Há bens que não são: o que forma alguém antes que ele saiba que está sendo formado, o que lhe é dado e só será percebido depois, ou nunca. Boa parte do que cada pessoa é veio por esse caminho.
O versículo não argumenta nada disso. Simplesmente atribui o Reino a uma classe que inclui quem não pode responder — e, ao fazê-lo, deixa em pé a pergunta sobre o que é receber sem saber.
7. Aplicações Práticas
Tirar o obstáculo antes de oferecer ajuda
A ordem do versículo não manda fazer nada pelas crianças. Manda parar de atrapalhar. Há situações em que a contribuição possível é exatamente essa, e reconhecê-las evita o engano de achar que só se colabora acrescentando.
Desconfiar da própria função de filtro
Quem foi corrigido aqui não agia por maldade, e é isso que torna o caso útil. Quem organiza acesso a alguém ou a alguma coisa aplica critérios que raramente examina, e o versículo mostra o tipo de pessoa que esses critérios costumam deixar de fora: a que não tem nada a oferecer em troca.
Não exigir das pessoas a condição que se acha que elas deveriam ter
A frase atribui o Reino a uma classe descrita por semelhança, e não por requisito cumprido. Quem quer que use esta passagem para cobrar de alguém uma disposição interior estará pedindo o que o texto não pede.
O limite
O versículo não ensina como se parecer com uma criança, não indica prática alguma e não descreve sinal de que alguém pertença à classe de que fala. Quem procurar aqui um método não vai encontrá-lo.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A frase diz que crianças vão para o céu?
A frase diz de quem é o Reino, e usa uma palavra de semelhança. O item 3 expõe as três leituras e o que cada uma custa. O que se pode afirmar é que o texto não se apresenta como resposta a essa pergunta, e que os argumentos usados nessa discussão, ao longo da história, vieram em grande parte de fora dele.
Por que Jesus corrige os discípulos e não explica o erro deles?
Ele não diz o que eles pensaram de errado nem por que erraram. Dá duas ordens e uma razão. A ausência de explicação é constante nesta cena, que também não informa por que eles repreenderam.
Se o Reino é dos que se parecem com crianças, as crianças que estavam ali ficam de fora?
Seria estranho, e o versículo seguinte mostra que não: elas recebem o gesto pedido. A leitura que mantém a frase aberta às duas coisas é a que melhor explica a palavra escolhida.
Por que Mateus não traz a frase sobre receber o Reino como criança?
Porque ele já a tinha dado, em forma própria, no capítulo 18. Mateus costuma não repetir o que já usou, e essa economia é característica do evangelho dele.
O versículo autoriza a batizar crianças?
Não há batismo no texto. Quem o usa nessa discussão — dos dois lados, desde o século II — o combina com argumentos que vêm de outros lugares. Reconhecer isso não decide a questão; apenas devolve ao versículo o tamanho que ele tem.
A frase vale para qualquer criança?
A palavra usada é de classe e não faz distinção de origem, de comportamento ou de família. Nada no texto restringe o alcance, e nada o amplia para além do que a palavra permite.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma frase em Marcos e em Lucas
Marcos 10:14 — Porém Jesus, vendo, indignou-se, e lhe disse: Deixai vir as crianças a mim, e não as impeçais; porque delas é o Reino de Deus.
Lucas 18:16 — Mas Jesus, chamando-lhes para si, disse: Deixai as crianças virem a mim, e não as impeçais; porque das tais é o Reino de Deus.
Marcos registra a indignação; os dois escrevem "Reino de Deus" onde Mateus escreve "Reino dos céus".
A frase que Mateus não repete aqui
Marcos 10:15 — Em verdade vos digo, que qualquer um que não receber o Reino de Deus como criança, em maneira nenhuma nele entrará.
Mateus 18:3 — e disse: “Eu asseguro a vocês: se não mudarem e não se tornarem como crianças, de jeito nenhum entrarão no Reino dos céus.
O conteúdo de Marcos 10:15 já tinha sido dado por Mateus, com outras palavras, um capítulo antes.
A mesma construção nas bem-aventuranças
Mateus 5:3 — Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus.
Mateus 5:10 — Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus.
Três vezes em Mateus o Reino é atribuído a uma classe descrita por uma posição.
O verbo "impedir" nas cenas de batismo
Atos 8:36 — E enquanto eles iam caminhando, chegaram a uma certa porção de água; e o eunuco disse: Eis aqui água; o que me impede de ser batizado?
Atos 10:47 — Por acaso pode alguém impedir a água, para que não sejam batizados estes, que também, assim como nós, receberam o Espírito Santo?
O mesmo verbo, sempre numa pergunta sobre quem pode entrar.
O que é escondido dos sábios
Mateus 11:25 — Naquele tempo Jesus disse: Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.
O contraste entre quem tem posição e quem não tem atravessa o evangelho, e não só nas cenas com crianças.
Crianças no templo
Mateus 21:16 — e lhe perguntaram: “Você ouve o que estas crianças estão dizendo?” “Ouço”, respondeu Jesus; “vocês nunca leram: ‘Da boca das crianças e dos recém-nascidos tiraste perfeito louvor’?”
A citação é do Salmo 8, e é a única vez em Mateus em que uma Escritura é invocada a favor de crianças.
Receber uma criança
Mateus 18:5 — E quem receber uma criança como esta em meu nome, recebe a mim.
Ali a criança é quem se recebe; aqui, quem se deixa vir. O verbo muda e o sentido do gesto muda com ele.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Jesus, porém, disse: “Deixem as crianças e não as impeçam de vir a mim, pois o Reino dos céus pertence aos que são como elas.”
Texto grego
ὁ δὲ Ἰησοῦς εἶπεν, Ἄφετε τὰ παιδία, καὶ μὴ κωλύετε αὐτὰ ἐλθεῖν πρός με· τῶν γὰρ τοιούτων ἐστὶν ἡ βασιλεία τῶν οὐρανῶν.
Transliteração
ho de Iēsous eipen, Aphete ta paidia, kai mē kōlyete auta elthein pros me; tōn gar toioutōn estin hē basileia tōn ouranōn.
Este versículo não tem variante: o Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) e as edições críticas modernas coincidem palavra por palavra.
Análise palavra por palavra
ὁ δὲ Ἰησοῦς εἶπεν — ho de Iēsous eipen, "mas Jesus disse". A partícula de marca a virada: o que vem contraria o que os discípulos fizeram no versículo anterior. O nome próprio, explícito, separa nitidamente a fala dele da ação deles.
Ἄφετε — Aphete, "deixem, soltem". Imperativo aoristo ativo de aphiēmi, verbo de larguíssimo alcance no grego do Novo Testamento.
O sentido básico é "mandar embora, soltar, largar". Dele saem três usos principais em Mateus. O de abandonar: em Mateus 4:20 os discípulos "deixam" as redes; em Mateus 4:22, o barco e o pai. O de perdoar: é o verbo do Pai-Nosso, "perdoa as nossas dívidas", em Mateus 6:12, e o do capítulo 18 inteiro sobre perdão. E o de permitir, deixar que aconteça, como aqui.
O aoristo dá à ordem caráter pontual: façam isto agora. Não é "costumem deixar", é "larguem".
τὰ παιδία — ta paidia, "as crianças". A mesma palavra do versículo anterior, agora com artigo: as crianças que estão ali.
καὶ μὴ κωλύετε — kai mē kōlyete, "e não impeçam". Imperativo presente com a negação mē.
A combinação é significativa. Em grego, a proibição no presente manda cessar uma ação já em curso; para proibir algo que ainda não começou, usa-se o aoristo. A escolha do presente confirma o que o versículo anterior contou: eles estavam impedindo naquele momento.
Kōlyō significa estorvar, barrar, negar. Aparece em Mateus também em 23:13, sobre os que fecham o Reino e não deixam entrar os que querem.
αὐτὰ ἐλθεῖν πρός με — auta elthein pros me, "que elas venham a mim". Auta é o pronome neutro plural, sujeito do infinitivo elthein, aoristo de erchomai, "vir".
A construção põe as crianças como sujeito do verbo de movimento: não "que sejam trazidas", e sim "que venham". Pros com o acusativo indica direção para junto de uma pessoa, e é a preposição do convite de Mateus 11:28, "venham a mim".
τῶν γὰρ τοιούτων — tōn gar toioutōn, "pois dos tais". Aqui está o ponto do versículo.
Toioutos é o correlativo de qualidade: "tal, de tal espécie, deste tipo". Ele responde à pergunta "que tipo de?", e não à pergunta "qual?". Para apontar um indivíduo determinado o grego usa houtos, "este" — palavra que Mateus emprega em 18:4, "como esta criança".
A diferença é justamente a que está em jogo. Toioutos designa a classe dos que se parecem com um modelo; o modelo pode ou não estar incluído nela, e a língua não decide. As leituras possíveis estão no item 3.
O genitivo tōn toioutōn é de posse e vem antes do verbo, com ênfase: é dos tais que é o Reino, e não de outros. A mesma construção enfática aparece em Mateus 5:3 e 5:10.
Gar, "pois", liga a razão à ordem: deixem, porque o Reino é deles.
ἐστὶν ἡ βασιλεία τῶν οὐρανῶν — estin hē basileia tōn ouranōn, "é o Reino dos céus". O verbo está no presente: o Reino é dos tais, não "será".
Basileia traduz-se por "reino", mas o grego cobre tanto o território quanto o exercício do poder real. A expressão "Reino dos céus" é marca de Mateus: onde Marcos e Lucas escrevem "Reino de Deus", ele escreve, em regra, "dos céus" — provavelmente por hábito judaico de evitar o nome divino, embora a explicação seja discutida e Mateus também use "Reino de Deus" algumas vezes.
11. Conclusão
Da resposta decorre, primeiro, que a correção incidiu sobre um gesto e não sobre uma ideia. Os discípulos não tinham enunciado doutrina alguma; tinham posto o braço na frente. As duas ordens que recebem mandam recolher o braço, e nada mais lhes é pedido.
Decorre, em segundo lugar, que a razão dada é mais estreita do que a leitura corrente supõe. A frase atribui o Reino a uma classe definida por semelhança, e a palavra escolhida não é a que apontaria as crianças presentes nem a que as excluiria. Quem resume o versículo dizendo que o Reino é das crianças está trocando a palavra do texto por outra; quem o resume dizendo que se trata apenas de adultos com disposição infantil esvazia uma cena em que há crianças reais que serão tocadas no versículo seguinte.
Decorre, enfim, que o versículo não fundamenta sozinho nenhuma das práticas que foram construídas sobre ele. Não há rito, não há água, não há requisito e não há descrição da semelhança de que fala. A história registra dois séculos de argumentos em torno de uma frase que, examinada sem eles, apenas manda soltar e diz a quem o Reino pertence.













